Donna Polla

O comício – Benedito José de Andrade

Quando comecei a fazer as primeiras lições de italiano no Duolingo, eu não conseguia parar de pensar na minha Tia P.*. Era inevitável. Se aprendia que rato era topo, esperava que na lição seguinte o Duolingo me apresentasse o famigerado pollo e todas as melhores maneiras de pedi-lo. Nessa brincadeira, minha cabeça virou um verdadeiro galinheiro de memórias plumadas da viagem que eu fiz com ela pra Itália.

A viagem foi em família. Com justificativa de saudade, mas motivação de turismo. Um desses passeios que acabam envolvendo vários núcleos parentais e até mesmo amigos de longa data. Tinha mais gente querendo ir do que gente podendo pagar e, no fim das contas, formou-se um grupo com dois casais, sendo um deles meus pais, um tio avulso, uma amiga da família também avulsa e eu, todos indo ao encontro do meu irmão.

Piadas sobre família Buscapé à parte, a viagem fluiu muito bem e encheu os olhos, o coração e a pança de todos os envolvidos. Ou melhor, quase todos. Não sei se a Tia P. diria que ficou tão satisfeita assim em um desses quesitos.

Foi nesses dias que descobri que minha Tia P. é uma pessoa obcecada por frango. Durante os preparativos do passeio, eu pensei que, ao menos em relação a ela, o único grande desafio de convivência seria o fato dela gostar demais de rezar, ser católica fervorosa, nos obrigar a ir ver o Santo Sudário e querer entrar em todas as igrejas e lojas, essas não necessariamente religiosas, que a gente encontrasse no caminho. Coisa que de fato ela meio que fez, com apoio da minha mãe e tudo, mas, já em Roma, primeira cidade visitada nessa jornada, a gente descobriu que se tem uma coisa que Tia P. gosta mais do que de Deus, essa coisa é frango. 

“Pizza de frango é coisa de brasileiro. Ainda mais se tiver catupiry envolvido”, meu irmão argumentava sem sucesso. Ela insistia. Ele cedia. O que significava que ele, o único falante de italiano, acabava tendo que tentar conversar com garçons e até cozinheiros sobre a possibilidade de fazer uma pizza ou qualquer outra coisa com frango pra ela. Tia P., para garantir que sua mensagem chegaria ao destinatário, sempre ia junto dele e ficava falando em português o que ela queria, atrapalhando aquele diálogo, que já não ia ser fácil. Vez ou outra, com um gestual aprendido como italiano na novela global Terra Nostra, dizia “pollo” com pronúncia espanhola, idioma que ela também não conhece. 

O pedido era sempre visto como absurdo. Mais até que catchup sendo colocado numa legítima pizza paulistana da Mooca. A maioria dos garçons entendia que ela queria que eles colocassem um peito ou coxa de frango em cima da pizza. E, eu juro, isso não era um problema no italiano do meu irmão que, apesar das dificuldades, cursava engenharia no idioma graças ao Ciências Sem Fronteiras. Era um problema de má vontade de todos os seres humanos do mundo com ela, a “Donna Polla”. Meu irmão, eu, os garçons, os cozinheiros, a guia, meus pais, meu padrinho, a amiga da minha mãe que é quase uma tia pra mim e, arrisco dizer, até o meu tio, marido de Tia P., todos ficavam contra ela assim que ela abria um cardápio. 

No dia que comi a melhor lasanha da minha vida, Tia P. enfim encontrou seu “pollo” em um restaurante e, sorridente como nunca, pediu. O restaurante trabalhava com um cardápio fixo para a semana: entrada, prato principal e sobremesa já definidos e numa leva só. Algo como um pacote promocional de groupon ou peixe urbano, mas sem a compra antecipada. Frango com aspargos era o prato principal, mas antes dele, na entrada, havia uma lasanha. A mais saborosa lasanha que já existiu. E que Tia P. perdeu. Ela, ao se deparar com aquele enorme prato de massa como suposta entrada, não quis nem tocar na comida. A família toda insistiu para ela experimentar, mas não adiantou. O que interessava era o frango com aspargos e não valia a pena encher a pança de lasanha pra depois custar a comer o que, segundo ela, era refeição de verdade. O pedaço de lasanha dela foi dividido em partes iguais com o restante da mesa que fingia não estar achando ótimo a chance de comer mais um pedaço daquela maravilha. 

Quando o prato principal chegou, encontramos no lugar de uma bela refeição pedaços de frango pálidos, oleosos, meio duros e sem qualquer cheiro de tempero. Mesmo assim ela não desanimou. Foi preciso que ela provasse uma, duas, três vezes, pra começar tentar acreditar naquilo e, depois, ainda provasse de novo para tirar a prova de que aquele “pollo” era a comida mais insossa já cozinhada no planeta Terra. 

Todos comemos aspargos e batatas, esses extremamente saborosos e temperados, enquanto ela insistia em provar os frangos que a maioria de nós não queria comer, achando que algum pedaço se salvaria milagrosamente daquele não sabor insuportável. No fim das contas e depois de muito insistir nos frangos horríveis, ela tomou a sábia decisão de usar os sachês de sal e azeite à disposição para melhorar aquilo que teria que ser a refeição dela naquele dia. 

Tia P., entretanto, não aprendeu a lição. Continuou o resto da viagem insistindo nisso, deixando todo mundo meio constrangido em muitos momentos, sem nunca desistir de seu sonho de provar um legítimo pollo brasileiro em solo italiano.

Voltamos para casa felizes, mas também secretamente putos, sem imaginar que Tia P. e seu insuportável desejo de comer frango em todas as refeições se tornaria uma das principais histórias desses quinze dias maravilhosos.

*nome suprimido por medo de processo.

Esse texto foi publicado originalmente na 11ª edição da minha newsletter “Sala de Espera”. Assine aqui para passar a receber meus escritos diretamente na sua caixa de entrada.

Um mês no planeta sem nome

Imagem de Jessica Lewis

Dias 01 e 02: Os efeitos do descongelamento vital ainda estão intensos. Estou sonolenta, sentindo um chiado no ouvido e com muita dor de cabeça. Fora o enjoo e a boca com gosto de guarda-chuva que não vê água há dois anos. Quem diria que toda missão em outro planeta ia começar com agentes com sintomas de ressaca?

Tenho uma missão a fazer, mas hoje não conseguirei sequer sair dessa nave e pegar amostras do solo para enviar para a Central de Pesquisa Interplanetária. Vejo esse novo planeta desconhecido apenas pela janelinha. Não parece haver quase nada com cores fortes por aqui. Tudo é mais ou menos como se meu filho tivesse imaginado um planeta povoado por unicórnios. Rosa, verde, azul, roxo, amarelo, tudo enorme e em cores pastel. A estrela dessa galáxia brilha da mesma maneira que o sol de nossa Terra, mas todo o resto é diferente.

Dia 03: Fora a sede, que provavelmente se manterá firme e forte comigo nos próximos três dias, estou bem. Hoje, assim que acordei, comi uma porção da minha ração, troquei de roupa e dei uma volta na região da nave. Colhi amostras do solo, de diferentes plantas e de alguns insetos. Como tudo já indicava, oxigênio aqui é abundante, como na Terra, e por isso eu nem precisei usar equipamentos de auxílio para a respiração. O que de fato é um alívio, porque me dá mais tempo no planeta e me permite tentar me misturar com o povo originário daqui sem tantos problemas.

Nessa primeira saída, a temperatura estava amena. Cerca de 19º Celsius. Só que o cenário aqui parece quase distópico ainda que esteja lotado de plantas e água. Algo na atmosfera faz os riachos, lagos e mares serem roxos, quase lilases, não azuis. Isso parece tão errado.

Dias 04 a 10: Depois de um passeio mais longo e uma análise detalhada das imagens que consegui do satélite que lancei antes de desembarcar, concluí que estou no planeta das candy colors e a qualquer momento vou descobrir que esse mundo é povoado por Hello Kittys.

Dia 11: Comecei a ver muita beleza nas cores daqui. Especialmente durante o pôr do sol. É um mundo fantástico, desses que fazem a cabeça das crianças e encanta adultos que ainda gostam de sonhar. Tem uma fruta aqui com o gosto daquele sorvete azul claro que chamamos na Terra de “pedacinho do céu” e outra, do tamanho de uma manga, que me lembrou um pouco uma amora, só que mais doce. Penso nisso agora para não neurar mais com o fato de que o contato com a vida inteligente desse planeta já aconteceu e foi de uma maneira totalmente diferente do que eu gostaria. Estou numa sala enorme, de um prédio bege pouco decorado, mas bem bonito, esperando que falem comigo. Um homem e duas mulheres, ambos claramente cientistas, me encontraram hoje na mata. Eu não imaginava que eles já tinham tecnologia para detectar minha chegada tão rapidamente. Talvez eu esteja em risco. Quero acreditar que não.

Dia 12: Eles claramente não gostam da minha presença, mas me parecem um povo curioso sobre minha anatomia e pacífico com outros planetas, na medida do possível. Tento me comunicar mais com os cientistas que me encontraram, porque vejo neles uma vontade genuína de trocar tecnologias e saberes, que é meio que o motivo que me trouxe aqui, mas depois da nossa conversa conjunta com os representantes da região, acho que não vai acontecer nada. Nenhuma troca, ainda que eles pareçam querer isso como eu quero. Nós simplesmente não conseguimos nos comunicar. Nossas linguagens são tão diversas e partem de símbolos tão diferentes que o meu tradutor automático não consegue identificar sequer os fonemas deles e nem eles e nem os seus aparelhos conseguem entender os meus símbolos, minha linguagem, os sons que eu emito.

Dias 13 a 18: Os nativos desse planeta são altos, muito altos, e totalmente pinks. Sim, pinks. Não rosa bebê, como grande parte da vegetação, mas pinks. Tudo que percebi até agora só explica a altura das árvores que vi quando cheguei e das camas, mesas e cadeiras que agora uso. Todo o resto continua sem explicação, especialmente agora que não tenho como enviar mais tantas amostras sem parecer descortês. Os corpos deles tem o formato relativamente parecido com o nosso, mas eles possuem uma consistência mais firme, mas ao mesmo tempo mais leve. A carne deles não parece ser a mesma que a nossa e dos nossos bichos. Somos bem parecidos, mais do que eu imaginaria até, o que no fim das contas me intriga mais do que todas nossas diferenças óbvias.

Dia 19: Tenho medo. Por isso não saio mais desse prédio em que me deixaram e observo tudo que posso pela janela. Não acho que vão me dissecar ou algo assim. Ao menos não agora. Eles parecem estar muito intrigados com a maneira que eu me expresso, então precisam de mim viva e falante.

Me deixam em paz grande parte do tempo, mas quando se aproximam assoviam e sibiliam o tempo todo. Eles querem algo de mim, mas eu não sei o quê.

Dia 20: Enquanto eu falo, eles olham a minha língua tão intrigados que temo que eu acorde amanhã sem ela.

Dia 21: Tenho sido injusta com os habitantes desse planeta. Eles não tentaram, em nenhum momento, me intimidar. Pelo contrário. O que me deixa mais desconfiada ainda. Temo me tornar uma espécie de pet deles ou sei lá. Não pode ser normal tratar um estrangeiro de forma tão tranquila, especialmente quando ele poderia ter avisado sobre sua chegada e não o fez. Ainda mais quando eles parecem sentir medo também. Essa paz toda me parece antinatural demais. Se são tão puros, o que eles vão pensar de mim se souberem que foi uma guerra e competição entre países que incentivou os primeiros avanços do meu povo para o desenvolvimento do conhecimento interplanetário?

Dias 22 a 30: Eles tentam ser simpáticos, então eu tento ser simpática do meu jeito, o jeito humano, e eu acho que eles quase gostam de mim. Eles cantam, dançam, leem, andam quase sempre em grupos, se encontram para assoviar em prédios como esse em que estou hospedada, cozinham muito bem e parecem estar tentando criar uma maneira de se comunicar comigo. Eles não param de tentar, pelo menos. Como se a insistência fosse o suficiente para fazer a gente começar a se entender.

Dia 31: Trouxeram minha nave para cá, para eu me sentir em casa. Aparentemente, a única coisa que temos em comum são os símbolos de lar, porque estamos nos comunicando a partir unicamente de desenhos de tudo que simboliza conforto, amizade, segurança e origem. Ainda que “lar” seja uma palavra tão abstrata, nos entendemos porque eu quero segurança para conseguir voltar para minha casa e eles querem a certeza de que eu não vou tomar a deles.


Esse texto foi feito a partir do #EscritaNaQuarentena, desafio de escrita criativa proposto pela Stefani Del Rio para a gente tentar se distrair um pouco durante esta pandemia. A proposta do terceiro dia era fazer um diário de bordo de uma viagem interplanetária e esse foi o resultado final do meu trabalho. Saiba mais sobre a ideia nesse post do Twitter ou no Medium, participe e se divirta.

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