Notas sobre as cidades que afundam em dias normais

Acervo Pessoal – Imagem postada também no meu Instagram
O encontro

Cidades afundam em dias normais, o mais novo romance da escritora, podcaster e ilustradora Aline Valek, foi tema de um encontro especial, com participação da autora e tudo, no meu clube de leituras, o Clube Cidade Solitária.

Durante o papo, fomos 18 pessoas no total, todas bem empolgadas para compartilhar e ouvir as relações e análises que outros leitores com repertórios tão diferentes. Cada comentário puxando o outro, ampliando a leitura de cada um, num movimento que incluiu a própria Aline, que trouxe para gente muitas informações sobre seu processo criativo no todo e também o envolvido diretamente na construção dessa história.

Em certo momento, a escritora compartilhou que esse livro começou a nascer a partir de uma caixa de fotos de pessoas desconhecidas que ela teve acesso. Vendo aquelas imagens sem sequência e sem demais informações, a ideia surgiu.

A narração desse processo me lembrou a descoberta do trabalho da fotógrafa Vivian Maier. Segundo o documentário Finding Vivian Maier, uma caixa de fotos de trabalhos dela foi arrematada por um caçador de tesouros em um leilão. Ao abrir a caixa e observar as imagens, ele suspeitou que aquelas fotos eram mais interessantes do que pareciam e, a partir desse momento, essa fotógrafa que passou a vida na invisibilidade do trabalho de babá começou a ser descoberta.

Esse filme se esforça para tentar contar a história da fotógrafa a partir do que foi sendo garimpado depois de sua morte. Além das caixas com suas fotos e demais pertences, o que restou de Vivian mora na memória de seus antigos e diversos patrões. O trabalho dos que hoje tentam lucrar a partir dessa fotógrafa muito talentosa é um pouco semelhante ao que tentamos fazer ao ler o livro da Aline, ainda que as fotografias presentes em suas páginas não sejam, digamos, visuais.

A dúvida

Como funciona a memória? A minha, a sua e também a nossa. Como se define o que vamos lembrar e o que vai desaparecer nesse lamaçal de rostos, causos, banalidades, violências e urgências cada vez mais frequentes, talvez frequentes demais para continuar a caber nessa palavra? Como a forma que lembramos afeta como vamos ver aquilo tudo agora e no futuro? Como lembrar e esquecer podem se relacionar tanto com buscar e perder? E quão grande pode ser o abismo entre lembrar e contar o que se lembrou?

Como uma cidade se forma, permanece e afunda? Como uma cidade é lembrada? Como uma cidade atravessa o tempo? E a vida de cada um? Como cada pessoa surge, permanece e desaparece? Como se conta a história de um povo?

Somos o que lembramos? E onde anda a verdade se cada um tem a sua?

Como se dá o processo da memória? E das relações? E da criação? A criação surge a partir da vontade de se expressar? De contar a nossa própria história? De elaborar o que se passou? De ser lembrado e de lembrar? De não deixar desaparecer alguma coisa? De não se deixar desaparecer e nem os seus? Como organizar lembranças pode parecer tanto um processo de colagem? Como cada cena pode parecer tanto uma fotografia? Como falar de tempo, processos, escola e adolescência pode nos fazer pensar tanto no Brasil?

O processo

Pensar na adolescência envolve encarar quem somos hoje e como nos tornamos essa pessoa. Pensar em tempo é se ver exposto às contradições do registro e do esquecimento. Pensar na dúvida é perceber que na maioria das vezes descobrir novas indagações é mais interessante ou, no mínimo, mais realista que qualquer resposta que podemos encontrar. Ler esse livro é pensar nesse misterioso processo que mescla o desejo de narrar, de fugir e de ficar.

Os dias normais

As histórias de Kênia, Tainara, Érica, Tiago, Rebeca e outros antigos moradores de Alto do Oeste são relatos individuais de uma cidade alagada em um processo lento e contínuo de abandono. O fim do mundo de cada um desses personagens — e o retorno curioso dessa terra tantos anos depois — foi somente mais uma manchete curiosa para o resto do país. Enquanto a cidade afundava, cada um fazia o que podia para não afundar junto, enquanto tentavam seguir suas vidinhas como antes. Ninguém de fora, estado ou não, deu as caras nesse processo que, de certa forma, foi sendo ignorado no dia a dia por todos que ali viviam. A tragédia virou costume, como de fato acontece no Brasil. A tragédia virou fonte de cliques e lucro, como também acontece todo dia.

Cidades afundam em dias normais, além de abordar temas como memória, amizade, adolescência, vida no interior e fotografia e outros processos, artísticos ou não, fala também sobre desalento, declínio e desesperança em um sentido coletivo. O que nos faz pensar também na chegada e permanência do fascismo, e é possível dizer que não deve haver nada mais brasileiro que esses sentimentos nesse momento.

Aline Valek escreveu uma obra que dialoga com nossas urgências e medos e a experiência de leitura dessa história nos ajuda a elaborar a prática de se viver em meio aos diversos fins do mundo que nos cercam. A gente busca respostas imediatas o tempo todo, mas talvez precisemos, primeiramente, entender de onde partimos. A professora Érica concordaria com isso, porque sabe que as memórias pertencem ao futuro. Só se conta histórias para frente”.

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Leia também: “Buscando Vivian Maier”

21 livros para ler em 2021

Ler para mim sempre foi um prazer e por muito tempo eu não tive o hábito de anotar e contabilizar o que eu lia, criar metas ou qualquer coisa do tipo. Meus hábitos de leitura sempre foram freestyle e eu gostava disso, mas a vida foi acontecendo, as redes sociais foram se firmando na minha vida como um meio de conexão e troca, e aos poucos fui sentindo a necessidade de anotar o que eu leio e, mais recentemente, o que compro ou ganho. O que não significa o fim do freestyle, que fique claro. Seguirei sendo aleatória, como sempre fui, lendo sem parar quando dá na telha, enquanto também passo duas semanas ou mais sem tocar num livro fazendo outras coisas, mas agora serei uma aleatória com um pouco mais de foco frente a minha estante. (Vocês não fazem ideia do quanto eu demoro para escolher uma leitura!)

Com a criação, organização e mediação do Clube Cidade Solitária junto a responsabilidade de guiar e mediar o Leia Mulheres Divinópolis, passei a sentir uma maior necessidade de planejamento de leituras, por motivos financeiros até. É importante priorizar os livros que já tenho em casa, né? Agora, pela primeira vez na vida, vou criar uma meta literária e, ainda por cima, vou fazer isso de maneira pública. Mas, já aviso, essa lista é mais sobre sugestões e prioridades de leitura do que qualquer coisa, viu? Não vou encará-la como uma obrigação ou qualquer coisa parecida, até porque os clubes que medio é que mandam em mim de verdade. É bem possível, inclusive, que vários listados aqui acabem ficando para o ano que vem e, se isso acontecer, tudo bem.

Bora pra lista?

1 – O diálogoLuizza Milczanowski

2 – Sabendo que és minhaFabrina Martinez

3 – Homens que nunca conheciMaíra Valério

4 – Por favor, cuide de mamãeShin Kyung-Sook

5 – Tornar-se palestinaLina Meruane

6 – Verdades além do túmuloCaitlin Doughty

7 – Relatos de um gato viajanteHiro Arikawa

8 – Flor de gumeMonique Malcher

9 – Flores para AlgernonDaniel Keyes

10 – A autobiografia da minha mãeJamaica Kincard

11 – Garota, mulher, outrasBernardine Evaristo

12 – De duas, umaDaniel Sada

13 – Pedro PáramoJuan Rulfo

14 – A FúriaSilvina Ocampo

15 – Quarenta diasMaria Valéria Rezende

16 – Cidadã de segunda classeBuchi Emecheta

17 – Água de BarrelaEliana Alves Cruz

18 – O alegre canto da perdizPaulina Chiziane

19 – Dicionário Agatha Christie de venenosKathryn Harkup

20 – Herdeiras do marMary Lynn Bracht

21 – Insubmissas lágrimas de mulheresConceição Evaristo

Não coloquei nessa lista nenhum dos livros previstos para o Clube Cidade Solitária, porque a prévia deles já foi listada no perfil do clubinho. Como imagino que muitos de vocês talvez queiram saber quais são eles, até para poder se programar para ler, deixarei o link para os dois posts que anunciam os spoilers de 2021 aqui e aqui. Os encontros do “Um defeito de cor” da Ana Maria Gonçalves” e do “Torto Arado” do Itamar Vieira Junior já tem datas marcadas, viu?

Observação: também deixei de fora dessa lista livros de poesia, porque prefiro lê-los bem livremente, sem obrigação inclusive de seguir a ordem dos poemas ou ter data pra terminar. Sei que quero ler pela primeira vez e/ou continuar lendo Wislawa Szymborska, Francisco Mallmann, Ana Elisa Ribeiro, Alejandra Pizarnik, Gabriela Mistral, Ana Martins Marques, Anna Clara de Vitto, Jarid Arraes, Pilar Bu, Cecília Pavon, Angélica Freitas, Emily Dickinson, Adélia Prado, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Primo Levi, Yasmin Nigri, Marília Garcia, Adília Lopes, Audre Lorde, Mel Duarte, Lubi Prates e Nina Rizzi.

Prêmio Thaís Campolina de Literatura de 2020

ou simplesmente Melhores Leituras de 2020

Eu não sei escolher preferidos, como eu já comentei numa crônica esquisita que postei por aqui e no Medium em algum momento no ano passado, mas eu resolvi tentar.

Nessa aventura de tentar encarar minhas leituras com um olhar avaliativo, deixei me iludir com a ideia de que a restrição temporal ajudaria. (Não ajudou.) Terminei a seleção com muito custo e uma lista com mais de 20 livros tendo lido 69 títulos e gostado muito de quase todas as leituras que fiz esse ano.*

Numa tentativa de preservar meus princípios, decidi que, em vez de tentar enxugar o gelo cortando obras que não quero cortar de jeito nenhum só pra caber em um número menos exagerado, eu simplesmente vou apresentar meus favoritos por categorias.

(Isso não significa que eu não tenha criado categorias específicas só pra poder colocar algum dos livros que eu queria indicar, mas não sabia como, porque a lista não podia aumentar ainda mais ou que nas categorias desse prêmio não cabem livros já citados em outras).

Bora pra lista?

Melhor livro de contos: Coração azedo – Jenny Zhang

Melhor conto avulso: A loteria – Shirley Jackson

Melhor livro de poesia: Para o meu coração num domingo – Wislawa Szymborska

Melhor best-seller: A Casa dos espíritos – Isabel Allende

Melhor clássico: Água Funda – Ruth Guimarães

Melhor livro feminista: Mulheres, raça e classe – Angela Davis

Melhor HQ: Fun home – Alison Bechdel

Melhor livro com animal antropomorfizado: O diário de Edward, o Hamster – Mirian e Ezra Elia

O mais fofo: Soppy – Philippa Rice

3 livros que não consegui parar de ler:

Solução de dois estados – Michel Laub

Pequenos incêndios em toda parte – Celeste Ng

Fique comigo – Ayòbámi Adébáyò

Li numa sentada e amei: Se deus me chamar não vou – Mariana Salomão Carrara

Li e depois emprestei pra todo mundo: Os sete maridos de Evelyn Hugo – Taylor Jenkins Reid

Melhor livro desconfortável: A vida mentirosa dos adultos – Elena Ferrante

Melhor livro de memórias: Afetos Ferozes – Vivian Gornick

Melhor livro de não ficção: A mulher de pés descalços – Scholastique Mukasonga

Melhor releitura: A Cidade Solitária – Olivia Laing

Melhor livro de ensaios: Falso Espelho – Jia Tolentino

Melhor surpresa: O amigo – Sigrid Nunez

Se chorei e se sofri, o que vale é a força do livro que li: Bem-vindos ao paraíso – Nicole Dennis-Benn

Melhor descoberta poética: Cecilia Pavón

Quero ler mais de: Patrícia Melo, autora do “O matador”, Eliane Alves Cruz, autora de “O Crime do Cais do Valongo”, e Dany Laferriere, autor do “País sem chapéu”

* A única leitura que eu realmente não gostei foi a que fiz do “Descobri que estava morto” do J. P. Cuenca. A premissa do livro é excelente, inclusive a maneira que ele aborda a cidade e o clima de investigação, mas a narração é tão machocentrada, chata e arrogante que não rolou. Não rolou mesmo. Ainda assim, vale o lembrete que o autor está sendo perseguido judicialmente por fanáticos religiosos por causa de um tweet de protesto e tem a minha solidariedade.

“Para diminuir a febre de sentir” e a vida como ela é


Conheci a Dalva em uma oficina de escrita no ateliê do Estratégias Narrativas. Era a minha primeira vez naquela salinha, depois de um longo período querendo retornar para a escrita. Não sabia onde colocar as mãos, os olhos e os cadernos, muito menos a vontade de ler, aprender e escrever. Nunca tinha feito uma oficina antes e tudo era uma grande novidade. Por isso, estava acompanhada de uma amiga, a Carol, que, se eu não me engano, é quem me apresentou a possibilidade desse escrever acompanhado e guiado que me enchia os olhos naquele momento. Era a primeira vez dela também, eu acho. Lembro que nenhuma de nós sabia o que fazer, mas a gente sabia que a gente precisava daquilo. Estávamos tão ansiosas que uma semana antes da oficina de fato começar, numa confusão de datas e disposição, acabamos no Maletta numa segunda às 19 horas. Naquele dia, celebramos o início do que ainda nem tinha sido iniciado com cerveja e batata-frita.

Todo debute é uma aventura. Por isso, narro o início de tudo, o que veio antes da leitura e da formação desse texto. Quando fui formular o desafio literário #LeiaComASubjetiva de 2020, listei “livro de estreia” como tema para o último bimestre. Dezembro pede novidades, é o mês que nos lembra do fim, logo do início e, muitas vezes, nos afasta do presente. Entre rituais conscientes e inconscientes, retrospectivas e desejos, o que acontece no aqui e agora é que parece enevoado. Essa é a hora certa de pensar em primeiras vezes. 

No último dia de um ano caótico, triste e destrutivo, li “Para diminuir a febre de sentir” da Dalva Maria Soares, minha ex-colega de oficina que estreou em formato de livro em 2020. A sensação foi de que ela e os personagens de suas crônicas estavam com suas mesas de café postas para receber mais um ano, mais uma pessoa, mais uma estreia. E, como bons mineiros, estavam muito bem preparados para ver chegar mais gente ainda para participar desse momento de troca, afeto e reflexão que só acontece mesmo em torno de uma refeição e da ideia de fim e começo. No meio de leitores e personagens, sentaram-se também as referências. Guimarães Rosa, Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus, Adélia Prado, Emily Dickinson, Criolo, Virginia Woolf, Gloria Anzaldúa e outros, todos em torno da mesa sendo observados também por Fridinha, Scooby e outros cães. Um amontoado de gente que sabe que a vida acontece também quando ninguém está olhando e vê beleza na pequenez da rotina e da história de cada um. Um amontoado de gente que eu passei a olhar diferente, ainda que já os conhecesse e até os acompanhasse, tudo porque a escrita da Dalva, essa que tive contato na oficina e depois acompanhei por anos pelo Facebook, é sempre uma conversa que vai e vem, encontra leitor, encontra memória e carrega junto um mucado dela, dos seus e da gente. 

Dalva é uma escritora que toca quem lê a partir de um relato de um cotidiano invisibilizado. Esse das mulheres simples, das pessoas exploradas, das mães e das filhas que se ligam por conhecer bem os fantasmas que assombram as outras. Esse que se apresenta todo costurado aos livros e autores que ajudaram a formar a autora, mas que não foram e nem nunca serão as únicas fontes de conhecimento dela. O entorno, os afetos e desafetos, a ancestralidade e as vivências, tudo isso também forma, como ela, a partir dessas 15 crônicas, mostra. 

“Para diminuir a febre de sentir” é um livro de bolso, desses bem curtinhos, e foi publicado de maneira independente pela Editora Popular Venas Abiertas. Ele mexe com a gente porque fala da vida como ela é, complexa, difícil e, apesar de tudo, com espaço reservado para o afeto, a cultura, a arte e a imaginação. Fome, violência e desigualdade são lembrados de forma crítica junto aos laços visíveis e invisíveis que impedem a completa desumanização. Dalva sabe muito bem compartilhar o indizível e o não quantificável, o que é, per si, uma forma de resistir. 

Agora entrego esse livro com carinho para a minha avó materna, que viveu por muito tempo bem pertinho de Baldim, o principal cenário dessas crônicas sobre a vida de Dalva. Antes de 2020 acabar, ela merece saber que histórias como as dela também podem estar num livro.


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“Sempre vivemos no castelo” e o poder da dúvida

Acervo pessoal — Adquira os livros de Shirley Jackson aquiaqui.

Tentamos a todo custo desvendar o futuro. Essa talvez seja uma das principais características da nossa espécie. A gente pensa bastante no que vai acontecer. Eu falo isso no achismo, no sentido mais papo de bar possível, mas não duvido que deve ter algum paper dizendo que a maneira que nos preparamos para o amanhã foi essencial na corrida evolutiva ou qualquer coisa do tipo.

Se ontem pensávamos tanto no porvir, hoje pensamos mais ainda. Ouvimos falar de metas, objetivos e sonhos o tempo todo. É a era dos coachs, da vida como corrida, da busca pela produtividade 24/7. Parece que todo mundo tem — ou deveria ter — um plano para si dentro dessa lógica. Enquanto isso, a ciência nos alerta sobre as mudanças climáticas, vivemos uma pandemia respiratória, o lixo que produzimos se acumula nos oceanos e a realidade lembra os 99% da missão quase impossível que é tentar escapar de mais precarização. Resumindo: vivemos numa era que supervaloriza certezas e nos ilude a partir delas, enquanto a incerteza de que há um futuro possível nos cerca.

Que o futuro é incerto, a gente já sabe. Talvez a questão então não seja tanto o amanhã e a forma que conseguimos manter provisões, mas sim a nossa capacidade de formular o tempo no todo. A gente se prepara para o futuro pelo que o passado nos ensinou. A gente formula o presente com as ferramentas que nos foram dadas antes dele. O tempo acontece em nossas análises. O amanhã só existe quando sabemos que o ontem já passou. Talvez por isso a gente valorize tantos os clássicos. Eles nos ajudam a entender o hoje, inclusive esteticamente. E, a partir disso, mas de uma maneira torta, a gente tenta controlar o tempo em busca desse sistema que nos promete certezas, enquanto destrói tudo que talvez seria capaz de garantir um futuro menos duvidoso.

Meu primeiro contato com a obra de Shirley Jackson aconteceu durante uma pandemia que levou a Organização Mundial de Saúde a aconselhar o isolamento social para a população e isso acabou tendo como consequência individual todo esse fluxo de pensamento sobre certezas e incertezas que você leu para chegar até aqui. Desculpa por isso, por sinal. Na verdade, sendo mais exata, meu primeiro contato com a figura da autora também foi nesse período. Antes de 2020, eu sabia que ela existia, que ela referência do Neil Gaiman, Stephen King e Donna Tartt, mas foi com o filme “Shirley”, que não se coloca como uma cinebiografia, tem a Elisabeth Moss como protagonista e foi resenhado por mim aqui na Revista Subjetiva, que conheci um pouco do universo da autora e me atrai.

Poucos meses depois, apesar de eu morrer de medo de tudo que é definido como terror, eu me arrisquei e coloquei o livro “Sempre vivemos no castelo”, último romance escrito pela escritora, como leitura de outubro do meu clube literário Cidade Solitária. Acabei lendo tudo quase num fôlego só e de quebra vivi um dos encontros mais imersivos do grupo.

O livro — e o papo sobre ele — me pegaram totalmente. As irmãs Blackwood, Constance e a narradora Mary Katherine, são personagens intrigantes: a primeira pela sua passividade, domesticidade e estranha docilidade e a segunda pela sua sede de aventura, estranheza, manias e desejo pela morte de todos que a incomodam. Da grande família Blackwood, sobrou elas, sendo que Constance foi absolvida judicialmente pela morte dos outros, e o Tio Julian, um homem adoentado, mas ainda assim muito espirituoso.

O enredo se inicia com uma ida de Mary Katherine, conhecida como Merricat, ao vilarejo. Todos odeiam Merricat. Ela e sua família são uma pária, mesmo antes da morte por veneno de alguns dos entes que a compunham já eram. Com a suspeita que ronda as irmãs sobreviventes, isso só piorou. A personagem responde esse desprezo e o bullying que sofre com pensamentos sádicos sobre a morte de todos que passam pelo seu caminho. (Sabendo da influência de Shirley na obra de grandes escritores, nesse momento é impossível não lembrar um pouco de “Carrie, a estranha”.)

Ler uma obra narrada em primeira pessoa é sempre um exercício que envolve aceitar ser enganado. Quase desejar por isso. A história, ao começar pelo ponto de vista da Merricat sendo hostilizada, induz o leitor a ficar ao lado dela, ainda que desde o início a personagem já manifeste seus desejos de morte e violência. E seguimos nessa lógica, da cidade para a casa, confiando e desconfiando, enquanto fingimos considerar tudo que está sendo dito suficiente, ignorando a indefinição do mundo que a apresentação de uma única verdade representa.

Acompanhar a narração de Merricat é se deparar com a dúvida o tempo todo. Como personagem imprevisível, infantil, caótica e bem deslocada da realidade, nós, enquanto leitores, nunca temos certeza de nada e por isso temos a sensação de delirar junto. A história contada está contida também no que não é falado, no mistério, em tudo que não sabemos do passado. Cabe a nós somente supor com o pouco que a narradora-personagem nos dá.

O terror construído por Shirley Jackson é centrado nos personagens, nos horrores humanos, no mistério que cercam certas histórias e personalidades. Nos incomodamos com o que não sabemos do outro, com o que a gente pode estar deixando passar, com essa possibilidade de não conhecer o suficiente alguém, seja semi-conhecido ou uma pessoa com quem convivemos diretamente. Queremos saber o que tem de errado ali, mas Shirley não entrega tudo. Ela nos deixa com a dúvida e com o desejo de saber mais.

Merricat tem dezoito anos, mas se comporta como uma criança. Ela é praticamente uma adulta, mas conversa com seu gato Jonas o tempo todo, faz amuletos, escolhe palavras mágicas e enterra coisas no quintal. Constance cozinha muito bem, cuida de plantas e parece entender tudo sobre como essas duas coisas se complementam. Ambas são duas mulheres vivendo isoladas, que seguem solteiras e parecem viver em uma rotina de perfeita simbiose que desde o início do livro já envolve a ideia de isolamento como proteção. Shirley brinca com isso, com esse comportamento que indicaria aos olhos da sociedade uma possível bruxa ou algo muito errado — ainda que não houvesse o passado da família para somar — e com isso aborda o medo do diferente, o peso dos estigmas e o poder dos boatos, enquanto nos deixa, mais uma vez, presos em mais uma indefinição: há ou não algo mágico ou sobrenatural nessa história?

Apesar de um assassinato coletivo por envenenamento ser um dos componentes principais da história, a trama de Shirley não é nada policial. Ela até trabalha um pouco a curiosidade que essas histórias despertam, mas foca sempre naquele restrito e perturbador universo das irmãs. No fim, apesar de tudo que nos é dado, não sabemos das motivações iniciais dessa história. Sem muito do passado, o presente parece uma incógnita e isso abre espaço para que a gente crie toda espécie de teoria para tentar sanar as dúvidas que ficaram. Precisamos aceitar a incerteza que fica e a completa falta de controle da vida e dos outros que isso indica, um exercício difícil para os nossos tempos. Só sabemos que as duas sempre viveram no castelo e que o melhor próximo passo que podemos dar é começar a leitura de “A assombração da Casa da Colina” logo. A gente diz que é por mera curiosidade, interesse em ler mais da autora, mas a grande verdade é que a gente sente que precisa entender algo mais e por isso inicia uma busca por qualquer coisa que possa funcionar como explicação. A gente acredita que os respingos de uma obra na outra ou da vida no trabalho literário indicarão as respostas que não tivemos e não aceitamos não ter. Shirley provavelmente sempre soube que nada assusta mais uma pessoa do que não saber.


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“Solução de dois estados”: uma história sobre ódio, sociedade e subjetividade

Divulgação — Adquira seu exemplar aqui.

“Solução de dois estados”, obra mais recente do escritor brasileiro Michel Laub, se inicia com uma memória do personagem Alexandre sobre o Plano Collor narrada por ele mesmo. Não sabemos onde ele quer chegar com isso, por que ele fala, com quem ele fala, mas logo percebemos a mágoa do personagem com a irmã.

Uma reflexão sobre ódio é feita. Uma personagem comenta sobre uma cena, sobre suas cicatrizes, seu corpo, e reflete sobre ter que repetir sua história, enquanto todos parecem buscar uma contradição, um erro de tom, um motivo para culpá-la. Ela parece estar cansada de contar o que aconteceu para tentar cativar um público que não se importa. Raquel é o nome dela. Ela é a irmã de Alexandre.

E assim segue o livro. Cada hora um personagem fala, apresentando seus pontos de vista. Assim conhecemos suas personalidades, suas memórias e os acontecimentos a partir do que nos é dado por eles. O contexto daquela trama se desenrola, ao menos inicialmente, a partir do que esses dois personagens nos contam. Só com um certo avanço na leitura que conhecemos melhor uma terceira personagem com voz: a documentarista estrangeira Brenda. A personagem que, com suas perguntas, guia todas as respostas, ainda que ela omita várias delas ao fazer suas edições no material.

A obra simula a estrutura típica de um documentário. A narração, a troca de vozes, a apresentação de materiais brutos depois dos pré-editados, tudo tem a ver com esse formato usado para contar histórias reais, colocando a discussão do papel da arte e as escolhas que envolvem esse fazer no centro da narrativa, indo além da personagem Raquel, que é artista performática, criando assim a possibilidade de embates entre a cineasta e ela e também entre Brenda e Alexandre. A construção dos personagens a partir do que eles dizem sobre si e sobre os outros, as perguntas incômodas da estrangeira, tudo isso que é posto no livro é material desse documentário-cenário e, de certa maneira, também quase personagem já que representa ali a documentarista e suas escolhas artísticas ou não.

O ódio entre os dois irmãos, algo tão íntimo e relacionado com ressentimentos do passado e do presente, se entrelaça com questões políticas do nosso tempo, como a violência, as milícias, o sexo, o discurso meritocrático e da igreja — que inclusive se confundem — , assuntos relacionados com bancos, patrocínios, perseguição da arte e a supervalorização do trabalho empreendedor como transformador e acima de todos os outros.

O corpo é também um território de batalha na obra. Raquel tem 130 quilos e seu trabalho artístico, suas mágoas, suas experiências, inclusive de violência, são relacionadas a esse fato. Isso cria uma complexidade além, tanto para a construção da personagem, quanto pra obra em si. Ela quer o direito de existir como ela é sem sofrer com o ódio que é direcionado a certos tipos de corpos. Ela, na defesa dessa pauta, de sua dor e de si mesma, se exalta em alguns momentos, se tornando inclusive arrogante. Só que ela não é uma representante típica do ódio, ela é uma vítima dele. Por mais que a própria documentarista tente colocar Alexandre e Raquel como faces de uma mesma moeda em alguns momentos, querendo exaltar a polarização, há no livro pontos que evidenciam que essa não é uma escolha tão difícil como alguns podem alegar: é civilização versus barbárie para mim, para vários nós, mas para muitos outros a disputa que se coloca no livro e na vida é entre o bem e o mal e o uso político e religioso desses termos.

Michel Laub criou uma obra que se passa em 2018, meses antes da famigerada eleição de Bolsonaro e sua trupe, mas que também narra algo anterior. Intenso, dolorido, reflexivo e capaz de nos fazer entender dois personagens complicados, ainda que um seja bem mais complicado que outro, o livro fala desse entrelaçamento de família e política, vida privada e sociedade. Como os acontecimentos políticos podem afetar nossas vidas? Nossos afetos? O que nosso corpo representa politicamente? É viável tentar uma conciliação com esse Outro? Ela é desejável? Ela é necessária? Há diálogo possível? Há alguma outra perspectiva que indique mudança nesse panorama? Todas essas perguntas que surgem durante a leitura nos incentivam a pensar nas nossas próprias relações, em como a política afeta cada uma delas, e, de forma talvez indireta, no uso da defesa da família como pauta política principal por alguns partidos e políticos, enquanto todo esse ódio, que esses grupos adoram alimentar contra diversos tipos de pessoas e ideias, fomentam rupturas, disputas, ressentimentos e violência.


O livro “Solução de dois estados” de Michel Laub será lançado oficialmente no dia 09/10, sexta-feira, mas é possível comprá-lo durante a pré-venda, garantindo um preço mais baixo do que o de estreia, pela Amazon. O link posto aqui também será válido para compras posteriores a data.

Uma semana antes do lançamento oficial, a Companhia das Letras promoveu uma Cabine de Leitura com o autor e alguns parceiros interessados em receber o livro via ebook em primeira mão e lê-lo para a conversa. O papo foi incrível. Michel compartilhou um pouco sobre seu processo criativo, suas referências e algumas opiniões com a gente, além de ter respondido perguntas nossas e do mediador.

“País sem chapéu”: morte, busca e pertencimento no Haiti

Acervo pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Dany Laferrière é jornalista, escritor e roteirista de origem haitiana. Aos vinte e três anos, o autor saiu do país e foi viver em Montreal no Canadá por temer ser assassinado pela milícia paramilitar do ditador Baby Doc. Sua trajetória pelo continente faz com que ele se defina como americano, por ser parte de um todo muito maior do que seu país de origem ou país de morada. E eu sei de tudo isso não por simplesmente ter lido na Wikipedia seu artigo, coisa que eu também fiz, mas porque a própria obra dele parte de sua biografia. Dany então é um desses autores que escrevem o que muitos chamam de autoficção e quase tudo do que eu disse nesse parágrafo é apresentado para o leitor em “País sem chapéu” como a história de seu protagonista.

“País sem chapéu” é um livro que se inicia com o retorno do narrador-personagem ao seu país após 20 anos morando no exterior. Ele se coloca ali como um mero observador, tanto porque isso é necessário no ofício de escritor, quanto porque ele esteve fora por tempo demais e agora sente que não entende mais nada. De certa forma, ele reconhece que passou a possuir um olhar estrangeiro, logo possivelmente estereotipado, mesmo sentindo que nunca deixou de pertencer ao Haiti. Ainda que isso possa ser colocado como algo individual ou mesmo ficcional, as sensações descritas na obra sobre voltar para casa depois de tanto tempo e a questão do pertencimento dizem muito sobre o que é ser haitiano em outros lugares do mundo — e um pouco também sobre ser haitiano ali, vivendo tudo aquilo que motivou muitos a buscarem outro lugar para viver.

A complexidade do país e sua cultura é abordada pela obra a partir da divisão do livro em vários capítulos que recebem dois nomes: País Sonhado e País Real. Além disso, cada novo capítulo é anunciado com um ditado próprio do país colocado originalmente em creole — o que encoraja o leitor a pensar também nos ditados de sua cultura, criando assim um diálogo além da obra — e também reafirma um significado político ao expor o que é posto como sabedoria popular. O País Real é sempre formado de pequenos textos com títulos próprios, quase como se fossem notas de observação, enquanto quase todos os capítulos desse País Sonhado não tem essa característica. Essa dualidade não é por acaso e dialoga com o fato de que a morte é um dos temas principais dessa história. Ela ronda praticamente todas as conversas, evidenciando como essa obra se coloca como uma espécie de investigação sobre o tema e seus mistérios ao marcar como a ancestralidade se faz presente na cultura haitiana e tem uma relação com a resistência ao colonialismo.

Numa conversa com o protagonista, um professor conta a ele que os Estados Unidos estavam tentando fazer um recenseamento secreto no país, mas se deparava com um desafio prático que poderia ser resumido numa história: quando o entrevistador pergunta “Quantos filhos a senhora tem?” para uma mulher, ela responde um número que inclui os vivos e mortos. Questionada no avançar da conversa, ela afirma que todos eles são filhos dela e que para elas eles estão vivos para sempre. Apesar de morte e vida serem colocadas quase sempre como opostos, elas são parte de uma coisa só. A dualidade do País Sonhado e do País Real, da noite e do dia, da morte e da vida talvez seja um vício no olhar. Algo que parece acontecer por não sermos capazes de entender.

O fantástico se faz presente em “País sem chapéu” e é usado para falar sobre a realidade dos haitianos e também de sua cultura. O protagonista volta para sua terra durante a operação da ONU e a presença, principalmente norte-americana, na ilha é ironizada e questionada por ele e por alguns outros personagens, como no diálogo em que se comenta que o EUA estão lá pra saber quando tempo um ser humano pode viver com tantas privações. O que vale como reflexão para nós brasileiros, que marcamos presença nessa operação que hoje é narrada como repleta estupros, repressão de manifestações, abuso de autoridade, interferência no processo eleitoral, dentre outros atos inaceitáveis amplamente documentados, conforme afirmado numa carta direcionada ao secretário geral da ONU.

Dany, numa história repleta de aspectos pessoais, marcada por questões de pertencimento, identidade e investigação de si e dos outros, aborda a própria formação de seu país a partir do colonialismo, escravidão, imperialismo e ditaduras. A falta de respostas para algumas questões, inclusive fantásticas, levantadas talvez diga também sobre esse todo. Ao escolher falar de morte numa obra sobre o Haiti, o autor faz uma crítica sobre as condições miseráveis de seu povo, enquanto também aborda aspectos religiosos, com todo o seu simbolismo, história de resistência e suas contradições, sem jamais deixar de refletir sobre os significados de caminhos e travessias que se fazem presentes em tantas culturas. Ainda que vejamos a morte de forma diferente, ainda somos ligados pelo medo de deixar de existir.

Tradução e posfácio: Heloisa Moreira


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“Bem-vindos ao paraíso”: a Jamaica além das belas paisagens

Foto de minha autoria para o Leia Mulheres Divinópolis — Adquira sem exemplar aqui.

Nicole Dennis-Benn nasceu em Kingston, capital da Jamaica, e lá viveu até os 17 anos de idade. Após se mudar para os Estados Unidos para estudar, conquistou o título de mestre em saúde pública com especialização em saúde reprodutiva da mulher e, posteriormente, fez um mestrado em escrita criativa. Atualmente, vive em Nova York com sua esposa.

Ela é uma autora que não teme abordar em sua obra temáticas consideradas delicadas, mas muito necessárias: no seu romance de estreia “Bem-vindos ao paraíso”, traduzido para o português por Heci Candiani, ela trabalha, por exemplo, com questões relacionadas à sexualidade, raça, classe, ser mulher e diferentes formas de exploração, desigualdade e violência, amarrando tudo isso com uma história incômoda de uma família composta por mulheres.

País da fantasia

Já na primeira página do livro, essa expressão é utilizada para falar da Jamaica criada para os turistas estrangeiros, majoritariamente brancos, pelo trabalho dos jamaicanos mais pobres e negros, mostrando que os turistas não conhecem — e nem querem conhecer — a realidade de ninguém dali, ficando restritos aos resorts construídos onde antes as pessoas viviam. O que tem tudo a ver com o nome irônico recebido pela obra no Brasil.

A indústria do turismo engole a Jamaica e a sua população negra, fazendo surgir um desejo coletivo de fazer parte daquele país da fantasia e privilégio, nem que seja a partir do trabalho explorado. Cria-se assim um sonho de um dia ascender de alguma maneira e passar merecer algo daquele universo tão inacessível e, claro, também a inveja de não fazer parte.

Margot, além de trabalhar no hotel como uma espécie de gerente, também é prostituta. Sua história aborda os efeitos do turismo sexual nas comunidades e nas pessoas que fazem parte dela, além de servir para denunciar o quanto esse fenômeno tem relação direta com o racismo e a misoginia, porque os clientes que surgem nessa história buscam na Jamaica corpos exóticos e muito jovens, contando com o desespero pela sobrevivência de tantas meninas e mulheres, e como tudo isso também afeta a vida das mulheres não inseridas nesse esquema a partir da naturalização da exploração e violência contra esses corpos em todos os espaços.

A escola, o colorismo e a descoberta de si e do mundo

Toda a trama de Thandi, irmã mais nova de Margot e filha de Delores, gira em torno de salvá-la de um destino como o delas a partir da educação. Margot faz de tudo para mantê-la em um colégio particular muito caro para que ela se torne médica no futuro. A educação é a esperança, mas ela só parece ser possível de ser alcançada por poucos, alimentando ainda mais a dicotomia entre qualquer menção à meritocracia e o oferecimento de oportunidades reais.

Os dramas de Thandi se relacionam com essa alta expectativa versus o desenvolvimento de sua subjetividade, mas não só. Além de outras questões, estar nesse colégio faz com que ela se sinta excluída, deslocada e queira clarear sua pele, porque na Jamaica ser bonita, mais amada ou ter chances de empregos melhores depende disso. Ela é diferente das outras garotas e garotos da escola e ela e eles sabem muito bem disso. Thandi está fora do lugar e todos fazem questão de lembrá-la disso.

A Jamaica LGBT

A autora desse romance casou-se com Emma Benn inicialmente nos Estados Unidos e posteriormente na Jamaica, tornando sua união com outra mulher um ato político de extrema importância em seu país natal já que o casamento privado delas vazou para o noticiário do país e ficou conhecido como o primeiro casamento lésbico da ilha. A autora, em entrevistas, parece incomodada com essa definição, por considerá-la pouco realista. Outras cerimônias entre casais de homens ou de mulheres já aconteciam, mas essa foi a primeira vez que todo mundo ficou sabendo. Essa exposição causou uma certa aflição, mas, posteriormente, Nicole e Emma consideraram importante demais o que aconteceu, porque fez com que isso fosse discutido no mundo inteiro.

Vê-las narrando as dúvidas, desafios e pequenas alegrias relacionadas ao casamento delas na Jamaica parece algo pouco relacionado com o livro, mas é. Verdene é uma das principais personagens da trama e é tratada como uma bruxa por sua sexualidade e história pessoal. Ela é vista como uma pária por todos e teme, o tempo todo, se somar às estatísticas de violência por isso. As pessoas escrevem palavras bíblicas de ameaça com sangue de animais em sua casa, jogam corpos de bichos mortos em seu quintal e chegam até mesmo a recusar que ela compre produtos em suas lojas. Esse retrato da vida de uma mulher lésbica exposto na obra nos faz pensar na importância que a notícia do casamento de Nicole e Emma ganhou entre pessoas jamaicanas lésbicas, bissexuais ou gays, sempre colocadas na clandestinidade pela situação.

Verdene vive uma história secreta de amor com Margot. No meio de tanta violência, o livro narra a relação delas como um momento de esperança, quase poético, apesar do medo e da quase impossibilidade daquilo continuar, ao menos ali naquele local. O amor, em toda obra, se manifesta assim, como uma possibilidade de deslumbramento e contemplação mesmo no meio do caos e da dor, apesar da autora evidenciar que até na vivência real dele os privilégios de raça, classe e gênero influenciam.

O que a linguagem pode nos dizer?

“Bem-vindos ao paraíso” da Nicole Dennis-Benn foi a leitura do mês de agosto do Leia Mulheres Divinópolis, clube de leitura em que sou uma das mediadoras. O encontro desse livro aconteceu no último sábado, dia 22/08, e contou com a participação da Heci Candiani, tradutora da obra para o português.

Por isso, parte da nossa conversa abordou também a linguagem e sua relação com poder, classe, colonialismo e, claro, construção de personagem. Heci Candiani falou conosco sobre a pesquisa que fez sobre o inglês jamaicano e chamou a atenção sobre o uso dele no livro e seus desafios de tradução. Quem fala o que é chamado de patuá? Com quem se fala dessa forma? O que não falar inglês jamaicano significa ali? Como um sotaque estrangeiro é visto?

Olhar para as escolhas de linguagem de Nicole, a partir desse debate, nos ajudou a pensar ainda mais nesse livro como um expositor de desigualdades e dinâmicas sociais complexas.


“Bem-vindos ao paraíso” de Nicole Dennis-Benn trabalha a violência de maneira dura, mostrando o quanto ela está presente na vida das mulheres jamaicanas e segue naturalizada e perpetuada pela sociedade. Apesar de em nenhum momento aparentar ser uma obra teórica, o livro também expõe a relação direta dessas violências com o capitalismo e o colonialismo e a desigualdade que ambos fomentam, ainda que alguns perpetuadores de toda essa lógica não estejam em um lugar típico da ideia de opressor. A partir da leitura desse romance, a gente percebe o ciclo da perpetuação de violência que cerca essa família e essa comunidade torna aquele ambiente tóxico para o crescimento do amor, do diálogo e do companheirismo. Esse amor que insiste em crescer e ser desejado, mesmo que em outros espaços, apesar de ninguém ali parecer saber se é permitido que se viva algo que não seja dor e busca pela sobrevivência.


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“AmoreZ”: historietas gostosinhas sobre o sentimento mais famoso do mundo

#LeiaComASubjetiva

Acervo pessoal — Adquira seu exemplar aqui

O amor é aquele sentimento que de tanto ser falado acabou se tornando sinônimo dos mais diversos tipos de comportamento. Alguns bem problemáticos, por sinal. Regiane Folter, com esse livro leve e delicioso, resolveu falar de uma das minhas facetas do amor preferidas, essa que mostra que ele pode ser tranquilo, cuidadoso e também confortável.

Com mais de vinte pequenos textos, alguns com um caráter bem pessoal, e várias lindas ilustrações feitas pela argentina Magdalena Rivarola, “AmoreZ” fala sobre os processos pessoais e relacionais que envolvem o amor, abordando esse sentimento indo muito além do famigerado casal hétero e branco tradicional que se comporta como se o amor precisasse ser complexo, difícil e dolorido.

Regiane mostra que o amor pode ser leve, mas que essa leveza não é uma mera simplificação de um sentimento. O que torna o amor algo que pode ser suave e delicado é a constatação de que ele é muito mais amplo do que parece e pode ser manifestado das mais diferentes formas, sendo, inclusive, muitas vezes um processo. Especialmente quando falamos de amor próprio, ainda que seja possível abordar a questão de processo numa relação amorosa ou até de mãe e filha.

A rotina é um dos itens cotidianos mais massacrados quando se fala sobre amor, mas nesse livro ela se manifesta como uma parte confortável do banal, do simples, de como as relações e os sentimentos que temos passam a fazer parte de nossas vidas. Relações essas que vão muito além de uma parceria amorosa, se apresentando até mesmo na amizade de humanos com animais.

“AmoreZ” é uma leitura rápida e gostosa, uma ótima pedida para preencher momentos em que buscamos alguma distração que nos lembre um afago ou o cheiro daquela comida conforto que alguém que a gente ama, podendo ser até nós mesmos, vez ou outra faz pra gente se sentir melhor.


Para quem gosta de amor e histórias diversas sobre, aproveito a deixa para recomendar a série “Modern Love”, disponível no Prime Video, streaming da Amazon.

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#EmDefesaDoLivro: discutindo a tributação proposta pelo Guedes

Photo by Aaron Burden

A proposta de reforma tributária encabeçada pelo Paulo Guedes, ministro da Economia do governo Bolsonaro, tem sido apresentada toda fatiada, confusa e sem perspectivas de mudanças positivas. Se há anos se fala da necessidade de simplificar as regras tributárias e a proposta em questão busque, ao menos teoricamente, isso, por que então a apresentação das proposições tem acontecido em partes, tornando difícil o acompanhamento por parte do povo? Por que a simplificação da tributação sobre o consumo tem sido colocada agora como uma solução de todos os problemas sendo que sequer inclui qualquer comentário sobre ICMS e ISS? Por que esse é o foco, sendo que a regressividade do nosso Sistema Tributário é muito criticada há tempos? Se historicamente muito se discute sobre a importância de diminuir a tributação sobre o consumo no Brasil, por que o ministro da Economia na prática propõe justamente o oposto disso? O que pode estar por trás da ideia de Guedes de acabar com a desoneração do livro? Por que essas questões importam na hora de falar em defesa do livro?

Arrecadação, tributação sobre o consumo e desigualdade

Uma das marcas do Sistema Tributário Brasileiro é sua regressividade, que significa que, na prática, quem tem mais, paga menos proporcionalmente*. Além de questões como a falta de tributação sobre lucros e dividendos distribuídos a acionistas de empresas e a não instituição do imposto sobre grandes fortunas já previsto na Constituição, o Brasil, ao tributar em peso bens e serviços, faz com que as pessoas mais pobres não consigam escapar da tributação ao fazer compras essenciais e usufruir de serviços necessários, ainda que haja uma desoneração de itens da cesta básica, enquanto quem tem mais dinheiro segue vivendo numa situação de conforto tributário fortalecido inclusive com benefícios fiscais de origem e intenção duvidosa.

Essa distorção é causada por n fatores e é um problema porque bate de frente com o caráter distributivo que a tributação deveria ter, especialmente em um país como o Brasil. Para combater a desigualdade, a tributação deve focar na propriedade e renda da parcela mais rica da população, não no consumo geral e irrestrito que faz com que todos, ricos e pobres, paguem os mesmos tributos ao consumir. A alta tributação sobre o consumo é criticada até mesmo por tornar nossa economia mais engessada. Não tem como falar em aumentar arrecadação e tornar o sistema menos desigual sem mexer na tributação da herança, da doação, dos barcos, aeronaves, dividendos e outras manifestações de renda diferenciada.

Os tributos, assim como os benefícios fiscais, possuem, além do caráter fiscal e arrecadatório, a possibilidade de apresentarem efeitos e características extrafiscais. Quando o governo aumenta, diminui ou mesmo isenta a tributação sobre o cigarro ou alguns produtos importados, por exemplo, essa pode ser uma tentativa de afetar o consumo dos produtos atingidos pela majoração ou minoração. Dessa forma, o governo pode incentivar o consumo de produtos específicos, enquanto praticamente inviabiliza a compra de outros. Sendo assim, a tributação é uma questão que vai muito além da arrecadação em si, sendo usada inclusive como um desestímulo para se consumir algo.

Quando Paulo Guedes demonstra que quer ampliar ainda mais a tributação sobre consumo, atacando diretamente a isenção das contribuições especiais prevista na lei 10.865 de 2004 que atinge a venda e importação dos livros — e de diversos outros itens, sendo alguns desses bens também relacionados com questões de acesso — , ele não busca um aumento de arrecadação ou uma melhora do Sistema Tributário Nacional no sentido de torná-lo menos desigual, como ele alega estar fazendo. Apesar do ministro dizer que o livro é um produto da elite e taxá-lo é importante por isso, o que ele faz é tentar inviabilizar o mercado livreiro e desincentivar o consumo dos livros, enquanto defende a manutenção de uma política tributária falha e que prioriza quem ele diz atacar com essa proposta.

O livro, a elite, os direitos e as estratégias de usurpação de direitos

A imunidade tributária do livro, do jornal e do periódico e o papel destinado à sua impressão é um instituto jurídico histórico — nascido em 1946, por iniciativa de Jorge Amado, e reafirmado nas Constituições seguintes, incluindo a de 1988 — que proíbe a instituição de impostos sobre esses itens e pode ser interpretado inclusive como uma cláusula pétrea, tornando inconstitucional qualquer restrição, já que a imunidade cultural é relacionada com o direito à liberdade de expressão e a ideia de facilitar o acesso à cultura, à educação, ao conhecimento, à informação e à ciência, questões relacionadas aos direitos fundamentais previstos.

No mesmo ano que surge uma proposta de Reforma Tributária que ataca o livro, o STF aprovou uma súmula vinculante sobre a imunidade tributária cultural alcançar também os livros eletrônicos e seus componentes importados, reafirmando a importância que a Constituição, seus guardiões e o direito brasileiro dão para o incentivo à leitura, ao conhecimento, ao direito de expressão e à facilitação de acesso às informações e cultura.

O Brasil adota hoje a teoria tributarista que afirma a existência de cinco espécies de tributo**: os impostos, as taxas, as contribuições de melhoria, o empréstimo compulsório e as contribuições especiais. A imunidade cultural do livro o protege somente de impostos, sendo possível taxá-los com outros tributos, como as contribuições especiais, que, no caso, foram isentadas com a lei 10.865 de 2004, que agora está ameaçada.

A imunidade cultural do livro não é alvo direto de Guedes no momento — ele busca acabar com a isenção dos livros nas contribuições especiais — , mas é importante ser lembrada, porque esse ataque indica as intenções do atual Ministro da Economia e as estratégias que esse governo usa para defender seus interesses. Além das emendas constitucionais terem um processo legislativo mais complexo e dependente de mais votos para sua aprovação, o que dificulta que se mexa diretamente na imunidade que protege os livros dos impostos especificamente, há a interpretação de que esse instituto constitucional não pode ser restringido e é por isso que o foco do governo atual envolve mexer na questão do livro sem ter que lidar com essas dificuldades e, no momento, busca mudar a legislação infraconstitucional que isenta o livro de contribuições especiais. Mesmo sem afrontar diretamente a imunidade, Paulo Guedes sabe o quanto essa proposta já é uma forma de relativizar direitos e combater o que a Constituição tenta buscar ao definir o livro como imune aos impostos, além de saber o quanto soa ameaçador para o mercado livreiro.

Apesar disso, qualquer discussão sobre essas questões tributárias, como o fim da isenção prevista na lei 10.865 de 2004, envolve o legislativo no todo, o que cria obstáculos para que uma proposta como essa continue sem modificações, possibilitando que a gente lute, pressione e se aprofunde no debate da Reforma Tributária no todo. Até porque há toda uma campanha em defesa do livro se desenhando no momento.

Nesse sentido, é preciso atentar-se ao fato de que apresentar algo absurdo e improvável de ser aprovado no legislativo e depois voltar atrás é também estratégia para relativizar direitos. Caso a aprovação não venha ou ocorra uma desistência nesse sentido, eles vão querer que pareça negociação, que eles voltaram atrás, sendo que isso é só mais uma parte de um projeto maior que envolve o enriquecimento de poucos e a manutenção dos privilégios que mantém poucos no topo explorando, de maneira cada vez mais barata, pessoas, especialmente a partir do encolhimento da classe média e da renda dos mais pobres já em curso. Lembrando aqui que o Paulo Guedes tinha a intenção de acabar com a desoneração dos itens de cesta básica, mas “desistiu” pela impopularidade da medida, mas que, infelizmente, quando se fala em cultura, a sociedade brasileira ainda tende a pensá-la como algo menor, próximo até da futilidade.

Sendo assim, reafirmar a solidez e importância do instituto da imunidade, ainda que ela não seja o alvo direto da reforma, é uma maneira de defender o livro, porque expõe o quanto esse ataque é parte de um jogo político que envolve jogar para a torcida bolsonarista, enquanto tenta enfraquecer a imunidade cultural e o mercado do livro e da cultura para futuras ameaças, além de invisibilizar outras questões problemáticas da Reforma Tributária que está sendo proposta.

É preciso defender o livro hoje. Esse ataque não é gratuito, não é só para agora, é uma tentativa de criar brechas para investidas — no presente e no futuro — contra o livro, a cultura e a educação e os direitos de acesso dos mais pobres a tudo, enquanto reafirma o caráter anticientífico, anticultura e a favor da homogeneização desse governo e apoiadores.

Quando Guedes e seus apoiadores afirmam que o livro é um produto da elite e por isso precisa ser taxado, isso é colocado como se houvesse um enfrentamento dos privilégios de parcela da população por parte deles, quando na verdade se segue ignorando que manter o sistema tributário regressivo só aumenta a desigualdade. Até porque a imunidade que o governo busca relativizar e a isenção que ele quer acabar são tentativas de tornar o livro um produto mais acessível para a população no geral e, historicamente, surgiu como uma estratégia para garantir liberdade de expressão e dificultar a censura. Se Bolsonaro e seu Ministro da Economia estivessem interessados em tornar o livro um artigo acessível para todos, eles não tentariam acabar com essa desoneração e apresentariam projetos de lei e políticas públicas que buscassem fortalecer de fato, ainda que de maneira indireta por questões de competência constitucional, bibliotecas públicas e programas de aquisição de livros para escolas, universidades e outros espaços. O interesse desse governo é perpetuar a ideia de que livros, leitura e conhecimento são para poucos e não são para pobres, enquanto negam dados que comprovam o interesse da classe C, D e E pela leitura e ignoram que a literatura, a cultura e o conhecimento são para todos, ainda que exista obstáculos de acesso que devem ser combatidos. Eles querem que as pessoas, com o orçamento cada vez mais restrito graças às políticas e o próprio sistema que eles defendem, olhem para o livro com cada vez mais distância, enquanto são alimentadas com a raiva que eles manifestam por esse objeto, vide a afirmação de Bolsonaro sobre livros didáticos terem muita coisa escrita, e também pela ideia falsa e elitista de que ler não é para elas.

Fora que essa investida contra o livro é uma maneira de atacar a possibilidade de publicação e alcance de vozes que comumente são colocadas como minoritárias, tanto no sentido de grupos vulneráveis por opressões como raça e gênero, quanto no de ideias que batam de frente com o neoliberalismo e fazem importantes denúncias. Esse é um ataque contra o pluralismo de ideias, a bibliodiversidade, contra a imaginação, contra o ato de criar e a liberdade de expressão das vozes dissidentes. Fator que é importante de ser lembrado, já que Bolsonaro e seus apoiadores costumam estar do lado de tentativas de censura e ataques à cultura que vão além da literatura e o Brasil, nos últimos anos, viu o debate sobre autoria e diversidade avançar.

Inviabilizar o mercado do livro é uma maneira de garantir que, a partir de benefícios fiscais ou outras políticas, apenas algumas obras sejam lidas, publicadas e vendidas. E que cada vez menos pessoas possam acessar o que fuja do que eles querem incentivar, já que o próprio Guedes afirma que resolveria a questão de acesso doando livros para os pobres simplesmente, sem qualquer explicação de como isso aconteceria.

E o mercado do livro? E o futuro? E a Reforma Tributária?

O mercado editorial envolve vários profissionais além do escritor e o editor, como todos aqueles que fazem parte do processo de tradução, diagramação, revisão, preparo, impressão, distribuição, marketing e venda. Se o livro já é caro hoje, especialmente em relação ao salário médio do brasileiro, o aumento da carga tributária sobre ele afastará as pessoas ainda mais da leitura, da cultura e também da escrita, impressão e publicação, porque é impossível ignorar os profissionais envolvidos nessa cadeia de produção na hora de precificar uma obra. O preço do livro aumentará ainda mais e a possibilidade de comprar um exemplar ficará ainda mais difícil para a maioria das pessoas, especialmente porque Paulo Guedes, Bolsonaro e toda a trupe agem a favor da manutenção de privilégios de poucos em todas as instâncias. Nesse sentido, é importante lembrar que o mercado editorial tem sofrido com dificuldades e encolhido cada vez mais nos últimos anos, com a pandemia do coronavírus atingindo em peso o faturamento das livrarias de rua.

Fora isso, é importante dizer que a taxação do livro com a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) — nome do tributo que juntará a PIS/PASEP e a CONFINS numa alíquota única de 12% — inviabilizará a sobrevivência de diversas editoras, livrarias e também escritores e outros profissionais do livro. A alíquota proposta é bem maior que o percentual que os escritores recebem com a venda de cada exemplar de suas obras mesmo em grandes editoras, por exemplo. Se essa proposta passar, veremos a crise do livro se agravar, criando mais desemprego e menos acesso a um item essencial para quem acredita em livre expressão e vê a efabulação como uma necessidade humana que precisa ser satisfeita, como diz Antonio Cândido em seu famoso ensaio sobre direito á literatura. E se ela não passar, muito por causa da pressão que exerceremos agora, não devemos encarar essa desistência como uma negociação, uma bondade deles, um sinal de racionalidade e nem aceitar que essa possível renúncia seja usada para justificar outras medidas que seguirão deixando o Sistema Tributário brasileiro nesse mesmo lugar de mantenedor de desigualdades.

Se a gente quer defender o livro e todos os direitos que se relacionam a ele, é preciso olhar para o todo e combater esse tipo de política econômica e social que parte sempre para a supressão de direitos, porque essa ofensiva contra o livro só demonstra o quanto a fruição da cultura, incluindo aqui a literatura, é um direito humano que precisa ser preservado e ampliado, especialmente quando se torna foco de governos que não toleram o diferente e atacam a literatura pelo seu potencial subversivo, humanizador e denunciante. Toda a discussão sobre o acesso ao livro também envolve questões estruturais da sociedade brasileira que são constantemente reiteradas por essa política fiscal que se posiciona a favor de manter os ricos e poderosos pouco tributados e tem sido reforçada pelo Guedes nessa proposta que agora debatemos.


*É interessante destacar que a tributação sobre o consumo afeta especialmente as mulheres, por elas serem as principais responsáveis pelas compras da família e também porque serviços e produtos, como sabonetes, absorventes, desodorantes, shampoos e afins, que constam como destinados às mulheres costumam ser mais caros sem qualquer motivo específico para isso. Além de tudo, a situação piora quando se analisa o caso da mulher negra, que lida com isso e ainda vive disparidades bem específicas no mercado de trabalho que fazem com que ela receba menos que mulheres brancas e homens no geral. (Mulheres brancas recebem menos que homens brancos). A desigualdade alimentada pela tributação regressiva contribui para a feminilização da pobreza.


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