Pequeno acervo de projetos literários interessantes

Obrigada, Canva, por mais essa graça alcançada

POR QUE LISTAR?

Revistas e portais literários são meios importantes de divulgação de trabalhos de novos autores, lugares de experimentação e diversidade e espaços de incentivo e democratização da leitura e da escrita.

Pensando nisso, e também nos debates sociopolíticos que essas revistas, portais e sites podem fomentar, eu reuni numa thread do Twitter vários projetos que versam de alguma forma sobre escrita e arte, sendo todos eles acessíveis de maneira gratuita e online, ainda que alguns também ofereçam serviços pagos. Como nem todo mundo que escreve e lê usa a rede social em que publiquei originalmente essa tentativa de acervo, decidi postar por também aqui.

A LISTA

O portal Fazia Poesia conta com uma equipe de 255 poetas, espalhados em mais de 60 cidades e 5 países, e publica de 2 a 4 poemas por dia. Além disso, também tem podcast, colunas e artigos, fora oficinas pagas.

Hospedada no Medium, há também a revista eletrônica da Mormaço Editorial, editora independente de literatura brasileira contemporânea. Com mais de 60 autores na equipe, a Mormaço publica cerca de 10 textos por semana.

Organizada pela Thainá Carvalho, a Revista Desvario tem como mote valorizar a escrita e o trabalho visual das mulheres. Além de publicar autoras e colagistas de diversos lugares do país, o projeto também promove um podcast e um clube de leitura.

O portal Escritor Brasileiro promove chamadas frequentes com temas específicos para construir sua Revista Subtextos, publica entrevistas com autores independentes e posta resenhas, crônicas e afins.

A Revista Torquato nasceu em 2019 em Manaus e tem o objetivo de difundir trabalhos de autores de todos os países lusófonos, dando uma atenção especial à produção amazonense.

A Mirada é um projeto colaborativo e um espaço dedicado às artes e à pluralidade construído pela Taciana Oliveira. Com publicações semanais, tem como proposta fomentar ações culturais proporcionando aos leitores conteúdos que valorizem a construção de ideias e a valorização da diversidade.

A Aboio é um portal de divulgação cultural que publica contos e crônicas, poesia, crítica e tradução. Além do site, o projeto conta com um podcast, uma newsletter e um apoiase.

O portal de entrevistas literárias Como Eu Escrevo é um espaço feito para conhecer mais sobre nomes da literatura brasileira e seus processos criativos e de escrita.

A Mallamargens é uma revista de poesia e artes visuais. O veículo tem atualizações diárias, números mensais e está no ar desde 2012.

A Tamarina Literária é voltada para a divulgação da literatura brasileira contemporânea, tendo como ênfase a literatura autoral. Apesar de manter uma equipe de colunistas fixa, também aceita colaborações externas. Suas edições mensais são publicadas no Medium e podem ser baixadas em formato PDF pelo linktree do projeto.

Cassandra busca valorizar a escrita das mulheres. Editada por Milena Martins Moura e Cecília Lobo, a revista tem uma equipe fixa e também trabalha com convidadas. Fora isso, tem ISSN e parceria com o coletivo de escritoras EscreviVentes.

As poetas Júlia Raiz e Natasha Tinet constroem a Totem & Pagu, uma firrrrrma de poesia que une palavras & colagens & muita ousadia.

Editado pela Mia Sodré, o Querido Clássico é um portal mais que literário feito por mulheres que escrevem sobre cultura e clássicos: literatura, cinema, história, televisão, arte. Se você gosta de pesquisar, ler e ensaiar sobre esses assuntos, vá atrás. O site conta com uma equipe fixa de colaboradoras, mas é possível participar pontualmente também.

A Ruído Manifesto é uma revista voltada para literatura, crítica e audiovisual sediada no Mato Grosso, mas aberta para a publicação de textos em língua portuguesa.

A Revista Sucuru é uma publicação brasileira (e nordestina) de literatura e arte contemporânea. Como tal, se propõe a divulgar, incitar e inspirar a produção artística e literária do Nordeste e do Brasil na contemporaneidade; publicando tanto autores iniciantes quanto veteranos, de todas as regiões do país.

A Revista Poça é uma publicação digital de textos poéticos feitos por mulheres. O projeto mescla palavra e imagem, encorajando a expansão do trabalho poético.

A Revista Rubiginosa nasceu do fim da Alpaca Press e assim como ela tem como ideal divulgar o trabalho literário e de artes visuais de mulheres. Em hiato desde o ano passado, é possível acessar e baixar as duas edições da revista clicando em sua página de links.

O Toma aí um Poema é um portal que edita coletâneas, divulga artigos literários em seu espaço, posta notícias de lançamentos independentes e publica leituras poéticas em um podcast disponível nos principais streamings e Youtube e afins.

A Revista Arara é um projeto que busca mapear artistas e eventos culturais numa plataforma digital e multimodal fácil de usar. Ampla, é possível encontrar toda espécie de arte em seu acervo, contendo também material em espanhol, buscando uma conexão com o restante da América Latina.

Fundada em 2016, a Poesia Primata é uma revista eletrônica voltada para a difusão da poesia brasileira contemporânea.

A Revista Toró recebe trabalhos de literatura, crítica e todo tipo de atravessamento artístico em fluxo contínuo. Tem poema, tem conto, tem resenha e tem textos comentando obras visuais.

A Revista Rosa se apresenta como política, teórica e artístico-cultural, um órgão de intervenção na luta pela democracia e pela justiça social.

A Felisberta é uma revista de poesia editada por Eduarda Rocha, Marina Rima e Matheus Hotz entre Maceió, Belo Horizonte e Juiz de Fora. O projeto publica poemas, traduções, contos curtos & artes visuais.

A Revista Caliban é voltada para a divulgação das letras, artes e ideias e se pretende multi e interdisciplinar, sendo formado por pessoas de vários países (Portugal, Brasil, Angola, Moçambique).

A Alcateia é bimestral e reúne textos sobre processo criativo na escrita, narrativas diversas, leitura e tudo que se relaciona a esses tópicos, além de contos e poemas.

Com edições trimestrais, além de algumas temáticas, a Revista Gueto é um portal de literatura em língua portuguesa que publica muita coisa boa.

O projeto Mulheres Que Escrevem também é voltado para a valorização da escrita das mulheres e tem como mote promover uma conversa entre autoras. Além de oficinas, Instagram, podcast e afins, a equipe também mantém uma publicação no Medium repleta, principalmente, de poesia.

O Leitor Cabuloso é um portal dedicado a todo mundo que gosta de literatura. Tem contos, colunas, resenhas e variados podcasts voltados para escrita, leitura e criação.

A Escamandro é um projeto voltado para poesia, crítica e tradução e já tem mais de uma década de vida.

A Revista Ikebana tem como enfoque produções nacionais de autores LGBTQIA+, mulheres e pessoas pretas.

A Kuruma’ta é uma revista online de culturas e afetos compartilhados. Ideia de Aderaldo Luciano e Toinho Castro. Além do site e Instagram, hospeda a Rádio Plutão.

A Germina Literatura é uma revista digital e independente voltada para difusão da literatura e da arte. Perto de completar 20 anos, publica todos os gêneros literários e encoraja aproximações com outras artes como cinema, fotografia, música e teatro.

Entre tantos projetos legais, destaca-se também a Revista Acrobata que tem um trabalho voltado para literatura e artes visuais. Tem resenhas, artigos, traduções e, claro, poesia e prosa.

A Noturna é uma revista literária focada em publicar contos de autoria feminina que transitem entre a literatura fantástica e o horror.

A Revista Emília é um publicação digital independente e gratuita que, desde 2011, se dirige a todos os agentes que trabalham a leitura e a escrita como instrumentos para a formação de leitores críticos e conscientes.

A Revista Piparote é um espaço criado para o debate e para a divulgação de ideias no campo da Literatura e das Artes. Pretende-se divulgar no meio digital e impresso novos autores nacionais e internacionais; bem como lançar um piparote sobre o túmulo para reavivar a gênese dos mortos.

A Revista Ventania pretende ser um lugar de integração e divulgação do trabalho de jovens pesquisadores, pensadores, artistas ou criadores. Publica ensaios e textos literários.

A Revista Gratuita é uma publicação literária da Editora Chão de Feira. Até então são cinco edições que podem ser baixadas em formato PDF e lidas pelo site.

A Revista Lavoura é anual e tem apoio da Reformatório e do Estúdio Risco.

A Revista a.galinha é uma publicação independente em formato digital, que tem como objetivo circular o trabalho de pessoas que escrevem e produzem arte, com foco em latinoamericanes e em especial, brasileiras, brasileiros e brasileires. 

A Revista Cupim é uma revista de literatura, elaborada em formato digital. Dividida em leitura, escrita e conversa, publica ensaios, contos, crônicas, traduções, poemas, cartas e entrevistas.

A Revista Caju é um espaço cultural voltado para a difusão de todo tipo de arte. Passeando no site, a gente descobre que a curadoria do projeto é voltada para literatura, música, artes visuais, cinema, artes cênicas, cidade e arquitetura, pensamento e carnaval.

A RevistaRia é a revista virtual da Ria Livraria, livraria de rua que está localizada no bairro Sumarezinho em São Paulo, capital. Publica contos, poemas, artigos, resenhas e lançamentos.

A Revista Uso é uma publicação impressa, semestral, direcionada à visibilidade e circulação de trabalhos em textos e artes. Além das edições físicas, a Uso também se desdobra digitalmente.

A Revista Contos de Samsara é uma produção literária digital de assiduidade bimestral que tem como intuito estimular a literatura nacional divulgando autores e disponibilizando contos gratuitamente a todos os leitores. É editada por Michele Machado Fernandes.

A Revista Subjetiva tem um histórico de publicação de diversos autores, especialmente no âmbito da não-ficção. Tem ficção também, claro, mas entre todas as revistas citadas até então essa é a única que tem muita coisa nesse viés.

A Revista Garupa reúne contos, poemas, cartas, tudo muito bom. Vale destacar também a beleza do site e da identidade visual do projeto.

O Bem Dito é uma plataforma multimídia que mescla opinião, política, arte, reportagem e outras travessuras em texto, imagem e som.

A Revista Jezebel é um braço da Editora Colenda e conta com a curadoria da Fabiane Guimarães. Autoras como Natércia Pontes, Monique Malcher, Dia Nobre, Paulliny Tort, Cristina Judar, Marcela Dantés, Cecília Floresta e Tatiana Nascimento já deram as caras por lá.

A Deriva é um publicação independente de cultura contemporânea interessada em tratar de temas relacionados ao mundo da literatura, cinema e psicanálise.

A Revista Minha voz é um projeto digital, colaborativo, independente e sem fins lucrativos e tem como objetivo ser um espaço de diversidade e compartilhamento, enquanto fomenta trocas artísticas e literárias.

A Revista Editar é um projeto relacionado ao curso de Letras – Tecnologia de Edição do CEFET-MG e tem a intenção de funcionar como um laboratório de edição, revisão, curadoria e afins dos alunos. Com diversas edições espalhadas online, estando a maioria disponível no ISSU para leitura, é possível participar no momento da chamada para textos para a 13ª edição.

A Intransitiva é uma revista digital cultural-artística de acesso livre da UFRJ, que publica textos literários e visuais.

A Revista Literária Grifo propõe uma saída para uma travessia singular pela via da escrita e das artes visuais, abrindo caminhos para contornar os vazios que nos constituem, seja lá o que isso significar.

A Revista Contexto é um projeto voltado para a literatura contemporânea que tem o intuito de reunir produções literárias que expõem o nosso contexto político, econômico, e social, buscando provocar reflexões dolorosas, mas necessárias.

A Revista Vício Velho, editada pela Carolina Hubert, é voltada para a literatura e já está na sua 26ª edição.

A Revista Passaporte é uma revista colaborativa brasileira voltada para todos que gostam de ler e escrever sobre viagens.

Delirium Nerd é um site colaborativo escrito por mulheres, com matérias sobre cultura, comportamento e representação feminina, com destaque em produções feitas e protagonizadas por mulheres. Idealizado por Isabelle Simões está no ar desde 2016.

Porco Espinho é um site de entretenimento voltado para cinema/tv, música e literatura.

O Homo Literatus tem como premissa tornar a literatura um conteúdo acessível e interessante dentro da internet.

Valkirias é um espaço dedicado à cultura pop criado e realizado exclusivamente por mulheres. Com intenção de pensar música, cinema, tv, literatura e games sob uma perspectiva feminista, elas escrevem.

A Revista Philos tem como objetivo transformar as afinidades literárias e artísticas em instrumentos de cooperação entre os povos latinos.

A Revista A Taverna é voltada para a divulgação de textos e autores que escrevem ficção científica, fantasia e terror.

A Revista Trasgo é voltada para a ficção científica e fantasia. Eles não publicam mais contos, mas tem um belíssimo acervo!

A Revista Avessa se coloca como autoral, criativa e diferente. É voltada para o fantástico.

A Revista Mafagafo é criativa, bem preparada e voltada para a publicação de textos nos gêneros ficção científica e fantasia.

A Eita Magazine! foi criada para divulgar a produção de ficção insólita brasileira para o público estrangeiro, para revelar as tendências da ficção fantástica contemporânea e inserir a produção brasileira no diálogo cultural do mundo.

A Fantástica 451 divulga análises, resenhas e críticas relacionadas às Narrativas Fantástikas, como a Ficção Científica, Fantasia, Horror, Weird e demais relacionadas, tanto em literatura quanto em cinema e outras mídias.

A Revista Pretérita é voltada para a divulgação de obras do gênero ficção histórica.

A Fale Com Elas não está mais em atividade, mas ainda reúne vários trabalhos literários produzidos por mulheres. Tem resenhas, contos, poemas, híbridos, crônicas e ensaios.

A Revista Pasmas é voltada para a publicação de mulheres e tem como editoras Heloisa Pait, Juliana de Albuquerque, Ludmila Franca-Lipke e Thainá Pedroso.

A Escrita Droide é uma revista-blogue voltada para a publicação de poesia.

A E-feito Coliteral é uma revista literária digital que tem a intenção de homenagear a língua portuguesa e seu pluricentrismo.

A Revista Vida Secreta é voltada para a difusão da literatura e de ideias. Tem espaço para entrevistas, prosa, poemas e um podcast.

A Revista Perpétua é uma revista digital bimestral que tem a intenção de impulsionar a carreira de escritores e ilustradores pouco conhecidos. Possui newsletter e diferentes colunas.

A Revista Raimundo tinha como mote abrir portas para novos autores e autoras da literatura brasileira. Já não está mais em atividade desde 2018, mas tem um acervo interessante com contos, poemas, ensaios e traduções com alguns nomes que hoje vemos em grandes editoras.

A Chama é um projeto voltado para a valorização e a difusão da literatura feita na cidade de Belo Horizonte, tendo tido uma newsletter semanal de divulgação de eventos culturais por um tempo.  Fundada por Flávia Denise, a revista teve algumas de suas edições publicadas a partir da aprovação de projetos em editais de cultura da cidade de Belo Horizonte. Aparentemente em hiato.

A Literatura e Fechadura é uma plataforma que se dedica à promoção e fomentação da arte, poesia brasileira contemporânea, entrevistas, contos, crítica literária, abrangendo uma variedade de textos literários e cultura geral. O editor e poeta Jean Narciso Bispo Moura está à frente da curadoria dos conteúdos publicados.

A PISEAGRAMA é uma plataforma editorial sem fins lucrativos, sem publicidade e open access que se dedica a inventar confluências, catalisar ideias urgentes e reunir pessoas para pensar outros mundos possíveis em aliança com coletivos urbanos, LGBTQIA+, afro e indígenas.

TIPOS ESTRANHOS

Selbstüberwindung não é uma revista, é um movimento, um estilo de vida de formas vagas. Tem shitpost, poema, carta, memórias, comentário cultural e tudo mais.

PUBLICAÇÕES QUE PODEM SER COMPRADAS

A Revista Peixe-Boi é uma revista de prosa e poesia editada pela editora Jabuticaba.

A Olympio é uma revista literária independente que enfatiza a produção ficcional, poética e ensaística contemporânea, incluindo ainda perfis e entrevistas, tradução de textos literários, relatos de viagem, ensaios visuais e fotográficos.

A Revista Intempestiva é uma publicação da Editora Urutau voltada para a literatura e artes. Tem poesia, prosa, tradução e ensaio.

A Revista Temporã busca ser um espaço de estímulo à produção literária e de formação de leitores e novas escritoras/es brasileiras.

A Revista Ouriço é uma publicação da Macondo Edições voltada para poesia e crítica cultural.

O Jornal Relevo é um impresso mensal de cultura, sobretudo literatura, feito em Curitiba desde agosto de 2010, pelo jornalista Daniel Zanella.

ALÉM DO INDEPENDENTE

A Revista Suprassuma é um o projeto do selo Suma, da Companhia das Letras. Digital, colaborativa e gratuita, procura textos de ficção especulativa e os disponibiliza gratuitamente para leitores em edições especiais, formadas a partir de chamadas temáticas.

A Revista Traços é um projeto projeto social que se propõe a auxiliar na reinserção de pessoas em situação de rua e/ou extrema vulnerabilidade financeira no mercado de trabalho e ao mesmo tempo difundir informações e novidades sobre as iniciativas artísticas e culturais da cidade – bem como de seus idealizadores – e se consolidando como uma referência para os artistas e entusiastas da cultura.

O Suplemento Pernambuco é um jornal criado em 2007 como suplemento cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco. Ele se propõe a falar de literatura e a questões do contemporâneo, sendo uma ótima leitura para quem quer pensar em livros nesse viés. Tem circulação nacional e periodicidade mensal.

A Revista Continente se apresenta como um veículo contemporâneo de jornalismo cultural com periodicidade mensal, produzida em Pernambuco desde 2000. É da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) e um dos maiores importantes espaços culturais produzidos fora do eixo Rio-São Paulo.

A Quatro Cinco Um se coloca como uma revista voltada para os livros e faz um sucesso danado com seu famoso listão.

A CULT é uma revista mensal voltada às áreas da arte, cultura, filosofia, literatura e ciências humanas.

O Publishnews nasceu como uma newsletter, mas hoje é uma publicação diária que forma um portal de novidades literárias.

O Rascunho publica ensaios, resenhas, entrevistas, textos de ficção
(contos, poemas, crônicas e trechos de romances), ilustrações e HQs e oferece bastante conteúdo exclusivo para assinantes. Fundada em Curitiba/PR, tem circulação nacional e periodicidade mensal.

COLABORE COM O ACERVO

Essa é uma lista obviamente incompleta, centrada principalmente no que conheço e lembro que conheço, então, por favor, compartilhem comigo novos links de projetos independentes (ou não) e não me xinguem porque eu esqueci de listar onde vocês escrevem ou editam.

A caixa de comentários está aberta e, ao menos inicialmente, esse post passará por pequenas edições para acréscimo dos projetos sugeridos.

‘iô’: a descoberta de si e dos mundos em disputa

Acervo pessoal – Adquira seu exemplar aqui.

e ela sabe
mas o melhor
não é sempre
o bom

Estruturada como uma novela em versos, , de Camila Lourenço, conta uma história localizada bem nas gretas entre gêneros, tempos e espaços bem definidos, numa mescla que acaba funcionando como um elemento crítico às origens do complicado mundo que vivemos, ao presente feio que tentamos não encarar e a esse futuro terrível que se desenha em meio a essa feiura generalizada.

Partindo dessa hibridez da forma e da abordagem, a autora é capaz de colocar o leitor em um não-lugar de deslocamento próximo ao da protagonista. Poderia ser semana que vem, daqui cem anos, em um outro milênio. Poderia ser até no passado. Nessa indefinição de tempo-espaço, um trabalho de contraste é feito a partir dos únicos personagens nomeados dessa narrativa: iô e Dante, mulher e homem, terra e cidade, comunidade e individualidade.

iô é uma personagem cativante. Nascida e criada numa ecovila isolada do mundo urbano, ela é uma jovem curiosa, desejante, amante da natureza e parte de um grupo de pessoas que se apoiam, se divertem e trabalham juntos. E por incrível que pareça, talvez justamente por ter crescido em um ambiente que promove tanta autonomia e sequer cogitar que em outros lugares isso pode ser bem diferente, ela decide ir embora com Dante, quando ele chega com sua trupe de homens oferecendo a ela o fogo e calor de uma paixão e um novo mundo a conhecer.

Escrever sobre essa história acaba sendo um desafio, porque Camila, com muita simplicidade e diria até delicadeza, explora nas páginas de temas relacionados com o meio ambiente, colonização e machismo. Essa aparente simplicidade e delicadeza da forma de contar da autora faz com que qualquer comentário que fuja dessa forma de dizer soe grosseiro, dominante demais, meio Dante e sua trupe mesmo quando quero criticar esse modo dele de se portar perante o mundo.

O verso livre é a cara da autonomia de iô, a resenha em prosa e tom meio explicador não. A linguagem, assim como a forma de contar, importa: ainda que desbravar e explorar sejam sinônimos de percorrer, iô não quer fazer isso, ela quer conhecer. Ainda que em nossa sociedade se use comumente falar homem e mulher no lugar de mulher e homem, aqui e no livro iô vem em primeiro lugar.

sobre duas pernas iô é bicho
quer correr pra longe do chumbo
não tem pedaço de pano que a prenda
mas ela fica e reza para quem já não ouve

representa uma outra epistemologia e a gente, leitor de um lugar mais próximo de Dante, precisa saber ler melhor as outras diversas maneiras de dizer. Além do que é contado, a simplicidade das palavras, o ritmo construído por elas, as repetições de nomes, a aparição de vozes e como elas falam, tudo isso importa.

Camila Lourenço, a partir desse enredo de uma pretensa história de amor e desses personagens, nos coloca para pensar no encontro de mundos conflitantes que a alteridade pode oferecer no capitalismo, tardio ou não, obrigando o leitor a pensar também em Silvia Federici, no “O conto de Aia” de Margaret Atwood, na abordagem do encanto e do estranhamento do estrangeiro de Ursula K. Le Guin, na forma de narrar da literatura indígena presente em Eliane Potiguara e no choque de mundos presente em “Eisejuaz” da Sara Gallardo, “O mundo se despedaça” do Chinua Achebe e “Os rios profundos” do José María Arguedas.

Percorrendo de ônibus uma avenida feia de Campinas todo dia enquanto escrevia, Camila conseguiu captar que esses mundos continuam em disputa no aqui e agora, ainda que sempre tenha alguém pra tentar convencer as incomodadas que não há nada mais que possamos fazer, que tudo isso pertence ao passado ou ao futuro, não a nós.

pela manhã
com sede de ver
o que há para ser visto
com esses olhos que deviam
agora ser mais cumpridos
seus cílios se desgrudam
e ela enxerga

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Você também pode se interessar em ler “Nas minhas andanças literárias, conheci Eisejuaz”.

Lygia, a contemplação e os mistérios que nos movem

Acervo pessoal – Compre livros da autora aqui

Acordei pensando em Lygia Fagundes Telles hoje, um dia após saber que ela se tornou só memória. Minha história com Lygia é confusa, cheia de idas e vindas, como a leitura de contos às vezes pede. A permanência e uma relação de continuidade é algo mais próximo dos romances e dos romancistas — gênero que a autora também explorou, mas que conheço menos — mas contos podem ser lidos esparsos e, ao mesmo tempo, com muito afinco. Você pode passar meses lendo um conto só, como você pode fazer com um romance, apesar da natureza do conto não costumar evocar esse tipo de experiência de leitura. De todo modo, lendo repetidamente ou não, um conto pode permanecer com você por muito tempo. O conto pode até tentar ser mais leve, dar a possibilidade de ser lido avulso ou mesmo ser impresso numas poucas folhas de papel e solto no mundo como um presente, mas também pode se fazer ficar, se tornar permanente dentro de cada um.

Os bons contos são como cometas que viajam pelo universo em órbitas que nem a máquina mais moderna da NASA é capaz de apreender completamente. A gente só sabe mesmo que um dia eles voltam. 76 anos depois, como o caso do cometa Halley, ou antes. E nesse retorno, ele bate diferente. Ao menos os contos da Lygia sempre foram assim pra mim: misteriosos, cheios de camadas e feitos para se deslocarem sem parar até enfim voltar para aqui dentro. E esse regresso sempre acontece quando eu estou pronta para perceber tudo diferente, ainda que eu não saiba disso na hora.

Uma temporada com uma leitura é suficiente para você ficar com alguns personagens, sensações e experiências pra sempre mesmo tendo lido apenas uma vez. Só que esses personagens, sensações e experiências se tornam uma névoa cada vez mais densa e misturada com o seu eu. No fim, você engole o que leu e o que fica é a lembrança de um prato gostoso, estranho ou incômodo que você comeu um dia. Um prato que pode ter te marcado bastante e mudado como você vê o mundo, mas ainda assim você não consegue lembrar exatamente seus sabores, distinguir cada um dos ingredientes, rememorar como estavam as texturas de cada um dos elementos formadores do prato. Você só se lembra muito bem onde ele foi comido, com quem você estava e sente saudade do momento, da experiência em si, ainda que com o tempo até ela vá perdendo seus contornos próprios.

A leitura parece ser só um engolimento, mas o que acontece quando a gente lê é outra coisa, é uma fusão. Esse é o poder de criação do leitor, o texto é digerido até tomar uma forma nova e é essa possibilidade, que sempre pode ser melhor aproveitada quando é ativado por autoras como Lygia, que torna a experiência de leitura algo único, independente do gênero do texto lido. Foi Lygia e suas camadas, seus mistérios e seu indizível que ensinou toda uma geração de leitores a criar lendo. Foi ela que nos deu as enzimas capazes de digerir a linguagem e, assim, conseguir formular a vida mesmo quando a gente não entende muita coisa dela. Foi Lygia, junto com suas amigas, que me ensinaram a ler melhor e querer fazer isso também junto de outras pessoas.

A morte de Lygia me tocou muito, mas sei que apesar da perda desse corpo, ela permanecerá viva na memória dos seus, sejam eles familiares, amigos ou mesmo somente leitores. Os relatos de descoberta de Lygia que tenho lido nas redes sociais desde ontem se entrelaçam com o da descoberta do amor pela palavra e pela arte. Leio todos eles sedenta para entender como se dá esse processo, essa conexão, essa nova história que se desenha quando alguém encontra outro alguém, especialmente quando envolve a literatura. Leio tudo isso sem parar com medo de um dia eu me esquecer que o poder da palavra e da criação também pode ser o que construímos com e a partir de outra pessoa.

E eu, triste, tristinha, agora só consigo pensar que ainda há beleza nesse planeta.

esse texto é uma adaptação da newsletter que enviei hoje para meus apoiadores indicando obras variadas de audiovisual, literatura e pintura. saiba mais sobre como me apoiar aqui. se você gostou de me ler, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe também pelo Medium,  Facebook,  Twitter,  Tinyletter  e  Instagram.

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somos acostumados a pular de cabeça em um vale de cacos pontiagudos

Acervo pessoal – “Paraquedas” – colagem analógica feita por mim

elas são trepidantes
vibram com o movimento
nada retilíneo nem uniforme
do ar e da saliva
nas cordas vocais

em um estalo da língua
elas se espatifam no bafo
produzindo um barulho
baixo médio alto altíssimo
dependendo da vizinhança
nem os cães com seus
ouvidos biônicos 
sensíveis a qualquer 
mini-estrondo
conseguem
escutar

elas saem da boca
como se fossem cogumelos cuspidos
pulando de finquete numa piscina
metade cheia metade vazia

depois do pulo
quem manda é atmosfera
ela pode destroçar um bom paraquedas
derramando pedaços pela casa inteira
ou fazer planar uma maçã
contra a gravidade

a palavra é sempre um risco

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esse post foi feito em comemoração ao Dia Mundial da Poesia. no Instagram você pode acessar uma versão mais visual desse trabalho.

fulaninha

Acervo pessoal – “Movimento” – Colagem analógica feita por mim

não dorme
horrorizada
com quem deveria ser
mas não é
com o que deveria ter
mas não tem
com o que deveria fazer
mas não faz

é assombrada
pelos equívocos cometidos
por seus crimes sem previsão legal
todos já com audiência marcada
no pior dos tribunais morais

​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ o próprio

pensa
nas rezas devidas
nas penitências nunca feitas
na punição à espreita
toda vez que ousa
ser a mulherzinha endiabrada que é

que pelo menos hoje, mais um oito de março, deixemos a culpa de lado. Sejamos mulherzinhas endiabradas que dizem foda-se para essa ideia de que a gente tem que fazer por merecer para ter dignidade, respeito e paz.

esse poema faz parte do meu livro “eu investigo qualquer coisa sem registro”, obra que foi selecionada para publicação no concurso Poesia InCrível de 2021. se você gostou, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe também pelo Medium,  Facebook,  Twitter,  Tinyletter  e  Instagram.

memória celular de um peixe abissal

Colagem analógica triplicada e editada no Canva por Thaís Campolina – Acervo Pessoal

à toa e preocupada
exploro minha casa
como se fossem vivos
os móveis e as paredes

um demônio me provoca
⠀ ⠀ ⠀ ⠀ ⠀⠀⠀ ⠀ ⠀ e eu respondo oi
entregando que estou
perto da janela da cozinha
cinco segundos depois
curiosa e ávida por um pão
olho direto para o inferno 
esperando a vertigem
desse sumidouro

a oxigenação do cérebro
continua a mesma
a pulsação também
meus cotovelos dobrados
esbarram na toalha de mesa
me fazendo sentir na pele
o carinho de um mundo
de farelos esquecidos 

nessa voragem
não há tontura 
nem taquicardia
eu sei que estou
onde deveria estar

usando bons binóculos
frente ao espelho do banheiro
consigo olhar de volta
e me ver a qualquer tempo
caçando no escuro
mais alimento

o abismo sou eu
e ai de mim
se não continuar
a nadar

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“Flor de gume”: as mulheres, águas e as travessias

Acervo Pessoal – Compre seu “Flor de gume” aqui.

Monique Malcher escreve como quem conhece bem a água. Suas primeiras frases funcionam como o toque inicial dela no corpo. Aquele momento de arrepio que vem da consciência de que a partir de agora dizemos adeus à terra firme. Nesse instante, a água nos convida a entrar de vez e você simplesmente vai, guiada pela promessa de que é assim que se acostuma com ela. Mas, justamente por conhecer tão bem o curso dos rios, Monique nunca nos deixa acostumar inteiramente com essa imersão.

Entrar na água é um risco. O mar impõe suas ondas aos olhos e ao corpo e os rios e lagoas não são muito confiáveis. A força da água doce é menos conhecida, pode não parecer, mas dali vai vir um nocaute em forma de história. É fácil se enganar e achar que nadar ali vai ser como estar numa piscina de hotel lotada de cloro. Às vezes pode até ser, mas vai saber. Talvez dê para nadar tranquila, talvez não. Talvez o único problema que você encontre seja simples de resolver, como uma alergia ao cloro. Talvez você simplesmente afunde.

As águas de Monique são mornas, turvas e podem ser perigosas. É fácil se deixar inundar por elas lembrando de alguém, pensando numa mãe, numa avó ou numa menina, todas perdidas nessa terra afundada cheia de vida. Tem quem se veja ali, inclusive. Então, no meio de um conto, um objeto há muito tempo perdido evoca uma figura-fantasma de mais uma mulher-menina-lembrança. Estar na água é uma ruptura com o mundo fora dela. As sereias e as rusalkas que o digam.

“Não é exclusividade das casas serem assombradas, mulheres são também. Isso conheço bem”, a autora elabora a partir de uma personagem, nos ajudando a encontrar o que nos assombra em terra firme, mas a gente só consegue ver mesmo quem esses monstros são quando mergulhamos e nos permitimos olhar para o mundo sem definição, sem os contornos que somos acostumadas a lidar.

“Flor de gume” é um livro imagético, que constrói seu ritmo e sua atmosfera a partir das forças da natureza. Água, vento, perna, muralha, asfalto, memória, arte, luto, morte, tudo se mistura para contar essas histórias que tem como tema em comum a filiação, a memória, o eu e a resistência histórica do enfrentamento desses corpos perante e a partir de tanto poder. O que pode acontecer desse encontro?

Ler Monique Malcher é se permitir navegar pelas águas barrosas dos rios e das travessias que partem de lugares desconhecidos interiores e úmidos até chegar a vários outros. Quem guia esse barco são as mulheres que conhecem esse caminho desde muito cedo por terem sido obrigadas a conhecê-lo, mas, por algum motivo, quem ainda está no barco como passageira tende a achar que continua sozinha, mesmo não estando.

Se mulheres são como águas e ficam mais fortes quando se encontram isso acontece, porque as histórias vão se alinhavando e quando são finalmente contadas juntas formam um fio condutor que também funciona como uma possível rede de proteção.

Uma hora as piloteiras e passageiras desses barcos vão se encontrar e se entender, ô se vão. Exatamente como o fogão ganhado pela menina numa rifa encontrou sua avó após dias navegando e serviu de conexão entre elas.

*

Esse é um livro para quem gosta de textos híbridos, que conseguem respirar dentro e fora d’água. Se você quer ler algo que atravesse gêneros textuais a partir da construção de contos bem unidos e de uma poética, se permita conhecer “Flor de gume”. Com essa leitura, somos capazes de pensar a condição feminina e as lutas e heranças, individuais e coletivas, que acontecem como resistência a toda violência que cerca a vida das mulheres. E, mais do que isso, a partir dessa obra, nos tornamos capazes de lembrar melhor o que nos afeta e nos constrói. É importante conhecer melhor essas águas que nos cercam, deixar que elas nos mostrem o verdadeiro rosto de muitos homens.

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Monique Malcher foi a 2ª paraense a concorrer e ganhar o Jabuti. Sua vitória veio na categoria Contos pelo seu livro “Flor de Gume” na 63ª edição do prêmio. Além de escritora, é colagista, zineira e tem uma carreira acadêmica em construção.

*

Reli “Flor de gume” agora em janeiro de 2022 junto ao Clube Cidade Solitária e adorei, sendo que minha 1ª vez com ele foi diferente. Eu gostei desde o início, e gostei muito, mas tinha rolado um trem meio seilá antes. Na releitura e também na conversa com outros leitores junto da autora, elaborei melhor essa minha primeira impressão perdida. Foi coisa de momento, acho, porque tem livro que tem hora, frequência e companhia certa para fazer a gente conseguir lidar com certos abalos de estrutura. Pensando então no tamanho do desconhecido das águas, na hibridez da escrita da autora e também no próprio ato de gostar, resolvi escrever sobre essa obra desse jeito meio misterioso, híbrido e quase ficcional, como se assim eu pudesse ficar mais próxima dessas personagens.

*alguns trechos dessa quase-resenha foram retirados do post que escrevi para o Leia Mulheres Divinópolis sobre o #DesafioLeiaMulheres2021 de fevereiro.

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notícia de um 1 milhão de euros

três figuras sem rosto encaram um homem em seu primeiro dia de trabalho

o homem tem rosto e parece entediado

nunca sabe para onde as três figuras olham

parte do trabalho de um profissional da segurança da arte envolve medir a distância das mãos das bolsas e dos olhos dos planos, ele diria se quisesse se justificar para o fantasma de Anna Leporskaya

mas ele não diz nada

mesmo demitido e ameaçado de ter que quitar uma multa e ainda pegar três meses de cadeia na Rússia

ele apenas não diz nada

exatamente como as três figuras sem rosto que ganharam temporariamente olhos continuam fazendo mesmo ostentando essas novíssimas bolinhas de gude transparentes na cara.

essas bolinhas discretas feitas sob medida por um estranho homem de 60 anos.

esses olhos-bolinha desenhados pelas mãos criativas de um homem que se recusa a se explicar.

esse homem que andou por todo um museu empunhando uma perigosa caneta esferográfica.

esse criminoso que está sempre pronto para rabiscar olhinhos e carinhas felizes onde conseguir chegar com sua BIC ou semelhante russa

um homem que jura não ter nada a dizer

talvez porque no lugar de rabiscar bocas
ele escolheu abrir olhos

olhos com data marcada para se apagar

isso se o fantasma de Anna Leporskaya deixar

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qual é a gôndola dos pirilampos?

Colagem digital  por  Thaís Campolina — Foto de David Veksler (Unsplash) sugerida pelo meu amigo Guímel Bilac.

sempre gostei muito de chocolate
podia ser aquele de moedinha
bola de futebol ou guarda-chuva
podia ser bombom sonho de valsa
milkbar, sensação, prestígio
kinder ovo, mundy e ferrero rocher
podia ser chocolate da turma da mônica
podia ser, sem sorte, até brigadeiro
só não dava para comer bombom caribe
caribe sempre foi um pouco demais até para mim

por mais que eu gostasse de chocolate
e você pode ter certeza que era muito
meus hobbies iam além do açúcar
e os marketeiros sabiam disso
nenhuma bobeirinha de criança comer
jamais encontrou fim em si mesma
since 1989

o mundo era cheio de surpresinhas
e toda gostosura ganhava continuidade
no uso dessa nova descoberta
que vinha lambuzada
de doce ou gordura trans
fedendo excursão de escola
para a fábrica da coca-cola

tinham tazos nos chips
adesivos das spice girls nos pirulitos
figurinha na balinha que tirava bafo
tatuagem temporária no chiclete
pelúcia no leite parmalat
e brinde de kinder ovo

o kinder ovo tinha um gostinho
de leite de vacas premiadas
mas eu amava mesmo
eram as cápsulas de plástico
que envolviam minha diversão futura

não tinha separação de gênero
no kinder ovo nessa época
a surpresa se fingia ingênua

se podia brincar com quase tudo
que as mães deixassem
desde que a criança tivesse
quem pagasse por ela
os olhos da cara

de todas as coleções
de brinquedinho kinder ovo
que pude conhecer
pelas minhas mãos
ou pela propaganda que
passava no intervalo dos
desenhos na tevê
nenhuma me agradou
mais que aquelas
lanterninhas esquisitinhas
em formatos cotidianos

eu trocava qualquer coisa
por esses brinquedos
caga-fogo

quando meus pais me mandavam para cama
e eu precisava continuar lendo
ou queria continuar brincando
acendia minhas luzinhas
em formato de animais
e eletrodomésticos
debaixo do lençol

amava o telefone de discar com o dedo
porque a luz dele era bem vermelha
e me ajudava a ler
as letrinhas miúdas
de qualquer livro
da biblioteca

amava também o cisne elegante
de luz verde fraquinha
tão fraca que foi o que
me ensinou a deixar
o sono chegar
na hora certa

agora posso
simplesmente ligar
a luz do quarto
varar madrugada
lendo ferrante
se quiser

agora também posso
simplesmente deitar
e dormir

aprendi a sonhar
sem ajuda dos meus vagalumes
que foram queimando com o tempo
no fundo da gaveta da casa
que não moro mais

hoje ninguém manda mais em mim
mas também não tenho quem me compre
kinder ovo com ou sem separação de gênero
preciso fazer meu próprio brigadeiro de colher

todo mundo agora se diz muito
preocupado com minha glicose
acham que eu deveria viver de comer
só meus bichinhos luminosos

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Crateras de verão

Colagem digital – Thaís Campolina

Tudo começou com um “Você sabe o que aconteceu?” impaciente e sem interlocutor definido. “Aposto que é cratera”, comentou uma jovem negra de tranças coloridas. “Mas a cratera que abriu foi em outro lugar do Floresta, moça”, respondeu um homem grisalho, de pele rosa e terno. Uma voz feminina no meio do ônibus fez questão de opinar: “Uai, pode ter aparecido mais outra aqui também, não?”. “Não seria a primeira vez”, manifestou a loira ao lado do homem engravatado.

Um menino vestido de uniforme, em pé ao lado das cadeiras altas, começou a dizer: “Mas nem choveu essa tarde…” e a frase “Não tem mais aonde ir água, filho” surgiu no ar, como se tivesse sido dita pelo calor úmido que infernizava todos os passageiros do 8102.

Fora do ônibus, um homem que carregava uma bíblia toda gasta bradou: “É o fim do mundo se aproximando!”, enquanto, dentro do coletivo, um sujeito sem qualquer característica marcante reclamou: “Que cratera o quê? É buraco. Cratera tem é em Marte!”

Alguém sacou o celular e mostrou uma notícia sobre o engarrafamento e o seu motivo para todos os curiosos ao alcance de um braço. O asfalto se rompeu no fim da tarde, minutos antes de o ônibus chegar à Assis Chateaubriand, e especialistas culpavam a chuva da noite anterior pela nova cratera.

“Chove e fura buraco na cidade inteira! Tem mais jeito não”, concluiu alguém, enquanto outro dizia: “Assim não dá mais! O prefeito tem que meter uma ponte ligando essa rua aqui com a Jacuí e depois com a Cristiano Machado”. Em resposta, uma mulher comentou: “Chuva faz buraco em ponte também, hein?” e risadas abafadas surgiram.

“Nesse calorão, sem ar condicionado, todo mundo espremido dando volta pelo bairro. Assim não dá”, desabafou aos gritos um senhor próximo ao trocador. Perto dele, sentados nos assentos preferenciais, dois idosos resmungavam sobre o azar de terem perdido o ônibus anterior, aquele que passou minutos antes de a fenda se abrir.

Além deles, havia também uma mulher que não parava de escrever em um caderninho vermelho e um vasto grupo de silenciosos que ora observava a conversa coletiva, ora encarava a tela do celular.

O papo continuou até o ônibus se esvaziar e o blá-blá-blá desceu junto com cada um dos passageiros. Uns dividiram a conversa que tiveram em casa, outros não, mas todo mundo dormiu pensando que um dia vai chover tanto, mas tanto, que um buraco maior do que a própria cidade vai se abrir e Belo Horizonte vai deixar de existir. Uma única mulher, aquela que não parava de escrever, lembrou-se de Marte e suas crateras e se levantou da cama para escrever um conto sobre o fim da vida na Terra.

*“Crateras de verão” faz parte da publicação independente & coletiva nomeada Jurema, obra que reúne textos que surgiram numa oficina sobre cotidiano ministrada pela Carina Gonçalves no ateliê de escrita Estratégias Narrativas em março (ou maio, não lembro mais) de 2018. O livreto foi lançado em fevereiro de 2019 numa Feira Textura e conta também com trabalhos de Beth Andrade, Glau Nascimento, Isabelle Chagas, Olivia Gutierrez, Viviane Moreira e da professora já citada acima. “Jurema” ainda pode ser adquirida no site do Impressões de Minas.

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