O último show de Milton Nascimento e a minha vã tentativa de registrar o assombro

Acervo pessoal – Registro meia boca do último show de Milton Nascimento – Dia 13.11.22, por volta das 20h.

Somos feitos por memórias. Cada um reage, pensa, descobre e sente o mundo e a si mesmo a partir de uma bagagem construída por um estranho mix que une real e imaginário, vivido e ouvido, experimentado e pesquisado. Nossa identidade se deriva dessa reunião de fragmentos, flashes e miudezas que se dispersam de situações variadas para se fixar neurônios afora como lembranças.

Somos uma colagem em construção. Vamos juntando pedaços de mundo, empilhando recortes de revista, unindo cenas cotidianas com histórias inusitadas, sem nunca isolar qualquer uma dessas imagens, sensações, pensamentos. Somos uma bola de neve de referências unidas organicamente, vindas de nós, dos outros e do mundo, selecionadas por um cérebro sedento por sobrevivência e ainda assim influenciado pelo mundo externo e a repetição de situações banais, a assimilação de imagens nunca vistas e o encontro com a criação humana em qualquer forma. Seja na música, em um corpo que se mexe e se expressa ou numa sequência de palavras que formam uma frase que pra você explica tudo. 

O problema é que o que você pensa ser essencial agora pode ser visto pelo seu corpo como algo a ser descartado daqui a 3 anos, uma década ou 6 meses. E é por isso que eu escrevo. Pelo registro daquilo que em algum momento ganhou minha atenção e eu achei importante o suficiente para não deixar sua lembrança à mercê de circunstâncias cerebrais misteriosas.

Hoje me esforço para escrever sobre o show de despedida do Milton Nascimento. Quase 90 horas separam a escrita da experiência. Não pude escrever imediatamente. O show continuou reverberando dentro de mim, fugindo do controle das palavras, me assombrando, enquanto se tornava lembrança e matéria em um processo de digestão que não inclui a linguagem como a gente conhece.

Dizer que faltam palavras para descrever uma experiência é um clichê humano que toda tentativa de comunicação busca transformar em mito. Contar algo para alguém, antes de ser um compartilhamento diligente de uma experiência que pode fazer surgir ou reforçar uma conexão entre pessoas, é um esforço pelo registro, um teste experimental da memória, uma iniciativa que busca transformar em narrativa um processo não linear de percepção. 

E eu quero tentar fazer isso com esse show, porque preciso prover minha memória de um recurso que, além de organizar o mundo de cenas, sensações, sentimentos e pensamentos que me vem quando penso no que experimentei domingo, servirá, no futuro, para não deixar o tempo fazer sumir com nuances que eu considero essenciais nessa lembrança que ainda tenho, mas não sei se devo. Realmente não sei se devo.

O registro da memória é um desejo impossível, uma busca que a humanidade tenta empreender pela arte, pela cultura, pela ciência e pela convivência humana. Só que o registro desse show é mais do que isso, é uma tentação, talvez até mesmo uma violação de um pacto selado com todos que estavam ali para vivenciar o final de uma carreira de 60 anos numa única noite.

O show do Milton Nascimento começou antes de começar. No telão, uma foto dele abraçado com Gal Costa, nos fazendo lembrar, mais uma vez, que aquele encontro era também uma despedida. Um ritual de despedida, na verdade. Uma celebração da vida e de uma vida que a partir de suas criações foi capaz de encontrar outras tantas. Uma cerimônia que uniu fins e começos, tendo como matéria-prima o canto, a palavra, o choro, o riso, a contemplação, o compartilhamento e o festejo. E a memória, porque é ela que faz tudo isso fazer sentido. 

A voz de Milton evocava a nossa, como se assim, cantando juntos, tivéssemos a força de enfrentar com dignidade o medo da morte que a velhice — e a própria vida — anuncia. E assim Bituca se mostrou inteiro para nós, colocando seu corpo frágil de 80 anos de história no centro de um palco que pulsava o vigor de sua presença, sua vontade, sua relação com a música e o público. E essa cantoria bonita foi se desdobrando em outras vozes e sons feitos por convidados ilustres como os outros membros do Clube da Esquina, Samuel Rosa e Zé Ibarra, mostrando a vivacidade do afeto presente nesse evento capaz de unir com precisão sentimentos antagônicos como a alegria do encontro, a tristeza de ser o último e o júbilo de ouvir “viva a democracia!” após a queda de Bolsonaro. Sentir é mesmo uma força da natureza. 

60 mil pessoas estavam no Mineirão, sendo testemunhas, de corpo e mente, do espetáculo que acontecia dentro de um estádio de futebol lotado, todos esperando como parte de uma coletividade estranha, poder dizer “adeus”, “muito obrigada”, “como você pode escrever pra mim sem nunca ter me conhecido?”. 60 mil pessoas acompanhadas de outras tantas, porque se somos feitos de memórias, carregamos para onde vamos todos os nossos, vivos os mortos. 

Minas Gerais é a terra da memória. Da minha memória, pelo menos. E também da memória da maioria das pessoas que estavam ali, unidas por esse canto coletivo pela arte, pela vida e pela nossa capacidade de lembrar e se tornar lembrança. Minas Gerais aconteceu no Mineirão no último domingo, ao se transformar neste espaço-tempo onde tudo e todos se uniram em uma liturgia contemplativa em que ontem, hoje e amanhã decidiram se confraternizar numa contradição que se resolve apenas no universo da memória. Minas Gerais é onde o tempo se fez presente para ver Milton Nascimento se despedir dos palcos no solo que fez dele um músico.

Ainda bem que pude assistir esse show na cidade que chamo de casa, onde talvez eu nunca precise explicar direito o que foi estar ali, se vendo diante da própria vida, a partir da música, da voz, da poesia de Bituca. Ainda bem que pessoas a quilômetros de distância da Avenida Abrahão Caram, 1001, também puderam assistir grande parte do que vi ao vivo, ampliando a possibilidade de fazer acontecer conversas sobre arte, conexão, vida e desejo de viver e morrer com dignidade e encanto. Ainda bem que a beleza desse momento ficará comigo além da tentativa de registro que esse texto e algumas fotos representam. E ainda bem que eu sempre soube que a linguagem não dá conta de tudo e agora eu posso ter comigo, sem culpa alguma, o assombro não-nomeado de um show que representa a vida como essa travessia estranha que Milton Nascimento, Guimarães Rosa, Conceição Evaristo, Adélia Prado e tantos outros artistas, mineiros ou não, ousaram tentar explicar ao nos fazer sentir vivos, vivíssimos.

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O acontecimento também é a escrita: a proposta literária de Annie Ernaux encontra o aborto clandestino

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A escrita de Annie Ernaux foi um acontecimento pra mim: ler “Os Anos” (tradução de Marília Garcia) me impactou de um jeito que de repente me vi indo atrás de tudo que ela escreveu. Cheguei a cogitar começar a estudar francês para eventualmente poder ler sua obra no original, sonhando em não ter mais que lidar com a busca por uma ponte idiomática entre ela e eu e a espera por novas traduções ou encontros com exemplares em inglês perdidos em sebos. Desisti quando percebi o óbvio: a fluência necessária ainda ia demorar muito e os novos lançamentos da autora pela Fósforo acabariam vindo primeiro, até porque o período de aprendizado de um novo idioma dura uma vida inteira.

Annie Ernaux faz literatura a partir do tempo e da vida. E por causa dela me peguei negociando com ambos, como se eu já não estivesse acostumada a tentar controlá-los. O tempo para essa autora não é simplesmente uma agenda, um relógio, o despertador que se esgoela, é a matéria da vida. E não só a vida dela. Escrevendo a partir de si, Annie Ernaux aborda a memória como vida, identidade e zeitgeist, uma mistura que transforma uma cena pessoal em um retrato de um momento específico na França, um recorte que só ela, tendo vivido aquelas experiências, poderia fazer como foi feito. A memória em “Os anos”, “O lugar” e “O acontecimento” é uma manifestação que abarca os arredores de quem narra, forma paisagens e cenas vívidas, é feita por pessoas além da autora e os lugares que cada uma dessas pessoas tem dentro do que a sociedade definiu nesse recorte temporal que pode caber quase um século ou três meses. É uma mancha disforme feita de gente se espalhando em um papel, não um ponto perdido e fixo no eu.

Além de contar o que lembra, a escritora relata com detalhes o processo de lembrar, e assim transforma sua escrita numa busca que parte do registro da lembrança como tentativa de capturar a sua verdade, o seu sentido da vida. Essa investida em transpor memória na escrita é o desafio impossível que a move. A partir do ato de registrar e formular, a autora tenta preservar a memória, torná-la menos volátil, tirar dela a abstração presente em sua composição, transformá-la em algo menos dela. A escrita então não representa as condições de temperatura e pressões normais, ela é a ferramenta que se usa para tentar tornar sólido o que em nosso universo só se encontra em estado gasoso. É uma busca por materialidade.

Ao escolher a via da memória como projeto literário, Annie Ernaux decide expor seu corpo, sua verdade, seus registros mentais e documentais e todo seu esforço por lembrar e escrever e elaborar. A exposição em si não é o intento final, é o meio, é a única forma de buscar acessar a reminiscência, logo a percepção de tempo tangível para a humanidade e que, de maneira única, forma quem cada um de nós é, enquanto nos une em torno de uma mesma época.

Em “O acontecimento” (tradução por Isadora de Araújo Pontes) isso se torna ainda mais evidente, talvez pela gravidade da situação narrada, da separação desse momento de todos os outros, pelo uso da primeira pessoal do singular ou por tudo isso junto. Quando ela escreve seu aborto e afirma que a única culpa que carregava a respeito dele era a de até então não ter criado algo não ficcional a partir disso que aconteceu com ela, Annie Ernaux revela quem ela é, foi e quis ser e a relação disso com sua motivação para escrever.

Relatar seu aborto clandestino é se colocar novamente exposta ao olhar de julgamento do Outro e de uma época, enquanto toma pra si o direito de lembrar, de falar, de escrever. É uma busca extrema por autonomia, porque vai muito além da escolha que ela expõe e revela como parte de si e direito essencial, é sobre olhar para quem se é até o limite e transformar esse processo criativo em sentido da vida, em algo que vai se fazer chegar em forma de literatura até outras pessoas. Sendo as epígrafes desse livro uma pista desse projeto maior: “Meu duplo desejo: que o acontecimento se torne escrita. E que a escrita seja acontecimento” (Michel Leiris) e “Talvez a memória não seja mais do que olhar as coisas até o limite” (Yüko Tsushima).

E o que torna essa escrita que busca autonomia ainda mais interessante é que a autora tenta dar forma às suas memórias levando em conta uma perspectiva documental, de registro de um momento além dela mesma, ainda que nesse livro a escritora francesa não use o nós e nem a 3ª pessoa, como faz em “Os Anos”. O individual e o coletivo se encontram o tempo todo ainda assim, quando ela narra o que viveu. A conexão dela com os Outros, no caso, principalmente as Outras, não está no jornal ou na lei, está nesse espaço coletivo e público não captado e captável pelo jornalismo ou pelo legislativo francês, esse espaço que ela como escritora tenta acessar ao fazer e ler literatura. O lugar de suspensão da personagem durante a espera pelo aborto parece só dela, mas nunca foi e, justamente por saber disso, Annie Ernaux escreve assim, buscando expor a experiência humana a partir da própria subjetividade, sendo essa subjetividade um eu presente e marcante e também parte de um meio, um mix de self, origens familiares, bagagem cultural, conhecimento e construção social. Um mundo feito de memoração pura e simples, daquilo que foi capaz de fixar nesse cérebro, independente da procedência, da lógica e da utilidade.

Ler “O acontecimento” num fôlego só dá mais sentido ainda pra tudo que está escrito ali. Toda a angústia e desespero que movem essa narradora pela cidade e a silencia pela solidão e pelo interdito estão ali, mesmo quando a gente lê que ela falou de novo com alguém sobre seu desejo de abortar, porque a gente sabe que se ela fez isso foi para lembrar que ainda existe, importa, está viva, quer algo diferente do que está posto. A gente só respira direito quando termina o livro e sabe que tudo passou e que ela conseguiu, tanto abortar na clandestinidade e sair viva, quanto escrever sobre essa experiência de extrema violência sem os ornamentos literários comuns às representações de angústia e desespero. E isso importa, porque a busca por autonomia dessa escritora também tem a ver com encontrar essa crueza sem os artifícios tradicionais, porque para Annie Ernaux autonomia também é fazer a experiência dobrar o que a linguagem impõe a ela e é por isso que ela evidencia, ao longo do livro, que a palavra aborto era proibida para o mundo, enquanto para ela o que nunca fez sentido foi a palavra grávida. Palavra é poder e é por isso que ela narra assim, como se somente a partir desse tensionamento ela pudesse se colocar no mundo de verdade, integrada ao todo, sem estampar no texto de maneira óbvia o desamparo que a acompanhou durante seus três meses de gravidez indesejada, mas ainda assim torná-lo quase palpável para quem a lê.

Annie Ernaux escreve porque quer registrar uma verdade pessoal e coletiva que se dissipa ao ser procurada, ela quer transformar em palavra sentimentos, reflexões e memórias difusas e criar a partir do indizível. Com sua criação e processo criativo, Annie Ernaux tenta controlar o tempo, dominar as próprias vivências, entender como a memória funciona e torna cada um de nós um, mas também nos une aos outros, tudo com base no misterioso poder da palavra, do simbólico, do dito e não dito. Annie Ernaux escreve, porque quer captar o que é a experiência humana total para depois transmiti-la, se tornando parte desse todo, e, por isso, diz ao fim desse livro: “As coisas acontecem comigo para que eu as conte. E o verdadeiro objetivo da minha vida talvez seja apenas este: que meu corpo, minhas sensações e meus pensamentos se tornem escrita, isto é, algo inteligível e geral, minha existência completamente dissolvida na cabeça e na vida dos outros.”

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Você também pode se interessar em ler o ensaio “Igual à narina e também a resenha ““O acontecimento” segue acontecendo aqui e agora: o impacto da adaptação cinematográfica do livro de Annie Ernaux numa leitora brasileira”.

Lygia, a contemplação e os mistérios que nos movem

Acervo pessoal – Compre livros da autora aqui

Acordei pensando em Lygia Fagundes Telles hoje, um dia após saber que ela se tornou só memória. Minha história com Lygia é confusa, cheia de idas e vindas, como a leitura de contos às vezes pede. A permanência e uma relação de continuidade é algo mais próximo dos romances e dos romancistas — gênero que a autora também explorou, mas que conheço menos — mas contos podem ser lidos esparsos e, ao mesmo tempo, com muito afinco. Você pode passar meses lendo um conto só, como você pode fazer com um romance, apesar da natureza do conto não costumar evocar esse tipo de experiência de leitura. De todo modo, lendo repetidamente ou não, um conto pode permanecer com você por muito tempo. O conto pode até tentar ser mais leve, dar a possibilidade de ser lido avulso ou mesmo ser impresso numas poucas folhas de papel e solto no mundo como um presente, mas também pode se fazer ficar, se tornar permanente dentro de cada um.

Os bons contos são como cometas que viajam pelo universo em órbitas que nem a máquina mais moderna da NASA é capaz de apreender completamente. A gente só sabe mesmo que um dia eles voltam. 76 anos depois, como o caso do cometa Halley, ou antes. E nesse retorno, ele bate diferente. Ao menos os contos da Lygia sempre foram assim pra mim: misteriosos, cheios de camadas e feitos para se deslocarem sem parar até enfim voltar para aqui dentro. E esse regresso sempre acontece quando eu estou pronta para perceber tudo diferente, ainda que eu não saiba disso na hora.

Uma temporada com uma leitura é suficiente para você ficar com alguns personagens, sensações e experiências pra sempre mesmo tendo lido apenas uma vez. Só que esses personagens, sensações e experiências se tornam uma névoa cada vez mais densa e misturada com o seu eu. No fim, você engole o que leu e o que fica é a lembrança de um prato gostoso, estranho ou incômodo que você comeu um dia. Um prato que pode ter te marcado bastante e mudado como você vê o mundo, mas ainda assim você não consegue lembrar exatamente seus sabores, distinguir cada um dos ingredientes, rememorar como estavam as texturas de cada um dos elementos formadores do prato. Você só se lembra muito bem onde ele foi comido, com quem você estava e sente saudade do momento, da experiência em si, ainda que com o tempo até ela vá perdendo seus contornos próprios.

A leitura parece ser só um engolimento, mas o que acontece quando a gente lê é outra coisa, é uma fusão. Esse é o poder de criação do leitor, o texto é digerido até tomar uma forma nova e é essa possibilidade, que sempre pode ser melhor aproveitada quando é ativado por autoras como Lygia, que torna a experiência de leitura algo único, independente do gênero do texto lido. Foi Lygia e suas camadas, seus mistérios e seu indizível que ensinou toda uma geração de leitores a criar lendo. Foi ela que nos deu as enzimas capazes de digerir a linguagem e, assim, conseguir formular a vida mesmo quando a gente não entende muita coisa dela. Foi Lygia, junto com suas amigas, que me ensinaram a ler melhor e querer fazer isso também junto de outras pessoas.

A morte de Lygia me tocou muito, mas sei que apesar da perda desse corpo, ela permanecerá viva na memória dos seus, sejam eles familiares, amigos ou mesmo somente leitores. Os relatos de descoberta de Lygia que tenho lido nas redes sociais desde ontem se entrelaçam com o da descoberta do amor pela palavra e pela arte. Leio todos eles sedenta para entender como se dá esse processo, essa conexão, essa nova história que se desenha quando alguém encontra outro alguém, especialmente quando envolve a literatura. Leio tudo isso sem parar com medo de um dia eu me esquecer que o poder da palavra e da criação também pode ser o que construímos com e a partir de outra pessoa.

E eu, triste, tristinha, agora só consigo pensar que ainda há beleza nesse planeta.

esse texto é uma adaptação da newsletter que enviei hoje para meus apoiadores indicando obras variadas de audiovisual, literatura e pintura. saiba mais sobre como me apoiar aqui. se você gostou de me ler, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe também pelo Medium,  Facebook,  Twitter,  Tinyletter  e  Instagram.

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Notas sobre as cidades que afundam em dias normais

Acervo Pessoal – Imagem postada também no meu Instagram
O encontro

Cidades afundam em dias normais, o mais novo romance da escritora, podcaster e ilustradora Aline Valek, foi tema de um encontro especial, com participação da autora e tudo, no meu clube de leituras, o Clube Cidade Solitária.

Durante o papo, fomos 18 pessoas no total, todas bem empolgadas para compartilhar e ouvir as relações e análises que outros leitores com repertórios tão diferentes. Cada comentário puxando o outro, ampliando a leitura de cada um, num movimento que incluiu a própria Aline, que trouxe para gente muitas informações sobre seu processo criativo no todo e também o envolvido diretamente na construção dessa história.

Em certo momento, a escritora compartilhou que esse livro começou a nascer a partir de uma caixa de fotos de pessoas desconhecidas que ela teve acesso. Vendo aquelas imagens sem sequência e sem demais informações, a ideia surgiu.

A narração desse processo me lembrou a descoberta do trabalho da fotógrafa Vivian Maier. Segundo o documentário Finding Vivian Maier, uma caixa de fotos de trabalhos dela foi arrematada por um caçador de tesouros em um leilão. Ao abrir a caixa e observar as imagens, ele suspeitou que aquelas fotos eram mais interessantes do que pareciam e, a partir desse momento, essa fotógrafa que passou a vida na invisibilidade do trabalho de babá começou a ser descoberta.

Esse filme se esforça para tentar contar a história da fotógrafa a partir do que foi sendo garimpado depois de sua morte. Além das caixas com suas fotos e demais pertences, o que restou de Vivian mora na memória de seus antigos e diversos patrões. O trabalho dos que hoje tentam lucrar a partir dessa fotógrafa muito talentosa é um pouco semelhante ao que tentamos fazer ao ler o livro da Aline, ainda que as fotografias presentes em suas páginas não sejam, digamos, visuais.

A dúvida

Como funciona a memória? A minha, a sua e também a nossa. Como se define o que vamos lembrar e o que vai desaparecer nesse lamaçal de rostos, causos, banalidades, violências e urgências cada vez mais frequentes, talvez frequentes demais para continuar a caber nessa palavra? Como a forma que lembramos afeta como vamos ver aquilo tudo agora e no futuro? Como lembrar e esquecer podem se relacionar tanto com buscar e perder? E quão grande pode ser o abismo entre lembrar e contar o que se lembrou?

Como uma cidade se forma, permanece e afunda? Como uma cidade é lembrada? Como uma cidade atravessa o tempo? E a vida de cada um? Como cada pessoa surge, permanece e desaparece? Como se conta a história de um povo?

Somos o que lembramos? E onde anda a verdade se cada um tem a sua?

Como se dá o processo da memória? E das relações? E da criação? A criação surge a partir da vontade de se expressar? De contar a nossa própria história? De elaborar o que se passou? De ser lembrado e de lembrar? De não deixar desaparecer alguma coisa? De não se deixar desaparecer e nem os seus? Como organizar lembranças pode parecer tanto um processo de colagem? Como cada cena pode parecer tanto uma fotografia? Como falar de tempo, processos, escola e adolescência pode nos fazer pensar tanto no Brasil?

O processo

Pensar na adolescência envolve encarar quem somos hoje e como nos tornamos essa pessoa. Pensar em tempo é se ver exposto às contradições do registro e do esquecimento. Pensar na dúvida é perceber que na maioria das vezes descobrir novas indagações é mais interessante ou, no mínimo, mais realista que qualquer resposta que podemos encontrar. Ler esse livro é pensar nesse misterioso processo que mescla o desejo de narrar, de fugir e de ficar.

Os dias normais

As histórias de Kênia, Tainara, Érica, Tiago, Rebeca e outros antigos moradores de Alto do Oeste são relatos individuais de uma cidade alagada em um processo lento e contínuo de abandono. O fim do mundo de cada um desses personagens — e o retorno curioso dessa terra tantos anos depois — foi somente mais uma manchete curiosa para o resto do país. Enquanto a cidade afundava, cada um fazia o que podia para não afundar junto, enquanto tentavam seguir suas vidinhas como antes. Ninguém de fora, estado ou não, deu as caras nesse processo que, de certa forma, foi sendo ignorado no dia a dia por todos que ali viviam. A tragédia virou costume, como de fato acontece no Brasil. A tragédia virou fonte de cliques e lucro, como também acontece todo dia.

Cidades afundam em dias normais, além de abordar temas como memória, amizade, adolescência, vida no interior e fotografia e outros processos, artísticos ou não, fala também sobre desalento, declínio e desesperança em um sentido coletivo. O que nos faz pensar também na chegada e permanência do fascismo, e é possível dizer que não deve haver nada mais brasileiro que esses sentimentos nesse momento.

Aline Valek escreveu uma obra que dialoga com nossas urgências e medos e a experiência de leitura dessa história nos ajuda a elaborar a prática de se viver em meio aos diversos fins do mundo que nos cercam. A gente busca respostas imediatas o tempo todo, mas talvez precisemos, primeiramente, entender de onde partimos. A professora Érica concordaria com isso, porque sabe que as memórias pertencem ao futuro. Só se conta histórias para frente”.

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Leia também: “Buscando Vivian Maier”