Perguntar é processo criativo, tentar responder também, conseguir eu já não sei se é

Acervo pessoal

Quem escreve vive se deparando com essa pergunta. Não necessariamente vinda do eu, no caso. Ela chega, na maioria das vezes, em tom de inquérito e na voz de um outro alguém, mas às vezes fica, e reverbera com esse eu bem destacado e acaba virando investigação pessoal, obsessão, tragédia, caso de família, sessão de terapia e até tema de livro.

O “por que você escreve?” sempre vem intimidador e pode permanecer assim até quando o pronome muda. Eu mesma nunca soube dar uma resposta definitiva ou mesmo satisfatória para essa indagação. Seja ela vinda do você ou do eu.

Sei lá. Acho que gosto justamente é dos muitos porquês possíveis e da expectativa de ficar transitando na vida e nos textos a partir do desejo no sentido mais amplo da palavra. Busco o movimento que a escrita evoca, não a rigidez das respostas.

Ainda que todo questionamento importe, nem tudo precisa de fins e certezas. Principalmente quando estamos falando em criação. Às vezes os meios importam mais.

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Vovó me construiu leitora quando me viu uma

Vovó adora contar histórias da minha infância. São causos variados, alguns envolvendo viagens ao litoral, outros, festas de família, mas a maioria mesmo é sobre nosso cotidiano: minha vó contando suas memórias e eu ouvindo, minha vó me olhando e eu falando sem parar, minha vó jogando baralho e eu aprendendo com ela todas as regras, minha vó assistindo à televisão e eu observando suas reações ao Sílvio Santos ou mesmo ao Thiago Lacerda, minha vó bordando e eu dizendo que só aceitaria tentar se fosse um risco da digimon Tailmon, minha vó fazendo biscuit ou flor de meia e eu logo ao lado colando um porta-retrato de EVA com um enfeite da digimon Tailmon feito por mim como exercício da aula de artes da escola, minha vó cantando e eu no meu quarto tentando me concentrar em alguma coisa, minha vó fazendo bolo e eu fugindo da cozinha para não ter que ajudar.

Entre tantos causos possíveis, ela escolheu como história preferida a de quando ela descobriu que eu já sabia ler. Eu tinha três anos, quase quatro, e parei frente ao portão do quintal da minha casa, olhei para o cadeado dependurado e soletrei Papaiz, depois juntei as sílabas e formei a palavra. Vovó falou “mas você já sabe ler, menina?” e eu, fingindo que aquilo não era importante pra mim, assenti. Ela sempre ri quando conta essa história, um riso que parece dizer que a surpresa dela foi sempre uma piada, como se fizesse questão de repassar essa memória simplesmente porque aquela cena foi o momento que ela me descobriu, viu o que me tornava Thaís. De certa forma, foi isso mesmo o que aconteceu. Ouvi tanto essa história que me tornei leitora. Ouvi tanto essa história que entendi que por mais que minha avó me cobrasse que eu aprendesse o que toda meninA deve saber, ela tinha certeza que isso nunca me bastaria. Ouvi tanto essa história que entendi que a curiosidade era a principal característica que nos unia, aquilo que deu a liga ao nosso gosto em comum em ouvir e descobrir histórias. A partir da narração dessa memória, minha vó teceu nossa filiação, nossa semelhança, nossa conexão às vezes desconectada. Vovó me construiu leitora quando me viu uma.

Nos meus ouvidos atentos por histórias, a leitora já existia. Na observação dos comportamentos ao redor, também. Na minha vontade de falar tudo que eu sentia, vivenciava, descobria e, principalmente, inventava, mais ainda. Vovó conta a descoberta dela como se esse momento fosse a história de origem de uma super-heroína da linguagem que ela acredita que eu sou.

A história sempre vem com algum comentário. Ela complementa dizendo que eu não parava quieta, queria tudo e pulava de galho em galho atrás da próxima palavra. Essa energia minha, na voz da minha vó, nunca teve tom de crítica direta. Vovó sempre me pareceu se encantar com o tanto que eu, teoricamente, era difícil, como se certos defeitos meus fizessem parte desse pacote maior que me tornava eu.

Vovó gostava de ler histórias de mistério. Hoje não mais. Cansou disso. Minha primeira vez com Agatha Christie foi com um livro bem velho dela numa época em que ela ainda gostava dessas coisas. Ela tem lido menos e preferido formas breves, mas contado e recontado mais histórias, descobrindo uma veia cronista cansada, mas firme. Grata também.

Não sei como minha vó me vê hoje. Sei que ela não parece se decepcionar com quem me tornei, mesmo eu não tendo uma carreira brilhante. Talvez isso seja vestígio do machismo de sua época, inclusive, mas isso não importa agora. Me conforta, na verdade. Me parece que para ela a minha característica leitora não me fazia prometer nada além de uma boa conversa. Só que isso me lembra que ela quer que eu tente participar do programa “Quem quer ser um milionário?” do Luciano Huck desde que era Show do Milhão do Silvio Santos. Ela jura que eu ganharia meu milhão assim. É, talvez haja alguma expectativa. Ela deve esperar que eu faça alguma coisa com tanta vontade de ler o mundo. Alguma coisa que renda dinheiro. Talvez prestígio também. Como todo mundo espera, inclusive eu. Ela quer uma cena nova que me defina, como foi a do cadeado Papaiz. Uma cena que mostre que as palavras dela criaram a super-heroína da linguagem que ela vê. Sei que ela espera algo mais grandioso, mais capitalista talvez, mas eu vejo essa cena acontecer toda vez que medio uma leitura, converso sobre um livro, falo sobre o que eu escrevo. Ou escrevo. Ou simplesmente leio. Ou paro para ouvir uma história que só ela pode contar e leio a mais recente folha de caderno que ela preencheu pra mim e me entregou se desculpando pelos possíveis erros ortográficos de quem só estudou até a 3ª série.

Vovó, eu estou aqui criando e recriando a cena que você adora contar mesmo que você não note e isso me conforta. Vovó, eu estou aqui usando as palavras pra contar nossas histórias. Vovó, eu ainda pulo de galho em galho atrás da próxima palavra, da próxima história, da próxima chance de conexão.

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Crônica da praça que se molda à imagem e semelhança dela mesma

Quero entender melhor os diferentes tamanhos que a pracinha que eu ia durante a infância pode assumir.

Parei de crescer faz tempo, mas ainda assim toda vez que piso aqui adulta, a lembrança do que a pracinha foi se transforma.

Ela se expande sob o meu olhar atento às diferenças, mas eu pareço cruzá-la em tão poucos passos. Ela está cada vez menor, mas seu limite ainda está em outro tempo. Ela parece mais vazia sem os bichos que eu costumava encontrar ali nas minhas expedições como wannabe biológa, mas também mais ocupada agora que tem até aparelho de ginástica. A árvore que levou pedaços dos meus dentes numa trombada com minha bicicleta ainda parece ameaçadora.

Penso em quantos passos o Billy precisa dar pra me acompanhar. São os mesmos de quando ele era jovem? E me pergunto quantas pisadas Faruck I precisava para cortar toda essa pouca extensão e nos tantos milhares de odores que Faruck II pode cheirar ali todas as vezes que o acompanhei.

Com a mi band presa ao meu pulso, sei exatamente quantos passos eu precisei dar para medir esse cenário e isso não é o suficiente para me convencer da diferença do que vejo, sinto, lembro.

Atravesso, calculo o raio, elevo-o ao quadrado, multiplico o resultado pelo pi. Encontro minha recuperação de matemática. Volto pra casa em 2003.

Tudo mudou.

E toda vez que mudo, uma nova perspectiva vira possibilidade. Com uma câmera nas mãos, posso ver a praça sob outro ângulo, o do pássaro que nunca fui. E, depois, quando voltar, lembrar diferente, como se em algum momento da minha história, eu tivesse sido dona desse céu de inverno.

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Donna Polla

O comício – Benedito José de Andrade

Quando comecei a fazer as primeiras lições de italiano no Duolingo, eu não conseguia parar de pensar na minha Tia P.*. Era inevitável. Se aprendia que rato era topo, esperava que na lição seguinte o Duolingo me apresentasse o famigerado pollo e todas as melhores maneiras de pedi-lo. Nessa brincadeira, minha cabeça virou um verdadeiro galinheiro de memórias plumadas da viagem que eu fiz com ela pra Itália.

A viagem foi em família. Com justificativa de saudade, mas motivação de turismo. Um desses passeios que acabam envolvendo vários núcleos parentais e até mesmo amigos de longa data. Tinha mais gente querendo ir do que gente podendo pagar e, no fim das contas, formou-se um grupo com dois casais, sendo um deles meus pais, um tio avulso, uma amiga da família também avulsa e eu, todos indo ao encontro do meu irmão.

Piadas sobre família Buscapé à parte, a viagem fluiu muito bem e encheu os olhos, o coração e a pança de todos os envolvidos. Ou melhor, quase todos. Não sei se a Tia P. diria que ficou tão satisfeita assim em um desses quesitos.

Foi nesses dias que descobri que minha Tia P. é uma pessoa obcecada por frango. Durante os preparativos do passeio, eu pensei que, ao menos em relação a ela, o único grande desafio de convivência seria o fato dela gostar demais de rezar, ser católica fervorosa, nos obrigar a ir ver o Santo Sudário e querer entrar em todas as igrejas e lojas, essas não necessariamente religiosas, que a gente encontrasse no caminho. Coisa que de fato ela meio que fez, com apoio da minha mãe e tudo, mas, já em Roma, primeira cidade visitada nessa jornada, a gente descobriu que se tem uma coisa que Tia P. gosta mais do que de Deus, essa coisa é frango. 

“Pizza de frango é coisa de brasileiro. Ainda mais se tiver catupiry envolvido”, meu irmão argumentava sem sucesso. Ela insistia. Ele cedia. O que significava que ele, o único falante de italiano, acabava tendo que tentar conversar com garçons e até cozinheiros sobre a possibilidade de fazer uma pizza ou qualquer outra coisa com frango pra ela. Tia P., para garantir que sua mensagem chegaria ao destinatário, sempre ia junto dele e ficava falando em português o que ela queria, atrapalhando aquele diálogo, que já não ia ser fácil. Vez ou outra, com um gestual aprendido como italiano na novela global Terra Nostra, dizia “pollo” com pronúncia espanhola, idioma que ela também não conhece. 

O pedido era sempre visto como absurdo. Mais até que catchup sendo colocado numa legítima pizza paulistana da Mooca. A maioria dos garçons entendia que ela queria que eles colocassem um peito ou coxa de frango em cima da pizza. E, eu juro, isso não era um problema no italiano do meu irmão que, apesar das dificuldades, cursava engenharia no idioma graças ao Ciências Sem Fronteiras. Era um problema de má vontade de todos os seres humanos do mundo com ela, a “Donna Polla”. Meu irmão, eu, os garçons, os cozinheiros, a guia, meus pais, meu padrinho, a amiga da minha mãe que é quase uma tia pra mim e, arrisco dizer, até o meu tio, marido de Tia P., todos ficavam contra ela assim que ela abria um cardápio. 

No dia que comi a melhor lasanha da minha vida, Tia P. enfim encontrou seu “pollo” em um restaurante e, sorridente como nunca, pediu. O restaurante trabalhava com um cardápio fixo para a semana: entrada, prato principal e sobremesa já definidos e numa leva só. Algo como um pacote promocional de groupon ou peixe urbano, mas sem a compra antecipada. Frango com aspargos era o prato principal, mas antes dele, na entrada, havia uma lasanha. A mais saborosa lasanha que já existiu. E que Tia P. perdeu. Ela, ao se deparar com aquele enorme prato de massa como suposta entrada, não quis nem tocar na comida. A família toda insistiu para ela experimentar, mas não adiantou. O que interessava era o frango com aspargos e não valia a pena encher a pança de lasanha pra depois custar a comer o que, segundo ela, era refeição de verdade. O pedaço de lasanha dela foi dividido em partes iguais com o restante da mesa que fingia não estar achando ótimo a chance de comer mais um pedaço daquela maravilha. 

Quando o prato principal chegou, encontramos no lugar de uma bela refeição pedaços de frango pálidos, oleosos, meio duros e sem qualquer cheiro de tempero. Mesmo assim ela não desanimou. Foi preciso que ela provasse uma, duas, três vezes, pra começar tentar acreditar naquilo e, depois, ainda provasse de novo para tirar a prova de que aquele “pollo” era a comida mais insossa já cozinhada no planeta Terra. 

Todos comemos aspargos e batatas, esses extremamente saborosos e temperados, enquanto ela insistia em provar os frangos que a maioria de nós não queria comer, achando que algum pedaço se salvaria milagrosamente daquele não sabor insuportável. No fim das contas e depois de muito insistir nos frangos horríveis, ela tomou a sábia decisão de usar os sachês de sal e azeite à disposição para melhorar aquilo que teria que ser a refeição dela naquele dia. 

Tia P., entretanto, não aprendeu a lição. Continuou o resto da viagem insistindo nisso, deixando todo mundo meio constrangido em muitos momentos, sem nunca desistir de seu sonho de provar um legítimo pollo brasileiro em solo italiano.

Voltamos para casa felizes, mas também secretamente putos, sem imaginar que Tia P. e seu insuportável desejo de comer frango em todas as refeições se tornaria uma das principais histórias desses quinze dias maravilhosos.

*nome suprimido por medo de processo.

Esse texto foi publicado originalmente na 11ª edição da minha newsletter “Sala de Espera”. Assine aqui para passar a receber meus escritos diretamente na sua caixa de entrada.

Copies, dreams and enemies

Markus Spiske

Noite passada sonhei com toda espécie de doppelgänger. Vivi a versão comédia, a dramalhão e a de terror, essa inspirada no “Nós” do Jordan Peele, numa mesma bagunça onírica. E também a versão Divertidamente, que merece uma frase a parte, porque eu preciso explicar para o leitor que cada cópia costumava agir somente como cada copiado sentia ou nojo ou felicidade ou raiva ou tristeza, como se fôssemos unidimensionais assim.

Nesse mix de referências e gêneros, algo que se destacou foi a facilidade de ignorar as versões doppelgänger tristes. Elas ficavam só na delas e até cuidavam dos nossos bichos e coisas quando éramos enxotados de casa pelo nosso doppelgänger raivoso. Nunca causavam grandes problemas. A gente nem precisava enfrentá-las direito, parecia que as cópias tristes tinham ido tomar tudo da gente sem nem querer muito fazer isso. Era só oferecer um cobertozinho e um chocolate quente que ela desistia de nos fazer qualquer mal direto.

Encontrei a minha cópia triste pela primeira vez dias dias depois de expulsar a Nojinho descascando uma banana. (Sim, eu enfrentei um dos meus maiores medos pra conseguir expulsá-la da minha casa e funcionou!). A Thaís Triste estava deitada no corredor que liga a cozinha e o quarto. Meu primeiro instinto foi acolhê-la, conversar com ela, quase cheguei a abraçá-la, mas eu sabia que não dava para fazer mais do que isso. Ela não podia ficar sem eu perder tudo. Ainda assim, dei um tempo pra ela, como eu queria dar pra mim todas as vezes que me sentia daquela forma. Podia expulsá-la depois, deixar a minha cópia triste por último, né? Até porque eu sabia que uma hora a minha raiva ia aparecer, se é que ela já não estava por aí à espreita, e tudo se complicaria. Foi assim que fingi que minha empatia pelo que ameaçava tudo que eu tinha, inclusive a vida, era somente estratégia.

A gente só conseguia ter certeza de que não era a pessoa que procurávamos, mas sim a cópia, quando as cópias riam. A risada causava uma distorção da imagem delas durante menos de um segundo e isso era mais que o suficiente. Descobri isso bem no início da invasão, quando pouquíssimos relatos eram feitos nas redes sociais e imediatamente desacreditados no Twitter. Fui visitar meus pais e encontrei só ele, sem minha mãe e minha avó. Elas tinha saído, disse. Acatei. Até porque no sonho não tinha pandemia pra me fazer duvidar. Dividimos a casa por umas horas, conversamos, tudo parecia normal, mas mudou quando eu estava assistindo a versão do meu pai brincar com a gata da família. Quando ele riu, eu soube. Não era ele. Bem que tinha notado que ele estava meio que feliz demais. Depois do meu escândalo, apareceu todas as outras cópias Divertidamente dele e eu, aflita, peguei Eva e Billy e fui em busca dos meus pais e avó com medo do que aquelas criaturas poderiam ter feito.

Como eu estava dizendo antes, a partir desse episódio —  que terminou bem, mas eu não lembro direito como —  percebi que a melhor forma de identificar uma cópia então era simplesmente ser engraçado e, talvez, gentil. Sabe aquele sorrisinho que a gente dá quando se sente cuidado e querido? Saber gerá-lo era importantíssimo, principalmente porque chegar contando piadas sem qualquer contexto causa estranheza, seja entre humanos, humanos e cópias ou entre as próprias cópias. Sim, as cópias também possuem regras sociais e de etiqueta ou de tanto fingir ter desenvolveram uma muito parecida com a nossa. Enfim, por essas e outras, duvido muito que os stand-up comedians tiveram sucesso nessa empreitada contra o mal personificado por nós mesmos, mas não posso afirmar o fracasso do grupo com certeza, porque o sonho não forneceu qualquer informação sobre isso e nem sei se eu deveria comentar esse tipo de coisa num diário de sonhos público. É meio descontextualizado, né? Acho que vou cortar essa parte na próxima edição desse material.

Nunca soube de onde as cópias vieram e, confesso, não ter conseguido descobrir o que elas queriam. Até mesmo sobre o caráter delas ainda tenho minhas dúvidas. Nenhuma cópia minha parecia propriamente má ou boa. O universo onírico não explica muito, se apresenta cheio de furos e vez ou outra ignora todas dicotomias que a gente aprendeu desde cedo.

Só sei que mesmo depois de acordar eu não sei dizer ainda o que foi mais difícil: bater em um doppelgänger que imitava alguém que eu amava com perfeição ou lutar contra meu próprio doppelgänger. Alteridade e identidade se misturaram tantas vezes que suspeito que isso só pode ter sido parte da magia das criaturas que nos copiavam, mas talvez essa confusão seja simplesmente o que nos define como humanos, uma espécie de força-fraqueza que é impossível existir sem ter. Vai saber, né?

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Quando começa o futuro?

“Como será dezembro de 2021?”, me pergunto ao receber a agenda que comprei para me acompanhar no próximo ano.

Mexo em suas páginas, tiro e coloco de volta a capinha protetora que veio, observo a óbvia falta de preenchimento e toda indefinição que ela significa e rio pensando no altíssimo grau de autoilusão necessário para se planejar qualquer coisa.

Paro o olhar nas ilustrações da Luli Penna, permaneço ali, encontro um livro, um bicho, um objeto do cotidiano e sigo folheando para ver o que mais vou descobrir na agenda, como se buscasse também saber o que o futuro me reserva.

Me deparo com mais alguns poemas da Ledusha, leio todos, sinto o cheiro de novo, penso no futuro mais uma vez e me lembro, com um aperto no peito, que sou ansiosa e brasileira e não posso ficar muito tempo pensando nessas coisas.

Talvez seja a hora de parar de pensar nesse amanhã abstrato e preencher meu nome, escrever compromissos, anotar os prazos dos boletos e respirar fundo lembrando que 2020 ainda não acabou.


O planner citado no texto é da Todavia.
Você pode comprá-lo diretamente no site da editora ou na Amazon.

As Copas e as chagas de uma realidade fantástica

Nuevo Gasómetro – Foto de divulgação

Gabriel García Márquez é considerado o pai do realismo fantástico, apesar de ter dito uma vez que sua obra representava só realismo. “A realidade que é mágica. Não invento nada. Não há uma linha nos meus livros que não seja realidade. Não tenho imaginação” disse o autor em algum contexto que não fui capaz de descobrir qual, apesar — e talvez justamente por — essa frase se repetir incansavelmente em matérias e mais matérias sobre ele, especialmente aquelas que anunciaram a sua morte em 2014.

Me volto para essa afirmação de Gabo vez ou outra nos contextos mais diferentes. Lendo “Água Funda”, único romance de Ruth Guimarães, para o meu clube de leituras, me peguei pensando nela. Nessa obra, um narrador nos conta causos e mais causos sobre uma localidade. Com um texto muito oral, próximo da linguagem caipira, Ruth apresenta para o leitor um lugar, um tempo e suas pessoas, mostrando trajetórias e o quanto o olhar dos personagens é permeado pela natureza, as relações, o mundo e seus mistérios. A cada causo, muito pela linguagem, mas não só, me vinha na mente as histórias que minha avó materna me conta sobre a mãe, suas próprias jornadas por Minas Gerais e o que, segundo ela, o povo antigo pensava sobre uma variedade de coisas. Enquanto lia, percebia palavras que fazem parte do vocabulário da minha avó, especialmente quando ela conta histórias do passado, que em muita coisa é próxima ao que escreve Ruth. A opressão, o trabalho, a natureza, as festas, o truco, tudo isso e mais o que não tem muita explicação. Sendo atravessada pela obra, também lembrei do meu avô paterno e as histórias de terror que ouvi dele. Histórias essas muito próximas das contadas no livro, todas narradas em primeira pessoa, partindo dele ou recontando o que ele ouviu que aconteceu com um amigo ou um amigo de um amigo dele. O mistério da vida todo ali, limitado apenas pelo alcance das palavras, mas exposto com toda aquela atmosfera nomeada como mágica, apesar de Gabriel e muita gente não considerar bem assim.

Gabriel García Marquéz diz ter escrito a partir das histórias e memórias que cresceu ouvindo em Aracataca, cidade colombiana onde nasceu. Ruth Guimarães foi uma pesquisadora da cultura popular com o olhar e os ouvidos atentos para recolher, registrar e estudar essas histórias que circundam as pessoas a partir do famoso causo, essa prosa cotidiana marcada pela troca, pela memória e pela fofoca. Ambos, ao escreverem, contaram com essa magia tão presente nesses relatos durante o processo de efabulação de suas histórias.

No discurso do Nobel em 1982, o autor colombiano disse ao falar da solidão da América Latina: “No entanto, diante da opressão, do saque e do abandono nossa resposta é a vida. Nem os dilúvios nem as pestes, nem a fome nem os cataclismos, nem sequer as guerras eternas através dos séculos e dos séculos conseguiram reduzir a vantagem tenaz da vida sobre a morte”. Relendo a frase hoje, fazendo a pesquisa para esse texto, entendi que parte dessa magia mora na capacidade de criar e se recriar, apesar de tudo. Essa figura latino-americana que Gabriel ajudou a construir, junto a outros escritores que escreveram muitas vezes somente de seus próprios países ou regiões, é a de um sobrevivente que se alimenta, principalmente, da vontade de continuar. E, numa região como a nossa, isso significa quase que ter fé. Essa fé que é uma miscelânea de símbolos, origens e personagens. Enquanto humanos, criamos, contamos, formulamos tudo que move a vida a partir disso, especialmente aqui, e a maneira de se fazer isso é além da racionalidade típica, cartesiana. É preciso ter esperança, paixão, vontade, amor para continuar e nossas vidas e nossas criações são demarcadas por isso de alguma forma. E talvez seja isso o que explica parte do apreço do Brasil, da Colômbia, da Argentina, do Chile, do México e de outros países próximos pelo futebol.

Quando eu penso no futebol nesse contexto, me vem em mente a notícia do torcedor do Racing que comemorou o título de seu time do coração carregando o crânio de seu avô e, ao ser entrevistado, disse que aquela ossada que carregava era seu amuleto de sorte e que seu querido parente estava orgulhoso daquela vitória. Evoco também a Libertadores, com todas as suas incoerências e emoções, e a alta frequência de cães que invadem campos de futebol bem durante esse campeonato.  E, inevitavelmente, lembro do “Eu acredito” do Atlético Mineiro, esse time que me conquistou e me é tão próximo, apesar de eu não ser exatamente uma torcedora dele ou de qualquer outro.

O futebol, para muitos, é uma fuga da realidade, mas uma fuga marcada pela capacidade de se ter esperança na virada. A escolha do time do coração não é racional, ela vem de um outro lugar. A paixão não é, necessariamente, pela equipe que une mais talentos, probabilidades de vitórias e títulos conquistados, ela parte do afeto, do inexplicável, daquela coisa que bate ou não. Um jogador muito carismático pode mudar tudo, pode fazer o filho de uma família de cruzeirenses escolher o galo como seu amor futebolístico a partir simplesmente de uma identificação misturada com o desejo de ser.

Como tudo que vem da paixão, o futebol é marcado por uma boa dose de coisas inexplicáveis, mistérios e histórias quase mágicas. Transformamos jogos reais em momentos praticamente mitológicos e seres humanos falhos, complexos, que às vezes carregam em si defeitos e mais defeitos de toda uma cultura de reforço de uma certa masculinidade, em verdadeiros ídolos. Digo masculinidade porque é justamente por causa dela e seu machismo consequente que o futebol feminino, apesar de incrível e mexer com nosso âmago desse mesmo jeitinho, ainda é ignorado pela maioria que torce, vibra e se apaixonada por equipes, jogadores e sonhos.

Pensar na origem do amor por uma equipe, me fez recordar da informação que diz que, cientificamente, a gente gosta tanto do azarão, de torcer pelo mais fraco, porque somos motivados por uma tal de economia emocional. Torcemos assim buscando maximizar o prazer a partir do improvável, porque a perda ali, por ser esperada pela probabilidade, nos faz pensar que a vitória é um lucro maior. Entendo o argumento, faz bastante sentido, mas a seleção brasileira, por seu penta histórico, não carrega essa pecha de fraca e duvidosa, mas ainda assim segue tendo muita torcida. Por que? Porque o Brasil vencendo, mesmo para outros países, significa também dignidade, direito de sonhar, uma vitória contra aqueles que ganham em tudo, todos esses sentimentos que ajudam a fazer do futebol esse esporte que mexe com tantos, especialmente os latino-americanos. Nossas escolhas e emoções esportivas são marcadas por aspectos sociais, políticos e, claro, emocionais. Buscamos vinganças coloniais torcendo numa Copa do Mundo organizada por uma entidade bem controversa e nos sentimos exaustos vendo os Estados Unidos no primeiro lugar do quadro de medalhas das Olimpíadas a cada 4 anos.

Escrevi tudo isso para chegar no que me deu a primeira fagulha desse texto: a morte de Diego Armando Maradona. Toda aquela comoção, dor, ilusão de proximidade e relatos emocionados me fizeram pensar nessa paixão que o esporte é capaz de fazer surgir e como as pessoas encontram em Maradonas uma esperança que representa a pulsão de vida perante a morte, a miséria, o horror, junto também ao desejo em sair por cima, porque somos humanos, afinal.

Os dois gols do Maradona contra a seleção da Inglaterra em 1986 representam isso muito bem: o gol roubado — a famigerada mão de deus — a Argentina saindo por cima da Inglaterra em algo, apesar de tudo, e o gol mais belo de todas as Copas, o gol que vem do imo, do desejo, da vontade de ser foda, do talento e da beleza que não podem ser roubados, apesar de seguirem tentando a todo custo.

Quando parei para pensar no futebol e fui parar no realismo, mágico ou não, eu cheguei a conclusão que a gente chama de magia e mistério o que envolve todas essas coisas que vem de dentro. Não sabemos como surge o amor, a paixão, o medo, o ranço, a raiva, o rancor, mas a gente conhece muito bem tudo isso. Criamos e consumimos histórias, inclusive as narrativas e vivências esportistas e os causos do cotidiano, para lidarmos com essa infinidade de coisas que não sabemos explicar muito bem, mas é um dos principais componentes humanos.

No dia 17 de maio de 2017, eu estava em Buenos Aires e, sem muito planejamento, fui parar no estádio Nuevo Gasómetro para assistir San Lorenzo versus Flamengo. O time argentino tinha perdido os dois primeiros jogos da fase de grupos da Libertadores, mas conseguiu se classificar para a fase seguinte a partir de uma vitória de virada com gol no último minuto. Desse dia, eu me lembro do frio, por causa do estádio todo aberto e a localização bem abaixo do trópico de capricórnio, e da festa. Fui contagiada pela emoção que tomou conta da atmosfera do lugar. Eu sorria, porque sorriam, cantavam, festejavam ao meu lado, e, no meio daquele caos de sansações, ouvi uivos humanos que terminavam cantando a frase “como sufri”, porque amor, esperança e a improbabilidade tinham vencido.

Nesse dia, apesar de contagiada, eu compreendi que jamais entenderia por completo o jogo que aqueles torcedores que vibravam ao meu lado vivenciaram. Ali percebi a grandiosidade de toda essa gama de sentimentos que envolve o torcer e o ser, mas que para mim ainda parecem mais com um feitiço poderoso ou uma ficção que une cotidiano e fantástico. Agora sei que essa magia me atinge de outras formas, diferentes e semelhantes ao que o futebol é capaz de despertar. Para mim vem, inclusive, por meio da literatura, da linguagem, das pessoas e da natureza. De todo jeito, estamos todos falando de amor, paixão, esperança e desconhecido e nos conectando a partir disso.

Estação Blogagem foi criada pela Aline Valek e pela Gabi Barbosa para movimentar a blogosfera e engajar leitores e escritores em torno dos blogs, escrita e leitura. O tema proposto para esse mês de escrita e leitura foi tarô e, durante esse período, eu postei textos escritos a partir desse estímulo. Para essa última semana, elas escolheram o naipe de copas, que é diretamente relacionado ao amor, às emoções e à água e sua imprecisão.

Acordei pronta para fazer um sete de ouros acontecer

Acervo pessoal

No dia 21 de novembro de 2020, lancei meu site de autora junto ao meu apoia.se. Apesar de simples, ambos foram fruto de um esforço cuidadoso em assumir que a escrita, a leitura e a arte no geral me interessam como ferramentas de trabalho e que toda a minha produção tem valor. Enquanto pensava em cada detalhe do site e apanhava do WordPress vez ou outra ao tentar fazer as ideias se materializarem, eu colocava a minha vontade de me assumir como esse alguém criador para enfrentar a certeza de que eu nunca serei boa o suficiente para isso.

Ao lançar meu site no mundo às 11 horas da manhã nesse sábado, mesmo sabendo que ele estava incompleto e falho, eu revelei ao mundo mais uma faceta do que faço, penso e espero de mim. Eu sempre achei que precisava estar pronta, prontíssima mesmo, para me apresentar como escritora ou qualquer outra coisa do tipo. A espera por esse momento nunca me fez bem. Com tanta expectativa envolvida, eu sequer tinha coragem de começar. Foi preciso muito esforço para compreender que tudo que envolve trabalho é diretamente relacionado com uma infinidade de processos que começam em mim, mas também refletem o mundo onde vivo. Os meus, inclusive, envolveram admitir o que realmente quero fazer da vida, ainda que o mundo desvalorize esse meu fazer e me cobre um estilo de vida a partir de um ideal capitalista e homogenizador.

Eu não sou boa em fazer dinheiro e, sinceramente, também acho que não sou boa em me apresentar profissionalmente para qualquer coisa, especialmente quando o que me interessa é justamente o que dificilmente é visto como trabalho. Apesar de ser uma fazedora, uma pessoa que bota a mão na massa e pensa, cria e realiza projetos, eu sigo tendo muita dificuldade de me ver assim. Esse site, esse apoia.se, o retorno da minha newsletter, a finalização do meu manuscrito de poesia ainda sem editora e o desenvolvimento do meu original de contos, tudo isso para mim ainda é um exercício de convencimento. Tenho tentado, tenho tentado muito, porque viver no mundo das ideias já não me é mais suficiente.

Estou aqui, fazendo, ainda que com medo, enquanto penso que cresci vendo o Coragem, o cão covarde, ou o próprio Scooby Doo agirem, mesmo assustados, seguindo uma lógica de sem querer querendo, que é o que eu fazia até então. Quando decido executar tudo isso, me planejo minimamente e me apresento, escolho a possibilidade de tentar construir um mundo que me caiba e isso é uma recusa da culpa por não ser quem esperavam que eu fosse. Chega de sem querer querendo. É hora de construir a minha casa e, ainda que alguns estejam meio capengas, eu já providenciei os principais móveis.

Estação Blogagem foi criada pela Aline Valek e pela Gabi Barbosa para movimentar a blogosfera e engajar leitores e escritores em torno dos blogs, escrita e leitura. O tema proposto para o primeiro mês foi tarô e, durante esse período, eu postarei textos escritos a partir desse estímulo. Para essa terceira semana, elas escolheram o naipe de ouros, que é diretamente relacionado à materialidade, trabalho e produtividade.

O sete de ouros é uma das cartas mais importantes do Truco, mas ela não é uma garantia de vitória. Você precisa saber quando usá-la, aliá-la a outras cartas e jogadas. Só assim você conquistará o seu tento e talvez a vitória. Por isso, a evoco nesse título para falar sobre dúvidas, colheita e coragem de tentar.

Você pode ler os meus outros textos participantes da blogagem aqui.

Minhas espadas se voltarão contra mim até que eu entenda

Stillness InMotion

Eu não sei se entendi bem o que evoca o naipe de espadas. A minha estratégia para lidar com isso então vai ser escrever sobre esse incômodo com o não saber, a trava que surge em mim toda vez que eu sei que eu não sei e tenho poucas ferramentas ou interesse ou tempo para resolver isso. A trava ganha força também a partir do meu desejo de ser muito boa em tudo que eu faço e ameaça nunca mais abrir quando a ansiedade em aprender logo, matar a curiosidade e entender mais aparece.

Ainda assim, a atração pelo desconhecido é o que mexe comigo. É uma delícia sentir o frio na barriga que o flerte com o não saber causa, ser seduzida pela curiosidade, viver a busca por algo novo mesmo sabendo que qualquer conhecimento será sempre incompleto. Vivo sempre um paradoxo: sou seduzida pela promessa do mistério, do inacabado, de uma investigação sempre pendente, mas me perco na urgência do entendimento e na possibilidade de ir sempre além.

Quando pego um texto em inglês para ler, por exemplo, ainda que eu conheça o idioma o suficiente para continuar com a leitura, eu simplesmente não consigo prosseguir por muito tempo. A cada frase, percebo que não compreendo o suficiente mesmo quando conheço todas as palavras. Não importa se o entendimento vem do contexto ou do verbete de fato, sempre sinto que algo muito grande me escapa. Na comunicação, qualquer que seja, algo sempre escapole, mas, quando envolve um outro idioma que não é o seu, a sensação é de perseguir palavras-fantasmas, sombras de uma cultura-país-falante, e, por isso, eu fujo, ainda que queira muito ficar. No fim das contas, eu só aceito perder o sentido em português.

Ninguém sabe tudo. A gente está cansado de saber disso, mas o que a gente não sabe, mas quer muito um dia saber, também diz alguma coisa. Todas essas lacunas, junto com a nossa bagagem e capacidade de conectar o que está sendo aprendido com o que veio antes e vai vir depois, também. A gente não é só o que a gente já absorveu, conheceu, estudou, acha que entendeu, a gente é também tudo aquilo que a gente procura e também o que a gente teve coragem de imaginar ou mesmo abandonar, independente se ficou ou não o desejo de voltar nessa fantasia específica e não concretizada de completude.

Somos um emaranhado de pequenos saberes que nos ensinam a fazer mais e mais perguntas. E a gente adora se perder em todas as possibilidades que elas apresentam. Sei que busco muitas certezas ainda, que me perco nesse desejo, antecipo, travo e declaro guerras e mais guerras contra eu mesma, mas escrevendo tenho percebido que o que mexe com a gente, dá o clique, nos movimenta é sempre a imaginação. E a imaginação, querendo ou não, sempre está envolvida com as forças ocultas do não saber.

Estação Blogagem foi criada pela Aline Valek e pela Gabi Barbosa para movimentar a blogosfera e engajar leitores e escritores em torno dos blogs, escrita e leitura. O tema proposto para esse mês de escrita e leitura foi tarô e, durante esse período, eu postarei textos escritos a partir desse estímulo. Para essa segunda semana, elas escolheram o naipe de espadas, que é diretamente relacionado à racionalidade, lógica e pensamentos, mas também envolve os conflitos internos que podem surgir a partir desse plano mental.

Você pode ler o meu texto da primeira semana aqui.

Jogatina ancestral

Acervo Pessoal

Minha vó carrega seus baralhos para todo lugar que vai. Sim, baralhos. No plural mesmo. Me cansei de vê-la tirando-os da bolsa para colocá-los em cima da mesa, lado a lado com a bolsinha de tentos, para sinalizar que chegou a hora de jogar. Festa de aniversário, Sexta-feira Santa, Quarta-feira de Cinzas, batizado, Natal, Páscoa, nenhuma data é sagrada demais para que não se possa jogar, provavelmente porque, implicitamente, sabemos que há algo de sacro no ritual desses jogos que passam de geração a geração. Assim aprendi a construir relações em torno dessa mesa, que ora é abundante em comida, ora se enche de cartas, sempre com muita conversa, e sei que isso é bem anterior a mim.

Minha bisavó também jogava. Talvez a mãe dela também. Não sei. As informações se perdem com o passar do tempo. Sei que ela jogava poker, apostava entre homens, ia na casa deles jogar, mesmo em um tempo em que a possibilidade de se fazer isso era limitada para mulheres. Sei também que minha avó, ainda bem novinha, aprendeu todo tipo de jogo com ela e que minha bisa era professora e ensinava crianças a ler na mesma mesa que servia vez ou outra como um palanque para ela. Você pode ler essas últimas frases e não entender o porquê delas estarem aqui, nesse texto sobre jogos de baralho, mas pra mim faz sentido. Jogos de baralho, no geral, são considerados uma diversão masculina, especialmente o truco, preferido da minha vó, e o poker, melhor jogo segundo minha bisa que nunca conheci. Minha família, ainda que reforce muitos estereótipos de gênero, sempre permitiu e incentivou que mulheres tivessem seus momentos de diversão e socialização e tem como tradição repassar essa sabedoria e toda a energia que ela evoca.

Minha vó começou a me ensinar o truco quando eu tinha seis anos. Antes disso eu já dominava burro, fedô, rouba monte e todos esses jogos que fazem muito sucesso com crianças. Só que o truco é diferente, é um aprendizado contínuo, cheio de lições. Não basta saber reconhecer um zap, um 7 de copas, uma espadilha e um 7 de ouros quando ele aparecer em sua mão, é preciso saber farejar cada uma dessas cartas, tanto no adversário, quanto no parceiro. Até hoje, quando sou dupla da minha avó, aprendo alguma tática nova, mas desde 1995 sei que é preciso fazer a primeira, chegar com o pé na porta, mostrar para o que veio.

Não fazer a primeira é um risco. Um risco de continuidade que não vale a pena correr. Essa lição minha avó aprendeu com sua mãe e ela segue reverberando em mim. A partir dela, escrevo hoje esse texto para a #EstaçãoBlogagem. Paus inicia tudo e eu não posso deixar de fazer a primeira, mesmo que meu site ainda não esteja pronto. Escrevo agora, posto no prazo da primeira rodada onde der e me dou uma chance de continuar fortalecendo meu impulso criador. É do início que se começa qualquer viagem, minha vó nascida sob o signo de Áries diz para mim, neta que tem o carneiro como ascendente, mas não acredita nessas coisas, apesar de não conseguir ignorar toda essa simbologia. Como ignorar a possibilidade mágica dos meus rituais familiares quando o zap é um quatro de paus, que no tarô e no truco costumam simbolizar a celebração de uma conquista?


Estação Blogagem foi criada pela Aline Valek e pela Gabi Barbosa para movimentar a blogosfera e engajar leitores e escritores em torno dos blogs, escrita e leitura. O tema proposto para esse mês de escrita e leitura foi tarô e, durante esse período, eu postarei textos escritos a partir desse estímulo. Para iniciar os trabalhos, elas escolheram como tema o naipe de paus, que é diretamente relacionado à energia do fogo, logo impulsionador, dinâmico e que fala com a nossa criatividade.