Elza Soares: a mulher símbolo do século XX

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Poucas biografias são capazes de abordar a história de toda uma época ao contar a vida do biografado, o livro sobre a vida de Elza Soares é uma dessas poucas exceções. Zeca Camargo, ao compartilhar as histórias da cantora com o leitor, indiretamente fala sobre nascer, viver e envelhecer como mulher e negra no Brasil do século XX.

Elza lidou com a pobreza, com a discriminação e com a violência destinada ao seu corpo por ele ser o de uma mulher. Sua carreira, marcada pelo enorme talento e pela vontade de cantar, foi construída apesar dos obstáculos criados pelo racismo, machismo e miséria. Sua história, mesmo sendo a de uma estrela, expõe a batalha pela sobrevivência de muitos brasileiros da época.

Apesar de sua voz única, ela nunca conseguiu simplesmente seguir o curso de sua fama como vários artistas brancos. A cantora precisou lutar para se manter em evidência, o que fez sua trajetória ser caracterizada pela presença de altos e baixos. Alguns bem baixos mesmo, como a própria reconhece e evita comentar com detalhes.

A música para a Mulher do Fim do Mundo foi inicialmente uma paixão proibida e também um meio de colocar comida na mesa e garantir a sobrevivência dos filhos. Viver de música sendo uma mulher era lidar com um estigma daqueles. No imaginário social, as artistas, por terem uma vida pública, não eram vistas como bons exemplos de mulheres direitas e a figura delas era ligada muitas vezes à prostituição. Seu pai, sua mãe e nem o seu marido aprovavam que Elza seguisse esse caminho. Ainda assim, ela seguiu. Mesmo que de forma pouco linear.

A primeira aparição de Elza no mundo da música é relacionada a esse dilema. Ela se inscreveu para participar do show de calouros do programa de rádio do Ary Barroso sonhando principalmente não com o início de uma carreira musical, mas com o prêmio em dinheiro que aliviaria por uns dias a busca pelo sustento de sua família. A atração pela música a guiava, como uma espécie de desejo secreto, mas sua prioridade era, acima de tudo, sobreviver.

Quando Ary Barroso, num tom de provocação, perguntou o que Elza tinha ido fazer ali e de onde ela tinha vindo, ela respondeu: “Do planeta fome”. As risadas que surgiram na sua entrada no palco foram substituídas pelo silêncio. Ela cantou, ganhou o prêmio da noite e ouviu de Ary que de sua apresentação nascia uma estrela. A frase que iniciou a carreira da cantora impacta ainda hoje — e também incomoda — por expor uma ferida da sociedade brasileira.

A violência masculina marcou presença na vida de Elza. Ela se casou aos treze anos com um um jovem que tentou estuprá-la. Seu casamento foi arranjado por seu pai que, em defesa da honra da filha, obrigou o agressor a se unir a ela. Sua vida a dois com esse homem foi extremamente infeliz e violenta. Além disso, anos mais tarde, a cantora também viveu um relacionamento abusivo com Garrincha. O biógrafo nos apresenta essas memórias com cuidado e expõe como essas práticas eram ainda mais naturalizadas na época, inclusive sobre os olhos da própria vítima e seus familiares, pondo o leitor em contato com a maneira que essas dores ainda afetam a dona dessa história. A sutileza dessa abordagem é interessante para mostrar como a biografada vê o que passou, mas peca ao não trabalhar diretamente a questão social envolvida nessa fase da vida dela.

Se debruçar sobre as memórias de Elza, narradas e comentadas por Zeca Camargo, é encarar o mundo real e entrar em contato com sofrimentos, desigualdades, miséria, intensidade, transformações, conquistas e amor pela música. Ela buscou sempre viver a partir do que ela acreditava ser certo para ela e se tornou um símbolo de uma época por isso.

Elza surgiu quando muitas gravadoras se recusavam a trabalhar com artistas negros e as poucas que faziam isso acabavam investindo menos neles e pode viver para questionar isso e outras tantas coisas. Ela viveu as mudanças sociais do século XX em seu corpo e hoje canta músicas que mostram o quanto o mundo se modificou desde que ela nasceu. Ela transformou e foi transformada, como boa filha do período que representa. Hoje, já em outro século, mostra que na velhice ainda há tempo de se reinventar, curtir e cantar e é essa postura de abraçar as oscilações do tempo que a tornam um ícone agora.

Elza é um nome que nos faz pensar no que o Brasil foi, é e pode ser caso a gente consiga enfrentar os obstáculos que se colocam entre o presente e um futuro menos desigual.


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Roger Waters nos convida a resistir

Acervo pessoal

Roger Waters nos ofereceu um verdadeiro espetáculo sensorial na noite desse último domingo (21/10). Sons, imagens, luzes e até mesmo uns graves que fazem nossas entranhas vibrarem junto. No meio de tanta gente, nem o olfato é poupado. Pipoca, cigarro — legal e ilegal — e algum perfume bem doce, tudo isso bem misturado, invadem as narinas, enquanto a música nos faz sentir vivos como nunca.

Ao tirar os olhos do palco, o espetáculo também continua. Da arquibancada vejo gente, muita gente. São 51 mil pessoas e seus rostos e corpos juntos criam uma cena que me faz pensar no Mineirão como um quadro impressionista: quando olhamos o todo, vemos o público nas arquibancadas e pistas cheias, mas só enxergamos pontinhos manchados se tentamos focar.

Essa multidão canta junto clássicos como Time, Wish you are Here e Another Brick in the Wall, mas nessa última há uma disputa de narrativa. Quando as crianças tiram o uniforme de presidiário e exibem camisas com a palavra Resist estampada, a maioria grita #EleNão e, em oposição, parte do público diz #EleSim, Fora PT e Mito.

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As reações ao intervalo e suas palavras em vermelho variam: palmas, vaias e gritos de empolgação. Todos esperam a vez do “Resist neo fascism” para gritar ainda mais. Quando esse letreiro surge, alguns vaiam uma frase que deveria ser uma unanimidade.

O momento é marcado por mensagens ativistas. Temas como estado laico, guerras e a situação da Palestina são lembrados. Roger nos encoraja a resistir à poluição, ao Facebook e, principalmente, ao neofascismo. Na imagem dos neofascistas atuais, aquela que virou assunto nos jornais do país, o nome Bolsonaro continua tampado por uma tarja vermelha com a frase “ponto de vista político censurado” escrita.

Essa tarja diz mais até mesmo que a frase que estampava essa arte no primeiro show do artista no Brasil durante essa turnê. Ela é uma amostra de como funciona um Estado autoritário. Ela é, acima de tudo, um aviso, principalmente para aqueles que caíram no canto do neofascista tupiniquim. É assim que vai ser, Roger nos diz, nos alerta.

Diante do recente escândalo mundial que envolveu Cambridge Analytica e o uso de dados pessoais para influenciar as eleições estadunidenses, a crítica ao Facebook e ao Mark Zuckerberg merece uma atenção especial, principalmente após a denúncia de que empresários pagaram, sem qualquer declaração para a Justiça Eleitoral, para que empresas produzissem e espalhassem pelo Whatsapp conteúdo, muitas vezes mentiroso, para beneficiar Bolsonaro como candidato frente ao Fernando Haddad. Com isso, o músico evidencia a nova roupagem das ameaças que já conhecemos.

De repente, a capa de Animals começa a surgir a partir de uma imagem de destruição bem na nossa frente e vem Dogs. Depois um balão com um porco começa a circular. Nele está inscrito “Seja humano” em português e em inglês. Está na hora de Pigs.

Roger coloca uma máscara de porco e levanta um cartaz que diz que os porcos dominam o mundo. Depois ele arranca a máscara do rosto e dessa vez levanta outro cartaz. Esse diz ‘Fuck the pigs”.

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O telão zomba de Trump, enquanto a música acontece. As críticas ao atual presidente dos EUA são várias. Até suas falas problemáticas são expostas. Depois do letreiro “Trump é um porco” tomar conta de tudo, ouvimos uma máquina registradora. É a hora de Money. Agora vemos a imagem de diversos líderes políticos se sobreporem numa tela que exibe joias, notas, carros. Bush é um deles.

Com Us and Them, aparecem imagens de rostos diversos, manifestações e policiais posicionados. Em um close, ganha destaque um cartaz que diz Black Lives Matters, Love is Love, Women Rights are Human Rights e questões sobre imigrantes e meio ambiente.

O show continua. Mais uma capa de álbum aparece. Agora temos uma pirâmide de luz diante de nós. Cantamos, sorrimos, nos emocionamos mais uma vez e, após Comfortably Numb, a última música, agradecemos a experiência com todo um estádio gritando “Ole ole ole ole Roger Roger”.

Usando um telão e tecnologias visuais, o ex-baixista da banda Pink Floyd, apresenta algo muito além da música e mais uma vez faz um show que explora imagem, som, sensação, performance e manifesta o que está bem evidente em suas letras: é preciso ser mais humano e resistir ao neofascismo.


Observação: Existem muitas fotos incríveis desse show e de outros dessa turnê, mas eu optei por usar imagens que tirei como fã, porque esse texto é, sobretudo, uma narração de uma experiência.


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