“Apague a luz se for chorar”: lidar com a morte é lidar com a vida

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“Apague a luz se for chorar”, romance da escritora Fabiane Guimarães, me aguardava na biblioteca do Kindle fazia quase um ano. Prestes a embarcar em uma via sacra celeste com destino final em Brasília, me veio a lembrança de que tinha lido em algum lugar, provavelmente nas redes sociais da autora, que ela tinha nascido no interior de Goiás e agora morava na capital federal, a cidade que mais uma vez eu ia visitar. Buscando algum cenário ou passagem ficcional que me levasse até o Centro-Oeste mais rápido que qualquer avião, abri o arquivo do livro decidida a começar a leitura. Logo, junto de Cecília, estava no ar, pousando no aeroporto com água até dentro dos meus olhos, mesmo com o mundo real seco como eu já esperava encontrar indo para lá no inverno.

Fui fisgada pela história já nas primeiras páginas.

Se um luto é sempre um processo de conhecimento, onde o enlutado, na busca por alguma resposta, precisa produzir provas, ouvir testemunhas e captar todas as informações possíveis daquele fato para elaborar perante o juiz, que, nesse caso, também é ele mesmo, Fabiane Guimarães soube levar isso além, transformando em algo mais uma narração em que a lógica enlutada e ansiosa de uma personagem nos conduz vertiginosamente a partir da dúvida.

Cecília vivencia seu luto por inteiro, mesmo quando tem certeza que deixou quase todo seu corpo coberto e protegido. Ela perdeu seus pais no mesmo dia, na mesma hora. Morreram juntos, de causas naturais, alguém explica a ela que segue sem absorver a frase como se esperava. “Sua mãe era tão boa”, diz outra pessoa que ela nunca viu na vida. Tudo é estranho, a morte é estranha. E por isso a gente se abre para essa personagem na hora, como se tentar entendê-la fosse preparar a gente para lidar com nossos mortos, com a certeza da nossa própria morte. Assim como Cecília, a gente tem dúvidas e nos expomos a elas a cada página lida, porque sabemos que não conhecemos ninguém tão bem assim, porque também temos medo da morte e dos segredos de família, porque desconhecemos qual é o sentido da vida, se há um ou dois ou nada. A gente simplesmente entende Cecília, porque conhecemos o poder do “e se”, então abraçamos sua desconfiança, tememos por ela, nos perguntamos porque ela falou alguma coisa e deixou de falar outra.

Com João é diferente. A história dele simplesmente vai se desenhando, acontecendo, sem a gente entender bem o porquê dela estar ali, sendo contada junto da vida de Cecília. A gente só acompanha ele e seu filho Adam, enquanto espera o momento em que tudo fará sentido. Agimos exatamente como o personagem, que parece, ao menos inicialmente, simplesmente seguir seu caminho trabalhando na zoonoses fazendo eutanásia em animais, fingindo não pensar tanto no que isso significa para ele, seu filho com uma grave deficiência e todos os cães e gatos que lhe são entregues. Só que um dos fios condutores desse livro se revela rapidamente, ainda que a gente demore um pouco para perceber: João também está lidando com a morte, com a sombra dela se aproximando do filho, e sua história é a de quem também busca respostas, mas tem medo até das perguntas que cogita fazer. João tem medo do seu futuro com e sem o filho.

Pirenópolis é um destino estranho para enlutados, mas me parece um lugar perfeito para dois idosos viverem juntos seus últimos dias. Não importa se os mortos gostavam ou não do último lugar em que moraram, porque aqueles que ficam e sofrem se sentirão pisando em um terreno insólito e perigoso independente de onde estejam. No fim das contas, qualquer lugar é um destino estranho para quem sofre uma perda. Ou acha que pode perder alguém a qualquer momento. Ou perde alguéns e ainda descobre um segredo de família que pode mudar a maneira como você encarava até então seu pai, sua mãe, sua vida.

Apague a luz se for chorar” é uma história sobre as descobertas que fazemos quando somos obrigados a tatear essa escuridão. Lidar com a morte, aquela que ameaça ou já aconteceu, é estar em um não-lugar, um espaço suspenso, em que o mundo dos vivos se esbarra no dos mortos o tempo todo. Cecília e João vivem de maneiras bem diferentes a angústia de não conseguir mais pisar no solo e senti-lo firme e por essas e outras se encontram nesse livro que fala de morte, luto, medo, família, escolhas e segredos.

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Publicado por

Thaís Campolina

O que falta em tamanho sobra em atrevimento. Isso foi dito sobre um galinho garnisé numa revista Globo Rural dos anos 80, mas também serve pra mim.

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