Algumas notas sobre Cães e Grilos

“Cães”, obra de estreia da escritora baiana Júlia Grilo, me encontrou durante uma conversa com uma amiga. Esse não foi um encontro fortuito, mas nele também não fui parte ativa, o livro foi sujeito aqui, ainda que tenha sido apresentado por intermédio de alguém. Não me entenda mal, o arquivo não surgiu do nada no meu Kindle, mas Cafeína já estava comigo antes mesmo de eu começar a ler, porque eu também tive cachorros na infância e todos eles sempre foram parar no meu quintal.

Desde as primeiras páginas, Cafeína e a narradora humana me pareceram próximas demais de quem eu fui, sou e provavelmente serei. Posso dizer que as pequenas rebeldias das duas me encontraram de alguma forma, seja na via da identificação, seja na do desconforto. Talvez agora seja a hora de falar que esse não foi um livro fácil de ler, apesar de eu ter amado a experiência por n motivos, inclusive o de ter encontrado no texto uma fluidez de quem gosta de conversar, ouvir e refletir sobre tudo e todos. Júlia Grilo estreia com uma história incômoda, essa é a verdade. Júlia quer que a gente termine o dia pensando em sujeição, poder e alteridade e isso está evidente em todas as suas páginas.

A mistura de elementos autobiográficos com a criatividade do olhar da narradora para os animais faz dessa história um romance com elementos de formação, como o amadurecimento da cadela e da menina, marcado pela perseguição de uma ideia, de um questionamento, de uma reflexão filosófica que faz a gente se sentir transitando em um texto híbrido, que brinca de ser ensaio quando ele quer, falando inclusive de amor. Essa simbiose de temas e estruturas nos faz pensar no bicho humano, esse que, como mostra a autora, não se coloca como um animal mesmo sendo um. E é na violência que a covardia de não se ver como bicho às vezes toma forma.

Nesse sentido, chama a atenção como a autora aborda temáticas relacionadas com machismo, racismo e classe, fazendo uma miscelânea com as experiências da cadela e da narradora que tangenciam o sexo e até a cor de pele e pêlo, trazendo a partir do animal a crítica aos comportamentos, práticas e problemáticas humanas que aproximam as duas espécies a partir da identificação pela obrigação de subordinação feminina.

Esse é um livro que faz a gente pensar em todo o antropoceno, ir longe, querer brigar com quem exclui os bichos do céu (e do inferno) mesmo sem acreditar nessas coisas, mas confesso que, em meio a esse mundo de reflexões, eu pensei, principalmente, nos cães que amei, nos cachorros que conheci, nos peludinhos que um dia vi passar pela calçada.

“A existência de Cafeína escancarava as minhas limitações e deixava-as mais robustas. Ela era tão diferente de mim — e ainda assim vivia.” 

Os meus

Meu primeiro cão veio com nome e história. Faruck, o primeiro de seu nome, chegou na minha casa antes de completar o desmame e eu, junto da minha mãe, o alimentei com fórmulas caninas ideais para aquela situação. Tamanha precocidade não foi por escolha dos meus pais, deixo claro. Meu primeiro cão foi, antes de meu, um presente rejeitado que a filha adolescente de uma colega da minha mãe ganhou de um ex-namorado.

Faruck era um pinscher tamanho pp preto com peito e barriga e algumas patas brancas, com detalhes minúsculos na cor de caramelo. Adorável e estranhamente humano e adulto, ele dormia no quintal, mas passava todo o resto do tempo dentro de casa. Sendo adorável, muito humano e adulto, ele era considerado limpo o suficiente pra isso. Faruck morreu em um acidente idiota quatro ou cinco anos depois dele chegar na minha casa. Independente da seriedade da minha narração, risadas desoladas seguidas de pedidos de desculpas surgem sempre quando eu narro o acidente que tirou sua vida: Faruck saiu em disparada com medo de ser pego fazendo xixi fora do lugar, escorregou no próprio xixi e bateu a cabeça na quina da porta da cozinha, caindo morto na hora.

Um mês depois, buscamos na casa de um jardineiro conhecido do meu pai um outro cachorrinho. Faruck, o segundo, era diferente de seu antecessor, apesar de ter ganhado o mesmo nome. Não era tão pequeno assim, era todo marrom e foi desmamado na hora certa. Faruck viveu 17 anos e 6 meses e, cá entre nós, era parente de um pinscher com certeza, mas não um pinscher puro. Faruck foi meu melhor amigo e também o melhor amigo do meu irmão. Eu poderia escrever linhas e mais linhas contando como brincamos juntos, como nos apoiamos, como fomos íntimos mesmo nas minhas fases mais distantes, como eu tentei compensar minhas ausências anteriores cuidando muito bem dele no fim da vida, respeitando inclusive a morte como uma possibilidade. Faruck foi eutanasiado em abril de 2019 e está enterrado no jardim da casa dos meus pais junto ao seu cobertor e bolinha preferidos.

E tem o Billy, que também já veio com nome e história, uma história que parece ter alguns traumas inclusos. Billy está vivo, cego de um olho e é um desses pets que nunca aprenderam a brincar. Billy é um pinscher em teoria, mas tem a carinha redonda como a de um chihuahua, o que combina com o cachorro de colo que ele é, apesar de suas práticas nojentas que o impedem de ficar dentro de casa. Ele é marrom chocolate com detalhes em caramelo, um cachorrinho tão bonito que já foi entrevistado pela tv afiliada da Globo da minha cidade. Um cachorrinho tão bonito que, infelizmente, come cocô, mija em tudo e, se a gente der bobeira, rouba papel higiênico usado e leva pra sua casinha.

Billy e Faruck eram irmãos por adoção, mas rivais. Diferentes, mas semelhantes. A relação deles era complicada, não nego, mas acho que dá pra dizer que havia ali uma rivalidade saudável, que, apesar do ciúme e algumas disputas territoriais, envolvia respeito e até preocupação com o outro. Conforme Faruck envelhecia, mais a gente percebia isso. Billy viveu esse luto junto com a gente.

Se a casa virou território ilegal para meus cachorros foi por causa do acidente que tirou a vida do que veio primeiro, mas a proibição quase total só veio mesmo quando o Billy e suas nojeiras chegou. Faruck I, Faruck II, Billy, todos são ou foram cães de quintal, talvez cães de quintal privilegiados perto de Cafeína, mas cães de quintal. Eles tinham espaço para correr e brincar, vacinas em dia e, por serem tão pequenininhos, viviam sendo carregados pra dentro nos dias após banho, provando que o privilégio de ser fofo é um fato canídeo, ao menos para os cães desse tipo. Billy que está vivo, apesar de velho, pode confirmar.

“Essa história pode parecer ter pouca ou nenhuma relação com Café, mas tem muita. Café não se fez sozinha, tampouco prontamente. Seu corpo é também produto de uma ação conjunta de várias mãos, várias mãos de vários tipos, tipos que apalparam e acariciam em ordem de forças diferentes; forças que a atravessaram em varias direções.”

Voltando ao livro

Ler “Cães” foi uma experiência que envolveu lidar com o meu luto pelos bichos da minha vida. E também o luto por todos os outros bichos, domésticos ou não, que eu inclusive como mesmo após mais de dois anos de vegetarianismo. Ler “Cães” me fez pensar em dominação e no quanto é preciso desaprendê-la. E eu me pergunto agora: e é mesmo possível desaprendê-la por completo?

“De tão dessemelhantes, eles ligaram-se um ao outro e suas dessemelhanças fizeram par”

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O poema em linhas porcas por Álvara de Campos Feios

Parodiando clássicos para falar de ontem, hoje e amanhã

nunca conheci uma mulher que tivesse pulado faxina
todas as minhas conhecidas têm sido campeãs em limpeza e organização
e eu, tantas vezes nojenta, tantas vezes porca, tantas vezes feia,
eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
indesculpavelmente suja

eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
eu, que tantas vezes tenho sido ridícula, absurda,
que tenho sujado com os pés publicamente os tapetes das etiquetas,
que tenho sido grotesca, mesquinha, nada submissa e arrogante
que já não tenho mais sofrido com cascalhos e retalhos caídos no chão e me calado sobre
e quando tenho calado, tenho sido mais ridícula ainda limpando sem querer

eu, que tenho sido cômica às mulheres ao redor
eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços vendedores de produtos de limpeza
eu, que tenho feito vergonhas domésticas, descansado antes de limpar
eu, que quando uma obrigação dessas surge, me tenho sempre em outro cômodo
pra fora da possibilidade da labuta
eu, que já não tenho mais sofrido a angústia dessas pequenas sujeiras ridículas
eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo

todas as mulheres que eu conheço e que falam comigo
nunca tiveram um ato porco, nunca sofreram de preguiça,
nunca foram senão princesas — todas elas princesas e servas — na vida…
quem me dera ouvir de alguém a voz feminina
que confessasse não um pecado sexual, mas algo que não foi limpado e organizado como deveria
que contasse, não sobre uma noite de sexo sujo, mas uma porcaria!
não, são todas ideias, se os oiço e me falam
quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi imunda?
ó princesas e servas, minhas irmãs

arre, estou farta de semideusas!
onde é que há outras mulheres sujas e feias nesse mundo?
então sou só eu que sou suja, feia e despudora nesta terra?

poderão os homens não as terem obrigado,
podem ter sido traídas, socadas, machucadas — mas porcas nunca!
e eu, que tenho sido porca sem ter sido traída, socada e machucada,
como posso eu falar com as minhas superioras sem titubear?
eu, que venho sido suja, literalmente suja,
suja no sentido preguiçoso, indecoroso e repugnante da porqueza.

trapos somos, trapos limpamos, trapos engomamos —
que trapo sujo que é este mundo!

o horror sórdido do que, a sós consigo,
vergonhosa de si, no escuro, cada mulher pensa ter que limpar


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Aproveite para reler ou conhecer o Poema em Linha Reta do Fernando Pessoa, heterônimo Álvaro de Campos, nesse livro disponível de graça para os assinantes do Kindle Unlimited.

“A Secret Love”: uma história de uma vida inteira de amor entre mulheres

Terry Donahue e Pat Henschel quando jovens

Durante mais de 60 anos, a ex-jogadora de beisebol Terry Donahue e sua companheira Pat Henschel viveram, ao menos frente a grande parte do mundo, inclusive suas famílias, como amigas, roomates ou primas. Elas dividiram a vida como casal, mas somente na terceira idade se sentiram seguras para sair do armário, como expõe o documentário, dirigido por Chris Bolan e roteirizado por ele, Alexa L. Fogel e Brendan Mason.

Lançado pela Netflix no último 29 de abril, o filme apresenta essa história de amor com delicadeza e respeito pela trajetória das envolvidas, sem deixar de mostrar os desafios que elas tiveram que lidar para se manter seguras numa época que a homossexualidade, além de considerada doença, era também um crime nos EUA. Elas, como imigrantes canadenses, revelam, por exemplo, que nunca frequentaram bares voltados para o público lésbico com medo de serem presas, expostas e também deportadas.

Essa história é contada a partir de um novo obstáculo que elas precisam lidar: o envelhecimento e as limitações que ele pode trazer. Questão essa que atormenta diversos casais e pessoas de sexualidade não heterossexual, porque envolve uma perda de autonomia que pode acarretar uma negação de suas identidades, biografias pessoais e direitos. Afinal, se nem toda casa de repouso aceita receber dois homens ou duas mulheres como casais, imagine então familiares que se opuseram ao relacionamento ou passaram anos fingindo que ele não acontecia. Muitos, inclusive, usam o fato de alguns casais nunca terem se casado formalmente para acessar os bens de seu ente, tutelado ou morto, deixando a outra parte desamparada e sozinha. O que, felizmente, não acontece nessa narrativa que é, sobretudo, feliz.

O trunfo do documentário é expor as dificuldades que o casal enfrentou para poder viver o seu amor em segurança sem deixar de revelar as histórias e os bons momentos que elas dividiram. As inúmeras fotos das duas juntas e trechos de vídeos caseiros ajudam o espectador criar uma intimidade com a história dessas duas mulheres, mas as cartas de Pat para Terry são ainda mais especiais e servem como um meio poderoso para entender a intensidade do amor delas. E também os impedimentos, já que elas foram guardadas propositalmente rasgadas na área onde ficava a assinatura de Pat, porque elas temiam ser descobertas.

A história das duas começou nos anos 40, em 1947, pelo menos 20 anos antes da Rebelião de Stonewall, um dos principais marcos da luta LGBT nos EUA, e elas ficaram juntas — e vivas — tempo o suficiente para ver a homossexualidade deixar de ser considerada doença pela OMS em 17 de maio de 1990, 30 anos atrás, e poder se casarem numa cerimônia que uniu parentes de Terry e também a família que o casal formou em Chicago, essa composta por outras pessoas também homossexuais, como Jack Xagas e John Byrd.

“A Secret Love”, além de uma história de amor entre mulheres, é também sobre envelhecimento e o que ele pode significar para um casal, especialmente um casal homossexual, e ainda vai além, porque, ao discorrer sobre as vidas de Pat e Terry, descobrimos que Terry teve uma trajetória pioneira como atleta de beisebol, um esporte que no Brasil foi proibido para mulheres por quase 40 anos. Terry sempre desobedeceu o que era esperado de uma mulher e, segundo ela mesma, foi por isso que foi feliz. Feliz com Pat, essa que sempre gostou de poesia.


O documentário recebeu o nome “Secreto e proibido” no Brasil e pode ser visto na Netflix. Vê-lo hoje, 30 anos depois da homossexualidade ter deixado de ser considerada doença pela OMS, é uma maneira de homenagear todos os casais que viveram seus amores em segredo por medo.


Uma adaptação desse texto saiu no Instagram do projeto “Diversidade no Direito”. Confira aqui.

O que a pandemia tem a ver com feminismo?

Ou reflexões sobre mulheres, machismo e pandemia

Foto, feita por Marcha Noticias, de uma arte feita por Ailen Possamay inspirada numa famosa frase de Silvia Federici

Uma pandemia pode parecer um péssimo momento para falarmos sobre machismo, mas não é. A desigualdade, as opressões e os diversos fenômenos relacionados, todos já grandes conhecidos do período anterior ao isolamento social, agora se manifestam de maneira diferente, tornando a pandemia muitas vezes um intensificador de vulnerabilidades já existentes. Vulnerabilidades que agora parecem mais invisíveis, ainda que possivelmente mais intensas, e que tornam as discussões e as propostas de políticas públicas a respeito urgentes, visto que o isolamento, além de poder agravar certas situações, também afeta o acesso aos serviços essenciais de denúncia e a rotina pessoal de famílias.

A pandemia acentua os problemas sociais que a sociedade encarava até então como parte da normalidade. Os entregadores de aplicativos de delivery, por exemplo, já eram extremamente explorados antes e agora, com a pandemia, são vistos como um serviço essencial, mas continuam sendo pagos como se nada houvesse mudado. Ainda sem qualquer garantia de direito. Ainda como apenas um fator sem nome numa planilha de lucros que agradam acionistas. Com as mulheres não é muito diferente. A exploração do trabalho reprodutivo e doméstico já existia e agora, com muitas famílias em casa, a situação se intensificou. Especialmente nos lares com crianças e adolescentes, onde ainda há a cobrança de manter a rotina educativa e minimamente normalizada. Esse trabalho, ainda mais essencial agora, segue totalmente desvalorizado e ligado ao feminino, deixando mulheres exaustas com algo que poderia ser totalmente dividido, inclusive no quesito carga mental.

Um ótimo exemplo desse fenômeno é a matéria que saiu no site The Lily, que apresentou dados que mostram que durante a pandemia as mulheres têm enviado menos artigos científicos, enquanto homens estão enviando até 50% a mais. A sobrecarga do trabalho doméstico para as mulheres é um alívio para os homens que se comportam como se o trabalho doméstico e de cuidado não fosse responsabilidade deles. Eles lucram com essa vantagem, ainda que muitos consideram que dão uma mãozinha, porque eles, ajudando na louça ou não, saem na frente das mulheres que raramente vivem com alguém que divida tudo de forma igualitária.

O trabalho doméstico e reprodutivo segue considerado invisível, ignorado nos cálculos econômicos principais, enquanto a exploração, essencial para a manutenção do sistema, segue colocando homens, principalmente brancos, na frente. Nessa lógica, cabe às mulheres a obrigação de colocar a vida e o trabalho de seus parceiros como prioridade. Seguimos sempre acessórias.

Estar em casa é perceber que o trabalho doméstico não tem fim. Quando uma parte dele termina, como a finalização da lavagem de um banheiro, outra parte dele começa, enquanto a sujeira volta a se acumular. Todos sujam, poucas limpam, sendo esse um serviço sem fim, que deve ser feito a partir de cooperação, mas é colocado como um dever das mulheres que moram ali ou das profissionais de limpeza mesmo durante uma pandemia.

A desigualdade não se apresenta de maneira estanque. A mulher, dentro de uma família, é responsabilizada como a cuidadora do lar, dos filhos e dos demais doentes e vulneráveis, mas isso, no capitalismo, pode existir em outros formatos, como a contratação mal remunerada de babás, empregadas domésticas, faxineiras e cuidadoras. Se a pandemia fez mulheres como grupo geral trabalharem em dobro dentro de suas casas, ela atingiu de forma especial as mulheres que trabalham com limpeza, especialmente as que prestam serviços para hospitais, supermercados e farmácias ou para a casa de quem é egoísta demais para não dispensar, de maneira remunerada, a faxineira. Essas que são, geralmente, negras e pobres e tem como opção trabalhar ou trabalhar.

Ainda nesse sentido de trabalho e economia, é preciso ressaltar que grande parte dos profissionais de saúde, especialmente quando falamos de técnicos de enfermagem e enfermeiros, são mulheres. Fora as faxineiras, copeiras e atendentes que trabalham nos hospitais, supermercados e farmácias. Há uma certa feminilização de várias profissões que estão muito mais suscetíveis ao contágio, o que, além da possibilidade de contaminação e até morte, cria desafios especiais, inclusive financeiros, por causa da necessidade que essas profissionais possuem de se isolar de filhos e idosos que estão sob sua responsabilidade, sendo elas, muitas vezes, as únicas encarregadas pelo cuidado da família.

Outro ponto a ser levantado é que a informalidade atinge mulheres de uma maneira especial, o que contribui para a feminilização da pobreza e a gravidade dos impactos da Covid-19 no momento. Sendo esse fenômeno ligado ao fato de que o mercado de trabalho tende a ignorar mães como contratáveis e a ideia, ainda vigente, de pai de família provedor, que torna homens, ao menos na cabeça de muitos empregadores, mais importantes de serem mantidos como empregados em momentos de crise. Esse comportamento ainda é um padrão, mesmo quando as estatísticas apontam um número para lá de considerável de abandono paterno e famílias chefiadas por mulheres no Brasil e exista um entendimento, que embasa, inclusive, a previsão de regras específicas voltadas para mulheres nos benefícios sociais Bolsa Família e agora a Renda Emergencial, de que dinheiro nas mãos das mulheres ajuda a garantir a segurança alimentar das pessoas ao redor delas.

Toda essa questão econômica misturada com a crise sanitária tangencia um problema ainda mais grave: a violência doméstica. Com homens e mulheres dentro de casa em um contexto que envolve frustração, perda de poder econômico, pressões de todo tipo, dificuldade de acesso aos direitos básicos, medo e, claro, a ideia ainda vigente de que mulheres são inferiores, acessórias, devem obediência ou algo que significa isso aos homens, o número de denúncias de violência doméstica — e também divórcios, que podem pontuar desentendimentos comuns e saudáveis entre parceiros, mas também o fim de relacionamentos abusivos não denunciados — aumentou no mundo todo. Inclusive no Brasil.

O isolamento social intensifica pontos muito importantes quando falamos de violência familiar. Entre eles, merece destaque o fato de que relacionamentos já violentos, com essa proximidade forçada, podem se tornar ainda piores. Até porque a dificuldade de acesso aos serviços básicos de denúncia e atendimento pode ser encarada pelo agressor como uma possibilidade ainda maior de impunidade. A mulher, nessa situação, passa a viver numa espécie de cárcere privado com o seu agressor, o que pode dar um ritmo mais intenso ao ciclo da violência, bem em um momento em que o grupo de apoio dessa mulher não pode sequer perceber facilmente que algo está acontecendo. A vítima perde muito com essa falta de acesso ao mundo exterior: ela encontra obstáculos na hora de denunciar, se sente ainda mais solitária na situação, passa a considerar que não há para onde fugir e, muitas vezes, teme se afastar do lar, mesmo que por pouco tempo, e deixar o algoz junto com os filhos. O isolamento é um obstáculo para o pedido de ajuda. Especialmente quando o seu agressor mora com você.

O que antes separava a mulher da denúncia e a colocava numa situação de silêncio, aumentando a subnotificação, agora existe com um intensificador que envolve um isolamento que muitas vezes pode ser alienador. Nesse contexto, seria muito importante campanhas com a velha pegada do “em briga de marido e mulher, a gente mete a colher” para estimular vizinhos, amigos e familiares a denunciarem, caso suspeitassem de algo. Fora a criação de facilitadores de denúncia em ambientes como padarias, supermercados e até hospitais, como a França fez de acordo com essa matéria.*

O sofrimento das vítimas de violência doméstica não pode ser tratado como invisível, ainda que agora seja mais difícil perceber, por causa das paredes e das portas e janelas fechadas. Essa questão precisa ser encarada de frente. Só que com ou sem pandemia, o Brasil vive um momento em que questões como a violência contra a mulher são tratadas como sintomas de uma suposta degradação moral feminina ou até masculina. A agenda conservadora muitas vezes fala da violência dentro de relacionamentos como uma questão que surge por culpa da mulher ou simplesmente a simplifica, de maneira tola, e pega o que pode ser um desencadeador, como a frustração da perda financeira e o álcool, e coloca como culpados isolados, ignorando o vínculo desse tipo de agressão com o machismo e a misoginia.

A sensação é que o Estado parece ignorar que a situação atual, por ser diferente, precisa de respostas diferentes. Sendo que mesmo na antiga normalidade todo o sistema de proteção das mulheres era frágil demais. Serviços como o do aborto legal, que no Brasil existe voltado para casos de estupro, feto anencéfalo e risco de morte para gestante, sofreram tentativas de pausas em vários hospitais, sendo que nem os estupros e nem as gravidezes decorrentes deles pararam. Também nesse sentido, vale a pena refletir sobre a violência sexual e a possibilidade de aumento da subnotificação e piora ao acesso aos serviços de apoio e denúncia. Estupros maritais, que são parte da violência doméstica, podem ter crescido e o possível acesso facilitado pelo isolamento aos corpos de crianças e adolescentes que vivem com algum abusador é um fator importante a ser lembrado, principalmente porque a escola muitas vezes funciona como um local de possível amparo para muitas vítimas e agora esse contato, antes essencial, se acontece, é via computador e perto do possível agressor.

Os números atuais apontam para uma diminuição considerável de crimes relacionados com a ideia de segurança pública e um aumento daqueles crimes que estão centrados no lar, esse lugar, que apesar de ainda ser visto como um reino feminino, é também onde homens exercem seu poder, muitas vezes por meio da violência e do autoritarismo. Violência que também é voltada contra filhos, idosos e animais domésticos e que também reproduz lógicas como homofobia, lesbofobia e capacitismo.

A pandemia, apesar de ter mostrado a face solidária de muitas pessoas que hoje organizam ações diretas contra a fome e outras questões, infelizmente parece ter sido um catalisador das desigualdades já existentes. Um jovem negro, usando a máscara de pano na face, obrigatória em vários municípios brasileiros, teme levar um tiro da polícia, porque o racismo não tem pausa. Uma mulher, em total isolamento social, teme agora se contaminar e ver toda sua família doente, porque seu marido, seu pai ou seu irmão, seguem desrespeitando as regras de isolamento ainda que possam ficar em casa. Como comumente responsáveis pelo cuidado, a preocupação costuma ser maior entre as mulheres. E a frustração, tão desencadeadora de violência masculina, tende a ser mais perigosa para elas por ter tanta força e significado entre os homens.

Ao falar de pandemia e feminismo, especialmente quando temos Bolsonaro e Trump no poder, tudo que se relaciona com o poder masculino e sua relação com autoritarismo, negativa de fragilidade e negligência de cuidados parece ganhar destaque. Essa é masculinidade hegemônica, que ainda é colocada como admirada, e, infelizmente, imitada. É pela força, grosseria, indiferença, e completa falta de empatia que muitos homens se reafirmam como homens. E a casa parece ser o espaço mais acessível para muitos dos caras que ainda enxergam o mundo como deles se manifestarem e se validarem assim.

Até na negação da pandemia, há uma questão de gênero. Muitos homens se colocam como intocáveis até mesmo ao vírus. Muitos homens são incapazes de cuidar dos outros e de si mesmos e se negam a admitir que um vírus pode derrubá-los. Como se isso fosse uma manifestação de fraqueza impossível de caber nessa figura do macho que eles cultuam para si e para os outros. Pedir que eles ajam com cautela, higiene e sigam recomendações de saúde para proteger a coletividade é muito difícil, porque eles se consideram acima dela. Afinal, é isso que a masculinidade branca hegemônica ensina.

A antiga normalidade já é passado. O que vivemos agora é diferente e as políticas públicas e nossas discussões precisam levar isso em conta, até porque tudo indica que o mundo de antes não mais voltará, e agora é hora de trabalharmos o combate da desigualdade a fim de criar uma nova perspectiva. Uma perspectiva que não quer se acostumar em jogar esses problemas para debaixo do tapete só porque eles parecem menos visíveis agora. Uma perspectiva que cuida de quem cuida.

  • Nessa matéria, há uma lista de ações, virtuais ou presenciais, que têm ajudado mulheres em situação de violência doméstica. Se esse é o seu caso, saiba que uma vida sem violência é possível e conheça mais sobre essas políticas públicas, grupos de apoio e aplicativos de denúncia a partir do link.
  • Pessoalmente podemos amparar mulheres em relacionamento abusivo discorrendo sobre o assunto publicamente e de maneira geral e responsável para que essas mulheres, enquanto grupo, saibam que não estão sozinhas e que é possível viver uma vida sem violência. No caso de você conhecer uma possível vítima, ofereça de forma respeitosa apoio e atenção, ainda que virtualmente ou pelo telefone. Lembrando, sempre, que é preciso ter cuidado para não fazer com que a vítima se sinta envergonhada ou culpada pela situação. Mais dicas nessa thread da Anis Bioética.
  • Como já dizia Simone de Beauvoir, segundo relatos de feministas francesas e entrevista a Claudine Monteil em 1974, basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Agora temos a certeza que as crises sanitárias também entram nesse balaio. Segundo a Folha de São Paulo, no retorno à nova normalidade na Itália, organizações de pais e grupos de mulheres criticaram a ausência de alternativas para viabilizar a volta ao trabalho. Nesta semana (do dia 04/05), 75% dos que voltam a trabalhar são homens segundo um estudo com dados do Istat, evidenciando os impactos da economia do cuidado na vida das mulheres. Os homens voltam ao trabalho e as mulheres são obrigadas a ficar em casa para continuar fazendo o trabalho reprodutivo que segue invisível. Esse trabalho que encerra as mulheres em suas casas, não tem remuneração, nem valorização real e que tem tudo a ver com os papéis atribuídos aos gêneros.

Uma versão melhor desenvolvida desse texto saiu no livro “Pandemia e crises: percepções jurídicas e sociais”. Interessou? Acesse aqui.

Três poemas para o Oito de Março

Ou “Linha Direta, a tríade”

Judite decapitando HolofernesArtemisia Gentileschi

PRÓLOGO

sem querer
a gente deixa morrer na gente
o que precisa
de cuidado
apoio
sol na medida certa
e uma conversinha mole
regada a café
sorrisos
e comida de padaria

é uma morte devagar
que acomete
quem teme
não poder mais nada

é uma morte lenta
que caminha junto
com a desesperança
o controle
a apatia
a dor
a ameaça

UMA HISTÓRIA PARTIDA AO MEIO

um safanão
diante do não
outro
corretivo futuro

a mesa não foi posta na hora
soco na boca do estômago
choro silencioso
um pedido de perdão
dessa vez não

a polícia entra em cena
78 minutos depois
encontra a mulher sozinha
ensanguentada, mas viva

EPÍLOGO

estar suja de sangue
me incrimina
e alivia

esse gosto de ferro na boca é o sabor da legítima defesa


O Dia Internacional da Mulher não existe para que empresas prestem homenagens estereotipadas em forma de propaganda ou se apropriem da luta feminista para vender seus produtos. Essa simbólica data surgiu para denunciar a ainda insalubre condição feminina no mundo, propor debates, discutir políticas públicas e dar visibilidade aos feitos e lutas das mulheres.


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Ela disse: os bastidores da investigação jornalística que impulsionou mundialmente o #MeToo

Um livro para entender melhor o que estava em jogo na publicação da reportagem que impulsionou o #MeToo.

Acervo Pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Uma reportagem publicada no início de outubro de 2017 pela New York Times expôs, com bastante consistência, os assédios sexuais cometidos durante décadas pelo produtor Harvey Weinstein e a maneira que acordos extrajudiciais com cláusulas de confidencialidade foram utilizados para obter o silêncio por parte de suas vítimas, todas elas relacionadas a ele profissionalmente. A publicação dessa matéria, e de diversas outras que vieram a seguir, iniciou um debate que ganhou o mundo e teve um impacto especial nos EUA.

A denúncia do comportamento de Harvey Weinstein e outros homens poderosos e a quebra do silêncio de mulheres das mais diversas áreas permitiu que a sociedade começasse a tirar de debaixo do tapete relatos e denúncias que serviram para expor o quanto homens, das mais diversas áreas, incluindo negócios, tecnologia, política e cinema, aproveitam o poder que possuem para explorar e pressionar sexualmente as mulheres que os cercam.

Essas histórias demoraram tempo demais para serem contadas. E, a partir da leitura do livro “Ela disse”, escrito por Jodi Kantor e Megan Twohey, jornalistas vencedoras do Prêmio Pulitzer, podemos entender melhor o porquê.

A saga narrada pelas autoras da reportagem inicial sobre Harvey Weinstein mostra o quanto o produtor usava seu poder e influência, financeiros e não-financeiros, para conseguir acordos extrajudiciais com cláusulas de confidencialidade e barrar possíveis reportagens e investigações jornalísticas sobre ele. Fica evidente que isso funcionou por tanto tempo também porque as mulheres e suas denúncias sempre foram negligenciadas em nossa sociedade. Afinal, ao menos no mundo pré #MeToo, ele era um homem difícil e elas deviam saber — e aceitar — isso.

A obra nos ajuda a entender o quanto a investigação, escrita e publicação dessa matéria foi um processo demorado, perigoso e delicado, especialmente entre jornalistas e fontes. Enquanto elas pesquisavam, conversavam com mulheres e buscavam documentos, o cerco do ex-produtor e seus acobertadores se fechava em torno delas, colocando vítimas e jornalistas numa situação passível de intimidação.

Ninguém queria falar on the record sobre o caso. Medo, culpa, raiva, vergonha, vontade de fugir e, claro, cláusulas de confidencialidade eram obstáculos. Ninguém queria falar sozinha ou ser uma das primeiras a abrir o jogo publicamente. As jornalistas, entretanto, sabiam que precisavam de alguma declaração oficial para conseguir dar substancialidade à denúncia. E elas conseguiram e as matérias que vieram a seguir mostraram que quando uma fala, outras também se encorajam a falar.

Além do caso em si, o livro trata também de momentos pré e pós publicação da primeira matéria contra o produtor, colocando outros casos em evidência, como as acusações contra Trump e ao juiz Brett Kavanaugh. Tratar essas três histórias em conjunto permite que o leitor contextualize a força dessas denúncias e também compreenda melhor o backlash misógino que as sucederam.

Em um dos melhores momentos da leitura, o leitor se depara com o relato dos bastidores de uma conversa organizada pelas jornalistas com diversas mulheres denunciantes de homens por assédio sexual. A troca narrada ali envolveu atrizes e ex-assistentes do mundo do showbizz e também mulheres comuns como Kim Lawson, atendente de uma rede de fast food, e Christine Blasey Ford, a mulher que denunciou sozinha Brett Kavanaugh e enfrentou uma sabatina no Senado para tentar barrar que o seu algoz se tornasse parte da Corte Suprema dos EUA. É nessa parte que a gente entende, de verdade, o poder da primeira matéria e a importância do fenômeno #MeToo para as mulheres. Apesar dos pesares, o silêncio foi quebrado e todas essas mulheres, por mais diferentes que sejam, entenderam que não estavam sozinhas e precisavam agir por elas e pelas outras. Exatamente como Ashley Judd, atriz, ativista e uma das primeiras a denunciar o ex-produtor, acreditava desde o início.


Enquanto eu escrevia essa resenha, o julgamento criminal do ex-produtor Harvey Weinstein acontecia. A sentença desse caso tinha o condão de mostrar o poder da voz das mulheres ou o quanto ainda precisaríamos caminhar para finalmente sermos ouvidas.

Depois de cinco dias de júri em Nova York, ele foi condenado por dois dos cinco crimes que foi acusado e ainda enfrentará outro julgamento de agressão sexual na Califórnia. Alguns detalhes do processo demonstram que o #MeToo e todos os debates fomentados por feministas nos últimos tempos começou a transformar a forma que a sociedade vê as vítimas de violência sexual e mulheres no geral, mas ainda há um longo caminho pela frente. Um exemplo disso é que quando a defesa acusou que as vítimas mantiveram contato com Harvey após a “suposta” violência e e que elas eram responsáveis pelas escolhas que fizeram para promover suas carreiras, a promotoria soube mostrar o quanto essa argumentação era irrelevante e ignorava relações de poder.


Tradutoras da obra: Débora Landsberg, Denise Bottmann, Isa Mara Lando e Julia Romeu.


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“Dora e a Gata” e a importância das boas companhias

Acervo Pessoal

Lançada em novembro de 2019, a HQ “Dora e a Gata” veio ao mundo em formato de livro graças ao financiamento coletivo organizado pela autora e a contribuição de vários fãs, curiosos e amantes de quadrinhos. Por causa da publicação de trechos da história, as personagens que dão nome ao livro já tinham se tornado queridas pelo público que acompanha a Helô D’Angelo em seu Instagram antes mesmo da campanha do Catarse ser lançada.

Dora conquistou tanta gente porque seus dilemas são próprios ao início da vida adulta de nossa época. Sonhos que não cabem no que se entende como prático, trabalho desagradável, conflitos com a família, problemas de autoestima e relacionamentos abusivos.

Já a Gata nos seduziu do jeito felino de sempre: chegando de mansinho, precisando de cuidado, aprontando algumas e, claro, sendo fofa e uma boa companhia. Logo, Dora e a Gata se tornam uma boa dupla. Com a felina, com seu jeitinho único, ajudando Dora a entender que precisa se cuidar e também confiar mais em si mesma.

O poder dessa história está em mostrar a importância de se ter uma boa rede de apoio. Quando Caio, namorado da protagonista, age de maneira cada vez mais abusiva, Ceci e a Gata estão ali para Dora, mesmo quando ela quer se isolar de todos. São elas que dão confiança para que a personagem sinta que não precisa de um namorado como ele e a ajudam a perceber que todas aquelas dúvidas e sentimentos que ela tem sobre os comportamentos de Caio com ela não são fruto de exagero, como ele diz que são.

Um dos detalhes que chamam atenção nessa HQ é a presença de cenas cotidianas que incluem a leitura de livros, o uso de celular, as tarefas de casa, as refeições, a escrita, várias trocas de roupas, a hora de dormir e de acordar e afins. A partir desses momentos, Helô D’Angelo constrói a ambientação dessa história enquanto nos conta a natureza das relações que cercam a protagonista e mostram o amor presente em uma bela amizade entre mulheres se transformar em algo mais. E, de quebra, nos dá boas dicas literárias, como “Nossa Senhora do Nilo”, da Scholastique Mukasonga e as autoras Angela Davis, Chimamanda, Harper Lee, bell hooks e Sylvia Plath.

O que fica após o término dessa leitura é a certeza de que as boas companhias são aquelas que nos apoiam, incentivam e nos amparam quando precisamos. Elas são essenciais para que a gente consiga correr atrás dos nossos sonhos e viver bem. Aprendemos isso com essa história e, se a gente for parar para pensar, também com o processo de publicação de “Dora e a Gata” e outras obras independentes. Afinal, um financiamento coletivo ou algo do tipo é, antes de qualquer coisa, um meio de apoiar e dar um voto de confiança a um projeto de alguém. E isso, em tempos em que compartilhamos, na maior parte das vezes por necessidade, tantas denúncias, desgraças e “polêmicas” e poucas coisas boas, acaba sendo uma forma de sonhar junto.


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O que as reações ao casal Keanu e Alexandra dizem sobre o envelhecimento feminino?

Fofinhos ❤

Keanu Reeves, ator e queridinho das redes sociais, assumiu namoro com a artista plástica, pintora, escultora e cineasta Alexandra Grant e o Twitter, Facebook e Instagram foram inundados com comentários sobre eles. Entre as muitas comemorações e até brincadeiras, porque Keanu desencalhou e voltou a amar e que a escolhida não era uma modelo de 20 anos da Victoria’s Secret, havia também falas bem cruéis sobre a Alexandra.

Ainda que nem sempre com agressividade, a aparência dela se tornou pauta, como sempre se torna porque, afinal, ela é uma mulher e isso parece ser a coisa mais importante sobre uma mulher sempre. Só que o caso dela teve um plus. Keanu Reeves, 55 anos, não seguiu o padrão hollywoodiano de homens de meia idade e escolheu se relacionar com uma mulher apenas 9 anos mais nova que ele. Keanu e Alexandra estão na mesma faixa etária, são amigos de longa data e parecem estar felizes juntos, mas o que parece ter realmente chamado atenção dos fãs e curiosos é que a aparência da Alexandra em relação a sua idade. Com 46 anos e o cabelo todo branco, ela foi considerada acabada, com a aparência velha, descuidada e feia demais para ele.

Mais uma vez, uma mulher que parece ser bem interessante e talentosa, ao se tornar foco, foi julgada e desqualificada por não ter a aparência esperada ou mesmo adequada. Ainda que as pessoas adorem fazer piadas com as namoradas super jovens do Leonardo Di Caprio, no fim, ao ver um cara fazer diferente, muita gente tinha algo a dizer, ainda que discretamente, sobre a namorada do Keanu Reeves aparentar ser velha demais. E, no caso, por mais que as pessoas tenham tentado suprimir essa parte, a maioria queria dizer que ela aparentava ser velha demais para ele, que é quase uma década mais velho do que ela.

O envelhecimento feminino é tratado mesmo por quem é pra frentex como uma mácula, um defeito, algo que choca. O tom é de surpresa não só porque homens costumam buscar parceiras muito mais novas, mas porque a mulher mais velha em questão assume os brancos e parece estar tranquila sobre a sua própria aparência. Ela não parece estar lutando o tempo todo para aparentar ser mais jovem do que é.

A sensação que fica é que a mulher só pode envelhecer se for pintando o cabelo, fazendo todos os tratamentos estéticos existentes para manter o rostinho muito jovem e se apoiando no botox e na maquiagem o tempo todo. O que na prática significa que mulher não pode envelhecer, a não ser que faça de tudo para manter sua aparência como se fosse jovem, quase como se esse esforço fosse um pedido de desculpa para o mundo por ainda existir e querer viver, inclusive uma história de amor com um astro do cinema. Essas cobranças são, inclusive, um meio de controle do corpo e comportamento feminino.

O envelhecimento não segue necessariamente uma régua igual para todas as pessoas. Tem gente que aparentará ser bem mais jovem do que é e o contrário também existe. Isso depende de n coisas além de procedimentos estéticos. Pele seca, por exemplo, pode pesar bastante com o passar dos anos e a presença e persistência dos fios brancos é uma questão de fundo genético que varia bastante.

O ponto é que a gente, enquanto sociedade, se preocupa demais em julgar pessoas, especialmente mulheres, pelo seu envelhecimento. Em comentar sobre, em achar que aparentar mais nova é o melhor elogio que se pode fazer a alguém. O envelhecimento é mal visto, especialmente o feminino. E, o pior, é que a nossa noção de idade e aparência feminina adequada é bastante viciada pelos procedimentos e cuidados estéticos que nos cercam desde sempre e também pelo fato de que o peso da idade e, principalmente, da aparência dela é totalmente diferente para os homens.

Um homem grisalho não ouve que precisa se cuidar, pintar o cabelo, se valorizar. Um homem grisalho chega a ser visto como charmoso muitas vezes. Um homem grisalho é considerado sinônimo de sabedoria, amadurecimento e outros adjetivos positivos. O peso é outro e é por isso que é lugar comum para nós, enquanto sociedade, julgarmos com frequência se uma mulher parece ser mais nova ou mais velha do que é e esse julgamento carrega em si a ideia de que o envelhecimento feminino é ruim. O homem talvez até ganhe um certo valor quando envelhece, a mulher só perde. A régua do envelhecimento feminino importa tanto por isso e ela é bem mais cruel do que a régua masculina. E a gente sabe muito bem que isso tem relação com o fato de que mulheres são valorizadas quase que exclusivamente pela beleza e que a beleza em nossa cultura é considerada sinônimo de juventude. Ao menos para as mulheres.

Quando há algumas semanas comentei sobre skincare não ser sinônimo de autocuidado e nem algo tão necessário assim surgiram várias pessoas, principalmente mulheres, afirmando que ter uma rotina de skincare era essencial porque ajudava a a atrasar o envelhecimento. O argumento era esse, enquanto eu dizia que o meu incômodo com essa nova relação entre palavras que antes não andavam juntas era sobre o fato de que todo cuidado feminino parece precisar perpassar pela estética. Não há nada de novo nessa busca por preservar a beleza e a juventude. Não há nada de novo, principalmente, nisso ser visto como uma obrigação feminina. O envelhecimento, principalmente da aparência, não deve ser tratado como um pesadelo ou algo que precisa ser evitado a todo custo, principalmente para as mulheres. Tratar tentativas de atrasar o envelhecimento comum da pele como uma questão de saúde ou algo tão essencial quanto isso é um erro.

Envelhecer sendo uma mulher é ver o seu valor, perante uma sociedade objetificadora, diminuindo gradativamente. A cada ano, a cada ruga, a cada fio branco ou flacidez, se vai o que o patriarcado nos deu como moeda de troca. Nosso capital é a beleza e ela é considerada sinônimo de juventude e o seu significado perpassa pelos padrões de beleza que, por mais que tenham sofrido um pequeno abalo nos últimos anos, continuam racistas, gordofóbicos, capacitistas e etaristas.

Alexandra Grant é uma mulher que assume seus cabelos brancos aos 46 anos e que não parece estar preocupada demais com a própria aparência. O susto com o envelhecimento dela só diz o quanto nosso mundo, mesmo aquele considerado progressista, ainda está preso na ideia de que o valor de uma mulher está em sua juventude, como significado de beleza. A pira de que mulheres precisam se cuidar, como se essa busca por certa aparência significasse amor próprio, e o tempo que a gente perde com isso parece nos qualificar como mais valorosas para um homem ou mesmo para a sociedade. Só que envelhecer sendo uma mulher é algo ainda mais complicado do que aparenta. Se fizer muita plástica ou plásticas óbvias demais, a mulher é julgada por não aceitar que envelheceu e querer mudar o próprio rosto. Como se essa vontade de passar por um bisturi ou vários surgisse do nada, claro.

É sintomático que toda essa discussão tenha iniciado a partir do julgamento de uma namorada de um ator considerado bonito e, principalmente, interessante. Num mundo que vê a beleza feminina como um meio para conseguir ser a mulher de alguém e que liga relacionamento com status, todo esse bafafá em torno da figura da Alexandra mostra o quanto mulheres ainda são vistas como acessórios masculinos, não como boa companhia ou parceira. Ser interessante não vale tanto quanto ser bonita de acordo com o padrão quando falamos de mulheres, enquanto Keanu Reeves ser interessante, além de bonito, é o que o tornou queridinho nas redes sociais.

Aparentemente, muita gente considera que a Alexandra não é boa o suficiente para estar com o Keanu Reeves e isso só mostra o quanto toda nossa noção de relacionamentos, especialmente o de figuras públicas, é viciado por esses filmes em que um homem comum e de meia idade se relaciona com uma mulher deslumbrante que tem idade para ser filha, às vezes neta, dele.

Não vou falar que Alexandra é linda hoje, porque o que quero dizer é que isso não deveria ser considerado tão importante assim. Uma mulher é uma mulher, muito além de sua beleza, sua idade ou a idade que aparenta ter. Uma mulher é muito mais do que seu rosto, seu corpo e seu cabelo. Uma mulher não se resume assim. Nem um relacionamento. E eu espero que um dia a gente não precise mais afirmar isso de novo. De novo. De novo. De novo. De novo…


Esse texto surgiu a partir de tweets que postei em minha conta pessoal do Twitter. Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram

ABCDelas: mulheres profissionais em foco

Acervo pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Chegou em minhas mãos um abecedário diferente. A cada letra há uma profissão, uma mulher que a exerceu e uma linda ilustração em aquarela para representá-la. O livro é do selo Cia das Letrinhas e foi escrito e ilustrado por Janaina Tokitaka, roteirista de televisão e autora de quarenta obras voltadas para o público infantil e juvenil.

Anésia Pinheiro Machado, a Aviadora, inicia esse livro que conta com minis biografias e historinhas para exemplificar a vida de cada uma das citadas. Depois temos, por exemplo, Nair de Tefé como Desenhista, Maria Firmina dos Reis como Escritora, Kate Warne como Investigadora, Naomi James como Navegadora, Inez Beverly Prosser como Terapeuta, Ng Mui em Kung Fu e muitas outras mulheres que juntas completam esse alfabeto de profissões feito por pioneiras ou quase isso.

Cada uma das mulheres citadas nesse livro carrega em suas histórias uma espécie de enfrentamento ao que se esperava de seu gênero. Algumas, inclusive, também de sua etnia. Praticamente todas sofreram tentativas de apagamento sistemático de suas presenças e ações em algum nível e é por isso que só agora, após várias tentativas de resgate e, principalmente, divulgação com viés feminista, que passaram a ser conhecidas pelo grande público, incluindo crianças.

A importância desse tipo de trabalho estar disponível para meninos e meninas em formato de livro ilustrado está no fato de que desde crianças somos condicionados a acreditar que determinadas profissões são masculinas e outras femininas. Sendo as áreas consideradas femininas vistas como espaços onde o brilhantismo não tem tanta importância ou lugar. Nesse sentido, uma pesquisa que reuniu profissões das Universidades de Nova York, Princeton e Illinois, nos Estados Unidos, concluiu, por exemplo, que meninas, já aos seis anos de idade acreditam que genialidade é algo masculino.

Livros que mostram mulheres de um passado distante conquistando espaços, exercendo profissões diferentes e marcando presença na história acabam por combater estereótipos de gênero, fomentar a autoestima feminina e, de certa forma, transformar significados que damos culturalmente a certas palavras, especialmente quando elas se relacionam com profissões. Quem navega pode ser uma mulher. Quem estuda biologia e geologia também.

Um abecedário de profissões que valoriza mulheres, especialmente aquelas pioneiras, ajuda a construir e sedimentar no público infantil ideias positivas sobre a capacidade feminina. Meninos e meninas que crescem cercados de ideias como as promovidas por essa obra se tornam meninos e meninas que prezam pelo combate ao machismo.


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Pensamentos soltos sobre estética, novas obrigações e o tal do feminino

Kit Espelhos Ornamentado em Ouro Velho — Pronta Entrega pelo ELO7

Falar de cuidado de pele como um momento para si não cola para mim. De todas as coisas que alguém pode fazer para se curtir, por que quando se é mulher tudo acaba se relacionando com aparência?

Fora que o cuidado de pele nesses casos é a busca da pele perfeita, aquela que parece maquiada mesmo sem estar, e não um simples e necessário uso de protetor solar ou algum outro produto, como hidratante, recomendado por médicos para situações específicas. (Ainda que eu ache que as pessoas se sintam mais inclinadas e cobradas ao cuidado no sentido de saúde quando aquilo incomoda também a aparência.)

Toda vez que vejo alguém com esse discurso, eu lembro de gente dizendo “você precisa se cuidar” como sinônimo de fingir que é de plástico. Rotina de skincare agora anda junto com depilação, unha feita, cabelo tratado e pintado e outras práticas relacionadas à estética e que também passaram a ser consideradas uma forma de autocuidado.

Ou seja, o papo autocuidado se tornou uma versão mais palatável do controle e da preocupação com aparência. O que mudou é que atualmente tudo isso ganhou o rótulo de moderno, saudável e responsável. Parece que agora a gente precisa ser uma mulher linda que não parece se importar tanto em ser uma mulher linda, mas ainda assim é, porque se cuida de forma muito natural, saudável e, claro, com muito prazer. Afinal, agora é o tal do autocuidado que nos move. A gente tem que fazer as coisas chatas, caras e impostas como se aquilo nos completasse e nos fizesse sentir livres, leves e soltas. Se não fizermos, somos coitadas sem amor próprio.

O motivo da gente engolir tão facilmente que rotina de skincare ou qualquer outra coisa do tipo é autocuidado ou um momento para si é o medo que temos de sermos vistas como fúteis por nos preocuparmos com a aparência e com os efeitos do envelhecimento como nos é imposto. Só que isso acaba naturalizando a neura da beleza como parte do feminino, da autoestima e do cotidiano e isso afasta as mulheres, cada vez mais, de ter uma relação um pouco mais tranquila com tudo que se relaciona com aparência e inseguranças relacionadas.

Tudo bem fazer as coisas para se sentir mais bonita ou menos feia. Tudo bem chamar de vaidade ou algum outro termo correlato. O problema é pintar tudo isso como algo necessário e relacionado com o tal do autocuidado e do tempo de qualidade consigo e não pensar no que certas práticas inseridas no nosso cotidiano significam. Inclusive no sentido de imposição. É muito ruim se importar tanto com aparência, colocar esse tipo de questão como uma prioridade nas nossas vidas, mas a gente não precisa fingir que a questão é outra. Quanto mais a gente mascarar, mais dependentes ficaremos disso.

Questionar essas coisas não é dizer simplesmente que se importar com aparência está proibido ou é necessariamente errado. É somente uma tentativa de entender melhor o que nos afeta, o que afeta as mulheres enquanto grupo e o que interessa ao capitalismo, ao patriarcado e também ao racismo que promove, por exemplo, o uso de clareadores de pele e outros produtos como alisadores de cabelo.


Observação #1: Essa crítica que fiz, inclusive, não quer dizer que eu sou uma pessoa que vive livre de imposições estéticas ou que eu não neure com isso ou que eu nunca tenha passado um creme hidratante na vida. São só reflexões.

Observação #2: Esse texto é fruto da soma de vários tweets que postei há alguns dias em minha conta pessoal do Twitter + uma leve edição para que essa bagunça virasse um membro típico do gênero Textão de Facebook™, porque eu também quis postar sobre por lá.

Observação: #3: Aconselho ler a thread do Twitter inteira, porque rolou muitos comentários ótimos de outras pessoas e que, por não serem meus, estão de fora do texto. Inclusive, há até uma discussão bem interessante que envolve mulheres com deficiência e estética. Não deixem de ler!

Observação #4: Essa thread fez surgir conversas envolventes, mas, além delas, também rolou comentários agressivos. Por causa deles, serei obrigada a escrever no futuro próximo um texto de humor exagerando as reações bizarras que recebi ao compartilhar essas reflexões numa rede social em tempos como os nossos. Posso adiantar que a galera parece partir do pressuposto que eu falei que está terminantemente proibido fazer skincare e iniciei o recolhimento compulsório dos produtos com a finalidade de jogá-los no lixo, sendo que eu só acho que a gente precisa entender o porquê de fazermos certas coisas e acatarmos certos discursos. É preciso assumir o que nos move para isso, chamar as coisas pelo nome correto, entender as forças envolvidas, etc.