“Para diminuir a febre de sentir” e a vida como ela é


Conheci a Dalva em uma oficina de escrita no ateliê do Estratégias Narrativas. Era a minha primeira vez naquela salinha, depois de um longo período querendo retornar para a escrita. Não sabia onde colocar as mãos, os olhos e os cadernos, muito menos a vontade de ler, aprender e escrever. Nunca tinha feito uma oficina antes e tudo era uma grande novidade. Por isso, estava acompanhada de uma amiga, a Carol, que, se eu não me engano, é quem me apresentou a possibilidade desse escrever acompanhado e guiado que me enchia os olhos naquele momento. Era a primeira vez dela também, eu acho. Lembro que nenhuma de nós sabia o que fazer, mas a gente sabia que a gente precisava daquilo. Estávamos tão ansiosas que uma semana antes da oficina de fato começar, numa confusão de datas e disposição, acabamos no Maletta numa segunda às 19 horas. Naquele dia, celebramos o início do que ainda nem tinha sido iniciado com cerveja e batata-frita.

Todo debute é uma aventura. Por isso, narro o início de tudo, o que veio antes da leitura e da formação desse texto. Quando fui formular o desafio literário #LeiaComASubjetiva de 2020, listei “livro de estreia” como tema para o último bimestre. Dezembro pede novidades, é o mês que nos lembra do fim, logo do início e, muitas vezes, nos afasta do presente. Entre rituais conscientes e inconscientes, retrospectivas e desejos, o que acontece no aqui e agora é que parece enevoado. Essa é a hora certa de pensar em primeiras vezes. 

No último dia de um ano caótico, triste e destrutivo, li “Para diminuir a febre de sentir” da Dalva Maria Soares, minha ex-colega de oficina que estreou em formato de livro em 2020. A sensação foi de que ela e os personagens de suas crônicas estavam com suas mesas de café postas para receber mais um ano, mais uma pessoa, mais uma estreia. E, como bons mineiros, estavam muito bem preparados para ver chegar mais gente ainda para participar desse momento de troca, afeto e reflexão que só acontece mesmo em torno de uma refeição e da ideia de fim e começo. No meio de leitores e personagens, sentaram-se também as referências. Guimarães Rosa, Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus, Adélia Prado, Emily Dickinson, Criolo, Virginia Woolf, Gloria Anzaldúa e outros, todos em torno da mesa sendo observados também por Fridinha, Scooby e outros cães. Um amontoado de gente que sabe que a vida acontece também quando ninguém está olhando e vê beleza na pequenez da rotina e da história de cada um. Um amontoado de gente que eu passei a olhar diferente, ainda que já os conhecesse e até os acompanhasse, tudo porque a escrita da Dalva, essa que tive contato na oficina e depois acompanhei por anos pelo Facebook, é sempre uma conversa que vai e vem, encontra leitor, encontra memória e carrega junto um mucado dela, dos seus e da gente. 

Dalva é uma escritora que toca quem lê a partir de um relato de um cotidiano invisibilizado. Esse das mulheres simples, das pessoas exploradas, das mães e das filhas que se ligam por conhecer bem os fantasmas que assombram as outras. Esse que se apresenta todo costurado aos livros e autores que ajudaram a formar a autora, mas que não foram e nem nunca serão as únicas fontes de conhecimento dela. O entorno, os afetos e desafetos, a ancestralidade e as vivências, tudo isso também forma, como ela, a partir dessas 15 crônicas, mostra. 

“Para diminuir a febre de sentir” é um livro de bolso, desses bem curtinhos, e foi publicado de maneira independente pela Editora Popular Venas Abiertas. Ele mexe com a gente porque fala da vida como ela é, complexa, difícil e, apesar de tudo, com espaço reservado para o afeto, a cultura, a arte e a imaginação. Fome, violência e desigualdade são lembrados de forma crítica junto aos laços visíveis e invisíveis que impedem a completa desumanização. Dalva sabe muito bem compartilhar o indizível e o não quantificável, o que é, per si, uma forma de resistir. 

Agora entrego esse livro com carinho para a minha avó materna, que viveu por muito tempo bem pertinho de Baldim, o principal cenário dessas crônicas sobre a vida de Dalva. Antes de 2020 acabar, ela merece saber que histórias como as dela também podem estar num livro.


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“Solução de dois estados”: uma história sobre ódio, sociedade e subjetividade

Divulgação — Adquira seu exemplar aqui.

“Solução de dois estados”, obra mais recente do escritor brasileiro Michel Laub, se inicia com uma memória do personagem Alexandre sobre o Plano Collor narrada por ele mesmo. Não sabemos onde ele quer chegar com isso, por que ele fala, com quem ele fala, mas logo percebemos a mágoa do personagem com a irmã.

Uma reflexão sobre ódio é feita. Uma personagem comenta sobre uma cena, sobre suas cicatrizes, seu corpo, e reflete sobre ter que repetir sua história, enquanto todos parecem buscar uma contradição, um erro de tom, um motivo para culpá-la. Ela parece estar cansada de contar o que aconteceu para tentar cativar um público que não se importa. Raquel é o nome dela. Ela é a irmã de Alexandre.

E assim segue o livro. Cada hora um personagem fala, apresentando seus pontos de vista. Assim conhecemos suas personalidades, suas memórias e os acontecimentos a partir do que nos é dado por eles. O contexto daquela trama se desenrola, ao menos inicialmente, a partir do que esses dois personagens nos contam. Só com um certo avanço na leitura que conhecemos melhor uma terceira personagem com voz: a documentarista estrangeira Brenda. A personagem que, com suas perguntas, guia todas as respostas, ainda que ela omita várias delas ao fazer suas edições no material.

A obra simula a estrutura típica de um documentário. A narração, a troca de vozes, a apresentação de materiais brutos depois dos pré-editados, tudo tem a ver com esse formato usado para contar histórias reais, colocando a discussão do papel da arte e as escolhas que envolvem esse fazer no centro da narrativa, indo além da personagem Raquel, que é artista performática, criando assim a possibilidade de embates entre a cineasta e ela e também entre Brenda e Alexandre. A construção dos personagens a partir do que eles dizem sobre si e sobre os outros, as perguntas incômodas da estrangeira, tudo isso que é posto no livro é material desse documentário-cenário e, de certa maneira, também quase personagem já que representa ali a documentarista e suas escolhas artísticas ou não.

O ódio entre os dois irmãos, algo tão íntimo e relacionado com ressentimentos do passado e do presente, se entrelaça com questões políticas do nosso tempo, como a violência, as milícias, o sexo, o discurso meritocrático e da igreja — que inclusive se confundem — , assuntos relacionados com bancos, patrocínios, perseguição da arte e a supervalorização do trabalho empreendedor como transformador e acima de todos os outros.

O corpo é também um território de batalha na obra. Raquel tem 130 quilos e seu trabalho artístico, suas mágoas, suas experiências, inclusive de violência, são relacionadas a esse fato. Isso cria uma complexidade além, tanto para a construção da personagem, quanto pra obra em si. Ela quer o direito de existir como ela é sem sofrer com o ódio que é direcionado a certos tipos de corpos. Ela, na defesa dessa pauta, de sua dor e de si mesma, se exalta em alguns momentos, se tornando inclusive arrogante. Só que ela não é uma representante típica do ódio, ela é uma vítima dele. Por mais que a própria documentarista tente colocar Alexandre e Raquel como faces de uma mesma moeda em alguns momentos, querendo exaltar a polarização, há no livro pontos que evidenciam que essa não é uma escolha tão difícil como alguns podem alegar: é civilização versus barbárie para mim, para vários nós, mas para muitos outros a disputa que se coloca no livro e na vida é entre o bem e o mal e o uso político e religioso desses termos.

Michel Laub criou uma obra que se passa em 2018, meses antes da famigerada eleição de Bolsonaro e sua trupe, mas que também narra algo anterior. Intenso, dolorido, reflexivo e capaz de nos fazer entender dois personagens complicados, ainda que um seja bem mais complicado que outro, o livro fala desse entrelaçamento de família e política, vida privada e sociedade. Como os acontecimentos políticos podem afetar nossas vidas? Nossos afetos? O que nosso corpo representa politicamente? É viável tentar uma conciliação com esse Outro? Ela é desejável? Ela é necessária? Há diálogo possível? Há alguma outra perspectiva que indique mudança nesse panorama? Todas essas perguntas que surgem durante a leitura nos incentivam a pensar nas nossas próprias relações, em como a política afeta cada uma delas, e, de forma talvez indireta, no uso da defesa da família como pauta política principal por alguns partidos e políticos, enquanto todo esse ódio, que esses grupos adoram alimentar contra diversos tipos de pessoas e ideias, fomentam rupturas, disputas, ressentimentos e violência.


O livro “Solução de dois estados” de Michel Laub será lançado oficialmente no dia 09/10, sexta-feira, mas é possível comprá-lo durante a pré-venda, garantindo um preço mais baixo do que o de estreia, pela Amazon. O link posto aqui também será válido para compras posteriores a data.

Uma semana antes do lançamento oficial, a Companhia das Letras promoveu uma Cabine de Leitura com o autor e alguns parceiros interessados em receber o livro via ebook em primeira mão e lê-lo para a conversa. O papo foi incrível. Michel compartilhou um pouco sobre seu processo criativo, suas referências e algumas opiniões com a gente, além de ter respondido perguntas nossas e do mediador.

“Raízes de fogo”: uma história sobre a importância de voltar às origens

Imagem de divulgação

Nesse conto, recém-lançado na Amazon, Carol Vidal narra uma história de descoberta, ancestralidade, trauma e amizade. Em poucas páginas, a autora constrói um cenário bem brasileiro, com a história se passando na Ilha de Marajós, e apresenta ao leitor imagens únicas como a de uma revoada de guarás.

O tempo e a memória são temas que perpassam todo o conto. Carol usa essas questões para aproximar o leitor dos sentimentos da protagonista e para, em segundo plano, também possibilitar reflexões sobre o pouco que conhecemos sobre a origem do nosso país e o perigo da história única que apaga da memória coletiva a resistência, o conhecimento e o patrimônio de diferentes povos.

Conhecemos muito da mitologia greco-romana e quase nada sobre a mitologia das diversas etnias indígenas que vivem ou viveram no território hoje conhecido como Brasil. Exploramos a magia e a imaginação a partir de livros e filmes como a série Harry Potter, mas pouco criamos ou lemos ou mesmo assistimos obras que tratam sobre histórias fantásticas que se passam longe de Londres, em ambientes bem mais próximos de nós. Carol quebra com esse padrão ao trazer um enredo que acontece no norte do Brasil e que fala de magia, museus, retorno às heranças ancestrais e investigação de artefatos de povos originários como uma forma de contar uma história.

“Raízes de fogo” é sobre a importância de voltar às origens, tirar certas narrativas da invisibilidade e assim achar seu espaço no mundo. O conto acaba com gostinho de quero mais. Quando sentimos que conheceremos mais a protagonista e a história de seus pais e seu povo, o fim do livro chega. Uma pena. Dá vontade de pedir a continuação. Que essa história seja o prólogo de uma maior.


Conheça “Raízes de fogo” e apoie uma escritora independente comprando o e-book desse conto por apenas R$1,99 na Amazon.

Três poemas para o Oito de Março

Ou “Linha Direta, a tríade”

Judite decapitando HolofernesArtemisia Gentileschi

PRÓLOGO

sem querer
a gente deixa morrer na gente
o que precisa
de cuidado
apoio
sol na medida certa
e uma conversinha mole
regada a café
sorrisos
e comida de padaria

é uma morte devagar
que acomete
quem teme
não poder mais nada

é uma morte lenta
que caminha junto
com a desesperança
o controle
a apatia
a dor
a ameaça

UMA HISTÓRIA PARTIDA AO MEIO

um safanão
diante do não
outro
corretivo futuro

a mesa não foi posta na hora
soco na boca do estômago
choro silencioso
um pedido de perdão
dessa vez não

a polícia entra em cena
78 minutos depois
encontra a mulher sozinha
ensanguentada, mas viva

EPÍLOGO

estar suja de sangue
me incrimina
e alivia

esse gosto de ferro na boca é o sabor da legítima defesa


O Dia Internacional da Mulher não existe para que empresas prestem homenagens estereotipadas em forma de propaganda ou se apropriem da luta feminista para vender seus produtos. Essa simbólica data surgiu para denunciar a ainda insalubre condição feminina no mundo, propor debates, discutir políticas públicas e dar visibilidade aos feitos e lutas das mulheres.


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Por que pregar abstinência sexual não é uma política pública eficiente?

Damares Alves, chefe do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Promover a abstinência sexual não funciona como política pública para evitar gravidez na adolescência e nem o contágio de doenças sexualmente transmissíveis entre jovens. O estudo de casos como o dos Estados Unidos no período Bush mostram a ineficiência desse tipo de programa. Até mesmo Damares Alves, enquanto ministra, admitiu que não há pesquisas que embasam a proposta como ela foi feita, mas ainda assim essa é uma medida que costuma ser bem vista por muitos e a gente precisa parar para pensar no porquê disso.

Damares Alves, por meio de seu discurso, se coloca como a única e verdadeira defensora das crianças e adolescentes. Ela manipula as pessoas a partir disso e tenta convencer a população de que defender qualquer coisa diferente da promoção da abstinência total é estimular que crianças e adolescentes transem. Ela aproveita a preocupação comum de pais e cuidadores com o presente e o futuro de seus filhos para defender como política pública algo que não encontra amparo científico, enquanto ignora questões essenciais ao debate como machismo, lgbtfobia e, principalmente, os altos números de casamentos infantis ou precoces, casos de exploração sexual e de estupro de vulnerável.

Com a frase “Se provarem que vagina de menina de 12 anos está pronta para ser possuída, paro de falar”, a ministra defendeu o seu programa de maneira completamente desonesta. Ao dizer isso, ela, a partir do sensacionalismo, tentou colocar quem é contra a abstinência sexual total como política de governo como defensor da pedofilia, sendo que a educação sexual, sempre dada de acordo com a idade dos alunos, funciona justamente como uma forma de proteger crianças e adolescentes de estupros, especialmente nos casos em que eles acontecem dentro de casa, entre familiares e vizinhos, ou mesmo fora, em locais com ares de confiabilidade e presença de figuras de poder, como padres e pastores.

Além disso, sabendo que na legislação brasileira há o tipo penal do estupro de vulnerável, que presume como violência sexual qualquer ato sexual com menores de 14 anos, o discurso de Damares Alves se mostra ainda mais manipulador. Legalmente, antes dessa idade não há sexo com consentimento, há abuso sexual presumido, logo já se defende a abstinência sexual de pessoas que se encontram nessa fase da vida.

Quando o próprio governo, a partir da figura da Damares, sugere uma atividade educativa que envolve uma fita adesiva que passa colando entre os estudantes para afirmar que depois de um tempo a menina*, especialmente a menina, não “cola” com ninguém, fica evidente o machismo e o anticientificismo que envolve a defesa dessa política de governo. A partir dessa declaração, se percebe o quanto eles buscam cercear o exercício da sexualidade feminina não só enquanto adolescente. Eles querem promover o ideal de casamento mesmo, ignorando as estatísticas brasileiras sobre casamento precoce e suas consequências.

A popularidade de propostas como essa se sustenta na má-fé de seus defensores e na propagação de desinformações comuns ao tema. A sexualidade em si é um tabu inclusive para adultos e justamente por isso Damares Alves explora a temática a partir do senso comum moralista, machista e religioso e usa isso para promover seus interesses, ignorando estatísticas e o alcance do problema.

Com um discurso agressivo contra quem discorda da promoção da castidade como política pública, quem defende essa agenda oferece uma resposta superficial que não soluciona nada, apenas empurra para debaixo do tapete um problema que, ao não ser trabalhado como deve, tende a se agravar. Sem o cuidado necessário, o estímulo da abstinência misturada com o papo de alma gêmea presente no discurso da ministra pode acabar reverberando em um aumento de casamentos precoces, por exemplo.

A educação sexual é provavelmente o principal e melhor caminho para evitar a gravidez na adolescência e a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis porque, além de informar sobre o funcionamento e cuidado do corpo, as transformações da adolescência, os métodos contraceptivos e as doenças sexualmente transmissíveis, ela também ensina sobre consentimento e estupro, o que dá ferramentas para as vítimas denunciarem seus algozes e contribui para construção de uma sexualidade saudável para jovens, independente do gênero.

Falar “não transe”, sem qualquer outro aprofundamento ou informação, não ajuda em nada, porque essa frase colocada assim só contribui para alimentar o tabu do valor da virgindade feminina, a culpa, o pecado, o desejo pelo proibido e, claro, a desinformação e a perpetuação do silêncio que envolve casos de estupro.

Informar, falar sobre e debater sexualidade e gênero levando em conta questões além da biologia em si, sem imposições ou terrorismos, é o que ajuda adolescentes a entenderem as responsabilidades com o outro e consigo mesmos necessárias para a construção e exercício de uma sexualidade saudável. Isso, na maioria das vezes, influencia na decisão dos jovens em adiar o início da vida sexual e permite que eles aprendam a se proteger de gravidezes, doenças e até mesmo violências quando ou caso decidirem transar — ensinamentos que podem ser úteis até mesmo antes desse momento chegar.

A castidade como foco de uma política pública falha porque isola o assunto de quem mais precisa falar sobre, deixando jovens sem acesso às informações essenciais para o início de uma vida sexual segura. Assim, a pornografia e os mitos sobre o sexo ganham espaço entre adolescentes e até mesmo adultos. O impacto de uma política pública como essa se perpetua além da menoridade porque reafirma lugares comuns sobre sexo, desinformação e silêncio. É a vitória do “não, porque sim” frente à construção de uma sexualidade responsável e respeitosa. É a escolha por criar mais uma barreira de acesso aos direitos sexuais e reprodutivos. Escolha essa que já está sendo feita em outros âmbitos, como no pedido de eliminação, por parte do Brasil, de qualquer tipo de referência sobre “educação sexual” e “direitos reprodutivos” nos documentos da ONU e OMS.

No mais, além de aulas e campanhas de educação sexual, é essencial que as políticas públicas sobre sexualidade levem em conta o efeito da falta de oportunidades no imaginário social que coloca filhos e casamento como um meio de atingir uma certa autonomia, especialmente para meninas e mulheres. Informação sem perspectiva não é o suficiente. É preciso que as políticas públicas interajam entre si e expandam a ideia de futuro que muitos jovens possuem. Combater a miséria, por exemplo, é essencial para isso. Somente ações coordenadas e abrangentes que envolvam aulas de educação sexual baseada em evidências e debate protegerão meninas e meninos da naturalização desse processo que envolve, muitas vezes, pessoas maiores de idade que se aproveitam justamente da falta de conhecimento, maturidade e horizonte de crianças e adolescentes para conseguir o que querem. Seja pelo casamento ou pela exploração e violência sexual.


*O uso do termo “menina” nessa fala vem de novo reiterar no imaginário social que a ideia de que ser contra a abstinência sexual como política pública é defender a pedofilia.


Conversando com O Ano do Macaco

Acervo Pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Eu também daria feliz ano novo para as minhas botas, mas aqui no hemisfério sul, onde moro, não há espaço para esse tipo de calçado nessa época. No máximo, um par de tênis quando se precisa usar algo fechado e bom para andar. Desse lugar de onde leio, o Ano do Macaco já passou e parece mais distante do que está de fato. Eu que não entendo nada sobre os anos chineses ainda encaro tudo que aconteceu em 2016 como uma sucessão de piadas nonsense que saíram do controle e culminaram no ano de 2018 e depois no 2019 e agora no recém iniciado 2020.

Ainda assim, eu felicito quem e o que está ao meu lado com todo tipo de mensagem de ano novo como se essa virada não fosse uma mera ficção. Ser ficção não é um demérito necessariamente. Quanta coisa mudou em mim e no mundo por causa de uma história, de um nome, de uma prática ou de outras coisas inventadas. Tanta coisa boa surgiu da capacidade humana de criar e, caramba, tem hora que tudo que a gente quer mesmo é se deixar enganar por uma trama boba ou não. A gente não pode se esquecer disso, apesar de tudo. 2016 ou 2018, não importa, em ambos os anos algumas ficções foram tratadas como notícias reais e usadas para defender o indefensável. Ganharam eleições assim. Nem toda invenção é boa, principalmente quando elas se fingem de verdades verdadeiras e se moldam ao formato mais atraente de sensacionalismo.

Antes de continuar, preciso confessar que não sei se dialogo aqui com a Patti Smith, com a placa do Dream Motel, que na verdade é Dream Inn, com o livro no todo, com os mortos da autora, com os meus mortos, ou com você, leitor(a), que chegou desavisado(a) acreditando que esse texto seria uma simples resenha ou análise ou crítica ou ensaio comum e se deparou com um breve tratado sobre um tempo, um livro e a imaginação.

Acho que escrevo esse texto como se todos esses personagens e mais alguns estivessem frente a frente comigo, sentados numa mesa de bar ou café, me vendo falar sem parar.

Quero falar com a Patti Smith sobre envelhecimento, morte, esperança, desespero, amizade e, claro, sobre o show dela que assisti no último novembro no Popload. Talvez, no lugar de falar sobre o show, eu prefira comentar sobre o lançamento dos livros dela feito bem na véspera do festival que a trouxe para o Brasil. Foi tão bom ouvi-la falar assim, tão pertinho, quase como uma amiga. Foi tão bom ouvi-la narrar trechos do livro que agora leio, converso e carrego comigo para um café. Eu sei que no fim, o que eu faço mesmo é conversar sobre o tempo com todos dessa mesa de personagens estranhos, ainda que fique ansiosa para citar, em algum momento mais informal, que eu também gosto de jogos de tabuleiro como Bolaño, escritor ainda não lido por mim, mas sempre referenciado pela autora.

O tempo é também um lugar. Partimos sempre de uma data para olharmos para o mundo, para nós e para os outros. Patti, no Ano do Macaco, estava à espreita dos setenta anos. Eu, no ano do Cão de Terra, fiz trinta. Estranhamente, eu e ela olhamos para os mortos. Só que os dela estão cada vez mais próximos, enquanto os meus ainda moram no medo. E eu espero que eles fiquem lá por muito tempo ainda. Isso me faz pensar que o Ano do Macaco é sobre luto também, mas é um luto que vai muito além da Patti como narradora, autora e personagem. Por mais que seja ela que esteja perdendo amigos e se alimentando de memórias. O luto parece ser do mundo, como se a esperança estivesse morrendo de acordo com o passar dos dias, dos meses e, por fim, do Ano do Macaco.

2016 aqui foi um ano com impeachment, olimpíadas, Cunha preso e acidente de avião com time de futebol promissor. Também tivemos um luto coletivo por isso. Divididos, de certa forma, com nossos vizinhos colombianos que receberam a dor das famílias, amigos e fãs de uma forma impressionante. Desse lugar saímos e chegamos em 2018 com Marielle Franco assassinada, mais um luto coletivo, mas esse muitas vezes interrompido por uma espécie de polarização fabricada que dá força para o ódio, para as fake news e para a extrema-direita. Nesse ano também tivemos Bolsonaro eleito como líder do país, e depois, já em 2019, o primeiro ano de governo dele. Ele e seus apoiadores são tão movidos pela destruição que, de certa forma, muitos de nós vivemos uma espécie de melancolia coletiva agora. Ainda mais com a intensificação dos efeitos do colapso climático junto com o negacionismo crescente da ciência. Ainda mais com o genocídio da população negra justificado cada vez mais pela busca incessante por essa tal de segurança pública.

2019 também foi o ano do rompimento da barragem de rejeitos de minério em Brumadinho. Vai fazer um ano agora e eu ainda me lembro de quando li a primeira notícia e alguns dias depois passei perto do rio Paraopeba e ele já tinha uma cor diferente, de toxidade, de morte, de fim. Ainda há 17 pessoas desaparecidas. 253 mortos. Eu nem sei direito o que dizer, mas sei que certas tragédias e crimes precisam ser lembrados.

O Ano do Macaco fala de tempo. É isso. E tempo é memória, morte, momento e vida. E a gente se confunde, sonha, se perde e conversa com o que já está no passado o tempo todo. O passado importa, a memória também, quem somos perpassa por isso e é nas nossas lembranças que mantemos o que importa para nós vivo, mas talvez a gente precise falar mais de futuro ou aprender a falar de passado de uma outra forma. Não sei. Hoje, alguns dias depois do ataque ao Irã por parte dos EUA, vi muita gente falar nas redes sociais sobre o fim do mundo. Ele parece tão próximo e o meu principal impulso ao notar isso é tentar lembrar de quando ele parecia distante. Talvez eu deveria era pensar em um outro lugar e tempo em que o fim do mundo parecesse uma ficção e trabalhar para construir isso. Com certeza seria mais produtivo, mas eu sei lá se quero mesmo ser mais produtiva. Ser produtivo não está ajudando muito a gente no geral, né?

2020 é o Ano do Rato e, como sempre, eu não faço ideia do que isso significa, mas eu realmente acho que daria um bom nome de um livro que talvez narre o fim do mundo ou talvez não. Espero que não. Só consigo pensar que quero acreditar que esses ratos são fênix e que algo vai renascer dessa época e, sem perceber, sinto que comecei a conversar sobre isso com a placa da pousada que a Patti Smith se hospedou em Santa Cruz.

Ler esse livro foi um processo bem mais demorado que eu imaginava, porque eu decidi, na página 40, que eu leria para reaprender a sentir o tempo passar. Não como notícia, como cronômetro, como agenda, mas como tempo, aquele conceito que mistura o passar dos segundos, minutos, horas, dias com o clima e o efeito dele na gente e no todo. Quando terminei de ler e comecei a escrever, chovia. Agora só ameaça, mas eu me sinto estranhamente tranquila. As nuvens estão escuras, mas ontem também estava e grande parte do dia hoje foi lindo mesmo assim.


Tradutora da obra: Camila von Holdefer.


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“Talvez precisemos de um nome para isso”: um poema sobre cabelos e outras coisas

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o formol cai bem aos mortos
mas a indústria é ótima com eufemismos

Um poema longo, dividido em dez partes, forma o livro de estreia de Stephanie Borges, o “Talvez precisemos de um nome para isso”. Um poema longo, dividido em dez partes, é algo que eu nunca resenhei antes. Já na estrutura, o livro me obrigou a sair da minha zona de conforto literária e encarar versos livres, diretos, um poema que narra e a força das palavras que formam uma obra que trabalha a questão do cabelo de forma pessoal e coletiva sem se perder nas possíveis apropriações do mercado.

“Talvez precisemos de um nome para isso” venceu em 2018 o Prêmio Cepe Nacional de Literatura, na categoria poesia, e trata de temáticas atuais e que parecem conversar com o leitor, apesar do formato incomum para quem, como eu, se acostumou a ler livros de poesia que não são formados por um texto único.

mas não confunda
o poder e o produto
é bom para alguém que continuem acumulando
shampoos condicionadores
antifrizz finalizante
pomada mousse
restaurador ampolas
e esqueçam

Stephanie Borges usa experiências pessoais, referências literárias e musicais, cartas de Tarot, mitologia, informações científicas e receitas naturais de hidratação para criticar as cobranças estéticas e capilares voltadas para as mulheres, sobretudo as negras com seus cabelos crespos e cacheados, e falar sobre cabelos, vida e identidade de uma maneira diferente.

O cabelo feminino carrega significados culturais e esse poema tensiona vários deles. Esses significados perpassam todo o corpo e o comportamento esperado das mulheres, mas é no cabelo que eles parecem mais visíveis, provavelmente por causa da naturalização das cobranças referentes a isso no cotidiano brasileiro. “Não parece tão grave, afinal, é só o cabelo”, alguns podem dizer, sem pensar no quanto as cobranças capilares que permeiam a feminilidade se relacionam diretamente com o racismo, o machismo e ao sofrimento das mulheres associado a eles. Engana-se, entretanto, quem acredita que esse poema é só sobre isso ou mais sobre sofrimento, dor e denúncia do que qualquer outra coisa. Ele aborda também a descoberta de si e a construção de uma outra coisa que foge de tudo isso. O cabelo também é um caminho para se chegar a um outro lugar.

é triste
que existam meninas virgens, mas seus cabelos não
e naturalizemos a beleza pela dor
a ponto
de parecer normal
o ferro quente carinhosamente
chamado de chapinha,
queimaduras de hidróxido de sódio e guanidina
me avisa quando começar a arder
pra gente lavar, tá

Ninguém parece ver muito problema nas intromissões acerca dos fios alheios, ainda que as pessoas usem termos racistas para fazê-las. Falam tanto de domar cabelos e sumir com o volume que nem percebem o quanto essas expressões se relacionam com o desejo machista de controlar mulheres e torná-las cada vez menos notáveis, mais invisíveis. Essas e outras frases são utilizadas para pressionar alisamentos, relaxamentos e tingimentos e simbolizam a pressão social para que as mulheres tenham uma aparência específica, ainda que ela fuja totalmente de sua natureza. Esse controle sobre a aparência feminina que surge nessas e outras cobranças é uma maneira de nos ocupar e nos atrapalhar a buscar caminhos além das possibilidades que nos são apresentadas como as únicas possíveis.

e embora hoje transição seja a palavra
há um tempo era assumir
repare a estranha necessidade
de quem se apropria do que sempre foi seu

Stephanie Borges expõe como toda essa cobrança racista — e machista — sobre os cabelos, especialmente femininos, foi normalizada e afeta, inclusive, o próprio mercado de trabalho que ainda hoje insiste que cabelos cacheados e, principalmente, crespos não sugerem profissionalismo. E vai além ao também fornecer ferramentas para que o leitor repense a estética de nossa época a partir de confrontos entre o que é dito sobre cabelo em diferentes mitologias, como a iorubá, ajudando quem lê a criar e recriar novas imagens para pensar o mundo. Imagens menos colonizadas, eu diria.

Um cabelo não é só um cabelo. Os fios vão muito além da estética, investigá-los é uma maneira buscar o que veio antes e entrar em contato com histórias que ainda não conhecemos. Falar sobre não é ser fútil, é saber olhar ao nosso redor e entender símbolos, comportamentos e culturas. Stephanie, nessa obra, aborda padrões de beleza, racismo, identidade, descoberta e ancestralidade olhando para si e para a sociedade. É justamente nessa mescla entre o privado e o público, o passado e o presente, as velhas e novas ideias, e as diferentes linguagens e referências que a poesia da autora nos impacta.

No fim, os fios de cabelo que formam esse livro se emaranham aos nossos próprios, sejam eles lisos, alisados, relaxados, ondulados, crespos ou cacheados e nos fazem pensar mais sobre e com a própria cabeça. Da raiz até as pontas. Os fios guardam boas histórias e a gente precisa ir atrás delas.

os cabelos guardam
histórias de origens
as passagens do tempo
todo fio
contém vestígios
e carrega desde o princípio
a iminência de sua
queda


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O que as reações ao casal Keanu e Alexandra dizem sobre o envelhecimento feminino?

Fofinhos ❤

Keanu Reeves, ator e queridinho das redes sociais, assumiu namoro com a artista plástica, pintora, escultora e cineasta Alexandra Grant e o Twitter, Facebook e Instagram foram inundados com comentários sobre eles. Entre as muitas comemorações e até brincadeiras, porque Keanu desencalhou e voltou a amar e que a escolhida não era uma modelo de 20 anos da Victoria’s Secret, havia também falas bem cruéis sobre a Alexandra.

Ainda que nem sempre com agressividade, a aparência dela se tornou pauta, como sempre se torna porque, afinal, ela é uma mulher e isso parece ser a coisa mais importante sobre uma mulher sempre. Só que o caso dela teve um plus. Keanu Reeves, 55 anos, não seguiu o padrão hollywoodiano de homens de meia idade e escolheu se relacionar com uma mulher apenas 9 anos mais nova que ele. Keanu e Alexandra estão na mesma faixa etária, são amigos de longa data e parecem estar felizes juntos, mas o que parece ter realmente chamado atenção dos fãs e curiosos é que a aparência da Alexandra em relação a sua idade. Com 46 anos e o cabelo todo branco, ela foi considerada acabada, com a aparência velha, descuidada e feia demais para ele.

Mais uma vez, uma mulher que parece ser bem interessante e talentosa, ao se tornar foco, foi julgada e desqualificada por não ter a aparência esperada ou mesmo adequada. Ainda que as pessoas adorem fazer piadas com as namoradas super jovens do Leonardo Di Caprio, no fim, ao ver um cara fazer diferente, muita gente tinha algo a dizer, ainda que discretamente, sobre a namorada do Keanu Reeves aparentar ser velha demais. E, no caso, por mais que as pessoas tenham tentado suprimir essa parte, a maioria queria dizer que ela aparentava ser velha demais para ele, que é quase uma década mais velho do que ela.

O envelhecimento feminino é tratado mesmo por quem é pra frentex como uma mácula, um defeito, algo que choca. O tom é de surpresa não só porque homens costumam buscar parceiras muito mais novas, mas porque a mulher mais velha em questão assume os brancos e parece estar tranquila sobre a sua própria aparência. Ela não parece estar lutando o tempo todo para aparentar ser mais jovem do que é.

A sensação que fica é que a mulher só pode envelhecer se for pintando o cabelo, fazendo todos os tratamentos estéticos existentes para manter o rostinho muito jovem e se apoiando no botox e na maquiagem o tempo todo. O que na prática significa que mulher não pode envelhecer, a não ser que faça de tudo para manter sua aparência como se fosse jovem, quase como se esse esforço fosse um pedido de desculpa para o mundo por ainda existir e querer viver, inclusive uma história de amor com um astro do cinema. Essas cobranças são, inclusive, um meio de controle do corpo e comportamento feminino.

O envelhecimento não segue necessariamente uma régua igual para todas as pessoas. Tem gente que aparentará ser bem mais jovem do que é e o contrário também existe. Isso depende de n coisas além de procedimentos estéticos. Pele seca, por exemplo, pode pesar bastante com o passar dos anos e a presença e persistência dos fios brancos é uma questão de fundo genético que varia bastante.

O ponto é que a gente, enquanto sociedade, se preocupa demais em julgar pessoas, especialmente mulheres, pelo seu envelhecimento. Em comentar sobre, em achar que aparentar mais nova é o melhor elogio que se pode fazer a alguém. O envelhecimento é mal visto, especialmente o feminino. E, o pior, é que a nossa noção de idade e aparência feminina adequada é bastante viciada pelos procedimentos e cuidados estéticos que nos cercam desde sempre e também pelo fato de que o peso da idade e, principalmente, da aparência dela é totalmente diferente para os homens.

Um homem grisalho não ouve que precisa se cuidar, pintar o cabelo, se valorizar. Um homem grisalho chega a ser visto como charmoso muitas vezes. Um homem grisalho é considerado sinônimo de sabedoria, amadurecimento e outros adjetivos positivos. O peso é outro e é por isso que é lugar comum para nós, enquanto sociedade, julgarmos com frequência se uma mulher parece ser mais nova ou mais velha do que é e esse julgamento carrega em si a ideia de que o envelhecimento feminino é ruim. O homem talvez até ganhe um certo valor quando envelhece, a mulher só perde. A régua do envelhecimento feminino importa tanto por isso e ela é bem mais cruel do que a régua masculina. E a gente sabe muito bem que isso tem relação com o fato de que mulheres são valorizadas quase que exclusivamente pela beleza e que a beleza em nossa cultura é considerada sinônimo de juventude. Ao menos para as mulheres.

Quando há algumas semanas comentei sobre skincare não ser sinônimo de autocuidado e nem algo tão necessário assim surgiram várias pessoas, principalmente mulheres, afirmando que ter uma rotina de skincare era essencial porque ajudava a a atrasar o envelhecimento. O argumento era esse, enquanto eu dizia que o meu incômodo com essa nova relação entre palavras que antes não andavam juntas era sobre o fato de que todo cuidado feminino parece precisar perpassar pela estética. Não há nada de novo nessa busca por preservar a beleza e a juventude. Não há nada de novo, principalmente, nisso ser visto como uma obrigação feminina. O envelhecimento, principalmente da aparência, não deve ser tratado como um pesadelo ou algo que precisa ser evitado a todo custo, principalmente para as mulheres. Tratar tentativas de atrasar o envelhecimento comum da pele como uma questão de saúde ou algo tão essencial quanto isso é um erro.

Envelhecer sendo uma mulher é ver o seu valor, perante uma sociedade objetificadora, diminuindo gradativamente. A cada ano, a cada ruga, a cada fio branco ou flacidez, se vai o que o patriarcado nos deu como moeda de troca. Nosso capital é a beleza e ela é considerada sinônimo de juventude e o seu significado perpassa pelos padrões de beleza que, por mais que tenham sofrido um pequeno abalo nos últimos anos, continuam racistas, gordofóbicos, capacitistas e etaristas.

Alexandra Grant é uma mulher que assume seus cabelos brancos aos 46 anos e que não parece estar preocupada demais com a própria aparência. O susto com o envelhecimento dela só diz o quanto nosso mundo, mesmo aquele considerado progressista, ainda está preso na ideia de que o valor de uma mulher está em sua juventude, como significado de beleza. A pira de que mulheres precisam se cuidar, como se essa busca por certa aparência significasse amor próprio, e o tempo que a gente perde com isso parece nos qualificar como mais valorosas para um homem ou mesmo para a sociedade. Só que envelhecer sendo uma mulher é algo ainda mais complicado do que aparenta. Se fizer muita plástica ou plásticas óbvias demais, a mulher é julgada por não aceitar que envelheceu e querer mudar o próprio rosto. Como se essa vontade de passar por um bisturi ou vários surgisse do nada, claro.

É sintomático que toda essa discussão tenha iniciado a partir do julgamento de uma namorada de um ator considerado bonito e, principalmente, interessante. Num mundo que vê a beleza feminina como um meio para conseguir ser a mulher de alguém e que liga relacionamento com status, todo esse bafafá em torno da figura da Alexandra mostra o quanto mulheres ainda são vistas como acessórios masculinos, não como boa companhia ou parceira. Ser interessante não vale tanto quanto ser bonita de acordo com o padrão quando falamos de mulheres, enquanto Keanu Reeves ser interessante, além de bonito, é o que o tornou queridinho nas redes sociais.

Aparentemente, muita gente considera que a Alexandra não é boa o suficiente para estar com o Keanu Reeves e isso só mostra o quanto toda nossa noção de relacionamentos, especialmente o de figuras públicas, é viciado por esses filmes em que um homem comum e de meia idade se relaciona com uma mulher deslumbrante que tem idade para ser filha, às vezes neta, dele.

Não vou falar que Alexandra é linda hoje, porque o que quero dizer é que isso não deveria ser considerado tão importante assim. Uma mulher é uma mulher, muito além de sua beleza, sua idade ou a idade que aparenta ter. Uma mulher é muito mais do que seu rosto, seu corpo e seu cabelo. Uma mulher não se resume assim. Nem um relacionamento. E eu espero que um dia a gente não precise mais afirmar isso de novo. De novo. De novo. De novo. De novo…


Esse texto surgiu a partir de tweets que postei em minha conta pessoal do Twitter. Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram

Pensamentos soltos sobre estética, novas obrigações e o tal do feminino

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Falar de cuidado de pele como um momento para si não cola para mim. De todas as coisas que alguém pode fazer para se curtir, por que quando se é mulher tudo acaba se relacionando com aparência?

Fora que o cuidado de pele nesses casos é a busca da pele perfeita, aquela que parece maquiada mesmo sem estar, e não um simples e necessário uso de protetor solar ou algum outro produto, como hidratante, recomendado por médicos para situações específicas. (Ainda que eu ache que as pessoas se sintam mais inclinadas e cobradas ao cuidado no sentido de saúde quando aquilo incomoda também a aparência.)

Toda vez que vejo alguém com esse discurso, eu lembro de gente dizendo “você precisa se cuidar” como sinônimo de fingir que é de plástico. Rotina de skincare agora anda junto com depilação, unha feita, cabelo tratado e pintado e outras práticas relacionadas à estética e que também passaram a ser consideradas uma forma de autocuidado.

Ou seja, o papo autocuidado se tornou uma versão mais palatável do controle e da preocupação com aparência. O que mudou é que atualmente tudo isso ganhou o rótulo de moderno, saudável e responsável. Parece que agora a gente precisa ser uma mulher linda que não parece se importar tanto em ser uma mulher linda, mas ainda assim é, porque se cuida de forma muito natural, saudável e, claro, com muito prazer. Afinal, agora é o tal do autocuidado que nos move. A gente tem que fazer as coisas chatas, caras e impostas como se aquilo nos completasse e nos fizesse sentir livres, leves e soltas. Se não fizermos, somos coitadas sem amor próprio.

O motivo da gente engolir tão facilmente que rotina de skincare ou qualquer outra coisa do tipo é autocuidado ou um momento para si é o medo que temos de sermos vistas como fúteis por nos preocuparmos com a aparência e com os efeitos do envelhecimento como nos é imposto. Só que isso acaba naturalizando a neura da beleza como parte do feminino, da autoestima e do cotidiano e isso afasta as mulheres, cada vez mais, de ter uma relação um pouco mais tranquila com tudo que se relaciona com aparência e inseguranças relacionadas.

Tudo bem fazer as coisas para se sentir mais bonita ou menos feia. Tudo bem chamar de vaidade ou algum outro termo correlato. O problema é pintar tudo isso como algo necessário e relacionado com o tal do autocuidado e do tempo de qualidade consigo e não pensar no que certas práticas inseridas no nosso cotidiano significam. Inclusive no sentido de imposição. É muito ruim se importar tanto com aparência, colocar esse tipo de questão como uma prioridade nas nossas vidas, mas a gente não precisa fingir que a questão é outra. Quanto mais a gente mascarar, mais dependentes ficaremos disso.

Questionar essas coisas não é dizer simplesmente que se importar com aparência está proibido ou é necessariamente errado. É somente uma tentativa de entender melhor o que nos afeta, o que afeta as mulheres enquanto grupo e o que interessa ao capitalismo, ao patriarcado e também ao racismo que promove, por exemplo, o uso de clareadores de pele e outros produtos como alisadores de cabelo.


Observação #1: Essa crítica que fiz, inclusive, não quer dizer que eu sou uma pessoa que vive livre de imposições estéticas ou que eu não neure com isso ou que eu nunca tenha passado um creme hidratante na vida. São só reflexões.

Observação #2: Esse texto é fruto da soma de vários tweets que postei há alguns dias em minha conta pessoal do Twitter + uma leve edição para que essa bagunça virasse um membro típico do gênero Textão de Facebook™, porque eu também quis postar sobre por lá.

Observação: #3: Aconselho ler a thread do Twitter inteira, porque rolou muitos comentários ótimos de outras pessoas e que, por não serem meus, estão de fora do texto. Inclusive, há até uma discussão bem interessante que envolve mulheres com deficiência e estética. Não deixem de ler!

Observação #4: Essa thread fez surgir conversas envolventes, mas, além delas, também rolou comentários agressivos. Por causa deles, serei obrigada a escrever no futuro próximo um texto de humor exagerando as reações bizarras que recebi ao compartilhar essas reflexões numa rede social em tempos como os nossos. Posso adiantar que a galera parece partir do pressuposto que eu falei que está terminantemente proibido fazer skincare e iniciei o recolhimento compulsório dos produtos com a finalidade de jogá-los no lixo, sendo que eu só acho que a gente precisa entender o porquê de fazermos certas coisas e acatarmos certos discursos. É preciso assumir o que nos move para isso, chamar as coisas pelo nome correto, entender as forças envolvidas, etc.

Bacurau: comunidade, rituais de morte e resistência

Obs: o texto contém alguns spoilers.

Cena do filme

Bacurau, filme de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é sobre muita coisa, inclusive sobre a morte, seus rituais e o impacto disso numa comunidade fictícia localizada no oeste pernambucano. Já nos primeiros minutos do filme, nos deparamos com um caminhão pipa que carrega água potável destruindo caixões de madeira caídos na estrada, um corpo e um caminhão que carrega caixões tombado e cercado de pessoas pegando a carga. A morte ronda Bacurau. Ela está próxima. Esse é o aviso e ele funciona. Tudo aquilo que se relaciona com a morte e seus símbolos é encarado pela nossa sociedade como um mau presságio, ainda que morrer seja parte indissociável da vida, e está ali nas primeiras cenas.

Na cidade, a morte já se faz presente. Dona Carmelita (Lia de Itamaracá), 94 anos, está sendo velada em casa, com parentes, amigos e conhecidos ao redor. A morte está próxima, é triste, mas é encarada ali como um momento de despedida, homenagem e reforço de laços afetivos. Diferente do corpo anônimo na estrada, que é visto de maneira distante e triste simplesmente. Ainda que ambos sejam colocados como algo inevitável que faz parte da vida.

O ritual de morte de dona Carmelita é, apesar de tudo, tranquilo. Tirando a interferência de Domingas (Sônia Braga), outra idosa, que parece sentir muito aquela partida. Talvez a idade da falecida contribua para isso. Afinal, a velhice avança e a proximidade com a morte passa a ser lembrada o tempo todo pelas próprias pessoas e também por quem próximo. Talvez a personagem, com sua sabedoria, já tivesse preparado o terreno para aquilo. O bolo que Carmelita faz antes de morrer e Teresa (Bárbara Colen), sua neta, come com a irmã após o velório parece dizer isso. Ela deixa afeto para quem ainda ia chegar e não poderia ter a chance de se despedir dela em vida.

Quase toda a cidade participa da celebração/ritual de morte, nos mostrando que a falecida é uma espécie de matriarca e referência. Tem música cantada em coro junto com o violeiro da cidade que lidera o canto, tem caminhada, tem enterro e lenços brancos sendo balançados. Ali, todos, por mais diferentes que sejam, parecem dividir a saudade que sabem que vão ter. O luto é compartilhado.

Cena do filme

Comunidades não emergem do nada, elas são construídas a partir de laços, trocas, tempo e até mesmo conflitos. Dona Carmelita, junto com o museu de Bacurau, representa a união a partir desse compartilhamento e a história do grupo que forma aquela cidade e que começa a ser apresentado para o espectador a partir do velório. Há algo que une todos ali, a história de uma pessoa ou de uma população, e é isso que faz Bacurau existir. Rituais de morte, principalmente quando são vividos e preparados de forma coletiva, costumam ser uma forma de preservação da memória de alguém, de um contexto, de uma família e até de um povo e isso importa tanto para quem fica porque é uma forma de dar continuidade ao que foi partilhado.

Os falecimentos, no filme até então, se apresentam como parte da vida cotidiana. Acidentes acontecem, velhos morrem, mas nos detalhes se percebe que viver ali é resistir a um destino específico fruto de um abandono e de uma época. O Estado não se apresenta como deve, aquelas pessoas estão desamparadas. Restaram a elas apenas o apoio uma das outras. A morte, nesse tempo que a gente só sabe que é depois de agora, está explícita na tevê. Há execuções públicas no Vale do Anhangabaú. De fato, ela ronda Bacurau e também o país.

Em Bacurau, se luta contra a morte todos os dias. Seja pela falta de água potável, de remédios, de vacinas ou de comida. A morte morrida, essa causada pela falta ou pela natureza mesmo, também pode ser política, mas a morte matada que surge posteriormente deixa evidente o quanto aquele povo é considerado invisível. Quem nasce em Bacurau é gente, mas parece que só quem mora lá sabe disso.

Quando Teresa, frente ao caixão da avó, diz que dona Carmelita é a segunda morta que viu no dia, há um estranhamento que surge talvez do quanto aquilo parece cotidiano e ao mesmo tempo fora do lugar. Teresa vê, numa alucinação, o caixão da avó transbordar em água. A morte, por mais cotidiana que seja, parece estar mais presente do que deveria mesmo quando a gente ainda não conhece o que há de vir. A água transborda ali, mas a gente não sabe o que isso significa ou se é para significar algo. Seria a morte e o sangue dos que vão embora? Seria um símbolo para a vida e o afeto que cercam aquele corpo? Seriam lágrimas de quem sabe o que vai vir? Seria a água da represa voltando a jorrar?

Quando os corpos mortos por tiros começam a surgir, o mau presságio é confirmado. Numa cena, Pacote/Acácio (Thomás Aquino) encontra os cadáveres de dois de seus amigos, coloca-os dentro no carro sentados, ainda ensaguentados e sujos e, durante o trajeto, explode de raiva numa conversa sem respostas. Aquela perda não era esperada. Ele entende que ela poderia ser evitada, sente culpa por ter pedido a eles para irem até aquele lugar em que foram executados e a raiva, parte indissociável do luto, é a resposta dele para aquela dor.

A cidade chora seus mortos, ainda que em choque e se preparando para se proteger. Antes do encontro da cidade com os assassinos, os rituais de morte do menino, dos homens e da família acontecem junto a uma outra espécie de ritual, o de preparo para uma batalha. Enquanto um buraco, que a gente ainda não sabe para que serve ,é cavado, tem capoeira, tem reza, tem desespero, busca pela prostituição e também conexão e contato. A proximidade com a morte é o que guia ambos os rituais e cada um reage à sua maneira.

Bacurau quer viver em paz, mas sabe reagir para proteger os seus e manter a comunidade viva. As vestes sujas de sangue dos corpos mortos de sua população se tornam bandeiras de luta. A escola, cravejada de balas e lotada de gente escondida debaixo de carteiras, também reage. O museu também é um centro de resistência ao ataque. As engrenagens da cidade, com toda sua gente, inclusive aqueles que um dia já rejeitaram aquele povo e aquele lugar, se movimentam para impedir o massacre de seu povo.

Museu é lugar de história de gente que já morreu faz tempo e representa o passado. Escola é lugar de gente que acabou de chegar no mundo, local onde o futuro se desenha. Nenhum deles está protegido de quem quer ver sangue, como sabemos ao ler as notícias do Rio de Janeiro ou dos EUA, mas no filme esses lugares, considerados tão vulneráveis e que costumam ser alvos de tentativas de controle e descaso, se tornam focos de resistência por serem espaços em que se celebram e preservam a coletividade e a memória. Nesse sentido, faltou, na minha opinião, maior participação feminina na violência e menos hiperssexualização. Apesar de algumas personagens femininas serem parte ativa da resistência, usarem armas e se posicionarem, os protagonistas da ação — e, na prática, até do filme — são homens, ainda que Lunga (Silvero Pereira) não se encaixe bem nesse lugar masculino e a comunidade, substantivo feminino, seja o centro da história. As mulheres, que são colocadas pela obra como importantes mantenedoras da comunidade viva, ficam em segundo plano nessa hora, como se a elas coubesse o papel de serem lideradas ou buscarem sempre as vias do diálogo. Vide Teresa, essa que é filmada como protagonista, mas que o roteiro não a valoriza o suficiente, e Domingas.

As mortes em Bacurau servem como um lembrete de que o Brasil foi construído e ainda o é a partir da violência, mas essa violência foi perpetuada, permitida, ainda que não às claras, e alimentada por quem representa o Estado. E, no caso do Nordeste, como bem expõe o filme, incrementada por sudestinos e sulistas que se consideram superiores a quem vive nessa parte do Brasil, enquanto são tratados como menos gente por quem eles consideram próximos e parecidos com eles. Esse passado — e o nosso presente — repleto de um tipo sangue específico derramado precisa ser considerado sob o risco de vermos a resistência de quem quer simplesmente se manter vivo ser encarada como a real face da violência. Os bárbaros não são os que atacados buscam lutar pela vida e pela sua dignidade, ainda que alguns defendam que histórias como essas sejam contadas assim.

Cena do filme

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