Documentário médico

Morgan Vander Hart

— Então, Dr. Marcos, eu tenho me sentido meio estranha. Não consigo me concentrar em nada. Iniciar qualquer atividade está cada vez mais difícil. Eu tenho adiado até mesmo o ato de ligar o computador e por isso prefiro deixá-lo hibernando para de manhã, logo após iniciar o dia, não ser obrigada a sentir mais um começo antes mesmo de bater ponto online. Também tenho tido pouca vontade de comer e quando a vontade vem é sempre relacionada com alimentos que não fazem muito bem, como Nutella, pizza e torresmo, porque a fome mesmo parece que sumiu, mas eu ainda como, porque é hora de comer, e quando como eu até gosto, mesmo de arroz e feijão. E não tenho dormido bem, doutor, apesar de continuar dormindo muito.

— Hmmmm… O que mais?

— Eu tenho a sensação de que não há futuro possível. Dr. Marcos. E isso me entristece, mas também me alivia, porque eu não preciso mais acreditar em nada e nem buscar alguma coisa. Na verdade, isso é bom, porque isso me impede de criar expectativas.

— Isso que você narra parece depressão, não acha? Toda essa apatia…

— Acho que sim. Na verdade, eu não saberia afirmar com certeza.

— Hm…

— Doutor, você sabe de algum documentário bom sobre isso para eu assistir?

— Ana?

— É, doutor, um documentário sobre depressão.

— Ah, eu não conheço. Não vejo muitos documentários, mas minha filha adora. Posso perguntar para ela se ela tem alguma indicação, se você quiser…

— A Cecília gosta de documentários?

— Gosta sim. Esses dias ela me fez assistir com ela um que tinha na Netflix… De uma mulher negra com um vozeirão, sabe?

— Hmmm… Nina Simone?

— Isso. Eu até gostei… Depois fiquei procurando umas músicas dela para ouvir no Youtube. Aquela Feeling Good é boa, né?

— É boa sim, Dr. Marcos.

— Vou te mandar agora uma receita de um remedinho que vai te ajudar, Ana. Vai chegar no seu e-mail cadastrado no app do plano de saúde, viu?

— Obrigada, Dr. Marcos.

— De nada, Ana. Manda um abraço para sua mãe.

— Pode deixar, Dr. Marcos!

— …

— …

— Ana, você pode sair da teleconferência por favor? É só clicar nesse xzinho no canto esquerdo da tela. Pega mal o médico fechar a janela do paciente assim…

— Ok, Dr. Marcos. Boa semana!


— Agora você gosta de documentários, Cecília?

— Sempre gostei.

— Aham. Tá bom.

— Olha, eu gosto de documentários, mas eu não sou que nem você que vê qualquer um, independente do assunto. Eu busco ver os de temas que me interessam.

— Como Nina Simone?

— Sim, como Nina Simone.

— Seu pai quer que você me indique um documentário sobre depressão. Por motivos médicos.

— Meu pai me mete em cada uma. Anem.

— Não precisa ser sobre depressão então. Me indica qualquer um que você já viu e eu possa gostar.

— Se você pegar para ver um documentário que acompanha a vida de uma sacola plástica, você vai amar, Ana. Você gosta de documentários e pronto. O seu lema é ver todos, porque você é tipo o Et Bilu e fica vendo esses filmes sem parar e depois fala “busquem conhecimento” sem dizer bem isso indicando algum no Twitter.

— Eu gostei dessa ideia de acompanhar a vida de uma sacola plástica. Você viu algo assim, foi?

— Não, Ana, eu só quis falar a coisa mais absurda que veio na minha cabeça.

— A ideia é realmente boa, você sabe disso, né?

— Eu não sei, porque eu não ligo para história pessoal de uma sacola plástica, mas se você diz…

— Posso pegar sua ideia para mim?

— Hm… acho que pode, né?

— Vou ver se começo a filmar hoje ainda, aproveitar que minha mãe saiu para fazer compras e vai chegar toda uma nova leva de sacolinhas que precisarão de higienização.

— Não deixa de filmar a sacola se secando no sol depois de tomar banho.

— Se eu colocar um nome nela vai ser muito esquisito?


A ideia desse conto surgiu a partir de uma conversa com a versão tuiteira da tutora criativa e agente literária da Ceci. Nesse papo, eu realmente falei que isso de gostar de documentário como algo geral é coisa de gente cultíssima, mas meio Et Bilu, e não sei como acabei prometendo escrever um texto, esse aqui, com ou inspirada em uma personagem do livro “Ninguém morre sem ser anunciado”. Depois, já em outra conversa, essa privada e posterior ao envio do texto, eu cedi os direitos de filmagem desse doc da história da sacola citado no conto para a representante da Ceci. Agora acho que vou mandar uns vídeos das minhas sacolas via direct para ela entender que eu doei minha ideia, mas talvez queira ajudar com o roteiro. Qual sacolinha dessas vinte que estou olhando secar será protagonista dessa emocionante narrativa?

Trailer de um filme estranho, meio ruim e talvez otimista demais sobre a vida após algum apocalipse

Alex Litvin

O que acontece quando começamos a tensionar o significado das palavras? O que a gente perde quando somos forçados pelas circunstâncias a usar as palavras e expressões que conhecemos de outra forma? O que essas mudanças significam? O que elas causam nas pessoas e na sociedade? O que acontece quando elas surgem a partir das consequências do que a humanidade já viveu, mas quase ninguém mais se lembra?

O que a humanidade conhecia como três da tarde não é mais três da tarde como sempre foi. Não tem luz do sol, não tem trabalho formal, não tem horas e mais horas que separa esse momento da hora de se recolher. As três horas da tarde parecem mais próximas agora das dez da noite de antes.

Família não é mais somente o grupo de pessoas que tem vínculo sanguíneo, de sobrenome e talvez de afeto. Família agora tem um significado mais próximo do que antes se entendia como comunidade. A sobrevivência humana passou a depender de redes de solidariedade e esses laços que surgiram da troca e do diálogo fizeram com que a ideia de parente ganhasse outros sentidos.

O mundo que se desenha agora, muitos anos após o que alguns chamaram de fim do mundo, é outro. Ele veio após os nomes democracia, povo e perseguição serem deturpados. Ele veio após fugas, guerras, desespero, dor e fins ganharem novas acepções. O que existe agora é um desejo urgente de sobrevivência e uma noção de que a humanidade é composta por seres sociais e que as pessoas precisam estar sempre cercadas de outras.

“Talvez tenhamos ficado muito tempo ensimesmados”, continua a protagonista branca, idosa e de cabelos lisos chamada Sônia, como a atriz famosa que a interpreta, para um grupo que não conheceu nada daquilo que ela viveu e agora a ouve com curiosidade e respeito.

Tem quem acredite que esse novo mundo se cria quando, às três horas da tarde, as pessoas se sentam juntas para conversar e compartilhar histórias antigas e novas. Alguma coisa acontece quando as pessoas se juntam. Alguma coisa acontece quando essa gente coloca no papel o que uma comunidade lembra, sonha, ri e conversa.


Esse texto é resultado do dia 8 do Desafio de Escrita para a Quarentena proposto pela Stefani Del Rio. A proposta era que se escrevesse uma espécie de sinopse para um filme fictício de distopia e/ou pós apocalíptico.

Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Corpos celestes

Free Nature Stock — Pexels

— Celeste, você vai mesmo passar a noite toda olhando para o céu dessa janela?

— Faz tempo que eu não faço isso de parar e olhar…

— E pensar, né? Você adorava essas coisas de astronomia quando criança. Sua mãe sempre comenta que soube que escolheu o nome perfeito para você quando você pediu um telescópio de Natal, não uma bicicleta, como todas as crianças pediam mesmo quase nenhuma podendo ganhar.

— Sabe o que me intriga? Isso de medir distância por ano-luz. De saber que quando eu olho para o céu agora, eu vejo o passado. Que alguma dessas estrelas que brilham para mim agora nem existem mais e que muitas que existem só poderão ser vistas daqui quando não existir mais humanidade. Que tempo e distância podem se combinar para mostrar o quanto a gente não entende nada de nenhum dos dois.

— Você vai rir de mim agora. Eu acho.

— Lá vem…

— Presta atenção e pensa aqui comigo: o céu que a gente vê é uma folha de um diário que chegou nas nossas mãos e agora a gente tenta imaginar o resto do que foi escrito só com isso que a gente tem.

— Mas a tecnologia…

— Celeste, você não gosta só de astronomia, você gosta também de história e literatura!

— Você não vai parar de rir mais disso, né?

— Vem cá, chega mais perto dessa janela e vem ser historiadora do Universo comigo!

— Você não vai encontrar nada de romance nisso, Naty.

— Não? E quando estrelas se fundem e formam uma supernova mais brilhante? Isso não é o que o amor fez com a gente?

— Ai, ai, você não vai parar com essa bobagem, né?

— Não, porque você está rindo toda hora. Tá adorando viajar comigo que eu sei! Ah lá! Tá rindo mais ainda agora!

— O que você quer com isso, meu amor?

— Quero te fazer rir até a gente ostentar para o Universo, bem dessa janela, um beijo daqueles.


Esse texto foi feito originalmente para complementar a minha última newsletter. Já em isolamento social. Como o quinto tema do #EscritaNaQuarentena era escrever uma cena clichê com personagens “fora do padrão”, optei por publicá-lo aqui. Digamos então que eu iniciei esse desafio de escrita criativa antes mesmo dele ser lançado, ok?

Saiba mais sobre o #EscritaNaQuarentena nesse post do Twitter ou no Medium, participe, explore a hashtag e se divirta.

Um mês no planeta sem nome

Imagem de Jessica Lewis

Dias 01 e 02: Os efeitos do descongelamento vital ainda estão intensos. Estou sonolenta, sentindo um chiado no ouvido e com muita dor de cabeça. Fora o enjoo e a boca com gosto de guarda-chuva que não vê água há dois anos. Quem diria que toda missão em outro planeta ia começar com agentes com sintomas de ressaca?

Tenho uma missão a fazer, mas hoje não conseguirei sequer sair dessa nave e pegar amostras do solo para enviar para a Central de Pesquisa Interplanetária. Vejo esse novo planeta desconhecido apenas pela janelinha. Não parece haver quase nada com cores fortes por aqui. Tudo é mais ou menos como se meu filho tivesse imaginado um planeta povoado por unicórnios. Rosa, verde, azul, roxo, amarelo, tudo enorme e em cores pastel. A estrela dessa galáxia brilha da mesma maneira que o sol de nossa Terra, mas todo o resto é diferente.

Dia 03: Fora a sede, que provavelmente se manterá firme e forte comigo nos próximos três dias, estou bem. Hoje, assim que acordei, comi uma porção da minha ração, troquei de roupa e dei uma volta na região da nave. Colhi amostras do solo, de diferentes plantas e de alguns insetos. Como tudo já indicava, oxigênio aqui é abundante, como na Terra, e por isso eu nem precisei usar equipamentos de auxílio para a respiração. O que de fato é um alívio, porque me dá mais tempo no planeta e me permite tentar me misturar com o povo originário daqui sem tantos problemas.

Nessa primeira saída, a temperatura estava amena. Cerca de 19º Celsius. Só que o cenário aqui parece quase distópico ainda que esteja lotado de plantas e água. Algo na atmosfera faz os riachos, lagos e mares serem roxos, quase lilases, não azuis. Isso parece tão errado.

Dias 04 a 10: Depois de um passeio mais longo e uma análise detalhada das imagens que consegui do satélite que lancei antes de desembarcar, concluí que estou no planeta das candy colors e a qualquer momento vou descobrir que esse mundo é povoado por Hello Kittys.

Dia 11: Comecei a ver muita beleza nas cores daqui. Especialmente durante o pôr do sol. É um mundo fantástico, desses que fazem a cabeça das crianças e encanta adultos que ainda gostam de sonhar. Tem uma fruta aqui com o gosto daquele sorvete azul claro que chamamos na Terra de “pedacinho do céu” e outra, do tamanho de uma manga, que me lembrou um pouco uma amora, só que mais doce. Penso nisso agora para não neurar mais com o fato de que o contato com a vida inteligente desse planeta já aconteceu e foi de uma maneira totalmente diferente do que eu gostaria. Estou numa sala enorme, de um prédio bege pouco decorado, mas bem bonito, esperando que falem comigo. Um homem e duas mulheres, ambos claramente cientistas, me encontraram hoje na mata. Eu não imaginava que eles já tinham tecnologia para detectar minha chegada tão rapidamente. Talvez eu esteja em risco. Quero acreditar que não.

Dia 12: Eles claramente não gostam da minha presença, mas me parecem um povo curioso sobre minha anatomia e pacífico com outros planetas, na medida do possível. Tento me comunicar mais com os cientistas que me encontraram, porque vejo neles uma vontade genuína de trocar tecnologias e saberes, que é meio que o motivo que me trouxe aqui, mas depois da nossa conversa conjunta com os representantes da região, acho que não vai acontecer nada. Nenhuma troca, ainda que eles pareçam querer isso como eu quero. Nós simplesmente não conseguimos nos comunicar. Nossas linguagens são tão diversas e partem de símbolos tão diferentes que o meu tradutor automático não consegue identificar sequer os fonemas deles e nem eles e nem os seus aparelhos conseguem entender os meus símbolos, minha linguagem, os sons que eu emito.

Dias 13 a 18: Os nativos desse planeta são altos, muito altos, e totalmente pinks. Sim, pinks. Não rosa bebê, como grande parte da vegetação, mas pinks. Tudo que percebi até agora só explica a altura das árvores que vi quando cheguei e das camas, mesas e cadeiras que agora uso. Todo o resto continua sem explicação, especialmente agora que não tenho como enviar mais tantas amostras sem parecer descortês. Os corpos deles tem o formato relativamente parecido com o nosso, mas eles possuem uma consistência mais firme, mas ao mesmo tempo mais leve. A carne deles não parece ser a mesma que a nossa e dos nossos bichos. Somos bem parecidos, mais do que eu imaginaria até, o que no fim das contas me intriga mais do que todas nossas diferenças óbvias.

Dia 19: Tenho medo. Por isso não saio mais desse prédio em que me deixaram e observo tudo que posso pela janela. Não acho que vão me dissecar ou algo assim. Ao menos não agora. Eles parecem estar muito intrigados com a maneira que eu me expresso, então precisam de mim viva e falante.

Me deixam em paz grande parte do tempo, mas quando se aproximam assoviam e sibiliam o tempo todo. Eles querem algo de mim, mas eu não sei o quê.

Dia 20: Enquanto eu falo, eles olham a minha língua tão intrigados que temo que eu acorde amanhã sem ela.

Dia 21: Tenho sido injusta com os habitantes desse planeta. Eles não tentaram, em nenhum momento, me intimidar. Pelo contrário. O que me deixa mais desconfiada ainda. Temo me tornar uma espécie de pet deles ou sei lá. Não pode ser normal tratar um estrangeiro de forma tão tranquila, especialmente quando ele poderia ter avisado sobre sua chegada e não o fez. Ainda mais quando eles parecem sentir medo também. Essa paz toda me parece antinatural demais. Se são tão puros, o que eles vão pensar de mim se souberem que foi uma guerra e competição entre países que incentivou os primeiros avanços do meu povo para o desenvolvimento do conhecimento interplanetário?

Dias 22 a 30: Eles tentam ser simpáticos, então eu tento ser simpática do meu jeito, o jeito humano, e eu acho que eles quase gostam de mim. Eles cantam, dançam, leem, andam quase sempre em grupos, se encontram para assoviar em prédios como esse em que estou hospedada, cozinham muito bem e parecem estar tentando criar uma maneira de se comunicar comigo. Eles não param de tentar, pelo menos. Como se a insistência fosse o suficiente para fazer a gente começar a se entender.

Dia 31: Trouxeram minha nave para cá, para eu me sentir em casa. Aparentemente, a única coisa que temos em comum são os símbolos de lar, porque estamos nos comunicando a partir unicamente de desenhos de tudo que simboliza conforto, amizade, segurança e origem. Ainda que “lar” seja uma palavra tão abstrata, nos entendemos porque eu quero segurança para conseguir voltar para minha casa e eles querem a certeza de que eu não vou tomar a deles.


Esse texto foi feito a partir do #EscritaNaQuarentena, desafio de escrita criativa proposto pela Stefani Del Rio para a gente tentar se distrair um pouco durante esta pandemia. A proposta do terceiro dia era fazer um diário de bordo de uma viagem interplanetária e esse foi o resultado final do meu trabalho. Saiba mais sobre a ideia nesse post do Twitter ou no Medium, participe e se divirta.

Ver no Medium.com

Conheça Maurício

Oi, Brasil. Oi, Rede Globo. Meu nome é Maurício e eu sou professor universitário e escritor. Tenho 35 anos, moro em São Paulo e decidi que precisava me inscrever nesse programa, porque a vida em confinamento com lindas mulheres, boas festas, pessoas muito diferentes de mim e desafios de convivência me parece ser o material perfeito para me inspirar a escrever um futuro romance sobre a experiência.

Se eu me entregaria para o amor dentro do jogo? Claro que sim, para isso estou sempre aberto. Não tenho medo de viver qualquer história. Mesmo frente às câmeras. Já sou acostumado a colocar os holofotes sobre a minha vida a partir da escrita, entende? Já escrevi até sobre minhas broxadas e minhas musas. Me doarei por completo para o programa, como já faço na escrita.

Se eu tenho medo de acabar ganhando fama de vilão? Não, não tenho, sou professor e já estou acostumado com isso, Brasil. Não se engane com essa minha carinha de homem sensível e quietinho, eu sou o terror nas bancas de monografia e já aviso desde já que não tenho medo de jogar. Eu quero um milhão e meio de reais na minha conta.


Corta para Maurício na casa comentando com os outros homens do confinamento sobre o corpo de cada uma das participantes e posteriormente conversando na primeira festa com a eleita como a maior beldade da edição. Depois de umas três elofensas a ela e dez autoelogios, ele comenta “Você já ouviu falar do Jabuti? Eu só nunca ganhei porque nunca me inscrevi” e sela sua fama de feio sem noção.


Corta para a saída do escritor e professor no 6º paredão, seu 1º.


Esse texto foi feito a partir do #EscritaNaQuarentena, desafio de escrita criativa proposto pela Stefani Del Rio para a gente tentar se distrair um pouco durante esta pandemia. A proposta do segundo dia era criar um personagem do zero e escrever o texto de apresentação dele ao entrar no BBB e esse foi o resultado final do meu trabalho. Saiba mais sobre a ideia nesse post do Twitter ou no Medium, participe e se divirta.


Duas chaves e um apartamento

Eu decidi me mudar. Depois de dez anos morando em repúblicas com gente de todo jeito, eu aluguei um apartamento para mim. Finalmente eu ia poder seguir minha vida sem pensar no que a mãe da Tati ia fazer quando descobrisse que a moça que estava sempre comigo era a minha namorada e parar de brigar todo dia antes mesmo de tomar café porque só tem um banheiro com chuveiro e quatro mulheres que saem na mesma hora para trabalhar.

Estava feliz. Cheguei a me sentir uma adulta de verdade. Apesar de ter precisado pedir meu pai para ser meu fiador. Depois deixei de me sentir assim. Quando decidi que era hora de me mudar, o maior motivo foi a minha vontade de ter um lugar em que pudesse ficar à vontade com a Juliana. Estávamos juntas há três anos e toda vez que eu visitava apartamentos para escolher minha futura moradia, eu pensava nela comigo naquele espaço. Avaliava se a cozinha era boa para a gente cozinhar em dupla, como gostamos, e julgava se naquele lugar daria para adotar um cão vira-lata caramelo que na minha cabeça se chamaria Megan por causa da Megan Rapinoe. Antes de analisar se o preço do aluguel valia a pena, eu olhava no Google a distância entre o apartamento e os nossos trabalhos e quais ônibus a gente teria que pegar para irmos onde sempre vamos. Tudo foi pensado em nós, mas eu me mudaria em três semanas e ainda não tinha falado para Juliana que eu queria que ela se mudasse comigo e a felicidade de dar esse passo tinha virado uma angústia sem fim.

Me sentia ridícula por não conseguir convidá-la para morar junto. Nunca me dei bem com palavras faladas. Elas sempre saíam da minha boca entrecortadas e artificiais. Eu tentei várias vezes. Desistia quando eu notava que ia parecer discurso de agradecimento do Oscar. Tudo soava forçado. Nos ensaios, eu parecia um robô programado a fazer um discurso amoroso. Por isso, pensei em escrever uma carta. Desisti. Achei coisa de covarde. Eu sou covarde, mas há níveis de covardia que até hoje eu me recuso a atingir.

Decidi comprar um cupom no Groupon e convidá-la para jantarmos num restaurante chique. No caminho, conferi se estava com minha chave do novo apartamento e uma cópia. Ambas já com chaveiro, porque eu sempre penso em tudo, mesmo antes de falar qualquer coisa. Queria entregar a dela já com o símbolo da casa Stark posto. Ela adora “As crônicas de Gelo e Fogo”. A minha, no entanto, já estava com o emblema da casa Lufa-Lufa, porque eu morro de preguiça do George Martin e sou lufa-lufana com orgulho.

Tudo estava pronto, perfeito até. Tinha que ser no jantar. Não dava mais pra fugir. Eu precisava falar. Não queria montar a casa sem ela saber que é algo nosso, sabe? Seria injusto com ela e até comigo.


Entrada, prato principal e sobremesa. O cupom nos permitia escolher várias opções. Peixe não. Salada de entrada não. Se bem que tem palmito. No fim das contas, fui no prato que levava um creme de batata baroa. Estava delicioso ou eu me lembro assim porque essa noite terminou muito bem.

“Será que a gente devia pedir um vinho?”, eu disse enquanto pensava que aquilo com certeza daria um ar mais romântico ao jantar, mesmo que a gente deixasse a taça praticamente intocada ao lado do prato. A verdade era que a vontade era de chamar o garçom e dizer: “Desce uma subzero aí, parça!”. Compartilhei esse pensamento com ela. Ela riu bastante. Pedimos chopp artesanal no lugar. “Acho que dá para falar que conseguimos achar um meio termo entre o vinho chique que deixa a gente com a língua estranha e a subzero de sempre”, ela disse.

Enquanto a gente comia, ela contava coisas engraçadas que aconteceram no trabalho dela. Tinha surgido um cara chamado Segunda-feira por lá. Todo mundo da repartição achou que ele ia requerer mudança de nome, mas ele só queria ver como ia o processo dele contra um banco. Também tinha uma outra história, mas eu não sei mais sobre o que era. Eu estava lá, sem prestar atenção, nervosa e pensando que tinha que ser naquela hora, que eu tinha tudo ao meu favor, mas, só para variar, eu não conseguia falar.

“Petit Gateau ou Crème Brûlée?”, Juliana disse totalmente formal quando acabamos de comer o prato principal. “O que diabos é Crème Brûlée? Como fala isso? Será que eu peço?”, reagi. Pedimos o creminho, mesmo sem saber o que era. Um pouco de coragem ao pedir o prato podia me ajudar a agir e fazer o convite oficial e, para falar a verdade, eu até acho que isso me ajudou no final das contas.

Eu tinha que abrir o jogo antes do jantar acabar, mas pensar na palavra oficial me deixou ainda mais desconfortável. Não queria soar como um ofício institucional. As sobremesas deviam chegar em minutos. O tempo estava acabando e eu estava ainda mais ansiosa com tudo aquilo. Decidi ir ao banheiro para enrolar, fazer um xixizinho e jogar uma água na cara.

“Que limpo! Nem parece que alguém mija aqui!”, pensei ao passar por aquela porta de madeira enorme e me deparar com azulejos claros, um vasinho de planta, uma pia bem decorada e cheirinho de lavanda. Tinha papel higiênico na cabine, infelizmente um luxo na maioria dos bares que frequentávamos na época, e ainda era um daqueles super macios e cheio de camadas! Sei que isso vai soar decadente, mas esse papel era uma novidade e tanto para minhas partes! Nessa hora, segurando a risada, decidi que tinha que voltar para mesa logo e fazer o convite nem que fosse do jeito mais tosco possível só para depois falar com a Juliana sobre ela precisar conhecer o banheiro antes de ir embora. Infelizmente toda a coragem me escapou quando me olhei no espelho ao lavar as mãos e me deparei com o meu olhar inseguro de sempre. Ali iniciei um breve monólogo encorajador e, para vergonha minha, em voz alta. Não lembro bem o que falei comigo, mas acho que foi algo assim: “Vai, Letícia, pense em outra coisa. Pense no papel higiênico macio. Pense na ousadia de pedir o creminho francês. Pense na Juliana e no cachorro que vocês vão adotar juntas. Pense em como vai ser bom acordar sempre ao lado dela. Pense que só falta suas palavras para fazer isso tudo acontecer. Respira fundo. Joga uma água na cara. Deixe vir espontaneamente. Pare de falar consigo mesma se olhando no espelho. Vai que alguém entra aqui e te vê falando sozinha desse jeito. Vão achar que você está metida com coach, Letícia! Vai para mesa agora! Vai logo!”

Lembro de ter voltado para a mesa morrendo de vergonha pensando que alguém podia ter tentado ir ao banheiro e se deparado comigo falando sozinha e decidido dar a meia volta porque era melhor ficar apertada do que lidar com uma possível doida, mas sei que logo me esqueci disso, porque assim que sentei de novo na cadeira, a Ju me perguntou sobre uma oficina literária que eu estava fazendo.

As aulas de escrita criativa foram divertidas, falei, e disparei a contar todos os detalhes: os exercícios feitos em aula, os deveres de casa, o medo do meu trabalho ser visto como ridículo, o incentivo que ouvi dos colegas e blablabla. No meio disso, me lembrei que a professora me aconselhou a criar cenas na hora de escrever e a parar de achar que preciso colocar todos os pingos nos is, deixar tudo explicadíssimo. Segundo ela, há formas mais fáceis de mostrar o que queremos. Criar cenas, por exemplo. Ao falar isso em voz alta, eu finalmente soube o que fazer e coloquei a minha chave na minha frente. Me levantei e posicionei a dela bem ao lado do pratinho de Crème Brûlée que ela saboreava. Parei ali, ao lado dela, olhei para aqueles olhos brilhantes e sorri. Ela me olhou de volta com uma expressão de alegria e surpresa. A risada dela é sempre deliciosa.

Só precisei falar “Vamos?”, logo depois de nos beijarmos, para ela dizer sim e o garçom que viu toda a cena começar a aplaudir e assim puxar as palmas das mesas ao nosso redor.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram


Observação: Quando tentam censurar e intimidar quem publica, vende, lê e escreve literatura com presença de LGBTs, a gente vê o quanto é necessário escrever, publicar, ler e vender mais e mais livros com essa temática e/ou esses personagens.

Conservadores fanáticos surfam no medo das pessoas pelo que elas não conhecem para buscar votos ou apoio e é por isso que é tão importante espalhar essas histórias. Quanto mais elas forem lidas e conhecidas, menos terror vai dar para fazer com base nisso. É com o contato com histórias de amor, sexo e descoberta que envolvam casais de mulheres ou de homens que a sociedade vai, enfim, entender que não há o que temer.

A questão por trás dessas atitudes autoritárias não é “proteger as criancinhas” e nem uma mera questão de classificação indicativa ou qualquer outra desculpa. A intenção deles é cercear o direito das pessoas conhecerem narrativas que fujam da heteronormatividade e dos papéis tradicionais de homens e mulheres, ainda que elas sejam adequadas para crianças, e a gente não pode se esquecer disso. Para eles, mesmo as ingênuas mãos dadas podem ser vistas como um conteúdo perigoso, pornográfico, promíscuo, se forem um carinho entre pessoas do mesmo sexo. O problema deles não é só com o erótico e o sexual em si. Vai muito além. É homofobia, bifobia e lesbofobia.

Direito adquirido

46 pessoas idosas atearam fogo em si mesmas com intenção de morrer em frente aos prédios públicos mais famosos de suas cidades somente nesse ano, dizem os jornais e as correntes nas redes sociais. A mídia só começou a divulgar depois que os números atingiram a terceira dezena. Antes disso acreditava-se que o melhor era omitir o que acontecia para não inspirar novos casos. Enquanto isso, a boataria circulava nas redes sociais desde a primeira ocorrência.

Tem quem acredite que esses atos são uma espécie de terrorismo, outros já acham que eles estão mais próximos de uma performance que conta com suicídios públicos e tem a finalidade de denunciar as condições físicas, psicológicas e financeiras de uma parcela da população, mas nenhum especialista sério teve coragem de cravar como verdade qualquer hipótese levantada para tentar explicar a natureza desses episódios cada vez mais frequentes. A maioria só diz que todos que esses eventos são um fenômeno multifatorial que envolve tudo o que conhecemos e também algo novo ainda invisível ao julgamento científico. Ou mesmo aos nossos olhos. Sejam eles estudados ou não.


O primeiro caso coletivo aconteceu hoje, apesar das proibições de manifestações políticas estarem vigentes desde muito antes da primeira vítima-algoz-suicida-terrorista surgir. Quatro mulheres e dois homens, todos com mais de setenta e cinco anos, como eu, se posicionaram em frente ao Ministério da Justiça e, completamente calados e sem cartazes, se queimaram. A polícia tentou impedir com a ajuda de bombeiros, mas não funcionou. Eles mal tinham começado a queimar quando foram apagados, mas ainda assim estavam mortos. Como todos os outros. Nenhum deles nunca sobrevivia.


540 idosos mortos nesses atos até então. Só com um número expressivo desses para o governo começar a olhar para os velhos. Agora, junto ao trabalho, eles recomendam o cárcere privado.


Eu não vou trabalhar até morrer. Consegui juntar documentos o suficiente para comprovar idade, tempo de contribuição e tudo mais e na próxima terça farei meu pedido oficial perante a Previdência Social. Tive sorte de ter trabalhado por muito tempo num lugar que repassava as contribuições dos empregados de fato. A maioria da minha geração não conseguiu nem isso.

A galera, no geral, tinha app como único chefe e se achava empreendedor por ter que arcar com todos os riscos e custos enquanto dividia seu pouco lucro com uns acionistas do Vale do Silício. Tudo na base do desespero. A autoenganação existia sim, não dá para ignorar, mas hoje vejo que era só uma forma da gente não ser obrigado a pensar na injustiça de tudo aquilo o tempo todo. Na verdade, ninguém conseguia ficar muito tempo empregado em qualquer lugar que assinava carteira e trabalhar com transporte de gente ou delivery era o que tinha. Mesmo quem tinha salário, quando precisava de uma grana extra, entrava nessas. Eu mesmo fiz muita corrida de bike alugada pela cidade.

Quem tinha emprego trabalhava como terceirizado nessas empresas rainhas em assédio moral e previsibilidade. Antes de você conseguir ser efetivado ou poder tirar férias ou algo do tipo, eles te despediam só para te contratarem de novo alguns meses depois e essa lógica se repetia até eles declararem falência e não pagarem ninguém. Três meses depois, se a gente tivesse sorte, arrumávamos um emprego numa pessoa jurídica irmã gêmea da antiga. Esse era o jogo e a pior surpresa a gente só veio descobrir uns 30 anos depois quando tentávamos nos aposentar e a Previdência nos avisava que não ia dar, porque não tinha contribuição paga em nosso nome durante aquele período todo. Perdi 2 anos de trabalho dessa forma, mas teve gente que perdeu 5, 10, 15 ou até mais.

Nenhuma surpresa que essas pessoas agora idosas e acabadas se incendeiem em atos públicos.


Quando finalmente vi a placa, mal posicionada e quase apagada pelo tempo, indicando a entrada do prédio, a lembrança de quando havia um tanto de gente querendo estudar para trabalhar como técnico ou analista do INSS me veio. Sentavam a bunda na cadeira e estudavam, estudavam e estudavam buscando o tão sonhando cargo público que logo passou a não valer mais nada. Eu mesmo tentei umas vezes, cheguei até a ser aprovado, mas nunca me chamaram. Deu ruim antes. Agora não tem mais quase ninguém aqui, nem como funcionário, nem como usuário. Não sei se aposentaram, se morreram, se queimaram, se adoeceram ou se simplesmente não há mais muito o que fazer.

Nem na época de ouro os prédios da Previdência Social eram bonitos. Nenhum palacete antigo todo reformado abrigou qualquer serviço da Seguridade Social na história, ao menos não aqui na minha cidade. Agora eles são ainda mais feios e nem ficam mais no centro.

Mesmo com o endereço em mãos e usando o Google Maps, foi difícil de encontrar. A portinha para o hall era bem pequena, quase invisível entre duas enormes lojas com nome estrangeiro. O saguão parecia imenso, como se alguém secretamente esperasse que um dia esse lugar voltaria a ser cheio, mas devia caber só umas quinze pessoas. O vazio faz tudo aparentar ser tão amplo.

Com meu envelope pardo e meu comprovante de agendamento em mãos, sentei numa das cadeiras, apertei um botão e esperei alguém aparecer. Quem apareceu não parecia saber mais como aposentar alguém.

Mostrei meus documentos: RG, CPF, Comprovante de Residência, PIS/PASEP, 48 carnês de recolhimento do INSS como contribuinte individual ou segurado facultativo, 17 holerites de pagamentos de salários do meu emprego atual e também meu Certificado de Reservista. Falei sobre o que eles comprovavam com veemência, mostrei conhecer os meus direitos e esperei acontecer alguma coisa. O homem na minha frente simplesmente se retirou sem falar qualquer coisa do procedimento e disse que ia chamar alguém. Antes de sumir por uma porta, ele enviou uma mensagem de voz para um de seus contatos pelo aplicativo de comunicação da moda da vez dizendo que tinha com ele ali um homem que se dizia aposentável. Ele falava como se eu só pudesse estar senil.

Durante a espera, eu passei os olhos ao redor de novo: poeira, cadeiras antigas demais, ar-condicionado extremamente barulhento e uma janela quebrada bem perto da entrada. Queria tentar entender melhor o meu desconforto com esse lugar. Não havia túmulos, mas ainda assim aquele vazio com seus computadores me lembrava um cemitério. Não havia macas, mas era inevitável pensar que entrei pela porta da frente em um hospital de pacientes terminais. Havia, na verdade, tantos indícios de abandono ali quanto no rosto de cada um dos idosos que ganharam manchetes no último ano.

Depois de pelo menos uns vinte minutos, o homem que me atendeu voltou sozinho. Ou ao menos foi isso que pensei. Ele sentou novamente bem na minha frente e deixou que o computador identificasse seu rosto, senha e digitais e perguntou novamente meu nome, minha data de nascimento e todos os meus números de identificação.

Enquanto dava minha resposta, vi uma cadeira estofada se arrastar e parar ao lado dele e ouvi uma voz feminina vir do vazio acima dela. Ela começou a me fazer perguntas, dar recomendações e explicar todo o processo. Eu ouvia bem o que ela dizia e a respondia quando era necessário. A dona da voz parecia realmente disposta a me ajudar, mas aos meus olhos a cadeira seguia vazia, apesar de vez ou outra eu ouvir o barulho de movimento de suas rodinhas.

Eu não era o único a ouvir o nada. A voz guiava o homem sobre protocolos, documentos e indicava até mesmo os códigos a serem utilizados para o meu caso. Ele obedecia e às vezes reclamava sobre como aquele software era antiquado. Eles, humano e nada, trabalhavam juntos, discutiam algumas coisas sobre meu pedido entre eles e vez ou outra comentavam sobre as últimas notícias do sistema ou do mundo comigo.

Eu suava frio, me sentia tonto e me preocupava mais com a possibilidade de ser um dos milhares inaposentáveis da minha geração do que com qualquer outra coisa. Era como se eu estivesse, enfim, pronto para morrer ou morrendo de fato, independente da resposta. Só que uma das mortes parecia ser bem mais dolorosa.

Foi um alívio ouvir que tudo indicava que eu tinha sim o direito de me aposentar e que, apesar de tudo, eu ia conseguir receber 64% do valor integral que me era devido. A Voz me avisou que a Carta de Concessão chegaria em mais ou menos um mês e me desejou boa sorte, boa vida.

Nessa hora, quando nós três nos levantávamos, eu vi um ser translúcido que parecia muito velho, muito mais velho que um dia eu seria, escorregar pela cadeira e ressurgir aos poucos enquanto flutuava em direção da porta. Ela comentava com o homem sobre eu provavelmente ser o último a conseguir me aposentar no país. Ela, morta, ainda estava trabalhando.

Por que?


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.


Urgência

Canva

Quero saber quantas horas são, mas a bateria do celular acabou faz tempo e eu não uso relógio de pulso há quase uma década. Com o ponto cheio desse jeito, já deve ter passado das seis, imagino.

Ao sentir aquele aperto no intestino, a preocupação com a hora desaparece instantaneamente e retorna com maior intensidade após a conclusão de que o banheiro mais próximo está a uma viagem de ônibus de quarenta minutos de distância.

A barriga se remexe toda, faz uns ruídos constrangedores, os olhos se arregalam, viram e a boca só faz careta. A mensagem do corpo afeta também o rosto: essa cara de cu é apenas um reflexo involuntário de um organismo rebelde. Não é ódio, desprezo, arrogância, é só meu intestino grosso avisando que está trabalhando.

O ônibus chega. O cobrador dá um grito e pede para todo mundo se ajuntar. Alguém pergunta: “Mais?”. Rio sozinha pensando que ninguém ali nem imagina que uma bomba de bosta prestes a explodir embarcou junto com eles para essa aventura cotidiana que é ir para casa numa sexta-feira.

O balanço do coletivo piora tudo. Respiro fundo, rezo, conto cabritinhos. Sim, cabritinhos. Nessas horas todas as nossas manifestações mentais são sugestivas.

Desço do ônibus já com as chaves nas mãos. Acelero os passos. Subo as escadas do prédio no gás e corro para o banheiro.

Coitado dos vizinhos, o desespero foi tanto que deixei até a porta do apartamento aberta.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Mãe de planta

Imagem de uma matéria da Hypeness sobre a casa da norte-americana Summer Rayne Oakes

Meu apartamento, seis meses atrás, era como qualquer outro. Cama, armários, geladeira, fogão, micro-ondas, um computador, uma tevê, mesa para quatro, filtro de barro, escrivaninha, uma estante, um sofá e acho que só. Isso me incomodava. Eu sentia que morar em um lugar sem identidade dizia algo muito grave sobre mim. Temia que alguém me visitasse e percebesse que eu era uma dessas pessoas que não sabia muito bem quem era e as fofocas sobre minha residência sem personalidade me tornassem uma espécie de pária no mundo dos autênticos.

Minha casa mostrava muito sobre mim. Essa é a verdade. Por isso, me aborrecia tanto entrar pela sua porta e me deparar com aquele vazio que significava que eu era um ser ainda em formação e, pior, nem sabia fingir ser algo diferente. Nessas horas, me esquecia que a questão não era só não saber para onde estava indo ou quem de fato eu era ou queria ser, mas, principalmente, a realidade da minha conta bancária e a possibilidade de amanhã eu ter que estar em outro lugar. Não havia grana o suficiente para encomendar móveis ou decorar meu apartamento com produtos da Tokstok. Comportamentos decorativos que, por algum motivo, são vistos como um sinal inegável de autenticidade em nossos tempos.

Aflita e depois de ver um milhão fotos no Pinterest de casas incríveis cheias de plantinhas, vasinhos, estantes e poucos móveis, decidi adicionar mais vida ao espaço branco que chamava de lar e acabei comprando uma samambaia. Depois vieram os vasinhos de cactos. E, a partir disso, foi questão de tempo para meu pequeno apartamento se transformar numa selva particular.

Minha casa se tornou um refúgio da cidade grande para mim e point com carinha de moderno e sustentável para amigos e conhecidos. De um dia para o outro, a casa sem identidade se transformou em um local de encontro entre aqueles que sentiam seu lado jardineiro, antes adormecido, pulsar.

Cuidava de cada vasinho com o amor que nunca fui capaz de dedicar a mim. Me esforçava para aprender o segredo das plantas e punha a mão na massa sem os nojinhos que me acompanharam durante toda a minha vida de garota urbana nascida e criada numa das maiores cidades do país.

Era tudo muito bonito, tranquilo, relaxante. Uma jornada de descoberta que eu estava adorando viver. Cheguei a arrumar um minhocário, aprendi produzir adubo com lixo orgânico e até decoração de vasinhos de barro com tinta colorida, eu passei a fazer. As plantas ficavam cada dia mais exuberantes e, num ataque de orgulho, me declarei mãe de planta para quem quisesse ouvir.

Apesar de ter postado esse anúncio no Instagram, no Facebook e no Twitter, foi em casa que senti que fui de fato ouvida. Um som agudo, muito agudo, e manhoso me acordou no outro dia antes mesmo de amanhecer. Era domingo e eu odiei com todas as forças a criança birrenta que algum vizinho arrumou até chegar na sala e perceber que minha Orquídea Dendrobium era quem emitia aquele som horrível. Quando dei por mim, ninava seu vasinho feito de barro cantando bem baixinho uma música sobre sementinhas.

Os gritos logo cessaram, mas ela seguia choramingando e eu não sabia o que fazer. Demorou, mas acabei me lembrando que no dia anterior tinha arrancado umas folhas velhas de seu tronquinho e decidi apreciar o local. As marcas dos cortes pareciam ter inflamado durante a noite. Quando passei o dedo para testar, ela voltou aos berros iniciais e eu corri para o Santo Google que me aconselhou a passar canela em pó nos cortes. Cicatrizante natural, sabe? Cuidada, ela se acalmou e voltou a se concentrar na fotossíntese.

Depois de ver o sol amanhecer com uma planta desesperada no colo, meu pijama estava todo sujo de suor, terra, canela e fluidos que eu não sabia de onde tinham saído. Cocô, xixi, seiva ou lágrima de orquídea? Aparentemente tudo isso e mais um pouco. Era impossível não pensar no quanto eu precisava de uma chuveirada.

Limpa novamente e conformada que ao menos essa novidade biológica sobre orquídeas não fedia muito e indicava que provavelmente eu não ia precisar mais me dedicar tanto ao minhocário, fui preparar meu café da manhã.

Chegando na cozinha, percebi que todas as plantas da casa tinham abandonado a passividade esperada delas e se moviam, conversavam e me encaravam. A orquídea foi a primeira a despertar desse sono vegetal, mas agora eu tinha que lidar com mais trinta seres vivos desesperados por diferentes tipos de atenção e cuidado.

Pinterest

Os Cactos, como bons adolescentes rebeldes, me ofendiam e gritavam como me odiavam quando eu chegava perto. As Samambaias queriam brincar comigo e tentavam me fazer tropeçar com rasteiras dadas pelos seus galhos delicados e riam descontroladamente toda vez que tentavam. A Palmeira-ráfia me enchia o saco querendo que eu acariciasse suas folhas e a chamasse pelo seu nome científico. A Palmeira-leque me pedia água o tempo todo. Toda hora vinha com um “borrifa mais um pouquinho” e reclamava da Begônia que não parava de cantar. O manjericão? Ai, ai, o Manjericão… Esse só sabia reclamar de ser comestível e pedir esterco de qualidade. Esse desgraçadinho só sossegou quando eu contei que o tal do esterco de qualidade é feito com bosta de um tanto de bicho que rumina pedacinhos de grama, plantinha, florzinha e até ervinha. Só depois de chocado com o ciclo da vida e o destino de seus parentes, ele se calou. Nem comento sobre a Comigo-ninguém-pode. Essa me testou de todas as maneiras possíveis e impossíveis provando que esse nominho dela diz muito sobre a realidade de seu temperamento. Uma hora cheguei a me pegar com uma tesoura de jardim pensando em dar um fim naquela chata! Só os Lírios ficaram na deles, não por bom comportamento, deixo claro, eles queriam me atingir me dando um gelo daqueles por puro ciúme.

Lá pelas dez, Rafael me enviou um áudio no Whatsapp me convidando para conhecer a casa que ele agora dividia com o namorado. O programa? Tomar um brunch caseiro e maravilhoso com tomatinho confit feito por eles. Mensagem que me deixou com água na boca, mas que só li porque minutos antes eu tinha tomado a iniciativa bem controversa de me trancar no banheiro e deixar o pau quebrar lá fora. Quando pensava onde eu ia arrumar uma babá para as plantas, a Palmeira-ráfia, aproveitando de seu tamanho, olhou pela fechadura da porta e viu que eu estava só mexendo no celular sentada na privada e começou a gritar para as outras que a mamãe não gostava mais delas e todas passaram a chorar como a orquídea chorou às cinco e pouco da manhã. Pelo menos já era um pouco mais tarde, o que diminuía drasticamente a chance de alguém reclamar da barulhada do meu apartamento para a síndica.

Um golpe baixo esse da Palmeira-ráfia. Sair do banheiro foi difícil, eu sentia culpa, queria chorar, mas não podia dar esse gostinho para nenhuma daquelas coisinhas insuportáveis que eram piores que ervas daninhas, mas precisavam de cuidados. Elas me encararam com arrogância e mágoa e andar pelo corredor até a sala me lembrou os piores tempos de escola.

Fui obrigada a voltar a atender as necessidades de cada uma delas. Toda hora, uma coisa diferente. Era adubo, era corte, era passar canela em pó nos tronquinhos igual eu fiz com a Orquídea e causou ciúme no resto da trupe. Era troca de vaso, decoração das floreiras, carinho e muito ouvido aberto para conhecer as picuinhas delas. Elas também me acariciavam, me falavam palavras bonitas e faziam coisas engraçadinhas, o que piorava a culpa que eu sentia por não amá-las como eu achava que amava antes desse dia começar e elas se tornarem minhas filhas.

Exaustão se tornou meu nome, sobrenome e arroba no Twitter. Fui dormir quase uma da manhã e o sono era tanto que nem consegui mandar uma mensagem para minha mãe perguntando algumas coisinhas sobre jardim e família.

Acordei cinco horas depois com o despertador berrando e com o pensamento fixo no desafio do dia: como eu iria passar dez horas fora de casa e deixar sozinhas trinta e uma plantas de todas as idades?

O silêncio dos outros cômodos me respondeu. Nunca precisei saber o que fazer nessa situação, porque elas tinham voltado ao estado vegetativo habitual.

Quando vi a sala com sua paz de sempre restaurada, ri pensando na esquisitice do pesadelo da vez até notar o quanto o chão, o sofá e a mesinha estavam cheios de terra, pedaços de folhas, caules, seiva, canela em pó e tudo mais.

De fato já era segunda-feira.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Menino capacete

Soldadinhos de brinquedo

Quando João nasceu, os médicos descobriram que ele veio ao mundo com um capacete natural acoplado ao seu corpo. Nas primeiras semanas, a consistência do elmo ainda em formação era tão frágil quanto a moleira de todos os outros bebês, mas logo isso mudou.

Aos seis meses, a cabeça dele já tinha se tornado mais resistente que um capacete de um motociclista. Aos quatro anos, cientistas comparavam a dureza dela com os materiais da escala Mohs e afirmavam que era questão de tempo para que essa parte específica do corpo de João tomasse o lugar do diamante no topo.

Com orgulho, a família o alimentava com comidas nutritivas e o obrigava a seguir à risca uma dieta feita para fortalecer os ossos e a carne. Queriam que a cabeça de João ficasse ainda mais firme.

Todo mundo dizia que nascer assim era coisa do destino e que em algum lugar do DNA do menino constava que ele devia seguir alguma carreira no campo da segurança pública. Seus pais concordavam, mas desejavam que o cérebro de João também chamasse atenção, já que não gostariam de ver o garoto ser usado em seu futuro emprego como uma simples isca por causa de seu capacete natural melhor que todos os artificiais. Por isso, desce cedo, eles o incentivaram a estudar muito para garantir um futuro de sucesso nos concursos públicos de alto escalão. Seu pai dizia para quem quisesse ouvir que João seria um ótimo delegado da Polícia Federal e sua mãe sonhava com seu menino estudando no Instituto Tecnológico da Aeronáutica para só depois alçar voos maiores.

Aos dezoito, ele não conseguiu evitar prestar o serviço militar mesmo com a sua vaga universitária garantida pela excelente nota no vestibular. Seu capacete natural virou assunto no meio e até o Ministro da Defesa quis conhecê-lo. Nesse dia, o homem prometeu para ele regalias e mais regalias por causa de seu talento nato para resistir bem a grande impactos.

Mas João era de fato muito cabeça dura, por isso largou sua vaga na instituição de ensino superior da aeronáutica e foi estudar artes cênicas para atuar em filmes de guerra hollywoodianos. Esse sim, seu grande sonho.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.