Espinheira-santa: luz e sombra na infância e além

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Em algum momento do fim da adolescência e ainda em Divinópolis-MG, Igor Damasceno e eu nos conhecemos. Há quase quinze anos, a partir dos blogs literários que mantínhamos em um misto de dedicação inesperada e displicência forçada, começamos a conversar. Igor foi o primeiro grande amigo que a literatura me trouxe. Se hoje troco com tantos leitores e escritores, foi porque em algum momento a gente se encontrou e eu entendi o poder de conexão que a arte tem. E agora, em pleno 2021, estamos realizando o sonho que nos uniu: eu na espera do lançamento do meu livro de poemas eu investigo qualquer coisa sem registro, que sairá ainda esse ano pela Crivo Editorial, e Igor com seu livro recém chegado no mundo, vendo amigos e conhecidos espalhados pelo Brasil recebendo seus exemplares pelos Correios.

Com Espinheira-santa, que acabou de sair pela Caravana Grupo Editorial, meu amigo estreia e eu queria convidar vocês para lerem essa novela. Esse não é um convite que faço (só) como wannabe influencer literária, ele vem de um outro lugar, vem da sensação de que esse é um livro que me pega pela memória em todos os sentidos: evoca conversas, sonhos e leituras que dividi com o autor e também com o mundo, esse mundo que, mesmo sendo o da minha época, me parece mais próximo agora que eu o conheço pela turma de Reinaldo e Adelina. Esse mundo que, querendo ou não, também me formou.

Essa é uma obra infanto-juvenil que tem como protagonista uma turminha de crianças que quer se dar bem a qualquer custo. Tudo se passa numa cidade do interior de Minas Gerais nos anos 90 e, durante a leitura, a gente se depara com referências da época, muita diversão e também as regras sociais que vigoravam enquanto os tais millenials cresciam.

Na newsletter que enviei para meus apoiadores, eu disse “Se Ted Lasso é sobre acreditar, Espinheira-santa é sobre desconfiar”. Explico: a vida, especialmente essa que vivemos em pleno capitalismo tardio, vai nos ensinando a desconfiar de tudo, nos deixando cínicos e desencantados. Vivemos sem acreditar que um outro futuro é possível. Por isso, eu preciso do Ted Lasso. Ele, como personagem e programa de TV, me lembra de respirar, acreditar e sorrir. Fui 100% Ted Lassada não pela promessa de gargalhadas, mas pelo encantamento que essa série foi capaz de gerar em mim mesmo nesse aqui e agora. Só que eu nasci, cresci e vivo no Brasil e reaprender a acreditar é um exercício tão complexo justamente porque preciso continuar desconfiando. Então chega o Espinheira-santa que nos lembra que as crianças vivem nesse mesmo mundo que a gente conhece, elas não estão isoladas de nós, e, por essas e outras, são pessoas com suas complexidades e, principalmente, interesses. Desconfiar e acreditar coexistem dentro de nós: o mundo nos ensina a desconfiar, como nos ensina a querer ser os melhores e também levar vantagem em tudo, então a gente vai e, sem jeito e hipocritamente, começa a depositar todas as esperanças nos pequenos, enquanto continuamos os mesmos ou quase isso. Mas esperança é algo a ser cultivado em conjunto, como numa horta comunitária. Mudar o mundo não pode ser algo guardado para gerações futuras, porque acreditar e desconfiar são ensinamentos e consequências da vida em todas as idades. Se o mundo é dos espertos hoje, a geração que cresce agora tem aprendido isso desde que respirou fora da placenta pela primeira vez.

Em um momento em que a defesa dos direitos das crianças se tornou tema manipulado para servir à censura, ao autoritarismo, essa novela de Igor Damasceno representa um respiro, porque ousa sair desse lugar que insistem em reduzir a humanidade das crianças colocando-as como anjinhos puros e contar uma boa história que, expõe quem fomos, somos e podemos ser nesse mundo que nos é oferecido. Com uma narrativa que expõe uma multiplicidade de crenças brasileiras e sutis exemplos de intolerância religiosa, o livro mostra um mundo de plantas, filmes, conhecimentos gerais e sociais que cercam esses personagens cativantes que ainda vêem meninas de uma maneira meio torta, tem medo de serem zombados e provavelmente surtariam com qualquer insinuação sobre sexualidade de qualquer um deles. Espinheira-santa brinca com o imoral e justamente por isso importa, porque o certo e o errado não são tão óbvios quanto parecem. Fugindo dessa idealização típica da infância e do passado, Igor nos diverte muito, enquanto nos faz refletir sobre como é preciso explorar o mundo para aprender mais sobre ele e seus horrores tão naturalizados. Talvez esse processo seja o melhor exemplo do que é crescer. E crescer também inclui olhar para trás, para nossas infâncias, e perceber que muita coisa mudou, ainda bem, mas seria bom mudar mais um pouquinho e, como Ted Lasso, acreditar que isso é possível.

Seguindo a sugestão da capa do livro com vários tons de verde e título vegetal, começo então a pensar que há algo muito importante a se aprender com as plantas e que Igor captou bem: elas podem ser ornamentais, gostosas ou mesmo fitoterápicas, não importa, todas existem a partir da combinação de luz e sombra. Acreditar inclui entender que essa é a regra da natureza, logo nossa, e assim aprender a lidar com o que esse outro lado.

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Ponciá Vicêncio: a memória é um vaivém de tempos e heranças

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Antônio Candido disse uma vez que o tempo é o tecido da nossa vida. Com essa frase, ele defendia o direito à literatura por considerá-la uma força humanizadora, uma forma de resistência ao capitalismo que se apossou daquilo que nos molda. A partir dessa perspectiva, penso que a memória é o nome que o tempo ganha quando é marcado pelas vivências, nossas ou dos nossos. Se tempo é uma palavra abstrata, de difícil apreensão, a memória talvez seja diferente. Enquanto palavra, sem qualquer outro complemento, a memória já evoca algo dentro da gente: uma história que alguém nos contou, uma cena, um momento, um fragmento daquilo que somos, do tempo que pertencemos.

Tempo também pode ser questão de segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, décadas, séculos e milênios, uma definição que tenta nos iludir sobre o grau de controle e conhecimento que temos de tudo isso enquanto humanos. Ou mesmo clima. O tempo pode estar ou não bom pra se sair de casa, fazer uma caminhada ou render uma boa colheita. O tempo assim parece mais simples, mais simples até que a memória. Parece definitivo, certeiro, algo que pode existir em forma de calendário. É um terreno perfeito para planos. O tempo é para nós também todas essas convenções, mas a memória é o nome que o tempo, em qualquer uma de suas concepções, ganha quando encontra um eu.

Ponciá Vicêncio, romance de estreia de Conceição Evaristo, existe, porque existe um tempo e ele é o tecido de nossas vidas. E as vidas se constituem e se constroem a partir da memória. E é seguindo essa lógica que a história da protagonista que dá nome ao livro se desdobra, mostrando que memória é o que nos forma enquanto indivíduos, ou personagens, mas é também o que nos liga aos outros, ao mundo. Somos o que nos é contado e também o que é silenciado, somos fruto de narrativas que envolvem muitas gentes, memórias e heranças, somos essa mistura entre eu e nós. Enquanto romance, essa história é sobre o tempo que circunda a existência dessa personagem que vive uma vida negra anos após a abolição da escravatura, mas sente em seu corpo, sua mente e em seu entorno o que restou da época anterior. E restou muita coisa e todas elas permanecem como uma herança dolorosa de um passado que não foi completamente embora.

Conceição Evaristo constrói essa narrativa e sua protagonista a partir de pedaços: costura retalhos — ou cola caquinhos — de quem foi Ponciá com a Ponciá do presente, enquanto, a partir dos laços familiares, monta um cenário mais amplo que o próprio tempo da protagonista. Ponciá se vê responsável por ser guardiã da memória dos seus e lembra, lembra e lembra, vivendo de lembrar. Estando longe e vivendo o que seu tempo reserva, é isso que resta. A memória se manifesta no enredo a partir dos fragmentos, das idas e vindas entre tempos, da trajetória que se conta nessa linearidade própria das lembranças, e, estruturalmente, vem também a partir da repetição de nomes, de cenas, de imagens, das percepções e sensações. Os nomes tão ditos são uma reafirmação de vínculo, de existência e um lembrete da negação da humanidade de muitos. Vicêncio é um nome que não é tão nome, é marca de um passado que insiste em continuar à maneira da branquitude.

A memória é para a protagonista um chamado, o que resta de uma subjetividade esmagada pelas faltas, pelas perdas, pela violência da vida, que é marcada por seu gênero, classe e cor. Nesse sentido, entre tantas coisas, chama atenção a saudade que ela sente de moldar o barro. A mão coça, ela diz. Ela precisa estar perto do rio, usando as mãos pra moldar essas memórias que são seu destino. Nisso me vem uma dúvida: memória também pode ser desejo? Se é possível ser assombrado pela falta, também existe o fantasma do querer. Volto então ao barro: as peças que Ponciá fez com sua mãe são reconhecidas em um passeio que seu irmão faz em um museu. Os nomes delas estão ali como criadoras, mas as peças pertencem a um nome desconhecido, o do proprietário. Parte da memória daquela família ainda está nas mãos de um outro alguém e é assim que é apresentada no espaço que se coloca como guardião da história, da memória.

O tempo é o tecido da vida, múltiplas linhas se cruzam e entrecruzam, formando uma malha que serve de cenário-personagem-enredo, que formam passado, presente e futuro, formam eus e nós. E talvez também eles. O tempo forma a memória e a memória é algo que não pode ser completamente destituído de uma pessoa, mas que ainda assim acaba no terreno da investigação e recuperação dependendo da sua origem, etnia, cor de pele. Conceição Evaristo então escreve essa história, porque lembrar, lembrar e lembrar, e depois contar, seja pela via da ficção ou não, é resistência, é força humanizadora, e também uma espécie de destino, porque essa história não é só a de Ponciá.

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Mulheres negras escrevem o mundo

No mesmo mês que “Poetas negras brasileiras: uma antologia” chegou em minha casa, o livro “A vulva é uma ferida aberta & outros ensaios” da Gloria Anzaldúa veio parar em minhas nãos. A antologia foi lida primeiro, a partir do acaso que, com ajuda dos Correios, impôs a esses dois livros diferentes datas de chegada, mas Gloria Anzaldúa já estava ali comigo, acompanhando minha incursão nos vários universos poéticos catalogados por esse livro de poemas que, do miolo até a capa, reafirma a existência e a heterogeneidade da escrita feminina e negra e brasileira, essa escrita feita fora do que chamam de Norte do planeta por quem precisa colocar sua voz no mundo.

De Gloria Anzaldúa conheço pouco até então, apenas o texto Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo”, lido antes e depois da chegada desse pequeno tijolinho roxo editado pela A Bolha e traduzido pela poeta Tatiana Nascimento, e algumas outras citações esparsas, mas isso foi mais do que o suficiente para eu costurar essas duas leituras que agora me parecem tão complementares.

“Poetas negras brasileiras” tem como organizadora Jarid Arraes, escritora que desde a sua origem independente atua evidenciando as desigualdades do mercado editorial e do mundo da escrita em seu sentido mais amplo. Com esse livro, que une estreantes e também nomes consolidados, a editora do selo Ferina desconstrói estereótipos sobre a escrita feminina e negra e indica novos caminhos para quem escreve e quem lê, enquanto apresenta o livro e a palavra como ferramentas de expressão cultural e individual e também de luta e denúncia. Semelhança e diferença coexistem na obra como uma bandeira literária que aponta o óbvio ao leitor, ao crítico e à sociedade: a literatura não é feita só por homens brancos e a ideia de condição humana e universalidade não vem somente dessa perspectiva, ela vem das múltiplas possibilidades de encontro da alteridade com a identidade.

Gloria, em seu ensaio mais famoso, diz:

“Por que sou levada a escrever? Porque a escrita me salva dessa complacência que temo. Porque não tenho escolha. Porque preciso manter vivos o espírito de minha revolta e a mim mesma. Porque o mundo que crio na escrita compensa aquilo que o mundo real não me dá. Ao escrever, eu organizo o mundo, ponho nele uma alça em que posso me segurar. Eu escrevo porque a vida não satisfaz meus apetites e minha fome. Escrevo para registrar o que outros apagam quando eu falo, pra reescrever as histórias mal-escritas que eles contaram de mim, de você. Para ficar mais íntima comigo mesma e contigo. Pra me descobrir, pra me preservar, pra me fazer, pra ter autonomia.”

E continua:

“O ato de escrever é um ato de fazer alma, uma alquimia. É uma jornada em busca do eu, do cerne do eu, aquele nós mulheres de cor pensamos ser “a outra” – a escura, a feminina.”

E depois, seguindo esse raciocínio, afirma:

“A escrita é uma ferramenta para adentrar esse mistério, mas também nos protege, nos dá uma margem de distância, nos ajuda a sobreviver”.

Por mais diversos em temática, estilo e até estrutura que sejam os poemas das autoras negras brasileiras catalogados nessa antologia, todos eles me parecem ter sido escritos por essa força-motriz exposta pela Gloria nesses destaques. A escrita para grupos oprimidos é marcada pelo desejo de subjetivação perante o mundo que prega o individualismo homogêneo, enquanto nega a subjetividade de certos corpos, e é por isso que a publicação de obras como essa antologia importam tanto e tem dimensões políticas que mesclam o individual e o coletivo.

Ancestralidade e filiação, afetos e sexualidade, identidade, racismo, trajetória, dúvidas, amor romântico e a falta dele e até mesmo as angústias contemporâneas que se relacionam com as redes sociais são alguns dos assuntos trabalhados por algumas das mais de 70 poetas negras que fazem parte desse trabalho. Vale destacar que a curadoria de Jarid reuniu autoras de 18 anos a 70 anos e tentou abarcar todo o Brasil, com nomes oriundos inclusive de cidades do interior, mas infelizmente falhando em não conter representantes das regiões Sul e Norte do país*.

Com poemas de nomes como Conceição Evaristo, Bianca Gonçalves, Cristiane Sobral, Mel Duarte, Lubi Prates, Mika Andrade, Nina Rizzi, Tatiana Nascimento, Cecília Floresta e o da própria organizadora, a obra surge já mostrando que o enorme talento dessas poetas negras não é exceção. Entre as poetas que eu ainda não conhecia, destaco o que vi de Thamires P., Silvia Barros, Pétala Souza, Nicole de Antunes, Mayara Ísis, Marina Farias, Mariana Madelinn, Maria Vitória, Luna Vitrolira, Juliana Berlim, Jhen Fontinelli, Gessica Borges, Eliza Araújo, Débora Gil Pantaleão, Kiusam de Oliveira, Jovina Souza e Andrezza Xavier no livro. Há um mar de mulheres negras fazendo literatura em terra firme mesmo quando o mundo, na prática, ainda insiste em dizer que esse não é um lugar para elas.

*O livro foi construído a partir de uma chamada nas redes sociais e, apesar do esforço da organizadora em mudar isso, a ausência de autoras dessas regiões provavelmente veio da limitação desse formato.

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três poemas belo-horizontinos

frango frito

ouço pombos e passarinhos
gatos caçadores na janela
cachorros ansiosos com o barulho
de calçados familiares subindo as escadas
duas obras ou mais na vizinhança
um despertador que se esgoela 

bicicletas carros ônibus 
dividem espaço
com pessoas e carroças
e sacolinhas de supermercado 
apinhadas de lixo

a música parece a de sempre
mas é diferente
alguém matou os galos e as galinhas
que piavam e cantavam
a alguns metros daqui
em plena capital mineira

***

somos animais que migram no verão

já tentei
meditação yoga 
corrida krav magá
caminhada ansiolítico
terapia chás
mas é só olhar para o mar
que faço as pazes comigo

o problema é
moro em BH

(me desculpem 
as capivaras 
o jacaré da pampulha
cada dia mais gordo e tranquilo 
a lagoa não é suficiente: 
serve melhor aos meio-maratonistas)

***

inventário cidade nova

cinco marcas de ração coleiras brinquedos pipicat caixas de areia casinhas de cachorro peixes realistas com catnip dentro sachês e patês para pets linhas para costura agulhas alguma lã post its canetas lápis de cor giz de cera canetinhas vários tipos de papel pincéis kit aquarela tinta guache cola tesoura sem ponta cartolina caderno pastinhas coloridas pastas sanfonadas ecobags agenda planner papel de presente porta retrato squeeze enfeites de biscuit plantas de plástico canecas variadas dominó baralho jogo das varetas uno pilhas serviço de xerox impressão e scanner. quantas histórias mais guarda uma lojinha de bairro?

***

esses poemas fazem parte do meu livro “eu investigo qualquer coisa sem registro”, obra que foi selecionada para publicação no concurso Poesia InCrível de 2021 e será publicada ainda esse ano. se você gostou desses poemas, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe também pelo Medium,  Facebook,  Twitter,  Tinyletter  e  Instagram.

Nas minhas andanças literárias, conheci Eisejuaz

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Pensar nos caminhos misteriosos que trilhamos para chegar a cada livro às vezes nos leva a descobrir que estamos investigando temas sem tomar consciência disso. Encontrei Sara Gallardo numa busca pessoal que envolve conhecer mais autoras argentinas, ou melhor, mais autoras latino-americanas, mas lendo “Eisejuaz”, único livro da autora traduzido para o português, percebi que fui parar em um outro lugar, um espaço muito mais amplo que envolve mais do que autor(a), territórios nomeados e personagens. Essa impressão, assim como essa procura, não veio do nada: caminhei para ela sem gps ou bússola, seguindo apenas pistas aleatórias que os livros que li foram me deixando.

Eu não sabia, mas “O mundo se despedaça” de Chinua Achebe e “Os rios profundos” do José María Arguedas me levaram até “Eisejuaz” e a investigação do que foi e é poder e na concorrência desleal de um com o outro. Eu poderia ter seguido uma linha reta, como a rota de uma viagem de avião típica, e chegado outra até essa obra da Sara Gallardo, mas minha leitura foi a partir desse lugar mais sinuoso, porque eu fiz essa viagem por terra nesse ano de 2021, levando um outro ritmo e um outro mundo de referências que incluem esses que nomeio e muitos outros, entre eles Ailton Krenak, Sônia Guajajara e Joênia Wapichana.

“Não tem lugar pra nós nem lá e nem cá. Lá o barulho dos brancos acaba com nosso alimento. Cá, nós se alimenta de peste e de miséria.”

Recém chegado no Brasil com tradução de Mariana Sanchez e edição da Relicário, mas publicado originalmente em 1971, essa narrativa, construída por Sara Gallardo a partir da entrevista que ela fez com um indígena wichí em 1968, continua necessária e, infelizmente, bastante atual e indo muito além do Chaco Argentino. Vide o Brasil e a grilagem, o Brasil e a Damares, o Brasil e o Bolsonaro, a pandemia e o genocídio indígena.

Mais do que um livro riquíssimo que nos faz pensar nos efeitos gerais do colonialismo e do racismo anti-indígena, essa é uma obra sobre o esforço de um homem para encontrar algum sentido em meio a dois mundos colidindo. “Eisejuaz” é sobre a insistência em tentar se encontrar e encontrar algo maior que a própria humanidade quando os parâmetros que o seu povo sempre seguiu não existem mais e as novas diretrizes te excluem e te exploram. O personagem que dá nome ao livro vive uma trajetória religiosa que surge em meio a isso e, a partir da sensação constante de deslocamento, falta de sentido e exclusão, se desenha. Essa é uma obra sobre ser estrangeiro em todos os espaços, inclusive às vezes até dentro de si mesmo.

“Um animal demasiado solitário devora a si mesmo.”

Com uma escrita poética, misteriosa e construída a partir de uma disputa de línguas e visões de mundo, Sara Gallardo nos coloca para pensar, também a partir das palavras torcidas de seu protagonista, no ensinamento da subordinação que está intricado no colonialismo e na dominação no todo e em como esses conflitos atravessam, de maneira violenta, todo um território. E mesmo com um protagonista homem, a autora explora como, em meio a imposição de uma sujeição geral, o jugo feminino se desdobra, misturando velho e novo, gênero, classe e raça.

Eisejuaz é Lisandro Vega, Este Também e Água que Corre. Suas várias vozes, angústias e seu espírito buscante interagem com um mundo que se despedaça e um outro que se impõe já com a desigualdade como base. Ler essa obra dói, porque nos faz pensar em solidão, desejo, tempo pertencimento, levando em conta também esse entorse social que parece estar sempre a um passo de romper contra o lado mais fraco.

“Nosso tempo terminou e o de todos os paisanos. Agora cada qual deve viver como puder.”

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Sobre o que liga garotas, mulheres e outras

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Ousado e bem pensado em todos os aspectos, “Garota, mulher, outras” da Bernardine Evaristo é uma obra relevante que mescla ousadia estética – com uma estrutura narrativa sem pontos finais, cheia de quebras e sem marcação de diálogos – com uma construção de personagens impecável e uma história fragmentada, mas bem coesa.

A partir de doze perspectivas, Bernardine constrói uma colcha de retalhos com histórias que, perpassando principalmente pelo tema da filiação, contam um pouco sobre a diáspora africana e a vida das mulheres negras na Inglaterra.

O livro questiona a ideia de que as experiências e características femininas ou negras são sempre as mesmas, mostrando personagens complexas, de diferentes idades e ideologias políticas e suas vivências, inclusive em relação umas às outras. Nesse sentido, chama atenção principalmente a professora homofóbica que tem como amiga mais antiga uma mulher lésbica com histórico militante e a idosa de 93 anos a favor do Brexit que acolhe e ama sue nete Morgan ainda que não compreenda seu gênero.

Essa relação entre identidades, relações humanas e dinâmicas sociais é construída a partir de uma narração que nos permite conhecer como cada uma das personagens fala, sente, se relaciona, pensa e vê o mundo. Com referências abundantes e uso variado da linguagem, a autora e sua tradutora Camila von Holdefer recriam a sensação da oralidade aproximando o leitor de cada uma das personagens. Toda essa intimidade assim exposta produz a sensação de uma conversa íntima e nos instiga como uma bela fofoca. Essa capacidade da autora em produzir proximidade pode chegar até mesmo a ser incômoda, mas é o que ajuda a afastar esse livro de ser lido somente na chave de um caprichado estudo de personagens para uma peça de teatro.

A sensação da leitura é de às vezes nos fazer sentir no meio de um tumulto de vozes e talvez por isso mesmo, vez ou outra e dependendo do personagem, o texto até lembre o Twitter. Bernardine explora como a linguagem diz muito sobre cada falante para construir as personas dessa história, optando por não descrever diretamente as particularidades de cada uma, mas mostrar as personalidades a partir de situações, reações e pensamentos, levando em conta como a escolha das palavras diz muito sobre origens, referências, gerações, amizades e até mesmo sobre como as pessoas querem se apresentar para o mundo. A importância desse critério ganha contornos especiais na história de Morgan/Megan, mas também se faz presente na construção das diferenças entre mães e filhas.

Como essa é uma narrativa focada nas experiências de mulheres diversas e uma personagem não-binária, todas relacionadas, ao menos indiretamente, com a imigração, a violência masculina, racista, lgbtqiafóbica e xenófoba faz parte da trama, sem, no entanto, definir suas personagens somente a partir desses fatos em comum.

Chama atenção também como a autora conseguiu conduzir tantas personagens a um evento em comum, evidenciando assim seus conflitos, contradições e diferenças, mas também suas semelhanças e o mosaico que compõe, de certa forma, a Inglaterra contemporânea e sua história.

“Garota, mulher, outras” é um livro recomendadíssimo, desses que mostram que a literatura é sempre política, seja a feita por Bernardine Evaristo ou por um homem branco aleatório falando sobre escrever, e isso não diminui seu poder, alcance e impacto, inclusive estético. Se literatura serve pra gente elaborar a vida e a condição humana, ela será marcada sempre por essa batalha entre identidade e alteridade que envolve a leitura mesmo entre os mais semelhantes.

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As tantas mulheres que passaram na cabeça de Maria Luiza Machado

Acervo pessoal – Foto publicada originalmente no meu Instagram

“Tantas que aqui passaram”, livro de poemas da Maria Luiza Machado é um catálogo poético de personagens femininas. Formado por 29 mulheres-poemas, essa é uma obra que nos coloca em contato com a condição humana das mulheres, enquanto também evidencia, de forma sutil, aspectos sociais e culturais que influenciam na construção dessas subjetividades muitas vezes marcadas por diversas angústias. Solidão, maternidade, trabalho, fé e relacionamentos amorosos e familiares são alguns dos temas abordados pela autora a partir de uma perspectiva íntima, que nos coloca em contato com os pensamentos secretos de cada uma dessas personagens.

Os poemas de Maria Luiza soam narrativos para os fãs de prosa e bons personagens e exploram repetições, pausas e alguns aspectos da oralidade, lembrando muitas vezes fluxos de consciência. A construção poética dos detalhes cotidianos expostos em alguns dos versos também chama atenção e ajuda a formar cenários e sensações, fornecendo uma espécie de lupa para quem lê. Lupa essa que nos ajuda a investigar um pouco mais de cada uma dessas personas que nos são apresentadas.

Como diz o posfácio de Monique Malcher, terminamos de ler esses poemas nos sentindo povoadas. Não sendo e sendo cada uma dessas mulheres que sempre nos lembram alguém, às vezes até a gente mesma.

“Tantas que aqui passaram” é sobre o universo que cabe em cada pessoa, uma obra que nos faz pensar no quanto semelhança e diferença constroem o universo da pluralidade e isso tem uma importância especial em um universo que insiste em impor padronizações.

O livro é uma publicação da Mormaço Editorial, editora independente fundada em 2020 e coordenada por Maria Luiza Machado e seu sócio Daniel Pasini. Ele foi diagramado e ilustrado por Isabela Sancho e viabilizado através de um financiamento coletivo. Esse é o terceiro livro da autora, que nasceu em 1995 em Feira de Santana na Bahia e mora em Salvador desde 2014. Os livros anteriores dessa jovem escritora foram: “Algumas histórias sobre a falta” (2018) e “Todos os nós” (2019).

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Breves observações sobre um livro incomum

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“Pequena enciclopédia de seres comuns”, escrito por Maria Esther Maciel, ilustrado por Julia Panadés e editado pela Todavia, é um livro para quem gosta de contemplar e tem um interesse especial no singelo, no sensível e na natureza.

A cada página, o leitor encontra um verbete animal ou vegetal escrito de maneira criativa e poética, em um mix que une o olhar científico e as possibilidades do mundo inventado da linguagem.

Os verbetes seguem uma separação única que brinca com nomes e situações: primeiro as Marias, depois os Joões, sem esquecer das viúvas e viuvinhas e os seres híbridos e curiosos que em um mesmo nome unem espécies.

Em todas as partes da obra, encontramos plantas, aves, insetos, mamíferos, anfíbios, répteis e peixes que são categorizados juntos a partir de um outro tipo de semelhança, aquela que surge das infinitas possibilidades da nomeação.

Nesse sentido, chama a atenção as espécies inventadas, como a Maria-Vai-Com-as-Outras, o João Doidão e a Viuvinha-Humana, e a abordagem ambientalista que se apresenta de forma sutil nas descrições.

Durante essa manhã fria de domingo, enquanto lia essas páginas tomando sol e a partir da curiosidade e do encanto que o livro me trouxe, reencontrei a Thaís criança, essa menina que sempre brincou de observar animais e depois, ao chegar em casa, corria para anotar e desenhar tudo o que viu, como uma pesquisadora de campo que investiga todas as coisas sem registro. Eu brincava de fazer relatórios que mesclavam o lúdico e o biológico, catalogando a partir da minha percepção tudo que ia conhecendo e fantasiando, como esse livro nos encoraja a fazer ao incentivar um reencontro com um outro mundo ao nosso redor, esse mundo fascinante feito de detalhes, que só podem ser vistos por quem ainda é capaz de olhar por olhar. Esse mundo que tento recriar a partir da linguagem quando escrevo.

Esse post faz parte da série #domingodabanalidade, hashtag que uso para reunir comentários e mini resenhas sobre livros que combinam perfeitamente com esse dia da semana. No caso de “Pequena enciclopédia de seres comuns”, a recomendação vem junto com um belo conselho que dei no Instagram e reitero também aqui no blog: quando vocês estiverem com esse livro em mãos, não se esqueçam de intercalar palavras lidas e desenhos observados com pausas para contemplação do céu, do mato, dos bichos ou da sua própria memória ou imaginação. A leitura ficará ainda mais gostosa.

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Algumas notas sobre Cães e Grilos

“Cães”, obra de estreia da escritora baiana Júlia Grilo, me encontrou durante uma conversa com uma amiga. Esse não foi um encontro fortuito, mas nele também não fui parte ativa, o livro foi sujeito aqui, ainda que tenha sido apresentado por intermédio de alguém. Não me entenda mal, o arquivo não surgiu do nada no meu Kindle, mas Cafeína já estava comigo antes mesmo de eu começar a ler, porque eu também tive cachorros na infância e todos eles sempre foram parar no meu quintal.

Desde as primeiras páginas, Cafeína e a narradora humana me pareceram próximas demais de quem eu fui, sou e provavelmente serei. Posso dizer que as pequenas rebeldias das duas me encontraram de alguma forma, seja na via da identificação, seja na do desconforto. Talvez agora seja a hora de falar que esse não foi um livro fácil de ler, apesar de eu ter amado a experiência por n motivos, inclusive o de ter encontrado no texto uma fluidez de quem gosta de conversar, ouvir e refletir sobre tudo e todos. Júlia Grilo estreia com uma história incômoda, essa é a verdade. Júlia quer que a gente termine o dia pensando em sujeição, poder e alteridade e isso está evidente em todas as suas páginas.

A mistura de elementos autobiográficos com a criatividade do olhar da narradora para os animais faz dessa história um romance com elementos de formação, como o amadurecimento da cadela e da menina, marcado pela perseguição de uma ideia, de um questionamento, de uma reflexão filosófica que faz a gente se sentir transitando em um texto híbrido, que brinca de ser ensaio quando ele quer, falando inclusive de amor. Essa simbiose de temas e estruturas nos faz pensar no bicho humano, esse que, como mostra a autora, não se coloca como um animal mesmo sendo um. E é na violência que a covardia de não se ver como bicho às vezes toma forma.

Nesse sentido, chama a atenção como a autora aborda temáticas relacionadas com machismo, racismo e classe, fazendo uma miscelânea com as experiências da cadela e da narradora que tangenciam o sexo e até a cor de pele e pêlo, trazendo a partir do animal a crítica aos comportamentos, práticas e problemáticas humanas que aproximam as duas espécies a partir da identificação pela obrigação de subordinação feminina.

Esse é um livro que faz a gente pensar em todo o antropoceno, ir longe, querer brigar com quem exclui os bichos do céu (e do inferno) mesmo sem acreditar nessas coisas, mas confesso que, em meio a esse mundo de reflexões, eu pensei, principalmente, nos cães que amei, nos cachorros que conheci, nos peludinhos que um dia vi passar pela calçada.

“A existência de Cafeína escancarava as minhas limitações e deixava-as mais robustas. Ela era tão diferente de mim — e ainda assim vivia.” 

Os meus

Meu primeiro cão veio com nome e história. Faruck, o primeiro de seu nome, chegou na minha casa antes de completar o desmame e eu, junto da minha mãe, o alimentei com fórmulas caninas ideais para aquela situação. Tamanha precocidade não foi por escolha dos meus pais, deixo claro. Meu primeiro cão foi, antes de meu, um presente rejeitado que a filha adolescente de uma colega da minha mãe ganhou de um ex-namorado.

Faruck era um pinscher tamanho pp preto com peito e barriga e algumas patas brancas, com detalhes minúsculos na cor de caramelo. Adorável e estranhamente humano e adulto, ele dormia no quintal, mas passava todo o resto do tempo dentro de casa. Sendo adorável, muito humano e adulto, ele era considerado limpo o suficiente pra isso. Faruck morreu em um acidente idiota quatro ou cinco anos depois dele chegar na minha casa. Independente da seriedade da minha narração, risadas desoladas seguidas de pedidos de desculpas surgem sempre quando eu narro o acidente que tirou sua vida: Faruck saiu em disparada com medo de ser pego fazendo xixi fora do lugar, escorregou no próprio xixi e bateu a cabeça na quina da porta da cozinha, caindo morto na hora.

Um mês depois, buscamos na casa de um jardineiro conhecido do meu pai um outro cachorrinho. Faruck, o segundo, era diferente de seu antecessor, apesar de ter ganhado o mesmo nome. Não era tão pequeno assim, era todo marrom e foi desmamado na hora certa. Faruck viveu 17 anos e 6 meses e, cá entre nós, era parente de um pinscher com certeza, mas não um pinscher puro. Faruck foi meu melhor amigo e também o melhor amigo do meu irmão. Eu poderia escrever linhas e mais linhas contando como brincamos juntos, como nos apoiamos, como fomos íntimos mesmo nas minhas fases mais distantes, como eu tentei compensar minhas ausências anteriores cuidando muito bem dele no fim da vida, respeitando inclusive a morte como uma possibilidade. Faruck foi eutanasiado em abril de 2019 e está enterrado no jardim da casa dos meus pais junto ao seu cobertor e bolinha preferidos.

E tem o Billy, que também já veio com nome e história, uma história que parece ter alguns traumas inclusos. Billy está vivo, cego de um olho e é um desses pets que nunca aprenderam a brincar. Billy é um pinscher em teoria, mas tem a carinha redonda como a de um chihuahua, o que combina com o cachorro de colo que ele é, apesar de suas práticas nojentas que o impedem de ficar dentro de casa. Ele é marrom chocolate com detalhes em caramelo, um cachorrinho tão bonito que já foi entrevistado pela tv afiliada da Globo da minha cidade. Um cachorrinho tão bonito que, infelizmente, come cocô, mija em tudo e, se a gente der bobeira, rouba papel higiênico usado e leva pra sua casinha.

Billy e Faruck eram irmãos por adoção, mas rivais. Diferentes, mas semelhantes. A relação deles era complicada, não nego, mas acho que dá pra dizer que havia ali uma rivalidade saudável, que, apesar do ciúme e algumas disputas territoriais, envolvia respeito e até preocupação com o outro. Conforme Faruck envelhecia, mais a gente percebia isso. Billy viveu esse luto junto com a gente.

Se a casa virou território ilegal para meus cachorros foi por causa do acidente que tirou a vida do que veio primeiro, mas a proibição quase total só veio mesmo quando o Billy e suas nojeiras chegou. Faruck I, Faruck II, Billy, todos são ou foram cães de quintal, talvez cães de quintal privilegiados perto de Cafeína, mas cães de quintal. Eles tinham espaço para correr e brincar, vacinas em dia e, por serem tão pequenininhos, viviam sendo carregados pra dentro nos dias após banho, provando que o privilégio de ser fofo é um fato canídeo, ao menos para os cães desse tipo. Billy que está vivo, apesar de velho, pode confirmar.

“Essa história pode parecer ter pouca ou nenhuma relação com Café, mas tem muita. Café não se fez sozinha, tampouco prontamente. Seu corpo é também produto de uma ação conjunta de várias mãos, várias mãos de vários tipos, tipos que apalparam e acariciam em ordem de forças diferentes; forças que a atravessaram em varias direções.”

Voltando ao livro

Ler “Cães” foi uma experiência que envolveu lidar com o meu luto pelos bichos da minha vida. E também o luto por todos os outros bichos, domésticos ou não, que eu inclusive como mesmo após mais de dois anos de vegetarianismo. Ler “Cães” me fez pensar em dominação e no quanto é preciso desaprendê-la. E eu me pergunto agora: e é mesmo possível desaprendê-la por completo?

“De tão dessemelhantes, eles ligaram-se um ao outro e suas dessemelhanças fizeram par”

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