Quem quer ser um milionário?

Para ler enquanto toca “Free Money” da Patti Smith e depois emendar com “Money” do Pink Floyd

Cena do filme “Quem quer ser um milionário?”

Domingo era o dia de ouvir “É tele é tele é tele sena… eu vou… ganhar/na Tele Sena!” e ver a minha avó sonhar e comentar o programa do Silvio Santos inteirinho enquanto esperava para saber se era ou não dessa vez que ela ganharia um prêmio. Ou de pensar, de longe, que minha avó devia estar com a TV ligada na sua fantasia. Não me lembro se ela alguma vez ganhou alguma coisa, mínima que seja, na Tele Sena ou no jogo do bicho ou em qualquer outra loteria. Acho que eu não me ligava muito no resultado, já que ainda não entendia como a fortuna chegaria na carteira da minha avó. Eu me interessava mais pelo encantamento, pelos olhos brilhando de desejo, pela busca pela sorte. Na verdade, talvez eu era pequena demais até mesmo para entender essa ambição em ganhar dinheiro de maneira mágica, mas sei que com certeza já entendia a graça de receber presentes, mesmo as mais bobas lembrancinhas, sem esperar. A surpresa dá um gosto especial para qualquer coisa boa e eu via a Tele Sena como algo assim, ainda que hoje eu saiba que a compra do talão significava uma expectativa prévia que provavelmente nunca se concretizaria.

Tudo me parecia mais um jogo, por causa do jingle talvez. Não sei. Só sei que me lembro de pensar, a partir da ingenuidade infantil, que se fosse mesmo para ganhar dinheiro o melhor era tentar participar pessoalmente do programa para ver se pegava algum aviãozinho. Um aviãozinho de cem reais me parecia o suficiente para resolver todos os problemas da vida de uma pessoa.

O tempo passou. 25 anos após, eu sei que todo sábado, agora ligada em outra emissora, a minha avó acompanha o desejo de alguém de ganhar uma bolada. Se estou do lado dela, sei que vou ouvi-la contar sobre o porquê daquela pessoa precisar do dinheiro e então torceremos juntas para que as humilhações que o Luciano Huck ou qualquer outro apresentador preparou não sejam capazes de impedir o alcance do sonho daquele alguém.

Minha vó ama programas de auditório que possuem quadros em que os ricos apresentadores distribuem dinheiro para os pobres. Ela ama isso desde Topa Tudo por Dinheiro. Talvez ela amasse antes até. Essa é mais uma coisa que eu não sei e que não posso me esquecer de perguntar na próxima vez que a gente conversar. Quero que ela me conte todos os programas do tipo que ela acompanhou. Talvez tenha algo até da época da rádio. Quero ver a evolução do tipo. Quero ver como chegamos no Lata Velha e no Soletrando. Quero entender como eles brincam com o nosso desejo por redistribuição de renda usando prêmios como isca.

Até o momento só sei que o Luciano Huck meio que substituiu o Silvio Santos e que atualmente a minha avó deseja aquele dinheiro todo para os outros, inclusive para mim. Ela sempre insiste que eu deveria me inscrever no programa Quem quer ser um milionário?, porque segundo ela eu sou inteligente demais e seria uma das poucas a sair dos estúdios da Globo com o direito de receber a bolada máxima, aquela que é símbolo de tudo desde o Show do Milhão. Quando eu falo que não vou me inscrever, ela pede para eu convencer meu namorado de fazer isso. Ele também é inteligente, segundo ela, ele também sairia de lá milionário. Ela quer que a gente busque o direito a uma chance.

Minha vó sempre sonha comigo respondendo perguntas por grana. Isso porque nunca soube que na época do Show do Milhão eu jogava sem parar um jogo de computador que me treinou para viver esse momento. Até hoje vez ou outra ainda baixo o app para me testar. O problema é que o programa, no fim das contas, acabou me treinando para desejar acertar sempre. Ele não me ajudou a criar uma estratégia de pedir ajuda para os universitários na hora certa ou algo assim. Ele não me preparou para conseguir ganhar o prêmio máximo. Ele simplesmente me fez querer nunca errar e nunca correr o risco de errar, como se cada pergunta direcionada para mim sempre valesse um milhão de reais. Acho que aprendi a desejar algo mais impossível que um milhão de reais caindo no meu colo do nada.

A verdade é que eu jamais conseguiria participar de algo assim, ainda que não carregasse as minhas expectativas junto com as da minha avó. O Luciano Huck pergunta coisas demais e eu não gosto de ser inquerida sobre questões pessoais. Vai que eu respondo errado até nessa hora. Vai que eu mostro para o Brasil inteiro, inclusive para minha avó, que além de não saber responder questões sobre música sertaneja e pagar de inteligente, mas esquecer ou nunca ter sabido a capital de Azerbaijão, eu sequer sei como viver. Ou pior, eu sequer sei desejar um milhão de reais na minha conta da maneira correta.

Querer um milhão de reais caindo na sua conta do nada todo mundo quer, mas buscar a sorte em um programa de TV é outra história. É intimidador demais tentar, é expor a possibilidade do erro para todo mundo, é vender sua exposição e seu desejo para uma audiência por uma mera chance. Eu sei disso desde um episódio que vi do Show do Milhão em que um cara errou uma pergunta sobre a dupla ET & Rodolfo, dupla do momento, e virou chacota entre as crianças que eu conhecia. E agora sei disso ainda mais, sei tanto que nunca mais consegui ver The wall direito com minha avó. É sempre muita humilhação ou possibilidade de. É sempre nossa vida, nosso desejo, nosso sonho, a resolução de todos os nossos problemas, como um entretenimento que enriquece alguém muito mais do que vai nos locupletar. Eles ganham muita grana com a gente torcendo para que as bolas que fazem perder recursos caiam nas casas de menos de mil reais e assim o jogador perca menos, sendo que poderia não ter isso. Ele poderia não perder nada. Por que não manter só a possibilidade de ganhar?

Me perdoe, vó. Eu acho que prefiro deixar para tentar a Megasena na próxima vez que ela acumular e curtir agora sua companhia vendo uma partida de vôlei com você. É melhor sonhar com um milhão de reais ou mais sem a minha cara parar na TV. É melhor sintonizar numa partida esportiva com regras mais justas.


Esse texto foi feito a partir do dia 6 do #EscritaNaQuarentena, desafio de escrita criativa proposto pela Stefani Del Rio para a gente tentar se distrair um pouco durante esta pandemia. A proposta de hoje pedia um miniconto escrito a partir de uma música e eu, como rebelde que sou, fiz uma crônica a partir de duas músicas e algumas memórias. Saiba mais sobre o desafio aqui.


Publicado por

Thaís Campolina

O que falta em tamanho sobra em atrevimento. Isso foi dito sobre um galinho garnisé numa revista Globo Rural dos anos 80, mas também serve pra mim.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s