Algumas notas sobre Cães e Grilos

“Cães”, obra de estreia da escritora baiana Júlia Grilo, me encontrou durante uma conversa com uma amiga. Esse não foi um encontro fortuito, mas nele também não fui parte ativa, o livro foi sujeito aqui, ainda que tenha sido apresentado por intermédio de alguém. Não me entenda mal, o arquivo não surgiu do nada no meu Kindle, mas Cafeína já estava comigo antes mesmo de eu começar a ler, porque eu também tive cachorros na infância e todos eles sempre foram parar no meu quintal.

Desde as primeiras páginas, Cafeína e a narradora humana me pareceram próximas demais de quem eu fui, sou e provavelmente serei. Posso dizer que as pequenas rebeldias das duas me encontraram de alguma forma, seja na via da identificação, seja na do desconforto. Talvez agora seja a hora de falar que esse não foi um livro fácil de ler, apesar de eu ter amado a experiência por n motivos, inclusive o de ter encontrado no texto uma fluidez de quem gosta de conversar, ouvir e refletir sobre tudo e todos. Júlia Grilo estreia com uma história incômoda, essa é a verdade. Júlia quer que a gente termine o dia pensando em sujeição, poder e alteridade e isso está evidente em todas as suas páginas.

A mistura de elementos autobiográficos com a criatividade do olhar da narradora para os animais faz dessa história um romance com elementos de formação, como o amadurecimento da cadela e da menina, marcado pela perseguição de uma ideia, de um questionamento, de uma reflexão filosófica que faz a gente se sentir transitando em um texto híbrido, que brinca de ser ensaio quando ele quer, falando inclusive de amor. Essa simbiose de temas e estruturas nos faz pensar no bicho humano, esse que, como mostra a autora, não se coloca como um animal mesmo sendo um. E é na violência que a covardia de não se ver como bicho às vezes toma forma.

Nesse sentido, chama a atenção como a autora aborda temáticas relacionadas com machismo, racismo e classe, fazendo uma miscelânea com as experiências da cadela e da narradora que tangenciam o sexo e até a cor de pele e pêlo, trazendo a partir do animal a crítica aos comportamentos, práticas e problemáticas humanas que aproximam as duas espécies a partir da identificação pela obrigação de subordinação feminina.

Esse é um livro que faz a gente pensar em todo o antropoceno, ir longe, querer brigar com quem exclui os bichos do céu (e do inferno) mesmo sem acreditar nessas coisas, mas confesso que, em meio a esse mundo de reflexões, eu pensei, principalmente, nos cães que amei, nos cachorros que conheci, nos peludinhos que um dia vi passar pela calçada.

“A existência de Cafeína escancarava as minhas limitações e deixava-as mais robustas. Ela era tão diferente de mim — e ainda assim vivia.” 

Os meus

Meu primeiro cão veio com nome e história. Faruck, o primeiro de seu nome, chegou na minha casa antes de completar o desmame e eu, junto da minha mãe, o alimentei com fórmulas caninas ideais para aquela situação. Tamanha precocidade não foi por escolha dos meus pais, deixo claro. Meu primeiro cão foi, antes de meu, um presente rejeitado que a filha adolescente de uma colega da minha mãe ganhou de um ex-namorado.

Faruck era um pinscher tamanho pp preto com peito e barriga e algumas patas brancas, com detalhes minúsculos na cor de caramelo. Adorável e estranhamente humano e adulto, ele dormia no quintal, mas passava todo o resto do tempo dentro de casa. Sendo adorável, muito humano e adulto, ele era considerado limpo o suficiente pra isso. Faruck morreu em um acidente idiota quatro ou cinco anos depois dele chegar na minha casa. Independente da seriedade da minha narração, risadas desoladas seguidas de pedidos de desculpas surgem sempre quando eu narro o acidente que tirou sua vida: Faruck saiu em disparada com medo de ser pego fazendo xixi fora do lugar, escorregou no próprio xixi e bateu a cabeça na quina da porta da cozinha, caindo morto na hora.

Um mês depois, buscamos na casa de um jardineiro conhecido do meu pai um outro cachorrinho. Faruck, o segundo, era diferente de seu antecessor, apesar de ter ganhado o mesmo nome. Não era tão pequeno assim, era todo marrom e foi desmamado na hora certa. Faruck viveu 17 anos e 6 meses e, cá entre nós, era parente de um pinscher com certeza, mas não um pinscher puro. Faruck foi meu melhor amigo e também o melhor amigo do meu irmão. Eu poderia escrever linhas e mais linhas contando como brincamos juntos, como nos apoiamos, como fomos íntimos mesmo nas minhas fases mais distantes, como eu tentei compensar minhas ausências anteriores cuidando muito bem dele no fim da vida, respeitando inclusive a morte como uma possibilidade. Faruck foi eutanasiado em abril de 2019 e está enterrado no jardim da casa dos meus pais junto ao seu cobertor e bolinha preferidos.

E tem o Billy, que também já veio com nome e história, uma história que parece ter alguns traumas inclusos. Billy está vivo, cego de um olho e é um desses pets que nunca aprenderam a brincar. Billy é um pinscher em teoria, mas tem a carinha redonda como a de um chihuahua, o que combina com o cachorro de colo que ele é, apesar de suas práticas nojentas que o impedem de ficar dentro de casa. Ele é marrom chocolate com detalhes em caramelo, um cachorrinho tão bonito que já foi entrevistado pela tv afiliada da Globo da minha cidade. Um cachorrinho tão bonito que, infelizmente, come cocô, mija em tudo e, se a gente der bobeira, rouba papel higiênico usado e leva pra sua casinha.

Billy e Faruck eram irmãos por adoção, mas rivais. Diferentes, mas semelhantes. A relação deles era complicada, não nego, mas acho que dá pra dizer que havia ali uma rivalidade saudável, que, apesar do ciúme e algumas disputas territoriais, envolvia respeito e até preocupação com o outro. Conforme Faruck envelhecia, mais a gente percebia isso. Billy viveu esse luto junto com a gente.

Se a casa virou território ilegal para meus cachorros foi por causa do acidente que tirou a vida do que veio primeiro, mas a proibição quase total só veio mesmo quando o Billy e suas nojeiras chegou. Faruck I, Faruck II, Billy, todos são ou foram cães de quintal, talvez cães de quintal privilegiados perto de Cafeína, mas cães de quintal. Eles tinham espaço para correr e brincar, vacinas em dia e, por serem tão pequenininhos, viviam sendo carregados pra dentro nos dias após banho, provando que o privilégio de ser fofo é um fato canídeo, ao menos para os cães desse tipo. Billy que está vivo, apesar de velho, pode confirmar.

“Essa história pode parecer ter pouca ou nenhuma relação com Café, mas tem muita. Café não se fez sozinha, tampouco prontamente. Seu corpo é também produto de uma ação conjunta de várias mãos, várias mãos de vários tipos, tipos que apalparam e acariciam em ordem de forças diferentes; forças que a atravessaram em varias direções.”

Voltando ao livro

Ler “Cães” foi uma experiência que envolveu lidar com o meu luto pelos bichos da minha vida. E também o luto por todos os outros bichos, domésticos ou não, que eu inclusive como mesmo após mais de dois anos de vegetarianismo. Ler “Cães” me fez pensar em dominação e no quanto é preciso desaprendê-la. E eu me pergunto agora: e é mesmo possível desaprendê-la por completo?

“De tão dessemelhantes, eles ligaram-se um ao outro e suas dessemelhanças fizeram par”

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Questão de sorte

Riho Kroll

Acabei de ler uma matéria no Nexo que diz que homens são mais resistentes a usar máscaras no dia a dia e cumprir o isolamento social necessário para combater a pandemia, porque tendem a acreditar que não serão contaminados pelo coronavírus e, caso forem, se recuperarão mais facilmente. O irônico dessa história é que a taxa de letalidade entre eles é maior do que entre mulheres. Um engano desses jamais aconteceria comigo e eu juro que dessa vez isso não tem nada a ver com uma certa hipocondria minha. Só tem a ver com cisma.

Desde que a pandemia começou, eu tenho pensado cada vez mais no temor de ter gastado com outras coisas menores toda a minha sorte, essa coisa mágica e inexplicável que até o mais cético às vezes sente que rolou ou faltou. Agora, justamente por esse gasto anterior totalmente impensado e impulsivo, eu estou mais desprotegida do que nunca. Tenho medo da minha reserva de sorte ter zerado, de não ter nada na despensa para me proteger do azar. Esse pensamento não é bem uma novidade, mas agora ganhou contornos mais mórbidos. Eu sinto que o esvaziamento da minha sorte parece ter acontecido bem antes, já que em todo concurso que eu tento eu não vejo qualquer atuação dela. Antes, a falta dela atuava pelo meu fracasso, agora eu temo que ela não apareça para proteger a minha vida ou a vida dos meus.

Eu, você, todo mundo, precisa de sorte quando vai ao supermercado ou na farmácia ou mesmo deixar o lixo na rua ou trabalhar. A gente precisa estar no corredor certo e bem longe, quando alguém espirrar ou tossir ou conversar ou mexer errado na máscara e depois tocar nas maçanetas do prédio e produtos todos. A gente precisa de sorte para continuar, porque, além de tudo, a gente também tem que lidar com esse governo que foca sempre na cloroquina, na Anitta e no autoritarismo.

Eu já ganhei dois sorteios no Instagram, uma viagem para o Hopi Hari, um mp3 e várias partidas de jogos de tabuleiro, baralho e outros formatos de games que envolvem um pouco ou um mucado bom de sorte em sua lógica. Fora a fase que eu gostava de jogar bingo online pelo Jogatina. Cada vitória ali pode ser revertida por uma onda de azar que vai me colocar frente a frente com um contaminado assintomático e bolsominion que se recusa a usar máscara de tecido na rua e se afastar de quem passa bem quando eu precisar sair para fazer qualquer coisa.

A última vez que eu achei que uma encomenda minha tinha sido extraviada ou furtada por algum vizinho, ela estava o tempo todo na caixa do correio. Fora que eu já perdi dois celulares, uma vez em um táxi muito antes de apps existirem e os taxistas serem rastreáveis facilmente e outra vez em um restaurante numa cidade que eu não vivia, e nas duas vezes, milagrosamente, os aparelhos voltaram para as minhas mãos são e salvos. E eu nem comento as vezes em que a sorte sequer foi percebida por mim ou que eu já esqueci. Eu pareço dever muito, muito, muito mesmo para sorte e não sei se quando criança eu a servi com trevos de quatro folhas o suficiente, porque eu lembro de procurar, procurar e procurar e encontrar quase sempre só os de três.

Esse papo todo me lembra que esses dias o tapetinho da porta do apartamento sumiu por mais quase três semanas e depois retornou, o que nesses tempos eu não sei se é sorte ou azar, porque ele pode ter retornado todo contaminado, apesar de que tudo indica que quem pediu emprestado o lavou junto com o meu chinelo ipanema que nem sequer chegou a sumir por uns dias. Por desencargo de consciência, eu evitei pisar nele durante 14 dias, mesmo saindo apenas para levar o lixo lá fora.

Só sei que eu tenho medo de faltar sorte bem agora, bem na hora que eu imagino que será a que mais preciso. Eu tenho medo de toda vez que marquei alguém em um sorteio nas redes sociais, eu tenha atuado para me colocar no centro do furacão sem qualquer proteção mística, ainda que eu nem sequer acredite nisso. Eu tenho medo, porque a minha regra é sempre pensar na pior possibilidade e, caramba, como todas as chances que se apresentam agora parecem ser ruins.

Por isso, eu não saio de casa, uso máscara de tecido e descorongo tudo que chega nesse lar e acho que todo mundo deveria fazer o mesmo também, porque o sortudo pode perder a sorte e o azarado pode ter muito azar ainda para gastar. Tudo é questão de sorte, ou azar, e para essas coisas não há regras.

O aleatório pode te pegar pela sacolinha do delivery de pizza que você entrega ou pega. O vírus bactéria filha da puta micróbio do caralho pode resolver fazer sua morada provisória ali e, como num jogo de dados, se o resultado for 1 ou 2, ele pode te contaminar na hora mesmo você tendo muito cuidado, se der 3 ou 4, ele pode te pegar porque você deu um beijinho no gatinho ou cachorrinho ou mesmo uma criança que se escondeu lá dentro brincando sem você ver, mas se der 5 ou 6 dessa vez você está livre, porque nessa sacolinha, bem nessa, não tinha nada de vírus. Sorte. Ou azar. Mesmo se você não der a bobeira de não descorongar o que devia desconrogar, a verdade é que a gente não tem controle de nada. A gente só tenta diminuir as possibilidade de tirar os piores dados e torce para dar certo.


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A batalha secreta dos ipês

Ipê capa da Vogue — Foto: Thaís Campolina (Acervo Pessoal)

Aqui na rua tem um ipê amarelo conhecido por ser atrasado em sua floração. Ele, além de tudo, é miúdo em relação a todos os outros. Eu não entendo nada de botânica, mas como uma pessoa adulta menor do que todas as outras, eu não consigo olhar para ele sem pensar que é uma sacanagem tremenda supor que ele é como é simplesmente porque ainda não se desenvolveu por completo ou tem algum problema.

A gente fala, fala e fala em respeitar as diferenças, vive argumentando que cada um de nós funciona de um jeito, mas quando a gente se depara com um ipê pequenininho e atrasado em relação aos seus colegas tão vistosos e já floridos, a gente ainda tende a supor que ele, que não se encaixa na trajetória linear ou mais correta segundo sei lá quem, só não se encontrou ainda. Ou teve uma infância difícil demais e cheia de traumas. Ou qualquer outra coisa que no fim das contas será usada para diminui-lo de maneira condescendente.

As pessoas sempre querem um porquê. Quase como se fosse um atestado que você leva para o trabalho para justificar que não deu para você chegar na hora como todos os outros. As pessoas não podem ver o diferente e simplesmente pensar “ok”. Elas sempre vão querer uma justificativa para aquilo, de preferência uma justificativa que evoque um papagaio dizendo “ô coitado!”. Sem isso, o que sobra é a zombaria direta e irrestrita.

Uma vez me perguntaram se eu passei fome na infância e por isso acabei tão pequena. Foi estranho. Ser toda inha, inclusive branquinha, sempre me fez ser colocada como bibelô, o que é inevitavelmente uma coisa meio patricinha. Dessa vez foi diferente. Muito pior. E olha que eu tenho um trauma não superado de ser vista como bonequinha. A pessoa ao me olhar pensou que somente a desnutrição justificaria a minha existência em paz, que eu precisava de ter um background de sofrimento para me tornar factível como personagem. O paternalismo de sempre se mostrou uma piedade feia, essa que alguns cristãos adoram sentir pelos outros quando dizem que vão ajudar alguém. A mesma piedade feia que eu vejo quando as pessoas olham para o ipê amarelo da esquina da minha casa e diz mesmo sem ser em voz alta algo como: “coitado, ele não é como todos os outros”.

Estamos em julho agora e a floração dos ipês já começou. Ao menos entre os adiantados. Eles, os ipês amarelos melhores da classe, já estão entre nós. Eles, os ipês capa da Vogue, já enfeitam as ruas. Eles, os ipês geniais, já estão sendo fotografados por quem passa com máscara na cara — ou no queixo — perto deles. Já os ipês de floração em agosto e setembro seguem seus processos ainda carregados de estigmas somados a pressão de, quando florescerem, florescerem bem. Todos os ipês vão ficar floridos por mais ou menos quinze dias, independente de quando começarem, mas não importa, porque até entre os ipês se impôs uma corrida de produtividade, modelo, status e essas coisas todas.

Todo mundo quer florescer primeiro. Todo mundo quer florescer melhor. E alguém ainda vai dizer que pensar assim é o mindset do sucesso. E quem, por qualquer motivo que seja, demora mais ou, quando floresce, não floresce tão bonito, se torna um fracassado que precisa apresentar justificativas até para si mesmo por não ser como o primo bonito, concursado e com a vida e família pronta. Sendo a melhor justificativa sempre algo que evoque dó, porque ela dá a ilusão de empatia para quem ainda quer olhar para os outros sempre de cima.

Eu ia chamar os ipês adiantados de Einstein, porque ele é o nome que todo mundo aprendeu como sinônimo de gênio, mas eu lembrei que existe um mito sobre ele na verdade ter sido um péssimo aluno, só que é um mito somente e não ia dar para tirar nenhuma lição bonita da história dele, porque não importa se o atrasado vai brilhar muito um dia, a gente tem que parar de querer cobrar que os outros sigam essa régua única que parece ter sido inventada para que a maioria sempre perca. Fora que aquele meme do “e aquela criança era ninguém mais, ninguém menos, do que Albert Einstein” estragou tudo.

Era para esse texto ser engraçadinho, mas acho que não funcionou.


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Sobre escolher, preferir e colocar obras para competir entre si

Morning Sun — Edward Hopper

Eu deveria escrever um prefácio sobre o meu livro favorito sem dizer o nome dele. O problema é que uma das minhas principais características pessoais é não conseguir escolher preferidos entre obras literárias, cinematográficas e televisivas. Imagina então O preferido. Pois é. Agora estou aqui, atrasada no desafio de escrita criativa que me propus a fazer durante a quarentena simplesmente por ser incapaz de comparar meus gostos.

Eu poderia pegar dez livros e fazer cada título batalhar com o outro até sobrar um e pegar esse nome que restou para prefaciar. Só que eu não consigo. Esse plano encontra muitos obstáculos dentro de mim. O primeiro deles é escolher dez. Dez parece muito, mas é pouco. Mesmo se eu conseguisse chegar perto do número dez, eu ia ter que deixar algum título que eu amo de fora e isso seria uma injustiça com a obra e comigo. Uma injustiça que poderia se basear no fato de que há assuntos e abordagens essenciais que não podem competir entre si, porque são muito diferentes e também muito importantes, ou uma injustiça que moraria na possibilidade de você escolher um livro de romance e essa escolha ser vista, erroneamente, como uma eleição desse formato frente ao conto, à crônica, à poesia, à não ficção, à autoficção, à biografia e todo resto.

Sabendo dessa minha limitação, pensei muito em como eu poderia burlar as regras. Considerei mentir. Fazer um prefácio de um livro qualquer como se eu gostasse dele mais do que de todos os outros ou escrever sobre um livro que sequer existe. Como uma das regras era não citar o nome da obra no texto, mentir não seria muito difícil, mas eu não consegui. Pareceu errado. Não com vocês, mas comigo que seria obrigada a fingir ser como eu não sou. Também cogitei que eu poderia pegar um livro que foi meu preferido no passado, quando eu ainda conseguia fazer obras competirem entre si, mas nesse caso o prefácio seria sobre Harry Potter e já tem coisa demais sobre a saga nesse mundo.

É difícil escrever sobre escolha ou escolher favoritos, especialmente quando tem um alarme tocando sem parar no vizinho e uma reforma em plena quarentena bem do lado de casa. É difícil demais falar em querer e preferir quando eu sei bem o que eu escolheria fazer agora se eu pudesse. Com ou sem barulhos de vizinhos, eu queria poder sair de casa, dar uma volta, sentir o vento no rosto e o sol esquentar a pele e ter certeza que eu estou segura de novo dessa ameaça invisível que agora nos enclausura, física e mentalmente.


Esse texto foi feito a partir do #EscritaNaQuarentena e é o resultado da minha decisão por burlar todas as regras do dia quatro e da proposta. Saiba mais sobre esse desafio de escrita criativa nesse post do Twitter ou aqui no Medium, participe e se divirta. E, talvez, desobedeça. Como eu optei por fazer agora nesse texto e faço todo dia com o Bolsonaro, especialmente quando ele minimiza de maneira completamente irresponsável a pandemia de COVID-19 e o isolamento social necessário para passarmos por ela.

Por que pregar abstinência sexual não é uma política pública eficiente?

Damares Alves, chefe do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Promover a abstinência sexual não funciona como política pública para evitar gravidez na adolescência e nem o contágio de doenças sexualmente transmissíveis entre jovens. O estudo de casos como o dos Estados Unidos no período Bush mostram a ineficiência desse tipo de programa. Até mesmo Damares Alves, enquanto ministra, admitiu que não há pesquisas que embasam a proposta como ela foi feita, mas ainda assim essa é uma medida que costuma ser bem vista por muitos e a gente precisa parar para pensar no porquê disso.

Damares Alves, por meio de seu discurso, se coloca como a única e verdadeira defensora das crianças e adolescentes. Ela manipula as pessoas a partir disso e tenta convencer a população de que defender qualquer coisa diferente da promoção da abstinência total é estimular que crianças e adolescentes transem. Ela aproveita a preocupação comum de pais e cuidadores com o presente e o futuro de seus filhos para defender como política pública algo que não encontra amparo científico, enquanto ignora questões essenciais ao debate como machismo, lgbtfobia e, principalmente, os altos números de casamentos infantis ou precoces, casos de exploração sexual e de estupro de vulnerável.

Com a frase “Se provarem que vagina de menina de 12 anos está pronta para ser possuída, paro de falar”, a ministra defendeu o seu programa de maneira completamente desonesta. Ao dizer isso, ela, a partir do sensacionalismo, tentou colocar quem é contra a abstinência sexual total como política de governo como defensor da pedofilia, sendo que a educação sexual, sempre dada de acordo com a idade dos alunos, funciona justamente como uma forma de proteger crianças e adolescentes de estupros, especialmente nos casos em que eles acontecem dentro de casa, entre familiares e vizinhos, ou mesmo fora, em locais com ares de confiabilidade e presença de figuras de poder, como padres e pastores.

Além disso, sabendo que na legislação brasileira há o tipo penal do estupro de vulnerável, que presume como violência sexual qualquer ato sexual com menores de 14 anos, o discurso de Damares Alves se mostra ainda mais manipulador. Legalmente, antes dessa idade não há sexo com consentimento, há abuso sexual presumido, logo já se defende a abstinência sexual de pessoas que se encontram nessa fase da vida.

Quando o próprio governo, a partir da figura da Damares, sugere uma atividade educativa que envolve uma fita adesiva que passa colando entre os estudantes para afirmar que depois de um tempo a menina*, especialmente a menina, não “cola” com ninguém, fica evidente o machismo e o anticientificismo que envolve a defesa dessa política de governo. A partir dessa declaração, se percebe o quanto eles buscam cercear o exercício da sexualidade feminina não só enquanto adolescente. Eles querem promover o ideal de casamento mesmo, ignorando as estatísticas brasileiras sobre casamento precoce e suas consequências.

A popularidade de propostas como essa se sustenta na má-fé de seus defensores e na propagação de desinformações comuns ao tema. A sexualidade em si é um tabu inclusive para adultos e justamente por isso Damares Alves explora a temática a partir do senso comum moralista, machista e religioso e usa isso para promover seus interesses, ignorando estatísticas e o alcance do problema.

Com um discurso agressivo contra quem discorda da promoção da castidade como política pública, quem defende essa agenda oferece uma resposta superficial que não soluciona nada, apenas empurra para debaixo do tapete um problema que, ao não ser trabalhado como deve, tende a se agravar. Sem o cuidado necessário, o estímulo da abstinência misturada com o papo de alma gêmea presente no discurso da ministra pode acabar reverberando em um aumento de casamentos precoces, por exemplo.

A educação sexual é provavelmente o principal e melhor caminho para evitar a gravidez na adolescência e a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis porque, além de informar sobre o funcionamento e cuidado do corpo, as transformações da adolescência, os métodos contraceptivos e as doenças sexualmente transmissíveis, ela também ensina sobre consentimento e estupro, o que dá ferramentas para as vítimas denunciarem seus algozes e contribui para construção de uma sexualidade saudável para jovens, independente do gênero.

Falar “não transe”, sem qualquer outro aprofundamento ou informação, não ajuda em nada, porque essa frase colocada assim só contribui para alimentar o tabu do valor da virgindade feminina, a culpa, o pecado, o desejo pelo proibido e, claro, a desinformação e a perpetuação do silêncio que envolve casos de estupro.

Informar, falar sobre e debater sexualidade e gênero levando em conta questões além da biologia em si, sem imposições ou terrorismos, é o que ajuda adolescentes a entenderem as responsabilidades com o outro e consigo mesmos necessárias para a construção e exercício de uma sexualidade saudável. Isso, na maioria das vezes, influencia na decisão dos jovens em adiar o início da vida sexual e permite que eles aprendam a se proteger de gravidezes, doenças e até mesmo violências quando ou caso decidirem transar — ensinamentos que podem ser úteis até mesmo antes desse momento chegar.

A castidade como foco de uma política pública falha porque isola o assunto de quem mais precisa falar sobre, deixando jovens sem acesso às informações essenciais para o início de uma vida sexual segura. Assim, a pornografia e os mitos sobre o sexo ganham espaço entre adolescentes e até mesmo adultos. O impacto de uma política pública como essa se perpetua além da menoridade porque reafirma lugares comuns sobre sexo, desinformação e silêncio. É a vitória do “não, porque sim” frente à construção de uma sexualidade responsável e respeitosa. É a escolha por criar mais uma barreira de acesso aos direitos sexuais e reprodutivos. Escolha essa que já está sendo feita em outros âmbitos, como no pedido de eliminação, por parte do Brasil, de qualquer tipo de referência sobre “educação sexual” e “direitos reprodutivos” nos documentos da ONU e OMS.

No mais, além de aulas e campanhas de educação sexual, é essencial que as políticas públicas sobre sexualidade levem em conta o efeito da falta de oportunidades no imaginário social que coloca filhos e casamento como um meio de atingir uma certa autonomia, especialmente para meninas e mulheres. Informação sem perspectiva não é o suficiente. É preciso que as políticas públicas interajam entre si e expandam a ideia de futuro que muitos jovens possuem. Combater a miséria, por exemplo, é essencial para isso. Somente ações coordenadas e abrangentes que envolvam aulas de educação sexual baseada em evidências e debate protegerão meninas e meninos da naturalização desse processo que envolve, muitas vezes, pessoas maiores de idade que se aproveitam justamente da falta de conhecimento, maturidade e horizonte de crianças e adolescentes para conseguir o que querem. Seja pelo casamento ou pela exploração e violência sexual.


*O uso do termo “menina” nessa fala vem de novo reiterar no imaginário social que a ideia de que ser contra a abstinência sexual como política pública é defender a pedofilia.


Perigosa

“I always want to be dangerous” disse a moça do Fleabag numa capa da Vogue. Ainda não vi Fleabag, preciso confessar, mas juro que está na minha lista desde que fui avisada que é uma série curta e que eu vou me apaixonar pela atriz que é também um tanto de coisa relacionada ao mundo da criação, da escrita e tudo mais. A revista não está aqui comigo, não, não. Nenhuma sala de espera tem revista super atual assim, imagina se uma repartição de prédio público que está sofrendo cortes e ataques do governo para cavar uma privatização vai ter?

Pois é. Tá foda, né? Vigora nesse país uma lógica tão nefasta que não há energia que dê conta de se manter tempo o suficiente em um corpo sem se dissipar em uma ação automática, como uma reclamação, um lanche ou um meme. A sensação é que estamos em processo de zumbificação. Eu, pelo menos, estou.

Fomos domados. Agimos de forma previsível e quase adestrada e é por isso que a frase da moça do Fleabag ecoa na minha mente sem parar desde que a li. Eu sempre quis ser perigosa. Muito mais do que uma femme fatale, já que todo o perigo que elas apresentam segue uma lógica que é cruel com as mulheres e serve, no fim das contas, para alimentar fantasias masculinas de controle, dominação e narcisismo. Eu queria ser perigosa mesmo. Inflamável, tempestiva, ousada, imprevisível, mercurial e, principalmente, forte o suficiente para garantir que nenhuma dessas características e comportamentos me prejudicasse. Queria poder ser desagradável, eu acho. Poder fazer coisas comuns sem pintar um sorriso no rosto, ainda que falso, e responder daquele jeito quem me tratasse de maneira paternalista ou me assediasse. É isso. Queria poder reagir ao que é sutil, mas ainda assim mexe com minhas estruturas e afeta como eu me vejo e vejo as mulheres ao meu redor. E não só elas. Queria também reagir ao que é óbvio, mas que é perigoso demais. Como quebrar um banco ou bater de frente com juízes que defendem somente seus próprios interesses. Eu queria tanta coisa e todas elas se relacionam com enfrentar um poder sem medo. Então, o que eu queria mesmo era ter menos medo. De desagradar, de me machucar, de destruir, de descobrir que algo pode ser diferente e construir qualquer coisa a partir desse impulso.

Eu queria ser perigosa, moça do Fleabag, porque eu queria conseguir me proteger desse mundo que nos engole mesmo sem a gente perceber. Eu queria ser perigosa, porque fantasio com o dia que eu não serei mais tão covarde. Eu queria ser perigosa para não ser presa, fácil ou não.

Talvez a zumbificação esteja em mim e em nós e em todos há muito mais tempo do que a gente imagina. Talvez a gente precise descobrir o perigo que mora nessas nossas feridas feias que nunca cicatrizam. Talvez eu esteja chorando no banheiro. Talvez eu esteja com receio de chamarem o meu número enquanto seco as lágrimas disfarçadamente numa cabine apertada com cheiro de xixi velho misturado com desinfetante de lavanda. Isso tudo porque chorar em público é visto como uma espécie de perda da dignidade e eu quero evitar que pensem que perdi a minha agora. Eu perdi faz tempo. Provavelmente quando não fiz muita coisa para tentar barrar a Reforma Trabalhista. Ou foi a da Previdência? A decadência humana, na verdade, é não chorar, sentir, agir quando a gente sente esse impulso vital, constantemente sufocado, mas que ainda assim continua a chamar, a chamar, a chamar…


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O que as reações ao casal Keanu e Alexandra dizem sobre o envelhecimento feminino?

Fofinhos ❤

Keanu Reeves, ator e queridinho das redes sociais, assumiu namoro com a artista plástica, pintora, escultora e cineasta Alexandra Grant e o Twitter, Facebook e Instagram foram inundados com comentários sobre eles. Entre as muitas comemorações e até brincadeiras, porque Keanu desencalhou e voltou a amar e que a escolhida não era uma modelo de 20 anos da Victoria’s Secret, havia também falas bem cruéis sobre a Alexandra.

Ainda que nem sempre com agressividade, a aparência dela se tornou pauta, como sempre se torna porque, afinal, ela é uma mulher e isso parece ser a coisa mais importante sobre uma mulher sempre. Só que o caso dela teve um plus. Keanu Reeves, 55 anos, não seguiu o padrão hollywoodiano de homens de meia idade e escolheu se relacionar com uma mulher apenas 9 anos mais nova que ele. Keanu e Alexandra estão na mesma faixa etária, são amigos de longa data e parecem estar felizes juntos, mas o que parece ter realmente chamado atenção dos fãs e curiosos é que a aparência da Alexandra em relação a sua idade. Com 46 anos e o cabelo todo branco, ela foi considerada acabada, com a aparência velha, descuidada e feia demais para ele.

Mais uma vez, uma mulher que parece ser bem interessante e talentosa, ao se tornar foco, foi julgada e desqualificada por não ter a aparência esperada ou mesmo adequada. Ainda que as pessoas adorem fazer piadas com as namoradas super jovens do Leonardo Di Caprio, no fim, ao ver um cara fazer diferente, muita gente tinha algo a dizer, ainda que discretamente, sobre a namorada do Keanu Reeves aparentar ser velha demais. E, no caso, por mais que as pessoas tenham tentado suprimir essa parte, a maioria queria dizer que ela aparentava ser velha demais para ele, que é quase uma década mais velho do que ela.

O envelhecimento feminino é tratado mesmo por quem é pra frentex como uma mácula, um defeito, algo que choca. O tom é de surpresa não só porque homens costumam buscar parceiras muito mais novas, mas porque a mulher mais velha em questão assume os brancos e parece estar tranquila sobre a sua própria aparência. Ela não parece estar lutando o tempo todo para aparentar ser mais jovem do que é.

A sensação que fica é que a mulher só pode envelhecer se for pintando o cabelo, fazendo todos os tratamentos estéticos existentes para manter o rostinho muito jovem e se apoiando no botox e na maquiagem o tempo todo. O que na prática significa que mulher não pode envelhecer, a não ser que faça de tudo para manter sua aparência como se fosse jovem, quase como se esse esforço fosse um pedido de desculpa para o mundo por ainda existir e querer viver, inclusive uma história de amor com um astro do cinema. Essas cobranças são, inclusive, um meio de controle do corpo e comportamento feminino.

O envelhecimento não segue necessariamente uma régua igual para todas as pessoas. Tem gente que aparentará ser bem mais jovem do que é e o contrário também existe. Isso depende de n coisas além de procedimentos estéticos. Pele seca, por exemplo, pode pesar bastante com o passar dos anos e a presença e persistência dos fios brancos é uma questão de fundo genético que varia bastante.

O ponto é que a gente, enquanto sociedade, se preocupa demais em julgar pessoas, especialmente mulheres, pelo seu envelhecimento. Em comentar sobre, em achar que aparentar mais nova é o melhor elogio que se pode fazer a alguém. O envelhecimento é mal visto, especialmente o feminino. E, o pior, é que a nossa noção de idade e aparência feminina adequada é bastante viciada pelos procedimentos e cuidados estéticos que nos cercam desde sempre e também pelo fato de que o peso da idade e, principalmente, da aparência dela é totalmente diferente para os homens.

Um homem grisalho não ouve que precisa se cuidar, pintar o cabelo, se valorizar. Um homem grisalho chega a ser visto como charmoso muitas vezes. Um homem grisalho é considerado sinônimo de sabedoria, amadurecimento e outros adjetivos positivos. O peso é outro e é por isso que é lugar comum para nós, enquanto sociedade, julgarmos com frequência se uma mulher parece ser mais nova ou mais velha do que é e esse julgamento carrega em si a ideia de que o envelhecimento feminino é ruim. O homem talvez até ganhe um certo valor quando envelhece, a mulher só perde. A régua do envelhecimento feminino importa tanto por isso e ela é bem mais cruel do que a régua masculina. E a gente sabe muito bem que isso tem relação com o fato de que mulheres são valorizadas quase que exclusivamente pela beleza e que a beleza em nossa cultura é considerada sinônimo de juventude. Ao menos para as mulheres.

Quando há algumas semanas comentei sobre skincare não ser sinônimo de autocuidado e nem algo tão necessário assim surgiram várias pessoas, principalmente mulheres, afirmando que ter uma rotina de skincare era essencial porque ajudava a a atrasar o envelhecimento. O argumento era esse, enquanto eu dizia que o meu incômodo com essa nova relação entre palavras que antes não andavam juntas era sobre o fato de que todo cuidado feminino parece precisar perpassar pela estética. Não há nada de novo nessa busca por preservar a beleza e a juventude. Não há nada de novo, principalmente, nisso ser visto como uma obrigação feminina. O envelhecimento, principalmente da aparência, não deve ser tratado como um pesadelo ou algo que precisa ser evitado a todo custo, principalmente para as mulheres. Tratar tentativas de atrasar o envelhecimento comum da pele como uma questão de saúde ou algo tão essencial quanto isso é um erro.

Envelhecer sendo uma mulher é ver o seu valor, perante uma sociedade objetificadora, diminuindo gradativamente. A cada ano, a cada ruga, a cada fio branco ou flacidez, se vai o que o patriarcado nos deu como moeda de troca. Nosso capital é a beleza e ela é considerada sinônimo de juventude e o seu significado perpassa pelos padrões de beleza que, por mais que tenham sofrido um pequeno abalo nos últimos anos, continuam racistas, gordofóbicos, capacitistas e etaristas.

Alexandra Grant é uma mulher que assume seus cabelos brancos aos 46 anos e que não parece estar preocupada demais com a própria aparência. O susto com o envelhecimento dela só diz o quanto nosso mundo, mesmo aquele considerado progressista, ainda está preso na ideia de que o valor de uma mulher está em sua juventude, como significado de beleza. A pira de que mulheres precisam se cuidar, como se essa busca por certa aparência significasse amor próprio, e o tempo que a gente perde com isso parece nos qualificar como mais valorosas para um homem ou mesmo para a sociedade. Só que envelhecer sendo uma mulher é algo ainda mais complicado do que aparenta. Se fizer muita plástica ou plásticas óbvias demais, a mulher é julgada por não aceitar que envelheceu e querer mudar o próprio rosto. Como se essa vontade de passar por um bisturi ou vários surgisse do nada, claro.

É sintomático que toda essa discussão tenha iniciado a partir do julgamento de uma namorada de um ator considerado bonito e, principalmente, interessante. Num mundo que vê a beleza feminina como um meio para conseguir ser a mulher de alguém e que liga relacionamento com status, todo esse bafafá em torno da figura da Alexandra mostra o quanto mulheres ainda são vistas como acessórios masculinos, não como boa companhia ou parceira. Ser interessante não vale tanto quanto ser bonita de acordo com o padrão quando falamos de mulheres, enquanto Keanu Reeves ser interessante, além de bonito, é o que o tornou queridinho nas redes sociais.

Aparentemente, muita gente considera que a Alexandra não é boa o suficiente para estar com o Keanu Reeves e isso só mostra o quanto toda nossa noção de relacionamentos, especialmente o de figuras públicas, é viciado por esses filmes em que um homem comum e de meia idade se relaciona com uma mulher deslumbrante que tem idade para ser filha, às vezes neta, dele.

Não vou falar que Alexandra é linda hoje, porque o que quero dizer é que isso não deveria ser considerado tão importante assim. Uma mulher é uma mulher, muito além de sua beleza, sua idade ou a idade que aparenta ter. Uma mulher é muito mais do que seu rosto, seu corpo e seu cabelo. Uma mulher não se resume assim. Nem um relacionamento. E eu espero que um dia a gente não precise mais afirmar isso de novo. De novo. De novo. De novo. De novo…


Esse texto surgiu a partir de tweets que postei em minha conta pessoal do Twitter. Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram

Pensamentos soltos sobre estética, novas obrigações e o tal do feminino

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Falar de cuidado de pele como um momento para si não cola para mim. De todas as coisas que alguém pode fazer para se curtir, por que quando se é mulher tudo acaba se relacionando com aparência?

Fora que o cuidado de pele nesses casos é a busca da pele perfeita, aquela que parece maquiada mesmo sem estar, e não um simples e necessário uso de protetor solar ou algum outro produto, como hidratante, recomendado por médicos para situações específicas. (Ainda que eu ache que as pessoas se sintam mais inclinadas e cobradas ao cuidado no sentido de saúde quando aquilo incomoda também a aparência.)

Toda vez que vejo alguém com esse discurso, eu lembro de gente dizendo “você precisa se cuidar” como sinônimo de fingir que é de plástico. Rotina de skincare agora anda junto com depilação, unha feita, cabelo tratado e pintado e outras práticas relacionadas à estética e que também passaram a ser consideradas uma forma de autocuidado.

Ou seja, o papo autocuidado se tornou uma versão mais palatável do controle e da preocupação com aparência. O que mudou é que atualmente tudo isso ganhou o rótulo de moderno, saudável e responsável. Parece que agora a gente precisa ser uma mulher linda que não parece se importar tanto em ser uma mulher linda, mas ainda assim é, porque se cuida de forma muito natural, saudável e, claro, com muito prazer. Afinal, agora é o tal do autocuidado que nos move. A gente tem que fazer as coisas chatas, caras e impostas como se aquilo nos completasse e nos fizesse sentir livres, leves e soltas. Se não fizermos, somos coitadas sem amor próprio.

O motivo da gente engolir tão facilmente que rotina de skincare ou qualquer outra coisa do tipo é autocuidado ou um momento para si é o medo que temos de sermos vistas como fúteis por nos preocuparmos com a aparência e com os efeitos do envelhecimento como nos é imposto. Só que isso acaba naturalizando a neura da beleza como parte do feminino, da autoestima e do cotidiano e isso afasta as mulheres, cada vez mais, de ter uma relação um pouco mais tranquila com tudo que se relaciona com aparência e inseguranças relacionadas.

Tudo bem fazer as coisas para se sentir mais bonita ou menos feia. Tudo bem chamar de vaidade ou algum outro termo correlato. O problema é pintar tudo isso como algo necessário e relacionado com o tal do autocuidado e do tempo de qualidade consigo e não pensar no que certas práticas inseridas no nosso cotidiano significam. Inclusive no sentido de imposição. É muito ruim se importar tanto com aparência, colocar esse tipo de questão como uma prioridade nas nossas vidas, mas a gente não precisa fingir que a questão é outra. Quanto mais a gente mascarar, mais dependentes ficaremos disso.

Questionar essas coisas não é dizer simplesmente que se importar com aparência está proibido ou é necessariamente errado. É somente uma tentativa de entender melhor o que nos afeta, o que afeta as mulheres enquanto grupo e o que interessa ao capitalismo, ao patriarcado e também ao racismo que promove, por exemplo, o uso de clareadores de pele e outros produtos como alisadores de cabelo.


Observação #1: Essa crítica que fiz, inclusive, não quer dizer que eu sou uma pessoa que vive livre de imposições estéticas ou que eu não neure com isso ou que eu nunca tenha passado um creme hidratante na vida. São só reflexões.

Observação #2: Esse texto é fruto da soma de vários tweets que postei há alguns dias em minha conta pessoal do Twitter + uma leve edição para que essa bagunça virasse um membro típico do gênero Textão de Facebook™, porque eu também quis postar sobre por lá.

Observação: #3: Aconselho ler a thread do Twitter inteira, porque rolou muitos comentários ótimos de outras pessoas e que, por não serem meus, estão de fora do texto. Inclusive, há até uma discussão bem interessante que envolve mulheres com deficiência e estética. Não deixem de ler!

Observação #4: Essa thread fez surgir conversas envolventes, mas, além delas, também rolou comentários agressivos. Por causa deles, serei obrigada a escrever no futuro próximo um texto de humor exagerando as reações bizarras que recebi ao compartilhar essas reflexões numa rede social em tempos como os nossos. Posso adiantar que a galera parece partir do pressuposto que eu falei que está terminantemente proibido fazer skincare e iniciei o recolhimento compulsório dos produtos com a finalidade de jogá-los no lixo, sendo que eu só acho que a gente precisa entender o porquê de fazermos certas coisas e acatarmos certos discursos. É preciso assumir o que nos move para isso, chamar as coisas pelo nome correto, entender as forças envolvidas, etc.

O corpo dela e outras farras: a misoginia em evidência

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Carmen Maria Machado, em seu livro “O corpo dela e outras farras”, usa a linguagem, a quebra de fronteiras entre gêneros literários e a potência política de se abordar o corpo feminino em oito contos narrados por elas. Ao menos na edição brasileira feita pela Planeta, na página que antecede cada um deles, há a imagem de um corpo feminino marcado em segmentos como se fosse carne de açougue, deixando claro que o fio condutor entre as narrativas parte do tratamento que mulheres recebem pelo mundo a partir disso.

Por mais diferentes que as histórias sejam umas das outras, todas elas abordam o lado sombrio de ser mulher. A violência que permeia a existência feminina aparece, ainda que camuflada num cotidiano de naturalizações que implicam sempre em mais do que se vê num primeiro momento, como em “Ponto do Marido”, “Mulheres de Verdade Têm Corpos” e “Oito bocados”.

As dores e dilemas se fazem presentes, mas Carmen Maria Machado não trata o corpo somente dessa forma. Suas personagens gostam de sexo, sentem tesão e a maioria se atrai ou se relaciona com outras mulheres, o que é tratado com naturalidade pela obra. Essa abordagem, entretanto, não é usada para evitar tratar de como certos terrores femininos se relacionam também com o exercício da sexualidade e a vulnerabilidade que ela pode significar.

A inadequação e o sentimento de não pertencer também são temas retratados nos contos, ganhando destaque principalmente em “A residente” e “Oito bocados”. Nos demais, isso se apresenta de forma mais sutil, como uma maneira de expor que quando se é uma mulher e se vive sabendo que seu corpo é um alvo de controle é quase impossível se sentir inteiramente parte do mundo ou dona de si.

Chama atenção como a autora mistura maneiras de contar histórias e ainda assim o livro tenha tanta unidade. Há distopias, como em o “Inventário”. Há terror, gênero que se manifesta de certa forma em todas as histórias. Há uma quebra no realismo, que acontece principalmente em “Especialmente hediondas” e “Mulheres de verdade têm corpos”. Há mudanças de ritmo, como a adição do recuso da não linearidade, que dá ao que é narrado um ar quase delirante em “Mães” e até mesmo um toque de tom folclórico ou de fábula como no conto “O ponto do Marido”.

“O corpo dela e outras farras” é chamado por muitos de “black mirror” feminista por abordar temáticas sociais de grande importância de uma forma moderna, ousada e que nos faz pensar sobre presente e futuro. O grande trunfo de Carmen é, provavelmente, conseguir abordar questões políticas e delicadas sem cair no erro de explicar demais os significados daquilo, enquanto mexe com as fronteiras entre realismo, fantasia e horror. A autora não tem medo de tratar de temas relacionados com opressões e faz isso muito bem.


Carmen Maria Machado participará da 17ª edição da Flip nesse sábado, dia 13 de julho, às 17h, num bate-papo com Jarid Arraes, no Auditório da Matriz. Também em Paraty e na mesma data, mas às 20 hs, vai rolar outra mesa com ela na Casa Libre & Sta. Rita de Cássia.

Na terça, dia 16/07, às 19:30, vai acontecer, dessa vez em São Paulo no Sesc da Avenida Paulista, uma outra conversa que contará com a presença da autora.


Tradutor do livro: Gabriel Oliva Brum.


Observação: As histórias que compõem o livro atraíram os olhares do mundo do entretenimento e ele será adaptado para TV pelo canal FX. O projeto ainda é bem inicial, mas promete.


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Cat Person e outras histórias: o lado sombrio das relações

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Kristen Roupenian é uma das autoras convidadas para a 17ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Evento que acontecerá do dia 10 a 14 de julho desse ano. Seu nome foi o primeiro a ser anunciado na agenda do evento, mesmo ela sendo uma estreante no mundo dos livros.

Sua importância se deu porque a autora protagonizou um fenômeno da literatura contemporânea após sua história “Cat Person” se tornar viral ao ser publicada na revista “The New Yorker” no final de 2017. O conto de Kristen foi um dos mais acessados da biografia da publicação e moveu debates intermináveis na internet durante dias, despertando, inclusive, até mesmo haters. A partir dessa história, muito se comentou sobre liberdade, consentimento, objetificação e trocas virtuais. Temas que receberam um baita holofote nos últimos anos graças aos debates feministas, especialmente a partir dos primeiros passos do #MeToo, episódio que se iniciou semanas antes da publicação do conto.

“Cat person” é especial por expor, em um texto cheio de camadas, aspectos quase invisíveis das relações de poder entre homens e mulheres. Em poucas páginas, a autora nos faz refletir sobre o quanto a paquera, mesmo marcada pela modernidade das mensagens de texto e de uma certa liberdade sexual feminina, ainda reproduz expectativas a partir de estereótipos de gênero e dominação masculina. Ainda há obrigações que mulheres acreditam ter por terem gerado uma certa expectativa e direitos que homens acham que merecem.

Essa história chegou ao Brasil traduzida pela Ana Guadalupe em um livro, publicado pela Companhia das Letras, que reúne mais onze contos escritos pela Kristen Roupenian. Em comum, todos falam sobre poder e tratam sobre aspectos sombrios da humanidade. Suas histórias, no geral, carregam em seu cerne uma estranheza e, em alguns casos, mesmo quando envoltos de realismo, características que dialogam com filmes de suspense psicológico e até terror.

A obra e estilo de Kristen nos deixam desconcertados, especialmente quando ela escreve sobre consentimento, a arte do flerte e todos os estereótipos envolvidos nisso. “Cara legal”, “Seu safadinho”, “Não se machuque” e “Vontade de morrer” são bons exemplos de como ela explora esse tema de uma maneira que incomoda e choca por expor as problemáticas que se fazem presentes nos relacionamentos humanos.

“Look at your game, girl” é uma narrativa que também merece destaque e mexe, principalmente, com mulheres. Nesse texto, a autora mostra como a violência rodeia o feminino desde que somos muito jovens e explora o medo que toda essa dinâmica causa na gente, evidenciando como essas histórias marcam nossas identidades. Esse conto, analisado a partir do contexto de toda a obra, ainda nos faz pensar no quanto as relações de poder são moldadas também pelos acontecimentos que circundam nossas vidas. O medo que nos acompanha talvez seja parte essencial do desequilíbrio de poderes nas relações amorosas e sexuais entre homens e mulheres.

“Cat Person e outros contos” tem como trunfo a maneira que Kristen Roupenian aborda as relações humanas, a complexidade de seus vínculos, seus perigos e o quanto o poder mexe com a humanidade, especialmente quando ninguém parece estar observando.


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