“Raízes de fogo”: uma história sobre a importância de voltar às origens

Imagem de divulgação

Nesse conto, recém-lançado na Amazon, Carol Vidal narra uma história de descoberta, ancestralidade, trauma e amizade. Em poucas páginas, a autora constrói um cenário bem brasileiro, com a história se passando na Ilha de Marajós, e apresenta ao leitor imagens únicas como a de uma revoada de guarás.

O tempo e a memória são temas que perpassam todo o conto. Carol usa essas questões para aproximar o leitor dos sentimentos da protagonista e para, em segundo plano, também possibilitar reflexões sobre o pouco que conhecemos sobre a origem do nosso país e o perigo da história única que apaga da memória coletiva a resistência, o conhecimento e o patrimônio de diferentes povos.

Conhecemos muito da mitologia greco-romana e quase nada sobre a mitologia das diversas etnias indígenas que vivem ou viveram no território hoje conhecido como Brasil. Exploramos a magia e a imaginação a partir de livros e filmes como a série Harry Potter, mas pouco criamos ou lemos ou mesmo assistimos obras que tratam sobre histórias fantásticas que se passam longe de Londres, em ambientes bem mais próximos de nós. Carol quebra com esse padrão ao trazer um enredo que acontece no norte do Brasil e que fala de magia, museus, retorno às heranças ancestrais e investigação de artefatos de povos originários como uma forma de contar uma história.

“Raízes de fogo” é sobre a importância de voltar às origens, tirar certas narrativas da invisibilidade e assim achar seu espaço no mundo. O conto acaba com gostinho de quero mais. Quando sentimos que conheceremos mais a protagonista e a história de seus pais e seu povo, o fim do livro chega. Uma pena. Dá vontade de pedir a continuação. Que essa história seja o prólogo de uma maior.


Conheça “Raízes de fogo” e apoie uma escritora independente comprando o e-book desse conto por apenas R$1,99 na Amazon.

Três poemas para o Oito de Março

Ou “Linha Direta, a tríade”

Judite decapitando HolofernesArtemisia Gentileschi

PRÓLOGO

sem querer
a gente deixa morrer na gente
o que precisa
de cuidado
apoio
sol na medida certa
e uma conversinha mole
regada a café
sorrisos
e comida de padaria

é uma morte devagar
que acomete
quem teme
não poder mais nada

é uma morte lenta
que caminha junto
com a desesperança
o controle
a apatia
a dor
a ameaça

UMA HISTÓRIA PARTIDA AO MEIO

um safanão
diante do não
outro
corretivo futuro

a mesa não foi posta na hora
soco na boca do estômago
choro silencioso
um pedido de perdão
dessa vez não

a polícia entra em cena
78 minutos depois
encontra a mulher sozinha
ensanguentada, mas viva

EPÍLOGO

estar suja de sangue
me incrimina
e alivia

esse gosto de ferro na boca é o sabor da legítima defesa


O Dia Internacional da Mulher não existe para que empresas prestem homenagens estereotipadas em forma de propaganda ou se apropriem da luta feminista para vender seus produtos. Essa simbólica data surgiu para denunciar a ainda insalubre condição feminina no mundo, propor debates, discutir políticas públicas e dar visibilidade aos feitos e lutas das mulheres.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Por que pregar abstinência sexual não é uma política pública eficiente?

Damares Alves, chefe do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Promover a abstinência sexual não funciona como política pública para evitar gravidez na adolescência e nem o contágio de doenças sexualmente transmissíveis entre jovens. O estudo de casos como o dos Estados Unidos no período Bush mostram a ineficiência desse tipo de programa. Até mesmo Damares Alves, enquanto ministra, admitiu que não há pesquisas que embasam a proposta como ela foi feita, mas ainda assim essa é uma medida que costuma ser bem vista por muitos e a gente precisa parar para pensar no porquê disso.

Damares Alves, por meio de seu discurso, se coloca como a única e verdadeira defensora das crianças e adolescentes. Ela manipula as pessoas a partir disso e tenta convencer a população de que defender qualquer coisa diferente da promoção da abstinência total é estimular que crianças e adolescentes transem. Ela aproveita a preocupação comum de pais e cuidadores com o presente e o futuro de seus filhos para defender como política pública algo que não encontra amparo científico, enquanto ignora questões essenciais ao debate como machismo, lgbtfobia e, principalmente, os altos números de casamentos infantis ou precoces, casos de exploração sexual e de estupro de vulnerável.

Com a frase “Se provarem que vagina de menina de 12 anos está pronta para ser possuída, paro de falar”, a ministra defendeu o seu programa de maneira completamente desonesta. Ao dizer isso, ela, a partir do sensacionalismo, tentou colocar quem é contra a abstinência sexual total como política de governo como defensor da pedofilia, sendo que a educação sexual, sempre dada de acordo com a idade dos alunos, funciona justamente como uma forma de proteger crianças e adolescentes de estupros, especialmente nos casos em que eles acontecem dentro de casa, entre familiares e vizinhos, ou mesmo fora, em locais com ares de confiabilidade e presença de figuras de poder, como padres e pastores.

Além disso, sabendo que na legislação brasileira há o tipo penal do estupro de vulnerável, que presume como violência sexual qualquer ato sexual com menores de 14 anos, o discurso de Damares Alves se mostra ainda mais manipulador. Legalmente, antes dessa idade não há sexo com consentimento, há abuso sexual presumido, logo já se defende a abstinência sexual de pessoas que se encontram nessa fase da vida.

Quando o próprio governo, a partir da figura da Damares, sugere uma atividade educativa que envolve uma fita adesiva que passa colando entre os estudantes para afirmar que depois de um tempo a menina*, especialmente a menina, não “cola” com ninguém, fica evidente o machismo e o anticientificismo que envolve a defesa dessa política de governo. A partir dessa declaração, se percebe o quanto eles buscam cercear o exercício da sexualidade feminina não só enquanto adolescente. Eles querem promover o ideal de casamento mesmo, ignorando as estatísticas brasileiras sobre casamento precoce e suas consequências.

A popularidade de propostas como essa se sustenta na má-fé de seus defensores e na propagação de desinformações comuns ao tema. A sexualidade em si é um tabu inclusive para adultos e justamente por isso Damares Alves explora a temática a partir do senso comum moralista, machista e religioso e usa isso para promover seus interesses, ignorando estatísticas e o alcance do problema.

Com um discurso agressivo contra quem discorda da promoção da castidade como política pública, quem defende essa agenda oferece uma resposta superficial que não soluciona nada, apenas empurra para debaixo do tapete um problema que, ao não ser trabalhado como deve, tende a se agravar. Sem o cuidado necessário, o estímulo da abstinência misturada com o papo de alma gêmea presente no discurso da ministra pode acabar reverberando em um aumento de casamentos precoces, por exemplo.

A educação sexual é provavelmente o principal e melhor caminho para evitar a gravidez na adolescência e a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis porque, além de informar sobre o funcionamento e cuidado do corpo, as transformações da adolescência, os métodos contraceptivos e as doenças sexualmente transmissíveis, ela também ensina sobre consentimento e estupro, o que dá ferramentas para as vítimas denunciarem seus algozes e contribui para construção de uma sexualidade saudável para jovens, independente do gênero.

Falar “não transe”, sem qualquer outro aprofundamento ou informação, não ajuda em nada, porque essa frase colocada assim só contribui para alimentar o tabu do valor da virgindade feminina, a culpa, o pecado, o desejo pelo proibido e, claro, a desinformação e a perpetuação do silêncio que envolve casos de estupro.

Informar, falar sobre e debater sexualidade e gênero levando em conta questões além da biologia em si, sem imposições ou terrorismos, é o que ajuda adolescentes a entenderem as responsabilidades com o outro e consigo mesmos necessárias para a construção e exercício de uma sexualidade saudável. Isso, na maioria das vezes, influencia na decisão dos jovens em adiar o início da vida sexual e permite que eles aprendam a se proteger de gravidezes, doenças e até mesmo violências quando ou caso decidirem transar — ensinamentos que podem ser úteis até mesmo antes desse momento chegar.

A castidade como foco de uma política pública falha porque isola o assunto de quem mais precisa falar sobre, deixando jovens sem acesso às informações essenciais para o início de uma vida sexual segura. Assim, a pornografia e os mitos sobre o sexo ganham espaço entre adolescentes e até mesmo adultos. O impacto de uma política pública como essa se perpetua além da menoridade porque reafirma lugares comuns sobre sexo, desinformação e silêncio. É a vitória do “não, porque sim” frente à construção de uma sexualidade responsável e respeitosa. É a escolha por criar mais uma barreira de acesso aos direitos sexuais e reprodutivos. Escolha essa que já está sendo feita em outros âmbitos, como no pedido de eliminação, por parte do Brasil, de qualquer tipo de referência sobre “educação sexual” e “direitos reprodutivos” nos documentos da ONU e OMS.

No mais, além de aulas e campanhas de educação sexual, é essencial que as políticas públicas sobre sexualidade levem em conta o efeito da falta de oportunidades no imaginário social que coloca filhos e casamento como um meio de atingir uma certa autonomia, especialmente para meninas e mulheres. Informação sem perspectiva não é o suficiente. É preciso que as políticas públicas interajam entre si e expandam a ideia de futuro que muitos jovens possuem. Combater a miséria, por exemplo, é essencial para isso. Somente ações coordenadas e abrangentes que envolvam aulas de educação sexual baseada em evidências e debate protegerão meninas e meninos da naturalização desse processo que envolve, muitas vezes, pessoas maiores de idade que se aproveitam justamente da falta de conhecimento, maturidade e horizonte de crianças e adolescentes para conseguir o que querem. Seja pelo casamento ou pela exploração e violência sexual.


*O uso do termo “menina” nessa fala vem de novo reiterar no imaginário social que a ideia de que ser contra a abstinência sexual como política pública é defender a pedofilia.


Conversando com O Ano do Macaco

Acervo Pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Eu também daria feliz ano novo para as minhas botas, mas aqui no hemisfério sul, onde moro, não há espaço para esse tipo de calçado nessa época. No máximo, um par de tênis quando se precisa usar algo fechado e bom para andar. Desse lugar de onde leio, o Ano do Macaco já passou e parece mais distante do que está de fato. Eu que não entendo nada sobre os anos chineses ainda encaro tudo que aconteceu em 2016 como uma sucessão de piadas nonsense que saíram do controle e culminaram no ano de 2018 e depois no 2019 e agora no recém iniciado 2020.

Ainda assim, eu felicito quem e o que está ao meu lado com todo tipo de mensagem de ano novo como se essa virada não fosse uma mera ficção. Ser ficção não é um demérito necessariamente. Quanta coisa mudou em mim e no mundo por causa de uma história, de um nome, de uma prática ou de outras coisas inventadas. Tanta coisa boa surgiu da capacidade humana de criar e, caramba, tem hora que tudo que a gente quer mesmo é se deixar enganar por uma trama boba ou não. A gente não pode se esquecer disso, apesar de tudo. 2016 ou 2018, não importa, em ambos os anos algumas ficções foram tratadas como notícias reais e usadas para defender o indefensável. Ganharam eleições assim. Nem toda invenção é boa, principalmente quando elas se fingem de verdades verdadeiras e se moldam ao formato mais atraente de sensacionalismo.

Antes de continuar, preciso confessar que não sei se dialogo aqui com a Patti Smith, com a placa do Dream Motel, que na verdade é Dream Inn, com o livro no todo, com os mortos da autora, com os meus mortos, ou com você, leitor(a), que chegou desavisado(a) acreditando que esse texto seria uma simples resenha ou análise ou crítica ou ensaio comum e se deparou com um breve tratado sobre um tempo, um livro e a imaginação.

Acho que escrevo esse texto como se todos esses personagens e mais alguns estivessem frente a frente comigo, sentados numa mesa de bar ou café, me vendo falar sem parar.

Quero falar com a Patti Smith sobre envelhecimento, morte, esperança, desespero, amizade e, claro, sobre o show dela que assisti no último novembro no Popload. Talvez, no lugar de falar sobre o show, eu prefira comentar sobre o lançamento dos livros dela feito bem na véspera do festival que a trouxe para o Brasil. Foi tão bom ouvi-la falar assim, tão pertinho, quase como uma amiga. Foi tão bom ouvi-la narrar trechos do livro que agora leio, converso e carrego comigo para um café. Eu sei que no fim, o que eu faço mesmo é conversar sobre o tempo com todos dessa mesa de personagens estranhos, ainda que fique ansiosa para citar, em algum momento mais informal, que eu também gosto de jogos de tabuleiro como Bolaño, escritor ainda não lido por mim, mas sempre referenciado pela autora.

O tempo é também um lugar. Partimos sempre de uma data para olharmos para o mundo, para nós e para os outros. Patti, no Ano do Macaco, estava à espreita dos setenta anos. Eu, no ano do Cão de Terra, fiz trinta. Estranhamente, eu e ela olhamos para os mortos. Só que os dela estão cada vez mais próximos, enquanto os meus ainda moram no medo. E eu espero que eles fiquem lá por muito tempo ainda. Isso me faz pensar que o Ano do Macaco é sobre luto também, mas é um luto que vai muito além da Patti como narradora, autora e personagem. Por mais que seja ela que esteja perdendo amigos e se alimentando de memórias. O luto parece ser do mundo, como se a esperança estivesse morrendo de acordo com o passar dos dias, dos meses e, por fim, do Ano do Macaco.

2016 aqui foi um ano com impeachment, olimpíadas, Cunha preso e acidente de avião com time de futebol promissor. Também tivemos um luto coletivo por isso. Divididos, de certa forma, com nossos vizinhos colombianos que receberam a dor das famílias, amigos e fãs de uma forma impressionante. Desse lugar saímos e chegamos em 2018 com Marielle Franco assassinada, mais um luto coletivo, mas esse muitas vezes interrompido por uma espécie de polarização fabricada que dá força para o ódio, para as fake news e para a extrema-direita. Nesse ano também tivemos Bolsonaro eleito como líder do país, e depois, já em 2019, o primeiro ano de governo dele. Ele e seus apoiadores são tão movidos pela destruição que, de certa forma, muitos de nós vivemos uma espécie de melancolia coletiva agora. Ainda mais com a intensificação dos efeitos do colapso climático junto com o negacionismo crescente da ciência. Ainda mais com o genocídio da população negra justificado cada vez mais pela busca incessante por essa tal de segurança pública.

2019 também foi o ano do rompimento da barragem de rejeitos de minério em Brumadinho. Vai fazer um ano agora e eu ainda me lembro de quando li a primeira notícia e alguns dias depois passei perto do rio Paraopeba e ele já tinha uma cor diferente, de toxidade, de morte, de fim. Ainda há 17 pessoas desaparecidas. 253 mortos. Eu nem sei direito o que dizer, mas sei que certas tragédias e crimes precisam ser lembrados.

O Ano do Macaco fala de tempo. É isso. E tempo é memória, morte, momento e vida. E a gente se confunde, sonha, se perde e conversa com o que já está no passado o tempo todo. O passado importa, a memória também, quem somos perpassa por isso e é nas nossas lembranças que mantemos o que importa para nós vivo, mas talvez a gente precise falar mais de futuro ou aprender a falar de passado de uma outra forma. Não sei. Hoje, alguns dias depois do ataque ao Irã por parte dos EUA, vi muita gente falar nas redes sociais sobre o fim do mundo. Ele parece tão próximo e o meu principal impulso ao notar isso é tentar lembrar de quando ele parecia distante. Talvez eu deveria era pensar em um outro lugar e tempo em que o fim do mundo parecesse uma ficção e trabalhar para construir isso. Com certeza seria mais produtivo, mas eu sei lá se quero mesmo ser mais produtiva. Ser produtivo não está ajudando muito a gente no geral, né?

2020 é o Ano do Rato e, como sempre, eu não faço ideia do que isso significa, mas eu realmente acho que daria um bom nome de um livro que talvez narre o fim do mundo ou talvez não. Espero que não. Só consigo pensar que quero acreditar que esses ratos são fênix e que algo vai renascer dessa época e, sem perceber, sinto que comecei a conversar sobre isso com a placa da pousada que a Patti Smith se hospedou em Santa Cruz.

Ler esse livro foi um processo bem mais demorado que eu imaginava, porque eu decidi, na página 40, que eu leria para reaprender a sentir o tempo passar. Não como notícia, como cronômetro, como agenda, mas como tempo, aquele conceito que mistura o passar dos segundos, minutos, horas, dias com o clima e o efeito dele na gente e no todo. Quando terminei de ler e comecei a escrever, chovia. Agora só ameaça, mas eu me sinto estranhamente tranquila. As nuvens estão escuras, mas ontem também estava e grande parte do dia hoje foi lindo mesmo assim.


Tradutora da obra: Camila von Holdefer.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram. Se interessou pelo livro? Adquira seu exemplar aqui.

“Talvez precisemos de um nome para isso”: um poema sobre cabelos e outras coisas

Adquira seu exemplar aqui.

o formol cai bem aos mortos
mas a indústria é ótima com eufemismos

Um poema longo, dividido em dez partes, forma o livro de estreia de Stephanie Borges, o “Talvez precisemos de um nome para isso”. Um poema longo, dividido em dez partes, é algo que eu nunca resenhei antes. Já na estrutura, o livro me obrigou a sair da minha zona de conforto literária e encarar versos livres, diretos, um poema que narra e a força das palavras que formam uma obra que trabalha a questão do cabelo de forma pessoal e coletiva sem se perder nas possíveis apropriações do mercado.

“Talvez precisemos de um nome para isso” venceu em 2018 o Prêmio Cepe Nacional de Literatura, na categoria poesia, e trata de temáticas atuais e que parecem conversar com o leitor, apesar do formato incomum para quem, como eu, se acostumou a ler livros de poesia que não são formados por um texto único.

mas não confunda
o poder e o produto
é bom para alguém que continuem acumulando
shampoos condicionadores
antifrizz finalizante
pomada mousse
restaurador ampolas
e esqueçam

Stephanie Borges usa experiências pessoais, referências literárias e musicais, cartas de Tarot, mitologia, informações científicas e receitas naturais de hidratação para criticar as cobranças estéticas e capilares voltadas para as mulheres, sobretudo as negras com seus cabelos crespos e cacheados, e falar sobre cabelos, vida e identidade de uma maneira diferente.

O cabelo feminino carrega significados culturais e esse poema tensiona vários deles. Esses significados perpassam todo o corpo e o comportamento esperado das mulheres, mas é no cabelo que eles parecem mais visíveis, provavelmente por causa da naturalização das cobranças referentes a isso no cotidiano brasileiro. “Não parece tão grave, afinal, é só o cabelo”, alguns podem dizer, sem pensar no quanto as cobranças capilares que permeiam a feminilidade se relacionam diretamente com o racismo, o machismo e ao sofrimento das mulheres associado a eles. Engana-se, entretanto, quem acredita que esse poema é só sobre isso ou mais sobre sofrimento, dor e denúncia do que qualquer outra coisa. Ele aborda também a descoberta de si e a construção de uma outra coisa que foge de tudo isso. O cabelo também é um caminho para se chegar a um outro lugar.

é triste
que existam meninas virgens, mas seus cabelos não
e naturalizemos a beleza pela dor
a ponto
de parecer normal
o ferro quente carinhosamente
chamado de chapinha,
queimaduras de hidróxido de sódio e guanidina
me avisa quando começar a arder
pra gente lavar, tá

Ninguém parece ver muito problema nas intromissões acerca dos fios alheios, ainda que as pessoas usem termos racistas para fazê-las. Falam tanto de domar cabelos e sumir com o volume que nem percebem o quanto essas expressões se relacionam com o desejo machista de controlar mulheres e torná-las cada vez menos notáveis, mais invisíveis. Essas e outras frases são utilizadas para pressionar alisamentos, relaxamentos e tingimentos e simbolizam a pressão social para que as mulheres tenham uma aparência específica, ainda que ela fuja totalmente de sua natureza. Esse controle sobre a aparência feminina que surge nessas e outras cobranças é uma maneira de nos ocupar e nos atrapalhar a buscar caminhos além das possibilidades que nos são apresentadas como as únicas possíveis.

e embora hoje transição seja a palavra
há um tempo era assumir
repare a estranha necessidade
de quem se apropria do que sempre foi seu

Stephanie Borges expõe como toda essa cobrança racista — e machista — sobre os cabelos, especialmente femininos, foi normalizada e afeta, inclusive, o próprio mercado de trabalho que ainda hoje insiste que cabelos cacheados e, principalmente, crespos não sugerem profissionalismo. E vai além ao também fornecer ferramentas para que o leitor repense a estética de nossa época a partir de confrontos entre o que é dito sobre cabelo em diferentes mitologias, como a iorubá, ajudando quem lê a criar e recriar novas imagens para pensar o mundo. Imagens menos colonizadas, eu diria.

Um cabelo não é só um cabelo. Os fios vão muito além da estética, investigá-los é uma maneira buscar o que veio antes e entrar em contato com histórias que ainda não conhecemos. Falar sobre não é ser fútil, é saber olhar ao nosso redor e entender símbolos, comportamentos e culturas. Stephanie, nessa obra, aborda padrões de beleza, racismo, identidade, descoberta e ancestralidade olhando para si e para a sociedade. É justamente nessa mescla entre o privado e o público, o passado e o presente, as velhas e novas ideias, e as diferentes linguagens e referências que a poesia da autora nos impacta.

No fim, os fios de cabelo que formam esse livro se emaranham aos nossos próprios, sejam eles lisos, alisados, relaxados, ondulados, crespos ou cacheados e nos fazem pensar mais sobre e com a própria cabeça. Da raiz até as pontas. Os fios guardam boas histórias e a gente precisa ir atrás delas.

os cabelos guardam
histórias de origens
as passagens do tempo
todo fio
contém vestígios
e carrega desde o princípio
a iminência de sua
queda


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram. Se interessou pelo livro? Adquira seu exemplar aqui.

O que as reações ao casal Keanu e Alexandra dizem sobre o envelhecimento feminino?

Fofinhos ❤

Keanu Reeves, ator e queridinho das redes sociais, assumiu namoro com a artista plástica, pintora, escultora e cineasta Alexandra Grant e o Twitter, Facebook e Instagram foram inundados com comentários sobre eles. Entre as muitas comemorações e até brincadeiras, porque Keanu desencalhou e voltou a amar e que a escolhida não era uma modelo de 20 anos da Victoria’s Secret, havia também falas bem cruéis sobre a Alexandra.

Ainda que nem sempre com agressividade, a aparência dela se tornou pauta, como sempre se torna porque, afinal, ela é uma mulher e isso parece ser a coisa mais importante sobre uma mulher sempre. Só que o caso dela teve um plus. Keanu Reeves, 55 anos, não seguiu o padrão hollywoodiano de homens de meia idade e escolheu se relacionar com uma mulher apenas 9 anos mais nova que ele. Keanu e Alexandra estão na mesma faixa etária, são amigos de longa data e parecem estar felizes juntos, mas o que parece ter realmente chamado atenção dos fãs e curiosos é que a aparência da Alexandra em relação a sua idade. Com 46 anos e o cabelo todo branco, ela foi considerada acabada, com a aparência velha, descuidada e feia demais para ele.

Mais uma vez, uma mulher que parece ser bem interessante e talentosa, ao se tornar foco, foi julgada e desqualificada por não ter a aparência esperada ou mesmo adequada. Ainda que as pessoas adorem fazer piadas com as namoradas super jovens do Leonardo Di Caprio, no fim, ao ver um cara fazer diferente, muita gente tinha algo a dizer, ainda que discretamente, sobre a namorada do Keanu Reeves aparentar ser velha demais. E, no caso, por mais que as pessoas tenham tentado suprimir essa parte, a maioria queria dizer que ela aparentava ser velha demais para ele, que é quase uma década mais velho do que ela.

O envelhecimento feminino é tratado mesmo por quem é pra frentex como uma mácula, um defeito, algo que choca. O tom é de surpresa não só porque homens costumam buscar parceiras muito mais novas, mas porque a mulher mais velha em questão assume os brancos e parece estar tranquila sobre a sua própria aparência. Ela não parece estar lutando o tempo todo para aparentar ser mais jovem do que é.

A sensação que fica é que a mulher só pode envelhecer se for pintando o cabelo, fazendo todos os tratamentos estéticos existentes para manter o rostinho muito jovem e se apoiando no botox e na maquiagem o tempo todo. O que na prática significa que mulher não pode envelhecer, a não ser que faça de tudo para manter sua aparência como se fosse jovem, quase como se esse esforço fosse um pedido de desculpa para o mundo por ainda existir e querer viver, inclusive uma história de amor com um astro do cinema. Essas cobranças são, inclusive, um meio de controle do corpo e comportamento feminino.

O envelhecimento não segue necessariamente uma régua igual para todas as pessoas. Tem gente que aparentará ser bem mais jovem do que é e o contrário também existe. Isso depende de n coisas além de procedimentos estéticos. Pele seca, por exemplo, pode pesar bastante com o passar dos anos e a presença e persistência dos fios brancos é uma questão de fundo genético que varia bastante.

O ponto é que a gente, enquanto sociedade, se preocupa demais em julgar pessoas, especialmente mulheres, pelo seu envelhecimento. Em comentar sobre, em achar que aparentar mais nova é o melhor elogio que se pode fazer a alguém. O envelhecimento é mal visto, especialmente o feminino. E, o pior, é que a nossa noção de idade e aparência feminina adequada é bastante viciada pelos procedimentos e cuidados estéticos que nos cercam desde sempre e também pelo fato de que o peso da idade e, principalmente, da aparência dela é totalmente diferente para os homens.

Um homem grisalho não ouve que precisa se cuidar, pintar o cabelo, se valorizar. Um homem grisalho chega a ser visto como charmoso muitas vezes. Um homem grisalho é considerado sinônimo de sabedoria, amadurecimento e outros adjetivos positivos. O peso é outro e é por isso que é lugar comum para nós, enquanto sociedade, julgarmos com frequência se uma mulher parece ser mais nova ou mais velha do que é e esse julgamento carrega em si a ideia de que o envelhecimento feminino é ruim. O homem talvez até ganhe um certo valor quando envelhece, a mulher só perde. A régua do envelhecimento feminino importa tanto por isso e ela é bem mais cruel do que a régua masculina. E a gente sabe muito bem que isso tem relação com o fato de que mulheres são valorizadas quase que exclusivamente pela beleza e que a beleza em nossa cultura é considerada sinônimo de juventude. Ao menos para as mulheres.

Quando há algumas semanas comentei sobre skincare não ser sinônimo de autocuidado e nem algo tão necessário assim surgiram várias pessoas, principalmente mulheres, afirmando que ter uma rotina de skincare era essencial porque ajudava a a atrasar o envelhecimento. O argumento era esse, enquanto eu dizia que o meu incômodo com essa nova relação entre palavras que antes não andavam juntas era sobre o fato de que todo cuidado feminino parece precisar perpassar pela estética. Não há nada de novo nessa busca por preservar a beleza e a juventude. Não há nada de novo, principalmente, nisso ser visto como uma obrigação feminina. O envelhecimento, principalmente da aparência, não deve ser tratado como um pesadelo ou algo que precisa ser evitado a todo custo, principalmente para as mulheres. Tratar tentativas de atrasar o envelhecimento comum da pele como uma questão de saúde ou algo tão essencial quanto isso é um erro.

Envelhecer sendo uma mulher é ver o seu valor, perante uma sociedade objetificadora, diminuindo gradativamente. A cada ano, a cada ruga, a cada fio branco ou flacidez, se vai o que o patriarcado nos deu como moeda de troca. Nosso capital é a beleza e ela é considerada sinônimo de juventude e o seu significado perpassa pelos padrões de beleza que, por mais que tenham sofrido um pequeno abalo nos últimos anos, continuam racistas, gordofóbicos, capacitistas e etaristas.

Alexandra Grant é uma mulher que assume seus cabelos brancos aos 46 anos e que não parece estar preocupada demais com a própria aparência. O susto com o envelhecimento dela só diz o quanto nosso mundo, mesmo aquele considerado progressista, ainda está preso na ideia de que o valor de uma mulher está em sua juventude, como significado de beleza. A pira de que mulheres precisam se cuidar, como se essa busca por certa aparência significasse amor próprio, e o tempo que a gente perde com isso parece nos qualificar como mais valorosas para um homem ou mesmo para a sociedade. Só que envelhecer sendo uma mulher é algo ainda mais complicado do que aparenta. Se fizer muita plástica ou plásticas óbvias demais, a mulher é julgada por não aceitar que envelheceu e querer mudar o próprio rosto. Como se essa vontade de passar por um bisturi ou vários surgisse do nada, claro.

É sintomático que toda essa discussão tenha iniciado a partir do julgamento de uma namorada de um ator considerado bonito e, principalmente, interessante. Num mundo que vê a beleza feminina como um meio para conseguir ser a mulher de alguém e que liga relacionamento com status, todo esse bafafá em torno da figura da Alexandra mostra o quanto mulheres ainda são vistas como acessórios masculinos, não como boa companhia ou parceira. Ser interessante não vale tanto quanto ser bonita de acordo com o padrão quando falamos de mulheres, enquanto Keanu Reeves ser interessante, além de bonito, é o que o tornou queridinho nas redes sociais.

Aparentemente, muita gente considera que a Alexandra não é boa o suficiente para estar com o Keanu Reeves e isso só mostra o quanto toda nossa noção de relacionamentos, especialmente o de figuras públicas, é viciado por esses filmes em que um homem comum e de meia idade se relaciona com uma mulher deslumbrante que tem idade para ser filha, às vezes neta, dele.

Não vou falar que Alexandra é linda hoje, porque o que quero dizer é que isso não deveria ser considerado tão importante assim. Uma mulher é uma mulher, muito além de sua beleza, sua idade ou a idade que aparenta ter. Uma mulher é muito mais do que seu rosto, seu corpo e seu cabelo. Uma mulher não se resume assim. Nem um relacionamento. E eu espero que um dia a gente não precise mais afirmar isso de novo. De novo. De novo. De novo. De novo…


Esse texto surgiu a partir de tweets que postei em minha conta pessoal do Twitter. Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram

Pensamentos soltos sobre estética, novas obrigações e o tal do feminino

Kit Espelhos Ornamentado em Ouro Velho — Pronta Entrega pelo ELO7

Falar de cuidado de pele como um momento para si não cola para mim. De todas as coisas que alguém pode fazer para se curtir, por que quando se é mulher tudo acaba se relacionando com aparência?

Fora que o cuidado de pele nesses casos é a busca da pele perfeita, aquela que parece maquiada mesmo sem estar, e não um simples e necessário uso de protetor solar ou algum outro produto, como hidratante, recomendado por médicos para situações específicas. (Ainda que eu ache que as pessoas se sintam mais inclinadas e cobradas ao cuidado no sentido de saúde quando aquilo incomoda também a aparência.)

Toda vez que vejo alguém com esse discurso, eu lembro de gente dizendo “você precisa se cuidar” como sinônimo de fingir que é de plástico. Rotina de skincare agora anda junto com depilação, unha feita, cabelo tratado e pintado e outras práticas relacionadas à estética e que também passaram a ser consideradas uma forma de autocuidado.

Ou seja, o papo autocuidado se tornou uma versão mais palatável do controle e da preocupação com aparência. O que mudou é que atualmente tudo isso ganhou o rótulo de moderno, saudável e responsável. Parece que agora a gente precisa ser uma mulher linda que não parece se importar tanto em ser uma mulher linda, mas ainda assim é, porque se cuida de forma muito natural, saudável e, claro, com muito prazer. Afinal, agora é o tal do autocuidado que nos move. A gente tem que fazer as coisas chatas, caras e impostas como se aquilo nos completasse e nos fizesse sentir livres, leves e soltas. Se não fizermos, somos coitadas sem amor próprio.

O motivo da gente engolir tão facilmente que rotina de skincare ou qualquer outra coisa do tipo é autocuidado ou um momento para si é o medo que temos de sermos vistas como fúteis por nos preocuparmos com a aparência e com os efeitos do envelhecimento como nos é imposto. Só que isso acaba naturalizando a neura da beleza como parte do feminino, da autoestima e do cotidiano e isso afasta as mulheres, cada vez mais, de ter uma relação um pouco mais tranquila com tudo que se relaciona com aparência e inseguranças relacionadas.

Tudo bem fazer as coisas para se sentir mais bonita ou menos feia. Tudo bem chamar de vaidade ou algum outro termo correlato. O problema é pintar tudo isso como algo necessário e relacionado com o tal do autocuidado e do tempo de qualidade consigo e não pensar no que certas práticas inseridas no nosso cotidiano significam. Inclusive no sentido de imposição. É muito ruim se importar tanto com aparência, colocar esse tipo de questão como uma prioridade nas nossas vidas, mas a gente não precisa fingir que a questão é outra. Quanto mais a gente mascarar, mais dependentes ficaremos disso.

Questionar essas coisas não é dizer simplesmente que se importar com aparência está proibido ou é necessariamente errado. É somente uma tentativa de entender melhor o que nos afeta, o que afeta as mulheres enquanto grupo e o que interessa ao capitalismo, ao patriarcado e também ao racismo que promove, por exemplo, o uso de clareadores de pele e outros produtos como alisadores de cabelo.


Observação #1: Essa crítica que fiz, inclusive, não quer dizer que eu sou uma pessoa que vive livre de imposições estéticas ou que eu não neure com isso ou que eu nunca tenha passado um creme hidratante na vida. São só reflexões.

Observação #2: Esse texto é fruto da soma de vários tweets que postei há alguns dias em minha conta pessoal do Twitter + uma leve edição para que essa bagunça virasse um membro típico do gênero Textão de Facebook™, porque eu também quis postar sobre por lá.

Observação: #3: Aconselho ler a thread do Twitter inteira, porque rolou muitos comentários ótimos de outras pessoas e que, por não serem meus, estão de fora do texto. Inclusive, há até uma discussão bem interessante que envolve mulheres com deficiência e estética. Não deixem de ler!

Observação #4: Essa thread fez surgir conversas envolventes, mas, além delas, também rolou comentários agressivos. Por causa deles, serei obrigada a escrever no futuro próximo um texto de humor exagerando as reações bizarras que recebi ao compartilhar essas reflexões numa rede social em tempos como os nossos. Posso adiantar que a galera parece partir do pressuposto que eu falei que está terminantemente proibido fazer skincare e iniciei o recolhimento compulsório dos produtos com a finalidade de jogá-los no lixo, sendo que eu só acho que a gente precisa entender o porquê de fazermos certas coisas e acatarmos certos discursos. É preciso assumir o que nos move para isso, chamar as coisas pelo nome correto, entender as forças envolvidas, etc.

Bacurau: comunidade, rituais de morte e resistência

Obs: o texto contém alguns spoilers.

Cena do filme

Bacurau, filme de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é sobre muita coisa, inclusive sobre a morte, seus rituais e o impacto disso numa comunidade fictícia localizada no oeste pernambucano. Já nos primeiros minutos do filme, nos deparamos com um caminhão pipa que carrega água potável destruindo caixões de madeira caídos na estrada, um corpo e um caminhão que carrega caixões tombado e cercado de pessoas pegando a carga. A morte ronda Bacurau. Ela está próxima. Esse é o aviso e ele funciona. Tudo aquilo que se relaciona com a morte e seus símbolos é encarado pela nossa sociedade como um mau presságio, ainda que morrer seja parte indissociável da vida, e está ali nas primeiras cenas.

Na cidade, a morte já se faz presente. Dona Carmelita (Lia de Itamaracá), 94 anos, está sendo velada em casa, com parentes, amigos e conhecidos ao redor. A morte está próxima, é triste, mas é encarada ali como um momento de despedida, homenagem e reforço de laços afetivos. Diferente do corpo anônimo na estrada, que é visto de maneira distante e triste simplesmente. Ainda que ambos sejam colocados como algo inevitável que faz parte da vida.

O ritual de morte de dona Carmelita é, apesar de tudo, tranquilo. Tirando a interferência de Domingas (Sônia Braga), outra idosa, que parece sentir muito aquela partida. Talvez a idade da falecida contribua para isso. Afinal, a velhice avança e a proximidade com a morte passa a ser lembrada o tempo todo pelas próprias pessoas e também por quem próximo. Talvez a personagem, com sua sabedoria, já tivesse preparado o terreno para aquilo. O bolo que Carmelita faz antes de morrer e Teresa (Bárbara Colen), sua neta, come com a irmã após o velório parece dizer isso. Ela deixa afeto para quem ainda ia chegar e não poderia ter a chance de se despedir dela em vida.

Quase toda a cidade participa da celebração/ritual de morte, nos mostrando que a falecida é uma espécie de matriarca e referência. Tem música cantada em coro junto com o violeiro da cidade que lidera o canto, tem caminhada, tem enterro e lenços brancos sendo balançados. Ali, todos, por mais diferentes que sejam, parecem dividir a saudade que sabem que vão ter. O luto é compartilhado.

Cena do filme

Comunidades não emergem do nada, elas são construídas a partir de laços, trocas, tempo e até mesmo conflitos. Dona Carmelita, junto com o museu de Bacurau, representa a união a partir desse compartilhamento e a história do grupo que forma aquela cidade e que começa a ser apresentado para o espectador a partir do velório. Há algo que une todos ali, a história de uma pessoa ou de uma população, e é isso que faz Bacurau existir. Rituais de morte, principalmente quando são vividos e preparados de forma coletiva, costumam ser uma forma de preservação da memória de alguém, de um contexto, de uma família e até de um povo e isso importa tanto para quem fica porque é uma forma de dar continuidade ao que foi partilhado.

Os falecimentos, no filme até então, se apresentam como parte da vida cotidiana. Acidentes acontecem, velhos morrem, mas nos detalhes se percebe que viver ali é resistir a um destino específico fruto de um abandono e de uma época. O Estado não se apresenta como deve, aquelas pessoas estão desamparadas. Restaram a elas apenas o apoio uma das outras. A morte, nesse tempo que a gente só sabe que é depois de agora, está explícita na tevê. Há execuções públicas no Vale do Anhangabaú. De fato, ela ronda Bacurau e também o país.

Em Bacurau, se luta contra a morte todos os dias. Seja pela falta de água potável, de remédios, de vacinas ou de comida. A morte morrida, essa causada pela falta ou pela natureza mesmo, também pode ser política, mas a morte matada que surge posteriormente deixa evidente o quanto aquele povo é considerado invisível. Quem nasce em Bacurau é gente, mas parece que só quem mora lá sabe disso.

Quando Teresa, frente ao caixão da avó, diz que dona Carmelita é a segunda morta que viu no dia, há um estranhamento que surge talvez do quanto aquilo parece cotidiano e ao mesmo tempo fora do lugar. Teresa vê, numa alucinação, o caixão da avó transbordar em água. A morte, por mais cotidiana que seja, parece estar mais presente do que deveria mesmo quando a gente ainda não conhece o que há de vir. A água transborda ali, mas a gente não sabe o que isso significa ou se é para significar algo. Seria a morte e o sangue dos que vão embora? Seria um símbolo para a vida e o afeto que cercam aquele corpo? Seriam lágrimas de quem sabe o que vai vir? Seria a água da represa voltando a jorrar?

Quando os corpos mortos por tiros começam a surgir, o mau presságio é confirmado. Numa cena, Pacote/Acácio (Thomás Aquino) encontra os cadáveres de dois de seus amigos, coloca-os dentro no carro sentados, ainda ensaguentados e sujos e, durante o trajeto, explode de raiva numa conversa sem respostas. Aquela perda não era esperada. Ele entende que ela poderia ser evitada, sente culpa por ter pedido a eles para irem até aquele lugar em que foram executados e a raiva, parte indissociável do luto, é a resposta dele para aquela dor.

A cidade chora seus mortos, ainda que em choque e se preparando para se proteger. Antes do encontro da cidade com os assassinos, os rituais de morte do menino, dos homens e da família acontecem junto a uma outra espécie de ritual, o de preparo para uma batalha. Enquanto um buraco, que a gente ainda não sabe para que serve ,é cavado, tem capoeira, tem reza, tem desespero, busca pela prostituição e também conexão e contato. A proximidade com a morte é o que guia ambos os rituais e cada um reage à sua maneira.

Bacurau quer viver em paz, mas sabe reagir para proteger os seus e manter a comunidade viva. As vestes sujas de sangue dos corpos mortos de sua população se tornam bandeiras de luta. A escola, cravejada de balas e lotada de gente escondida debaixo de carteiras, também reage. O museu também é um centro de resistência ao ataque. As engrenagens da cidade, com toda sua gente, inclusive aqueles que um dia já rejeitaram aquele povo e aquele lugar, se movimentam para impedir o massacre de seu povo.

Museu é lugar de história de gente que já morreu faz tempo e representa o passado. Escola é lugar de gente que acabou de chegar no mundo, local onde o futuro se desenha. Nenhum deles está protegido de quem quer ver sangue, como sabemos ao ler as notícias do Rio de Janeiro ou dos EUA, mas no filme esses lugares, considerados tão vulneráveis e que costumam ser alvos de tentativas de controle e descaso, se tornam focos de resistência por serem espaços em que se celebram e preservam a coletividade e a memória. Nesse sentido, faltou, na minha opinião, maior participação feminina na violência e menos hiperssexualização. Apesar de algumas personagens femininas serem parte ativa da resistência, usarem armas e se posicionarem, os protagonistas da ação — e, na prática, até do filme — são homens, ainda que Lunga (Silvero Pereira) não se encaixe bem nesse lugar masculino e a comunidade, substantivo feminino, seja o centro da história. As mulheres, que são colocadas pela obra como importantes mantenedoras da comunidade viva, ficam em segundo plano nessa hora, como se a elas coubesse o papel de serem lideradas ou buscarem sempre as vias do diálogo. Vide Teresa, essa que é filmada como protagonista, mas que o roteiro não a valoriza o suficiente, e Domingas.

As mortes em Bacurau servem como um lembrete de que o Brasil foi construído e ainda o é a partir da violência, mas essa violência foi perpetuada, permitida, ainda que não às claras, e alimentada por quem representa o Estado. E, no caso do Nordeste, como bem expõe o filme, incrementada por sudestinos e sulistas que se consideram superiores a quem vive nessa parte do Brasil, enquanto são tratados como menos gente por quem eles consideram próximos e parecidos com eles. Esse passado — e o nosso presente — repleto de um tipo sangue específico derramado precisa ser considerado sob o risco de vermos a resistência de quem quer simplesmente se manter vivo ser encarada como a real face da violência. Os bárbaros não são os que atacados buscam lutar pela vida e pela sua dignidade, ainda que alguns defendam que histórias como essas sejam contadas assim.

Cena do filme

Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram

Sobre Caitlin Doughty, a boa morte, o sequestro do luto e a literatura como autoanálise

Acervo Pessoal — Adquira “Para toda eternidade” aqui e o “Confissões do Crematório” aqui.

A morte é um processo biológico inevitável e irreversível, ainda que seja adiável em alguns sentidos. Com os avanços da medicina e um maior entendimento sobre desenvolvimento de doenças e como evitá-las, a expectativa da vida humana tem aumentado, mas, ainda assim, a morte está sempre à espreita, mesmo quando evitamos o assunto. E como temos evitado o assunto!

Caitlin Doughty é uma agente funerária, escritora e youtuber que trabalha essa questão de forma didática, respeitosa e, por incrível que pareça, leve. Talvez até engraçada. Ao abordar uma temática considerada tão complicada, sensível ou mesmo tabu, ela tem a finalidade de nos fazer refletir sobre boa morte, práticas funerárias, cultura, luto e memória. Pode até soar mórbido para alguns, mas foi a partir da leitura de “Confissões de um crematório” e “Para toda a eternidade”, obras da autora traduzidas para o português brasileiro por Regiane Winarski, que eu entendi que falar da morte é essencial e, inclusive, faz bem para nós individualmente, como pessoas que eventualmente terão que lidar com o luto e com a possibilidade do próprio fim, e para toda a sociedade. Isso ganha uma importância especial quando nossos rituais de morte se afastam cada vez mais de um contato real com ela e faltam momentos que nos permitam processar o que aconteceu.


Sempre tive medo de morrer. Tenho dificuldade de encarar marcas de veias na pele, ver sangue, medir pressão e até mesmo ouvir batimentos cardíacos, meus ou dos outros. O pavor é tanto que quando o corpo me lembra da vida, com todos esses detalhes, isso me incomoda. A palpitação do coração me alerta que ele pode parar a qualquer momento. As veias me advertem que elas podem se entupir e, quando muito expostas, que podem se romper. O sangue me recorda que, dependendo do caso, ele pode não ser estancado e quando sou picada, com fins médicos ou não, sinto as pernas bambas e chego a desmaiar em laboratórios quando vou fazer exame de sangue. Depois passa. Sempre passa. Mas já faz anos que eu convivo com uma ansiedade relacionada com a morte, minha e dos outros, que vai do descrito aqui ao desespero em um pulo.

A primeira vez que vi que tinha algo de muito exagero nisso foi quando, no meio de uma aula de biologia, eu senti tonturas ao ouvir a professora descrever como funciona o sistema circulatório humano. Ela falava de sangue, artérias, veias e o funcionamento do coração e eu entendia morte, óbito e falecimento. As tonturas diminuíram muito com o tempo, mas antes disso acontecer surgiram os ataques de pânico noturno que, felizmente, também melhoraram bastante nos últimos anos. Só que tudo isso ainda me assombra como um velho fantasma que cansou de assustar os moradores de uma casa, mas que pode resolver voltar a agir quando eles menos esperarem, bem quando eles estiverem mais indefesos.

Falo tanto de mim nesse texto, porque eu temi o efeito que os livros da Caitlin Doughty podiam ter em mim. Não vou negar que no início senti um incômodo, cada linha ali me lembrava da possibilidade de eu mesma morrer e as pessoas que eu amo, só gosto ou mesmo apenas convivo também, mas com o avançar da leitura isso foi mudando. Eu passei a pensar na morte como uma questão que abarca diversas áreas do conhecimento, não só sentir calafrios e nervoso. Eu passei a falar sobre com as pessoas ao meu redor. Ainda como uma questão relacionada ao livro, mas eu falei e ainda discuti sobre o que eu quero — ou acho que quero — que façam com o meu corpo sem vida.*¹ Tudo com base no que agora eu conheço pelas palavras e pelo olhar da Caitlin. O livro me fez tentar entender melhor o que eu tenho vivido há anos em relação a esse assunto e a ansiedade como um todo e me deu ferramentas para compreender como eu lidei estranhamente “bem” com o luto relacionado com a morte do meu cachorro de quase 18 anos, o Faruck. A obra e as discussões que tive a partir dela com duas amigas, Rafaela e Graciele, ativaram meus ouvidos, meus neurônios e todos os meus sentidos de um jeito inédito e isso me ajudou a iniciar um processo de reflexão que tem me ajudado muito, inclusive a aceitar a minha curiosidade com o tema, que antes era algo que me causava um desconforto enorme. Como vocês já sabem, até físico.


Em “Para toda a eternidade” conhecemos rituais de morte de vários lugares do mundo. Alguns muito diferentes de tudo que imaginamos. Esse é um livro de viagens focado em uma pesquisa feita por uma curiosa sobre a morte, o luto e como vivemos esse momento enquanto seres humanos. Ao pensar, com a ajuda da autora, nos costumes e nas diferenças e semelhanças entre sociedades, a gente descobre mais sobre como estamos afastados desse assunto e como nós, ditos ocidentais, especialmente brancos, ainda nos colocamos como a régua da humanidade. Alguns costumes podem nos chocar — como o de conviver, às vezes por anos, com um cadáver preservado de um familiar conforme acontece em Tona Toraja na Indonésia ou o sepultamento ao céu aberto comum nas montanhas do Tibete — mas esse choque se dá muito porque ainda encaramos o nosso jeito de viver, morrer, celebrar e homenagear como o único correto. A obra, então, parte justamente da alteridade para discutir a morte, o destino certo de todos nós, independente de nossas origens, gêneros, etnias, cor de pele, religião, sexualidade e conta bancária.


Quando falamos da morte, do medo dela, seus rituais e do luto, a gente aborda a própria condição humana. Ser gente é ter que lidar com a certeza do fim. Sabemos disso, mas ainda assim fugimos coletivamente desse assunto. Ainda que ele permeie nossos jornais, nossos filmes, nossos piores pesadelos. A morte, em nossa cultura, se apresenta muitas vezes como estatística ou manchete. Ainda que com rosto, mas, como muitos teóricos, ativistas e até músicos frisam, alguns corpos valem menos. A carne mais barata do mercado é a negra e a morte, dependendo da sua cor de pele, sua origem e conta bancária, é vista como algo que pode ser justificado, comemorado, visto como um efeito colateral de um sistema que diz combater crimes, mas se baseia na eliminação dos vulneráveis.

Caitlin Doughty não fala sobre isso diretamente em seu livro, mas aborda como os preços de caixões, cerimônias funerárias e cremação sequestram o luto das pessoas a partir das dificuldades financeiras e da desigualdade social. Além da dor da perda, muita gente, especialmente nos EUA, ainda tem que lidar com dívidas e mais dívidas relacionadas com a morte de uma pessoa querida — lembrando aqui que isso se soma muitas vezes aos gastos já vultuosos com internação, hospital e medicamentos comuns aos estadunidenses, já que eles não possuem sistema público de saúde.

Também nesse sentido social e político, Caitlin faz questão de pontuar levemente sobre como a profissionalização dos cuidados com os mortos e os altos preços pelo serviço se relacionam com o fato de que, nesse nosso sistema, esse trabalho passou a ser feito por homens. O que antes era visto como tarefa feminina, ao ser apropriado pelo mercado, se tornou algo lucrativo, importante e um assunto visto como mórbido demais para mulheres.

Só que esse sequestro do luto vai muito além do dinheiro e do pouco tempo que temos disponível para sofrer a dor da perda e envolve também o direito à memória. A memória, a preservação dela e as homenagens que os que ficam fazem são parte do processo do luto e funcionam, muitas vezes, como uma espécie de conforto para os enlutados. A questão é que, dependendo de quem você é, de onde você mora, e, principalmente, a cor que você tem, sua família perde o direito de fazer isso. E o contexto brasileiro nos lembra disso toda hora: quando jovens negros são mortos em favelas, o processo de luto é interrompido pela cobrança social de que as famílias provem que os mortos por quem choram não eram bandidos em vida. De certa forma, isso também ocorre em alguns casos de feminicídios, quando a família se vê obrigada a defender o comportamento da mulher em vida, enquanto muitos falam que ela procurou ou mereceu seu destino.


Uma árvore, por mais saudável e longeva que seja, um dia perecerá. Nós também. A morte é um destino inescapável, um fato biológico, e também um tabu. Ela causa dor, ansiedade, medo. Nos aterroriza individualmente e coletivamente. É assunto dos jornais, especialmente quando ela é violenta. Ela é o fim dos nossos corpos e, para muitos, da nossa própria consciência, mas, além de tudo, é também uma questão social, econômica e política. Falar de boa morte — e buscar uma sociedade que pense nisso — é refletir sobre o mundo que queremos viver e esse é o ensinamento mais valioso que a Caitlin Doughty nos traz.


: Talvez uma cremação em pira portátil como a mostrada no capítulo sobre uma cidadezinha em Colorado ou um enterro natural sem embalsamento como o citado no capítulo da Califórnia. Topo inclusive servir de teste para a ciência forense ou virar compostagem, como os casos citados no capítulo da Carolina do Norte. De todos esses, se tornar compostagem é o que me parece mais atraente, porque, do meu corpo morto, muita vida vai surgir ao redor.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.  Se interessou pelos livros? Adquira o “Para toda Eternidade” aqui e o “Confissões do crematório” aqui.

“Ó ódio que você semeia”: #BlackLivesMatter em forma de YA

Acervo Pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Angie Thomas, autora estadunidense original do Mississipi, conseguiu alcançar o topo da lista de mais vendidos do New York Times com seu 1º livro na semana de seu lançamento. O sucesso da obra, que foi adaptada ao cinema pela Fox e teve sua estreia em dezembro de 2018, se deu, principalmente, pela atualidade e importância do que é debatido nela e a forma direta, testemunhal e de fácil entendimento que essa história, infelizmente tão comum, foi contada.

“O ódio que você semeia” é narrado por Starr, uma adolescente negra que vive em um bairro pobre — e negro — com sua família, mas estuda em um colégio particular repleto de brancos. Ela transita, diariamente, entre esses dois mundos que parecem se excluir, mas coexistem em sua vida e em sua cidade.

Pelo olhar dela, conhecemos sua família, seus amigos, seus vizinhos, seus gostos pessoais e também seus conflitos internos sobre não pertencer, de fato, nem ao bairro e nem ao espaço escolar. Quando ela testemunha o assassinato de um amigo por um policial branco, ela não consegue mais escapar do sentimento que há algo de muito errado no mundo ao seu redor. Algo que ela suspeita desde muito antes de seus pais a ensinarem o que fazer quando um policial a parasse.

“A Starr da Williamson não usa gírias; se é algo que um rapper diria, ela não diz, mesmo que os amigos brancos digam. As gírias os tornam descolados. As gírias a tornam “daquele bairro”.”

A representação do bairro de Starr, com toda a sua complexidade, permite ao leitor conhecer as dificuldades que rondam as famílias da região sem demonizar moradores ou naturalizar as consequências do racismo. A violência ali presente é abordada como uma consequência da desigualdade, da exclusão e do ódio que é direcionado para quem vive ali. Variáveis importantes, mas que, quando são ignoradas — como são constantemente — resultam em mais mortes e na alimentação do ciclo de violência.

“Era uma vez um garoto de olhos castanhos e covinhas. Eu o chamava de Khalil. O mundo o chamava de bandido.”

“O ódio que você semeia” expõe as engrenagens desse sistema feito para manter pessoas negras subalternas e silenciadas, cita muitas referências negras, inclusive o próprio título do livro se relaciona com a música T.H.U.G L.I.F.E do rapper Tupac Shakur, e apresenta uma jornada de herói que envolve amadurecimento, descoberta de si e de sua voz e questões sociais urgentes.

“Mas é engraçado como funciona com os adolescentes brancos. É maneiro ser negro até ser difícil ser negro.”

Racismo, violência policial, desigualdade, voz e denúncia são as palavras-chave desse livro que expõe o que as estatísticas de segurança pública, encaradas como tão frias, diretas e talvez distantes para alguns, dizem de fato. A morte de jovens negros afeta famílias e comunidades inteiras e dizem bastante sobre como o Estado e a sociedade encaram os corpos e vidas negras. Esse debate, tratado no livro de forma tão eficaz, dialoga com a realidade brasileira, apesar das pequenas diferenças em relação ao contexto racial e social entre os países, e ganha uma importância ainda maior em tempos de Bolsonaro presidente e Witzel governador do Rio.


Trailer oficial do filme:


Tradutora da obra: Regiane Winarski


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram. Adquira seu exemplar aqui.