“O acontecimento” segue acontecendo aqui e agora: o impacto da adaptação cinematográfica do livro de Annie Ernaux numa leitora brasileira

Cartazes do filme – Confira o trailer aqui.

As memórias do angustiante verão francês que Annie Ernaux viveu em 1963 e só foram escritas mais de trinta anos depois ganharam um novo formato ao serem transformadas em uma obra cinematográfica pelas mãos da diretora Audrey Diwan, da roteirista Marcia Romano e de toda uma equipe repleta de mulheres.

Quando Annie Ernaux escreve sobre o aborto clandestino que viveu tantos anos depois, tempo e memória se misturam ao fato, tornando seu livro também uma busca pelo registro daquilo que a autora viveu em segredo, como outras tantas, francesas ou não. Quando ela decide escrever essa história da forma que fez, crua e quase documental, ela coloca em evidência que a escrita da não-ficção que parte de si é também uma tentativa de adaptação: como fazer das lembranças palavras? É possível capturar os sentimentos dissolvidos nas cenas que conseguimos recordar tanto tempo depois? Qual é o papel de ler e reler o diário daquele ano nisso tudo? Como as palavras que escrevi quando tudo acontecia afetam quem sou hoje? Falar de si é falar de uma época? Escrever sobre a própria solidão é uma forma de se sentir acompanhada nela? E esquecer é também uma forma de morrer? Se sim, então escrever o que lembra é tentar viver além da própria experiência?

Se no livro a solidão, a angústia e o desamparo da personagem durante os três meses de 1963 chamam atenção, enquanto se misturam com o efeito do tempo e a ânsia da tentativa de tornar aquela vivência algo tangível pela escrita, o filme se propõe a tratar apenas do tempo da gravidez indesejada como fato incontornável, concentrando todo o desespero silencioso da personagem só naquilo, sem a reflexão temporal que envolve a recordação.

“O acontecimento” cinematográfico consegue então tornar a escrita memorialística de Annie Ernaux um recorte situacional que se aproxima ainda mais da construção dessa verdade pretendida na tentativa do relato, ainda que as cenas do filme tenham tido modificações pontuais no processo de adaptação e essas mudanças mostrem a presença de outras autoras, atrizes, cenários e a transformação daquilo que foi escrito como memória em ficção.

No filme, acompanhamos a história de Anne Duchesne (Anamaria Vartolomei) como quem persegue uma personagem por ângulos intrusos. Nos transformamos em olhos vigilantes pela câmera curiosa, como se fôssemos parte do que torna o aborto buscado pela personagem um crime, uma vergonha, algo a ser acompanhado como fofoca por quem se delicia por saber que conseguiu escapar de estar nesse lugar, que pode ser “só” o de vagabunda que transa antes do casamento ou o de mãe solteira.

Conhecemos a intimidade dessa protagonista como parte do que torna a sua vivência um tabu e uma ilegalidade e isso, junto da atuação de Anamaria Vartolomei, ajuda a construir para o espectador uma agonia silente que mescla uma espera ansiosa por uma possível solução para aquilo que seria o fim de um futuro brilhante, enquanto esse mesmo futuro brilhante parece prestes a desmoronar pelo efeito dessa espera que não se realiza, e o medo dessa solução, se ou quando alcançada, se tornar o fim de qualquer futuro ou quase isso, com a morte, a mutilação ou a prisão.

O interdito é trabalhado também com a tensão sexual que insiste em se manifestar o tempo todo no universo da personagem, mesmo aquilo sendo visto como proibido. O estigma do exercício da sexualidade feminina paira sobre as jovens que falam o tempo todo de sexo, enquanto julgam as que ousam fazer, junto do medo da gravidez, que, além de ser uma manifestação da maternidade indesejada para aquele momento, representa também um atestado público de que aquela mulher não é mais virgem e pura, logo não merece mais respeito.

O universo da personagem é bem apresentado: temos ali as visitas aos pais trabalhadores no interior que precisam se manter como sempre foram para ninguém desconfiar de nada, as disputas internas entre os diversos grupos de jovens mulheres que dividem o dormitório e o espaço universitário, as fofocas durante as aulas, as festinhas regadas por Coca-Cola, a solidão mesmo quando acompanhada, a insônia de quem tem um problema a resolver e as mesmas três ou quatro roupas repetidas que evocam tanto a origem da protagonista, quanto o cotidiano como ele é.

O aborto clandestino se desenha nas duas linguagens como um desalento construído por uma disputa de riscos que pesa principalmente para aquelas sem os contatos e informações certas, essas que precisam apelar para métodos caseiros no escuro do quarto ou cirurgias em um cômodo de uma casa qualquer ou os dois. Sendo as consequências de uma gravidez indesejada ainda mais pesadas para uma mulher pobre buscando alguma ascensão social pelos estudos, como a personagem, ou uma operária ou atendente de supermercado. Só que até para as mais ricas, a clandestinidade recai de forma ameaçadora, porque mesmo com um contato do médico certo e seguro em mãos e a garantia de que não irá presa por escolher, ainda existe solidão, proibição de falar e praticar e estigma. Tudo isso cria um cenário perigoso que poderia não existir se a responsabilidade da gravidez não fosse imposta às mulheres somente, o aborto fosse legal, seguro e gratuito e uma informativa e acolhedora educação sexual fizesse parte do currículo das escolas.

Ainda que o aborto por escolha da mulher seja legal na França desde 1975, tendo sido Annie Ernaux uma ativista por esse direito, no Brasil nunca foi e ainda não é. O que torna a aflição da personagem Anne e os riscos corridos por ela para fazer valer seu desejo pelo, ainda que inexistente legalmente na época, direito à escolha muito próximos da realidade das mulheres brasileiras hoje, com suas vítimas fatais aqui e agora, entre mutiladas, presas e sortudas aliviadas. O interdito presente nas obras segue no Brasil, não só pelo tabu, mas pela força da lei e das ameaças e práticas conservadoras que tentam tornar o aborto uma ilegalidade mesmo nos raros casos liberados pela nossa legislação: risco de vida para a gestante, gravidez fruto de estupro e gravidez de feto anencéfalo.

As cenas do filme “O acontecimento” parecem ainda mais gráficas e desoladoras para quem divide comigo a nacionalidade e o domicílio brasileiro e acompanha, além das histórias veladas de familiares, amigas e conhecidas, as notícias de meninas que sofreram pressão judicial, governamental e social para não usufruir do seu direito ao aborto legal previsto como exceção na lei penal.

Mesmo a filmagem fugindo do sangue, da agulha, dos instrumentos da enfermeira e focando no rosto e atuação da atriz, a gente sabe o que a clandestinidade causa direta e indiretamente e isso basta para nosso estômago revirar de tensão.

Poderia ser eu, poderia ser minha mãe, poderia ser uma amiga, poderia ser a vizinha do 103 ou a moça da bilheteria do cinema, mas foi Annie Ernaux em 1963 e muitas outras que não tiveram a sorte de sobreviver para contar ou nunca puderam elaborar o momento. Para quem tem um útero que se revira em cólica e sangue menstrual periodicamente, não precisa ser gore para ser quase um filme de terror, emular a realidade como ela é basta para nos lembrar que nosso corpo ainda está no controle do Estado e o que tudo isso significa.

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Você também pode se interessar em ler “O acontecimento também é a escrita: a proposta literária de Annie Ernaux encontra o aborto clandestino

A maternidade em “Por favor, cuide da mamãe” e seus desdobramentos no aqui e agora

*o texto contém alguns spoilers de enredo

Elena Ferrante, Vivian Gornick, Buchi Emecheta, Ayobami Adebayo, Xinran, Nara Vidal, Aline Bei, Conceição Evaristo, Celeste Ng e Shin Kyung-Sook são autoras que, apesar das diferentes origens, experiências e níveis de fama literária, escreveram histórias que tratam da maternidade e a complexa relação das mães com seu entorno.

De maneiras muito diversas, todas as citadas abordam o peso da maternidade na vida das mulheres em alguma ou várias de suas obras, mostrando que mesmo as experiências mais amorosas são marcadas pelo impacto da divisão sexual do trabalho, da misoginia, do racismo e também da pobreza. 

Apesar de toda a expectativa envolvida na perpetuação das linhagens familiares nas várias culturas abordadas por essas escritoras, a maternidade e a capacidade de gestar surgem nessas histórias como marcadores de vulnerabilidade para as mulheres. Em “Por favor, cuide da mamãe”, da sul-coreana Shin Kyung-Sook, isso não é diferente.

Nessa obra, Park So-nyo, 69 anos, mãe de cinco filhos, desapareceu em Seul. A partir da narração da filha mais velha, do filho primogênito e do marido, o leitor acompanha essa família enlutada em busca dessa mãe perdida.

Como se a dor desse sumiço não bastasse, essa procura se desdobra em uma dolorosa tentativa desses narradores-personagens em encontrar alguma resposta para suas culpas e angústias relacionadas à figura dessa mulher e ao luto de sua ausência. Dessa forma, a investigação do destino de Park So-nyo se torna também uma exploração emocional para os personagens que, isolados uns dos outros mesmo quando estão próximos, não percebem como suas dores não são tão singulares assim. Com o desaparecimento, filhos e marido parecem ter se deparado com a sensação de que essa mãe já estava sumindo antes e que talvez eles pudessem ter feito alguma coisa para evitar isso. 

A partir dessa premissa, surge para o leitor a constatação de que a maternidade é quase sempre um apagamento de uma identidade maior, como se apenas um pedaço de uma mulher, aquele que é mãe, se tornasse o único visto e considerado importante pelos outros. O sumiço de Park So-nyo para seus familiares parece ter iniciado antes mesmo do momento em que ela foi engolida pela multidão dos transeuntes frequentadores do metrô, e o desaparecimento real parece expor a dificuldade anterior de todos eles, talvez até mesmo da própria desaparecida, de ver uma mãe como um indivíduo completo.

Mães e pais passam por isso pelos olhares dos filhos, é verdade, e essa reflexão é até explorada no livro no capítulo da filha escritora. Durante o amadurecimento, existe todo um processo de descoberta de cada um dos pais como pessoas, não mais como mães e pais, mas o processo com as mães é diferente, porque o apagamento dessa identidade vai além da visão infantil dos filhos e invade como a sociedade no todo encara as mulheres, especialmente aquelas que agora são vistas como uma espécie de cuidadoras universais.

Essa maternidade — tão sacrificante para a personagem, ainda que para ela toda a abnegação seja vista como parte da vida, e objeto de devoção e romantização dos filhos e marido enlutados — coexiste com uma paternidade irresponsável. Enquanto Park So-nyo fazia de tudo pelos filhos e centrava o sentido de sua vida neles, seu marido abandonava a casa e ia atrás de aventuras e outras mulheres. O peso do cuidado doméstico, familiar e até da própria terra sempre esteve em suas mãos. O marido e pai das crianças, na verdade, somente somava-se à lista de responsabilidades que ela tinha.

O arrependimento dos narradores é demarcado no próprio texto e o uso da 2ª pessoa acaba transferindo-o ao leitor. Eles falam com si mesmos, se acusam, apontam suas próprias falhas e compartilham momentos, mas, com o “você” no meio das frases, é o leitor que acaba recebendo essas palavras como se fossem pra ele. E, dessa forma, quem lê acaba sendo levado para esse drama familiar como parte, não só como espectador, podendo, nesse processo, até se deparar com seu próprio lar e todas as questões pessoais e confusas relacionadas com ser filho de alguém.

Vale ressaltar que Park So-nyo não sabia ler e nem escrever e sonhava com a alfabetização, fazendo tudo para seus filhos e filhas conseguirem estudar. Embora ela pareça acatar o fardo de sua condição feminina em alguns momentos e, inclusive, cobrar especialmente das suas filhas nesse sentido, a personagem considerava sua obrigação fazer com que as crianças em sua responsabilidade tivessem a possibilidade de uma vida mais fácil que a dela a partir da educação. Inclusive, numa ocasião, disse para seu filho mais velho que a irmã precisava estudar um pouco mais por ser menina e que era responsabilidade dele fazer com que ela frequentasse a escola em Seul. Complementando essa delegação dizendo: “Não quero que viva como eu”.

Apesar da filha mais velha acreditar ter decepcionado a mãe em todos os sentidos, percebe-se que essa mãe admirava a trajetória de sua menina que se tornou escritora, apesar dos pesares. A construção da personagem da mãe desaparecida é complexa. O leitor acompanha o olhar arrependido da família, as observações, às vezes muito romantizadas, feitas por eles sobre essa mulher e, como um verdadeiro detetive, tenta desvendá-la a partir de detalhes, somando o que cada personagem apresenta de forma não muito confiável ao seu mundo referências. Somente com a chegada da narração surpresa, o leitor tem acesso a mais nuances dessa personagem e, enfim, tem a sensação de que a conhece como indivíduo. 

Nessa jornada de luto e drama familiar, chama a atenção a relação de Park So-nyo com a terra, a casa, o espaço que ocupa. As colocações feitas de mãe para a filha sobre a agricultura e o trabalho doméstico, por exemplo, evidenciam a invisibilidade do trabalho do cuidado, mas também sua importância. A valorização da terra vem muito da necessidade do alimento que, além de aplacar a fome, serve para nutrir o próprio corpo familiar e suas relações. A memória dos narradores dessa história estão marcadas pela preocupação dessa mãe em fornecer alimento para seus filhos, como uma verdadeira provedora, e, ao mesmo tempo, pelos rituais ancestrais em que a comida sempre foi colocada como parte fundamental da troca, do afeto e, não tão curiosamente, também das obrigações. Essas lembranças culinárias aparecem tanto no cotidiano, com citações que vão do kimchi e do arroz ao lámen instantâneo, quanto em momentos especiais, como a arraia do Ano Novo e o Festival da Lua da Colheita.

A maternidade é quase um planeta à parte, ainda que seja impossível pensar na humanidade que conhecemos sem pensar em mães. Shin Kyung-Sook escreve essa história sabendo disso. Ela, ao falar desse universo, fazendo desaparecer a mãe real e colocando a mãe projetada no lugar, explora o quanto esse papel social rende perante todos que são filhos. Em especial, filhas. Em qualquer lugar do mundo, há muito o que se escrever a partir dessa condição constantemente tratada como íntima, mesmo tendo tantos desdobramentos políticos.

“Por favor, cuide da mamãe” é um livro que usa o arrependimento, o luto, a culpa e as memórias de uma família para nos fazer pensar na Coreia do Sul contemporânea, principalmente, pelos olhares das mulheres. Tradição, desigualdade, pobreza, medo da fome, machismo, cuidado, memória, dilemas geracionais e o eterno embate entre campo e cidade formam esse retrato complexo que, apesar das diferenças, às vezes parece bem próximo ao que temos aqui, no Brasil de Aline Bei, Nara Vidal e Conceição Evaristo. Ou na Itália de Ferrante, ou na Nigéria de Buchi Emecheta e Ayobami Adebayo, ou nos EUA formado por imigrantes da Vivian Gornick e da Celeste Ng. A maternidade, imposta, compulsória ou desejada e, ao menos em teoria, necessariamente abnegada, viaja pelo mundo tanto quanto a nossa capacidade de contar histórias.

Esse texto foi escrito para um concurso de resenhas organizado com o intuito de promover a valorização da literatura sul-coreana. Como não fui uma das premiadas, resolvi aproveitar para postar o que escrevi aqui no blog, apesar da leitura desse livro ter acontecido faz um tempão (JAN/21).

Se interessa pelo assunto? Então leia também meu conto “éramos_duas.mp3”, parte da coletânea “Casa nua – maternidade devassada”, obra organizada pelo Coletivo Escreviventes em parceria com a Revista Tamarina.

“A Pediatra”: pensando nas personagens difíceis

Acervo pessoal – Compre seu exemplar aqui!

Com capítulos curtos, ritmo de um turbilhão de pensamentos, deboche e uma personagem controversa e bem construída, Andréa del Fuego criou um romance que coloca o leitor frente a frente com a capacidade de sedução de uma narradora desagradável, obrigando quem lê a refletir sobre simpatia, antipatia, classe, gênero, ética e moral. 

Nessa história, Cecília, a pediatra que empresta sua especialização para o título do livro, simplesmente vive sua vida, pensa seus pensamentos, sente e elabora seus sentimentos. Essa vida que ela vive, apesar de quase comum, é privilegiada, e por isso mesmo acaba funcionando também como uma crítica ao mundinho deslocado e cheio de interesses da classe médica.

O diferencial desse enredo está em como essa protagonista percebe seu redor e conta sua história. A exposição dessa mente inquieta — e, para nós, completamente sincericida — nos atrai. Um divórcio, um amante, uma doméstica, uma profissão de status, mas exercida sem vocação, tudo isso ganha novas nuances com ela. E quando a gente vê, o livro já acabou e estamos obcecados pela Cecília, como Cecília também está pelo seu novo interesse (alvo?) da vez.

Algumas coisas contadas pela narradora-protagonista provocam risadas por serem simplesmente absurdas e, ao mesmo tempo, às vezes um pouco verdadeiras, mas o que prende o leitor mesmo é a constatação de que aquela pessoa que soa tão arrogante e egocêntrica parece encontrar algum eco em cada um de nós.

Esse não é um processo de identificação necessariamente, é de sedução. O poder dessa personagem é evidente: Você às vezes gosta dela, mas contra a vontade. Tem vergonha de gostar. Você diz que ama odiá-la, mas às vezes torce por ela, enquanto a xinga mentalmente. E ri dela. Ri com ela. Não acredita no que ela vai fazer.

Acompanhamos essa protagonista difícil que se constrói e desconstrói na nossa frente, nos lembrando das contradições e medos que, ainda que muito ou pouco diferentes, também fazem nossa própria humanidade. Diante de Cecília, somos postos para pensar nas vulnerabilidades que tentamos a todo custo ocultar, no poder das palavras e nesse Outro que é sempre um desconhecido, um mistério que a gente nunca vai conseguir desvendar por completo — uma possibilidade que nos atrai e nos repele na mesma medida.

Cecília está longe de ser exemplar. Na verdade, praticamente todo mundo dessa história não poderia se colocar nesse lugar nem se quisesse. Cecília é babaca e parece fugir o tempo todo de qualquer possibilidade de se descobrir diferente disso, porque é assim que deve ser no planeta Capitalismo. E, como todos os outros personagens chegam até o leitor a partir dela e seu olhar cínico para as coisas, eles também acabam ficando meio sem lugar na régua moral de cada um, porque só os conhecemos já enevoados pelo olhar de Cecília. E que bom!

A literatura não serve simplesmente para difundir virtudes ou ensinar alguma coisa pra alguém. A literatura não é sobre personagens bonzinhos e nem precisa ser óbvia em sua função, qualquer que seja ela, isso se houver uma. Às vezes o que parece feio, errado, antipático ou até detestável é só uma amostra da complexidade humana e das nossas relações, tornando nossas bibliotecas e estantes espelhos dos problemas do mundo e do eu. Às vezes uma personagem complicada existe simplesmente porque pessoas complicadas também existem e se deparar com um livro com uma é se permitir perceber que a gente também nunca é tão simples e bons como imaginamos ser.

Se a literatura é a fabulação da vida, dos outros, de nós mesmos e do mundo, nossa maneira de compreender e conversar sobre tudo, a gente também precisa conhecer melhor Cecílias, porque às vezes a ideia que temos de como uma mulher deve se portar, especialmente perante crianças e homens, transforma uma personagem em um monstro mesmo quando sabemos que estamos olhando, tratando e se incomodando com um ser humano perdido. Talvez precisemos conhecer mais Cecílias na literatura, simplesmente porque ainda vivemos em um mundo que se incomodaria muito menos e riria muito mais com esse livro se ele fosse protagonizado por um Sr. Dr. Pediatra Celso — e isso diz muito sobre como vemos homens e médicos.

Uma pediatra que não gosta de crianças causa curiosidade e perturba, é uma premissa excelente para um livro; um pediatra que não gosta de crianças provavelmente seria visto como mais um profissional esforçado. Cecília é vista como absurda — e talvez seja mesmo — e quando Andréa del Fuego parte dela para escrever, ela nos lembra que literatura é humanidade e a humanidade é um personagem mais complexo que qualquer pessoa.

(Resumindo: Fleabag voou para que Cecília pudesse caminhar)

Recebi “A Pediatra” numa parceria que fiz com a Nádia do Pomar Literário. Vocês podem ler uma versão enxuta, exclusiva e caprichada das minhas reflexões sobre esse livro aqui, em um post colaborativo meu e dela no Instagram. Se interessou em ler o livro? Compre “A Pediatra” com meu link da Amazon e me ajude a continuar escrevendo.

Curtiu a reflexão? Então você também pode se interessar em ler meu ensaio “Os tais caquinhos que formam Abigail, eu e você”

éramos_duas.mp3

Ma-má? Mã-mã? Ma-mã-ma-mãe? Mamãe? Vem cá, mamãe. Mamãe, dorme comigo hoje? Por que, mamãe? É só um au-au, mamãe. Mamãe, eu quero. Não, mamãe. Desculpa, mamãe. Mamãe, o que é isso? Não é nada não, mamãe. Mamãe, me dá? Por que, mamãe? Mamãe, cê tá triste comigo? Me conta uma historinha, mamãe. Mamãe, eu não quero. Olha que bonito, mamãe! Mamãe, cê gostou? Vem brincar, manhêêêê! Mãe, cuidado com a bola! Eu juro que não fui eu, mãe. Eu prometo, mãe! Mãe, foi sem querer. Ah nem, mãe. Mãe, que saco! Toda hora isso, mãe. Mãe, posso dormir na casa da vovó hoje? Chuta pra mim, mãe! Que bicuda você deu, mãe! Por que não, mãe? Não quero brincar de boneca, mãe, não gosto mais. Foi mal, mãe. Vamos dormir mais tarde hoje, mãe? Mãe, deixa eu levar esse gatinho pra casa? Que que tem, mãe? Mãe, o que eu faço agora? Não vou calçar essa sandália hoje, mãe. Não gosto, mãe. E quem disse que eu ligo para isso, mãe? Não quero, mãe. Mãe, eu já falei que eu não quero! Mãe, nem vem que já não sou mais criança. Que delícia, mãe! Me ensina, mãe? Deixa eu ir, mãe. Mãe, por favor! Ai, mãe, cê não vem mesmo nadar com a gente? Mãe, por que você tem que fazer isso toda vez que eu vou sair? Como você era na escola, mãe? Cê ia bem em tudo, mãe? Mãe, me ajuda com esse zíper. Mãe, me empresta essa jaqueta? Boa noite, mãe. Só hoje, mãe. Mãe? Me deixa tentar, mãe. Eu sei, mãe. Mãe, que saco! Mãe, o que você tá fazendo aqui? Por que você fez isso, mãe? Mas eu não gosto, mãe. Eu não quero usar mais essas roupas feias suas, mãe. Ai, mãe. Tudo bem, mãe? Me dá uma carona, mãe? Obrigada, mãe. Mãe, que livro é esse que cê tá lendo agora? Mãe, me deixa em paz. Não quero falar com você agora, mãe. Eu quero ficar sozinha, mãe! Mãe, que gracinha! Te contei, mãe? O que está passando na TV, mãe? Esse programa é bom, mãe? Mãe, eu quero é isso pra mim. Ai, mãe, eu já não sei mais o que fazer. Me ajuda, mãe. Mãe, cê não vai acreditar… Você já fez isso mesmo, mãe? Jura? Mãe, agora tá pronto, pode olhar. Ficou bom, mãe? Não tem nada demais nisso, mãe. Não precisa ficar elogiando, mãe. Mãe, deixa de ser boba. Uai, mãe… Cê adorou, né mãe? Mania nova, mãe? Valeu, mãe. Que beleza, mãe! Mãe, mas cê já vai? Chegou cedo hoje, tava com saudade de mim, né mãe? Mãe, você viu isso? Vamos fazer alguma coisa diferente esse domingo, mãe? Mãe, cê ficou sabendo? Tava bom demais, mãe. Do que você tá falando, mãe? Não se faz de sonsa, mãe. Mãe, o que cê achou? Curtiu, mãe? Que vergonha, mãe. Dá licença, mãe. Gostou do presente, mãe? Vem tirar foto, mãe! Mãe, tudo vira neura na sua cabeça. Mãe? Credo, mãe, que mania que você tem de botar defeito nas minhas coisas. Bom apetite, mãe! Vai um baralhinho hoje, mãe? Mãe, eu já disse que não quero mais. Vou ter que repetir, mãe? Sério isso, mãe? Mãe, deixa eu ver. Vamos agora, mãe? Já tá na hora, né? Mãe, como foi lá? Deu pra entender bem, mãe. Que que foi, mãe? Nossa, mãe, me conta isso direito. E essas fotos antigas, hein, mãe? Olha essas roupas esquisitas que todo mundo usava, mãe! Esses cabelos, mãe! O que vamos fazer hoje, mãe? Ai, ai, mãe. Se anima aí, mãe! E o que você disse, mãe? É assim que se faz, mãe! Mãe, quer emprestado? Me mostra logo como ficou, mãe! Mãe, tô curiosa! Tá toda toda, hein, mãe? Mãe, como você não entendeu ainda que eu faço o que eu quiser? Mãe? Mãe, tô preocupada com você. Conversa comigo, mãe. Mãe, você não presta atenção no que eu falo mesmo, hein? Mãe, já marcou seu médico? O que o médico falou, mãe? Mãe, que saco, hein? Toma esses remédios direito, mãe. Mãe? Quer vir pra cá, mãe? Cê gostou, mãe? Mãe, cê mesma quem fez? Lá vem você de novo com esses trem, né mãe? Ai, mãe. Não sei, mãe. Se animar, eu te levo, mãe. Me conta isso direito, mãe. E cê acreditou, mãe? Ai, mãe, eu não aguento mais. Quem disse que ia ser fácil, né mãe? Quer um pouquinho, mãe? Mãe, vem dançar! Onde você aprendeu esses passos, mãe? Você não tem jeito mesmo, né mãe? Só mais um pedaço de bolo, viu mãe? Chegou chegando, hein mãe? Mãe? Tá pronta, mãe? Tô passando aí, mãe. A gente combinou, mãe. Cê esqueceu de novo, mãe? Mãe, mas cê desistiu de ir e nem me avisou? É isso mesmo, mãe? Mãe, o que você achou? Aceita, mãe? Tá tudo bem, mãe? Obrigada, mãe. Trouxe cruzadinha, mãe. Mãe, precisa de ajuda? Bem-vinda, mãe. Mãe, pode deixar que eu faço. Tá gostando, mãe? Mãe, você sabe que você não dá conta mais. Caramba, mãe! Vem cá, mãe. Mãe?

Colagem analógica de Thaís Campolina a partir de fotos de Bárbara Olsen

Esse conto, assim como essas colagens, fazem parte da coletânea “Casa nua – maternidade devassada”, obra que reúne trabalhos produzidos pelas participantes do Coletivo Escreviventes numa parceria com a Revista Tamarina. O e-book é composto por textos em prosa e verso de 49 escritoras brasileiras e trata sobre diferentes perspectivas de ser mãe e ser filha, levando em conta também a possibilidade de não ser mãe e os aspectos políticos e sociais desse ser e não ser. Baixe o PDF aqui.

Esse texto também foi publicado na Revista Mormaço.

‘iô’: a descoberta de si e dos mundos em disputa

Acervo pessoal – Adquira seu exemplar aqui.

e ela sabe
mas o melhor
não é sempre
o bom

Estruturada como uma novela em versos, , de Camila Lourenço, conta uma história localizada bem nas gretas entre gêneros, tempos e espaços bem definidos, numa mescla que acaba funcionando como um elemento crítico às origens do complicado mundo que vivemos, ao presente feio que tentamos não encarar e a esse futuro terrível que se desenha em meio a essa feiura generalizada.

Partindo dessa hibridez da forma e da abordagem, a autora é capaz de colocar o leitor em um não-lugar de deslocamento próximo ao da protagonista. Poderia ser semana que vem, daqui cem anos, em um outro milênio. Poderia ser até no passado. Nessa indefinição de tempo-espaço, um trabalho de contraste é feito a partir dos únicos personagens nomeados dessa narrativa: iô e Dante, mulher e homem, terra e cidade, comunidade e individualidade.

iô é uma personagem cativante. Nascida e criada numa ecovila isolada do mundo urbano, ela é uma jovem curiosa, desejante, amante da natureza e parte de um grupo de pessoas que se apoiam, se divertem e trabalham juntos. E por incrível que pareça, talvez justamente por ter crescido em um ambiente que promove tanta autonomia e sequer cogitar que em outros lugares isso pode ser bem diferente, ela decide ir embora com Dante, quando ele chega com sua trupe de homens oferecendo a ela o fogo e calor de uma paixão e um novo mundo a conhecer.

Escrever sobre essa história acaba sendo um desafio, porque Camila, com muita simplicidade e diria até delicadeza, explora nas páginas de temas relacionados com o meio ambiente, colonização e machismo. Essa aparente simplicidade e delicadeza da forma de contar da autora faz com que qualquer comentário que fuja dessa forma de dizer soe grosseiro, dominante demais, meio Dante e sua trupe mesmo quando quero criticar esse modo dele de se portar perante o mundo.

O verso livre é a cara da autonomia de iô, a resenha em prosa e tom meio explicador não. A linguagem, assim como a forma de contar, importa: ainda que desbravar e explorar sejam sinônimos de percorrer, iô não quer fazer isso, ela quer conhecer. Ainda que em nossa sociedade se use comumente falar homem e mulher no lugar de mulher e homem, aqui e no livro iô vem em primeiro lugar.

sobre duas pernas iô é bicho
quer correr pra longe do chumbo
não tem pedaço de pano que a prenda
mas ela fica e reza para quem já não ouve

representa uma outra epistemologia e a gente, leitor de um lugar mais próximo de Dante, precisa saber ler melhor as outras diversas maneiras de dizer. Além do que é contado, a simplicidade das palavras, o ritmo construído por elas, as repetições de nomes, a aparição de vozes e como elas falam, tudo isso importa.

Camila Lourenço, a partir desse enredo de uma pretensa história de amor e desses personagens, nos coloca para pensar no encontro de mundos conflitantes que a alteridade pode oferecer no capitalismo, tardio ou não, obrigando o leitor a pensar também em Silvia Federici, no “O conto de Aia” de Margaret Atwood, na abordagem do encanto e do estranhamento do estrangeiro de Ursula K. Le Guin, na forma de narrar da literatura indígena presente em Eliane Potiguara e no choque de mundos presente em “Eisejuaz” da Sara Gallardo, “O mundo se despedaça” do Chinua Achebe e “Os rios profundos” do José María Arguedas.

Percorrendo de ônibus uma avenida feia de Campinas todo dia enquanto escrevia, Camila conseguiu captar que esses mundos continuam em disputa no aqui e agora, ainda que sempre tenha alguém pra tentar convencer as incomodadas que não há nada mais que possamos fazer, que tudo isso pertence ao passado ou ao futuro, não a nós.

pela manhã
com sede de ver
o que há para ser visto
com esses olhos que deviam
agora ser mais cumpridos
seus cílios se desgrudam
e ela enxerga

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Você também pode se interessar em ler “Nas minhas andanças literárias, conheci Eisejuaz”.

Lygia, a contemplação e os mistérios que nos movem

Acervo pessoal – Compre livros da autora aqui

Acordei pensando em Lygia Fagundes Telles hoje, um dia após saber que ela se tornou só memória. Minha história com Lygia é confusa, cheia de idas e vindas, como a leitura de contos às vezes pede. A permanência e uma relação de continuidade é algo mais próximo dos romances e dos romancistas — gênero que a autora também explorou, mas que conheço menos — mas contos podem ser lidos esparsos e, ao mesmo tempo, com muito afinco. Você pode passar meses lendo um conto só, como você pode fazer com um romance, apesar da natureza do conto não costumar evocar esse tipo de experiência de leitura. De todo modo, lendo repetidamente ou não, um conto pode permanecer com você por muito tempo. O conto pode até tentar ser mais leve, dar a possibilidade de ser lido avulso ou mesmo ser impresso numas poucas folhas de papel e solto no mundo como um presente, mas também pode se fazer ficar, se tornar permanente dentro de cada um.

Os bons contos são como cometas que viajam pelo universo em órbitas que nem a máquina mais moderna da NASA é capaz de apreender completamente. A gente só sabe mesmo que um dia eles voltam. 76 anos depois, como o caso do cometa Halley, ou antes. E nesse retorno, ele bate diferente. Ao menos os contos da Lygia sempre foram assim pra mim: misteriosos, cheios de camadas e feitos para se deslocarem sem parar até enfim voltar para aqui dentro. E esse regresso sempre acontece quando eu estou pronta para perceber tudo diferente, ainda que eu não saiba disso na hora.

Uma temporada com uma leitura é suficiente para você ficar com alguns personagens, sensações e experiências pra sempre mesmo tendo lido apenas uma vez. Só que esses personagens, sensações e experiências se tornam uma névoa cada vez mais densa e misturada com o seu eu. No fim, você engole o que leu e o que fica é a lembrança de um prato gostoso, estranho ou incômodo que você comeu um dia. Um prato que pode ter te marcado bastante e mudado como você vê o mundo, mas ainda assim você não consegue lembrar exatamente seus sabores, distinguir cada um dos ingredientes, rememorar como estavam as texturas de cada um dos elementos formadores do prato. Você só se lembra muito bem onde ele foi comido, com quem você estava e sente saudade do momento, da experiência em si, ainda que com o tempo até ela vá perdendo seus contornos próprios.

A leitura parece ser só um engolimento, mas o que acontece quando a gente lê é outra coisa, é uma fusão. Esse é o poder de criação do leitor, o texto é digerido até tomar uma forma nova e é essa possibilidade, que sempre pode ser melhor aproveitada quando é ativado por autoras como Lygia, que torna a experiência de leitura algo único, independente do gênero do texto lido. Foi Lygia e suas camadas, seus mistérios e seu indizível que ensinou toda uma geração de leitores a criar lendo. Foi ela que nos deu as enzimas capazes de digerir a linguagem e, assim, conseguir formular a vida mesmo quando a gente não entende muita coisa dela. Foi Lygia, junto com suas amigas, que me ensinaram a ler melhor e querer fazer isso também junto de outras pessoas.

A morte de Lygia me tocou muito, mas sei que apesar da perda desse corpo, ela permanecerá viva na memória dos seus, sejam eles familiares, amigos ou mesmo somente leitores. Os relatos de descoberta de Lygia que tenho lido nas redes sociais desde ontem se entrelaçam com o da descoberta do amor pela palavra e pela arte. Leio todos eles sedenta para entender como se dá esse processo, essa conexão, essa nova história que se desenha quando alguém encontra outro alguém, especialmente quando envolve a literatura. Leio tudo isso sem parar com medo de um dia eu me esquecer que o poder da palavra e da criação também pode ser o que construímos com e a partir de outra pessoa.

E eu, triste, tristinha, agora só consigo pensar que ainda há beleza nesse planeta.

esse texto é uma adaptação da newsletter que enviei hoje para meus apoiadores indicando obras variadas de audiovisual, literatura e pintura. saiba mais sobre como me apoiar aqui. se você gostou de me ler, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe também pelo Medium,  Facebook,  Twitter,  Tinyletter  e  Instagram.

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fulaninha

Acervo pessoal – “Movimento” – Colagem analógica feita por mim

não dorme
horrorizada
com quem deveria ser
mas não é
com o que deveria ter
mas não tem
com o que deveria fazer
mas não faz

é assombrada
pelos equívocos cometidos
por seus crimes sem previsão legal
todos já com audiência marcada
no pior dos tribunais morais

​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ o próprio

pensa
nas rezas devidas
nas penitências nunca feitas
na punição à espreita
toda vez que ousa
ser a mulherzinha endiabrada que é

que pelo menos hoje, mais um oito de março, deixemos a culpa de lado. Sejamos mulherzinhas endiabradas que dizem foda-se para essa ideia de que a gente tem que fazer por merecer para ter dignidade, respeito e paz.

esse poema faz parte do meu livro “eu investigo qualquer coisa sem registro”, obra que foi selecionada para publicação no concurso Poesia InCrível de 2021. se você gostou, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe também pelo Medium,  Facebook,  Twitter,  Tinyletter  e  Instagram.

“Flor de gume”: as mulheres, águas e as travessias

Acervo Pessoal – Compre seu “Flor de gume” aqui.

Monique Malcher escreve como quem conhece bem a água. Suas primeiras frases funcionam como o toque inicial dela no corpo. Aquele momento de arrepio que vem da consciência de que a partir de agora dizemos adeus à terra firme. Nesse instante, a água nos convida a entrar de vez e você simplesmente vai, guiada pela promessa de que é assim que se acostuma com ela. Mas, justamente por conhecer tão bem o curso dos rios, Monique nunca nos deixa acostumar inteiramente com essa imersão.

Entrar na água é um risco. O mar impõe suas ondas aos olhos e ao corpo e os rios e lagoas não são muito confiáveis. A força da água doce é menos conhecida, pode não parecer, mas dali vai vir um nocaute em forma de história. É fácil se enganar e achar que nadar ali vai ser como estar numa piscina de hotel lotada de cloro. Às vezes pode até ser, mas vai saber. Talvez dê para nadar tranquila, talvez não. Talvez o único problema que você encontre seja simples de resolver, como uma alergia ao cloro. Talvez você simplesmente afunde.

As águas de Monique são mornas, turvas e podem ser perigosas. É fácil se deixar inundar por elas lembrando de alguém, pensando numa mãe, numa avó ou numa menina, todas perdidas nessa terra afundada cheia de vida. Tem quem se veja ali, inclusive. Então, no meio de um conto, um objeto há muito tempo perdido evoca uma figura-fantasma de mais uma mulher-menina-lembrança. Estar na água é uma ruptura com o mundo fora dela. As sereias e as rusalkas que o digam.

“Não é exclusividade das casas serem assombradas, mulheres são também. Isso conheço bem”, a autora elabora a partir de uma personagem, nos ajudando a encontrar o que nos assombra em terra firme, mas a gente só consegue ver mesmo quem esses monstros são quando mergulhamos e nos permitimos olhar para o mundo sem definição, sem os contornos que somos acostumadas a lidar.

“Flor de gume” é um livro imagético, que constrói seu ritmo e sua atmosfera a partir das forças da natureza. Água, vento, perna, muralha, asfalto, memória, arte, luto, morte, tudo se mistura para contar essas histórias que tem como tema em comum a filiação, a memória, o eu e a resistência histórica do enfrentamento desses corpos perante e a partir de tanto poder. O que pode acontecer desse encontro?

Ler Monique Malcher é se permitir navegar pelas águas barrosas dos rios e das travessias que partem de lugares desconhecidos interiores e úmidos até chegar a vários outros. Quem guia esse barco são as mulheres que conhecem esse caminho desde muito cedo por terem sido obrigadas a conhecê-lo, mas, por algum motivo, quem ainda está no barco como passageira tende a achar que continua sozinha, mesmo não estando.

Se mulheres são como águas e ficam mais fortes quando se encontram isso acontece, porque as histórias vão se alinhavando e quando são finalmente contadas juntas formam um fio condutor que também funciona como uma possível rede de proteção.

Uma hora as piloteiras e passageiras desses barcos vão se encontrar e se entender, ô se vão. Exatamente como o fogão ganhado pela menina numa rifa encontrou sua avó após dias navegando e serviu de conexão entre elas.

*

Esse é um livro para quem gosta de textos híbridos, que conseguem respirar dentro e fora d’água. Se você quer ler algo que atravesse gêneros textuais a partir da construção de contos bem unidos e de uma poética, se permita conhecer “Flor de gume”. Com essa leitura, somos capazes de pensar a condição feminina e as lutas e heranças, individuais e coletivas, que acontecem como resistência a toda violência que cerca a vida das mulheres. E, mais do que isso, a partir dessa obra, nos tornamos capazes de lembrar melhor o que nos afeta e nos constrói. É importante conhecer melhor essas águas que nos cercam, deixar que elas nos mostrem o verdadeiro rosto de muitos homens.

*

Monique Malcher foi a 2ª paraense a concorrer e ganhar o Jabuti. Sua vitória veio na categoria Contos pelo seu livro “Flor de Gume” na 63ª edição do prêmio. Além de escritora, é colagista, zineira e tem uma carreira acadêmica em construção.

*

Reli “Flor de gume” agora em janeiro de 2022 junto ao Clube Cidade Solitária e adorei, sendo que minha 1ª vez com ele foi diferente. Eu gostei desde o início, e gostei muito, mas tinha rolado um trem meio seilá antes. Na releitura e também na conversa com outros leitores junto da autora, elaborei melhor essa minha primeira impressão perdida. Foi coisa de momento, acho, porque tem livro que tem hora, frequência e companhia certa para fazer a gente conseguir lidar com certos abalos de estrutura. Pensando então no tamanho do desconhecido das águas, na hibridez da escrita da autora e também no próprio ato de gostar, resolvi escrever sobre essa obra desse jeito meio misterioso, híbrido e quase ficcional, como se assim eu pudesse ficar mais próxima dessas personagens.

*alguns trechos dessa quase-resenha foram retirados do post que escrevi para o Leia Mulheres Divinópolis sobre o #DesafioLeiaMulheres2021 de fevereiro.

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“O som do tapa” e o fio quase invisível que une as escritoras

Escrever é uma atividade considerada solitária. É preciso concentração, silêncio, tempo para colocar as palavras no papel, transformá-las em alguma coisa com sentido e depois trabalhar o texto, polir frases, reconstruir parágrafos. Só que escrever é muito mais do que isso. Quem escreve não escreve do nada, dialoga com o que veio antes e com o que está por vir. Um livro puxa o outro, que puxa mais um e esse faz nascer um blog, uma newsletter, um instagram literário, uma ideia, uma vontade de contar uma história ou duas, um desejo de compartilhar cada detalhe. Quem escreve está povoado de vozes e todo o processo de silêncio, concentração e tempo vem da necessidade de encontrar a maneira certa de construir cada texto.

O parágrafo acima é uma especulação, talvez até uma idealização. Foi construído amparado ao que eu acredito como escritora e o A que fecha essa palavra-identidade-desejo significa. Ao meu redor, vejo muitas mulheres que escrevem construindo um universo que as caiba. O apetite pelas letras de uma alimenta a coragem da outra de se colocar no mundo e assim vai. É uma tentativa de construção de potencial e oportunidade que surge a partir da troca, uma rede de aprimoramento que se cria do encontro da identidade com a alteridade e também um desafio de convivência.

Carla Guerson escreve desse lugar. Eu gosto de pensar que eu também. Por isso, em algum momento, a gente se esbarrou. Nesse nosso meio, encontros são desejados. A gente se constrói como escritora assim. A descoberta da Outra é a nossa chance de pescar algo novo no mar de histórias que nos cercam. Quem escreve precisa estar atento, uma boa história pode estar bem ao nosso lado e ai de nós se não tivermos com o olhar afiado o suficiente para captá-la. Quem escreve se coloca no mundo como uma antena parabólica. “O som do tapa” é o resultado dessa perspectiva de escrita e leitura do mundo.

A partir de 28 contos curtos, a autora constrói um livro coeso todo protagonizado por mulheres desabando, mulheres que se sentem deslocadas no mundo que vivem, destituídas da própria vida, fora daquilo que esperavam delas ou de si mesmas. Mesmo com experiências, idades, situações financeiras e sociais diferentes entre si, as vidas dessas personagens se entrelaçam no livro pelo que elas têm em comum: o impacto na subjetividade que o machismo e outras questões pessoais ou sociais que atingem algumas mulheres específicas podem trazer.

Em poucas páginas, Carla dá vida a um mundo de personagens complexas que mesclam questões individuais e atravessamentos sociais, sem jamais reduzi-las somente a seus sofrimentos, tornando cada uma dessas mulheres um alguém diferente, apesar do que o mundo quer de cada uma delas ser mais ou menos igual: a anulação de si. Mesmo abordando temas difíceis e necessários na maioria das histórias e por isso mexer com o leitor a partir do incômodo, há também contos um pouco mais leves, apesar de também críticos, como o incrível “As louças”.

Vale destacar que a autora explora muito do universo íntimo, tratando relações familiares e amorosas de uma maneira que surpreende, mas também é capaz de criar identificação e/ou empatia. “O som do tapa” mescla cotidiano, crítica ao machismo e muita vontade e habilidade de nos surpreender com finais fechados com chave de ouro. Carla Guerson estreia com contos bem escritos, bem conduzidos e de estrutura variada, histórias que se constroem baseadas em detalhes banais e privados que aproximam e afastam quem lê de cada personagem, de cada relação, porque o comum nos lembra o que mais existe com o disfarce de dia a dia, o que mais a gente finge não ver com a desculpa de que é tudo ordinário demais ou particular demais.

“O som do tapa” é um exercício de observação que denuncia o que muitos de nós não têm percebido ao redor de si ou, em muitos casos, até em si mesmas e escrever sobre isso é algo muito menos solitário do que pode parecer. Um livro puxa outro, que puxa mais um conto e esse conto servirá pra puxar mais uma língua e essa língua agora falante puxa outras línguas falantes e assim acontece a descoberta de que todas essas histórias também importam.

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Os tais caquinhos que formam Abigail, eu e você

Virar mais mãe de mim mesma; era o que me restava. Ou nascer de mim como salvação. (pg 130)

Acervo Pessoal – Adquira seu exemplar aqui!

Aos 31 anos, 11 meses e 1 dia, eu posso dizer que já me senti um caco várias vezes. Me vi caco por estar muito cansada, fiquei um caquinho por causa de uma virose que peguei na praia, me senti um pedaço de uma garrafa de cerveja quebrada depois de algumas brigas, episódios de bullying, pesadelos, ressacas e noites de insônia. E nem comento de como me dividi em pedacinhos minúsculos de vidro temperado nas incontáveis vezes que fracassei, nos lutos que me cercaram e naquela vez que peguei dengue e fiquei com o corpo todo dolorido, inchado e coçando.

Estar um caco ou dividida em muitos caquinhos é um estado quase permanente para todo mundo, ainda que se varie os motivos, a frequência e a força dos desastres que afetam cada um. Viver é se dividir em pedaços cada vez menores, se quebrar toda, aprender a cair pra lascar menos as arestas e depois, lentamente ou não, colar tudo ou tentar fazer isso da melhor maneira possível. Na hora de pregar as peças, a gente percebe que nada mais tem lugar certo e que não tem super bonder que resolva algumas coisas. Alguns pedaços, talvez a maioria deles, ficam expostos mesmo quando a gente termina de montar esse mosaico que somos. De pertinho, alguém sempre consegue ver os remendos, mas de longe não. De longe, as pessoas às vezes não veem nada disso, ou veem, mas fingem que não tem nada demais no que parece estar prestes a cair criando milhares de novos pedaços. De longe, a maioria pensa que tudo está funcionando nos conformes, porque não sabe que essa resenha demorou tanto a sair, porque alguém, em meio ao seu caos particular de sempre, sumiu com as anotações que fez para se preparar para mediar o encontro do Clube Cidade Solitária sobre a obra que tenta introduzir agora e por isso teve que recomeçar a escrita desse ensaio/resenha do zero. O que, vamos combinar, é quase uma piada, como é também nosso hábito de fingir que esse processo de recolhimento e colagem de pedaços não acontece o tempo todo e como esse ciclo ganha características especiais quando se é adolescente e pertencer se torna um desejo, um desafio, uma necessidade e quase uma impossibilidade.

Eu odeio o Ivan Lins, eu me odeio e me amo e não me suporto. Não sei qual fundamento me fez vir ao mundo, já que não contribuo pra nada, nem para o meu próprio benefício. Sou imatura e tenho um coração de um tupperware malcheiroso e vazio. (pg.82)

Os tais caquinhos”, livro de Natércia Pontes, é sobre os fragmentos, pensamentos, sentimentos, sonhos, pesadelos e lacunas que quando empilhados formam Abigail. A própria estrutura da obra evoca esses pedaços unidos pela cola do diário da narradora e protagonista que acompanhamos, um diário que parece fazer pouco sentido até que faz algum, porque esta história só poderia ser contada assim, totalmente despedaçada e cheia de durepox. Temos então uma adolescente que vive paixões avassaladoras, o tédio e a escola, como a maioria das meninas de sua idade. Só que a vida de Abigail não é como a delas e as paixões avassaladoras, o tédio e a escola acontecem no apartamento 402. O que significa um lugar de falta, de caos, de sujeira, de nojo, de infestação de insetos e, por incrível que pareça, um lar.

Fiz questão de dormir enrolada nele, como se estivesse encapsulada num casulo de algodão, forte o suficiente para me proteger do impacto de mais um chute. (pg 87)

Natércia Pontes escreveu uma obra que evoca a adolescência em tudo, inclusive na invenção do mundo, da família, da falta, da intensidade, da sexualidade e do significado do eu, sem esquecer dos odores fortes desses corpos tão hormonais e ainda não totalmente compreensíveis a seus donos. Odores comuns que se misturam a um apartamento que parece estar em decomposição e a um pai pouco afeito ao mundo prático e cotidiano.

Lúcio — sempre hipervigilante, sobretudo em situações cotidianas, que não suscitavam perigo — me ouviu. (pg 124)

Esse é um livro que fede. Depois de terminar essas páginas, a frase “o requeijão está estragado” nunca mais será lida ou ouvida sem que esse odor não venha até às narinas pronto para derrubar qualquer um em um nocaute. As descrições incomodam, ensinam o cérebro a fazer o caminho direto para o nojo, nos lembram que algo deve estar podre no reino da Dinamarca — ou da Nova Zelândia — e talvez até dentro de nós mesmos.

Essa é uma obra capaz de nos fazer voltar para cada um dos caquinhos que acumulamos na nossa formação, olhar de novo para aquilo que a gente costuma chamar de passado, mas faz parte de cada um mesmo quando a gente tem o hábito de jogar fora as coisas na hora certa. E também faz mais do que isso, porque Natércia descreve o que ninguém gosta de olhar, cria cenas úmidas que misturam elementos que poucas vezes vemos juntos e que por isso tornam essa história ainda mais próxima, interessante e, talvez, poética. E, desse mesmo modo, ela incomoda o leitor por mostrar a complexidade das coisas. Nada nesse livro é limpinho. Ou simples. Ou mesmo fácil de lidar. Igual crescer.

Lúcio, pai de Abigail, não sabe cuidar nem de si mesmo. É acumulador, neurótico, diz que quer morrer e que é muito bom sentir fome, mas também é amoroso e compreensivo com suas filhas. Confia nelas, inclusive. Conversa, apoia, dá autonomia, junto a uma perigosa passividade de sua parte. Lúcio não é um homem que abandona, é um negligente negligenciado, um cara que simplesmente não está bem. Juntos, os três sobrevivem.

De repente os dias pareciam mais leves, como se uma camada grossa de poeira espalhada sobre todas as coisas e sobre cada pensamento entulhado na minha cabeça tivesse sido sugada por um imenso aspirador de pó. (pg. xx)

O apartamento 402, em todo o seu caos, é uma extensão de Lúcio, a materialização de seus caquinhos se acumulam ali, juntando poeira, sebo e bicho. Ele tenta guardar todos os aspectos de sua vida ali, como se dessa forma, com tudo perto e (quase) visível, ele conseguisse encontrar algum sentido nessa sucessão de acontecimentos que nós não conhecemos bem, mas formam sua existência (logo, também a de suas filhas). E por serem partes essenciais da vida dele, elas também moldam seus quartos cada uma à sua maneira, com suas marcas de pés na parede, suas roupas sujas guardadas, um edredom sonhado ou mesmo com roupas emprestadas das amigas, um certo asseio e um maior nível de organização. Cada caos, uma tentativa de ordenação e registro dos caquinhos que surge como uma necessidade imediata de Lúcio e reverbera nelas.

Fiquei absorta por essa visão por um tempo indeterminado. O velho silêncio que nos unia, confirmando nossa proximidade, nossa vida cúmplice, mesmo que na maior parte do tempo nos comportássemos como frios inimigos debaixo de um teto recoberto de bolor” (pg.96)

“Os tais caquinhos” não é um livro fácil, sua fluidez angustiante e suja não funciona para quem tem estômago fraco. E eu nem falo isso por causa das descrições difíceis de digerir. Natércia construiu uma história que explora a feiura da adolescência, a naturalização da violência machista, a descoberta do eu e a espiral de autodestruição de um homem que sem querer leva sua amada filha mais velha junto a essa mesma lógica. E que, mesmo diante desse contexto, nos faz pensar que Abigail, Berta e Lúcio são uma família unida e em transformação, apesar dos pesares. Eles se amam e podem contar um com o outro. Eles se amam e querem ser melhores juntos. Eles se amam e por isso sobrevivem. Eles se amam… e acho que posso simplesmente dizer: “e ponto”.

Eu não tinha dito que o apartamento 402 era, apesar de tudo, um lar?

A casa dos outros, com seus cheiros adstringentes, lava-roupas trabalhando e geladeiras abarrotadas de produtos, não nos chamava mais. Queríamos o nosso escuro, o nosso casulo comum. (pg 129)

Observação: Cuidado! Ler esse livro pode te dar ânsia de vômito, fazer você pensar em gafanhotos como Clarice Lispector pensava em baratas e te levar a terminar o dia buscando no Spotify Marina Lima para ouvir em pleno anos 20!

Observação 2: Esse livro pode ter o efeito adverso de obrigar resenhistas sedentos por likes a passar minutos olhando fotos de gafanhotos para assim conseguir desenhar um só para fazer uma foto única para acompanhar a resenha/ensaio ainda a ser escrita. Foi o que aconteceu comigo. Espero não acabar sonhando com versões gigantescas desses bichos que Abigail “gosta” tanto.

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