Os tais caquinhos que formam Abigail, eu e você

Virar mais mãe de mim mesma; era o que me restava. Ou nascer de mim como salvação. (pg 130)

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Aos 31 anos, 11 meses e 1 dia, eu posso dizer que já me senti um caco várias vezes. Me vi caco por estar muito cansada, fiquei um caquinho por causa de uma virose que peguei na praia, me senti um pedaço de uma garrafa de cerveja quebrada depois de algumas brigas, episódios de bullying, pesadelos, ressacas e noites de insônia. E nem comento de como me dividi em pedacinhos minúsculos de vidro temperado nas incontáveis vezes que fracassei, nos lutos que me cercaram e naquela vez que peguei dengue e fiquei com o corpo todo dolorido, inchado e coçando.

Estar um caco ou dividida em muitos caquinhos é um estado quase permanente para todo mundo, ainda que se varie os motivos, a frequência e a força dos desastres que afetam cada um. Viver é se dividir em pedaços cada vez menores, se quebrar toda, aprender a cair pra lascar menos as arestas e depois, lentamente ou não, colar tudo ou tentar fazer isso da melhor maneira possível. Na hora de pregar as peças, a gente percebe que nada mais tem lugar certo e que não tem super bonder que resolva algumas coisas. Alguns pedaços, talvez a maioria deles, ficam expostos mesmo quando a gente termina de montar esse mosaico que somos. De pertinho, alguém sempre consegue ver os remendos, mas de longe não. De longe, as pessoas às vezes não veem nada disso, ou veem, mas fingem que não tem nada demais no que parece estar prestes a cair criando milhares de novos pedaços. De longe, a maioria pensa que tudo está funcionando nos conformes, porque não sabe que essa resenha demorou tanto a sair, porque alguém, em meio ao seu caos particular de sempre, sumiu com as anotações que fez para se preparar para mediar o encontro do Clube Cidade Solitária sobre a obra que tenta introduzir agora e por isso teve que recomeçar a escrita desse ensaio/resenha do zero. O que, vamos combinar, é quase uma piada, como é também nosso hábito de fingir que esse processo de recolhimento e colagem de pedaços não acontece o tempo todo e como esse ciclo ganha características especiais quando se é adolescente e pertencer se torna um desejo, um desafio, uma necessidade e quase uma impossibilidade.

Eu odeio o Ivan Lins, eu me odeio e me amo e não me suporto. Não sei qual fundamento me fez vir ao mundo, já que não contribuo pra nada, nem para o meu próprio benefício. Sou imatura e tenho um coração de um tupperware malcheiroso e vazio. (pg.82)

Os tais caquinhos”, livro de Natércia Pontes, é sobre os fragmentos, pensamentos, sentimentos, sonhos, pesadelos e lacunas que formam Abigail. A própria estrutura da obra evoca esses pedaços unidos pela cola do diário da narradora e protagonista que acompanhamos, um diário que parece fazer pouco sentido até que faz algum, porque esta história só poderia ser contada assim, totalmente despedaçada e cheia de durepox. Temos então uma adolescente que vive paixões avassaladoras, o tédio e a escola, como a maioria das meninas de sua idade. Só que a vida de Abigail não é como a delas e as paixões avassaladoras, o tédio e a escola acontecem no apartamento 402. O que significa um lugar de falta, de caos, de sujeira, de nojo, de infestação de insetos e, por incrível que pareça, um lar.

Fiz questão de dormir enrolada nele, como se estivesse encapsulada num casulo de algodão, forte o suficiente para me proteger do impacto de mais um chute. (pg 87)

Natércia Pontes escreveu uma obra que evoca a adolescência em tudo, inclusive na descoberta do mundo, da família, da falta, da intensidade e do significado do eu, sem esquecer dos odores fortes desses corpos tão hormonais e ainda não totalmente compreensíveis a seus donos. Odores comuns que se misturam a um apartamento que parece estar em decomposição e a um pai pouco afeito ao mundo prático e cotidiano.

Lúcio — sempre hipervigilante, sobretudo em situações cotidianas, que não suscitavam perigo — me ouviu. (pg 124)

Esse é um livro que fede. Depois de terminar essas páginas, a frase “o requeijão está estragado” nunca mais será lida ou ouvida sem que esse cheiro não venha até às narinas pronto para nos derrubar com um nocaute. As descrições incomodam, ensinam o cérebro a ir direto no nojo, nos lembram que algo deve estar podre no reino da Dinamarca — ou da Nova Zelândia — e talvez até dentro de nós mesmos, nos faz sentir cada um dos caquinhos que acumulamos na nossa formação, olhar de novo para aquilo que a gente costuma chamar de passado, mas faz parte de cada um mesmo quando a gente tem o hábito de jogar fora as coisas na hora certa. Só que esse livro faz mais do que isso, Natércia descreve o que ninguém gosta de olhar, cria cenas únicas que misturam elementos que poucas vezes vemos juntos e que justamente por isso tornam essa história ainda mais próxima, interessante e, talvez, poética, e assim ela incomoda o leitor por mostrar a complexidade das coisas. Lúcio, pai de Abigail, não sabe cuidar nem de si mesmo. É acumulador, neurótico, diz que quer morrer e que é muito bom sentir fome, mas também é amoroso e compreensivo com suas filhas. Confia nelas, inclusive. Lúcio não é um homem que abandona, é um negligente negligenciado, um cara que simplesmente não está bem. Juntos, os três sobrevivem.

O apartamento 402, em todo o seu caos, é uma extensão de Lúcio, a materialização de seus caquinhos se acumulam ali, juntando poeira, sebo e bicho. Ele tenta guardar todos os aspectos de sua vida ali, como se dessa forma, com tudo perto e (quase) visível, ele conseguisse encontrar algum sentido nessa sucessão de acontecimentos que nós não conhecemos bem, mas formam sua existência (logo, também a de suas filhas). E por serem partes essenciais da vida dele, elas também moldam seus quartos cada uma à sua maneira, com suas marcas de pés na parede, suas roupas sujas guardadas, um edredom sonhado ou mesmo com roupas emprestadas das amigas, um certo asseio e um maior nível de organização.

Fiquei absorta por essa visão por um tempo indeterminado. O velho silêncio que nos unia, confirmando nossa proximidade, nossa vida cúmplice, mesmo que na maior parte do tempo nos comportássemos como frios inimigos debaixo de um teto recoberto de bolor” (pg.96)

“Os tais caquinhos” não é um livro fácil, não funciona para quem tem estômago fraco. E eu nem falo isso por causa das descrições difíceis. Natércia construiu uma história que explora a feiura da adolescência, a naturalização da violência machista e a espiral de autodestruição de um homem que sem querer leva sua amada filha mais velha junto a essa mesma lógica. E que, mesmo diante desse contexto, nos faz pensar que Abigail, Berta e Lúcio são uma família unida, apesar dos pesares. Eles se amam e podem contar um com o outro. Eles se amam e querem ser melhores juntos. Eles se amam e por isso sobrevivem. Eles se amam… e acho que posso dizer ponto.

Eu não tinha dito que o apartamento 402 era, apesar de tudo, um lar?

A casa dos outros, com seus cheiros adstringentes, lava-roupas trabalhando e geladeiras abarrotadas de produtos, não nos chamava mais. Queríamos o nosso escuro, o nosso casulo comum. (pg 129)

Observação: Cuidado! Ler esse livro pode te dar ânsia de vômito, fazer você pensar em gafanhotos como Clarice Lispector pensava em baratas e te levar a terminar o dia buscando no Spotify Marina Lima para ouvir em pleno anos 20!

Observação 2: Esse livro pode ter o efeito adverso de obrigar resenhistas sedentos por likes a passar minutos olhando fotos de gafanhotos para assim conseguir desenhar um só para fazer uma foto única para acompanhar a resenha/ensaio ainda a ser escrita. Foi o que aconteceu comigo. Espero não acabar sonhando com versões gigantescas desses bichos que Abigail “gosta” tanto.

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Publicado por

Thaís Campolina

O que falta em tamanho sobra em atrevimento. Isso foi dito sobre um galinho garnisé numa revista Globo Rural dos anos 80, mas também serve pra mim.

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