“Flor de gume”: as mulheres, águas e as travessias

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Monique Malcher escreve como quem conhece bem a água. Suas primeiras frases funcionam como o toque inicial dela no corpo. Aquele momento de arrepio que vem da consciência de que a partir de agora dizemos adeus à terra firme. Nesse instante, a água nos convida a entrar de vez e você simplesmente vai, guiada pela promessa de que é assim que se acostuma com ela. Mas, justamente por conhecer tão bem o curso dos rios, Monique nunca nos deixa acostumar inteiramente com essa imersão.

Entrar na água é um risco. O mar impõe suas ondas aos olhos e ao corpo e os rios e lagoas não são muito confiáveis. A força da água doce é menos conhecida, pode não parecer, mas dali vai vir um nocaute em forma de história. É fácil se enganar e achar que nadar ali vai ser como estar numa piscina de hotel lotada de cloro. Às vezes pode até ser, mas vai saber. Talvez dê para nadar tranquila, talvez não. Talvez o único problema que você encontre seja simples de resolver, como uma alergia ao cloro. Talvez você simplesmente afunde.

As águas de Monique são mornas, turvas e podem ser perigosas. É fácil se deixar inundar por elas lembrando de alguém, pensando numa mãe, numa avó ou numa menina, todas perdidas nessa terra afundada cheia de vida. Tem quem se veja ali, inclusive. Então, no meio de um conto, um objeto há muito tempo perdido evoca uma figura-fantasma de mais uma mulher-menina-lembrança. Estar na água é uma ruptura com o mundo fora dela. As sereias e as rusalkas que o digam.

“Não é exclusividade das casas serem assombradas, mulheres são também. Isso conheço bem”, a autora elabora a partir de uma personagem, nos ajudando a encontrar o que nos assombra em terra firme, mas a gente só consegue ver mesmo quem esses monstros são quando mergulhamos e nos permitimos olhar para o mundo sem definição, sem os contornos que somos acostumadas a lidar.

“Flor de gume” é um livro imagético, que constrói seu ritmo e sua atmosfera a partir das forças da natureza. Água, vento, perna, muralha, asfalto, memória, arte, luto, morte, tudo se mistura para contar essas histórias que tem como tema em comum a filiação, a memória, o eu e a resistência histórica do enfrentamento desses corpos perante e a partir de tanto poder. O que pode acontecer desse encontro?

Ler Monique Malcher é se permitir navegar pelas águas barrosas dos rios e das travessias que partem de lugares desconhecidos interiores e úmidos até chegar a vários outros. Quem guia esse barco são as mulheres que conhecem esse caminho desde muito cedo por terem sido obrigadas a conhecê-lo, mas, por algum motivo, quem ainda está no barco como passageira tende a achar que continua sozinha, mesmo não estando.

Se mulheres são como águas e ficam mais fortes quando se encontram isso acontece, porque as histórias vão se alinhavando e quando são finalmente contadas juntas formam um fio condutor que também funciona como uma possível rede de proteção.

Uma hora as piloteiras e passageiras desses barcos vão se encontrar e se entender, ô se vão. Exatamente como o fogão ganhado pela menina numa rifa encontrou sua avó após dias navegando e serviu de conexão entre elas.

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Esse é um livro para quem gosta de textos híbridos, que conseguem respirar dentro e fora d’água. Se você quer ler algo que atravesse gêneros textuais a partir da construção de contos bem unidos e de uma poética, se permita conhecer “Flor de gume”. Com essa leitura, somos capazes de pensar a condição feminina e as lutas e heranças, individuais e coletivas, que acontecem como resistência a toda violência que cerca a vida das mulheres. E, mais do que isso, a partir dessa obra, nos tornamos capazes de lembrar melhor o que nos afeta e nos constrói. É importante conhecer melhor essas águas que nos cercam, deixar que elas nos mostrem o verdadeiro rosto de muitos homens.

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Monique Malcher foi a 2ª paraense a concorrer e ganhar o Jabuti. Sua vitória veio na categoria Contos pelo seu livro “Flor de Gume” na 63ª edição do prêmio. Além de escritora, é colagista, zineira e tem uma carreira acadêmica em construção.

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Reli “Flor de gume” agora em janeiro de 2022 junto ao Clube Cidade Solitária e adorei, sendo que minha 1ª vez com ele foi diferente. Eu gostei desde o início, e gostei muito, mas tinha rolado um trem meio seilá antes. Na releitura e também na conversa com outros leitores junto da autora, elaborei melhor essa minha primeira impressão perdida. Foi coisa de momento, acho, porque tem livro que tem hora, frequência e companhia certa para fazer a gente conseguir lidar com certos abalos de estrutura. Pensando então no tamanho do desconhecido das águas, na hibridez da escrita da autora e também no próprio ato de gostar, resolvi escrever sobre essa obra desse jeito meio misterioso, híbrido e quase ficcional, como se assim eu pudesse ficar mais próxima dessas personagens.

*alguns trechos dessa quase-resenha foram retirados do post que escrevi para o Leia Mulheres Divinópolis sobre o #DesafioLeiaMulheres2021 de fevereiro.

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Publicado por

Thaís Campolina

O que falta em tamanho sobra em atrevimento. Isso foi dito sobre um galinho garnisé numa revista Globo Rural dos anos 80, mas também serve pra mim.

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