Sobre o que liga garotas, mulheres e outras

Acervo pessoal. Adquira o livro aqui.

Ousado e bem pensado em todos os aspectos, “Garota, mulher, outras” da Bernardine Evaristo é uma obra relevante que mescla ousadia estética – com uma estrutura narrativa sem pontos finais, cheia de quebras e sem marcação de diálogos – com uma construção de personagens impecável e uma história fragmentada, mas bem coesa.

A partir de doze perspectivas, Bernardine constrói uma colcha de retalhos com histórias que, perpassando principalmente pelo tema da filiação, contam um pouco sobre a diáspora africana e a vida das mulheres negras na Inglaterra.

O livro questiona a ideia de que as experiências e características femininas ou negras são sempre as mesmas, mostrando personagens complexas, de diferentes idades e ideologias políticas e suas vivências, inclusive em relação umas às outras. Nesse sentido, chama atenção principalmente a professora homofóbica que tem como amiga mais antiga uma mulher lésbica com histórico militante e a idosa de 93 anos a favor do Brexit que acolhe e ama sue nete Morgan ainda que não compreenda seu gênero.

Essa relação entre identidades, relações humanas e dinâmicas sociais é construída a partir de uma narração que nos permite conhecer como cada uma das personagens fala, sente, se relaciona, pensa e vê o mundo. Com referências abundantes e uso variado da linguagem, a autora e sua tradutora Camila von Holdefer recriam a sensação da oralidade aproximando o leitor de cada uma das personagens. Toda essa intimidade assim exposta produz a sensação de uma conversa íntima e nos instiga como uma bela fofoca. Essa capacidade da autora em produzir proximidade pode chegar até mesmo a ser incômoda, mas é o que ajuda a afastar esse livro de ser lido somente na chave de um caprichado estudo de personagens para uma peça de teatro.

A sensação da leitura é de às vezes nos fazer sentir no meio de um tumulto de vozes e talvez por isso mesmo, vez ou outra e dependendo do personagem, o texto até lembre o Twitter. Bernardine explora como a linguagem diz muito sobre cada falante para construir as personas dessa história, optando por não descrever diretamente as particularidades de cada uma, mas mostrar as personalidades a partir de situações, reações e pensamentos, levando em conta como a escolha das palavras diz muito sobre origens, referências, gerações, amizades e até mesmo sobre como as pessoas querem se apresentar para o mundo. A importância desse critério ganha contornos especiais na história de Morgan/Megan, mas também se faz presente na construção das diferenças entre mães e filhas.

Como essa é uma narrativa focada nas experiências de mulheres diversas e uma personagem não-binária, todas relacionadas, ao menos indiretamente, com a imigração, a violência masculina, racista, lgbtqiafóbica e xenófoba faz parte da trama, sem, no entanto, definir suas personagens somente a partir desses fatos em comum.

Chama atenção também como a autora conseguiu conduzir tantas personagens a um evento em comum, evidenciando assim seus conflitos, contradições e diferenças, mas também suas semelhanças e o mosaico que compõe, de certa forma, a Inglaterra contemporânea e sua história.

“Garota, mulher, outras” é um livro recomendadíssimo, desses que mostram que a literatura é sempre política, seja a feita por Bernardine Evaristo ou por um homem branco aleatório falando sobre escrever, e isso não diminui seu poder, alcance e impacto, inclusive estético. Se literatura serve pra gente elaborar a vida e a condição humana, ela será marcada sempre por essa batalha entre identidade e alteridade que envolve a leitura mesmo entre os mais semelhantes.

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As tantas mulheres que passaram na cabeça de Maria Luiza Machado

Acervo pessoal – Foto publicada originalmente no meu Instagram

“Tantas que aqui passaram”, livro de poemas da Maria Luiza Machado é um catálogo poético de personagens femininas. Formado por 29 mulheres-poemas, essa é uma obra que nos coloca em contato com a condição humana das mulheres, enquanto também evidencia, de forma sutil, aspectos sociais e culturais que influenciam na construção dessas subjetividades muitas vezes marcadas por diversas angústias. Solidão, maternidade, trabalho, fé e relacionamentos amorosos e familiares são alguns dos temas abordados pela autora a partir de uma perspectiva íntima, que nos coloca em contato com os pensamentos secretos de cada uma dessas personagens.

Os poemas de Maria Luiza soam narrativos para os fãs de prosa e bons personagens e exploram repetições, pausas e alguns aspectos da oralidade, lembrando muitas vezes fluxos de consciência. A construção poética dos detalhes cotidianos expostos em alguns dos versos também chama atenção e ajuda a formar cenários e sensações, fornecendo uma espécie de lupa para quem lê. Lupa essa que nos ajuda a investigar um pouco mais de cada uma dessas personas que nos são apresentadas.

Como diz o posfácio de Monique Malcher, terminamos de ler esses poemas nos sentindo povoadas. Não sendo e sendo cada uma dessas mulheres que sempre nos lembram alguém, às vezes até a gente mesma.

“Tantas que aqui passaram” é sobre o universo que cabe em cada pessoa, uma obra que nos faz pensar no quanto semelhança e diferença constroem o universo da pluralidade e isso tem uma importância especial em um universo que insiste em impor padronizações.

O livro é uma publicação da Mormaço Editorial, editora independente fundada em 2020 e coordenada por Maria Luiza Machado e seu sócio Daniel Pasini. Ele foi diagramado e ilustrado por Isabela Sancho e viabilizado através de um financiamento coletivo. Esse é o terceiro livro da autora, que nasceu em 1995 em Feira de Santana na Bahia e mora em Salvador desde 2014. Os livros anteriores dessa jovem escritora foram: “Algumas histórias sobre a falta” (2018) e “Todos os nós” (2019).

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Algumas notas sobre Cães e Grilos

“Cães”, obra de estreia da escritora baiana Júlia Grilo, me encontrou durante uma conversa com uma amiga. Esse não foi um encontro fortuito, mas nele também não fui parte ativa, o livro foi sujeito aqui, ainda que tenha sido apresentado por intermédio de alguém. Não me entenda mal, o arquivo não surgiu do nada no meu Kindle, mas Cafeína já estava comigo antes mesmo de eu começar a ler, porque eu também tive cachorros na infância e todos eles sempre foram parar no meu quintal.

Desde as primeiras páginas, Cafeína e a narradora humana me pareceram próximas demais de quem eu fui, sou e provavelmente serei. Posso dizer que as pequenas rebeldias das duas me encontraram de alguma forma, seja na via da identificação, seja na do desconforto. Talvez agora seja a hora de falar que esse não foi um livro fácil de ler, apesar de eu ter amado a experiência por n motivos, inclusive o de ter encontrado no texto uma fluidez de quem gosta de conversar, ouvir e refletir sobre tudo e todos. Júlia Grilo estreia com uma história incômoda, essa é a verdade. Júlia quer que a gente termine o dia pensando em sujeição, poder e alteridade e isso está evidente em todas as suas páginas.

A mistura de elementos autobiográficos com a criatividade do olhar da narradora para os animais faz dessa história um romance com elementos de formação, como o amadurecimento da cadela e da menina, marcado pela perseguição de uma ideia, de um questionamento, de uma reflexão filosófica que faz a gente se sentir transitando em um texto híbrido, que brinca de ser ensaio quando ele quer, falando inclusive de amor. Essa simbiose de temas e estruturas nos faz pensar no bicho humano, esse que, como mostra a autora, não se coloca como um animal mesmo sendo um. E é na violência que a covardia de não se ver como bicho às vezes toma forma.

Nesse sentido, chama a atenção como a autora aborda temáticas relacionadas com machismo, racismo e classe, fazendo uma miscelânea com as experiências da cadela e da narradora que tangenciam o sexo e até a cor de pele e pêlo, trazendo a partir do animal a crítica aos comportamentos, práticas e problemáticas humanas que aproximam as duas espécies a partir da identificação pela obrigação de subordinação feminina.

Esse é um livro que faz a gente pensar em todo o antropoceno, ir longe, querer brigar com quem exclui os bichos do céu (e do inferno) mesmo sem acreditar nessas coisas, mas confesso que, em meio a esse mundo de reflexões, eu pensei, principalmente, nos cães que amei, nos cachorros que conheci, nos peludinhos que um dia vi passar pela calçada.

“A existência de Cafeína escancarava as minhas limitações e deixava-as mais robustas. Ela era tão diferente de mim — e ainda assim vivia.” 

Os meus

Meu primeiro cão veio com nome e história. Faruck, o primeiro de seu nome, chegou na minha casa antes de completar o desmame e eu, junto da minha mãe, o alimentei com fórmulas caninas ideais para aquela situação. Tamanha precocidade não foi por escolha dos meus pais, deixo claro. Meu primeiro cão foi, antes de meu, um presente rejeitado que a filha adolescente de uma colega da minha mãe ganhou de um ex-namorado.

Faruck era um pinscher tamanho pp preto com peito e barriga e algumas patas brancas, com detalhes minúsculos na cor de caramelo. Adorável e estranhamente humano e adulto, ele dormia no quintal, mas passava todo o resto do tempo dentro de casa. Sendo adorável, muito humano e adulto, ele era considerado limpo o suficiente pra isso. Faruck morreu em um acidente idiota quatro ou cinco anos depois dele chegar na minha casa. Independente da seriedade da minha narração, risadas desoladas seguidas de pedidos de desculpas surgem sempre quando eu narro o acidente que tirou sua vida: Faruck saiu em disparada com medo de ser pego fazendo xixi fora do lugar, escorregou no próprio xixi e bateu a cabeça na quina da porta da cozinha, caindo morto na hora.

Um mês depois, buscamos na casa de um jardineiro conhecido do meu pai um outro cachorrinho. Faruck, o segundo, era diferente de seu antecessor, apesar de ter ganhado o mesmo nome. Não era tão pequeno assim, era todo marrom e foi desmamado na hora certa. Faruck viveu 17 anos e 6 meses e, cá entre nós, era parente de um pinscher com certeza, mas não um pinscher puro. Faruck foi meu melhor amigo e também o melhor amigo do meu irmão. Eu poderia escrever linhas e mais linhas contando como brincamos juntos, como nos apoiamos, como fomos íntimos mesmo nas minhas fases mais distantes, como eu tentei compensar minhas ausências anteriores cuidando muito bem dele no fim da vida, respeitando inclusive a morte como uma possibilidade. Faruck foi eutanasiado em abril de 2019 e está enterrado no jardim da casa dos meus pais junto ao seu cobertor e bolinha preferidos.

E tem o Billy, que também já veio com nome e história, uma história que parece ter alguns traumas inclusos. Billy está vivo, cego de um olho e é um desses pets que nunca aprenderam a brincar. Billy é um pinscher em teoria, mas tem a carinha redonda como a de um chihuahua, o que combina com o cachorro de colo que ele é, apesar de suas práticas nojentas que o impedem de ficar dentro de casa. Ele é marrom chocolate com detalhes em caramelo, um cachorrinho tão bonito que já foi entrevistado pela tv afiliada da Globo da minha cidade. Um cachorrinho tão bonito que, infelizmente, come cocô, mija em tudo e, se a gente der bobeira, rouba papel higiênico usado e leva pra sua casinha.

Billy e Faruck eram irmãos por adoção, mas rivais. Diferentes, mas semelhantes. A relação deles era complicada, não nego, mas acho que dá pra dizer que havia ali uma rivalidade saudável, que, apesar do ciúme e algumas disputas territoriais, envolvia respeito e até preocupação com o outro. Conforme Faruck envelhecia, mais a gente percebia isso. Billy viveu esse luto junto com a gente.

Se a casa virou território ilegal para meus cachorros foi por causa do acidente que tirou a vida do que veio primeiro, mas a proibição quase total só veio mesmo quando o Billy e suas nojeiras chegou. Faruck I, Faruck II, Billy, todos são ou foram cães de quintal, talvez cães de quintal privilegiados perto de Cafeína, mas cães de quintal. Eles tinham espaço para correr e brincar, vacinas em dia e, por serem tão pequenininhos, viviam sendo carregados pra dentro nos dias após banho, provando que o privilégio de ser fofo é um fato canídeo, ao menos para os cães desse tipo. Billy que está vivo, apesar de velho, pode confirmar.

“Essa história pode parecer ter pouca ou nenhuma relação com Café, mas tem muita. Café não se fez sozinha, tampouco prontamente. Seu corpo é também produto de uma ação conjunta de várias mãos, várias mãos de vários tipos, tipos que apalparam e acariciam em ordem de forças diferentes; forças que a atravessaram em varias direções.”

Voltando ao livro

Ler “Cães” foi uma experiência que envolveu lidar com o meu luto pelos bichos da minha vida. E também o luto por todos os outros bichos, domésticos ou não, que eu inclusive como mesmo após mais de dois anos de vegetarianismo. Ler “Cães” me fez pensar em dominação e no quanto é preciso desaprendê-la. E eu me pergunto agora: e é mesmo possível desaprendê-la por completo?

“De tão dessemelhantes, eles ligaram-se um ao outro e suas dessemelhanças fizeram par”

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O poema em linhas porcas por Álvara de Campos Feios

Parodiando clássicos para falar de ontem, hoje e amanhã

nunca conheci uma mulher que tivesse pulado faxina
todas as minhas conhecidas têm sido campeãs em limpeza e organização
e eu, tantas vezes nojenta, tantas vezes porca, tantas vezes feia,
eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
indesculpavelmente suja

eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
eu, que tantas vezes tenho sido ridícula, absurda,
que tenho sujado com os pés publicamente meus tapetes sem etiqueta,
que tenho sido grotesca, mesquinha, nada submissa e arrogante
que já não tenho mais sofrido com cascalhos e retalhos pelo chão, nem me calado sobre
e quando tenho calado, tenho sido mais ridícula ainda, limpando sem querer

eu, que tenho sido cômica às mulheres ao redor
eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços vendedores de produtos de limpeza
eu, que tenho feito vergonhas domésticas, descansado antes de limpar
eu, que quando uma obrigação dessas surge, me tenho sempre em outro cômodo
pra fora da possibilidade da labuta
eu, que já não tenho mais sofrido a angústia dessas pequenas sujeiras ridículas
eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo

todas as mulheres que eu conheço e que falam comigo
nunca tiveram um ato porco, nunca sofreram de preguiça,
nunca foram senão princesas — todas elas princesas e servas — na vida…
quem me dera ouvir de alguém a voz feminina
que confessasse não um pecado sexual, mas algo que não foi limpado e organizado como deveria
que contasse, não sobre uma noite de sexo sujo, mas uma porcaria!
não, são todas ideias, se os oiço e me falam
quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi imunda?
ó princesas e servas, minhas irmãs

arre, estou farta de semideusas!
onde é que há outras mulheres sujas e feias nesse mundo?
então sou só eu que sou suja, feia e despudora nesta terra?

poderão os homens não as terem obrigado?
pode, ter sido traídas, socadas, machucadas — mas porcas nunca!
e eu, que tenho sido porca sem ter sido traída, socada e machucada,
como posso eu falar com as minhas superioras sem titubear?
eu, que venho sido suja, literalmente suja,
suja no sentido preguiçoso, indecoroso e repugnante da porqueza.

trapos somos, trapos limpamos, trapos engomamos —
que trapo sujo que é este mundo!

o horror sórdido do que, a sós consigo,
vergonhosa de si, no escuro, cada mulher pensa ter que limpar


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Aproveite para reler ou conhecer o Poema em Linha Reta do Fernando Pessoa, heterônimo Álvaro de Campos, nesse livro disponível de graça para os assinantes do Kindle Unlimited.

“A Secret Love”: uma história de uma vida inteira de amor entre mulheres

Terry Donahue e Pat Henschel quando jovens

Durante mais de 60 anos, a ex-jogadora de beisebol Terry Donahue e sua companheira Pat Henschel viveram, ao menos frente a grande parte do mundo, inclusive suas famílias, como amigas, roomates ou primas. Elas dividiram a vida como casal, mas somente na terceira idade se sentiram seguras para sair do armário, como expõe o documentário, dirigido por Chris Bolan e roteirizado por ele, Alexa L. Fogel e Brendan Mason.

Lançado pela Netflix no último 29 de abril, o filme apresenta essa história de amor com delicadeza e respeito pela trajetória das envolvidas, sem deixar de mostrar os desafios que elas tiveram que lidar para se manter seguras numa época que a homossexualidade, além de considerada doença, era também um crime nos EUA. Elas, como imigrantes canadenses, revelam, por exemplo, que nunca frequentaram bares voltados para o público lésbico com medo de serem presas, expostas e também deportadas.

Essa história é contada a partir de um novo obstáculo que elas precisam lidar: o envelhecimento e as limitações que ele pode trazer. Questão essa que atormenta diversos casais e pessoas de sexualidade não heterossexual, porque envolve uma perda de autonomia que pode acarretar uma negação de suas identidades, biografias pessoais e direitos. Afinal, se nem toda casa de repouso aceita receber dois homens ou duas mulheres como casais, imagine então familiares que se opuseram ao relacionamento ou passaram anos fingindo que ele não acontecia. Muitos, inclusive, usam o fato de alguns casais nunca terem se casado formalmente para acessar os bens de seu ente, tutelado ou morto, deixando a outra parte desamparada e sozinha. O que, felizmente, não acontece nessa narrativa que é, sobretudo, feliz.

O trunfo do documentário é expor as dificuldades que o casal enfrentou para poder viver o seu amor em segurança sem deixar de revelar as histórias e os bons momentos que elas dividiram. As inúmeras fotos das duas juntas e trechos de vídeos caseiros ajudam o espectador criar uma intimidade com a história dessas duas mulheres, mas as cartas de Pat para Terry são ainda mais especiais e servem como um meio poderoso para entender a intensidade do amor delas. E também os impedimentos, já que elas foram guardadas propositalmente rasgadas na área onde ficava a assinatura de Pat, porque elas temiam ser descobertas.

A história das duas começou nos anos 40, em 1947, pelo menos 20 anos antes da Rebelião de Stonewall, um dos principais marcos da luta LGBT nos EUA, e elas ficaram juntas — e vivas — tempo o suficiente para ver a homossexualidade deixar de ser considerada doença pela OMS em 17 de maio de 1990, 30 anos atrás, e poder se casarem numa cerimônia que uniu parentes de Terry e também a família que o casal formou em Chicago, essa composta por outras pessoas também homossexuais, como Jack Xagas e John Byrd.

“A Secret Love”, além de uma história de amor entre mulheres, é também sobre envelhecimento e o que ele pode significar para um casal, especialmente um casal homossexual, e ainda vai além, porque, ao discorrer sobre as vidas de Pat e Terry, descobrimos que Terry teve uma trajetória pioneira como atleta de beisebol, um esporte que no Brasil foi proibido para mulheres por quase 40 anos. Terry sempre desobedeceu o que era esperado de uma mulher e, segundo ela mesma, foi por isso que foi feliz. Feliz com Pat, essa que sempre gostou de poesia.


O documentário recebeu o nome “Secreto e proibido” no Brasil e pode ser visto na Netflix. Vê-lo hoje, 30 anos depois da homossexualidade ter deixado de ser considerada doença pela OMS, é uma maneira de homenagear todos os casais que viveram seus amores em segredo por medo.


Uma adaptação desse texto saiu no Instagram do projeto “Diversidade no Direito”. Confira aqui.

O que a pandemia tem a ver com feminismo?

Ou reflexões sobre mulheres, machismo e pandemia

Foto, feita por Marcha Noticias, de uma arte feita por Ailen Possamay inspirada numa famosa frase de Silvia Federici

Uma pandemia pode parecer um péssimo momento para falarmos sobre machismo, mas não é. A desigualdade, as opressões e os diversos fenômenos relacionados, todos já grandes conhecidos do período anterior ao isolamento social, agora se manifestam de maneira diferente, tornando a pandemia muitas vezes um intensificador de vulnerabilidades já existentes. Vulnerabilidades que agora parecem mais invisíveis, ainda que possivelmente mais intensas, e que tornam as discussões e as propostas de políticas públicas a respeito urgentes, visto que o isolamento, além de poder agravar certas situações, também afeta o acesso aos serviços essenciais de denúncia e a rotina pessoal de famílias.

A pandemia acentua os problemas sociais que a sociedade encarava até então como parte da normalidade. Os entregadores de aplicativos de delivery, por exemplo, já eram extremamente explorados antes e agora, com a pandemia, são vistos como um serviço essencial, mas continuam sendo pagos como se nada houvesse mudado. Ainda sem qualquer garantia de direito. Ainda como apenas um fator sem nome numa planilha de lucros que agradam acionistas. Com as mulheres não é muito diferente. A exploração do trabalho reprodutivo e doméstico já existia e agora, com muitas famílias em casa, a situação se intensificou. Especialmente nos lares com crianças e adolescentes, onde ainda há a cobrança de manter a rotina educativa e minimamente normalizada. Esse trabalho, ainda mais essencial agora, segue totalmente desvalorizado e ligado ao feminino, deixando mulheres exaustas com algo que poderia ser totalmente dividido, inclusive no quesito carga mental.

Um ótimo exemplo desse fenômeno é a matéria que saiu no site The Lily, que apresentou dados que mostram que durante a pandemia as mulheres têm enviado menos artigos científicos, enquanto homens estão enviando até 50% a mais. A sobrecarga do trabalho doméstico para as mulheres é um alívio para os homens que se comportam como se o trabalho doméstico e de cuidado não fosse responsabilidade deles. Eles lucram com essa vantagem, ainda que muitos consideram que dão uma mãozinha, porque eles, ajudando na louça ou não, saem na frente das mulheres que raramente vivem com alguém que divida tudo de forma igualitária.

O trabalho doméstico e reprodutivo segue considerado invisível, ignorado nos cálculos econômicos principais, enquanto a exploração, essencial para a manutenção do sistema, segue colocando homens, principalmente brancos, na frente. Nessa lógica, cabe às mulheres a obrigação de colocar a vida e o trabalho de seus parceiros como prioridade. Seguimos sempre acessórias.

Estar em casa é perceber que o trabalho doméstico não tem fim. Quando uma parte dele termina, como a finalização da lavagem de um banheiro, outra parte dele começa, enquanto a sujeira volta a se acumular. Todos sujam, poucas limpam, sendo esse um serviço sem fim, que deve ser feito a partir de cooperação, mas é colocado como um dever das mulheres que moram ali ou das profissionais de limpeza mesmo durante uma pandemia.

A desigualdade não se apresenta de maneira estanque. A mulher, dentro de uma família, é responsabilizada como a cuidadora do lar, dos filhos e dos demais doentes e vulneráveis, mas isso, no capitalismo, pode existir em outros formatos, como a contratação mal remunerada de babás, empregadas domésticas, faxineiras e cuidadoras. Se a pandemia fez mulheres como grupo geral trabalharem em dobro dentro de suas casas, ela atingiu de forma especial as mulheres que trabalham com limpeza, especialmente as que prestam serviços para hospitais, supermercados e farmácias ou para a casa de quem é egoísta demais para não dispensar, de maneira remunerada, a faxineira. Essas que são, geralmente, negras e pobres e tem como opção trabalhar ou trabalhar.

Ainda nesse sentido de trabalho e economia, é preciso ressaltar que grande parte dos profissionais de saúde, especialmente quando falamos de técnicos de enfermagem e enfermeiros, são mulheres. Fora as faxineiras, copeiras e atendentes que trabalham nos hospitais, supermercados e farmácias. Há uma certa feminilização de várias profissões que estão muito mais suscetíveis ao contágio, o que, além da possibilidade de contaminação e até morte, cria desafios especiais, inclusive financeiros, por causa da necessidade que essas profissionais possuem de se isolar de filhos e idosos que estão sob sua responsabilidade, sendo elas, muitas vezes, as únicas encarregadas pelo cuidado da família.

Outro ponto a ser levantado é que a informalidade atinge mulheres de uma maneira especial, o que contribui para a feminilização da pobreza e a gravidade dos impactos da Covid-19 no momento. Sendo esse fenômeno ligado ao fato de que o mercado de trabalho tende a ignorar mães como contratáveis e a ideia, ainda vigente, de pai de família provedor, que torna homens, ao menos na cabeça de muitos empregadores, mais importantes de serem mantidos como empregados em momentos de crise. Esse comportamento ainda é um padrão, mesmo quando as estatísticas apontam um número para lá de considerável de abandono paterno e famílias chefiadas por mulheres no Brasil e exista um entendimento, que embasa, inclusive, a previsão de regras específicas voltadas para mulheres nos benefícios sociais Bolsa Família e agora a Renda Emergencial, de que dinheiro nas mãos das mulheres ajuda a garantir a segurança alimentar das pessoas ao redor delas.

Toda essa questão econômica misturada com a crise sanitária tangencia um problema ainda mais grave: a violência doméstica. Com homens e mulheres dentro de casa em um contexto que envolve frustração, perda de poder econômico, pressões de todo tipo, dificuldade de acesso aos direitos básicos, medo e, claro, a ideia ainda vigente de que mulheres são inferiores, acessórias, devem obediência ou algo que significa isso aos homens, o número de denúncias de violência doméstica — e também divórcios, que podem pontuar desentendimentos comuns e saudáveis entre parceiros, mas também o fim de relacionamentos abusivos não denunciados — aumentou no mundo todo. Inclusive no Brasil.

O isolamento social intensifica pontos muito importantes quando falamos de violência familiar. Entre eles, merece destaque o fato de que relacionamentos já violentos, com essa proximidade forçada, podem se tornar ainda piores. Até porque a dificuldade de acesso aos serviços básicos de denúncia e atendimento pode ser encarada pelo agressor como uma possibilidade ainda maior de impunidade. A mulher, nessa situação, passa a viver numa espécie de cárcere privado com o seu agressor, o que pode dar um ritmo mais intenso ao ciclo da violência, bem em um momento em que o grupo de apoio dessa mulher não pode sequer perceber facilmente que algo está acontecendo. A vítima perde muito com essa falta de acesso ao mundo exterior: ela encontra obstáculos na hora de denunciar, se sente ainda mais solitária na situação, passa a considerar que não há para onde fugir e, muitas vezes, teme se afastar do lar, mesmo que por pouco tempo, e deixar o algoz junto com os filhos. O isolamento é um obstáculo para o pedido de ajuda. Especialmente quando o seu agressor mora com você.

O que antes separava a mulher da denúncia e a colocava numa situação de silêncio, aumentando a subnotificação, agora existe com um intensificador que envolve um isolamento que muitas vezes pode ser alienador. Nesse contexto, seria muito importante campanhas com a velha pegada do “em briga de marido e mulher, a gente mete a colher” para estimular vizinhos, amigos e familiares a denunciarem, caso suspeitassem de algo. Fora a criação de facilitadores de denúncia em ambientes como padarias, supermercados e até hospitais, como a França fez de acordo com essa matéria.*

O sofrimento das vítimas de violência doméstica não pode ser tratado como invisível, ainda que agora seja mais difícil perceber, por causa das paredes e das portas e janelas fechadas. Essa questão precisa ser encarada de frente. Só que com ou sem pandemia, o Brasil vive um momento em que questões como a violência contra a mulher são tratadas como sintomas de uma suposta degradação moral feminina ou até masculina. A agenda conservadora muitas vezes fala da violência dentro de relacionamentos como uma questão que surge por culpa da mulher ou simplesmente a simplifica, de maneira tola, e pega o que pode ser um desencadeador, como a frustração da perda financeira e o álcool, e coloca como culpados isolados, ignorando o vínculo desse tipo de agressão com o machismo e a misoginia.

A sensação é que o Estado parece ignorar que a situação atual, por ser diferente, precisa de respostas diferentes. Sendo que mesmo na antiga normalidade todo o sistema de proteção das mulheres era frágil demais. Serviços como o do aborto legal, que no Brasil existe voltado para casos de estupro, feto anencéfalo e risco de morte para gestante, sofreram tentativas de pausas em vários hospitais, sendo que nem os estupros e nem as gravidezes decorrentes deles pararam. Também nesse sentido, vale a pena refletir sobre a violência sexual e a possibilidade de aumento da subnotificação e piora ao acesso aos serviços de apoio e denúncia. Estupros maritais, que são parte da violência doméstica, podem ter crescido e o possível acesso facilitado pelo isolamento aos corpos de crianças e adolescentes que vivem com algum abusador é um fator importante a ser lembrado, principalmente porque a escola muitas vezes funciona como um local de possível amparo para muitas vítimas e agora esse contato, antes essencial, se acontece, é via computador e perto do possível agressor.

Os números atuais apontam para uma diminuição considerável de crimes relacionados com a ideia de segurança pública e um aumento daqueles crimes que estão centrados no lar, esse lugar, que apesar de ainda ser visto como um reino feminino, é também onde homens exercem seu poder, muitas vezes por meio da violência e do autoritarismo. Violência que também é voltada contra filhos, idosos e animais domésticos e que também reproduz lógicas como homofobia, lesbofobia e capacitismo.

A pandemia, apesar de ter mostrado a face solidária de muitas pessoas que hoje organizam ações diretas contra a fome e outras questões, infelizmente parece ter sido um catalisador das desigualdades já existentes. Um jovem negro, usando a máscara de pano na face, obrigatória em vários municípios brasileiros, teme levar um tiro da polícia, porque o racismo não tem pausa. Uma mulher, em total isolamento social, teme agora se contaminar e ver toda sua família doente, porque seu marido, seu pai ou seu irmão, seguem desrespeitando as regras de isolamento ainda que possam ficar em casa. Como comumente responsáveis pelo cuidado, a preocupação costuma ser maior entre as mulheres. E a frustração, tão desencadeadora de violência masculina, tende a ser mais perigosa para elas por ter tanta força e significado entre os homens.

Ao falar de pandemia e feminismo, especialmente quando temos Bolsonaro e Trump no poder, tudo que se relaciona com o poder masculino e sua relação com autoritarismo, negativa de fragilidade e negligência de cuidados parece ganhar destaque. Essa é masculinidade hegemônica, que ainda é colocada como admirada, e, infelizmente, imitada. É pela força, grosseria, indiferença, e completa falta de empatia que muitos homens se reafirmam como homens. E a casa parece ser o espaço mais acessível para muitos dos caras que ainda enxergam o mundo como deles se manifestarem e se validarem assim.

Até na negação da pandemia, há uma questão de gênero. Muitos homens se colocam como intocáveis até mesmo ao vírus. Muitos homens são incapazes de cuidar dos outros e de si mesmos e se negam a admitir que um vírus pode derrubá-los. Como se isso fosse uma manifestação de fraqueza impossível de caber nessa figura do macho que eles cultuam para si e para os outros. Pedir que eles ajam com cautela, higiene e sigam recomendações de saúde para proteger a coletividade é muito difícil, porque eles se consideram acima dela. Afinal, é isso que a masculinidade branca hegemônica ensina.

A antiga normalidade já é passado. O que vivemos agora é diferente e as políticas públicas e nossas discussões precisam levar isso em conta, até porque tudo indica que o mundo de antes não mais voltará, e agora é hora de trabalharmos o combate da desigualdade a fim de criar uma nova perspectiva. Uma perspectiva que não quer se acostumar em jogar esses problemas para debaixo do tapete só porque eles parecem menos visíveis agora. Uma perspectiva que cuida de quem cuida.

  • Nessa matéria, há uma lista de ações, virtuais ou presenciais, que têm ajudado mulheres em situação de violência doméstica. Se esse é o seu caso, saiba que uma vida sem violência é possível e conheça mais sobre essas políticas públicas, grupos de apoio e aplicativos de denúncia a partir do link.
  • Pessoalmente podemos amparar mulheres em relacionamento abusivo discorrendo sobre o assunto publicamente e de maneira geral e responsável para que essas mulheres, enquanto grupo, saibam que não estão sozinhas e que é possível viver uma vida sem violência. No caso de você conhecer uma possível vítima, ofereça de forma respeitosa apoio e atenção, ainda que virtualmente ou pelo telefone. Lembrando, sempre, que é preciso ter cuidado para não fazer com que a vítima se sinta envergonhada ou culpada pela situação. Mais dicas nessa thread da Anis Bioética.
  • Como já dizia Simone de Beauvoir, segundo relatos de feministas francesas e entrevista a Claudine Monteil em 1974, basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Agora temos a certeza que as crises sanitárias também entram nesse balaio. Segundo a Folha de São Paulo, no retorno à nova normalidade na Itália, organizações de pais e grupos de mulheres criticaram a ausência de alternativas para viabilizar a volta ao trabalho. Nesta semana (do dia 04/05), 75% dos que voltam a trabalhar são homens segundo um estudo com dados do Istat, evidenciando os impactos da economia do cuidado na vida das mulheres. Os homens voltam ao trabalho e as mulheres são obrigadas a ficar em casa para continuar fazendo o trabalho reprodutivo que segue invisível. Esse trabalho que encerra as mulheres em suas casas, não tem remuneração, nem valorização real e que tem tudo a ver com os papéis atribuídos aos gêneros.

Uma versão melhor desenvolvida desse texto saiu no livro “Pandemia e crises: percepções jurídicas e sociais”. Interessou? Acesse aqui.

Retrato de Uma Jovem em Chamas: um exercício de observação

(Contém spoilers)

Cada cena do filme “Retrato de Uma Jovem em Chamas”, obra dirigida por Céline Sciamma, poderia ser um quadro, um quadro pintado por Marianne, a protagonista dessa história focada em mulheres. Cada frame capta algo da imagem além dela própria, como se a história fosse contada também pelos mínimos detalhes que só um olhar atento e meticuloso é capaz de trazer para um retrato. O olhar que Marianne tem como seu. O olhar que Marianne volta para Héloïse, inicialmente por esse ser o seu trabalho e depois porque esse é o olhar da aproximação, dos laços que surgem entre os seres humanos, do desejo. O olhar que Héloïse retribui.

“Retrato de uma jovem em chamas” é uma história de amor, de amizade, de descoberta e de observação que acontece a partir da contratação de Marianne para pintar, secretamente, um retrato de Héloïse. Essa pintura precisa existir, porque será um presente para o homem que casará com a retratada que se recusa a posar. O casamento aqui é uma obrigação que a personagem deve aceitar, ela querendo ou não, porque cabe às filhas servirem como moeda nessa transação comercial.

O retrato de Héloïse é o motivo de Marianne estar ali, olhando, trocando, e inicialmente se colocando como uma dama de companhia para assim poder pintar, em segredo, quando elas não estão juntas. Esse quadro, além do motivo dessas mulheres se encontrarem, é também uma fonte de reflexão sobre o apagamento do desejo das mulheres e como o poder e as regras dos homens fala mais alto em relação a tudo que se relaciona a elas e suas vidas.

Apesar da ameaça de casamento que espera Héloïse, esse é um filme que expõe uma série de trocas, situações e eventos cotidianos que acontecem quando ninguém de fora está olhando. Sendo esse ninguém de fora homens ou mulheres que defendem os interesses deles.

Por um breve período de tempo, três mulheres jovens — Héloïse, a mulher a ser pintada, Marianne, a pintora, e Sophie, a criada — usufruem a liberdade de não estarem sendo observadas e vigiadas para aproveitar o momento, se divertir e também amparar. Durante esse espaço temporal, há a construção de uma intimidade que só é possível existir quando se cria uma relação de confiança pautada no instante, no desejo, na troca e no apoio sem dever ou pecado. Quando ninguém de fora está olhando, há espaço para relações genuínas surgirem. De fora daquela ilha, as engrenagens continuam a rodar, prontas para afetar essas mulheres e corrigi-las, mas no interior daquela casa, brevemente, elas parecem quase esquecer disso.

A observação é o centro do filme, tanto como um meio de criar empatia, vínculo e interesse, quanto como meio de controle. Todas as três personagens, Marianne talvez menos, estão acostumadas a serem vigiadas em algum nível. Ali, isoladas umas com as outras, confinadas numa ilha, sem a mãe de Héloïse ou qualquer outro representante da sociedade para ditar regras, elas encontram menos solidão do que em suas rotinas tão afetadas pelo olhar desses que só sabem vigiar.

A troca só é possível quando não se está vigiando alguém. O que torna esse filme também sobre o desejo de liberdade e a construção de afetos a partir dessa vivência. Todas elas querem uma vida em que podem ser livres e esses dias umas com as outras significa isso.

Um filme como esse mostra como o olhar masculino sempre foi uma prisão para as mulheres. Esse olhar dita quais comportamentos são os corretos e vigia e pune para garanti-los. Esse olhar é o patriarcado que tenta restringir a intimidade, a privacidade e a liberdade das mulheres. Só que as mulheres sempre encontram brechas para viver suas vidas e tentar ajudar as outras. Marianne mostra isso quando conta sobre como as regras dos homens tentam afastar as mulheres de serem pintoras completas a partir da proibição de que elas pintem nus e comenta que há como burlar isso e depois expõe seu quadro numa galeria usando o nome de seu pai. Sophie, ao precisar de um aborto, e encontrar amparo com Héloïse e Marianne e com toda uma comunidade de mulheres também serve como exemplo disso. Mesmo no meio de tantos rostos prontos para julgar, há como encontrar algo diferente. Há como desrespeitar as regras. Encontrar algum refúgio. Talvez isso seja o que chamam de sororidade.

A descoberta das personagens vai além da sexualidade, da troca e da amizade e perpassa toda essa questão de controle versus liberdade, de forma sutil, porque todas ali sabem que aquela situação não poderá durar para sempre, porque há uma promessa de casamento e Marianne está ali somente para garantir o quadro que simbolizará esse futuro. Há uma data de validade e as três devem aproveitar antes que o tempo delas vençam. Especialmente Héloïse e Marianne, que vivem um amor impossível por esse breve período que parece mínimo perto do resto de suas vidas, mas é mais do que o suficiente para marcá-las. É possível burlar as regras, mas ainda não dá para reescrevê-las e elas precisam aceitar o futuro que virá.

“Retrato de uma jovem em chamas” é uma declaração de amor ao exercício de observação livre de amarras e sem o objetivo de domínio e a tudo que pode surgir a partir disso. Por isso é tão bonito. Por isso cada cena parece uma obra de arte. Por isso narra o amor entre mulheres.


O Cinema, enquanto indústria, privilegia o olhar masculino que aprisiona as mulheres e limita que o trabalho delas, como o bordado de Sophie, seja valorizado. Como em diversos outros espaços, há um apagamento do trabalho feminino e um fenômeno que mescla invisibilização e desvalorização em relação aos feitos dos homens. Mesmo quando esses homens são acusados de terem violentado, sexualmente ou não, mulheres. A arte está acima de tudo, quando se trata de homens brancos. A arte é uma distração, um hobbie, uma prenda feminina. Ou um trabalho, quando seu pai te coloca como herdeira dele, mas um trabalho que jamais poderá ganhar tanto espaço quanto o de um homem, porque o mundo ainda só valoriza o que parece cercear as mulheres de alcançar sua plenitude.

“Retrato de uma jovem em chamas” é um dos melhores filmes que já vi e, apesar de ter sido bem aplaudido, foi encarado por alguns homens que se colocam como críticos como uma obra somente voltada para mulheres, como se apenas mulheres se interessassem por histórias contadas por nós. Como se a falta de personagens masculinos tornasse a obra imediatamente desinteressante. A película se destacou principalmente por causa da maneira que foi filmada, mas Céline Sciamma perdeu o prêmio César de melhor direção para Roman Polanski, diretor que tem uma condenação de estupro no currículo. Pelo menos Claire Mathon, diretora de fotografia da obra, levou merecidamente o César voltado para essa atividade.

Esse filme diz muito sozinho, mas também diz muita coisa quando analisado em seu contexto. A obra mostra o potencial, afetivo e artístico, que as mulheres possuem quando não estão sendo avaliadas o tempo todo por uma ótica masculina que busca submissão às regras feitas por eles. Potencial que ainda hoje segue ignorado quando privilegiam homens sempre, inclusive estupradores condenados, ou atribuem rótulos e nichos reducionistas ao que deveria ser visto como arte.


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Três poemas para o Oito de Março

Ou “Linha Direta, a tríade”

Judite decapitando HolofernesArtemisia Gentileschi

PRÓLOGO

sem querer
a gente deixa morrer na gente
o que precisa
de cuidado
apoio
sol na medida certa
e uma conversinha mole
regada a café
sorrisos
e comida de padaria

é uma morte devagar
que acomete
quem teme
não poder mais nada

é uma morte lenta
que caminha junto
com a desesperança
o controle
a apatia
a dor
a ameaça

UMA HISTÓRIA PARTIDA AO MEIO

um safanão
diante do não
outro
corretivo futuro

a mesa não foi posta na hora
soco na boca do estômago
choro silencioso
um pedido de perdão
dessa vez não

a polícia entra em cena
78 minutos depois
encontra a mulher sozinha
ensanguentada, mas viva

EPÍLOGO

estar suja de sangue
me incrimina
e alivia

esse gosto de ferro na boca é o sabor da legítima defesa


O Dia Internacional da Mulher não existe para que empresas prestem homenagens estereotipadas em forma de propaganda ou se apropriem da luta feminista para vender seus produtos. Essa simbólica data surgiu para denunciar a ainda insalubre condição feminina no mundo, propor debates, discutir políticas públicas e dar visibilidade aos feitos e lutas das mulheres.


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Ela disse: os bastidores da investigação jornalística que impulsionou mundialmente o #MeToo

Um livro para entender melhor o que estava em jogo na publicação da reportagem que impulsionou o #MeToo.

Acervo Pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Uma reportagem publicada no início de outubro de 2017 pela New York Times expôs, com bastante consistência, os assédios sexuais cometidos durante décadas pelo produtor Harvey Weinstein e a maneira que acordos extrajudiciais com cláusulas de confidencialidade foram utilizados para obter o silêncio por parte de suas vítimas, todas elas relacionadas a ele profissionalmente. A publicação dessa matéria, e de diversas outras que vieram a seguir, iniciou um debate que ganhou o mundo e teve um impacto especial nos EUA.

A denúncia do comportamento de Harvey Weinstein e outros homens poderosos e a quebra do silêncio de mulheres das mais diversas áreas permitiu que a sociedade começasse a tirar de debaixo do tapete relatos e denúncias que serviram para expor o quanto homens, das mais diversas áreas, incluindo negócios, tecnologia, política e cinema, aproveitam o poder que possuem para explorar e pressionar sexualmente as mulheres que os cercam.

Essas histórias demoraram tempo demais para serem contadas. E, a partir da leitura do livro “Ela disse”, escrito por Jodi Kantor e Megan Twohey, jornalistas vencedoras do Prêmio Pulitzer, podemos entender melhor o porquê.

A saga narrada pelas autoras da reportagem inicial sobre Harvey Weinstein mostra o quanto o produtor usava seu poder e influência, financeiros e não-financeiros, para conseguir acordos extrajudiciais com cláusulas de confidencialidade e barrar possíveis reportagens e investigações jornalísticas sobre ele. Fica evidente que isso funcionou por tanto tempo também porque as mulheres e suas denúncias sempre foram negligenciadas em nossa sociedade. Afinal, ao menos no mundo pré #MeToo, ele era um homem difícil e elas deviam saber — e aceitar — isso.

A obra nos ajuda a entender o quanto a investigação, escrita e publicação dessa matéria foi um processo demorado, perigoso e delicado, especialmente entre jornalistas e fontes. Enquanto elas pesquisavam, conversavam com mulheres e buscavam documentos, o cerco do ex-produtor e seus acobertadores se fechava em torno delas, colocando vítimas e jornalistas numa situação passível de intimidação.

Ninguém queria falar on the record sobre o caso. Medo, culpa, raiva, vergonha, vontade de fugir e, claro, cláusulas de confidencialidade eram obstáculos. Ninguém queria falar sozinha ou ser uma das primeiras a abrir o jogo publicamente. As jornalistas, entretanto, sabiam que precisavam de alguma declaração oficial para conseguir dar substancialidade à denúncia. E elas conseguiram e as matérias que vieram a seguir mostraram que quando uma fala, outras também se encorajam a falar.

Além do caso em si, o livro trata também de momentos pré e pós publicação da primeira matéria contra o produtor, colocando outros casos em evidência, como as acusações contra Trump e ao juiz Brett Kavanaugh. Tratar essas três histórias em conjunto permite que o leitor contextualize a força dessas denúncias e também compreenda melhor o backlash misógino que as sucederam.

Em um dos melhores momentos da leitura, o leitor se depara com o relato dos bastidores de uma conversa organizada pelas jornalistas com diversas mulheres denunciantes de homens por assédio sexual. A troca narrada ali envolveu atrizes e ex-assistentes do mundo do showbizz e também mulheres comuns como Kim Lawson, atendente de uma rede de fast food, e Christine Blasey Ford, a mulher que denunciou sozinha Brett Kavanaugh e enfrentou uma sabatina no Senado para tentar barrar que o seu algoz se tornasse parte da Corte Suprema dos EUA. É nessa parte que a gente entende, de verdade, o poder da primeira matéria e a importância do fenômeno #MeToo para as mulheres. Apesar dos pesares, o silêncio foi quebrado e todas essas mulheres, por mais diferentes que sejam, entenderam que não estavam sozinhas e precisavam agir por elas e pelas outras. Exatamente como Ashley Judd, atriz, ativista e uma das primeiras a denunciar o ex-produtor, acreditava desde o início.


Enquanto eu escrevia essa resenha, o julgamento criminal do ex-produtor Harvey Weinstein acontecia. A sentença desse caso tinha o condão de mostrar o poder da voz das mulheres ou o quanto ainda precisaríamos caminhar para finalmente sermos ouvidas.

Depois de cinco dias de júri em Nova York, ele foi condenado por dois dos cinco crimes que foi acusado e ainda enfrentará outro julgamento de agressão sexual na Califórnia. Alguns detalhes do processo demonstram que o #MeToo e todos os debates fomentados por feministas nos últimos tempos começou a transformar a forma que a sociedade vê as vítimas de violência sexual e mulheres no geral, mas ainda há um longo caminho pela frente. Um exemplo disso é que quando a defesa acusou que as vítimas mantiveram contato com Harvey após a “suposta” violência e e que elas eram responsáveis pelas escolhas que fizeram para promover suas carreiras, a promotoria soube mostrar o quanto essa argumentação era irrelevante e ignorava relações de poder.


Tradutoras da obra: Débora Landsberg, Denise Bottmann, Isa Mara Lando e Julia Romeu.


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“Dora e a Gata” e a importância das boas companhias

Acervo Pessoal

Lançada em novembro de 2019, a HQ “Dora e a Gata” veio ao mundo em formato de livro graças ao financiamento coletivo organizado pela autora e a contribuição de vários fãs, curiosos e amantes de quadrinhos. Por causa da publicação de trechos da história, as personagens que dão nome ao livro já tinham se tornado queridas pelo público que acompanha a Helô D’Angelo em seu Instagram antes mesmo da campanha do Catarse ser lançada.

Dora conquistou tanta gente porque seus dilemas são próprios ao início da vida adulta de nossa época. Sonhos que não cabem no que se entende como prático, trabalho desagradável, conflitos com a família, problemas de autoestima e relacionamentos abusivos.

Já a Gata nos seduziu do jeito felino de sempre: chegando de mansinho, precisando de cuidado, aprontando algumas e, claro, sendo fofa e uma boa companhia. Logo, Dora e a Gata se tornam uma boa dupla. Com a felina, com seu jeitinho único, ajudando Dora a entender que precisa se cuidar e também confiar mais em si mesma.

O poder dessa história está em mostrar a importância de se ter uma boa rede de apoio. Quando Caio, namorado da protagonista, age de maneira cada vez mais abusiva, Ceci e a Gata estão ali para Dora, mesmo quando ela quer se isolar de todos. São elas que dão confiança para que a personagem sinta que não precisa de um namorado como ele e a ajudam a perceber que todas aquelas dúvidas e sentimentos que ela tem sobre os comportamentos de Caio com ela não são fruto de exagero, como ele diz que são.

Um dos detalhes que chamam atenção nessa HQ é a presença de cenas cotidianas que incluem a leitura de livros, o uso de celular, as tarefas de casa, as refeições, a escrita, várias trocas de roupas, a hora de dormir e de acordar e afins. A partir desses momentos, Helô D’Angelo constrói a ambientação dessa história enquanto nos conta a natureza das relações que cercam a protagonista e mostram o amor presente em uma bela amizade entre mulheres se transformar em algo mais. E, de quebra, nos dá boas dicas literárias, como “Nossa Senhora do Nilo”, da Scholastique Mukasonga e as autoras Angela Davis, Chimamanda, Harper Lee, bell hooks e Sylvia Plath.

O que fica após o término dessa leitura é a certeza de que as boas companhias são aquelas que nos apoiam, incentivam e nos amparam quando precisamos. Elas são essenciais para que a gente consiga correr atrás dos nossos sonhos e viver bem. Aprendemos isso com essa história e, se a gente for parar para pensar, também com o processo de publicação de “Dora e a Gata” e outras obras independentes. Afinal, um financiamento coletivo ou algo do tipo é, antes de qualquer coisa, um meio de apoiar e dar um voto de confiança a um projeto de alguém. E isso, em tempos em que compartilhamos, na maior parte das vezes por necessidade, tantas denúncias, desgraças e “polêmicas” e poucas coisas boas, acaba sendo uma forma de sonhar junto.


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