“O acontecimento” segue acontecendo aqui e agora: o impacto da adaptação cinematográfica do livro de Annie Ernaux numa leitora brasileira

Cartazes do filme – Confira o trailer aqui.

As memórias do angustiante verão francês que Annie Ernaux viveu em 1963 e só foram escritas mais de trinta anos depois ganharam um novo formato ao serem transformadas em uma obra cinematográfica pelas mãos da diretora Audrey Diwan, da roteirista Marcia Romano e de toda uma equipe repleta de mulheres.

Quando Annie Ernaux escreve sobre o aborto clandestino que viveu tantos anos depois, tempo e memória se misturam ao fato, tornando seu livro também uma busca pelo registro daquilo que a autora viveu em segredo, como outras tantas, francesas ou não. Quando ela decide escrever essa história da forma que fez, crua e quase documental, ela coloca em evidência que a escrita da não-ficção que parte de si é também uma tentativa de adaptação: como fazer das lembranças palavras? É possível capturar os sentimentos dissolvidos nas cenas que conseguimos recordar tanto tempo depois? Qual é o papel de ler e reler o diário daquele ano nisso tudo? Como as palavras que escrevi quando tudo acontecia afetam quem sou hoje? Falar de si é falar de uma época? Escrever sobre a própria solidão é uma forma de se sentir acompanhada nela? E esquecer é também uma forma de morrer? Se sim, então escrever o que lembra é tentar viver além da própria experiência?

Se no livro a solidão, a angústia e o desamparo da personagem durante os três meses de 1963 chamam atenção, enquanto se misturam com o efeito do tempo e a ânsia da tentativa de tornar aquela vivência algo tangível pela escrita, o filme se propõe a tratar apenas do tempo da gravidez indesejada como fato incontornável, concentrando todo o desespero silencioso da personagem só naquilo, sem a reflexão temporal que envolve a recordação.

“O acontecimento” cinematográfico consegue então tornar a escrita memorialística de Annie Ernaux um recorte situacional que se aproxima ainda mais da construção dessa verdade pretendida na tentativa do relato, ainda que as cenas do filme tenham tido modificações pontuais no processo de adaptação e essas mudanças mostrem a presença de outras autoras, atrizes, cenários e a transformação daquilo que foi escrito como memória em ficção.

No filme, acompanhamos a história de Anne Duchesne (Anamaria Vartolomei) como quem persegue uma personagem por ângulos intrusos. Nos transformamos em olhos vigilantes pela câmera curiosa, como se fôssemos parte do que torna o aborto buscado pela personagem um crime, uma vergonha, algo a ser acompanhado como fofoca por quem se delicia por saber que conseguiu escapar de estar nesse lugar, que pode ser “só” o de vagabunda que transa antes do casamento ou o de mãe solteira.

Conhecemos a intimidade dessa protagonista como parte do que torna a sua vivência um tabu e uma ilegalidade e isso, junto da atuação de Anamaria Vartolomei, ajuda a construir para o espectador uma agonia silente que mescla uma espera ansiosa por uma possível solução para aquilo que seria o fim de um futuro brilhante, enquanto esse mesmo futuro brilhante parece prestes a desmoronar pelo efeito dessa espera que não se realiza, e o medo dessa solução, se ou quando alcançada, se tornar o fim de qualquer futuro ou quase isso, com a morte, a mutilação ou a prisão.

O interdito é trabalhado também com a tensão sexual que insiste em se manifestar o tempo todo no universo da personagem, mesmo aquilo sendo visto como proibido. O estigma do exercício da sexualidade feminina paira sobre as jovens que falam o tempo todo de sexo, enquanto julgam as que ousam fazer, junto do medo da gravidez, que, além de ser uma manifestação da maternidade indesejada para aquele momento, representa também um atestado público de que aquela mulher não é mais virgem e pura, logo não merece mais respeito.

O universo da personagem é bem apresentado: temos ali as visitas aos pais trabalhadores no interior que precisam se manter como sempre foram para ninguém desconfiar de nada, as disputas internas entre os diversos grupos de jovens mulheres que dividem o dormitório e o espaço universitário, as fofocas durante as aulas, as festinhas regadas por Coca-Cola, a solidão mesmo quando acompanhada, a insônia de quem tem um problema a resolver e as mesmas três ou quatro roupas repetidas que evocam tanto a origem da protagonista, quanto o cotidiano como ele é.

O aborto clandestino se desenha nas duas linguagens como um desalento construído por uma disputa de riscos que pesa principalmente para aquelas sem os contatos e informações certas, essas que precisam apelar para métodos caseiros no escuro do quarto ou cirurgias em um cômodo de uma casa qualquer ou os dois. Sendo as consequências de uma gravidez indesejada ainda mais pesadas para uma mulher pobre buscando alguma ascensão social pelos estudos, como a personagem, ou uma operária ou atendente de supermercado. Só que até para as mais ricas, a clandestinidade recai de forma ameaçadora, porque mesmo com um contato do médico certo e seguro em mãos e a garantia de que não irá presa por escolher, ainda existe solidão, proibição de falar e praticar e estigma. Tudo isso cria um cenário perigoso que poderia não existir se a responsabilidade da gravidez não fosse imposta às mulheres somente, o aborto fosse legal, seguro e gratuito e uma informativa e acolhedora educação sexual fizesse parte do currículo das escolas.

Ainda que o aborto por escolha da mulher seja legal na França desde 1975, tendo sido Annie Ernaux uma ativista por esse direito, no Brasil nunca foi e ainda não é. O que torna a aflição da personagem Anne e os riscos corridos por ela para fazer valer seu desejo pelo, ainda que inexistente legalmente na época, direito à escolha muito próximos da realidade das mulheres brasileiras hoje, com suas vítimas fatais aqui e agora, entre mutiladas, presas e sortudas aliviadas. O interdito presente nas obras segue no Brasil, não só pelo tabu, mas pela força da lei e das ameaças e práticas conservadoras que tentam tornar o aborto uma ilegalidade mesmo nos raros casos liberados pela nossa legislação: risco de vida para a gestante, gravidez fruto de estupro e gravidez de feto anencéfalo.

As cenas do filme “O acontecimento” parecem ainda mais gráficas e desoladoras para quem divide comigo a nacionalidade e o domicílio brasileiro e acompanha, além das histórias veladas de familiares, amigas e conhecidas, as notícias de meninas que sofreram pressão judicial, governamental e social para não usufruir do seu direito ao aborto legal previsto como exceção na lei penal.

Mesmo a filmagem fugindo do sangue, da agulha, dos instrumentos da enfermeira e focando no rosto e atuação da atriz, a gente sabe o que a clandestinidade causa direta e indiretamente e isso basta para nosso estômago revirar de tensão.

Poderia ser eu, poderia ser minha mãe, poderia ser uma amiga, poderia ser a vizinha do 103 ou a moça da bilheteria do cinema, mas foi Annie Ernaux em 1963 e muitas outras que não tiveram a sorte de sobreviver para contar ou nunca puderam elaborar o momento. Para quem tem um útero que se revira em cólica e sangue menstrual periodicamente, não precisa ser gore para ser quase um filme de terror, emular a realidade como ela é basta para nos lembrar que nosso corpo ainda está no controle do Estado e o que tudo isso significa.

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O acontecimento também é a escrita: a proposta literária de Annie Ernaux encontra o aborto clandestino

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A escrita de Annie Ernaux foi um acontecimento pra mim: ler “Os Anos” (tradução de Marília Garcia) me impactou de um jeito que de repente me vi indo atrás de tudo que ela escreveu. Cheguei a cogitar começar a estudar francês para poder ler no original para eventualmente não ter mais que lidar com a busca por uma ponte idiomática entre ela e eu, esperando novas traduções ou encontros com exemplares em inglês perdidos em sebos. Desisti quando percebi que esse eventualmente ia demorar a acontecer, até porque o período de aprendizado de um novo idioma dura uma vida inteira.

Annie Ernaux faz literatura a partir do tempo e da vida. E por causa dela me peguei negociando com ambos, como se eu já não estivesse acostumada a tentar controlá-los. O tempo para essa autora não é simplesmente uma agenda, um relógio, o despertador que se esgoela, é a matéria da vida. E não só a vida dela. Escrevendo a partir de si, Annie Ernaux aborda a memória como vida, identidade e zeitgeist, uma mistura que transforma uma cena pessoal em um retrato de um momento específico na França, um recorte que só ela, tendo vivido aquelas experiências, poderia fazer como foi feito. A memória em “Os anos”, “O lugar” e “O acontecimento” é uma manifestação que abarca os arredores de quem narra, forma paisagens e cenas vívidas, é feita por pessoas além da autora e os lugares que cada uma dessas pessoas tem dentro do que a sociedade definiu nesse recorte temporal que pode caber quase um século ou três meses. É uma mancha disforme se espalhando em um papel, não um ponto perdido e fixo.

Além de contar o que ela lembra, essa escritora relata com detalhes o processo de lembrar, e assim transforma sua escrita numa busca que parte do registro da lembrança como tentativa de capturar a sua verdade, o seu sentido da vida. Essa investida em transpor memória na escrita é o desafio impossível que a move. A partir do ato de registrar e formular, a autora tenta preservar a memória, torná-la menos volátil, tirar dela a abstração presente em sua composição. A escrita então não representa as condições de temperatura e pressões normais, ela é a ferramenta que se usa para tentar tornar sólido o que em nosso universo só se encontra em estado gasoso. É uma busca por materialidade.

Ao escolher a via da memória como projeto literário, Annie Ernaux decide expor seu corpo, sua verdade, seus registros mentais e documentais e todo seu esforço por lembrar e escrever e elaborar. A exposição em si não é o intento final, é o meio, é a única forma de buscar acessar a reminiscência, logo a percepção de tempo tangível para a humanidade e que, de maneira única, forma quem cada um de nós é, enquanto nos une em torno de uma mesma época.

Em “O acontecimento” (tradução por Isadora de Araújo Pontes) isso se torna ainda mais evidente, talvez pela gravidade da situação narrada, da separação desse momento de todos os outros, pelo uso da primeira pessoal do singular ou por tudo isso junto. Quando ela escreve seu aborto e afirma que a única culpa que carregava a respeito dele era a de até então não ter criado algo não ficcional a partir disso que aconteceu com ela, Annie Ernaux revela quem ela é, foi e quis ser e a relação disso com sua motivação para escrever.

Relatar seu aborto clandestino é se colocar novamente exposta ao olhar de julgamento do Outro e de uma época, enquanto toma pra si o direito de lembrar, de falar, de escrever. É uma busca extrema por autonomia, porque vai muito além da escolha que ela expõe e revela como parte de si e direito essencial, é sobre olhar para quem se é até o limite e transformar esse processo criativo em sentido da vida, em algo que vai se fazer chegar em forma de literatura até outras pessoas. Sendo as epígrafes desse livro uma pista desse projeto maior: “Meu duplo desejo: que o acontecimento se torne escrita. E que a escrita seja acontecimento” (Michel Leiris) e “Talvez a memória não seja mais do que olhar as coisas até o limite” (Yüko Tsushima).

E o que torna essa escrita que busca autonomia ainda mais interessante é que a autora tenta dar forma às suas memórias levando em conta uma perspectiva documental, de registro de um momento além dela mesma, ainda que nesse livro a escritora francesa não use o nós e nem a 3ª pessoa, como faz em “Os Anos”. O individual e o coletivo se encontram o tempo todo ainda assim, quando ela narra o que viveu. A conexão dela com os Outros, no caso, principalmente as Outras, não está no jornal, está nesse espaço coletivo e público não captado e captável pelo jornalismo, esse espaço que ela como escritora tenta acessar ao fazer e ler literatura. O lugar de suspensão da personagem durante a espera pelo aborto parece só dela, mas nunca foi e, justamente por saber disso, Annie Ernaux escreve assim, buscando expor a experiência humana a partir da própria subjetividade, sendo essa subjetividade um eu presente e marcante e também parte de um meio, um mix de self, origens familiares, bagagem cultural, conhecimento e construção social. Um mundo feito de memoração pura e simples, daquilo que foi capaz de fixar nesse cérebro, independente da procedência, da lógica e da utilidade.

Ler “O acontecimento” num fôlego só dá mais sentido ainda pra tudo que está escrito ali, toda a angústia e desespero que movem essa narradora pela cidade e a silencia pela solidão e pelo interdito, mesmo quando a gente lê que ela está falando com alguém sobre seu desejo de abortar, porque precisa fazer isso para lembrar que existe, importa, está viva. A gente só respira direito quando termina o livro e sabe que tudo passou e que ela conseguiu, tanto abortar na clandestinidade e sair viva, quanto escrever sobre essa experiência de extrema violência sem os ornamentos literários comuns às representações de angústia e desespero, o que importa, porque a busca por autonomia dessa escritora também tem a ver com encontrar essa crueza sem os artifícios tradicionais, porque para Annie Ernaux autonomia também é fazer a experiência dobrar o que a linguagem impõe a ela e é por isso que ela evidencia, ao longo do livro, que a palavra aborto era proibida para o mundo, enquanto para ela o que nunca fez sentido foi a palavra grávida. Palavra é poder e é por isso que ela narra assim, como se somente a partir desse tensionamento ela pudesse se colocar no mundo de verdade, integrada ao todo, sem o desamparo que a acompanhou durante seus três meses de gravidez indesejada, enquanto ela o torna quase palpável para quem a lê.

Annie Ernaux escreve porque quer registrar uma verdade pessoal e coletiva que se dissipa ao ser procurada, ela quer transformar em palavra sentimentos, reflexões e memórias difusas e criar a partir do indizível. Com sua criação e processo criativo, Annie Ernaux tenta controlar o tempo, dominar as próprias vivências, entender como a memória funciona e torna cada um de nós um, enquanto nos une aos outros, tudo com base no misterioso poder da palavra, do simbólico, do dito e não dito. Annie Ernaux escreve, porque quer captar o que é a experiência humana total para depois transmiti-la, se tornando parte desse todo, e, por isso, diz ao fim desse livro: “As coisas acontecem comigo para que eu as conte. E o verdadeiro objetivo da minha vida talvez seja apenas este: que meu corpo, minhas sensações e meus pensamentos se tornem escrita, isto é, algo inteligível e geral, minha existência completamente dissolvida na cabeça e na vida dos outros.”

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Você também pode se interessar em ler “Igual à narina.

A maternidade em “Por favor, cuide da mamãe” e seus desdobramentos no aqui e agora

*o texto contém alguns spoilers de enredo

Elena Ferrante, Vivian Gornick, Buchi Emecheta, Ayobami Adebayo, Xinran, Nara Vidal, Aline Bei, Conceição Evaristo, Celeste Ng e Shin Kyung-Sook são autoras que, apesar das diferentes origens, experiências e níveis de fama literária, escreveram histórias que tratam da maternidade e a complexa relação das mães com seu entorno.

De maneiras muito diversas, todas as citadas abordam o peso da maternidade na vida das mulheres em alguma ou várias de suas obras, mostrando que mesmo as experiências mais amorosas são marcadas pelo impacto da divisão sexual do trabalho, da misoginia, do racismo e também da pobreza. 

Apesar de toda a expectativa envolvida na perpetuação das linhagens familiares nas várias culturas abordadas por essas escritoras, a maternidade e a capacidade de gestar surgem nessas histórias como marcadores de vulnerabilidade para as mulheres. Em “Por favor, cuide da mamãe”, da sul-coreana Shin Kyung-Sook, isso não é diferente.

Nessa obra, Park So-nyo, 69 anos, mãe de cinco filhos, desapareceu em Seul. A partir da narração da filha mais velha, do filho primogênito e do marido, o leitor acompanha essa família enlutada em busca dessa mãe perdida.

Como se a dor desse sumiço não bastasse, essa procura se desdobra em uma dolorosa tentativa desses narradores-personagens em encontrar alguma resposta para suas culpas e angústias relacionadas à figura dessa mulher e ao luto de sua ausência. Dessa forma, a investigação do destino de Park So-nyo se torna também uma exploração emocional para os personagens que, isolados uns dos outros mesmo quando estão próximos, não percebem como suas dores não são tão singulares assim. Com o desaparecimento, filhos e marido parecem ter se deparado com a sensação de que essa mãe já estava sumindo antes e que talvez eles pudessem ter feito alguma coisa para evitar isso. 

A partir dessa premissa, surge para o leitor a constatação de que a maternidade é quase sempre um apagamento de uma identidade maior, como se apenas um pedaço de uma mulher, aquele que é mãe, se tornasse o único visto e considerado importante pelos outros. O sumiço de Park So-nyo para seus familiares parece ter iniciado antes mesmo do momento em que ela foi engolida pela multidão dos transeuntes frequentadores do metrô, e o desaparecimento real parece expor a dificuldade anterior de todos eles, talvez até mesmo da própria desaparecida, de ver uma mãe como um indivíduo completo.

Mães e pais passam por isso pelos olhares dos filhos, é verdade, e essa reflexão é até explorada no livro no capítulo da filha escritora. Durante o amadurecimento, existe todo um processo de descoberta de cada um dos pais como pessoas, não mais como mães e pais, mas o processo com as mães é diferente, porque o apagamento dessa identidade vai além da visão infantil dos filhos e invade como a sociedade no todo encara as mulheres, especialmente aquelas que agora são vistas como uma espécie de cuidadoras universais.

Essa maternidade — tão sacrificante para a personagem, ainda que para ela toda a abnegação seja vista como parte da vida, e objeto de devoção e romantização dos filhos e marido enlutados — coexiste com uma paternidade irresponsável. Enquanto Park So-nyo fazia de tudo pelos filhos e centrava o sentido de sua vida neles, seu marido abandonava a casa e ia atrás de aventuras e outras mulheres. O peso do cuidado doméstico, familiar e até da própria terra sempre esteve em suas mãos. O marido e pai das crianças, na verdade, somente somava-se à lista de responsabilidades que ela tinha.

O arrependimento dos narradores é demarcado no próprio texto e o uso da 2ª pessoa acaba transferindo-o ao leitor. Eles falam com si mesmos, se acusam, apontam suas próprias falhas e compartilham momentos, mas, com o “você” no meio das frases, é o leitor que acaba recebendo essas palavras como se fossem pra ele. E, dessa forma, quem lê acaba sendo levado para esse drama familiar como parte, não só como espectador, podendo, nesse processo, até se deparar com seu próprio lar e todas as questões pessoais e confusas relacionadas com ser filho de alguém.

Vale ressaltar que Park So-nyo não sabia ler e nem escrever e sonhava com a alfabetização, fazendo tudo para seus filhos e filhas conseguirem estudar. Embora ela pareça acatar o fardo de sua condição feminina em alguns momentos e, inclusive, cobrar especialmente das suas filhas nesse sentido, a personagem considerava sua obrigação fazer com que as crianças em sua responsabilidade tivessem a possibilidade de uma vida mais fácil que a dela a partir da educação. Inclusive, numa ocasião, disse para seu filho mais velho que a irmã precisava estudar um pouco mais por ser menina e que era responsabilidade dele fazer com que ela frequentasse a escola em Seul. Complementando essa delegação dizendo: “Não quero que viva como eu”.

Apesar da filha mais velha acreditar ter decepcionado a mãe em todos os sentidos, percebe-se que essa mãe admirava a trajetória de sua menina que se tornou escritora, apesar dos pesares. A construção da personagem da mãe desaparecida é complexa. O leitor acompanha o olhar arrependido da família, as observações, às vezes muito romantizadas, feitas por eles sobre essa mulher e, como um verdadeiro detetive, tenta desvendá-la a partir de detalhes, somando o que cada personagem apresenta de forma não muito confiável ao seu mundo referências. Somente com a chegada da narração surpresa, o leitor tem acesso a mais nuances dessa personagem e, enfim, tem a sensação de que a conhece como indivíduo. 

Nessa jornada de luto e drama familiar, chama a atenção a relação de Park So-nyo com a terra, a casa, o espaço que ocupa. As colocações feitas de mãe para a filha sobre a agricultura e o trabalho doméstico, por exemplo, evidenciam a invisibilidade do trabalho do cuidado, mas também sua importância. A valorização da terra vem muito da necessidade do alimento que, além de aplacar a fome, serve para nutrir o próprio corpo familiar e suas relações. A memória dos narradores dessa história estão marcadas pela preocupação dessa mãe em fornecer alimento para seus filhos, como uma verdadeira provedora, e, ao mesmo tempo, pelos rituais ancestrais em que a comida sempre foi colocada como parte fundamental da troca, do afeto e, não tão curiosamente, também das obrigações. Essas lembranças culinárias aparecem tanto no cotidiano, com citações que vão do kimchi e do arroz ao lámen instantâneo, quanto em momentos especiais, como a arraia do Ano Novo e o Festival da Lua da Colheita.

A maternidade é quase um planeta à parte, ainda que seja impossível pensar na humanidade que conhecemos sem pensar em mães. Shin Kyung-Sook escreve essa história sabendo disso. Ela, ao falar desse universo, fazendo desaparecer a mãe real e colocando a mãe projetada no lugar, explora o quanto esse papel social rende perante todos que são filhos. Em especial, filhas. Em qualquer lugar do mundo, há muito o que se escrever a partir dessa condição constantemente tratada como íntima, mesmo tendo tantos desdobramentos políticos.

“Por favor, cuide da mamãe” é um livro que usa o arrependimento, o luto, a culpa e as memórias de uma família para nos fazer pensar na Coreia do Sul contemporânea, principalmente, pelos olhares das mulheres. Tradição, desigualdade, pobreza, medo da fome, machismo, cuidado, memória, dilemas geracionais e o eterno embate entre campo e cidade formam esse retrato complexo que, apesar das diferenças, às vezes parece bem próximo ao que temos aqui, no Brasil de Aline Bei, Nara Vidal e Conceição Evaristo. Ou na Itália de Ferrante, ou na Nigéria de Buchi Emecheta e Ayobami Adebayo, ou nos EUA formado por imigrantes da Vivian Gornick e da Celeste Ng. A maternidade, imposta, compulsória ou desejada e, ao menos em teoria, necessariamente abnegada, viaja pelo mundo tanto quanto a nossa capacidade de contar histórias.

Esse texto foi escrito para um concurso de resenhas organizado com o intuito de promover a valorização da literatura sul-coreana. Como não fui uma das premiadas, resolvi aproveitar para postar o que escrevi aqui no blog, apesar da leitura desse livro ter acontecido faz um tempão (JAN/21).

Se interessa pelo assunto? Então leia também meu conto “éramos_duas.mp3”, parte da coletânea “Casa nua – maternidade devassada”, obra organizada pelo Coletivo Escreviventes em parceria com a Revista Tamarina.

“A Pediatra”: pensando nas personagens difíceis

Acervo pessoal – Compre seu exemplar aqui!

Com capítulos curtos, ritmo de um turbilhão de pensamentos, deboche e uma personagem controversa e bem construída, Andréa del Fuego criou um romance que coloca o leitor frente a frente com a capacidade de sedução de uma narradora desagradável, obrigando quem lê a refletir sobre simpatia, antipatia, classe, gênero, ética e moral. 

Nessa história, Cecília, a pediatra que empresta sua especialização para o título do livro, simplesmente vive sua vida, pensa seus pensamentos, sente e elabora seus sentimentos. Essa vida que ela vive, apesar de quase comum, é privilegiada, e por isso mesmo acaba funcionando também como uma crítica ao mundinho deslocado e cheio de interesses da classe médica.

O diferencial desse enredo está em como essa protagonista percebe seu redor e conta sua história. A exposição dessa mente inquieta — e, para nós, completamente sincericida — nos atrai. Um divórcio, um amante, uma doméstica, uma profissão de status, mas exercida sem vocação, tudo isso ganha novas nuances com ela. E quando a gente vê, o livro já acabou e estamos obcecados pela Cecília, como Cecília também está pelo seu novo interesse (alvo?) da vez.

Algumas coisas contadas pela narradora-protagonista provocam risadas por serem simplesmente absurdas e, ao mesmo tempo, às vezes um pouco verdadeiras, mas o que prende o leitor mesmo é a constatação de que aquela pessoa que soa tão arrogante e egocêntrica parece encontrar algum eco em cada um de nós.

Esse não é um processo de identificação necessariamente, é de sedução. O poder dessa personagem é evidente: Você às vezes gosta dela, mas contra a vontade. Tem vergonha de gostar. Você diz que ama odiá-la, mas às vezes torce por ela, enquanto a xinga mentalmente. E ri dela. Ri com ela. Não acredita no que ela vai fazer.

Acompanhamos essa protagonista difícil que se constrói e desconstrói na nossa frente, nos lembrando das contradições e medos que, ainda que muito ou pouco diferentes, também fazem nossa própria humanidade. Diante de Cecília, somos postos para pensar nas vulnerabilidades que tentamos a todo custo ocultar, no poder das palavras e nesse Outro que é sempre um desconhecido, um mistério que a gente nunca vai conseguir desvendar por completo — uma possibilidade que nos atrai e nos repele na mesma medida.

Cecília está longe de ser exemplar. Na verdade, praticamente todo mundo dessa história não poderia se colocar nesse lugar nem se quisesse. Cecília é babaca e parece fugir o tempo todo de qualquer possibilidade de se descobrir diferente disso, porque é assim que deve ser no planeta Capitalismo. E, como todos os outros personagens chegam até o leitor a partir dela e seu olhar cínico para as coisas, eles também acabam ficando meio sem lugar na régua moral de cada um, porque só os conhecemos já enevoados pelo olhar de Cecília. E que bom!

A literatura não serve simplesmente para difundir virtudes ou ensinar alguma coisa pra alguém. A literatura não é sobre personagens bonzinhos e nem precisa ser óbvia em sua função, qualquer que seja ela, isso se houver uma. Às vezes o que parece feio, errado, antipático ou até detestável é só uma amostra da complexidade humana e das nossas relações, tornando nossas bibliotecas e estantes espelhos dos problemas do mundo e do eu. Às vezes uma personagem complicada existe simplesmente porque pessoas complicadas também existem e se deparar com um livro com uma é se permitir perceber que a gente também nunca é tão simples e bons como imaginamos ser.

Se a literatura é a fabulação da vida, dos outros, de nós mesmos e do mundo, nossa maneira de compreender e conversar sobre tudo, a gente também precisa conhecer melhor Cecílias, porque às vezes a ideia que temos de como uma mulher deve se portar, especialmente perante crianças e homens, transforma uma personagem em um monstro mesmo quando sabemos que estamos olhando, tratando e se incomodando com um ser humano perdido. Talvez precisemos conhecer mais Cecílias na literatura, simplesmente porque ainda vivemos em um mundo que se incomodaria muito menos e riria muito mais com esse livro se ele fosse protagonizado por um Sr. Dr. Pediatra Celso — e isso diz muito sobre como vemos homens e médicos.

Uma pediatra que não gosta de crianças causa curiosidade e perturba, é uma premissa excelente para um livro; um pediatra que não gosta de crianças provavelmente seria visto como mais um profissional esforçado. Cecília é vista como absurda — e talvez seja mesmo — e quando Andréa del Fuego parte dela para escrever, ela nos lembra que literatura é humanidade e a humanidade é um personagem mais complexo que qualquer pessoa.

(Resumindo: Fleabag voou para que Cecília pudesse caminhar)

Recebi “A Pediatra” numa parceria que fiz com a Nádia do Pomar Literário. Vocês podem ler uma versão enxuta, exclusiva e caprichada das minhas reflexões sobre esse livro aqui, em um post colaborativo meu e dela no Instagram. Se interessou em ler o livro? Compre “A Pediatra” com meu link da Amazon e me ajude a continuar escrevendo.

Curtiu a reflexão? Então você também pode se interessar em ler meu ensaio “Os tais caquinhos que formam Abigail, eu e você”

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Ma-má? Mã-mã? Ma-mã-ma-mãe? Mamãe? Vem cá, mamãe. Mamãe, dorme comigo hoje? Por que, mamãe? É só um au-au, mamãe. Mamãe, eu quero. Não, mamãe. Desculpa, mamãe. Mamãe, o que é isso? Não é nada não, mamãe. Mamãe, me dá? Por que, mamãe? Mamãe, cê tá triste comigo? Me conta uma historinha, mamãe. Mamãe, eu não quero. Olha que bonito, mamãe! Mamãe, cê gostou? Vem brincar, manhêêêê! Mãe, cuidado com a bola! Eu juro que não fui eu, mãe. Eu prometo, mãe! Mãe, foi sem querer. Ah nem, mãe. Mãe, que saco! Toda hora isso, mãe. Mãe, posso dormir na casa da vovó hoje? Chuta pra mim, mãe! Que bicuda você deu, mãe! Por que não, mãe? Não quero brincar de boneca, mãe, não gosto mais. Foi mal, mãe. Vamos dormir mais tarde hoje, mãe? Mãe, deixa eu levar esse gatinho pra casa? Que que tem, mãe? Mãe, o que eu faço agora? Não vou calçar essa sandália hoje, mãe. Não gosto, mãe. E quem disse que eu ligo para isso, mãe? Não quero, mãe. Mãe, eu já falei que eu não quero! Mãe, nem vem que já não sou mais criança. Que delícia, mãe! Me ensina, mãe? Deixa eu ir, mãe. Mãe, por favor! Ai, mãe, cê não vem mesmo nadar com a gente? Mãe, por que você tem que fazer isso toda vez que eu vou sair? Como você era na escola, mãe? Cê ia bem em tudo, mãe? Mãe, me ajuda com esse zíper. Mãe, me empresta essa jaqueta? Boa noite, mãe. Só hoje, mãe. Mãe? Me deixa tentar, mãe. Eu sei, mãe. Mãe, que saco! Mãe, o que você tá fazendo aqui? Por que você fez isso, mãe? Mas eu não gosto, mãe. Eu não quero usar mais essas roupas feias suas, mãe. Ai, mãe. Tudo bem, mãe? Me dá uma carona, mãe? Obrigada, mãe. Mãe, que livro é esse que cê tá lendo agora? Mãe, me deixa em paz. Não quero falar com você agora, mãe. Eu quero ficar sozinha, mãe! Mãe, que gracinha! Te contei, mãe? O que está passando na TV, mãe? Esse programa é bom, mãe? Mãe, eu quero é isso pra mim. Ai, mãe, eu já não sei mais o que fazer. Me ajuda, mãe. Mãe, cê não vai acreditar… Você já fez isso mesmo, mãe? Jura? Mãe, agora tá pronto, pode olhar. Ficou bom, mãe? Não tem nada demais nisso, mãe. Não precisa ficar elogiando, mãe. Mãe, deixa de ser boba. Uai, mãe… Cê adorou, né mãe? Mania nova, mãe? Valeu, mãe. Que beleza, mãe! Mãe, mas cê já vai? Chegou cedo hoje, tava com saudade de mim, né mãe? Mãe, você viu isso? Vamos fazer alguma coisa diferente esse domingo, mãe? Mãe, cê ficou sabendo? Tava bom demais, mãe. Do que você tá falando, mãe? Não se faz de sonsa, mãe. Mãe, o que cê achou? Curtiu, mãe? Que vergonha, mãe. Dá licença, mãe. Gostou do presente, mãe? Vem tirar foto, mãe! Mãe, tudo vira neura na sua cabeça. Mãe? Credo, mãe, que mania que você tem de botar defeito nas minhas coisas. Bom apetite, mãe! Vai um baralhinho hoje, mãe? Mãe, eu já disse que não quero mais. Vou ter que repetir, mãe? Sério isso, mãe? Mãe, deixa eu ver. Vamos agora, mãe? Já tá na hora, né? Mãe, como foi lá? Deu pra entender bem, mãe. Que que foi, mãe? Nossa, mãe, me conta isso direito. E essas fotos antigas, hein, mãe? Olha essas roupas esquisitas que todo mundo usava, mãe! Esses cabelos, mãe! O que vamos fazer hoje, mãe? Ai, ai, mãe. Se anima aí, mãe! E o que você disse, mãe? É assim que se faz, mãe! Mãe, quer emprestado? Me mostra logo como ficou, mãe! Mãe, tô curiosa! Tá toda toda, hein, mãe? Mãe, como você não entendeu ainda que eu faço o que eu quiser? Mãe? Mãe, tô preocupada com você. Conversa comigo, mãe. Mãe, você não presta atenção no que eu falo mesmo, hein? Mãe, já marcou seu médico? O que o médico falou, mãe? Mãe, que saco, hein? Toma esses remédios direito, mãe. Mãe? Quer vir pra cá, mãe? Cê gostou, mãe? Mãe, cê mesma quem fez? Lá vem você de novo com esses trem, né mãe? Ai, mãe. Não sei, mãe. Se animar, eu te levo, mãe. Me conta isso direito, mãe. E cê acreditou, mãe? Ai, mãe, eu não aguento mais. Quem disse que ia ser fácil, né mãe? Quer um pouquinho, mãe? Mãe, vem dançar! Onde você aprendeu esses passos, mãe? Você não tem jeito mesmo, né mãe? Só mais um pedaço de bolo, viu mãe? Chegou chegando, hein mãe? Mãe? Tá pronta, mãe? Tô passando aí, mãe. A gente combinou, mãe. Cê esqueceu de novo, mãe? Mãe, mas cê desistiu de ir e nem me avisou? É isso mesmo, mãe? Mãe, o que você achou? Aceita, mãe? Tá tudo bem, mãe? Obrigada, mãe. Trouxe cruzadinha, mãe. Mãe, precisa de ajuda? Bem-vinda, mãe. Mãe, pode deixar que eu faço. Tá gostando, mãe? Mãe, você sabe que você não dá conta mais. Caramba, mãe! Vem cá, mãe. Mãe?

Colagem analógica de Thaís Campolina a partir de fotos de Bárbara Olsen

Esse conto, assim como essas colagens, fazem parte da coletânea “Casa nua – maternidade devassada”, obra que reúne trabalhos produzidos pelas participantes do Coletivo Escreviventes numa parceria com a Revista Tamarina. O e-book é composto por textos em prosa e verso de 49 escritoras brasileiras e trata sobre diferentes perspectivas de ser mãe e ser filha, levando em conta também a possibilidade de não ser mãe e os aspectos políticos e sociais desse ser e não ser. Baixe o PDF aqui.

Esse texto também foi publicado na Revista Mormaço.

Lygia, a contemplação e os mistérios que nos movem

Acervo pessoal – Compre livros da autora aqui

Acordei pensando em Lygia Fagundes Telles hoje, um dia após saber que ela se tornou só memória. Minha história com Lygia é confusa, cheia de idas e vindas, como a leitura de contos às vezes pede. A permanência e uma relação de continuidade é algo mais próximo dos romances e dos romancistas — gênero que a autora também explorou, mas que conheço menos — mas contos podem ser lidos esparsos e, ao mesmo tempo, com muito afinco. Você pode passar meses lendo um conto só, como você pode fazer com um romance, apesar da natureza do conto não costumar evocar esse tipo de experiência de leitura. De todo modo, lendo repetidamente ou não, um conto pode permanecer com você por muito tempo. O conto pode até tentar ser mais leve, dar a possibilidade de ser lido avulso ou mesmo ser impresso numas poucas folhas de papel e solto no mundo como um presente, mas também pode se fazer ficar, se tornar permanente dentro de cada um.

Os bons contos são como cometas que viajam pelo universo em órbitas que nem a máquina mais moderna da NASA é capaz de apreender completamente. A gente só sabe mesmo que um dia eles voltam. 76 anos depois, como o caso do cometa Halley, ou antes. E nesse retorno, ele bate diferente. Ao menos os contos da Lygia sempre foram assim pra mim: misteriosos, cheios de camadas e feitos para se deslocarem sem parar até enfim voltar para aqui dentro. E esse regresso sempre acontece quando eu estou pronta para perceber tudo diferente, ainda que eu não saiba disso na hora.

Uma temporada com uma leitura é suficiente para você ficar com alguns personagens, sensações e experiências pra sempre mesmo tendo lido apenas uma vez. Só que esses personagens, sensações e experiências se tornam uma névoa cada vez mais densa e misturada com o seu eu. No fim, você engole o que leu e o que fica é a lembrança de um prato gostoso, estranho ou incômodo que você comeu um dia. Um prato que pode ter te marcado bastante e mudado como você vê o mundo, mas ainda assim você não consegue lembrar exatamente seus sabores, distinguir cada um dos ingredientes, rememorar como estavam as texturas de cada um dos elementos formadores do prato. Você só se lembra muito bem onde ele foi comido, com quem você estava e sente saudade do momento, da experiência em si, ainda que com o tempo até ela vá perdendo seus contornos próprios.

A leitura parece ser só um engolimento, mas o que acontece quando a gente lê é outra coisa, é uma fusão. Esse é o poder de criação do leitor, o texto é digerido até tomar uma forma nova e é essa possibilidade, que sempre pode ser melhor aproveitada quando é ativado por autoras como Lygia, que torna a experiência de leitura algo único, independente do gênero do texto lido. Foi Lygia e suas camadas, seus mistérios e seu indizível que ensinou toda uma geração de leitores a criar lendo. Foi ela que nos deu as enzimas capazes de digerir a linguagem e, assim, conseguir formular a vida mesmo quando a gente não entende muita coisa dela. Foi Lygia, junto com suas amigas, que me ensinaram a ler melhor e querer fazer isso também junto de outras pessoas.

A morte de Lygia me tocou muito, mas sei que apesar da perda desse corpo, ela permanecerá viva na memória dos seus, sejam eles familiares, amigos ou mesmo somente leitores. Os relatos de descoberta de Lygia que tenho lido nas redes sociais desde ontem se entrelaçam com o da descoberta do amor pela palavra e pela arte. Leio todos eles sedenta para entender como se dá esse processo, essa conexão, essa nova história que se desenha quando alguém encontra outro alguém, especialmente quando envolve a literatura. Leio tudo isso sem parar com medo de um dia eu me esquecer que o poder da palavra e da criação também pode ser o que construímos com e a partir de outra pessoa.

E eu, triste, tristinha, agora só consigo pensar que ainda há beleza nesse planeta.

esse texto é uma adaptação da newsletter que enviei hoje para meus apoiadores indicando obras variadas de audiovisual, literatura e pintura. saiba mais sobre como me apoiar aqui. se você gostou de me ler, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe também pelo Medium,  Facebook,  Twitter,  Tinyletter  e  Instagram.

compre livros de Lygia Fagundes Telles com meu link de associada da Amazon e me ajude a continuar escrevendo

fulaninha

Acervo pessoal – “Movimento” – Colagem analógica feita por mim

não dorme
horrorizada
com quem deveria ser
mas não é
com o que deveria ter
mas não tem
com o que deveria fazer
mas não faz

é assombrada
pelos equívocos cometidos
por seus crimes sem previsão legal
todos já com audiência marcada
no pior dos tribunais morais

​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ ​ o próprio

pensa
nas rezas devidas
nas penitências nunca feitas
na punição à espreita
toda vez que ousa
ser a mulherzinha endiabrada que é

que pelo menos hoje, mais um oito de março, deixemos a culpa de lado. Sejamos mulherzinhas endiabradas que dizem foda-se para essa ideia de que a gente tem que fazer por merecer para ter dignidade, respeito e paz.

esse poema faz parte do meu livro “eu investigo qualquer coisa sem registro”, obra que foi selecionada para publicação no concurso Poesia InCrível de 2021. se você gostou, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe também pelo Medium,  Facebook,  Twitter,  Tinyletter  e  Instagram.

“O som do tapa” e o fio quase invisível que une as escritoras

Escrever é uma atividade considerada solitária. É preciso concentração, silêncio, tempo para colocar as palavras no papel, transformá-las em alguma coisa com sentido e depois trabalhar o texto, polir frases, reconstruir parágrafos. Só que escrever é muito mais do que isso. Quem escreve não escreve do nada, dialoga com o que veio antes e com o que está por vir. Um livro puxa o outro, que puxa mais um e esse faz nascer um blog, uma newsletter, um instagram literário, uma ideia, uma vontade de contar uma história ou duas, um desejo de compartilhar cada detalhe. Quem escreve está povoado de vozes e todo o processo de silêncio, concentração e tempo vem da necessidade de encontrar a maneira certa de construir cada texto.

O parágrafo acima é uma especulação, talvez até uma idealização. Foi construído amparado ao que eu acredito como escritora e o A que fecha essa palavra-identidade-desejo significa. Ao meu redor, vejo muitas mulheres que escrevem construindo um universo que as caiba. O apetite pelas letras de uma alimenta a coragem da outra de se colocar no mundo e assim vai. É uma tentativa de construção de potencial e oportunidade que surge a partir da troca, uma rede de aprimoramento que se cria do encontro da identidade com a alteridade e também um desafio de convivência.

Carla Guerson escreve desse lugar. Eu gosto de pensar que eu também. Por isso, em algum momento, a gente se esbarrou. Nesse nosso meio, encontros são desejados. A gente se constrói como escritora assim. A descoberta da Outra é a nossa chance de pescar algo novo no mar de histórias que nos cercam. Quem escreve precisa estar atento, uma boa história pode estar bem ao nosso lado e ai de nós se não tivermos com o olhar afiado o suficiente para captá-la. Quem escreve se coloca no mundo como uma antena parabólica. “O som do tapa” é o resultado dessa perspectiva de escrita e leitura do mundo.

A partir de 28 contos curtos, a autora constrói um livro coeso todo protagonizado por mulheres desabando, mulheres que se sentem deslocadas no mundo que vivem, destituídas da própria vida, fora daquilo que esperavam delas ou de si mesmas. Mesmo com experiências, idades, situações financeiras e sociais diferentes entre si, as vidas dessas personagens se entrelaçam no livro pelo que elas têm em comum: o impacto na subjetividade que o machismo e outras questões pessoais ou sociais que atingem algumas mulheres específicas podem trazer.

Em poucas páginas, Carla dá vida a um mundo de personagens complexas que mesclam questões individuais e atravessamentos sociais, sem jamais reduzi-las somente a seus sofrimentos, tornando cada uma dessas mulheres um alguém diferente, apesar do que o mundo quer de cada uma delas ser mais ou menos igual: a anulação de si. Mesmo abordando temas difíceis e necessários na maioria das histórias e por isso mexer com o leitor a partir do incômodo, há também contos um pouco mais leves, apesar de também críticos, como o incrível “As louças”.

Vale destacar que a autora explora muito do universo íntimo, tratando relações familiares e amorosas de uma maneira que surpreende, mas também é capaz de criar identificação e/ou empatia. “O som do tapa” mescla cotidiano, crítica ao machismo e muita vontade e habilidade de nos surpreender com finais fechados com chave de ouro. Carla Guerson estreia com contos bem escritos, bem conduzidos e de estrutura variada, histórias que se constroem baseadas em detalhes banais e privados que aproximam e afastam quem lê de cada personagem, de cada relação, porque o comum nos lembra o que mais existe com o disfarce de dia a dia, o que mais a gente finge não ver com a desculpa de que é tudo ordinário demais ou particular demais.

“O som do tapa” é um exercício de observação que denuncia o que muitos de nós não têm percebido ao redor de si ou, em muitos casos, até em si mesmas e escrever sobre isso é algo muito menos solitário do que pode parecer. Um livro puxa outro, que puxa mais um conto e esse conto servirá pra puxar mais uma língua e essa língua agora falante puxa outras línguas falantes e assim acontece a descoberta de que todas essas histórias também importam.

Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe também pelo Medium,  Facebook,  Twitter,  Tinyletter  e  Instagram. Se interessou pela obra citada no texto? Compre “O som do tapa” diretamente com a autora ou no site da Patuá e assista a live de lançamento da obra aqui. Há leitura de alguns contos do livro e minha participação.

Sobre o que liga garotas, mulheres e outras

Acervo pessoal. Adquira o livro aqui.

Ousado e bem pensado em todos os aspectos, “Garota, mulher, outras” da Bernardine Evaristo é uma obra relevante que mescla ousadia estética – com uma estrutura narrativa sem pontos finais, cheia de quebras e sem marcação de diálogos – com uma construção de personagens impecável e uma história fragmentada, mas bem coesa.

A partir de doze perspectivas, Bernardine constrói uma colcha de retalhos com histórias que, perpassando principalmente pelo tema da filiação, contam um pouco sobre a diáspora africana e a vida das mulheres negras na Inglaterra.

O livro questiona a ideia de que as experiências e características femininas ou negras são sempre as mesmas, mostrando personagens complexas, de diferentes idades e ideologias políticas e suas vivências, inclusive em relação umas às outras. Nesse sentido, chama atenção principalmente a professora homofóbica que tem como amiga mais antiga uma mulher lésbica com histórico militante e a idosa de 93 anos a favor do Brexit que acolhe e ama sue nete Morgan ainda que não compreenda seu gênero.

Essa relação entre identidades, relações humanas e dinâmicas sociais é construída a partir de uma narração que nos permite conhecer como cada uma das personagens fala, sente, se relaciona, pensa e vê o mundo. Com referências abundantes e uso variado da linguagem, a autora e sua tradutora Camila von Holdefer recriam a sensação da oralidade aproximando o leitor de cada uma das personagens. Toda essa intimidade assim exposta produz a sensação de uma conversa íntima e nos instiga como uma bela fofoca. Essa capacidade da autora em produzir proximidade pode chegar até mesmo a ser incômoda, mas é o que ajuda a afastar esse livro de ser lido somente na chave de um caprichado estudo de personagens para uma peça de teatro.

A sensação da leitura é de às vezes nos fazer sentir no meio de um tumulto de vozes e talvez por isso mesmo, vez ou outra e dependendo do personagem, o texto até lembre o Twitter. Bernardine explora como a linguagem diz muito sobre cada falante para construir as personas dessa história, optando por não descrever diretamente as particularidades de cada uma, mas mostrar as personalidades a partir de situações, reações e pensamentos, levando em conta como a escolha das palavras diz muito sobre origens, referências, gerações, amizades e até mesmo sobre como as pessoas querem se apresentar para o mundo. A importância desse critério ganha contornos especiais na história de Morgan/Megan, mas também se faz presente na construção das diferenças entre mães e filhas.

Como essa é uma narrativa focada nas experiências de mulheres diversas e uma personagem não-binária, todas relacionadas, ao menos indiretamente, com a imigração, a violência masculina, racista, lgbtqiafóbica e xenófoba faz parte da trama, sem, no entanto, definir suas personagens somente a partir desses fatos em comum.

Chama atenção também como a autora conseguiu conduzir tantas personagens a um evento em comum, evidenciando assim seus conflitos, contradições e diferenças, mas também suas semelhanças e o mosaico que compõe, de certa forma, a Inglaterra contemporânea e sua história.

“Garota, mulher, outras” é um livro recomendadíssimo, desses que mostram que a literatura é sempre política, seja a feita por Bernardine Evaristo ou por um homem branco aleatório falando sobre escrever, e isso não diminui seu poder, alcance e impacto, inclusive estético. Se literatura serve pra gente elaborar a vida e a condição humana, ela será marcada sempre por essa batalha entre identidade e alteridade que envolve a leitura mesmo entre os mais semelhantes.

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As tantas mulheres que passaram na cabeça de Maria Luiza Machado

Acervo pessoal – Foto publicada originalmente no meu Instagram

“Tantas que aqui passaram”, livro de poemas da Maria Luiza Machado é um catálogo poético de personagens femininas. Formado por 29 mulheres-poemas, essa é uma obra que nos coloca em contato com a condição humana das mulheres, enquanto também evidencia, de forma sutil, aspectos sociais e culturais que influenciam na construção dessas subjetividades muitas vezes marcadas por diversas angústias. Solidão, maternidade, trabalho, fé e relacionamentos amorosos e familiares são alguns dos temas abordados pela autora a partir de uma perspectiva íntima, que nos coloca em contato com os pensamentos secretos de cada uma dessas personagens.

Os poemas de Maria Luiza soam narrativos para os fãs de prosa e bons personagens e exploram repetições, pausas e alguns aspectos da oralidade, lembrando muitas vezes fluxos de consciência. A construção poética dos detalhes cotidianos expostos em alguns dos versos também chama atenção e ajuda a formar cenários e sensações, fornecendo uma espécie de lupa para quem lê. Lupa essa que nos ajuda a investigar um pouco mais de cada uma dessas personas que nos são apresentadas.

Como diz o posfácio de Monique Malcher, terminamos de ler esses poemas nos sentindo povoadas. Não sendo e sendo cada uma dessas mulheres que sempre nos lembram alguém, às vezes até a gente mesma.

“Tantas que aqui passaram” é sobre o universo que cabe em cada pessoa, uma obra que nos faz pensar no quanto semelhança e diferença constroem o universo da pluralidade e isso tem uma importância especial em um universo que insiste em impor padronizações.

O livro é uma publicação da Mormaço Editorial, editora independente fundada em 2020 e coordenada por Maria Luiza Machado e seu sócio Daniel Pasini. Ele foi diagramado e ilustrado por Isabela Sancho e viabilizado através de um financiamento coletivo. Esse é o terceiro livro da autora, que nasceu em 1995 em Feira de Santana na Bahia e mora em Salvador desde 2014. Os livros anteriores dessa jovem escritora foram: “Algumas histórias sobre a falta” (2018) e “Todos os nós” (2019).

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