O poema em linhas porcas por Álvara de Campos Feios

Parodiando clássicos para falar de ontem, hoje e amanhã

nunca conheci uma mulher que tivesse pulado faxina
todas as minhas conhecidas têm sido campeãs em limpeza e organização
e eu, tantas vezes nojenta, tantas vezes porca, tantas vezes feia,
eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
indesculpavelmente suja

eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
eu, que tantas vezes tenho sido ridícula, absurda,
que tenho sujado com os pés publicamente os tapetes das etiquetas,
que tenho sido grotesca, mesquinha, nada submissa e arrogante
que já não tenho mais sofrido com cascalhos e retalhos caídos no chão e me calado sobre
e quando tenho calado, tenho sido mais ridícula ainda limpando sem querer

eu, que tenho sido cômica às mulheres ao redor
eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços vendedores de produtos de limpeza
eu, que tenho feito vergonhas domésticas, descansado antes de limpar
eu, que quando uma obrigação dessas surge, me tenho sempre em outro cômodo
pra fora da possibilidade da labuta
eu, que já não tenho mais sofrido a angústia dessas pequenas sujeiras ridículas
eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo

todas as mulheres que eu conheço e que falam comigo
nunca tiveram um ato porco, nunca sofreram de preguiça,
nunca foram senão princesas — todas elas princesas e servas — na vida…
quem me dera ouvir de alguém a voz feminina
que confessasse não um pecado sexual, mas algo que não foi limpado e organizado como deveria
que contasse, não sobre uma noite de sexo sujo, mas uma porcaria!
não, são todas ideias, se os oiço e me falam
quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi imunda?
ó princesas e servas, minhas irmãs

arre, estou farta de semideusas!
onde é que há outras mulheres sujas e feias nesse mundo?
então sou só eu que sou suja, feia e despudora nesta terra?

poderão os homens não as terem obrigado,
podem ter sido traídas, socadas, machucadas — mas porcas nunca!
e eu, que tenho sido porca sem ter sido traída, socada e machucada,
como posso eu falar com as minhas superioras sem titubear?
eu, que venho sido suja, literalmente suja,
suja no sentido preguiçoso, indecoroso e repugnante da porqueza.

trapos somos, trapos limpamos, trapos engomamos —
que trapo sujo que é este mundo!

o horror sórdido do que, a sós consigo,
vergonhosa de si, no escuro, cada mulher pensa ter que limpar


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Aproveite para reler ou conhecer o Poema em Linha Reta do Fernando Pessoa, heterônimo Álvaro de Campos, nesse livro disponível de graça para os assinantes do Kindle Unlimited.

talvez ainda dê tempo de reiniciar

Mathew Schwartz

uma manchete sobre uma ameaça de golpe paira na tela lado a lado com segredos e dicas para:

a) comprar o melhor celular
b) investir o auxílio emergencial
c) economizar dinheiro
d) melhorar a nota no Serasa
e) se tornar um empreendedor
f) dormir bem
g) cortar carboidratos
h) emagrecer
i) se manter produtivo

não tem nada sobre ganhar dinheiro dormindo
ninguém acredita mais nisso
mas ainda tem quem creia em cloroquina cápsulas de vitamina D anitta
e em um certo Messias

no pé da página
as notícias dizem:
bilionários cada vez mais ricos
extrema pobreza em ascensão
violência doméstica também

clique aqui se você está ciente e não quer continuar


Esse poema foi selecionado para antologia antifascista da Hecatombe, selo da Urutau. Para saber mais sobre a publicação que vai vir, convido todos a acompanharem as redes sociais da editora.

Coisas para não fazer durante uma quarentena

talvez listas poéticas

Eduard Militaru — Unsplash

deixar a louça acumular

ir ao supermercado sem lista

esquecer de comprar verdura batata feijão arroz macarrão

e chocolatinho porque a vontade sempre vem

ouvir o presidente

sair de casa

lembrar da vida lá fora

esquecer da vida lá fora

deixar escapar pela janela a vontade de sonhar e ter pesadelos no lugar

se tornar planta

porque planta precisa de sol e dessa janela quase nenhuma luz entra nessa época do ano

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Pequeno manual da pausa:

Talvez seja uma boa descansar um pouco

Acervo Pessoal
  • Vá caminhando;
  • Só tome café se o objetivo de cada gole não for ficar mais produtivo, concentrado ou qualquer coisa que o valha;
  • Coma sem culpa;
  • Lembre-se que comer sem culpa significa não pedir desculpas por comer, independente do prato escolhido;
  • Saboreie sem pressa;
  • Não saia imediatamente após terminar. Fique alguns minutos olhando o movimento. Ou lendo. Ou escrevendo. Talvez até mesmo interagindo com algo ou alguém;
  • Se permita criar histórias para cada pessoa que você ver passar. Se a rua estiver muito vazia ou com tudo se movendo rápido demais, foque no cenário no lugar;
  • Aprecie o que você encontrar de bonito ali ou no caminho ou mesmo na sua imaginação;
  • Volte para casa bem devagar. Pare para contemplar o mundo, se assim quiser. Cantarole durante o percurso. E, repouse, como se uma jiboia fosse;
  • Se possível, sonhe.

O pequeno manual da pausa não é autoritário, apesar do uso dos verbos no imperativo. Ele só tem validade, e ainda assim somente como uma sugestão, para quem precisar, quiser e puder. Aceita adaptações.

Três poemas para o Oito de Março

Ou “Linha Direta, a tríade”

Judite decapitando HolofernesArtemisia Gentileschi

PRÓLOGO

sem querer
a gente deixa morrer na gente
o que precisa
de cuidado
apoio
sol na medida certa
e uma conversinha mole
regada a café
sorrisos
e comida de padaria

é uma morte devagar
que acomete
quem teme
não poder mais nada

é uma morte lenta
que caminha junto
com a desesperança
o controle
a apatia
a dor
a ameaça

UMA HISTÓRIA PARTIDA AO MEIO

um safanão
diante do não
outro
corretivo futuro

a mesa não foi posta na hora
soco na boca do estômago
choro silencioso
um pedido de perdão
dessa vez não

a polícia entra em cena
78 minutos depois
encontra a mulher sozinha
ensanguentada, mas viva

EPÍLOGO

estar suja de sangue
me incrimina
e alivia

esse gosto de ferro na boca é o sabor da legítima defesa


O Dia Internacional da Mulher não existe para que empresas prestem homenagens estereotipadas em forma de propaganda ou se apropriem da luta feminista para vender seus produtos. Essa simbólica data surgiu para denunciar a ainda insalubre condição feminina no mundo, propor debates, discutir políticas públicas e dar visibilidade aos feitos e lutas das mulheres.


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Lar

é uma casa muito engraçada
não tem nada meu
a não ser meu corpo
que espera
asilo

é uma casa muito engraçada
dessas que não aparentam ser
o lar de ninguém
mas muita gente mora
e não parece se sentir
morando

são casas muito engraçadas
todas essas que ficam
nos assentamentos
e com ar de provisoriedade
permanecem
enquanto nossas esperanças
nascem morrem brotam crescem são arrancadas
e doem
como doem

a casa que me cabe
está longe
vive no futuro
ficou no passado
encontra-se em território perigoso
um lugar estrangeiro
ou de ameaças, violências e memórias conhecidas

memórias que guardam o medo dos últimos dias
e o cheiro de chá, pão e fogo
que muito antes do adeus
tomava conta da cozinha
antes de qualquer bom dia

Esse poema foi inspirado nos relatos do livro “Longe de Casa” de Malala Yousafzai e escrito especialmente para o Dia Mundial do Refugiado.

De princesa à bruxa

Imagem de parte do kit press que recebi da Editora Leya — Acervo Pessoal — Adquira “A princesa salva a si mesma neste livro” aqui e “A bruxa não ai para a fogueira neste livro” aqui.

Se em a princesa salva a si mesma neste livro, Amanda Lovelace começa com um poema que homenageia o personagem Harry Potter e isso se relaciona com o conteúdo da primeira coletânea da autora, a referência à Katniss Everdeen em a bruxa não vai para a fogueira neste livro também não é por acaso.

Ao falar da personagem principal da trilogia Jogos Vorazes, Amanda diz que a garota em chamas a inspirou a inflamar o mundo. Com poesias que tratam sobre cultura do estupro, críticas aos padrões de beleza, violência, opressão histórica e luta, a poeta tenta acender uma chama dentro de cada uma de suas leitoras.

A trajetória de princesa à rainha do primeiro livro é sobre descoberta, amadurecimento e resiliência. Nela, a escritora de New Jersey expôs sentimentos, experiências, perdas e as violências que passou. Ela partiu de si e atingiu diversas pessoas que viveram situações parecidas.

Compartilhar histórias, principalmente essas que comumente são jogadas para debaixo do tapete, como a Amanda e muitas outras fizeram, encoraja outras pessoas a falarem de acontecimentos semelhantes e a reconhecerem o que viveram.

Seja através de poesia, contos, crônicas, artigos ou mesmo hashtags como #MeToo, #MeuPrimeiroAssedio e #MeuAmigoSecreto, vozes, principalmente femininas, estão sendo amplificadas e o que elas dizem mostram ao mundo o quanto a violência e o machismo ainda é, infelizmente, parte da vida das mulheres.

Durante a leitura de a bruxa não vai para a fogueira neste livro é impossível não pensar nesse momento que vivemos. As mulheres descobriram que outras também passam e passaram por situações semelhantes às que elas vivenciaram e que isso não é por acaso. Há um sistema de dominação por trás de tantas coincidências.

Quando Amanda escreve sobre as mulheres que vieram antes de nós e foca, principalmente, nas bruxas queimadas em fogueiras, a gente se lembra que o sistema que abafa tantas vozes hoje fez o mesmo no passado.

A intertextualidade, muito presente no trabalho da autora, é usada também para nos fazer pensar em todo esse sistema. Obras e personagens ficcionais, como June, de O conto da Aia, são lembradas em poemas. Todos os nomes presentes dessa forma no livro se relacionam com resistência. Inclusive o de Emma Sulkowick, que não é uma escritora ou uma personagem ficcional, mas é lembrada por Amanda por ter carregado durante anos um colchão por todo o campus universitário como um protesto contra os estupros que acontecem nas universidades e como eles são tratados pelas instituições.

A performance feita por Emma recebeu o nome de “Carry that weight” e se relaciona com sua própria vivência. Ela sofreu um estupro, denunciou, o caso foi arquivado pela universidade e ela seguiu todo o curso sendo obrigada a conviver com quem a violentou. Ao andar com o colchão em que ela sofreu a violência pelo Campus, Emma compartilhou com o mundo sua história como um manifesto.

a bruxa não vai para a fogueira neste livro reúne muito do que descobrimos coletivamente nos últimos anos e convida quem lê para mudar esse sistema que segue vitimando mulheres por serem mulheres. A obra cita exemplos de força, como June e a ativista Emma, e pode ser lida como um manifesto poético. Nela, o fogo é colocado como a matéria-prima para a transformação. Ele representa a raiva, a luta e a resistência.

De princesa à bruxa. Que o futuro nos reserve uma transformação que mude a realidade das mulheres que vivem nesse mundo.


No dia 11/07/18, a Editora Leya promoveu um encontro com leitoras. Conversamos sobre muita coisa, entre elas, sobre a importância de poetas como Amanda Lovelace. Além do bate-papo entre editoras e leitoras, rolou também uma live com a autora de a princesa salva a si mesma neste livro e a bruxa não vai para a fogueira neste livro. O conteúdo é em inglês e está disponível no Facebook da editora. Confira a live aqui.


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Porvir

é lei
dizem os papéis
está tudo certo
diz o juiz

não é justo
eu digo
pensando no meu filho

é ilegal
a permanência
é clandestina
a entrada
serei processada

estrangeira,
palavra que me acompanha
deportada,
sentença que me foi dada


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Em busca

Foto de Yannis Behrakis. De acordo com a Reuters, o homem que se vê dentro do ônibus chegou à capital grega Atenas em uma embarcação que transportava 2.500 refugiados que desembarcaram na ilha de Lesbos.

um mar
de água
terra
dinheiro
e angústia
entre o aqui
e onde nasci

estrangeiro
meu idioma diz
e minha face
concorda

em fuga
minha história conta
em desespero
engasgo minha esperança
há um oficial da imigração
à minha espera


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Amanda Lovelace e a transformação dos contos de fadas

Acervo Pessoal — O livro “A princesa salva a si mesma neste livro” pode ser comprado aqui.

“A princesa salva a si mesma neste livro” começa com um poema que faz referência ao personagem icônico Harry Potter. Amanda Lovelace, norte-americana, formada em literatura inglesa e autora desse livro, conta uma história sobre amadurecimento através de poesias e, ao lembrar da trajetória do menino que sobreviveu, eu pensei em tudo que a saga me ensinou ao narrar os caminhos de Harry, Rony e Hermione.

Histórias sobre se tornar adulto são poderosas justamente por mostrar que a vida é um processo de aprendizados e a gente nunca está completamente preparado para lidar com algumas experiências que fazem parte dela. Livros e o que eles nos contam ajudam a gente a preparar o terreno para o que não é passível de controle e a entender que é possível continuar mesmo quando a gente acha que não.

Na obra escrita por Amanda Lovelace, o livro é colocado como mais que um objeto, ele é também um meio em que o eu-lírico encontra sua própria identidade. A princesa, a donzela e a rainha são personagens típicas de histórias infantis, mas recebem uma outra roupagem de acordo com o desenvolvimento dessa narrativa contada através de poemas e capítulos.

Amor, amizade, autoimagem, a morte de um ente querido e a dor do luto são tratadas pela autora de forma sensível e complexa. A jovem, apaixonada por livros e contos de fadas, descobre que as histórias podem ser diferentes das que ela está acostumada e seu processo de amadurecimento se mostra evidente quando ela percebe que princesas também podem salvar a si mesmas.

A literatura é também uma forma de se conhecer e um apoio para quem lê, a lembrança da saga de Harry Potter expõe a importância dessa e de outras histórias para quem as encontra. E “a princesa salva a si mesma neste livro” agora também é uma dessas obras que podem amparar alguém a descobrir sua própria força.

Esse livro pode dividir a estante com “As vantagens de ser invisível”, de Stephen Chbosky, “Carta de amor aos mortos”, de Ava Dellaria, e com a saga que tornou J. K Rowling célebre, já que todas essas obras também tratam sobre crescer, luto e descobertas.

Poemas não são uma linguagem considerada acessível, mas Amanda Lovelace faz parte de uma geração de mulheres que faz questão de escrever como quer, num formato simples e de fácil entendimento, o que, além de encorajar a leitura, também estimula pessoas a se expressarem através da poesia.


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