As tantas mulheres que passaram na cabeça de Maria Luiza Machado

Acervo pessoal – Foto publicada originalmente no meu Instagram

“Tantas que aqui passaram”, livro de poemas da Maria Luiza Machado é um catálogo poético de personagens femininas. Formado por 29 mulheres-poemas, essa é uma obra que nos coloca em contato com a condição humana das mulheres, enquanto também evidencia, de forma sutil, aspectos sociais e culturais que influenciam na construção dessas subjetividades muitas vezes marcadas por diversas angústias. Solidão, maternidade, trabalho, fé e relacionamentos amorosos e familiares são alguns dos temas abordados pela autora a partir de uma perspectiva íntima, que nos coloca em contato com os pensamentos secretos de cada uma dessas personagens.

Os poemas de Maria Luiza soam narrativos para os fãs de prosa e bons personagens e exploram repetições, pausas e alguns aspectos da oralidade, lembrando muitas vezes fluxos de consciência. A construção poética dos detalhes cotidianos expostos em alguns dos versos também chamam atenção e ajudam a formar cenários e sensações, fornecendo uma espécie de lupa para quem lê. Lupa essa que nos ajuda a investigar um pouco mais de cada uma dessas personas que nos são apresentadas.

Como diz o posfácio de Monique Malcher, terminamos de ler esses poemas nos sentindo povoadas.

“Tantas que aqui passaram” é sobre o universo que cabe em cada pessoa, uma obra que nos faz pensar no quanto semelhança e diferença constroem o universo da pluralidade e isso tem uma importância especial em um universo que insiste em impor padronizações.

O livro é uma publicação da Mormaço Editorial, editora independente fundada em 2020 e coordenada por Maria Luiza Machado e seu sócio Daniel Pasini. Ele foi diagramado e ilustrado por Isabela Sancho e viabilizado através de um financiamento coletivo. Esse é o terceiro livro da autora, que nasceu em 1995 em Feira de Santana na Bahia e mora em Salvador desde 2014. Os livros anteriores dessa jovem escritora foram: “Algumas histórias sobre a falta” (2018) e “Todos os nós” (2019).

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Breves observações sobre um livro incomum

Acervo pessoal – Instagram – Compre seu livro aqui!

“Pequena enciclopédia de seres comuns”, escrito por Maria Esther Maciel, ilustrado por Julia Panadés e editado pela Todavia, é um livro para quem gosta de contemplar e tem um interesse especial no singelo, no sensível e na natureza.

A cada página, o leitor encontra um verbete animal ou vegetal escrito de maneira criativa e poética, em um mix que une o olhar científico e as possibilidades do mundo inventado da linguagem.

Os verbetes seguem uma separação única que brinca com nomes e situações: primeiro as Marias, depois os Joões, sem esquecer das viúvas e viuvinhas e os seres híbridos e curiosos que em um mesmo nome unem espécies.

Em todas as partes da obra, encontramos plantas, aves, insetos, mamíferos, anfíbios, répteis e peixes que são categorizados juntos a partir de um outro tipo de semelhança, aquela que surge das infinitas possibilidades da nomeação.

Nesse sentido, chama a atenção as espécies inventadas, como a Maria-Vai-Com-as-Outras, o João Doidão e a Viuvinha-Humana, e a abordagem ambientalista que se apresenta de forma sutil nas descrições.

Durante essa manhã fria de domingo, enquanto lia essas páginas tomando sol e a partir da curiosidade e do encanto que o livro me trouxe, reencontrei a Thaís criança, essa menina que sempre brincou de observar animais e depois, ao chegar em casa, corria para anotar e desenhar tudo o que viu, como uma pesquisadora de campo que investiga todas as coisas sem registro. Eu brincava de fazer relatórios que mesclavam o lúdico e o biológico, catalogando a partir da minha percepção tudo que ia conhecendo e fantasiando, como esse livro nos encoraja a fazer ao incentivar um reencontro com um outro mundo ao nosso redor, esse mundo fascinante feito de detalhes, que só podem ser vistos por quem ainda é capaz de olhar por olhar. Esse mundo que tento recriar a partir da linguagem quando escrevo.

Esse post faz parte da série #domingodabanalidade, hashtag que uso para reunir comentários e mini resenhas sobre livros que combinam perfeitamente com esse dia da semana. No caso de “Pequena enciclopédia de seres comuns”, a recomendação vem junto com um belo conselho que dei no Instagram e reitero também aqui no blog: quando vocês estiverem com esse livro em mãos, não se esqueçam de intercalar palavras lidas e desenhos observados com pausas para contemplação do céu, do mato, dos bichos ou da sua própria memória ou imaginação. A leitura ficará ainda mais gostosa.

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Algumas notas sobre Cães e Grilos

“Cães”, obra de estreia da escritora baiana Júlia Grilo, me encontrou durante uma conversa com uma amiga. Esse não foi um encontro fortuito, mas nele também não fui parte ativa, o livro foi sujeito aqui, ainda que tenha sido apresentado por intermédio de alguém. Não me entenda mal, o arquivo não surgiu do nada no meu Kindle, mas Cafeína já estava comigo antes mesmo de eu começar a ler, porque eu também tive cachorros na infância e todos eles sempre foram parar no meu quintal.

Desde as primeiras páginas, Cafeína e a narradora humana me pareceram próximas demais de quem eu fui, sou e provavelmente serei. Posso dizer que as pequenas rebeldias das duas me encontraram de alguma forma, seja na via da identificação, seja na do desconforto. Talvez agora seja a hora de falar que esse não foi um livro fácil de ler, apesar de eu ter amado a experiência por n motivos, inclusive o de ter encontrado no texto uma fluidez de quem gosta de conversar, ouvir e refletir sobre tudo e todos. Júlia Grilo estreia com uma história incômoda, essa é a verdade. Júlia quer que a gente termine o dia pensando em sujeição, poder e alteridade e isso está evidente em todas as suas páginas.

A mistura de elementos autobiográficos com a criatividade do olhar da narradora para os animais faz dessa história um romance com elementos de formação, como o amadurecimento da cadela e da menina, marcado pela perseguição de uma ideia, de um questionamento, de uma reflexão filosófica que faz a gente se sentir transitando em um texto híbrido, que brinca de ser ensaio quando ele quer, falando inclusive de amor. Essa simbiose de temas e estruturas nos faz pensar no bicho humano, esse que, como mostra a autora, não se coloca como um animal mesmo sendo um. E é na violência que a covardia de não se ver como bicho às vezes toma forma.

Nesse sentido, chama a atenção como a autora aborda temáticas relacionadas com machismo, racismo e classe, fazendo uma miscelânea com as experiências da cadela e da narradora que tangenciam o sexo e até a cor de pele e pêlo, trazendo a partir do animal a crítica aos comportamentos, práticas e problemáticas humanas que aproximam as duas espécies a partir da identificação pela obrigação de subordinação feminina.

Esse é um livro que faz a gente pensar em todo o antropoceno, ir longe, querer brigar com quem exclui os bichos do céu (e do inferno) mesmo sem acreditar nessas coisas, mas confesso que, em meio a esse mundo de reflexões, eu pensei, principalmente, nos cães que amei, nos cachorros que conheci, nos peludinhos que um dia vi passar pela calçada.

“A existência de Cafeína escancarava as minhas limitações e deixava-as mais robustas. Ela era tão diferente de mim — e ainda assim vivia.” 

Os meus

Meu primeiro cão veio com nome e história. Faruck, o primeiro de seu nome, chegou na minha casa antes de completar o desmame e eu, junto da minha mãe, o alimentei com fórmulas caninas ideais para aquela situação. Tamanha precocidade não foi por escolha dos meus pais, deixo claro. Meu primeiro cão foi, antes de meu, um presente rejeitado que a filha adolescente de uma colega da minha mãe ganhou de um ex-namorado.

Faruck era um pinscher tamanho pp preto com peito e barriga e algumas patas brancas, com detalhes minúsculos na cor de caramelo. Adorável e estranhamente humano e adulto, ele dormia no quintal, mas passava todo o resto do tempo dentro de casa. Sendo adorável, muito humano e adulto, ele era considerado limpo o suficiente pra isso. Faruck morreu em um acidente idiota quatro ou cinco anos depois dele chegar na minha casa. Independente da seriedade da minha narração, risadas desoladas seguidas de pedidos de desculpas surgem sempre quando eu narro o acidente que tirou sua vida: Faruck saiu em disparada com medo de ser pego fazendo xixi fora do lugar, escorregou no próprio xixi e bateu a cabeça na quina da porta da cozinha, caindo morto na hora.

Um mês depois, buscamos na casa de um jardineiro conhecido do meu pai um outro cachorrinho. Faruck, o segundo, era diferente de seu antecessor, apesar de ter ganhado o mesmo nome. Não era tão pequeno assim, era todo marrom e foi desmamado na hora certa. Faruck viveu 17 anos e 6 meses e, cá entre nós, era parente de um pinscher com certeza, mas não um pinscher puro. Faruck foi meu melhor amigo e também o melhor amigo do meu irmão. Eu poderia escrever linhas e mais linhas contando como brincamos juntos, como nos apoiamos, como fomos íntimos mesmo nas minhas fases mais distantes, como eu tentei compensar minhas ausências anteriores cuidando muito bem dele no fim da vida, respeitando inclusive a morte como uma possibilidade. Faruck foi eutanasiado em abril de 2019 e está enterrado no jardim da casa dos meus pais junto ao seu cobertor e bolinha preferidos.

E tem o Billy, que também já veio com nome e história, uma história que parece ter alguns traumas inclusos. Billy está vivo, cego de um olho e é um desses pets que nunca aprenderam a brincar. Billy é um pinscher em teoria, mas tem a carinha redonda como a de um chihuahua, o que combina com o cachorro de colo que ele é, apesar de suas práticas nojentas que o impedem de ficar dentro de casa. Ele é marrom chocolate com detalhes em caramelo, um cachorrinho tão bonito que já foi entrevistado pela tv afiliada da Globo da minha cidade. Um cachorrinho tão bonito que, infelizmente, come cocô, mija em tudo e, se a gente der bobeira, rouba papel higiênico usado e leva pra sua casinha.

Billy e Faruck eram irmãos por adoção, mas rivais. Diferentes, mas semelhantes. A relação deles era complicada, não nego, mas acho que dá pra dizer que havia ali uma rivalidade saudável, que, apesar do ciúme e algumas disputas territoriais, envolvia respeito e até preocupação com o outro. Conforme Faruck envelhecia, mais a gente percebia isso. Billy viveu esse luto junto com a gente.

Se a casa virou território ilegal para meus cachorros foi por causa do acidente que tirou a vida do que veio primeiro, mas a proibição quase total só veio mesmo quando o Billy e suas nojeiras chegou. Faruck I, Faruck II, Billy, todos são ou foram cães de quintal, talvez cães de quintal privilegiados perto de Cafeína, mas cães de quintal. Eles tinham espaço para correr e brincar, vacinas em dia e, por serem tão pequenininhos, viviam sendo carregados pra dentro nos dias após banho, provando que o privilégio de ser fofo é um fato canídeo, ao menos para os cães desse tipo. Billy que está vivo, apesar de velho, pode confirmar.

“Essa história pode parecer ter pouca ou nenhuma relação com Café, mas tem muita. Café não se fez sozinha, tampouco prontamente. Seu corpo é também produto de uma ação conjunta de várias mãos, várias mãos de vários tipos, tipos que apalparam e acariciam em ordem de forças diferentes; forças que a atravessaram em varias direções.”

Voltando ao livro

Ler “Cães” foi uma experiência que envolveu lidar com o meu luto pelos bichos da minha vida. E também o luto por todos os outros bichos, domésticos ou não, que eu inclusive como mesmo após mais de dois anos de vegetarianismo. Ler “Cães” me fez pensar em dominação e no quanto é preciso desaprendê-la. E eu me pergunto agora: e é mesmo possível desaprendê-la por completo?

“De tão dessemelhantes, eles ligaram-se um ao outro e suas dessemelhanças fizeram par”

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24 de maio

Obrigada pela imagem alcançada, editor Canva

Tenho sentido o tempo me atropelar. Não por excesso de tarefas necessariamente, mas porque por aqui não se encontra foco algum. Tenho a sensação que sem a rua, as caminhadas, os bares e os encontros, toda a diversão passou a ser mediada pelas telas, por alguma espécie de consumo e também por um cansaço sem nome que vem da desolação coletiva que vivemos como brasileiros.

Por isso, na última newsletter do apoia.se, falei sobre ser impossível acompanhar tudo, sobre como nosso entretenimento tem sido reduzido, cada dia mais, a quantidade de coisas que a gente consegue ver/ler/ouvir em velocidade recorde, sobre eu não querer alimentar essa dinâmica que é causa e consequência da ansiedade que minha geração convencionou chamar de fear of missing out (FOMO).

Estamos exaustos e exaustos achamos que descansamos buscando mais exaustão, correndo ofegantes atrás da ilusão de um respiro, um tempo pra nós e de um desligamento momentâneo da noção de onde estamos.

Tenho tido muita dificuldade de me encontrar em meio a tudo isso e, principalmente, criar qualquer coisa. E, apesar da minha mente sempre acelerada, nesse meio tempo tenho sentido a necessidade de tentar cultivar o valor de fazer as coisas devagar, tentando descobrir o que é ágil em mim porque sim e o que foi ficando desse jeito porque o mundo assim impôs.

Quem sabe construindo um novo jeito de funcionar, encontrarei de novo a fluidez criativa que sempre me comoveu. Quem sabe tentando fazer diferente e enfrentando a inércia dos hábitos, vou esbarrar de novo com a vontade que nos leva ao movimento. Talvez essa seja a única esperança que eu sou capaz de cultivar nesses dias de tanta indignação. Todo resto, infelizmente, parece uma utopia que eu desaprendi a imaginar.

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Relendo “Como se fosse a casa” durante a pandemia

Se nas minhas leituras pré-pandemia, meu foco ao ler “Como se fosse a casa (uma correspondência)”, livro de Ana Martins Marques e Eduardo Jorge, era a dicotomia entre interior e exterior, a casa e a Europa, a gente e o Outro, o estar e o estar em trânsito, agora tudo mudou: a casa, a ideia de lar, o que significa morar, alugar um espaço, viver nele, numa cidade, num país.

A casa preenche meu olhar de forma quase completa, todo o mundo exterior, trazido pelos poemas do Eduardo Jorge, parecem agora uma miragem, um desejo, quase uma utopia. O mundo exterior me atravessa pela imaginação, aparece enevoado, evocando a saudade do que conheci e da possibilidade de conhecer, circular, pisar, estar de uma maneira diferente do estar entre quatro paredes, enquanto a casa se apresenta cada vez mais concreta mesmo nas suas abstrações.

Estar fora parece diferente, assim como estar dentro. Vem a ideia de casulo, de proteção, de conforto, mas também vem a angústia de nunca mais poder sair ou receber pessoas sem temer. Vem então a vontade de liberdade, mas também o medo de contaminação e uma dolorida noção de risco e culpa e de exceção.

Nos dois lugares, antes tão complementares e agora colocados como partes opostas de uma vida, há luto. Parece que nunca mais estar dentro ou fora será o mesmo.

Que saudade de ler esse livro como eu lia antes!

Esse texto foi escrito para o especial #domingodabanalidade, que faço quinzenalmente no Instagram para falar sobre livros-conforto ou algo próximo disso, mas não saiu tão banal como eu queria. A leitura de um livro, mesmo aqueles antes confortáveis, pode mudar dependendo do contexto. “Como se fosse a casa” dessa vez me fez pensar na saudade do entrelaçar dos verbos estar, morar e pertencer com as travessias, as mudanças de paisagens, a vida na cidade, no desejo de que minha casa e tudo que ela evoca volte a ser apenas uma parte muito importante da minha vida, mas não quase tudo.

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Dia Mundial do Livro: uma declaração de amor e de luta

Vale a pena a gente parar para pensar no quanto a leitura é uma atividade diversa: um livro pode ser prazeroso, apaixonante, tenso, triste, fofo, sensível, boa companhia, contemplativo, incômodo, chato, bonito, longo, curto, ilustrado, cheio de fotografias, em áudio, lido em voz alta, escrito em braile, complicado demais, divertido, de consulta, difícil, informativo, fluido, lento, imersivo, artesanal, independente, digital, fraco, cheio de plot twists, fonte de conhecimento científico e também de sentimentos, impressões e reflexões.

A gente lê por muitos motivos, mas não dá pra negar que o maior atrativo de qualquer leitura é a possibilidade de criar alguma coisa aqui dentro.

Nas palavras e nas imagens alheias, a gente encontra somente uma parte de todo um universo que um livro pode oferecer. A outra está dentro de nós e a aventura de qualquer livro está em descobrir isso e sair conectando histórias, informações, interpretações e imaginação com o mundo de referências, memórias e vivências que nos compõem.

Lemos buscando esse movimento e assim vamos descobrindo quem somos, onde estamos, que mundo é esse e também o Outro e todo o universo que a descoberta da alteridade pode oferecer.

Por essas e outras, surge a necessidade de falarmos sempre em promoção da bibliodiversidade e combater tudo que busca restringir nosso acesso. O que significa nesse momento um foda-se para Paulo Guedes, um outro foda-se para Bolsonaro e mais um foda-se para todas as políticas e pessoas que atacam o livro, a cultura, a educação e a pesquisa!

Feliz dia mundial do livro!

Leia também: #EmDefesaDoLivro: discutindo a tributação proposta pelo Guedes

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(Observação: texto originalmente publicado nas minhas redes sociais).

Notas sobre as cidades que afundam em dias normais

Acervo Pessoal – Imagem postada também no meu Instagram
O encontro

Cidades afundam em dias normais, o mais novo romance da escritora, podcaster e ilustradora Aline Valek, foi tema de um encontro especial, com participação da autora e tudo, no meu clube de leituras, o Clube Cidade Solitária.

Durante o papo, fomos 18 pessoas no total, todas bem empolgadas para compartilhar e ouvir as relações e análises que outros leitores com repertórios tão diferentes. Cada comentário puxando o outro, ampliando a leitura de cada um, num movimento que incluiu a própria Aline, que trouxe para gente muitas informações sobre seu processo criativo no todo e também o envolvido diretamente na construção dessa história.

Em certo momento, a escritora compartilhou que esse livro começou a nascer a partir de uma caixa de fotos de pessoas desconhecidas que ela teve acesso. Vendo aquelas imagens sem sequência e sem demais informações, a ideia surgiu.

A narração desse processo me lembrou a descoberta do trabalho da fotógrafa Vivian Maier. Segundo o documentário Finding Vivian Maier, uma caixa de fotos de trabalhos dela foi arrematada por um caçador de tesouros em um leilão. Ao abrir a caixa e observar as imagens, ele suspeitou que aquelas fotos eram mais interessantes do que pareciam e, a partir desse momento, essa fotógrafa que passou a vida na invisibilidade do trabalho de babá começou a ser descoberta.

Esse filme se esforça para tentar contar a história da fotógrafa a partir do que foi sendo garimpado depois de sua morte. Além das caixas com suas fotos e demais pertences, o que restou de Vivian mora na memória de seus antigos e diversos patrões. O trabalho dos que hoje tentam lucrar a partir dessa fotógrafa muito talentosa é um pouco semelhante ao que tentamos fazer ao ler o livro da Aline, ainda que as fotografias presentes em suas páginas não sejam, digamos, visuais.

A dúvida

Como funciona a memória? A minha, a sua e também a nossa. Como se define o que vamos lembrar e o que vai desaparecer nesse lamaçal de rostos, causos, banalidades, violências e urgências cada vez mais frequentes, talvez frequentes demais para continuar a caber nessa palavra? Como a forma que lembramos afeta como vamos ver aquilo tudo agora e no futuro? Como lembrar e esquecer podem se relacionar tanto com buscar e perder? E quão grande pode ser o abismo entre lembrar e contar o que se lembrou?

Como uma cidade se forma, permanece e afunda? Como uma cidade é lembrada? Como uma cidade atravessa o tempo? E a vida de cada um? Como cada pessoa surge, permanece e desaparece? Como se conta a história de um povo?

Somos o que lembramos? E onde anda a verdade se cada um tem a sua?

Como se dá o processo da memória? E das relações? E da criação? A criação surge a partir da vontade de se expressar? De contar a nossa própria história? De elaborar o que se passou? De ser lembrado e de lembrar? De não deixar desaparecer alguma coisa? De não se deixar desaparecer e nem os seus? Como organizar lembranças pode parecer tanto um processo de colagem? Como cada cena pode parecer tanto uma fotografia? Como falar de tempo, processos, escola e adolescência pode nos fazer pensar tanto no Brasil?

O processo

Pensar na adolescência envolve encarar quem somos hoje e como nos tornamos essa pessoa. Pensar em tempo é se ver exposto às contradições do registro e do esquecimento. Pensar na dúvida é perceber que na maioria das vezes descobrir novas indagações é mais interessante ou, no mínimo, mais realista que qualquer resposta que podemos encontrar. Ler esse livro é pensar nesse misterioso processo que mescla o desejo de narrar, de fugir e de ficar.

Os dias normais

As histórias de Kênia, Tainara, Érica, Tiago, Rebeca e outros antigos moradores de Alto do Oeste são relatos individuais de uma cidade alagada em um processo lento e contínuo de abandono. O fim do mundo de cada um desses personagens — e o retorno curioso dessa terra tantos anos depois — foi somente mais uma manchete curiosa para o resto do país. Enquanto a cidade afundava, cada um fazia o que podia para não afundar junto, enquanto tentavam seguir suas vidinhas como antes. Ninguém de fora, estado ou não, deu as caras nesse processo que, de certa forma, foi sendo ignorado no dia a dia por todos que ali viviam. A tragédia virou costume, como de fato acontece no Brasil. A tragédia virou fonte de cliques e lucro, como também acontece todo dia.

Cidades afundam em dias normais, além de abordar temas como memória, amizade, adolescência, vida no interior e fotografia e outros processos, artísticos ou não, fala também sobre desalento, declínio e desesperança em um sentido coletivo. O que nos faz pensar também na chegada e permanência do fascismo, e é possível dizer que não deve haver nada mais brasileiro que esses sentimentos nesse momento.

Aline Valek escreveu uma obra que dialoga com nossas urgências e medos e a experiência de leitura dessa história nos ajuda a elaborar a prática de se viver em meio aos diversos fins do mundo que nos cercam. A gente busca respostas imediatas o tempo todo, mas talvez precisemos, primeiramente, entender de onde partimos. A professora Érica concordaria com isso, porque sabe que as memórias pertencem ao futuro. Só se conta histórias para frente”.

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Leia também: “Buscando Vivian Maier”

21 livros para ler em 2021

Ler para mim sempre foi um prazer e por muito tempo eu não tive o hábito de anotar e contabilizar o que eu lia, criar metas ou qualquer coisa do tipo. Meus hábitos de leitura sempre foram freestyle e eu gostava disso, mas a vida foi acontecendo, as redes sociais foram se firmando na minha vida como um meio de conexão e troca, e aos poucos fui sentindo a necessidade de anotar o que eu leio e, mais recentemente, o que compro ou ganho. O que não significa o fim do freestyle, que fique claro. Seguirei sendo aleatória, como sempre fui, lendo sem parar quando dá na telha, enquanto também passo duas semanas ou mais sem tocar num livro fazendo outras coisas, mas agora serei uma aleatória com um pouco mais de foco frente a minha estante. (Vocês não fazem ideia do quanto eu demoro para escolher uma leitura!)

Com a criação, organização e mediação do Clube Cidade Solitária junto a responsabilidade de guiar e mediar o Leia Mulheres Divinópolis, passei a sentir uma maior necessidade de planejamento de leituras, por motivos financeiros até. É importante priorizar os livros que já tenho em casa, né? Agora, pela primeira vez na vida, vou criar uma meta literária e, ainda por cima, vou fazer isso de maneira pública. Mas, já aviso, essa lista é mais sobre sugestões e prioridades de leitura do que qualquer coisa, viu? Não vou encará-la como uma obrigação ou qualquer coisa parecida, até porque os clubes que medio é que mandam em mim de verdade. É bem possível, inclusive, que vários listados aqui acabem ficando para o ano que vem e, se isso acontecer, tudo bem.

Bora pra lista?

1 – O diálogoLuizza Milczanowski

2 – Sabendo que és minhaFabrina Martinez

3 – Homens que nunca conheciMaíra Valério

4 – Por favor, cuide de mamãeShin Kyung-Sook

5 – Tornar-se palestinaLina Meruane

6 – Verdades além do túmuloCaitlin Doughty

7 – Relatos de um gato viajanteHiro Arikawa

8 – Flor de gumeMonique Malcher

9 – Flores para AlgernonDaniel Keyes

10 – A autobiografia da minha mãeJamaica Kincard

11 – Garota, mulher, outrasBernardine Evaristo

12 – De duas, umaDaniel Sada

13 – Pedro PáramoJuan Rulfo

14 – A FúriaSilvina Ocampo

15 – Quarenta diasMaria Valéria Rezende

16 – Cidadã de segunda classeBuchi Emecheta

17 – Água de BarrelaEliana Alves Cruz

18 – O alegre canto da perdizPaulina Chiziane

19 – Dicionário Agatha Christie de venenosKathryn Harkup

20 – Herdeiras do marMary Lynn Bracht

21 – Insubmissas lágrimas de mulheresConceição Evaristo

Não coloquei nessa lista nenhum dos livros previstos para o Clube Cidade Solitária, porque a prévia deles já foi listada no perfil do clubinho. Como imagino que muitos de vocês talvez queiram saber quais são eles, até para poder se programar para ler, deixarei o link para os dois posts que anunciam os spoilers de 2021 aqui e aqui. Os encontros do “Um defeito de cor” da Ana Maria Gonçalves” e do “Torto Arado” do Itamar Vieira Junior já tem datas marcadas, viu?

Observação: também deixei de fora dessa lista livros de poesia, porque prefiro lê-los bem livremente, sem obrigação inclusive de seguir a ordem dos poemas ou ter data pra terminar. Sei que quero ler pela primeira vez e/ou continuar lendo Wislawa Szymborska, Francisco Mallmann, Ana Elisa Ribeiro, Alejandra Pizarnik, Gabriela Mistral, Ana Martins Marques, Anna Clara de Vitto, Jarid Arraes, Pilar Bu, Cecília Pavon, Angélica Freitas, Emily Dickinson, Adélia Prado, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Primo Levi, Yasmin Nigri, Marília Garcia, Adília Lopes, Audre Lorde, Mel Duarte, Lubi Prates e Nina Rizzi.

Prêmio Thaís Campolina de Literatura de 2020

ou simplesmente Melhores Leituras de 2020

Eu não sei escolher preferidos, como eu já comentei numa crônica esquisita que postei por aqui e no Medium em algum momento no ano passado, mas eu resolvi tentar.

Nessa aventura de tentar encarar minhas leituras com um olhar avaliativo, deixei me iludir com a ideia de que a restrição temporal ajudaria. (Não ajudou.) Terminei a seleção com muito custo e uma lista com mais de 20 livros tendo lido 69 títulos e gostado muito de quase todas as leituras que fiz esse ano.*

Numa tentativa de preservar meus princípios, decidi que, em vez de tentar enxugar o gelo cortando obras que não quero cortar de jeito nenhum só pra caber em um número menos exagerado, eu simplesmente vou apresentar meus favoritos por categorias.

(Isso não significa que eu não tenha criado categorias específicas só pra poder colocar algum dos livros que eu queria indicar, mas não sabia como, porque a lista não podia aumentar ainda mais ou que nas categorias desse prêmio não cabem livros já citados em outras).

Bora pra lista?

Melhor livro de contos: Coração azedo – Jenny Zhang

Melhor conto avulso: A loteria – Shirley Jackson

Melhor livro de poesia: Para o meu coração num domingo – Wislawa Szymborska

Melhor best-seller: A Casa dos espíritos – Isabel Allende

Melhor clássico: Água Funda – Ruth Guimarães

Melhor livro feminista: Mulheres, raça e classe – Angela Davis

Melhor HQ: Fun home – Alison Bechdel

Melhor livro com animal antropomorfizado: O diário de Edward, o Hamster – Mirian e Ezra Elia

O mais fofo: Soppy – Philippa Rice

3 livros que não consegui parar de ler:

Solução de dois estados – Michel Laub

Pequenos incêndios em toda parte – Celeste Ng

Fique comigo – Ayòbámi Adébáyò

Li numa sentada e amei: Se deus me chamar não vou – Mariana Salomão Carrara

Li e depois emprestei pra todo mundo: Os sete maridos de Evelyn Hugo – Taylor Jenkins Reid

Melhor livro desconfortável: A vida mentirosa dos adultos – Elena Ferrante

Melhor livro de memórias: Afetos Ferozes – Vivian Gornick

Melhor livro de não ficção: A mulher de pés descalços – Scholastique Mukasonga

Melhor releitura: A Cidade Solitária – Olivia Laing

Melhor livro de ensaios: Falso Espelho – Jia Tolentino

Melhor surpresa: O amigo – Sigrid Nunez

Se chorei e se sofri, o que vale é a força do livro que li: Bem-vindos ao paraíso – Nicole Dennis-Benn

Melhor descoberta poética: Cecilia Pavón

Quero ler mais de: Patrícia Melo, autora do “O matador”, Eliane Alves Cruz, autora de “O Crime do Cais do Valongo”, e Dany Laferriere, autor do “País sem chapéu”

* A única leitura que eu realmente não gostei foi a que fiz do “Descobri que estava morto” do J. P. Cuenca. A premissa do livro é excelente, inclusive a maneira que ele aborda a cidade e o clima de investigação, mas a narração é tão machocentrada, chata e arrogante que não rolou. Não rolou mesmo. Ainda assim, vale o lembrete que o autor está sendo perseguido judicialmente por fanáticos religiosos por causa de um tweet de protesto e tem a minha solidariedade.