Dia Mundial do Livro: uma declaração de amor e de luta

Vale a pena a gente parar para pensar no quanto a leitura é uma atividade diversa: um livro pode ser prazeroso, apaixonante, tenso, triste, fofo, sensível, boa companhia, contemplativo, incômodo, chato, bonito, longo, curto, ilustrado, cheio de fotografias, em áudio, lido em voz alta, escrito em braile, complicado demais, divertido, de consulta, difícil, informativo, fluido, lento, imersivo, artesanal, independente, digital, fraco, cheio de plot twists, fonte de conhecimento científico e também de sentimentos, impressões e reflexões.

A gente lê por muitos motivos, mas não dá pra negar que o maior atrativo de qualquer leitura é a possibilidade de criar alguma coisa aqui dentro.

Nas palavras e nas imagens alheias, a gente encontra somente uma parte de todo um universo que um livro pode oferecer. A outra está dentro de nós e a aventura de qualquer livro está em descobrir isso e sair conectando histórias, informações, interpretações e imaginação com o mundo de referências, memórias e vivências que nos compõem.

Lemos buscando esse movimento e assim vamos descobrindo quem somos, onde estamos, que mundo é esse e também o Outro e todo o universo que a descoberta da alteridade pode oferecer.

Por essas e outras, surge a necessidade de falarmos sempre em promoção da bibliodiversidade e combater tudo que busca restringir nosso acesso. O que significa nesse momento um foda-se para Paulo Guedes, um outro foda-se para Bolsonaro e mais um foda-se para todas as políticas e pessoas que atacam o livro, a cultura, a educação e a pesquisa!

Feliz dia mundial do livro!

Leia também: #EmDefesaDoLivro: discutindo a tributação proposta pelo Guedes

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(Observação: texto originalmente publicado nas minhas redes sociais).

Notas sobre as cidades que afundam em dias normais

Acervo Pessoal – Imagem postada também no meu Instagram
O encontro

Cidades afundam em dias normais, o mais novo romance da escritora, podcaster e ilustradora Aline Valek, foi tema de um encontro especial, com participação da autora e tudo, no meu clube de leituras, o Clube Cidade Solitária.

Durante o papo, fomos 18 pessoas no total, todas bem empolgadas para compartilhar e ouvir as relações e análises que outros leitores com repertórios tão diferentes. Cada comentário puxando o outro, ampliando a leitura de cada um, num movimento que incluiu a própria Aline, que trouxe para gente muitas informações sobre seu processo criativo no todo e também o envolvido diretamente na construção dessa história.

Em certo momento, a escritora compartilhou que esse livro começou a nascer a partir de uma caixa de fotos de pessoas desconhecidas que ela teve acesso. Vendo aquelas imagens sem sequência e sem demais informações, a ideia surgiu.

A narração desse processo me lembrou a descoberta do trabalho da fotógrafa Vivian Maier. Segundo o documentário Finding Vivian Maier, uma caixa de fotos de trabalhos dela foi arrematada por um caçador de tesouros em um leilão. Ao abrir a caixa e observar as imagens, ele suspeitou que aquelas fotos eram mais interessantes do que pareciam e, a partir desse momento, essa fotógrafa que passou a vida na invisibilidade do trabalho de babá começou a ser descoberta.

Esse filme se esforça para tentar contar a história da fotógrafa a partir do que foi sendo garimpado depois de sua morte. Além das caixas com suas fotos e demais pertences, o que restou de Vivian mora na memória de seus antigos e diversos patrões. O trabalho dos que hoje tentam lucrar a partir dessa fotógrafa muito talentosa é um pouco semelhante ao que tentamos fazer ao ler o livro da Aline, ainda que as fotografias presentes em suas páginas não sejam, digamos, visuais.

A dúvida

Como funciona a memória? A minha, a sua e também a nossa. Como se define o que vamos lembrar e o que vai desaparecer nesse lamaçal de rostos, causos, banalidades, violências e urgências cada vez mais frequentes, talvez frequentes demais para continuar a caber nessa palavra? Como a forma que lembramos afeta como vamos ver aquilo tudo agora e no futuro? Como lembrar e esquecer podem se relacionar tanto com buscar e perder? E quão grande pode ser o abismo entre lembrar e contar o que se lembrou?

Como uma cidade se forma, permanece e afunda? Como uma cidade é lembrada? Como uma cidade atravessa o tempo? E a vida de cada um? Como cada pessoa surge, permanece e desaparece? Como se conta a história de um povo?

Somos o que lembramos? E onde anda a verdade se cada um tem a sua?

Como se dá o processo da memória? E das relações? E da criação? A criação surge a partir da vontade de se expressar? De contar a nossa própria história? De elaborar o que se passou? De ser lembrado e de lembrar? De não deixar desaparecer alguma coisa? De não se deixar desaparecer e nem os seus? Como organizar lembranças pode parecer tanto um processo de colagem? Como cada cena pode parecer tanto uma fotografia? Como falar de tempo, processos, escola e adolescência pode nos fazer pensar tanto no Brasil?

O processo

Pensar na adolescência envolve encarar quem somos hoje e como nos tornamos essa pessoa. Pensar em tempo é se ver exposto às contradições do registro e do esquecimento. Pensar na dúvida é perceber que na maioria das vezes descobrir novas indagações é mais interessante ou, no mínimo, mais realista que qualquer resposta que podemos encontrar. Ler esse livro é pensar nesse misterioso processo que mescla o desejo de narrar, de fugir e de ficar.

Os dias normais

As histórias de Kênia, Tainara, Érica, Tiago, Rebeca e outros antigos moradores de Alto do Oeste são relatos individuais de uma cidade alagada em um processo lento e contínuo de abandono. O fim do mundo de cada um desses personagens — e o retorno curioso dessa terra tantos anos depois — foi somente mais uma manchete curiosa para o resto do país. Enquanto a cidade afundava, cada um fazia o que podia para não afundar junto, enquanto tentavam seguir suas vidinhas como antes. Ninguém de fora, estado ou não, deu as caras nesse processo que, de certa forma, foi sendo ignorado no dia a dia por todos que ali viviam. A tragédia virou costume, como de fato acontece no Brasil. A tragédia virou fonte de cliques e lucro, como também acontece todo dia.

Cidades afundam em dias normais, além de abordar temas como memória, amizade, adolescência, vida no interior e fotografia e outros processos, artísticos ou não, fala também sobre desalento, declínio e desesperança em um sentido coletivo. O que nos faz pensar também na chegada e permanência do fascismo, e é possível dizer que não deve haver nada mais brasileiro que esses sentimentos nesse momento.

Aline Valek escreveu uma obra que dialoga com nossas urgências e medos e a experiência de leitura dessa história nos ajuda a elaborar a prática de se viver em meio aos diversos fins do mundo que nos cercam. A gente busca respostas imediatas o tempo todo, mas talvez precisemos, primeiramente, entender de onde partimos. A professora Érica concordaria com isso, porque sabe que as memórias pertencem ao futuro. Só se conta histórias para frente”.

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Leia também: “Buscando Vivian Maier”

As Copas e as chagas de uma realidade fantástica

Nuevo Gasómetro – Foto de divulgação

Gabriel García Márquez é considerado o pai do realismo fantástico, apesar de ter dito que uma vez que sua obra representava só realismo. “A realidade que é mágica. Não invento nada. Não há uma linha nos meus livros que não seja realidade. Não tenho imaginação” disse em algum contexto que não fui capaz de descobrir qual, apesar — e talvez justamente por — dessa frase se repetir incansavelmente em matérias e mais matérias sobre ele, especialmente aquelas que anunciaram a sua morte em 2014.

Me volto para essa afirmação de Gabo vez ou outra, nos contextos mais diferentes. Lendo “Água Funda”, único romance de Ruth Guimarães, para o meu clube de leituras, me peguei pensando nela. Nessa obra, um narrador nos conta causos e mais causos sobre uma localidade. Com um texto muito oral, próximo da linguagem caipira, Ruth apresenta para o leitor um lugar, um tempo e suas pessoas, mostrando trajetórias e o quanto o olhar dos personagens é permeado pela natureza, as relações, o mundo e seus mistérios. A cada causo, muito pela linguagem, mas não só, me vinha na mente as histórias que minha avó materna me conta sobre a mãe, suas próprias jornadas por Minas Gerais e o que, segundo ela, o povo antigo pensava sobre uma variedade de coisas. Enquanto lia, percebia palavras que fazem parte do vocabulário da minha avó, especialmente quando ela conta histórias do passado, que em muita coisa é próxima ao que escreve Ruth. A opressão, o trabalho, a natureza, as festas, o truco, tudo isso e mais o que não tem muita explicação. Sendo atravessada pela obra, também lembrei do meu avô paterno e as histórias de terror que ouvi dele. Histórias essas muito próximas das contadas no livro, todas narradas em primeira pessoa, partindo dele ou recontando o que ele ouviu que aconteceu com um amigo ou um amigo de um amigo dele. O mistério da vida todo ali, ilimitado, mas exposto com toda aquela atmosfera nomeada como mágica, apesar de Gabriel e muita gente não considerar bem assim.

Gabriel García Marquéz diz ter escrito a partir das histórias e memórias que cresceu ouvindo em Aracataca, cidade colombiana onde nasceu. Ruth Guimarães foi uma pesquisadora da cultura popular com o olhar e os ouvidos atentos para recolher, registrar e estudar essas histórias que circundam as pessoas a partir do famoso causo, essa prosa cotidiana marcada pela troca, pela memória e pela fofoca. Ambos, ao escreverem, contaram com essa magia tão presente nesses relatos na tarefa de efabulação.

No discurso do Nobel em 1982, o autor colombiano disse ao falar da solidão da América Latina: “No entanto, diante da opressão, do saque e do abandono nossa resposta é a vida. Nem os dilúvios nem as pestes, nem a fome nem os cataclismos, nem sequer as guerras eternas através dos séculos e dos séculos conseguiram reduzir a vantagem tenaz da vida sobre a morte”. Relendo a frase hoje, fazendo a pesquisa para esse texto, entendi que parte dessa magia mora na capacidade de criar e se recriar, apesar de tudo. Essa figura latino-americana que Gabriel ajudou a construir, junto a outros escritores que escreveram muitas vezes somente de seus próprios países ou regiões, é a de um sobrevivente que se alimenta, principalmente, da vontade de continuar. E, numa região como a nossa, isso significa quase que ter fé. Essa fé que é uma miscelânea de símbolos, origens e personagens. Enquanto humanos, criamos, contamos, formulamos tudo que move a vida a partir disso, especialmente aqui, e a maneira de se fazer isso é além da racionalidade típica, cartesiana. É preciso ter esperança, paixão, vontade, amor para continuar e nossas vidas e nossas criações são demarcadas por isso de alguma forma. Talvez isso seja o que explique parte do apreço do Brasil, da Colômbia, da Argentina, do Chile, do México e de outros países próximos pelo futebol.

Quando eu penso no futebol nesse contexto, me vem em mente a notícia do torcedor do Racing que comemorou o título de seu time do coração carregando o crânio de seu avô e, ao ser entrevistado, disse que aquela ossada que carregava era seu amuleto de sorte e que seu querido parente estava orgulhoso daquela vitória. Evoco também a Libertadores, com todas as suas incoerências e emoções, e a alta frequência de cães que invadem campos de futebol bem durante esse campeonato.  E, inevitavelmente, lembro do “Eu acredito” do Atlético Mineiro, esse time que me conquistou e me é tão próximo, apesar de eu não ser exatamente uma torcedora dele ou de qualquer outro.

O futebol, para muitos, é uma fuga da realidade, mas uma fuga marcada pela capacidade de se ter esperança na virada. A escolha do time do coração não é racional, ela vem de um outro lugar. A paixão não é, necessariamente, pela equipe que une mais talentos, probabilidades de vitórias e títulos conquistados, ela parte do afeto, do inexplicável, daquela coisa que bate ou não. Um jogador muito carismático pode mudar tudo, pode fazer o filho de uma família de cruzeirenses escolher o galo como seu amor futebolístico a partir simplesmente de uma identificação misturada com o desejo de ser.

Como tudo que vem da paixão, o futebol é marcado por uma boa dose de coisas inexplicáveis, mistérios e histórias quase mágicas. Transformamos jogos reais em momentos praticamente mitológicos e seres humanos falhos, complexos, que às vezes carregam em si defeitos e mais defeitos de toda uma cultura de reforço de uma certa masculinidade, em verdadeiros ídolos. Digo masculinidade porque é justamente por causa dela e seu machismo consequente que o futebol feminino, apesar de incrível e mexer com nosso âmago desse mesmo jeitinho, ainda é ignorado pela maioria que torce, vibra e se apaixonada por equipes, jogadores e sonhos.

Pensar na origem do amor por uma equipe, me fez recordar da informação que diz que, cientificamente, a gente gosta tanto do azarão, de torcer para o mais fraco, motivados por uma tal de economia emocional, torcemos assim buscando maximizar o prazer a partir do improvável, porque a perda ali, por ser esperada pela probabilidade, nos faz pensar que a vitória é um lucro maior. Entendo o argumento, faz bastante sentido, mas a seleção brasileira, por seu penta histórico, não carrega essa pecha de fraca e duvidosa, mas ainda assim segue tendo muita torcida. Por que? Porque o Brasil vencendo, mesmo para outros países, significa também dignidade, direito de sonhar, uma vitória contra aqueles que ganham em tudo, todos esses sentimentos que ajudam a fazer do futebol esse esporte que mexe com tantos, especialmente os latino-americanos. Nossas escolhas e emoções esportivas são marcadas por aspectos sociais, políticos e, claro, emocionais. Buscamos vinganças coloniais torcendo numa Copa do Mundo organizada por uma entidade bem controversa e nos sentimos exaustos vendo os Estados Unidos no primeiro lugar do quadro de medalhas das Olimpíadas a cada 4 anos.

Escrevi tudo isso para chegar no que me deu a primeira fagulha desse texto: a morte de Diego Armando Maradona. Toda aquela comoção, dor, ilusão de proximidade e relatos emocionados me fizeram pensar nessa paixão que o esporte é capaz de fazer surgir e como as pessoas encontram em Maradonas uma esperança que representa a pulsão de vida perante a morte, a miséria, o horror, junto também ao desejo em sair por cima, porque somos humanos, afinal.

Os dois gols do Maradona contra a seleção da Inglaterra em 1986 representam isso muito bem: o gol roubado — a famigerada mão de deus — a Argentina saindo por cima da Inglaterra em algo, apesar de tudo, e o gol mais belo de todas as Copas, o gol que vem do imo, do desejo, da vontade de ser foda, do talento e da beleza que não podem ser roubados, apesar de seguirem tentando a todo custo.

Quando parei para pensar no futebol e fui parar no realismo, mágico ou não, eu cheguei a conclusão que a gente chama de magia e mistério o que envolve todas essas coisas que vem de dentro. Não sabemos como surge o amor, a paixão, o medo, o ranço, a raiva, o rancor, mas a gente conhece muito bem tudo isso. Criamos e consumimos histórias, inclusive as narrativas e vivências esportistas e os causos do cotidiano, para lidarmos com essa infinidade de coisas que não sabemos explicar muito bem, mas é um dos nossos principais componentes.

No dia 18 de maio de 2017, eu estava em Buenos Aires e fui parar no estádio Nuevo Gasómetro para assistir San Lorenzo versus Flamengo. O time argentino tinha perdido os dois primeiros jogos da fase de grupos da Libertadores, mas conseguiu se classificar para a fase seguinte a partir de uma vitória de virada com gol no último minuto. Desse dia, eu me lembro do frio, por causa do estádio todo aberto e a localização bem abaixo do trópico de capricórnio, e da festa. Fui contagiada pela emoção que tomou conta da atmosfera do lugar. Eu sorria, porque sorriam, cantavam, festejavam ao meu lado, e, no meio daquele caos, ouvia uivos humanos que terminavam com a frase “como sufri”, porque amor, esperança e a improbabilidade tinham vencido. Nesse dia, apesar de contagiada, eu compreendi que jamais entenderia completamente qual jogo eles vivenciaram e assim me tornei capaz de perceber a grandiosidade de toda essa gama de sentimentos que envolve o torcer e o ser, mas para mim ainda parecem mais com um feitiço poderoso, esse que sei que me atinge de outras formas, diferentes e semelhantes, inclusive por meio da literatura, da linguagem, das pessoas e da natureza. De todo jeito, estamos todos falando de amor, paixão, esperança e desconhecido e nos conectando a partir disso.

Estação Blogagem foi criada pela Aline Valek e pela Gabi Barbosa para movimentar a blogosfera e engajar leitores e escritores em torno dos blogs, escrita e leitura. O tema proposto para esse mês de escrita e leitura foi tarô e, durante esse período, eu postei textos escritos a partir desse estímulo. Para essa última semana, elas escolheram o naipe de copas, que é diretamente relacionado ao amor, às emoções e à água e sua imprecisão.

“Sempre vivemos no castelo” e o poder da dúvida

Acervo pessoal — Adquira os livros de Shirley Jackson aquiaqui.

Tentamos a todo custo desvendar o futuro. Essa talvez seja uma das principais características da nossa espécie. A gente pensa bastante no que vai acontecer. Eu falo isso no achismo, no sentido mais papo de bar possível, mas não duvido que deve ter algum paper dizendo que a maneira que nos preparamos para o amanhã foi essencial na corrida evolutiva ou qualquer coisa do tipo.

Se ontem pensávamos tanto no porvir, hoje pensamos mais ainda. Ouvimos falar de metas, objetivos e sonhos o tempo todo. É a era dos coachs, da vida como corrida, da busca pela produtividade 24/7. Parece que todo mundo tem — ou deveria ter — um plano para si dentro dessa lógica. Enquanto isso, a ciência nos alerta sobre as mudanças climáticas, vivemos uma pandemia respiratória, o lixo que produzimos se acumula nos oceanos e a realidade lembra os 99% da missão quase impossível que é tentar escapar de mais precarização. Resumindo: vivemos numa era que supervaloriza certezas e nos ilude a partir delas, enquanto a incerteza de que há um futuro possível nos cerca.

Que o futuro é incerto, a gente já sabe. Talvez a questão então não seja tanto o amanhã e a forma que conseguimos manter provisões, mas sim a nossa capacidade de formular o tempo no todo. A gente se prepara para o futuro pelo que o passado nos ensinou. A gente formula o presente com as ferramentas que nos foram dadas antes dele. O tempo acontece em nossas análises. O amanhã só existe quando sabemos que o ontem já passou. Talvez por isso a gente valorize tantos os clássicos. Eles nos ajudam a entender o hoje, inclusive esteticamente. E, a partir disso, mas de uma maneira torta, a gente tenta controlar o tempo em busca desse sistema que nos promete certezas, enquanto destrói tudo que talvez seria capaz de garantir um futuro menos duvidoso.

Meu primeiro contato com a obra de Shirley Jackson aconteceu durante uma pandemia que levou a Organização Mundial de Saúde a aconselhar o isolamento social para a população e isso acabou tendo como consequência individual todo esse fluxo de pensamento sobre certezas e incertezas que você leu para chegar até aqui. Desculpa por isso, por sinal. Na verdade, sendo mais exata, meu primeiro contato com a figura da autora também foi nesse período. Antes de 2020, eu sabia que ela existia, que ela referência do Neil Gaiman, Stephen King e Donna Tartt, mas foi com o filme “Shirley”, que não se coloca como uma cinebiografia, tem a Elisabeth Moss como protagonista e foi resenhado por mim aqui na Revista Subjetiva, que conheci um pouco do universo da autora e me atrai.

Poucos meses depois, apesar de eu morrer de medo de tudo que é definido como terror, eu me arrisquei e coloquei o livro “Sempre vivemos no castelo”, último romance escrito pela escritora, como leitura de outubro do meu clube literário Cidade Solitária. Acabei lendo tudo quase num fôlego só e de quebra vivi um dos encontros mais imersivos do grupo.

O livro — e o papo sobre ele — me pegaram totalmente. As irmãs Blackwood, Constance e a narradora Mary Katherine, são personagens intrigantes: a primeira pela sua passividade, domesticidade e estranha docilidade e a segunda pela sua sede de aventura, estranheza, manias e desejo pela morte de todos que a incomodam. Da grande família Blackwood, sobrou elas, sendo que Constance foi absolvida judicialmente pela morte dos outros, e o Tio Julian, um homem adoentado, mas ainda assim muito espirituoso.

O enredo se inicia com uma ida de Mary Katherine, conhecida como Merricat, ao vilarejo. Todos odeiam Merricat. Ela e sua família são uma pária, mesmo antes da morte por veneno de alguns dos entes que a compunham já eram. Com a suspeita que ronda as irmãs sobreviventes, isso só piorou. A personagem responde esse desprezo e o bullying que sofre com pensamentos sádicos sobre a morte de todos que passam pelo seu caminho. (Sabendo da influência de Shirley na obra de grandes escritores, nesse momento é impossível não lembrar um pouco de “Carrie, a estranha”.)

Ler uma obra narrada em primeira pessoa é sempre um exercício que envolve aceitar ser enganado. Quase desejar por isso. A história, ao começar pelo ponto de vista da Merricat sendo hostilizada, induz o leitor a ficar ao lado dela, ainda que desde o início a personagem já manifeste seus desejos de morte e violência. E seguimos nessa lógica, da cidade para a casa, confiando e desconfiando, enquanto fingimos considerar tudo que está sendo dito suficiente, ignorando a indefinição do mundo que a apresentação de uma única verdade representa.

Acompanhar a narração de Merricat é se deparar com a dúvida o tempo todo. Como personagem imprevisível, infantil, caótica e bem deslocada da realidade, nós, enquanto leitores, nunca temos certeza de nada e por isso temos a sensação de delirar junto. A história contada está contida também no que não é falado, no mistério, em tudo que não sabemos do passado. Cabe a nós somente supor com o pouco que a narradora-personagem nos dá.

O terror construído por Shirley Jackson é centrado nos personagens, nos horrores humanos, no mistério que cercam certas histórias e personalidades. Nos incomodamos com o que não sabemos do outro, com o que a gente pode estar deixando passar, com essa possibilidade de não conhecer o suficiente alguém, seja semi-conhecido ou uma pessoa com quem convivemos diretamente. Queremos saber o que tem de errado ali, mas Shirley não entrega tudo. Ela nos deixa com a dúvida e com o desejo de saber mais.

Merricat tem dezoito anos, mas se comporta como uma criança. Ela é praticamente uma adulta, mas conversa com seu gato Jonas o tempo todo, faz amuletos, escolhe palavras mágicas e enterra coisas no quintal. Constance cozinha muito bem, cuida de plantas e parece entender tudo sobre como essas duas coisas se complementam. Ambas são duas mulheres vivendo isoladas, que seguem solteiras e parecem viver em uma rotina de perfeita simbiose que desde o início do livro já envolve a ideia de isolamento como proteção. Shirley brinca com isso, com esse comportamento que indicaria aos olhos da sociedade uma possível bruxa ou algo muito errado — ainda que não houvesse o passado da família para somar — e com isso aborda o medo do diferente, o peso dos estigmas e o poder dos boatos, enquanto nos deixa, mais uma vez, presos em mais uma indefinição: há ou não algo mágico ou sobrenatural nessa história?

Apesar de um assassinato coletivo por envenenamento ser um dos componentes principais da história, a trama de Shirley não é nada policial. Ela até trabalha um pouco a curiosidade que essas histórias despertam, mas foca sempre naquele restrito e perturbador universo das irmãs. No fim, apesar de tudo que nos é dado, não sabemos das motivações iniciais dessa história. Sem muito do passado, o presente parece uma incógnita e isso abre espaço para que a gente crie toda espécie de teoria para tentar sanar as dúvidas que ficaram. Precisamos aceitar a incerteza que fica e a completa falta de controle da vida e dos outros que isso indica, um exercício difícil para os nossos tempos. Só sabemos que as duas sempre viveram no castelo e que o melhor próximo passo que podemos dar é começar a leitura de “A assombração da Casa da Colina” logo. A gente diz que é por mera curiosidade, interesse em ler mais da autora, mas a grande verdade é que a gente sente que precisa entender algo mais e por isso inicia uma busca por qualquer coisa que possa funcionar como explicação. A gente acredita que os respingos de uma obra na outra ou da vida no trabalho literário indicarão as respostas que não tivemos e não aceitamos não ter. Shirley provavelmente sempre soube que nada assusta mais uma pessoa do que não saber.


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“Solução de dois estados”: uma história sobre ódio, sociedade e subjetividade

Divulgação — Adquira seu exemplar aqui.

“Solução de dois estados”, obra mais recente do escritor brasileiro Michel Laub, se inicia com uma memória do personagem Alexandre sobre o Plano Collor narrada por ele mesmo. Não sabemos onde ele quer chegar com isso, por que ele fala, com quem ele fala, mas logo percebemos a mágoa do personagem com a irmã.

Uma reflexão sobre ódio é feita. Uma personagem comenta sobre uma cena, sobre suas cicatrizes, seu corpo, e reflete sobre ter que repetir sua história, enquanto todos parecem buscar uma contradição, um erro de tom, um motivo para culpá-la. Ela parece estar cansada de contar o que aconteceu para tentar cativar um público que não se importa. Raquel é o nome dela. Ela é a irmã de Alexandre.

E assim segue o livro. Cada hora um personagem fala, apresentando seus pontos de vista. Assim conhecemos suas personalidades, suas memórias e os acontecimentos a partir do que nos é dado por eles. O contexto daquela trama se desenrola, ao menos inicialmente, a partir do que esses dois personagens nos contam. Só com um certo avanço na leitura que conhecemos melhor uma terceira personagem com voz: a documentarista estrangeira Brenda. A personagem que, com suas perguntas, guia todas as respostas, ainda que ela omita várias delas ao fazer suas edições no material.

A obra simula a estrutura típica de um documentário. A narração, a troca de vozes, a apresentação de materiais brutos depois dos pré-editados, tudo tem a ver com esse formato usado para contar histórias reais, colocando a discussão do papel da arte e as escolhas que envolvem esse fazer no centro da narrativa, indo além da personagem Raquel, que é artista performática, criando assim a possibilidade de embates entre a cineasta e ela e também entre Brenda e Alexandre. A construção dos personagens a partir do que eles dizem sobre si e sobre os outros, as perguntas incômodas da estrangeira, tudo isso que é posto no livro é material desse documentário-cenário e, de certa maneira, também quase personagem já que representa ali a documentarista e suas escolhas artísticas ou não.

O ódio entre os dois irmãos, algo tão íntimo e relacionado com ressentimentos do passado e do presente, se entrelaça com questões políticas do nosso tempo, como a violência, as milícias, o sexo, o discurso meritocrático e da igreja — que inclusive se confundem — , assuntos relacionados com bancos, patrocínios, perseguição da arte e a supervalorização do trabalho empreendedor como transformador e acima de todos os outros.

O corpo é também um território de batalha na obra. Raquel tem 130 quilos e seu trabalho artístico, suas mágoas, suas experiências, inclusive de violência, são relacionadas a esse fato. Isso cria uma complexidade além, tanto para a construção da personagem, quanto pra obra em si. Ela quer o direito de existir como ela é sem sofrer com o ódio que é direcionado a certos tipos de corpos. Ela, na defesa dessa pauta, de sua dor e de si mesma, se exalta em alguns momentos, se tornando inclusive arrogante. Só que ela não é uma representante típica do ódio, ela é uma vítima dele. Por mais que a própria documentarista tente colocar Alexandre e Raquel como faces de uma mesma moeda em alguns momentos, querendo exaltar a polarização, há no livro pontos que evidenciam que essa não é uma escolha tão difícil como alguns podem alegar: é civilização versus barbárie para mim, para vários nós, mas para muitos outros a disputa que se coloca no livro e na vida é entre o bem e o mal e o uso político e religioso desses termos.

Michel Laub criou uma obra que se passa em 2018, meses antes da famigerada eleição de Bolsonaro e sua trupe, mas que também narra algo anterior. Intenso, dolorido, reflexivo e capaz de nos fazer entender dois personagens complicados, ainda que um seja bem mais complicado que outro, o livro fala desse entrelaçamento de família e política, vida privada e sociedade. Como os acontecimentos políticos podem afetar nossas vidas? Nossos afetos? O que nosso corpo representa politicamente? É viável tentar uma conciliação com esse Outro? Ela é desejável? Ela é necessária? Há diálogo possível? Há alguma outra perspectiva que indique mudança nesse panorama? Todas essas perguntas que surgem durante a leitura nos incentivam a pensar nas nossas próprias relações, em como a política afeta cada uma delas, e, de forma talvez indireta, no uso da defesa da família como pauta política principal por alguns partidos e políticos, enquanto todo esse ódio, que esses grupos adoram alimentar contra diversos tipos de pessoas e ideias, fomentam rupturas, disputas, ressentimentos e violência.


O livro “Solução de dois estados” de Michel Laub será lançado oficialmente no dia 09/10, sexta-feira, mas é possível comprá-lo durante a pré-venda, garantindo um preço mais baixo do que o de estreia, pela Amazon. O link posto aqui também será válido para compras posteriores a data.

Uma semana antes do lançamento oficial, a Companhia das Letras promoveu uma Cabine de Leitura com o autor e alguns parceiros interessados em receber o livro via ebook em primeira mão e lê-lo para a conversa. O papo foi incrível. Michel compartilhou um pouco sobre seu processo criativo, suas referências e algumas opiniões com a gente, além de ter respondido perguntas nossas e do mediador.

“País sem chapéu”: morte, busca e pertencimento no Haiti

Acervo pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Dany Laferrière é jornalista, escritor e roteirista de origem haitiana. Aos vinte e três anos, o autor saiu do país e foi viver em Montreal no Canadá por temer ser assassinado pela milícia paramilitar do ditador Baby Doc. Sua trajetória pelo continente faz com que ele se defina como americano, por ser parte de um todo muito maior do que seu país de origem ou país de morada. E eu sei de tudo isso não por simplesmente ter lido na Wikipedia seu artigo, coisa que eu também fiz, mas porque a própria obra dele parte de sua biografia. Dany então é um desses autores que escrevem o que muitos chamam de autoficção e quase tudo do que eu disse nesse parágrafo é apresentado para o leitor em “País sem chapéu” como a história de seu protagonista.

“País sem chapéu” é um livro que se inicia com o retorno do narrador-personagem ao seu país após 20 anos morando no exterior. Ele se coloca ali como um mero observador, tanto porque isso é necessário no ofício de escritor, quanto porque ele esteve fora por tempo demais e agora sente que não entende mais nada. De certa forma, ele reconhece que passou a possuir um olhar estrangeiro, logo possivelmente estereotipado, mesmo sentindo que nunca deixou de pertencer ao Haiti. Ainda que isso possa ser colocado como algo individual ou mesmo ficcional, as sensações descritas na obra sobre voltar para casa depois de tanto tempo e a questão do pertencimento dizem muito sobre o que é ser haitiano em outros lugares do mundo — e um pouco também sobre ser haitiano ali, vivendo tudo aquilo que motivou muitos a buscarem outro lugar para viver.

A complexidade do país e sua cultura é abordada pela obra a partir da divisão do livro em vários capítulos que recebem dois nomes: País Sonhado e País Real. Além disso, cada novo capítulo é anunciado com um ditado próprio do país colocado originalmente em creole — o que encoraja o leitor a pensar também nos ditados de sua cultura, criando assim um diálogo além da obra — e também reafirma um significado político ao expor o que é posto como sabedoria popular. O País Real é sempre formado de pequenos textos com títulos próprios, quase como se fossem notas de observação, enquanto quase todos os capítulos desse País Sonhado não tem essa característica. Essa dualidade não é por acaso e dialoga com o fato de que a morte é um dos temas principais dessa história. Ela ronda praticamente todas as conversas, evidenciando como essa obra se coloca como uma espécie de investigação sobre o tema e seus mistérios ao marcar como a ancestralidade se faz presente na cultura haitiana e tem uma relação com a resistência ao colonialismo.

Numa conversa com o protagonista, um professor conta a ele que os Estados Unidos estavam tentando fazer um recenseamento secreto no país, mas se deparava com um desafio prático que poderia ser resumido numa história: quando o entrevistador pergunta “Quantos filhos a senhora tem?” para uma mulher, ela responde um número que inclui os vivos e mortos. Questionada no avançar da conversa, ela afirma que todos eles são filhos dela e que para elas eles estão vivos para sempre. Apesar de morte e vida serem colocadas quase sempre como opostos, elas são parte de uma coisa só. A dualidade do País Sonhado e do País Real, da noite e do dia, da morte e da vida talvez seja um vício no olhar. Algo que parece acontecer por não sermos capazes de entender.

O fantástico se faz presente em “País sem chapéu” e é usado para falar sobre a realidade dos haitianos e também de sua cultura. O protagonista volta para sua terra durante a operação da ONU e a presença, principalmente norte-americana, na ilha é ironizada e questionada por ele e por alguns outros personagens, como no diálogo em que se comenta que o EUA estão lá pra saber quando tempo um ser humano pode viver com tantas privações. O que vale como reflexão para nós brasileiros, que marcamos presença nessa operação que hoje é narrada como repleta estupros, repressão de manifestações, abuso de autoridade, interferência no processo eleitoral, dentre outros atos inaceitáveis amplamente documentados, conforme afirmado numa carta direcionada ao secretário geral da ONU.

Dany, numa história repleta de aspectos pessoais, marcada por questões de pertencimento, identidade e investigação de si e dos outros, aborda a própria formação de seu país a partir do colonialismo, escravidão, imperialismo e ditaduras. A falta de respostas para algumas questões, inclusive fantásticas, levantadas talvez diga também sobre esse todo. Ao escolher falar de morte numa obra sobre o Haiti, o autor faz uma crítica sobre as condições miseráveis de seu povo, enquanto também aborda aspectos religiosos, com todo o seu simbolismo, história de resistência e suas contradições, sem jamais deixar de refletir sobre os significados de caminhos e travessias que se fazem presentes em tantas culturas. Ainda que vejamos a morte de forma diferente, ainda somos ligados pelo medo de deixar de existir.

Tradução e posfácio: Heloisa Moreira


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Nina Rocha está em obras

Conheça o trabalho literário da autora assinando sua newsletter Nina Nina Não.

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saudade, jardim felicidade
e até xodó

Nina Rocha

Nina Rocha nasceu em 1992 em Montes Claros, Minas Gerais, e é formada em Comunicação Social pela UFMG. Atualmente mora, borda, pedala e escreve em Belo Horizonte. Entre suas muitas atividades, uma nova foi incluída recentemente: agora ela também vive a espera da publicação de seu primeiro livro de poesias.

“Em obras” está em pré-venda pela Benfeitoria e será publicada pela editora Urutau. Com R$5180 reais já arrecadados até o momento, a publicação já é certa, sendo o objetivo atual aumentar a tiragem, espalhando assim a voz dessa escritora pelo mundo.

Nina estreia com uma obra caracterizada por poemas que preenchem o espaço público, misturando-o com o privado. A partir dessa ocupação das ruas, bairros e estabelecimentos de detalhes cotidianos pessoais, a autora fala de coisas comuns, muitas vezes com um toque de humor, e mexe conosco a partir dos detalhes.

Sua leitura nos dá vontade de ocupar todos os espaços que nos cercam de vida, incluindo aqui até mesmo nossa própria casa, enquanto nos faz pensar em amor, troca, decepções e expectativas. O espaço, a cidade, a casa e até mesmo a memória, tudo isso na obra de Nina serve como um lembrete do presente, esse tempo marcado pelo cotidiano e o banal, que diz tanto sobre quem somos, ao evidenciar esses detalhes tão esquecidos.

Na entrevista a seguir, a autora compartilha comigo — e agora também com vocês — um pouco sobre seu processo criativo, sua relação com a escrita e a criatividade no todo, suas referências e seus projetos:

T: Escrever um livro de poesia é bem diferente de simplesmente escrever, né? A gente precisa planejar algo mais, fazer um projeto, tentar fazer ideias diferentes funcionarem juntas, fazer toda uma montagem de imagens poéticas. Como foi esse processo para você?

N: Acho que especificamente nos textos que estão nesse livro, o processo foi de muitos cortes e reescritas. Alguns dos poemas nasceram de outros textos que eu havia escrito há muito tempo atrás, alguns com mais de dez anos. Foi interessante testar novos formatos para ver o que funcionava. Eu sempre me coloquei com alguém que escreve prosa, porque achava a poesia uma coisa muito elaborada e distante de mim. Mas com essas experimentações, fui conseguindo chegar numa linguagem em que finalmente me senti confortável com os versos. Foi um processo bem gostoso de experimentar e descobrir novas formas de contar com poucas palavras.

T: Quais são seus hábitos de escrita? Como funciona seu processo criativo? Você tem alguma rotina criativa? Como você concilia seu trabalho, que envolve escrita também, com a escrita de obras literárias?

N: Eu gosto muito de escrever em caderninhos e blocos, então sempre carrego um desses itens comigo. Às vezes anoto uma palavra ou uma frase que pensei e para depois desenvolver em um texto. Acontece muito disso demorar e eu não lembrar mais qual foi a origem dessa ideia, mas é interessante porque a proposta inicial transmuta e o texto vira uma outra coisa. Eu não tenho uma rotina frequente de criação. Tem épocas em que estou super produtiva, e outras em que passo semanas sem escrever, e acho que faz parte do processo também. Não acredito que a gente precise produzir material o tempo inteiro, mas a escrita para mim funciona muito através de estímulos, então mesmo quando não estou escrevendo, essas faíscas seguem acontecendo ao redor e alimentando as ideias de um texto que ainda não foi gestado. Acontece também de notar algo novo na rotina, escutar uma história, ler algo que traz um estalo que me motiva a produzir instantaneamente. O meu processo é bem devagar e tento escrever sem cobranças. Grande parte do meu trabalho já envolve a escrita e às vezes é difícil separar a escrita do ofício da escrita recreativa. Deixo as obrigações para horário comercial e evito que essas tarefas atravessem o prazer da escrita em todos outros horários.

T: Escrever muitas vezes é visto como um ato solitário. Para você também é assim? Se não, como as outras pessoas passaram a fazer parte do seu processo criativo?

N: Muita gente tem aquela ideia do escritor recluso, antissocial, trancado dentro de casa e que faz tudo sozinho. No meu caso é exatamente o oposto. Eu gosto muito de participar de oficinas de escrita, ler textos de amigos e pedir opinião de pessoas que confio sobre minhas produções. Nesse sentindo, minha escrita é de muitas mãos.

Acho que esse tipo de troca estimula muito a criação e podem ser um pontapé inicial para ótimas ideias.

T: Você borda, cozinha, cria e testa receitas, além de desenhar e escrever, né? Como essas atividades se conectam para você?

N: Às vezes eu me deparo com essa questão existencial: qual a relação entre todas as coisas que eu faço? Porque a princípio, são totalmente distintas e um talvez pouco aleatórias. Mas acho que tem pontos em comuns que perpassam todas elas, e uma delas é a criação. Muita gente ainda tem aquela ideia de criar como um ato quase divino, que tem que vir de um momento de inspiração. Parece que ficamos esperando uma musa descer dos céus e nos dar a permissão para criar. Isso acaba tirando nosso prazer de fazer as coisas por fazer, sem ter um propósito produtivo, e tira muito a graça da criatividade e coloca ela num pedestal, como se fosse algo exclusivo a grandes artistas. Tem tanta coisa na nossa rotina que envolve criar e ter ideias, desde refogar cebolas com um tempero diferente a escrever um conto ou bordar um pano de prato com uma frase inusitada.

T: No seu livro “Em obras”, há diversas referências, indiretas e diretas, a outras artes, como a música, e também aos seus hábitos. Qual é a importância desse cotidiano de atividades, hobbies e interesses para a sua criatividade? Como suas referências te afetam na hora de fazer arte? E, claro, quais são elas?

N: Toda a importância! Eu acredito muito que o que a gente produz é um resultado do que a gente tem como referência e consome com o que a gente vivencia e percebe ao nosso redor. São os estímulos que impulsionam a criar e produzir. Essas referências acabam se tornando parte do que fazemos e do que somos, e algumas das minhas na literatura são Ana Cristina César, Angélica Freitas, Patti Smith, Drummond, Ana Martins Marques, Lydia Davis, Elvira Vigna e Wisława Szymborska.

T: E a publicação do livro? Como você tem lidado com a pré-venda e com a decisão de botar esse trabalho no mundo?

N: É um processo que dá um frio na barriga mas também traz muita empolgação. Quando finalizei o livro, ainda não tínhamos a pandemia, e a publicação em meio a todo esse caos me trouxe várias dúvidas. Mas vi a Angélica Freitas comentando em uma entrevista que deixar de fazer as nossas coisas é uma forma de desistir, e acho que concordo com isso. Fiquei pensando muito sobre o propósito de publicar um livro em 2020, mas cheguei à conclusão que conseguir fazer qualquer coisa em 2020 já é um marco.

T: Quais são seus próximos planos literários?

N: Quero montar um livro com alguns contos. Uma boa parte já escrita, mas vou a passos de formiguinha, num processo lento, sem muita pressa para publicar.

Edit posterior: Em Obras pode ser comprado no site da Editora Urutau. 


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“Bem-vindos ao paraíso”: a Jamaica além das belas paisagens

Foto de minha autoria para o Leia Mulheres Divinópolis — Adquira sem exemplar aqui.

Nicole Dennis-Benn nasceu em Kingston, capital da Jamaica, e lá viveu até os 17 anos de idade. Após se mudar para os Estados Unidos para estudar, conquistou o título de mestre em saúde pública com especialização em saúde reprodutiva da mulher e, posteriormente, fez um mestrado em escrita criativa. Atualmente, vive em Nova York com sua esposa.

Ela é uma autora que não teme abordar em sua obra temáticas consideradas delicadas, mas muito necessárias: no seu romance de estreia “Bem-vindos ao paraíso”, traduzido para o português por Heci Candiani, ela trabalha, por exemplo, com questões relacionadas à sexualidade, raça, classe, ser mulher e diferentes formas de exploração, desigualdade e violência, amarrando tudo isso com uma história incômoda de uma família composta por mulheres.

País da fantasia

Já na primeira página do livro, essa expressão é utilizada para falar da Jamaica criada para os turistas estrangeiros, majoritariamente brancos, pelo trabalho dos jamaicanos mais pobres e negros, mostrando que os turistas não conhecem — e nem querem conhecer — a realidade de ninguém dali, ficando restritos aos resorts construídos onde antes as pessoas viviam. O que tem tudo a ver com o nome irônico recebido pela obra no Brasil.

A indústria do turismo engole a Jamaica e a sua população negra, fazendo surgir um desejo coletivo de fazer parte daquele país da fantasia e privilégio, nem que seja a partir do trabalho explorado. Cria-se assim um sonho de um dia ascender de alguma maneira e passar merecer algo daquele universo tão inacessível e, claro, também a inveja de não fazer parte.

Margot, além de trabalhar no hotel como uma espécie de gerente, também é prostituta. Sua história aborda os efeitos do turismo sexual nas comunidades e nas pessoas que fazem parte dela, além de servir para denunciar o quanto esse fenômeno tem relação direta com o racismo e a misoginia, porque os clientes que surgem nessa história buscam na Jamaica corpos exóticos e muito jovens, contando com o desespero pela sobrevivência de tantas meninas e mulheres, e como tudo isso também afeta a vida das mulheres não inseridas nesse esquema a partir da naturalização da exploração e violência contra esses corpos em todos os espaços.

A escola, o colorismo e a descoberta de si e do mundo

Toda a trama de Thandi, irmã mais nova de Margot e filha de Delores, gira em torno de salvá-la de um destino como o delas a partir da educação. Margot faz de tudo para mantê-la em um colégio particular muito caro para que ela se torne médica no futuro. A educação é a esperança, mas ela só parece ser possível de ser alcançada por poucos, alimentando ainda mais a dicotomia entre qualquer menção à meritocracia e o oferecimento de oportunidades reais.

Os dramas de Thandi se relacionam com essa alta expectativa versus o desenvolvimento de sua subjetividade, mas não só. Além de outras questões, estar nesse colégio faz com que ela se sinta excluída, deslocada e queira clarear sua pele, porque na Jamaica ser bonita, mais amada ou ter chances de empregos melhores depende disso. Ela é diferente das outras garotas e garotos da escola e ela e eles sabem muito bem disso. Thandi está fora do lugar e todos fazem questão de lembrá-la disso.

A Jamaica LGBT

A autora desse romance casou-se com Emma Benn inicialmente nos Estados Unidos e posteriormente na Jamaica, tornando sua união com outra mulher um ato político de extrema importância em seu país natal já que o casamento privado delas vazou para o noticiário do país e ficou conhecido como o primeiro casamento lésbico da ilha. A autora, em entrevistas, parece incomodada com essa definição, por considerá-la pouco realista. Outras cerimônias entre casais de homens ou de mulheres já aconteciam, mas essa foi a primeira vez que todo mundo ficou sabendo. Essa exposição causou uma certa aflição, mas, posteriormente, Nicole e Emma consideraram importante demais o que aconteceu, porque fez com que isso fosse discutido no mundo inteiro.

Vê-las narrando as dúvidas, desafios e pequenas alegrias relacionadas ao casamento delas na Jamaica parece algo pouco relacionado com o livro, mas é. Verdene é uma das principais personagens da trama e é tratada como uma bruxa por sua sexualidade e história pessoal. Ela é vista como uma pária por todos e teme, o tempo todo, se somar às estatísticas de violência por isso. As pessoas escrevem palavras bíblicas de ameaça com sangue de animais em sua casa, jogam corpos de bichos mortos em seu quintal e chegam até mesmo a recusar que ela compre produtos em suas lojas. Esse retrato da vida de uma mulher lésbica exposto na obra nos faz pensar na importância que a notícia do casamento de Nicole e Emma ganhou entre pessoas jamaicanas lésbicas, bissexuais ou gays, sempre colocadas na clandestinidade pela situação.

Verdene vive uma história secreta de amor com Margot. No meio de tanta violência, o livro narra a relação delas como um momento de esperança, quase poético, apesar do medo e da quase impossibilidade daquilo continuar, ao menos ali naquele local. O amor, em toda obra, se manifesta assim, como uma possibilidade de deslumbramento e contemplação mesmo no meio do caos e da dor, apesar da autora evidenciar que até na vivência real dele os privilégios de raça, classe e gênero influenciam.

O que a linguagem pode nos dizer?

“Bem-vindos ao paraíso” da Nicole Dennis-Benn foi a leitura do mês de agosto do Leia Mulheres Divinópolis, clube de leitura em que sou uma das mediadoras. O encontro desse livro aconteceu no último sábado, dia 22/08, e contou com a participação da Heci Candiani, tradutora da obra para o português.

Por isso, parte da nossa conversa abordou também a linguagem e sua relação com poder, classe, colonialismo e, claro, construção de personagem. Heci Candiani falou conosco sobre a pesquisa que fez sobre o inglês jamaicano e chamou a atenção sobre o uso dele no livro e seus desafios de tradução. Quem fala o que é chamado de patuá? Com quem se fala dessa forma? O que não falar inglês jamaicano significa ali? Como um sotaque estrangeiro é visto?

Olhar para as escolhas de linguagem de Nicole, a partir desse debate, nos ajudou a pensar ainda mais nesse livro como um expositor de desigualdades e dinâmicas sociais complexas.


“Bem-vindos ao paraíso” de Nicole Dennis-Benn trabalha a violência de maneira dura, mostrando o quanto ela está presente na vida das mulheres jamaicanas e segue naturalizada e perpetuada pela sociedade. Apesar de em nenhum momento aparentar ser uma obra teórica, o livro também expõe a relação direta dessas violências com o capitalismo e o colonialismo e a desigualdade que ambos fomentam, ainda que alguns perpetuadores de toda essa lógica não estejam em um lugar típico da ideia de opressor. A partir da leitura desse romance, a gente percebe o ciclo da perpetuação de violência que cerca essa família e essa comunidade torna aquele ambiente tóxico para o crescimento do amor, do diálogo e do companheirismo. Esse amor que insiste em crescer e ser desejado, mesmo que em outros espaços, apesar de ninguém ali parecer saber se é permitido que se viva algo que não seja dor e busca pela sobrevivência.


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“Sorte”: uma história sobre destino e mulheres

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Sorte é uma palavra constantemente ligada à destino e, por isso, um ótimo título para um livro que busca contar uma história que poderia ser a de várias mulheres esquecidas que nunca puderam atuar ativamente para mudar os caminhos que foram traçados para as suas vidas quando elas nasceram. Caminhos esses que foram definidos por fatores como nascer mulher, nascer branca, negra ou indígena ou vir de uma família pobre.

Com apenas 95 páginas e nomeado com essa palavra de cinco letras e profundo significado, esse livro de Nara Vidal, brasileira hoje radicada na Inglaterra, narra uma história que nos faz refletir sobre as dores que a pobreza, o machismo e a colonização trouxeram para as mulheres.

Focado em Margareth Cunningham e sua família, mas com grande participação de Mariava, uma escrava negra que trabalha na mesma casa portuguesa que as irlandesas, o romance fala sobre imigração, violência, sororidade e exploração dos corpos das mulheres, abordando de forma sutil as diferenças dessa exploração entre mulheres negras escravizadas e mulheres brancas pobres e imigrantes.

A família para a protagonista não se apresenta como um espaço de conforto, companheirismo e amor, mas como um local de disputas, abandono e dor. Apesar de haver um carinho entre as irmãs, os homens da família parecem pertencer ao grupo apenas como detratores de todas as mulheres dali. O pai, por exemplo, insistiu em tentar ter filhos homens a todo custo, porque as várias filhas mulheres não serviam para ele.

O livro se baseia em fatos históricos, como a Grande Fome na Irlanda, a escravatura no Brasil e a existência de conventos católicos irlandeses que “acolhiam” mulheres caídas e cria, a partir disso, um romance que é marcado também pelo não dito, como toda a história das mulheres. Sem perder a chance de demonstrar o quanto o catolicismo, forte nos países que atravessam a vida dessa família, atua e afeta na vida das mulheres.

A partir de uma narrativa unida pelo compartilhamento de uma história sobre uma ilha mágica de esperança, fantasia e mentira, Nara Vidal escreveu sobre essas mulheres — e seus filhos — esquecidas e esquecidos enquanto personagens e pessoas, essas pessoas que ainda moram, na história oficial, na literatura e até nas histórias populares, no lugar anônimo reservados às Outras e Outros. O livro levou o terceiro lugar do prêmio Oceanos em 2019 e foi publicado pela Editora Moinhos.


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Costuras para fora: o íntimo e o cotidiano entrelaçados e expostos

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Costurar é uma ação que remete ao ato de juntar com agulha e linha dois pedaços de alguma coisa, seja pano, pele ou mesmo ideias. A costura é feita ponto por ponto, que surge a partir de algum esforço para unir o que foi desunido pelo corte, pela ruptura, pelo abismo.

Colocar as costuras para fora funciona como uma exposição desse processo de possível separação ou diferença, (re)união pelo esforço da agulha, da linha e do pulso ou máquina e o nascimento da cicatriz do traço pontilhado que une as partes costuradas.

No livro de contos “Costuras para fora” da Ana Squilanti, as grandes e pequenas questões da vida dos personagens são expostas junto com o cotidiano mais miúdo e as bagagens que cada um deles carrega. Essa forma de se contar histórias, enquanto nos apresenta elementos que lembram uma crônica ou um bate-papo, torna possível que a gente, enquanto leitor e pessoa humana, se identifique, crie empatia e entenda as dúvidas, as dores e os traumas de cada narrativa. Poderia ser a nossa história, mas é a de um personagem de ficção que às vezes se parece mais com a gente ou com alguém que a gente conhece do que com os seus respectivos perfis das redes sociais.

Somos todos quase uma colcha de retalhos de tão recortados, costurados e cheio de pontes que podem ser rompidas com a ajuda de somente uma tesourinha e um pouco de vontade ou rasgadas de repente até por acidente. E depois costuradas de novo. Ou não. Ana Squilanti sabe disso e explora a força literária das vulnerabilidades, inseguranças, segredos e sentimentos que costumam ser escondidos, mas são tão presentes e reais que sem visualizá-los não parece haver vida em qualquer caso ou personagem. Inclusive crianças e idosos.

O corpo, o padrão e o conto

“Costuras para fora” reúne vinte contos que parecem ter sido escritos para fazer a gente perceber o quanto a certeza não faz parte da vida. Um dos principais destaques da obra talvez seja o “Bonita de rosto”, que explora os efeitos da batalha contra o próprio corpo e as pressões para se encaixar nos padrões de magreza e beleza. A honestidade e a crueza da narradora dessa história para descrever suas práticas sofridas em busca desse corpo perfeito e inatingível expõe a guerra que mulheres, especialmente as gordas, são incentivadas a travar por causa do que se cobra como feminino, inclusive pelos doutores. Mais uma vez, a exposição dos bastidores de algo que é extremamente comum nos permite perceber o que costumamos negar estar ali. Não há sacrifício suficiente quando se busca algo impossível, mas a culpa por não conseguir caber no que se espera é ilimitada.

O cuidado invisível como foco

Já “Trava de fogão” e “Ponto Falso” são algumas das narrativas que chamam a atenção por trazer o foco para o cuidado, sempre visto como invisível, mesmo sendo essencial. No primeiro conto, quem cuida é uma mulher de um homem idoso que nunca aprendeu a viver sozinho, porque esse trabalho invisível da casa e de si sempre fica para as mulheres ao redor e ganha o nome de amor. Já no segundo, um pai cuida do filho que machucou o supercílio levando o menino para o hospital e acaba recebendo um apoio inesperado ali, ainda que eles estivessem em um espaço visto como sinônimo de cuidado.

O cotidiano como forma de aproximação

O uso de cenas banais do cotidiano é um recurso utilizado em todo o livro. É justamente nesses detalhes, inseridos de forma tão cuidadosa pela autora, que mora a proximidade do leitor com os personagens. Só que essas banalidades tem uma função muito além de formar um cenário e uma cena per si, elas são também o cerne do livro e o que liga todas as narrativas. Nos contos “Sem costura”, Nós” e “Lista de compras”, o que guia o leitor é justamente o que se tira do mais cotidiano possível. O medo do fim pode estar no apodrecimento de uma fruta e na constatação da nossa insignificância, por exemplo. A vida acontece nesses momentos que parecem desimportantes e quase invisíveis para olhares mais desatentos. A matéria-prima de nossas existências não é o extraordinário, é o miúdo.

Essa proximidade ganha contornos ainda mais interessantes quando se pensa nesse livro como uma ferramenta dialógica sobre questões humanas que perpassam a vida desses personagens. Com diversas histórias que abordam casais não heterossexuais, isso acaba ganhando também um significado político, já que essas narrativas também combatem a desumanização ao apresentar conflitos da vida que vão muito além da sexualidade isolada em si mesma, ainda que fale sobre relações e descobertas.

Da criança ao idoso, do prazer à doença, do namoro aos laços familiares entre irmãos e avós e netos. Ana Squilanti, em sua obra de estreia, percorre narrativas que partem de diferentes fases da vida e variados relacionamentos. O que torna “Costuras para fora” um excelente livro é o quanto tudo parece e é comum e próximo. A autora, com uma linguagem que muitas vezes é bem poética, oferece para o leitor a possibilidade de olhar de novo e de forma mais atenta e humana para o cotidiano, que se mostra a linha e a agulha que nos ajuda a unir os pedaços que são desatados de nós todos todos os dias.


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Uma versão reduzida dessa resenha foi publicada no site Delirium Nerd.