“O som do tapa” e o fio quase invisível que une as escritoras

Escrever é uma atividade considerada solitária. É preciso concentração, silêncio, tempo para colocar as palavras no papel, transformá-las em alguma coisa com sentido e depois trabalhar o texto, polir frases, reconstruir parágrafos. Só que escrever é muito mais do que isso. Quem escreve não escreve do nada, dialoga com o que veio antes e com o que está por vir. Um livro puxa o outro, que puxa mais um e esse faz nascer um blog, uma newsletter, um instagram literário, uma ideia, uma vontade de contar uma história ou duas, um desejo de compartilhar cada detalhe. Quem escreve está povoado de vozes e todo o processo de silêncio, concentração e tempo vem da necessidade de encontrar a maneira certa de construir cada texto.

O parágrafo acima é uma especulação, talvez até uma idealização. Foi construído amparado ao que eu acredito como escritora e o A que fecha essa palavra-identidade-desejo significa. Ao meu redor, vejo muitas mulheres que escrevem construindo um universo que as caiba. O apetite pelas letras de uma alimenta a coragem da outra de se colocar no mundo e assim vai. É uma tentativa de construção de potencial e oportunidade que surge a partir da troca, uma rede de aprimoramento que se cria do encontro da identidade com a alteridade e também um desafio de convivência.

Carla Guerson escreve desse lugar. Eu gosto de pensar que eu também. Por isso, em algum momento, a gente se esbarrou. Nesse nosso meio, encontros são desejados. A gente se constrói como escritora assim. A descoberta da Outra é a nossa chance de pescar algo novo no mar de histórias que nos cercam. Quem escreve precisa estar atento, uma boa história pode estar bem ao nosso lado e ai de nós se não tivermos com o olhar afiado o suficiente para captá-la. Quem escreve se coloca no mundo como uma antena parabólica. “O som do tapa” é o resultado dessa perspectiva de escrita e leitura do mundo.

A partir de 28 contos curtos, a autora constrói um livro coeso todo protagonizado por mulheres desabando, mulheres que se sentem deslocadas no mundo que vivem, destituídas da própria vida, fora daquilo que esperavam delas ou de si mesmas. Mesmo com experiências, idades, situações financeiras e sociais diferentes entre si, as vidas dessas personagens se entrelaçam no livro pelo que elas têm em comum: o impacto na subjetividade que o machismo e outras questões pessoais ou sociais que atingem algumas mulheres específicas podem trazer.

Em poucas páginas, Carla dá vida a um mundo de personagens complexas que mesclam questões individuais e atravessamentos sociais, sem jamais reduzi-las somente a seus sofrimentos, tornando cada uma dessas mulheres um alguém diferente, apesar do que o mundo quer de cada uma delas ser mais ou menos igual: a anulação de si. Mesmo abordando temas difíceis e necessários na maioria das histórias e por isso mexer com o leitor a partir do incômodo, há também contos um pouco mais leves, apesar de também críticos, como o incrível “As louças”.

Vale destacar que a autora explora muito do universo íntimo, tratando relações familiares e amorosas de uma maneira que surpreende, mas também é capaz de criar identificação e/ou empatia. “O som do tapa” mescla cotidiano, crítica ao machismo e muita vontade e habilidade para nos surpreender com finais fechados com chave de ouro. Carla Guerson estreia com contos bem escritos, bem conduzidos e de estrutura variada, histórias que se constroem com base em detalhes banais e privados que nos aproximam e afastam de cada personagem, de cada relação, porque o comum nos lembra o que mais existe com o disfarce de dia a dia, o que mais a gente finge não ver com a desculpa de que é tudo ordinário demais ou particular demais.

“O som do tapa” é um exercício de observação que denuncia o que muitos de nós não têm percebido ao redor de si e escrever sobre isso é algo muito menos solitário do que pode parecer. Um livro puxa outro, que puxa mais um conto e esse conto servirá pra puxar mais uma língua e essa língua agora falante puxa outras línguas falantes e assim acontece a descoberta de que todas essas histórias também importam.

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Os tais caquinhos que formam Abigail, eu e você

Virar mais mãe de mim mesma; era o que me restava. Ou nascer de mim como salvação. (pg 130)

Acervo Pessoal – Adquira seu exemplar aqui!

Aos 31 anos, 11 meses e 1 dia, eu posso dizer que já me senti um caco várias vezes. Me vi caco por estar muito cansada, fiquei um caquinho por causa de uma virose que peguei na praia, me senti um pedaço de uma garrafa de cerveja quebrada depois de algumas brigas, episódios de bullying, pesadelos, ressacas e noites de insônia. E nem comento de como me dividi em pedacinhos minúsculos de vidro temperado nas incontáveis vezes que fracassei, nos lutos que me cercaram e naquela vez que peguei dengue e fiquei com o corpo todo dolorido, inchado e coçando.

Estar um caco ou dividida em muitos caquinhos é um estado quase permanente para todo mundo, ainda que se varie os motivos, a frequência e a força dos desastres que afetam cada um. Viver é se dividir em pedaços cada vez menores, se quebrar toda, aprender a cair pra lascar menos as arestas e depois, lentamente ou não, colar tudo ou tentar fazer isso da melhor maneira possível. Na hora de pregar as peças, a gente percebe que nada mais tem lugar certo e que não tem super bonder que resolva algumas coisas. Alguns pedaços, talvez a maioria deles, ficam expostos mesmo quando a gente termina de montar esse mosaico que somos. De pertinho, alguém sempre consegue ver os remendos, mas de longe não. De longe, as pessoas às vezes não veem nada disso, ou veem, mas fingem que não tem nada demais no que parece estar prestes a cair criando milhares de novos pedaços. De longe, a maioria pensa que tudo está funcionando nos conformes, porque não sabe que essa resenha demorou tanto a sair, porque alguém, em meio ao seu caos particular de sempre, sumiu com as anotações que fez para se preparar para mediar o encontro do Clube Cidade Solitária sobre a obra que tenta introduzir agora e por isso teve que recomeçar a escrita desse ensaio/resenha do zero. O que, vamos combinar, é quase uma piada, como é também nosso hábito de fingir que esse processo de recolhimento e colagem de pedaços não acontece o tempo todo e como esse ciclo ganha características especiais quando se é adolescente e pertencer se torna um desejo, um desafio, uma necessidade e quase uma impossibilidade.

Eu odeio o Ivan Lins, eu me odeio e me amo e não me suporto. Não sei qual fundamento me fez vir ao mundo, já que não contribuo pra nada, nem para o meu próprio benefício. Sou imatura e tenho um coração de um tupperware malcheiroso e vazio. (pg.82)

Os tais caquinhos”, livro de Natércia Pontes, é sobre os fragmentos, pensamentos, sentimentos, sonhos, pesadelos e lacunas que formam Abigail. A própria estrutura da obra evoca esses pedaços unidos pela cola do diário da narradora e protagonista que acompanhamos, um diário que parece fazer pouco sentido até que faz algum, porque esta história só poderia ser contada assim, totalmente despedaçada e cheia de durepox. Temos então uma adolescente que vive paixões avassaladoras, o tédio e a escola, como a maioria das meninas de sua idade. Só que a vida de Abigail não é como a delas e as paixões avassaladoras, o tédio e a escola acontecem no apartamento 402. O que significa um lugar de falta, de caos, de sujeira, de nojo, de infestação de insetos e, por incrível que pareça, um lar.

Fiz questão de dormir enrolada nele, como se estivesse encapsulada num casulo de algodão, forte o suficiente para me proteger do impacto de mais um chute. (pg 87)

Natércia Pontes escreveu uma obra que evoca a adolescência em tudo, inclusive na descoberta do mundo, da família, da falta, da intensidade e do significado do eu, sem esquecer dos odores fortes desses corpos tão hormonais e ainda não totalmente compreensíveis a seus donos. Odores comuns que se misturam a um apartamento que parece estar em decomposição e a um pai pouco afeito ao mundo prático e cotidiano.

Lúcio — sempre hipervigilante, sobretudo em situações cotidianas, que não suscitavam perigo — me ouviu. (pg 124)

Esse é um livro que fede. Depois de terminar essas páginas, a frase “o requeijão está estragado” nunca mais será lida ou ouvida sem que esse cheiro não venha até às narinas pronto para nos derrubar com um nocaute. As descrições incomodam, ensinam o cérebro a ir direto no nojo, nos lembram que algo deve estar podre no reino da Dinamarca — ou da Nova Zelândia — e talvez até dentro de nós mesmos, nos faz sentir cada um dos caquinhos que acumulamos na nossa formação, olhar de novo para aquilo que a gente costuma chamar de passado, mas faz parte de cada um mesmo quando a gente tem o hábito de jogar fora as coisas na hora certa. Só que esse livro faz mais do que isso, Natércia descreve o que ninguém gosta de olhar, cria cenas únicas que misturam elementos que poucas vezes vemos juntos e que justamente por isso tornam essa história ainda mais próxima, interessante e, talvez, poética, e assim ela incomoda o leitor por mostrar a complexidade das coisas. Lúcio, pai de Abigail, não sabe cuidar nem de si mesmo. É acumulador, neurótico, diz que quer morrer e que é muito bom sentir fome, mas também é amoroso e compreensivo com suas filhas. Confia nelas, inclusive. Lúcio não é um homem que abandona, é um negligente negligenciado, um cara que simplesmente não está bem. Juntos, os três sobrevivem.

O apartamento 402, em todo o seu caos, é uma extensão de Lúcio, a materialização de seus caquinhos se acumulam ali, juntando poeira, sebo e bicho. Ele tenta guardar todos os aspectos de sua vida ali, como se dessa forma, com tudo perto e (quase) visível, ele conseguisse encontrar algum sentido nessa sucessão de acontecimentos que nós não conhecemos bem, mas formam sua existência (logo, também a de suas filhas). E por serem partes essenciais da vida dele, elas também moldam seus quartos cada uma à sua maneira, com suas marcas de pés na parede, suas roupas sujas guardadas, um edredom sonhado ou mesmo com roupas emprestadas das amigas, um certo asseio e um maior nível de organização.

Fiquei absorta por essa visão por um tempo indeterminado. O velho silêncio que nos unia, confirmando nossa proximidade, nossa vida cúmplice, mesmo que na maior parte do tempo nos comportássemos como frios inimigos debaixo de um teto recoberto de bolor” (pg.96)

“Os tais caquinhos” não é um livro fácil, não funciona para quem tem estômago fraco. E eu nem falo isso por causa das descrições difíceis. Natércia construiu uma história que explora a feiura da adolescência, a naturalização da violência machista e a espiral de autodestruição de um homem que sem querer leva sua amada filha mais velha junto a essa mesma lógica. E que, mesmo diante desse contexto, nos faz pensar que Abigail, Berta e Lúcio são uma família unida, apesar dos pesares. Eles se amam e podem contar um com o outro. Eles se amam e querem ser melhores juntos. Eles se amam e por isso sobrevivem. Eles se amam… e acho que posso dizer ponto.

Eu não tinha dito que o apartamento 402 era, apesar de tudo, um lar?

A casa dos outros, com seus cheiros adstringentes, lava-roupas trabalhando e geladeiras abarrotadas de produtos, não nos chamava mais. Queríamos o nosso escuro, o nosso casulo comum. (pg 129)

Observação: Cuidado! Ler esse livro pode te dar ânsia de vômito, fazer você pensar em gafanhotos como Clarice Lispector pensava em baratas e te levar a terminar o dia buscando no Spotify Marina Lima para ouvir em pleno anos 20!

Observação 2: Esse livro pode ter o efeito adverso de obrigar resenhistas sedentos por likes a passar minutos olhando fotos de gafanhotos para assim conseguir desenhar um só para fazer uma foto única para acompanhar a resenha/ensaio ainda a ser escrita. Foi o que aconteceu comigo. Espero não acabar sonhando com versões gigantescas desses bichos que Abigail “gosta” tanto.

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A proclamação da vulgaridade é uma defesa pela risada largada

Acervo PessoalTodas as fotos desse post foram originalmente publicadas em meu Instagram.

Não me lembro direito da primeira vez que li a frase “Sexy sem ser vulgar”, mas de quando comecei a ironizar e responder, ao menos mentalmente, a tudo com “Vulgar sem ser sexy”, eu me recordo muito bem.

“Vulgar sem ser sexy” se tornou uma espécie de grito de guerra interno meu, a frase conforto que eu pensava toda vez que sentia um incômodo com o que me era empurrado como obrigação feminina e sonhava com as ideias de liberdade e intimidade.

O que chamam de vulgaridade sempre me pareceu muito mais humano do que o elegante, o culto, o feminino ideal. Mais verdadeiro, algo da essência humana, o segredo que todos realmente dividem, o de sermos bichos (ou que a Sandy também caga).

“A proclamação da vulgaridade ou quantos furos uma calcinha pode ter?”, livro de estreia da Mila Teixeira, foi uma leitura que me lembrou do meu apego adolescente a essa expressão e me divertiu horrores com as boas doses de realidade e identificação que, junto a um mundo de boas referências, tornam a voz da autora única.

Eu amei, porque esse é um livro que mostra e explora a beleza e o horror de sermos o que somos, de não nos levarmos tão a sério e da intimidade das portas abertas. Mila é uma mulher que tem como poética o humor, o comum, a banalidade, a risada rasgada e a boa e velha cachorrada.

Terminei a leitura lembrando que as primeiras mensagens que eu troquei com a poeta na rede social Instagram foram sobre candidíase e me senti ainda mais próxima desse livro que conforta e faz rir todo mundo que usa calcinhas furadas, já tomou dipirona vencida, pensa na decomposição da barata que mata e mija demais por prezar sempre por boa hidratação (e Coca-Cola).

Tudo a ver com o #domingodabanalidade, né?

Esse texto foi publicado originalmente em meu perfil do Instagram durante um especial chamado #domingodabanalidadeSe você gostou, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe também pelo Medium,  Facebook,  Twitter,  TinyletterApoia.se e  Instagram.

Sobre o que liga garotas, mulheres e outras

Acervo pessoal. Adquira o livro aqui.

Ousado e bem pensado em todos os aspectos, “Garota, mulher, outras” da Bernardine Evaristo é uma obra relevante que mescla ousadia estética – com uma estrutura narrativa sem pontos finais, cheia de quebras e sem marcação de diálogos – com uma construção de personagens impecável e uma história fragmentada, mas bem coesa.

A partir de doze perspectivas, Bernardine constrói uma colcha de retalhos com histórias que, perpassando principalmente pelo tema da filiação, contam um pouco sobre a diáspora africana e a vida das mulheres negras na Inglaterra.

O livro questiona a ideia de que as experiências e características femininas ou negras são sempre as mesmas, mostrando personagens complexas, de diferentes idades e ideologias políticas e suas vivências, inclusive em relação umas às outras. Nesse sentido, chama atenção principalmente a professora homofóbica que tem como amiga mais antiga uma mulher lésbica com histórico militante e a idosa de 93 anos a favor do Brexit que acolhe e ama sue nete Morgan ainda que não compreenda seu gênero.

Essa relação entre identidades, relações humanas e dinâmicas sociais é construída a partir de uma narração que nos permite conhecer como cada uma das personagens fala, sente, se relaciona, pensa e vê o mundo. Com referências abundantes e uso variado da linguagem, a autora e sua tradutora Camila von Holdefer recriam a sensação da oralidade aproximando o leitor de cada uma das personagens. Toda essa intimidade assim exposta produz a sensação de uma conversa íntima e nos instiga como uma bela fofoca. Essa capacidade da autora em produzir proximidade pode chegar até mesmo a ser incômoda, mas é o que ajuda a afastar esse livro de ser lido somente na chave de um caprichado estudo de personagens para uma peça de teatro.

A sensação da leitura é de às vezes nos fazer sentir no meio de um tumulto de vozes e talvez por isso mesmo, vez ou outra e dependendo do personagem, o texto até lembre o Twitter. Bernardine explora como a linguagem diz muito sobre cada falante para construir as personas dessa história, optando por não descrever diretamente as particularidades de cada uma, mas mostrar as personalidades a partir de situações, reações e pensamentos, levando em conta como a escolha das palavras diz muito sobre origens, referências, gerações, amizades e até mesmo sobre como as pessoas querem se apresentar para o mundo. A importância desse critério ganha contornos especiais na história de Morgan/Megan, mas também se faz presente na construção das diferenças entre mães e filhas.

Como essa é uma narrativa focada nas experiências de mulheres diversas e uma personagem não-binária, todas relacionadas, ao menos indiretamente, com a imigração, a violência masculina, racista, lgbtqiafóbica e xenófoba faz parte da trama, sem, no entanto, definir suas personagens somente a partir desses fatos em comum.

Chama atenção também como a autora conseguiu conduzir tantas personagens a um evento em comum, evidenciando assim seus conflitos, contradições e diferenças, mas também suas semelhanças e o mosaico que compõe, de certa forma, a Inglaterra contemporânea e sua história.

“Garota, mulher, outras” é um livro recomendadíssimo, desses que mostram que a literatura é sempre política, seja a feita por Bernardine Evaristo ou por um homem branco aleatório falando sobre escrever, e isso não diminui seu poder, alcance e impacto, inclusive estético. Se literatura serve pra gente elaborar a vida e a condição humana, ela será marcada sempre por essa batalha entre identidade e alteridade que envolve a leitura mesmo entre os mais semelhantes.

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Algumas notas sobre Cães e Grilos

“Cães”, obra de estreia da escritora baiana Júlia Grilo, me encontrou durante uma conversa com uma amiga. Esse não foi um encontro fortuito, mas nele também não fui parte ativa, o livro foi sujeito aqui, ainda que tenha sido apresentado por intermédio de alguém. Não me entenda mal, o arquivo não surgiu do nada no meu Kindle, mas Cafeína já estava comigo antes mesmo de eu começar a ler, porque eu também tive cachorros na infância e todos eles sempre foram parar no meu quintal.

Desde as primeiras páginas, Cafeína e a narradora humana me pareceram próximas demais de quem eu fui, sou e provavelmente serei. Posso dizer que as pequenas rebeldias das duas me encontraram de alguma forma, seja na via da identificação, seja na do desconforto. Talvez agora seja a hora de falar que esse não foi um livro fácil de ler, apesar de eu ter amado a experiência por n motivos, inclusive o de ter encontrado no texto uma fluidez de quem gosta de conversar, ouvir e refletir sobre tudo e todos. Júlia Grilo estreia com uma história incômoda, essa é a verdade. Júlia quer que a gente termine o dia pensando em sujeição, poder e alteridade e isso está evidente em todas as suas páginas.

A mistura de elementos autobiográficos com a criatividade do olhar da narradora para os animais faz dessa história um romance com elementos de formação, como o amadurecimento da cadela e da menina, marcado pela perseguição de uma ideia, de um questionamento, de uma reflexão filosófica que faz a gente se sentir transitando em um texto híbrido, que brinca de ser ensaio quando ele quer, falando inclusive de amor. Essa simbiose de temas e estruturas nos faz pensar no bicho humano, esse que, como mostra a autora, não se coloca como um animal mesmo sendo um. E é na violência que a covardia de não se ver como bicho às vezes toma forma.

Nesse sentido, chama a atenção como a autora aborda temáticas relacionadas com machismo, racismo e classe, fazendo uma miscelânea com as experiências da cadela e da narradora que tangenciam o sexo e até a cor de pele e pêlo, trazendo a partir do animal a crítica aos comportamentos, práticas e problemáticas humanas que aproximam as duas espécies a partir da identificação pela obrigação de subordinação feminina.

Esse é um livro que faz a gente pensar em todo o antropoceno, ir longe, querer brigar com quem exclui os bichos do céu (e do inferno) mesmo sem acreditar nessas coisas, mas confesso que, em meio a esse mundo de reflexões, eu pensei, principalmente, nos cães que amei, nos cachorros que conheci, nos peludinhos que um dia vi passar pela calçada.

“A existência de Cafeína escancarava as minhas limitações e deixava-as mais robustas. Ela era tão diferente de mim — e ainda assim vivia.” 

Os meus

Meu primeiro cão veio com nome e história. Faruck, o primeiro de seu nome, chegou na minha casa antes de completar o desmame e eu, junto da minha mãe, o alimentei com fórmulas caninas ideais para aquela situação. Tamanha precocidade não foi por escolha dos meus pais, deixo claro. Meu primeiro cão foi, antes de meu, um presente rejeitado que a filha adolescente de uma colega da minha mãe ganhou de um ex-namorado.

Faruck era um pinscher tamanho pp preto com peito e barriga e algumas patas brancas, com detalhes minúsculos na cor de caramelo. Adorável e estranhamente humano e adulto, ele dormia no quintal, mas passava todo o resto do tempo dentro de casa. Sendo adorável, muito humano e adulto, ele era considerado limpo o suficiente pra isso. Faruck morreu em um acidente idiota quatro ou cinco anos depois dele chegar na minha casa. Independente da seriedade da minha narração, risadas desoladas seguidas de pedidos de desculpas surgem sempre quando eu narro o acidente que tirou sua vida: Faruck saiu em disparada com medo de ser pego fazendo xixi fora do lugar, escorregou no próprio xixi e bateu a cabeça na quina da porta da cozinha, caindo morto na hora.

Um mês depois, buscamos na casa de um jardineiro conhecido do meu pai um outro cachorrinho. Faruck, o segundo, era diferente de seu antecessor, apesar de ter ganhado o mesmo nome. Não era tão pequeno assim, era todo marrom e foi desmamado na hora certa. Faruck viveu 17 anos e 6 meses e, cá entre nós, era parente de um pinscher com certeza, mas não um pinscher puro. Faruck foi meu melhor amigo e também o melhor amigo do meu irmão. Eu poderia escrever linhas e mais linhas contando como brincamos juntos, como nos apoiamos, como fomos íntimos mesmo nas minhas fases mais distantes, como eu tentei compensar minhas ausências anteriores cuidando muito bem dele no fim da vida, respeitando inclusive a morte como uma possibilidade. Faruck foi eutanasiado em abril de 2019 e está enterrado no jardim da casa dos meus pais junto ao seu cobertor e bolinha preferidos.

E tem o Billy, que também já veio com nome e história, uma história que parece ter alguns traumas inclusos. Billy está vivo, cego de um olho e é um desses pets que nunca aprenderam a brincar. Billy é um pinscher em teoria, mas tem a carinha redonda como a de um chihuahua, o que combina com o cachorro de colo que ele é, apesar de suas práticas nojentas que o impedem de ficar dentro de casa. Ele é marrom chocolate com detalhes em caramelo, um cachorrinho tão bonito que já foi entrevistado pela tv afiliada da Globo da minha cidade. Um cachorrinho tão bonito que, infelizmente, come cocô, mija em tudo e, se a gente der bobeira, rouba papel higiênico usado e leva pra sua casinha.

Billy e Faruck eram irmãos por adoção, mas rivais. Diferentes, mas semelhantes. A relação deles era complicada, não nego, mas acho que dá pra dizer que havia ali uma rivalidade saudável, que, apesar do ciúme e algumas disputas territoriais, envolvia respeito e até preocupação com o outro. Conforme Faruck envelhecia, mais a gente percebia isso. Billy viveu esse luto junto com a gente.

Se a casa virou território ilegal para meus cachorros foi por causa do acidente que tirou a vida do que veio primeiro, mas a proibição quase total só veio mesmo quando o Billy e suas nojeiras chegou. Faruck I, Faruck II, Billy, todos são ou foram cães de quintal, talvez cães de quintal privilegiados perto de Cafeína, mas cães de quintal. Eles tinham espaço para correr e brincar, vacinas em dia e, por serem tão pequenininhos, viviam sendo carregados pra dentro nos dias após banho, provando que o privilégio de ser fofo é um fato canídeo, ao menos para os cães desse tipo. Billy que está vivo, apesar de velho, pode confirmar.

“Essa história pode parecer ter pouca ou nenhuma relação com Café, mas tem muita. Café não se fez sozinha, tampouco prontamente. Seu corpo é também produto de uma ação conjunta de várias mãos, várias mãos de vários tipos, tipos que apalparam e acariciam em ordem de forças diferentes; forças que a atravessaram em varias direções.”

Voltando ao livro

Ler “Cães” foi uma experiência que envolveu lidar com o meu luto pelos bichos da minha vida. E também o luto por todos os outros bichos, domésticos ou não, que eu inclusive como mesmo após mais de dois anos de vegetarianismo. Ler “Cães” me fez pensar em dominação e no quanto é preciso desaprendê-la. E eu me pergunto agora: e é mesmo possível desaprendê-la por completo?

“De tão dessemelhantes, eles ligaram-se um ao outro e suas dessemelhanças fizeram par”

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O poema em linhas porcas por Álvara de Campos Feios

Parodiando clássicos para falar de ontem, hoje e amanhã

nunca conheci uma mulher que tivesse pulado faxina
todas as minhas conhecidas têm sido campeãs em limpeza e organização
e eu, tantas vezes nojenta, tantas vezes porca, tantas vezes feia,
eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
indesculpavelmente suja

eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
eu, que tantas vezes tenho sido ridícula, absurda,
que tenho sujado com os pés publicamente meus tapetes sem etiqueta,
que tenho sido grotesca, mesquinha, nada submissa e arrogante
que já não tenho mais sofrido com cascalhos e retalhos pelo chão, nem me calado sobre
e quando tenho calado, tenho sido mais ridícula ainda, limpando sem querer

eu, que tenho sido cômica às mulheres ao redor
eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços vendedores de produtos de limpeza
eu, que tenho feito vergonhas domésticas, descansado antes de limpar
eu, que quando uma obrigação dessas surge, me tenho sempre em outro cômodo
pra fora da possibilidade da labuta
eu, que já não tenho mais sofrido a angústia dessas pequenas sujeiras ridículas
eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo

todas as mulheres que eu conheço e que falam comigo
nunca tiveram um ato porco, nunca sofreram de preguiça,
nunca foram senão princesas — todas elas princesas e servas — na vida…
quem me dera ouvir de alguém a voz feminina
que confessasse não um pecado sexual, mas algo que não foi limpado e organizado como deveria
que contasse, não sobre uma noite de sexo sujo, mas uma porcaria!
não, são todas ideias, se os oiço e me falam
quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi imunda?
ó princesas e servas, minhas irmãs

arre, estou farta de semideusas!
onde é que há outras mulheres sujas e feias nesse mundo?
então sou só eu que sou suja, feia e despudora nesta terra?

poderão os homens não as terem obrigado?
pode, ter sido traídas, socadas, machucadas — mas porcas nunca!
e eu, que tenho sido porca sem ter sido traída, socada e machucada,
como posso eu falar com as minhas superioras sem titubear?
eu, que venho sido suja, literalmente suja,
suja no sentido preguiçoso, indecoroso e repugnante da porqueza.

trapos somos, trapos limpamos, trapos engomamos —
que trapo sujo que é este mundo!

o horror sórdido do que, a sós consigo,
vergonhosa de si, no escuro, cada mulher pensa ter que limpar


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Aproveite para reler ou conhecer o Poema em Linha Reta do Fernando Pessoa, heterônimo Álvaro de Campos, nesse livro disponível de graça para os assinantes do Kindle Unlimited.

“Bem-vindos ao paraíso”: a Jamaica além das belas paisagens

Foto de minha autoria para o Leia Mulheres Divinópolis — Adquira sem exemplar aqui.

Nicole Dennis-Benn nasceu em Kingston, capital da Jamaica, e lá viveu até os 17 anos de idade. Após se mudar para os Estados Unidos para estudar, conquistou o título de mestre em saúde pública com especialização em saúde reprodutiva da mulher e, posteriormente, fez um mestrado em escrita criativa. Atualmente, vive em Nova York com sua esposa.

Ela é uma autora que não teme abordar em sua obra temáticas consideradas delicadas, mas muito necessárias: no seu romance de estreia “Bem-vindos ao paraíso”, traduzido para o português por Heci Candiani, ela trabalha, por exemplo, com questões relacionadas à sexualidade, raça, classe, ser mulher e diferentes formas de exploração, desigualdade e violência, amarrando tudo isso com uma história incômoda de uma família composta por mulheres.

País da fantasia

Já na primeira página do livro, essa expressão é utilizada para falar da Jamaica criada para os turistas estrangeiros, majoritariamente brancos, pelo trabalho dos jamaicanos mais pobres e negros, mostrando que os turistas não conhecem — e nem querem conhecer — a realidade de ninguém dali, ficando restritos aos resorts construídos onde antes as pessoas viviam. O que tem tudo a ver com o nome irônico recebido pela obra no Brasil.

A indústria do turismo engole a Jamaica e a sua população negra, fazendo surgir um desejo coletivo de fazer parte daquele país da fantasia e privilégio, nem que seja a partir do trabalho explorado. Cria-se assim um sonho de um dia ascender de alguma maneira e passar merecer algo daquele universo tão inacessível e, claro, também a inveja de não fazer parte.

Margot, além de trabalhar no hotel como uma espécie de gerente, também é prostituta. Sua história aborda os efeitos do turismo sexual nas comunidades e nas pessoas que fazem parte dela, além de servir para denunciar o quanto esse fenômeno tem relação direta com o racismo e a misoginia, porque os clientes que surgem nessa história buscam na Jamaica corpos exóticos e muito jovens, contando com o desespero pela sobrevivência de tantas meninas e mulheres, e como tudo isso também afeta a vida das mulheres não inseridas nesse esquema a partir da naturalização da exploração e violência contra esses corpos em todos os espaços.

A escola, o colorismo e a descoberta de si e do mundo

Toda a trama de Thandi, irmã mais nova de Margot e filha de Delores, gira em torno de salvá-la de um destino como o delas a partir da educação. Margot faz de tudo para mantê-la em um colégio particular muito caro para que ela se torne médica no futuro. A educação é a esperança, mas ela só parece ser possível de ser alcançada por poucos, alimentando ainda mais a dicotomia entre qualquer menção à meritocracia e o oferecimento de oportunidades reais.

Os dramas de Thandi se relacionam com essa alta expectativa versus o desenvolvimento de sua subjetividade, mas não só. Além de outras questões, estar nesse colégio faz com que ela se sinta excluída, deslocada e queira clarear sua pele, porque na Jamaica ser bonita, mais amada ou ter chances de empregos melhores depende disso. Ela é diferente das outras garotas e garotos da escola e ela e eles sabem muito bem disso. Thandi está fora do lugar e todos fazem questão de lembrá-la disso.

A Jamaica LGBT

A autora desse romance casou-se com Emma Benn inicialmente nos Estados Unidos e posteriormente na Jamaica, tornando sua união com outra mulher um ato político de extrema importância em seu país natal já que o casamento privado delas vazou para o noticiário do país e ficou conhecido como o primeiro casamento lésbico da ilha. A autora, em entrevistas, parece incomodada com essa definição, por considerá-la pouco realista. Outras cerimônias entre casais de homens ou de mulheres já aconteciam, mas essa foi a primeira vez que todo mundo ficou sabendo. Essa exposição causou uma certa aflição, mas, posteriormente, Nicole e Emma consideraram importante demais o que aconteceu, porque fez com que isso fosse discutido no mundo inteiro.

Vê-las narrando as dúvidas, desafios e pequenas alegrias relacionadas ao casamento delas na Jamaica parece algo pouco relacionado com o livro, mas é. Verdene é uma das principais personagens da trama e é tratada como uma bruxa por sua sexualidade e história pessoal. Ela é vista como uma pária por todos e teme, o tempo todo, se somar às estatísticas de violência por isso. As pessoas escrevem palavras bíblicas de ameaça com sangue de animais em sua casa, jogam corpos de bichos mortos em seu quintal e chegam até mesmo a recusar que ela compre produtos em suas lojas. Esse retrato da vida de uma mulher lésbica exposto na obra nos faz pensar na importância que a notícia do casamento de Nicole e Emma ganhou entre pessoas jamaicanas lésbicas, bissexuais ou gays, sempre colocadas na clandestinidade pela situação.

Verdene vive uma história secreta de amor com Margot. No meio de tanta violência, o livro narra a relação delas como um momento de esperança, quase poético, apesar do medo e da quase impossibilidade daquilo continuar, ao menos ali naquele local. O amor, em toda obra, se manifesta assim, como uma possibilidade de deslumbramento e contemplação mesmo no meio do caos e da dor, apesar da autora evidenciar que até na vivência real dele os privilégios de raça, classe e gênero influenciam.

O que a linguagem pode nos dizer?

“Bem-vindos ao paraíso” da Nicole Dennis-Benn foi a leitura do mês de agosto do Leia Mulheres Divinópolis, clube de leitura em que sou uma das mediadoras. O encontro desse livro aconteceu no último sábado, dia 22/08, e contou com a participação da Heci Candiani, tradutora da obra para o português.

Por isso, parte da nossa conversa abordou também a linguagem e sua relação com poder, classe, colonialismo e, claro, construção de personagem. Heci Candiani falou conosco sobre a pesquisa que fez sobre o inglês jamaicano e chamou a atenção sobre o uso dele no livro e seus desafios de tradução. Quem fala o que é chamado de patuá? Com quem se fala dessa forma? O que não falar inglês jamaicano significa ali? Como um sotaque estrangeiro é visto?

Olhar para as escolhas de linguagem de Nicole, a partir desse debate, nos ajudou a pensar ainda mais nesse livro como um expositor de desigualdades e dinâmicas sociais complexas.


“Bem-vindos ao paraíso” de Nicole Dennis-Benn trabalha a violência de maneira dura, mostrando o quanto ela está presente na vida das mulheres jamaicanas e segue naturalizada e perpetuada pela sociedade. Apesar de em nenhum momento aparentar ser uma obra teórica, o livro também expõe a relação direta dessas violências com o capitalismo e o colonialismo e a desigualdade que ambos fomentam, ainda que alguns perpetuadores de toda essa lógica não estejam em um lugar típico da ideia de opressor. A partir da leitura desse romance, a gente percebe o ciclo da perpetuação de violência que cerca essa família e essa comunidade torna aquele ambiente tóxico para o crescimento do amor, do diálogo e do companheirismo. Esse amor que insiste em crescer e ser desejado, mesmo que em outros espaços, apesar de ninguém ali parecer saber se é permitido que se viva algo que não seja dor e busca pela sobrevivência.


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“Sorte”: uma história sobre destino e mulheres

Acervo pessoal. Adquira seu exemplar aqui.

Sorte é uma palavra constantemente ligada à destino e, por isso, um ótimo título para um livro que busca contar uma história que poderia ser a de várias mulheres esquecidas que nunca puderam atuar ativamente para mudar os caminhos que foram traçados para as suas vidas quando elas nasceram. Caminhos esses que foram definidos por fatores como nascer mulher, nascer branca, negra ou indígena ou vir de uma família pobre.

Com apenas 95 páginas e nomeado com essa palavra de cinco letras e profundo significado, esse livro de Nara Vidal, brasileira hoje radicada na Inglaterra, narra uma história que nos faz refletir sobre as dores que a pobreza, o machismo e a colonização trouxeram para as mulheres.

Focado em Margareth Cunningham e sua família, mas com grande participação de Mariava, uma escrava negra que trabalha na mesma casa portuguesa que as irlandesas, o romance fala sobre imigração, violência, sororidade e exploração dos corpos das mulheres, abordando de forma sutil as diferenças dessa exploração entre mulheres negras escravizadas e mulheres brancas pobres e imigrantes.

A família para a protagonista não se apresenta como um espaço de conforto, companheirismo e amor, mas como um local de disputas, abandono e dor. Apesar de haver um carinho entre as irmãs, os homens da família parecem pertencer ao grupo apenas como detratores de todas as mulheres dali. O pai, por exemplo, insistiu em tentar ter filhos homens a todo custo, porque as várias filhas mulheres não serviam para ele.

O livro se baseia em fatos históricos, como a Grande Fome na Irlanda, a escravatura no Brasil e a existência de conventos católicos irlandeses que “acolhiam” mulheres caídas e cria, a partir disso, um romance que é marcado também pelo não dito, como toda a história das mulheres. Sem perder a chance de demonstrar o quanto o catolicismo, forte nos países que atravessam a vida dessa família, atua e afeta na vida das mulheres.

A partir de uma narrativa unida pelo compartilhamento de uma história sobre uma ilha mágica de esperança, fantasia e mentira, Nara Vidal escreveu sobre essas mulheres — e seus filhos — esquecidas e esquecidos enquanto personagens e pessoas, essas pessoas que ainda moram, na história oficial, na literatura e até nas histórias populares, no lugar anônimo reservados às Outras e Outros. O livro levou o terceiro lugar do prêmio Oceanos em 2019 e foi publicado pela Editora Moinhos.


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“Shirley”: mulheres, loucura, machismo e escrita

Imagem de divulgação

Quando mulheres escrevem histórias de violência, horror, mortes, monstros e fantasmas, a sociedade se incomoda. Ninguém espera que a mente feminina seja capaz de criar algo que fuja dos estereótipos que nos são empurrados desde a infância. Ninguém espera que mulheres sejam capazes de falar do horror e do que perturba a humanidade, quando tudo que é visto como feminino precisa ser fofo, tranquilo, bondoso e materno.

Esse estranhamento torna as mulheres que criam ou consomem essas histórias objetos de curiosidade. Afinal, a sociedade patriarcal usa esses estereótipos e muitas outras coisas como ferramentas de controle, por isso estigmatiza certos comportamentos e tenta ensinar para as outras, a partir dessa estigmatização, como elas devem se comportar sob pena de serem as próximas loucas, estranhas, esquisitas e deslocadas.

Shirley Jackson, um dos grandes nomes do terror, nasceu no dia 14 de dezembro de 1916 e morreu aos 48 anos. Ela escreveu seis romances, dois livros de memórias e vários contos, se tornando referência para autores como Neil Gaiman, Stephen King e Donna Tartt. Ainda não li nada escrito por ela, infelizmente, mas sei que a autora é conhecida por suas histórias de terror, seus personagens atormentados e pela sua capacidade de criar e contar histórias sombrias com bastante verossimilhança. Uma excelente personagem, portanto.

Shirley, dirigido por Josephine Decker, roteirizado por Sarah Gubbins e baseado em um romance de Susan Scarf Merrell, explora a autora como personagem, brinca com o imaginário social sobre a mulher que escreve, especialmente temas como terror e mistério, e assim também expõe o terror doméstico e as consequências mentais dele. A obra então não pretende ser uma cinebiografia ou algo assim, ela somente usa uma pessoa que existiu como uma base e inspiração para se criar uma personagem, quase como a protagonista do filme faz com sua convidada.

A história do filme parece simplória e cotidiana: Shirley (Elisabeth Moss) e seu marido, professor e crítico literário, Stanley Hyman (Michael Stuhlbarg) recebem um casal de recém-casados, Fred (Logan Lerman) e Rose (Odessa Young), para uma temporada. O objetivo é que eles fiquem por lá até que consigam se estabelecer e encontrar um lugar para eles. Mas essa convivência entre os casais, que parece tão boba, dá bastante pano para manga.

Na cena inicial, Rose lê o último conto de sua futura anfitriã com admiração e tenta comentar sobre ele com Fred. Fred nem liga. Essa cena tão curta, que surge antes de termos qualquer outra informação a mais, é um indício do que está por vir e expõe o quanto o machismo é algo que afeta e afetará a vida dessas duas mulheres.

A loucura, na obra, aparece como um estigma que atinge Shirley enquanto mulher solitária, muitas vezes em sofrimento, e escritora de terror, mas também como a palavra mais fácil de atribuir para qualquer mulher. Todas as mulheres, mesmo as donas de vidinhas invisíveis e insignificantes sob a ótica dos homens, podem ser doidas se seus maridos falarem que elas são e o filme usa essa ideia para falar sobre os relacionamentos amorosos em foco, enquanto também constrói uma crítica ao todo.

No fim, para os homens, donos do mundo, todas as vidas femininas são vidinhas que acontecem em segundo plano e nem possuem tanta importância assim. Mesmo Shirley sendo uma escritora tremenda, ela se sente dependente de Stanley e todo o jogo psicológico que ele faz, porque, apesar de tudo, acredita que precisa de uma validação masculina para existir como escritora — ou mesmo pessoa — para o mundo.

Isolamento, autoestima, bloqueio e processo criativo, parceria, solidão, casamento e maternidade, tudo isso são temas abordados nessa obra que, apesar de ter um caráter cotidiano e caseiro, consegue criar tensão a partir do incômodo. Algo muito ruim parece estar sempre prestes acontecer, como em uma boa obra de suspense, mas a gente logo descobre que algumas ruindades podem estar tão infiltradas no dia-a-dia comum das mulheres que podem passar despercebidas com grande facilidade.


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“Os sete maridos de Evelyn Hugo”: uma ficção sobre os bastidores da velha Hollywood

Acervo Pessoal — Capa do livro versão TAG

“Acho que ser quem a gente é — de verdade, e por inteiro — sempre vai exigir nadar contra a corrente.”

Como é ser uma celebridade? Como é ser uma mulher celebridade na Hollywood dos anos 50, 60, 70? O que a fama te dá e te tira? Quão próximo e quão distante pessoas famosas estão de nós, reles mortais? Nesse livro de Taylor Jenkins Reid, traduzido para o português por Alexandre Boide, recebemos algumas respostas para essas perguntas, ainda que a partir de um romance ficcional.

“(…)se você disser para uma mulher que sua única qualidade é ser desejável, ela vai acreditar”

Evelyn Hugo é uma estrela, uma sex symbol, um ícone. Ela protagonizou filmes, ganhou um Oscar e viu seu nome se tornar personagem principal de escândalos e notinhas de casamento. Evelyn Hugo se casou sete vezes. Evelyn Hugo é tudo que as revistas de fofoca sempre desejaram acompanhar. Só que aos oitenta anos de idade e acompanhada de Monique Grant, uma jornalista escolhida a dedo, apesar de não ter muita notoriedade, ela quer contar sua verdadeira história.

“As pessoas não são muito solidárias e acolhedoras com uma mulher que põe a própria carreira em primeiro lugar.”

Quase como uma personagem de Sydney Sheldon, Evelyn Hugo surgiu do nada usando sua beleza, charme e vontade de se provar e viver uma vida diferente da pobreza que conhecia. Desde muito jovem, percebeu que ser desejada a colocava em risco, mas também podia proporcionar chances únicas, se ela aprendesse a jogar aquele jogo em que as peças poderosas são todas homens e as mulheres são meros peões.

Guiada pela ambição, a personagem da atriz é muito bem construída. Ainda que esteja no papel de narradora e seu relato apresente sua visão das coisas e a verdade que ela quer mostrar, o que é contado apresenta para Monique as facetas não tão glamourosas de Hollywood, como a objetificação, o incentivo à rivalidade feminina presente no meio, as mentiras, a manipulação, os jogos de poder, as estratégias de marketing e a escolha pelo silêncio. Como mero peão no jogo da fama, Evelyn até conseguiu se sair bem, mas nem tudo saiu tão barato assim.

“Ah, eu sei que o mundo prefere mulheres que não têm noção do próprio poder, mas estou de saco cheio disso.”

Como uma boa história de bastidores, a obra é instigante. Queremos saber quem é a verdadeira Evelyn Hugo, o que ela esconde, quem ela amou de verdade e o porquê dela ter escolhido Monique Grant como sua biógrafa. A história nos envolve totalmente, talvez por causa do recurso de intercalar cenas do presente com a narração das memórias da atriz ou até mesmo com notinhas de fofoca. Mas, muito mais do que estrutura, o que provavelmente nos atrai na obra é a complexa construção das duas personagens principais e o fato de que o livro nos ajuda a criar uma nova ideia, talvez mais realista, do que as mulheres que conhecemos como as mais bonitas da história do cinema podem ter vivido.

 

Arte de capa de Joana Figueiredo para a Editora Paralela

A trajetória de Evelyn Hugo em relação aos desafios e avanços do século XX e do início do XXI — SPOILERS A PARTIR DAQUI — ESTEJA AVISADO

Muito além da fama, da objetificação, do casamento e da ambição feminina, “Os sete maridos de Evelyn Hugo” trata de temas como bissexualidade, homossexualidade, carreira, dinheiro, violência doméstica, sexo e poder.

Ainda que Evelyn Hugo seja uma personagem ficcional e tenha conquistado quantias de dinheiro inimagináveis para a maioria de nós, sua trajetória nos faz refletir sobre as antigas regras vigentes no século XX e que, a partir de muita luta, começaram a ser quebradas.

Evelyn talvez tenha pensado que assim que atingisse a fama, estaria minimamente protegida dos destinos comuns das mulheres de sua época, mas se enganou. Apesar de tudo que pôde alcançar por causa da fama e o dinheiro, a pressão para cima dela em relação aos casamentos, filhos, carreira e beleza existiu e acabou funcionando como uma forma de colocar ela e todas as outras mulheres no seu devido lugar. Controlá-la era impedi-la de mostrar que a vida poderia ser diferente. Puni-la também.

A protagonista dessa história lidou com agressões domésticas e com o peso de ter que esconder sua sexualidade e o amor que vivia de todos. No primeiro caso, todos estavam prontos para fingir não ver as marcas de violência e, no segundo, qualquer mínimo indício poderia fazer sua carreira e de quem a apoiava vir por água abaixo.

“Ser desejada significava a obrigação de satisfazer os outros”

Por mais que fosse famosa, ela era apenas mais uma peça que poderia proporcionar lucro para alguém. O que lembra o #MeToo e as denúncias de mulheres, muitas atrizes famosas, de violência sexual. Tudo muito recente, mostrando que Hollywood ainda joga com a vida e a dignidade das mulheres como bem entende e sempre está pronta para acabar com carreiras femininas para salvar as masculinas.

O armário

O amor da vida de Evelyn, a sex symbol, a mulher que os homens desejavam e as mulheres queriam ser, foi também atriz. Esconder o relacionamento foi um desafio para ambas, porque estar em Hollywood envolvia ter que promover ideais de amor heterossexual, lindo, limpo e feliz. E ela, como objeto de desejo, jamais poderia se mostrar dessa forma.

“Ser bissexual não significa ser infiel […] Uma coisa não tem nada a ver com a outra.”

A atriz, para conseguir o que queria, preencheu todas as suas dúvidas com a certeza de que era preciso esconder, ludibriar, viver aquilo sempre de maneira secreta. Isso também teve um preço.

Nesse sentido, a escolha da autora de citar os sentimentos de esperança que a Revolta de Stonewall evocou nos personagens e como foi feita a decisão deles de apoiar aquele momento a partir do dinheiro e não com uma saída pública do armário foi muito certeira. Especialmente para mostrar o pragmatismo envolvido.

“Imagina se todas as mulheres solteiras do planeta exigissem alguma coisa em troca de seus corpos. Vocês seriam as donas do mundo. Um exército de pessoas comuns. Só homens como eu teriam alguma chance contra vocês. E isso é a última coisa que esses cretinos querem: um mundo comandado por gente como eu e você.”

Violência doméstica

“Em briga de marido e mulher não se mete a colher” é um ditado muito popular no Brasil e que reproduz uma ideia que vai muito além do nosso território. O que acontece dentro de um casamento não é da conta dos outros, mas a regra só vale no caso de manter a violência doméstica naturalizada e escondida e as mulheres seguindo as regras. Como o casamento é sempre colocado como um sonho, função e responsabilidade feminina, tudo fica nas costas delas. Qualquer sinal de fracasso, inclusive a própria violência, é lido socialmente como sinal das falhas femininas.

Evelyn Hugo sente esse peso comum a todas as mulheres ainda hoje e também o da indústria que a emprega e está mais interessada em vender o casal feliz, lindo e queridinho da América do que em protegê-la. A indústria do cinema aqui assume o papel que muitas vezes é da família da vítima, dos parentes do algoz e até o da própria igreja ou mesmo delegacias e judiciário.

Evelyn Hugo se silenciou sobre o que passou e anos mais tarde descobriu que outra atriz que casou com seu ex-marido passou pelo mesmo ao ouvir um doloroso “por que você não me avisou?”. É impossível não pensar em como todo o contexto de competição de mulheres contribuiu para que elas não tenham trocado esse tipo de informação e na importância de manter essa lógica de rivalidade para garantir que os homens continuem podendo tudo, mesmo em espaços que mulheres parecem ser tão poderosas.

As mulheres retratadas na obra fazem tudo para se sobressair. E esse tudo pode envolver até trabalhar com o próprio agressor por querer muito fazer um filme. Decisão que pode incomodar, mas que parece ter sido colocada pela autora para expor quem é essa personagem e o que ela faria para manter seus segredos bem guardados e realizar seus desejos.

“Todo mundo acaba se vendendo por uma coisa ou por outra.”

Motivações

Depois de conhecer os detalhes dessa história, entendemos melhor o que Evelyn Hugo quer ao contá-la nessa altura da vida. Ela quer que sua trajetória passe a ter um significado político, ainda que para isso tenha que admitir falhas, covardias, silêncios, manipulações, dúvidas e arrependimentos. Apesar de tanta exposição, a personagem narra sua vida para a Monique conforme a imagem que quer passar e também como analisa suas próprias memórias.

Evelyn Hugo é uma ficção

Como atriz, Evelyn construiu uma personagem para apresentar ao público, enquanto vivia sua vida. Essa mulher, além de ícone, era humana, com tudo que isso significa. Assim como Monique Grant, a amamos e a odiamos, porque a conhecemos na intimidade. Mas seria Evelyn tão assertiva e decidida quanto ela quer que a gente pense que é? Nunca saberemos.


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