“AmoreZ”: historietas gostosinhas sobre o sentimento mais famoso do mundo

#LeiaComASubjetiva

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O amor é aquele sentimento que de tanto ser falado acabou se tornando sinônimo dos mais diversos tipos de comportamento. Alguns bem problemáticos, por sinal. Regiane Folter, com esse livro leve e delicioso, resolveu falar de uma das minhas facetas do amor preferidas, essa que mostra que ele pode ser tranquilo, cuidadoso e também confortável.

Com mais de vinte pequenos textos, alguns com um caráter bem pessoal, e várias lindas ilustrações feitas pela argentina Magdalena Rivarola, “AmoreZ” fala sobre os processos pessoais e relacionais que envolvem o amor, abordando esse sentimento indo muito além do famigerado casal hétero e branco tradicional que se comporta como se o amor precisasse ser complexo, difícil e dolorido.

Regiane mostra que o amor pode ser leve, mas que essa leveza não é uma mera simplificação de um sentimento. O que torna o amor algo que pode ser suave e delicado é a constatação de que ele é muito mais amplo do que parece e pode ser manifestado das mais diferentes formas, sendo, inclusive, muitas vezes um processo. Especialmente quando falamos de amor próprio, ainda que seja possível abordar a questão de processo numa relação amorosa ou até de mãe e filha.

A rotina é um dos itens cotidianos mais massacrados quando se fala sobre amor, mas nesse livro ela se manifesta como uma parte confortável do banal, do simples, de como as relações e os sentimentos que temos passam a fazer parte de nossas vidas. Relações essas que vão muito além de uma parceria amorosa, se apresentando até mesmo na amizade de humanos com animais.

“AmoreZ” é uma leitura rápida e gostosa, uma ótima pedida para preencher momentos em que buscamos alguma distração que nos lembre um afago ou o cheiro daquela comida conforto que alguém que a gente ama, podendo ser até nós mesmos, vez ou outra faz pra gente se sentir melhor.


Para quem gosta de amor e histórias diversas sobre, aproveito a deixa para recomendar a série “Modern Love”, disponível no Prime Video, streaming da Amazon.

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“Dora e a Gata” e a importância das boas companhias

Acervo Pessoal

Lançada em novembro de 2019, a HQ “Dora e a Gata” veio ao mundo em formato de livro graças ao financiamento coletivo organizado pela autora e a contribuição de vários fãs, curiosos e amantes de quadrinhos. Por causa da publicação de trechos da história, as personagens que dão nome ao livro já tinham se tornado queridas pelo público que acompanha a Helô D’Angelo em seu Instagram antes mesmo da campanha do Catarse ser lançada.

Dora conquistou tanta gente porque seus dilemas são próprios ao início da vida adulta de nossa época. Sonhos que não cabem no que se entende como prático, trabalho desagradável, conflitos com a família, problemas de autoestima e relacionamentos abusivos.

Já a Gata nos seduziu do jeito felino de sempre: chegando de mansinho, precisando de cuidado, aprontando algumas e, claro, sendo fofa e uma boa companhia. Logo, Dora e a Gata se tornam uma boa dupla. Com a felina, com seu jeitinho único, ajudando Dora a entender que precisa se cuidar e também confiar mais em si mesma.

O poder dessa história está em mostrar a importância de se ter uma boa rede de apoio. Quando Caio, namorado da protagonista, age de maneira cada vez mais abusiva, Ceci e a Gata estão ali para Dora, mesmo quando ela quer se isolar de todos. São elas que dão confiança para que a personagem sinta que não precisa de um namorado como ele e a ajudam a perceber que todas aquelas dúvidas e sentimentos que ela tem sobre os comportamentos de Caio com ela não são fruto de exagero, como ele diz que são.

Um dos detalhes que chamam atenção nessa HQ é a presença de cenas cotidianas que incluem a leitura de livros, o uso de celular, as tarefas de casa, as refeições, a escrita, várias trocas de roupas, a hora de dormir e de acordar e afins. A partir desses momentos, Helô D’Angelo constrói a ambientação dessa história enquanto nos conta a natureza das relações que cercam a protagonista e mostram o amor presente em uma bela amizade entre mulheres se transformar em algo mais. E, de quebra, nos dá boas dicas literárias, como “Nossa Senhora do Nilo”, da Scholastique Mukasonga e as autoras Angela Davis, Chimamanda, Harper Lee, bell hooks e Sylvia Plath.

O que fica após o término dessa leitura é a certeza de que as boas companhias são aquelas que nos apoiam, incentivam e nos amparam quando precisamos. Elas são essenciais para que a gente consiga correr atrás dos nossos sonhos e viver bem. Aprendemos isso com essa história e, se a gente for parar para pensar, também com o processo de publicação de “Dora e a Gata” e outras obras independentes. Afinal, um financiamento coletivo ou algo do tipo é, antes de qualquer coisa, um meio de apoiar e dar um voto de confiança a um projeto de alguém. E isso, em tempos em que compartilhamos, na maior parte das vezes por necessidade, tantas denúncias, desgraças e “polêmicas” e poucas coisas boas, acaba sendo uma forma de sonhar junto.


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Lady Killer: esposa, mãe e assassina

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Uma mulher, bonita e bem vestida, cuida dos filhos, da casa e espera seu marido chegar para jantar. Ela usa vestidos acinturados não muito curtos, brincos e colares, um corte chanel bem penteado e a maquiagem da moda. Ela é a cara do american way of life da época e todos os produtos relacionados a ele e poderia ser personagem das propagandas vintage que hoje usamos para decorar nossas casas por causa da estética interessante ou para criticar como o mundo enxergava as mulheres.

Dessa mulher, esperamos um comportamento submisso, solícito, dócil e, claro, bem maternal. Seja na vida real ou na ficção. Só que o mundo não é feito de estereótipos e obras como a história em quadrinho “Lady Killer”, escrita por Joëlle Jones e Jamie S. Rich e traduzida por Raquel Moritz, exploram outros lados possíveis desse clichê. Nessa HQ, conhecemos Josie Schuller, uma mulher exemplar para época, exceto por ser também uma assassina de aluguel nas horas vagas. Horas que, ao contrário do que muitos imaginam, não são muito raras quando se exerce tantas funções consideradas edificantes.

Uma mulher, especialmente nos anos 50, precisa cuidar de sua imagem, tempo e família. Por isso, seus horários não são tão flexíveis como o de um homem. Afinal, ela precisa de desculpas para se ausentar. E, claro, isso a afeta no trabalho. Homens, sejam colegas ou patrões, não costumam ser muito compreensíveis com o peso de tarefas domésticas na rotina das trabalhadoras que os cercam, mesmo quando elas entregam o que é pedido e são super competentes no que fazem. Josie lida com isso, com o assédio e com os riscos típicos do seu serviço e é essa a história que move a obra.

Em seu trabalho, Josie usa e abusa de outros estereótipos de gênero voltados para as mulheres. Ela vende produtos de beleza de casa em casa para poder entrar nos lares das pessoas que precisa matar, circula facilmente em bairros residenciais e age como femme fatal para atrair os homens marcados para morrer. Ela sabe que poucos esperam que mulheres matem e faz disso um trunfo profissional que, apesar de tudo, não parece ser o suficiente para seu chefe, que lucra com a habilidade dela de disfarce e de assassinato, mas se incomoda em ver uma mulher fazer algo assim e ser tão boa nisso.

Joëlle Jones e Jamie S. Rich brincam o tempo todo com o que se espera da feminilidade. Josie é uma mulher ideal em quase todos os sentidos e transita entre as várias representações possíveis do feminino no imaginário social padrão da época, enquanto também luta, estrangula, envenena e mata.

Além do roteiro, merece destaque o estilo dos desenhos, todos de Joëlle, e o uso das cores, trabalho de Laura Allred. Além do vintage, há algo noir neles e a representação da violência contrasta sempre com essa exaltação da feminilidade da personagem e com o que se espera das mulheres. Inclusive quando elas ilustram.


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“A vegetariana”: Han Kang, Coreia do Sul, autonomia e violência

Foto de Mônica de Godoy para o Leia Mulheres Divinópolis — Adquira seu exemplar aqui.

“A Vegetariana”, obra da sul-coreana Han Kang, ganhou o mundo após vencer o Man Booker International Prize 2016 com um romance dividido em três partes, cada uma delas com um narrador diferente. Yieonghye é a protagonista dessa história contada inicialmente pelo seu marido, depois pelo seu cunhado e, por último, por sua irmã.

A decisão de Yieonghye de deixar de comer carne é o que move, inicialmente, o enredo. Tudo parece começar ali, ao menos para os três narradores, e o livro se desdobra numa sucessão de acontecimentos decorrentes desse ato. O vegetarianismo em si não é o foco, ele funciona apenas como a engrenagem visível aos olhos dos outros desse processo que a protagonista passa e o livro aborda.

O marido

O marido estranha a escolha aparentemente abrupta pelo vegetarianismo, marcando em sua narração, que a personagem, até então, gostava de carne e cozinhava belos pratos a partir desse ingrediente. Ele fala isso inicialmente em tom de preocupação, mas logo se percebe que ele só se importa com as possíveis consequências do comportamento dela em sua vida.

O marido evidencia também o quanto vê a esposa como um ser sem vontades, que parece não se importar ou até gostar de servi-lo. Ele a considera uma mulher comum, de um jeito negativo, e fala que a escolheu justamente por isso. O vegetarianismo dela quebra a construção que ele fez sobre a própria esposa e seu próprio casamento. Ele se incomoda com essa repentina autonomia dela, busca uma intervenção familiar e segue ignorando Yieonghye como uma pessoa. Ele a vê como uma serva, inclusive sexual. O que não parece ser nem um pouco chocante para os demais personagens do livro.

Ele parece representar o homem-médio sul-coreano em seus desejos, reações e comportamentos. A construção dele soa como uma crítica aos que parecem tanto com ele. Por isso, em alguns momentos, o que ele conta cria cenas que se assemelham a uma esquete.

A família no todo

A intervenção familiar acontece de forma emocional a partir da mãe: ela oferece um dos pratos preferidos da personagem, comidas com ingredientes caros e chantagens emocionais. Isso tudo mais de uma vez. Já quando envolve o pai, a tentativa de controle se torna obviamente violenta. Ele tenta obrigar a personagem a comer carne por meio da força. Ela age contra isso violentando-se. Todos os membros da família parecem vê-la como um fardo bem antes disso acontecer, somente com a decisão dela de não comer carne, no caso, mas é o pai de fato age contra ela e mostra a figura autoritária e centralizadora que é.

A família, o tempo todo, trata o marido de Yieonghye como uma espécie de vítima dela. Eles entendem que ela é uma vergonha, um fardo, um incômodo para ele e deixam bem claro que ele detém o direito de abandoná-la.

O cunhado

Casado com a irmã da protagonista, ele é um artista que se coloca como um homem que não se importa em ver a esposa ser uma empresária de sucesso. Ele se vê como um cara muito diferente do marido da Vegetariana, mas é apenas uma outra versão daquele mesmo homem. Ele sexualiza, explora e violenta as mulheres que o cercam e usa as vulnerabilidades delas ao seu favor e com a desculpa de que é em nome da arte ou mesmo de si.

A irmã

A narração da irmã de Yieonghye amarra toda a história. A partir de suas lembranças, ela recorda a vida dela e de sua irmã desde a infância. Ela é a única que tenta entender a Vegetariana, olhar para ela de verdade, ainda que limitada pela raiva, pelo perdão talvez condicionado pelo cuidado que ela assume com todos, provavelmente por ser mulher, e pelo amor que sente.

A irmã faz uma investigação interna sobre sua família, quem Yieonghye foi e agora é e também sobre si mesma para tentar entender e lidar com aquela sucessão de acontecimentos. Essa é a parte mais misteriosa do livro, aquela que não dá respostas, apenas cria mais perguntas.

A vegetariana, sua autonomia e a violência

A única voz da personagem está no relato dos narradores sobre os sonhos que a perseguem. Ela não narra a própria história. Tudo que a motiva ou desmotiva fica como um mistério que a gente tenta desvendar junto com a irmã da personagem, sendo que mesmo a irmã narra por uma ótica própria que também apaga Yieonghye, ao menos de alguma forma.

Não narrar a própria história é ter retirada, mais uma vez, a sua autonomia, que parece ser algo que foi podado na personagem durante toda a vida. A violência que Yieonghye nega, ao se tornar vegetariana e depois ao se recusar a comer, é o que sempre a cercou e a impactou. Ela fez parte daquele mundo que poda, controla e violenta e a negação surge dessa tomada de consciência que parece ter vindo a partir dos pesadelos que a atormentam.

Com a leitura, a gente percebe que parte da violência que a cerca e a impacta é exercida principalmente homens e que isso é quase invisível justamente pela naturalização de determinados comportamentos e o que é esperado de cada gênero, de cada relação. Han Kang, com essa obra ficcional que mescla características fantásticas e até de terror com cenas comuns, conta muito sobre o que é ser mulher na Coreia do Sul e aborda também questões como casamento, família, trabalho e sociedade.


Tradutora da obra: Jae Hyung Woo


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“Talvez precisemos de um nome para isso”: um poema sobre cabelos e outras coisas

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o formol cai bem aos mortos
mas a indústria é ótima com eufemismos

Um poema longo, dividido em dez partes, forma o livro de estreia de Stephanie Borges, o “Talvez precisemos de um nome para isso”. Um poema longo, dividido em dez partes, é algo que eu nunca resenhei antes. Já na estrutura, o livro me obrigou a sair da minha zona de conforto literária e encarar versos livres, diretos, um poema que narra e a força das palavras que formam uma obra que trabalha a questão do cabelo de forma pessoal e coletiva sem se perder nas possíveis apropriações do mercado.

“Talvez precisemos de um nome para isso” venceu em 2018 o Prêmio Cepe Nacional de Literatura, na categoria poesia, e trata de temáticas atuais e que parecem conversar com o leitor, apesar do formato incomum para quem, como eu, se acostumou a ler livros de poesia que não são formados por um texto único.

mas não confunda
o poder e o produto
é bom para alguém que continuem acumulando
shampoos condicionadores
antifrizz finalizante
pomada mousse
restaurador ampolas
e esqueçam

Stephanie Borges usa experiências pessoais, referências literárias e musicais, cartas de Tarot, mitologia, informações científicas e receitas naturais de hidratação para criticar as cobranças estéticas e capilares voltadas para as mulheres, sobretudo as negras com seus cabelos crespos e cacheados, e falar sobre cabelos, vida e identidade de uma maneira diferente.

O cabelo feminino carrega significados culturais e esse poema tensiona vários deles. Esses significados perpassam todo o corpo e o comportamento esperado das mulheres, mas é no cabelo que eles parecem mais visíveis, provavelmente por causa da naturalização das cobranças referentes a isso no cotidiano brasileiro. “Não parece tão grave, afinal, é só o cabelo”, alguns podem dizer, sem pensar no quanto as cobranças capilares que permeiam a feminilidade se relacionam diretamente com o racismo, o machismo e ao sofrimento das mulheres associado a eles. Engana-se, entretanto, quem acredita que esse poema é só sobre isso ou mais sobre sofrimento, dor e denúncia do que qualquer outra coisa. Ele aborda também a descoberta de si e a construção de uma outra coisa que foge de tudo isso. O cabelo também é um caminho para se chegar a um outro lugar.

é triste
que existam meninas virgens, mas seus cabelos não
e naturalizemos a beleza pela dor
a ponto
de parecer normal
o ferro quente carinhosamente
chamado de chapinha,
queimaduras de hidróxido de sódio e guanidina
me avisa quando começar a arder
pra gente lavar, tá

Ninguém parece ver muito problema nas intromissões acerca dos fios alheios, ainda que as pessoas usem termos racistas para fazê-las. Falam tanto de domar cabelos e sumir com o volume que nem percebem o quanto essas expressões se relacionam com o desejo machista de controlar mulheres e torná-las cada vez menos notáveis, mais invisíveis. Essas e outras frases são utilizadas para pressionar alisamentos, relaxamentos e tingimentos e simbolizam a pressão social para que as mulheres tenham uma aparência específica, ainda que ela fuja totalmente de sua natureza. Esse controle sobre a aparência feminina que surge nessas e outras cobranças é uma maneira de nos ocupar e nos atrapalhar a buscar caminhos além das possibilidades que nos são apresentadas como as únicas possíveis.

e embora hoje transição seja a palavra
há um tempo era assumir
repare a estranha necessidade
de quem se apropria do que sempre foi seu

Stephanie Borges expõe como toda essa cobrança racista — e machista — sobre os cabelos, especialmente femininos, foi normalizada e afeta, inclusive, o próprio mercado de trabalho que ainda hoje insiste que cabelos cacheados e, principalmente, crespos não sugerem profissionalismo. E vai além ao também fornecer ferramentas para que o leitor repense a estética de nossa época a partir de confrontos entre o que é dito sobre cabelo em diferentes mitologias, como a iorubá, ajudando quem lê a criar e recriar novas imagens para pensar o mundo. Imagens menos colonizadas, eu diria.

Um cabelo não é só um cabelo. Os fios vão muito além da estética, investigá-los é uma maneira buscar o que veio antes e entrar em contato com histórias que ainda não conhecemos. Falar sobre não é ser fútil, é saber olhar ao nosso redor e entender símbolos, comportamentos e culturas. Stephanie, nessa obra, aborda padrões de beleza, racismo, identidade, descoberta e ancestralidade olhando para si e para a sociedade. É justamente nessa mescla entre o privado e o público, o passado e o presente, as velhas e novas ideias, e as diferentes linguagens e referências que a poesia da autora nos impacta.

No fim, os fios de cabelo que formam esse livro se emaranham aos nossos próprios, sejam eles lisos, alisados, relaxados, ondulados, crespos ou cacheados e nos fazem pensar mais sobre e com a própria cabeça. Da raiz até as pontas. Os fios guardam boas histórias e a gente precisa ir atrás delas.

os cabelos guardam
histórias de origens
as passagens do tempo
todo fio
contém vestígios
e carrega desde o princípio
a iminência de sua
queda


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ABCDelas: mulheres profissionais em foco

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Chegou em minhas mãos um abecedário diferente. A cada letra há uma profissão, uma mulher que a exerceu e uma linda ilustração em aquarela para representá-la. O livro é do selo Cia das Letrinhas e foi escrito e ilustrado por Janaina Tokitaka, roteirista de televisão e autora de quarenta obras voltadas para o público infantil e juvenil.

Anésia Pinheiro Machado, a Aviadora, inicia esse livro que conta com minis biografias e historinhas para exemplificar a vida de cada uma das citadas. Depois temos, por exemplo, Nair de Tefé como Desenhista, Maria Firmina dos Reis como Escritora, Kate Warne como Investigadora, Naomi James como Navegadora, Inez Beverly Prosser como Terapeuta, Ng Mui em Kung Fu e muitas outras mulheres que juntas completam esse alfabeto de profissões feito por pioneiras ou quase isso.

Cada uma das mulheres citadas nesse livro carrega em suas histórias uma espécie de enfrentamento ao que se esperava de seu gênero. Algumas, inclusive, também de sua etnia. Praticamente todas sofreram tentativas de apagamento sistemático de suas presenças e ações em algum nível e é por isso que só agora, após várias tentativas de resgate e, principalmente, divulgação com viés feminista, que passaram a ser conhecidas pelo grande público, incluindo crianças.

A importância desse tipo de trabalho estar disponível para meninos e meninas em formato de livro ilustrado está no fato de que desde crianças somos condicionados a acreditar que determinadas profissões são masculinas e outras femininas. Sendo as áreas consideradas femininas vistas como espaços onde o brilhantismo não tem tanta importância ou lugar. Nesse sentido, uma pesquisa que reuniu profissões das Universidades de Nova York, Princeton e Illinois, nos Estados Unidos, concluiu, por exemplo, que meninas, já aos seis anos de idade acreditam que genialidade é algo masculino.

Livros que mostram mulheres de um passado distante conquistando espaços, exercendo profissões diferentes e marcando presença na história acabam por combater estereótipos de gênero, fomentar a autoestima feminina e, de certa forma, transformar significados que damos culturalmente a certas palavras, especialmente quando elas se relacionam com profissões. Quem navega pode ser uma mulher. Quem estuda biologia e geologia também.

Um abecedário de profissões que valoriza mulheres, especialmente aquelas pioneiras, ajuda a construir e sedimentar no público infantil ideias positivas sobre a capacidade feminina. Meninos e meninas que crescem cercados de ideias como as promovidas por essa obra se tornam meninos e meninas que prezam pelo combate ao machismo.


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“Ó ódio que você semeia”: #BlackLivesMatter em forma de YA

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Angie Thomas, autora estadunidense original do Mississipi, conseguiu alcançar o topo da lista de mais vendidos do New York Times com seu 1º livro na semana de seu lançamento. O sucesso da obra, que foi adaptada ao cinema pela Fox e teve sua estreia em dezembro de 2018, se deu, principalmente, pela atualidade e importância do que é debatido nela e a forma direta, testemunhal e de fácil entendimento que essa história, infelizmente tão comum, foi contada.

“O ódio que você semeia” é narrado por Starr, uma adolescente negra que vive em um bairro pobre — e negro — com sua família, mas estuda em um colégio particular repleto de brancos. Ela transita, diariamente, entre esses dois mundos que parecem se excluir, mas coexistem em sua vida e em sua cidade.

Pelo olhar dela, conhecemos sua família, seus amigos, seus vizinhos, seus gostos pessoais e também seus conflitos internos sobre não pertencer, de fato, nem ao bairro e nem ao espaço escolar. Quando ela testemunha o assassinato de um amigo por um policial branco, ela não consegue mais escapar do sentimento que há algo de muito errado no mundo ao seu redor. Algo que ela suspeita desde muito antes de seus pais a ensinarem o que fazer quando um policial a parasse.

“A Starr da Williamson não usa gírias; se é algo que um rapper diria, ela não diz, mesmo que os amigos brancos digam. As gírias os tornam descolados. As gírias a tornam “daquele bairro”.”

A representação do bairro de Starr, com toda a sua complexidade, permite ao leitor conhecer as dificuldades que rondam as famílias da região sem demonizar moradores ou naturalizar as consequências do racismo. A violência ali presente é abordada como uma consequência da desigualdade, da exclusão e do ódio que é direcionado para quem vive ali. Variáveis importantes, mas que, quando são ignoradas — como são constantemente — resultam em mais mortes e na alimentação do ciclo de violência.

“Era uma vez um garoto de olhos castanhos e covinhas. Eu o chamava de Khalil. O mundo o chamava de bandido.”

“O ódio que você semeia” expõe as engrenagens desse sistema feito para manter pessoas negras subalternas e silenciadas, cita muitas referências negras, inclusive o próprio título do livro se relaciona com a música T.H.U.G L.I.F.E do rapper Tupac Shakur, e apresenta uma jornada de herói que envolve amadurecimento, descoberta de si e de sua voz e questões sociais urgentes.

“Mas é engraçado como funciona com os adolescentes brancos. É maneiro ser negro até ser difícil ser negro.”

Racismo, violência policial, desigualdade, voz e denúncia são as palavras-chave desse livro que expõe o que as estatísticas de segurança pública, encaradas como tão frias, diretas e talvez distantes para alguns, dizem de fato. A morte de jovens negros afeta famílias e comunidades inteiras e dizem bastante sobre como o Estado e a sociedade encaram os corpos e vidas negras. Esse debate, tratado no livro de forma tão eficaz, dialoga com a realidade brasileira, apesar das pequenas diferenças em relação ao contexto racial e social entre os países, e ganha uma importância ainda maior em tempos de Bolsonaro presidente e Witzel governador do Rio.


Trailer oficial do filme:


Tradutora da obra: Regiane Winarski


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“Olhos d’água”: histórias de sangue, dor, afeto e esperança

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É possível ver histórias em tudo: nos nascimentos, nas mortes, nas relações que vivemos, no cotidiano, na memória e até nos pensamentos, situações embaraçosas e objetos que nos circundam.

Somos contadores de história, querendo ou não, mesmo quando os relatos que saem de nós tratam sobre nossas próprias vidas e jamais se tornem um texto escrito. Narramos e justamente por isso gostamos tanto de ouvir e ler outras narrações. Narramos como um forma de nos colocar no mundo. Narramos porque precisamos. Conceição Evaristo sabe muito bem disso e por isso cunhou o termo escrevivência para definir a escrita que nasce do cotidiano, das lembranças, das experiências de vida e da cultura de seu povo, o negro. A narração, que é parte inegável da vida humana, ganha contornos políticos quando é feita para visibilizar histórias próximas que seguem ignoradas e se torna uma ferramenta poderosa de voz, preservação de memória, denúncia e humanização.

“Olhos d´água” reúne quinze histórias curtas de dor, sangue, vida, família, amor e morte. Nesse livro, a autora narra a fome, a miséria, a violência, o genocídio do povo negro e dá voz às mulheres negras e suas vivências. Sem esquecer de também mostrar os laços afetivos dos personagens, seus conflitos internos, reflexões e ancestralidade. Os contos escancaram o mundo de exclusão que muitos vivem e outros tantos se negam a ver e humaniza quem a sociedade a todo custo quer desumanizar com personagens humanos que sentem “dor-amor”, “coragem-desespero” e outros tantos sentimentos, entre eles, a esperança.

Conceição Evaristo narra acontecimentos brutais que poderiam ser realidade, mas não de um jeito jornalístico ou sensacionalista. A escrita da autora, muito poética, não explora os corpos vivos, mortos ou marcados para morrer de uma forma impessoal. Ela dá subjetividade, história e relações ao que é tratado comumente como estatística e faz com que aquilo soe como algo próximo ao leitor. Ao não explorar esses casos como meras manchetes, a escritora intensifica o incômodo e faz com que ele dure além do tempo de leitura do conto. Ela evidencia o que é brutal e as consequência da naturalização disso sem tornar seus personagens objetos. O conto “Maria”, “Ana Davenga” e o “Ei, Ardoca” são bons exemplos disso, porque nos apresentam histórias que facilmente estariam no jornal sendo contadas de uma outra forma.

Quando a autora usa palavras como mar-amor, flor-criança e viver-morrer, as contradições entre brutalidade e afeto ficam evidentes. Essa hifenização une muitas vezes antônimos, o que ajuda a compor a oposição entre o estilo de escrita da autora com o que é narrado, nos faz pensar no contraste entre essas histórias com as da elite branca e, principalmente, expõe como a vida é repleta de contradições.

Essa leveza do estilo de escrita, muito marcada pela oralidade, se contrapõe até mesmo com a linguagem dos personagens. Em “A gente combinamos de não morrer”, Bica conta que escreve desde sempre e relata um episódio que aconteceu com ela na escola quando tinha sete ou oito anos. Durante um exercício de separação de sílabas, ela pediu para ir ao quadro negro mostrar as palavras que tinha formado: pó, zoeira, maconha, craque, tiro, comando leste, oeste, norte, sul, vermelho e verde. O que a personagem escreve é uma amostra do mundo que a circunda e que Conceição expõe. Entre as tantas frases bonitas, bem feitas, cheias de sonoridade, há também a denúncia de qual é a linguagem que cerca as crianças negras que protagonizam essas histórias.

A sexualidade se faz presente na vida da maioria dos personagens criados pela escritora e nem todos são heterossexuais. Em “Luamanda”, a mulher que dá nome ao conto deseja e vive seu desejo sem se limitar, inclusive, a se relacionar somente com homens. Ela, ainda que já esteja um pouco mais velha, segue gostando de sexo e buscando viver histórias de amor. Já em “Beijo na face”, uma mulher vive uma história de amor secreta com outra mulher, enquanto está presa a um casamento infeliz e abusivo. Ainda que muitas personagens sofram violência misógina e não tenham acesso ao que chamamos de direitos sexuais e reprodutivos, elas ainda assim tentam se colocar como donas de suas próprias histórias.

O conto que dá nome ao livro e o inicia é movido pelas recordações de uma personagem que busca se lembrar da cor dos olhos da mãe que está distante. É delicado, poético e afetuoso, apesar das memórias narradas denunciarem as dificuldades passadas por essa família. Essa é uma das muitas histórias desse livro que trata sobre maternidade e ancestralidade. Iniciar com ela não é um mero acaso e a gente percebe bem isso quando chega ao fim da obra e se depara com o conto Ayoluwa.

É simbólico que o último conto seja sobre fazer brotar a força da esperança e que isso aconteça numa comunidade que ampara uma mulher em sua maternidade. Embora no caminho até essa história, a gente encontre a esperança surgindo, como acontece no “Beijo na face” e no “Quantos filhos Natalina teve?”, a violência, a exploração do trabalho, o abandono e a morte, principalmente dos homens, é o que se destaca.

Conceição Evaristo escreve sobre sobrevivência e sobre cotidiano, mas não sobre o cotidiano que é contato nas novelas e sim aquele que estampa de forma sensacionalista os jornais feitos de sangue. A autora, por meio da construção de personagens tão eles, tão gente, coloca essas histórias antes tão marginalizadas no centro do debate sem se amparar no senso comum racista e machista que vigora quando essas narrativas partem da visão dos brancos da elite. Com esse livro, a autora mineira transforma uma realidade marginalizada em literatura e denuncia as consequências da exclusão e da discriminação sem deixar morrer a esperança de que um dia isso seja diferente.

Se eu tivesse que definir esse livro numa frase, eu diria que ele é sobre a esperança de estancar o sangramento que o racismo causa.


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Elza Soares: a mulher símbolo do século XX

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Poucas biografias são capazes de abordar a história de toda uma época ao contar a vida do biografado, o livro sobre a vida de Elza Soares é uma dessas poucas exceções. Zeca Camargo, ao compartilhar as histórias da cantora com o leitor, indiretamente fala sobre nascer, viver e envelhecer como mulher e negra no Brasil do século XX.

Elza lidou com a pobreza, com a discriminação e com a violência destinada ao seu corpo por ele ser o de uma mulher. Sua carreira, marcada pelo enorme talento e pela vontade de cantar, foi construída apesar dos obstáculos criados pelo racismo, machismo e miséria. Sua história, mesmo sendo a de uma estrela, expõe a batalha pela sobrevivência de muitos brasileiros da época.

Apesar de sua voz única, ela nunca conseguiu simplesmente seguir o curso de sua fama como vários artistas brancos. A cantora precisou lutar para se manter em evidência, o que fez sua trajetória ser caracterizada pela presença de altos e baixos. Alguns bem baixos mesmo, como a própria reconhece e evita comentar com detalhes.

A música para a Mulher do Fim do Mundo foi inicialmente uma paixão proibida e também um meio de colocar comida na mesa e garantir a sobrevivência dos filhos. Viver de música sendo uma mulher era lidar com um estigma daqueles. No imaginário social, as artistas, por terem uma vida pública, não eram vistas como bons exemplos de mulheres direitas e a figura delas era ligada muitas vezes à prostituição. Seu pai, sua mãe e nem o seu marido aprovavam que Elza seguisse esse caminho. Ainda assim, ela seguiu. Mesmo que de forma pouco linear.

A primeira aparição de Elza no mundo da música é relacionada a esse dilema. Ela se inscreveu para participar do show de calouros do programa de rádio do Ary Barroso sonhando principalmente não com o início de uma carreira musical, mas com o prêmio em dinheiro que aliviaria por uns dias a busca pelo sustento de sua família. A atração pela música a guiava, como uma espécie de desejo secreto, mas sua prioridade era, acima de tudo, sobreviver.

Quando Ary Barroso, num tom de provocação, perguntou o que Elza tinha ido fazer ali e de onde ela tinha vindo, ela respondeu: “Do planeta fome”. As risadas que surgiram na sua entrada no palco foram substituídas pelo silêncio. Ela cantou, ganhou o prêmio da noite e ouviu de Ary que de sua apresentação nascia uma estrela. A frase que iniciou a carreira da cantora impacta ainda hoje — e também incomoda — por expor uma ferida da sociedade brasileira.

A violência masculina marcou presença na vida de Elza. Ela se casou aos treze anos com um um jovem que tentou estuprá-la. Seu casamento foi arranjado por seu pai que, em defesa da honra da filha, obrigou o agressor a se unir a ela. Sua vida a dois com esse homem foi extremamente infeliz e violenta. Além disso, anos mais tarde, a cantora também viveu um relacionamento abusivo com Garrincha. O biógrafo nos apresenta essas memórias com cuidado e expõe como essas práticas eram ainda mais naturalizadas na época, inclusive sobre os olhos da própria vítima e seus familiares, pondo o leitor em contato com a maneira que essas dores ainda afetam a dona dessa história. A sutileza dessa abordagem é interessante para mostrar como a biografada vê o que passou, mas peca ao não trabalhar diretamente a questão social envolvida nessa fase da vida dela.

Se debruçar sobre as memórias de Elza, narradas e comentadas por Zeca Camargo, é encarar o mundo real e entrar em contato com sofrimentos, desigualdades, miséria, intensidade, transformações, conquistas e amor pela música. Ela buscou sempre viver a partir do que ela acreditava ser certo para ela e se tornou um símbolo de uma época por isso.

Elza surgiu quando muitas gravadoras se recusavam a trabalhar com artistas negros e as poucas que faziam isso acabavam investindo menos neles e pode viver para questionar isso e outras tantas coisas. Ela viveu as mudanças sociais do século XX em seu corpo e hoje canta músicas que mostram o quanto o mundo se modificou desde que ela nasceu. Ela transformou e foi transformada, como boa filha do período que representa. Hoje, já em outro século, mostra que na velhice ainda há tempo de se reinventar, curtir e cantar e é essa postura de abraçar as oscilações do tempo que a tornam um ícone agora.

Elza é um nome que nos faz pensar no que o Brasil foi, é e pode ser caso a gente consiga enfrentar os obstáculos que se colocam entre o presente e um futuro menos desigual.


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Inferior é o car*lho: o que a ciência diz das mulheres pode estar errado?

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“Quem somos nós?” é uma dessas perguntas que são uma espécie de gatilho para questionamentos sobre comportamento, constituição física, inteligência, sociedade, evolução, passado, presente e futuro. É uma indagação tão frequente e tão ampla que se tornou cerne de diversas áreas da ciência. Mas, dentro do cânone científico, quem faz parte desse “nós”?

Homem, por muito tempo, foi o principal sinônimo de ser humano e de humanidade. Mesmo atualmente, seu uso é frequente, ainda que críticas a utilização dessa palavra nesse contexto sejam cada vez mais habituais. Esse pequeno detalhe diz muito sobre qual parte da humanidade é foco de pesquisas e é considerada detentora do conhecimento científico. A questão é: de que maneira isso afeta como a ciência — e também a sociedade — vê as mulheres hoje?

“Inferior é o car*lho”, de Angela Saini”, é uma investigação jornalística que questiona, por meio da própria ciência, a visão científica de homens e mulheres.

Eles são mais inteligentes e elas mais emocionais? Elas são castas e eles promíscuos? Elas não contribuíram ou contribuíram muito pouco para a sobrevivência e evolução da humanidade? E a cultura? Todos esses questionamentos e muitos outros são trabalhados pelo livro a partir da apresentação do que diziam no passado, muitas vezes bem recente, e o que apontam as novas pesquisas científicas que contestam essas teorias.

A maioria desses novos trabalhos citados por Angela foram elaborados por mulheres. Elas, ainda que lentamente, começaram a aumentar sua presença nesse espaço visto como masculino — e branco — e, assim, fazer parte da versão científica do “Quem somos nós?”. Isso tem sido benéfico para a discussão sobre o sexismo da ciência e nos faz questionar o quanto o ainda pequeno número de mulheres no topo das carreiras científicas é também causa e consequência de como a ciência tratou as mulheres em sua história.

A obra expõe o fato de que a ciência, apesar do método científico, também é influenciada pela cultura vigente e o quanto a visão dos cientistas sobre sexo e gênero afeta o interesse em determinados temas, a interpretação de comportamentos e também a análise de resultados. O conteúdo trabalhado pela jornalista Angela Saini aduz o quanto é importante reconhecer isso para que os resultados das pesquisas sejam mais efetivos. Apesar das críticas que argumentam o contrário, o feminismo de cientistas tem ajudado a tornar a ciência mais objetiva e a reescrever a história das mulheres.


Obs: A edição brasileira foi publicada pela DarkSide e conta com um prefácio escrito pela Heloísa Buarque de Holanda e obras incríveis do Coletivo Balbúrdia distribuídas pelas páginas do livro e foi traduzida por Giovanna Louise Libralon.


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