“Coisa amor” e a busca humana por algum entendimento

Acervo pessoal

Um livro chamado “Coisa amor” combina com a palavra afeto, porque lembra ternura, carinho, estima, conexão e todas essas coisas que a gente deseja, mesmo quando fingimos de cínicos ou nos consideramos incapazes de sentir, vivenciar ou despertar esse sentimento no outro. Só que afeto não é uma palavra simples. A gente usa, na maioria das vezes, como um sinônimo de amor, mas seu significado pode ir além: para a psicologia, por exemplo, é um agente modificador de comportamento, podendo ser positivo ou negativo. E essa definição não surgiu do nada. As palavras latinas que deram origem ao afeto que guia esse texto eram usadas como sinônimo de estar inclinado a, influir sobre, fazer algo a alguém. Afeto então é sobre afetar e ser afetado. “Coisa amor” também, porque Pedro Jucá escreve para causar alguma coisa dentro da gente, testando a forma que o leitor interage com personagens e situações, enquanto, de certa forma, brinca com o feio, o clandestino, com tudo aquilo que, direta ou indiretamente, ajuda a compor a matéria dos tabus, dos desejos e dos segredos.

A partir de quinze contos, o autor aborda temas como solidão, morte, memória, sexualidade, inconsciente, loucura e quereres e coloca quem lê frente a frente ao desconfortável limiar do dito e não dito da experiência humana. A cada narrativa, Pedro Jucá nos apresenta um pouco mais dessa substância viscosa, densa e cor de carne que nos faz gente. E, para isso, usa diferentes formas de narrar, explorando a vulnerabilidade humana a cada cena, reflexão, circunstância, partindo principalmente de relações familiares, como a maternidade. Assim, consegue amarrar todos esses temas e perspectivas ao que podemos chamar de busca humana por conexão, companhia, entendimento.

Em “Coisa amor”, o encontro com o Outro é sempre desafiador. Ainda que essa demanda por compreensão e afeto guie os sujeitos dessas histórias, o Outro é sempre Outro. Nesse encontro de identidades há momentos em que o laço entre os personagens se amplifica, tornando aquela ligação um instante de entendimento, mas, na maioria das vezes, o medo de ser visto completamente, como se isso fosse possível, impede qualquer vestígio de conexão. Só que essa conexão, sempre tão desejada e praticamente impossível, acaba acontecendo com a gente, que a partir do ato da leitura, tentamos decifrar comportamentos, personalidades, situações.

Nesse caso, estamos numa posição de poder. A cadeira de quem lê é a de quem espera uma trama se desenrolar. Somos espectadores, na maioria das vezes invisíveis, da história alheia e queremos entretenimento. Só que Pedro Jucá cria suas narrativas para nos lembrar do poder da linguagem de nos afetar e, dessa forma, aproxima seus personagens de quem lê, obrigando a gente a lidar com esse lugar de uma outra forma. Lemos essas histórias, então, como quem se dirige para um parque de diversões, e acaba entrando numa enorme sala de espelhos cheia de sombras e truques que são capazes de transformar 149 páginas de texto em 3450 minutos em um labirinto de sensações.

O entendimento desejado por essas personas fictícias acontece, porque aquilo que esses personagens se esforçam tanto para esconder até deles mesmos, escapa. O trabalho estético do autor ajuda nesse efeito: Pedro escreve para gente decifrar, exige atenção. O texto flui, mas tem voltas, alguns estranhamentos, qualquer coisa que te obriga a frear, com medo de atropelar algo importante. E essa conexão se completa, porque ao entender alguma coisa, quem lê se sente cúmplice. Leitor e personagens se encontram na clandestinidade do ato de levantar o tapete que cobria o elefante no meio da sala.

Mesmo incomodados, continuamos lendo e, por escolhermos continuar, nos associamos ao que está sendo compartilhado por esses Outros. Somos gente, afinal, e por isso inevitavelmente comparsas de tudo aquilo que é demasiadamente humano, como a literatura é. Ao sermos afetados, ficamos mancomunados aos personagens e assim nos tornamos coautores de tudo que a humanidade é capaz de sentir, e por isso, fazer. Podemos até ler como detetives, fiscais ou juízes, mas ainda assim, nos vinculamos ao que foi dito, feito, produzido, porque em algum momento aceitamos fazer parte disso tudo, em especial quando tentamos nos fantasiar com essas figuras de poder que simbolizam a proibição de qualquer demonstração de vulnerabilidade.

Ler “Coisa amor” então é se permitir investigar a composição da matéria oculta que nos forma e nos permite ser capaz de produzir e consumir arte. Jamais entenderemos completamente o que nos leva, por exemplo, a amar alguém e o que de fato significa isso pra nós mesmos. Como no conto que dá nome ao livro, mesmo com o mapeamento da química da paixão e a descrição técnica do funcionamento do corpo nessas horas, ainda há espaço para uma certa poética, logo uma certa dose de pensamento mágico. Jamais haverá compreensão completa do Outro e nem de nós mesmos. E a gente sabe disso, mas ainda assim continuamos tentando decifrar o indecifrável, porque é isso que precisamos fazer para vez ou outra conseguir vivenciar instantes em que não nos sentimos sós.

“Mas não, nada disso aconteceu. As histórias mais tristes são também as mais prosaicas, as que sequer alcançam o status de tragédia. Desprovidas de potência ficcional, nem à catarse servem […]” Passo a Passo (pág. 22)

Acervo pessoal

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Não sou uma leitora imparcial. Escolho as minhas prioridades de leitura guiada, principalmente, pelo afeto. Sei que afeto é uma dessas palavras gastas — até as lojas de dermocosméticos a utilizam pra vender shampoo anticaspa e protetor solar quando querem falar sobre autocuidado e amor próprio — mas foi inevitável não usá-la enquanto escrevia sobre o livro de contos “Coisa amor”, de Pedro Jucá, que, por acaso, se tornou especialista em Escrita e Criação junto comigo, após uma imersão que envolveu escrita, leitura e compartilhamento durante 19 meses.

Algumas das prosas que constroem essa obra, como a penúltima história, vi nascer. Oficina já era uma conhecida minha das aulas, ainda que numa versão ainda pouco trabalhada. Outros simplesmente me surpreenderam: como Cerimonial, Nutriz e até mesmo o Coisa amor, que empresta seu título ao livro. Mas foram os contos Ela, Passo a passo e Years of Solitude que me fizeram pensar que Pedro sabe muito bem onde quer chegar.

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“Apague a luz se for chorar”: lidar com a morte é lidar com a vida

Acervo pessoal – Adquira seu exemplar aqui

“Apague a luz se for chorar”, romance da escritora Fabiane Guimarães, me aguardava na biblioteca do Kindle fazia quase um ano. Prestes a embarcar em uma via sacra celeste com destino final em Brasília, me veio a lembrança de que tinha lido em algum lugar, provavelmente nas redes sociais da autora, que ela tinha nascido no interior de Goiás e agora morava na capital federal, a cidade que mais uma vez eu ia visitar. Buscando algum cenário ou passagem ficcional que me levasse até o Centro-Oeste mais rápido que qualquer avião, abri o arquivo do livro decidida a começar a leitura. Logo, junto de Cecília, estava no ar, pousando no aeroporto com água até dentro dos meus olhos, mesmo com o mundo real seco como eu já esperava encontrar indo para lá no inverno.

Fui fisgada pela história já nas primeiras páginas.

Se um luto é sempre um processo de conhecimento, onde o enlutado, na busca por alguma resposta, precisa produzir provas, ouvir testemunhas e captar todas as informações possíveis daquele fato para elaborar perante o juiz, que, nesse caso, também é ele mesmo, Fabiane Guimarães soube levar isso além, transformando em algo mais uma narração em que a lógica enlutada e ansiosa de uma personagem nos conduz vertiginosamente a partir da dúvida.

Cecília vivencia seu luto por inteiro, mesmo quando tem certeza que deixou quase todo seu corpo coberto e protegido. Ela perdeu seus pais no mesmo dia, na mesma hora. Morreram juntos, de causas naturais, alguém explica a ela que segue sem absorver a frase como se esperava. “Sua mãe era tão boa”, diz outra pessoa que ela nunca viu na vida. Tudo é estranho, a morte é estranha. E por isso a gente se abre para essa personagem na hora, como se tentar entendê-la fosse preparar a gente para lidar com nossos mortos, com a certeza da nossa própria morte. Assim como Cecília, a gente tem dúvidas e nos expomos a elas a cada página lida, porque sabemos que não conhecemos ninguém tão bem assim, porque também temos medo da morte e dos segredos de família, porque desconhecemos qual é o sentido da vida, se há um ou dois ou nada. A gente simplesmente entende Cecília, porque conhecemos o poder do “e se”, então abraçamos sua desconfiança, tememos por ela, nos perguntamos porque ela falou alguma coisa e deixou de falar outra.

Com João é diferente. A história dele simplesmente vai se desenhando, acontecendo, sem a gente entender bem o porquê dela estar ali, sendo contada junto da vida de Cecília. A gente só acompanha ele e seu filho Adam, enquanto espera o momento em que tudo fará sentido. Agimos exatamente como o personagem, que parece, ao menos inicialmente, simplesmente seguir seu caminho trabalhando na zoonoses fazendo eutanásia em animais, fingindo não pensar tanto no que isso significa para ele, seu filho com uma grave deficiência e todos os cães e gatos que lhe são entregues. Só que um dos fios condutores desse livro se revela rapidamente, ainda que a gente demore um pouco para perceber: João também está lidando com a morte, com a sombra dela se aproximando do filho, e sua história é a de quem também busca respostas, mas tem medo até das perguntas que cogita fazer. João tem medo do seu futuro com e sem o filho.

Pirenópolis é um destino estranho para enlutados, mas me parece um lugar perfeito para dois idosos viverem juntos seus últimos dias. Não importa se os mortos gostavam ou não do último lugar em que moraram, porque aqueles que ficam e sofrem se sentirão pisando em um terreno insólito e perigoso independente de onde estejam. No fim das contas, qualquer lugar é um destino estranho para quem sofre uma perda. Ou acha que pode perder alguém a qualquer momento. Ou perde alguéns e ainda descobre um segredo de família que pode mudar a maneira como você encarava até então seu pai, sua mãe, sua vida.

Apague a luz se for chorar” é uma história sobre as descobertas que fazemos quando somos obrigados a tatear essa escuridão. Lidar com a morte, aquela que ameaça ou já aconteceu, é estar em um não-lugar, um espaço suspenso, em que o mundo dos vivos se esbarra no dos mortos o tempo todo. Cecília e João vivem de maneiras bem diferentes a angústia de não conseguir mais pisar no solo e senti-lo firme e por essas e outras se encontram nesse livro que fala de morte, luto, medo, família, escolhas e segredos.

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a memória dos rinocerontes

cacareco foi uma rinoceronte fêmea 
que comia sem frescura
caules raízes 
ervas folhas
se era mato
ia pra dentro

até que um dia
cacareco recebeu 
100 mil votos para vereadora
da maior cidade de um país 
que nem era o seu

cacareco nunca assumiu cargo político algum
nem ficou sabendo das 100 mil pessoas
que escreveram em uma cédula em branco
seu nome

cacareco simplesmente continuou 
comendo as plantas lenhosas
que nasciam na sua jaula
do zoológico
se era mato
ia pra dentro
até que um dia
cacareco virou memória

todo poema é feito de cacarecos
rinocerontes ou não

nem todo poema é feito 
do que se encontra 
nos anais da história
mas esse é

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“O acontecimento” segue acontecendo aqui e agora: o impacto da adaptação cinematográfica do livro de Annie Ernaux numa leitora brasileira

Cartazes do filme – Confira o trailer aqui.

As memórias do angustiante verão francês que Annie Ernaux viveu em 1963 e só foram escritas mais de trinta anos depois ganharam um novo formato ao serem transformadas em uma obra cinematográfica pelas mãos da diretora Audrey Diwan, da roteirista Marcia Romano e de toda uma equipe repleta de mulheres.

Quando Annie Ernaux escreve sobre o aborto clandestino que viveu tantos anos depois, tempo e memória se misturam ao fato, tornando seu livro também uma busca pelo registro daquilo que a autora viveu em segredo, como outras tantas, francesas ou não. Quando ela decide escrever essa história da forma que fez, crua e quase documental, ela coloca em evidência que a escrita da não-ficção que parte de si é também uma tentativa de adaptação: como fazer das lembranças palavras? É possível capturar os sentimentos dissolvidos nas cenas que conseguimos recordar tanto tempo depois? Qual é o papel de ler e reler o diário daquele ano nisso tudo? Como as palavras que escrevi quando tudo acontecia afetam quem sou hoje? Falar de si é falar de uma época? Escrever sobre a própria solidão é uma forma de se sentir acompanhada nela? E esquecer é também uma forma de morrer? Se sim, então escrever o que lembra é tentar viver além da própria experiência?

Se no livro a solidão, a angústia e o desamparo da personagem durante os três meses de 1963 chamam atenção, enquanto se misturam com o efeito do tempo e a ânsia da tentativa de tornar aquela vivência algo tangível pela escrita, o filme se propõe a tratar apenas do tempo da gravidez indesejada como fato incontornável, concentrando todo o desespero silencioso da personagem só naquilo, sem a reflexão temporal que envolve a recordação.

“O acontecimento” cinematográfico consegue então tornar a escrita memorialística de Annie Ernaux um recorte situacional que se aproxima ainda mais da construção dessa verdade pretendida na tentativa do relato, ainda que as cenas do filme tenham tido modificações pontuais no processo de adaptação e essas mudanças mostrem a presença de outras autoras, atrizes, cenários e a transformação daquilo que foi escrito como memória em ficção.

No filme, acompanhamos a história de Anne Duchesne (Anamaria Vartolomei) como quem persegue uma personagem por ângulos intrusos. Nos transformamos em olhos vigilantes pela câmera curiosa, como se fôssemos parte do que torna o aborto buscado pela personagem um crime, uma vergonha, algo a ser acompanhado como fofoca por quem se delicia por saber que conseguiu escapar de estar nesse lugar, que pode ser “só” o de vagabunda que transa antes do casamento ou o de mãe solteira.

Conhecemos a intimidade dessa protagonista como parte do que torna a sua vivência um tabu e uma ilegalidade e isso, junto da atuação de Anamaria Vartolomei, ajuda a construir para o espectador uma agonia silente que mescla uma espera ansiosa por uma possível solução para aquilo que seria o fim de um futuro brilhante, enquanto esse mesmo futuro brilhante parece prestes a desmoronar pelo efeito dessa espera que não se realiza, e o medo dessa solução, se ou quando alcançada, se tornar o fim de qualquer futuro ou quase isso, com a morte, a mutilação ou a prisão.

O interdito é trabalhado também com a tensão sexual que insiste em se manifestar o tempo todo no universo da personagem, mesmo aquilo sendo visto como proibido. O estigma do exercício da sexualidade feminina paira sobre as jovens que falam o tempo todo de sexo, enquanto julgam as que ousam fazer, junto do medo da gravidez, que, além de ser uma manifestação da maternidade indesejada para aquele momento, representa também um atestado público de que aquela mulher não é mais virgem e pura, logo não merece mais respeito.

O universo da personagem é bem apresentado: temos ali as visitas aos pais trabalhadores no interior que precisam se manter como sempre foram para ninguém desconfiar de nada, as disputas internas entre os diversos grupos de jovens mulheres que dividem o dormitório e o espaço universitário, as fofocas durante as aulas, as festinhas regadas por Coca-Cola, a solidão mesmo quando acompanhada, a insônia de quem tem um problema a resolver e as mesmas três ou quatro roupas repetidas que evocam tanto a origem da protagonista, quanto o cotidiano como ele é.

O aborto clandestino se desenha nas duas linguagens como um desalento construído por uma disputa de riscos que pesa principalmente para aquelas sem os contatos e informações certas, essas que precisam apelar para métodos caseiros no escuro do quarto ou cirurgias em um cômodo de uma casa qualquer ou os dois. Sendo as consequências de uma gravidez indesejada ainda mais pesadas para uma mulher pobre buscando alguma ascensão social pelos estudos, como a personagem, ou uma operária ou atendente de supermercado. Só que até para as mais ricas, a clandestinidade recai de forma ameaçadora, porque mesmo com um contato do médico certo e seguro em mãos e a garantia de que não irá presa por escolher, ainda existe solidão, proibição de falar e praticar e estigma. Tudo isso cria um cenário perigoso que poderia não existir se a responsabilidade da gravidez não fosse imposta às mulheres somente, o aborto fosse legal, seguro e gratuito e uma informativa e acolhedora educação sexual fizesse parte do currículo das escolas.

Ainda que o aborto por escolha da mulher seja legal na França desde 1975, tendo sido Annie Ernaux uma ativista por esse direito, no Brasil nunca foi e ainda não é. O que torna a aflição da personagem Anne e os riscos corridos por ela para fazer valer seu desejo pelo, ainda que inexistente legalmente na época, direito à escolha muito próximos da realidade das mulheres brasileiras hoje, com suas vítimas fatais aqui e agora, entre mutiladas, presas e sortudas aliviadas. O interdito presente nas obras segue no Brasil, não só pelo tabu, mas pela força da lei e das ameaças e práticas conservadoras que tentam tornar o aborto uma ilegalidade mesmo nos raros casos liberados pela nossa legislação: risco de vida para a gestante, gravidez fruto de estupro e gravidez de feto anencéfalo.

As cenas do filme “O acontecimento” parecem ainda mais gráficas e desoladoras para quem divide comigo a nacionalidade e o domicílio brasileiro e acompanha, além das histórias veladas de familiares, amigas e conhecidas, as notícias de meninas que sofreram pressão judicial, governamental e social para não usufruir do seu direito ao aborto legal previsto como exceção na lei penal.

Mesmo a filmagem fugindo do sangue, da agulha, dos instrumentos da enfermeira e focando no rosto e atuação da atriz, a gente sabe o que a clandestinidade causa direta e indiretamente e isso basta para nosso estômago revirar de tensão.

Poderia ser eu, poderia ser minha mãe, poderia ser uma amiga, poderia ser a vizinha do 103 ou a moça da bilheteria do cinema, mas foi Annie Ernaux em 1963 e muitas outras que não tiveram a sorte de sobreviver para contar ou nunca puderam elaborar o momento. Para quem tem um útero que se revira em cólica e sangue menstrual periodicamente, não precisa ser gore para ser quase um filme de terror, emular a realidade como ela é basta para nos lembrar que nosso corpo ainda está no controle do Estado e o que tudo isso significa.

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Você também pode se interessar em ler “O acontecimento também é a escrita: a proposta literária de Annie Ernaux encontra o aborto clandestino

O acontecimento também é a escrita: a proposta literária de Annie Ernaux encontra o aborto clandestino

Acervo Pessoal – Para comprar os livros de Annie Ernaux clique aqui.

A escrita de Annie Ernaux foi um acontecimento pra mim: ler “Os Anos” (tradução de Marília Garcia) me impactou de um jeito que de repente me vi indo atrás de tudo que ela escreveu. Cheguei a cogitar começar a estudar francês para poder ler no original para eventualmente não ter mais que lidar com a busca por uma ponte idiomática entre ela e eu, esperando novas traduções ou encontros com exemplares em inglês perdidos em sebos. Desisti quando percebi que esse eventualmente ia demorar a acontecer, até porque o período de aprendizado de um novo idioma dura uma vida inteira.

Annie Ernaux faz literatura a partir do tempo e da vida. E por causa dela me peguei negociando com ambos, como se eu já não estivesse acostumada a tentar controlá-los. O tempo para essa autora não é simplesmente uma agenda, um relógio, o despertador que se esgoela, é a matéria da vida. E não só a vida dela. Escrevendo a partir de si, Annie Ernaux aborda a memória como vida, identidade e zeitgeist, uma mistura que transforma uma cena pessoal em um retrato de um momento específico na França, um recorte que só ela, tendo vivido aquelas experiências, poderia fazer como foi feito. A memória em “Os anos”, “O lugar” e “O acontecimento” é uma manifestação que abarca os arredores de quem narra, forma paisagens e cenas vívidas, é feita por pessoas além da autora e os lugares que cada uma dessas pessoas tem dentro do que a sociedade definiu nesse recorte temporal que pode caber quase um século ou três meses. É uma mancha disforme se espalhando em um papel, não um ponto perdido e fixo.

Além de contar o que ela lembra, essa escritora relata com detalhes o processo de lembrar, e assim transforma sua escrita numa busca que parte do registro da lembrança como tentativa de capturar a sua verdade, o seu sentido da vida. Essa investida em transpor memória na escrita é o desafio impossível que a move. A partir do ato de registrar e formular, a autora tenta preservar a memória, torná-la menos volátil, tirar dela a abstração presente em sua composição. A escrita então não representa as condições de temperatura e pressões normais, ela é a ferramenta que se usa para tentar tornar sólido o que em nosso universo só se encontra em estado gasoso. É uma busca por materialidade.

Ao escolher a via da memória como projeto literário, Annie Ernaux decide expor seu corpo, sua verdade, seus registros mentais e documentais e todo seu esforço por lembrar e escrever e elaborar. A exposição em si não é o intento final, é o meio, é a única forma de buscar acessar a reminiscência, logo a percepção de tempo tangível para a humanidade e que, de maneira única, forma quem cada um de nós é, enquanto nos une em torno de uma mesma época.

Em “O acontecimento” (tradução por Isadora de Araújo Pontes) isso se torna ainda mais evidente, talvez pela gravidade da situação narrada, da separação desse momento de todos os outros, pelo uso da primeira pessoal do singular ou por tudo isso junto. Quando ela escreve seu aborto e afirma que a única culpa que carregava a respeito dele era a de até então não ter criado algo não ficcional a partir disso que aconteceu com ela, Annie Ernaux revela quem ela é, foi e quis ser e a relação disso com sua motivação para escrever.

Relatar seu aborto clandestino é se colocar novamente exposta ao olhar de julgamento do Outro e de uma época, enquanto toma pra si o direito de lembrar, de falar, de escrever. É uma busca extrema por autonomia, porque vai muito além da escolha que ela expõe e revela como parte de si e direito essencial, é sobre olhar para quem se é até o limite e transformar esse processo criativo em sentido da vida, em algo que vai se fazer chegar em forma de literatura até outras pessoas. Sendo as epígrafes desse livro uma pista desse projeto maior: “Meu duplo desejo: que o acontecimento se torne escrita. E que a escrita seja acontecimento” (Michel Leiris) e “Talvez a memória não seja mais do que olhar as coisas até o limite” (Yüko Tsushima).

E o que torna essa escrita que busca autonomia ainda mais interessante é que a autora tenta dar forma às suas memórias levando em conta uma perspectiva documental, de registro de um momento além dela mesma, ainda que nesse livro a escritora francesa não use o nós e nem a 3ª pessoa, como faz em “Os Anos”. O individual e o coletivo se encontram o tempo todo ainda assim, quando ela narra o que viveu. A conexão dela com os Outros, no caso, principalmente as Outras, não está no jornal, está nesse espaço coletivo e público não captado e captável pelo jornalismo, esse espaço que ela como escritora tenta acessar ao fazer e ler literatura. O lugar de suspensão da personagem durante a espera pelo aborto parece só dela, mas nunca foi e, justamente por saber disso, Annie Ernaux escreve assim, buscando expor a experiência humana a partir da própria subjetividade, sendo essa subjetividade um eu presente e marcante e também parte de um meio, um mix de self, origens familiares, bagagem cultural, conhecimento e construção social. Um mundo feito de memoração pura e simples, daquilo que foi capaz de fixar nesse cérebro, independente da procedência, da lógica e da utilidade.

Ler “O acontecimento” num fôlego só dá mais sentido ainda pra tudo que está escrito ali, toda a angústia e desespero que movem essa narradora pela cidade e a silencia pela solidão e pelo interdito, mesmo quando a gente lê que ela está falando com alguém sobre seu desejo de abortar, porque precisa fazer isso para lembrar que existe, importa, está viva. A gente só respira direito quando termina o livro e sabe que tudo passou e que ela conseguiu, tanto abortar na clandestinidade e sair viva, quanto escrever sobre essa experiência de extrema violência sem os ornamentos literários comuns às representações de angústia e desespero, o que importa, porque a busca por autonomia dessa escritora também tem a ver com encontrar essa crueza sem os artifícios tradicionais, porque para Annie Ernaux autonomia também é fazer a experiência dobrar o que a linguagem impõe a ela e é por isso que ela evidencia, ao longo do livro, que a palavra aborto era proibida para o mundo, enquanto para ela o que nunca fez sentido foi a palavra grávida. Palavra é poder e é por isso que ela narra assim, como se somente a partir desse tensionamento ela pudesse se colocar no mundo de verdade, integrada ao todo, sem o desamparo que a acompanhou durante seus três meses de gravidez indesejada, enquanto ela o torna quase palpável para quem a lê.

Annie Ernaux escreve porque quer registrar uma verdade pessoal e coletiva que se dissipa ao ser procurada, ela quer transformar em palavra sentimentos, reflexões e memórias difusas e criar a partir do indizível. Com sua criação e processo criativo, Annie Ernaux tenta controlar o tempo, dominar as próprias vivências, entender como a memória funciona e torna cada um de nós um, enquanto nos une aos outros, tudo com base no misterioso poder da palavra, do simbólico, do dito e não dito. Annie Ernaux escreve, porque quer captar o que é a experiência humana total para depois transmiti-la, se tornando parte desse todo, e, por isso, diz ao fim desse livro: “As coisas acontecem comigo para que eu as conte. E o verdadeiro objetivo da minha vida talvez seja apenas este: que meu corpo, minhas sensações e meus pensamentos se tornem escrita, isto é, algo inteligível e geral, minha existência completamente dissolvida na cabeça e na vida dos outros.”

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Você também pode se interessar em ler “Igual à narina.

estar onde não estou

Sol da manhã (1952) – Edward Hopper

a cortina entreaberta
deixa entrar no quarto
um estilhaço da golden hour
que acontece lá fora
enquanto eu durmo
usando uma camisola
que me deixa escapar
um pedaço do peito

a luz solar alaranjada
invasora da minha janela
ultrapassa as fronteiras da roupa de cama
e ocupa o outro lado da pálpebra
desmanchando tudo que se conhecia até então

acordar é sempre uma explosão

esse poema foi escrito durante uma oficina ministrada pela Isabela Sancho no portal Fazia Poesia. se você gostou, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe também pelo Medium,  Facebook,  Twitter,  Tinyletter  e  Instagram.

O que essa parede descascada diz de mim?

“Domesticidades”, diz a capa de um pequeno livro turquesa numa exposição de arte. Não posso folheá-lo, conferir o que foi revelado ali. “Domesticidades” está enclausurado, protegido das minhas mãos meladas de suor e álcool em gel. Dentro da mesma redoma de vidro, há um outro exemplar, esse aberto na página 72. Alguém definiu que isso seria o que eu veria das tais domesticidades, mas o reflexo da luz no mostruário tornou aqueles borrões de quintais um desafio de se enxergar.

Quero saber quem escolheu destacar a página 72. Descubro no texto de apoio dois nomes: Renata Marquez e Wellington Cançado. E encontro a descrição da ideia, uma possibilidade de vislumbrar a obra sem saber o que diabos tem nela. Usando fotos disponíveis em sites de imobiliárias, nasceu um guia dos lugares não visitáveis de BH. Ali está um arquivo mal fotografado de um mundo de inquilinos e proprietários que buscam a ilusão de fazer algum espaço seu.

Captar a vida privada é um desafio da memória coletiva. As domesticidades não estão totalmente visíveis nem nas mais cruas fotos do Instagram. Elas estão enclausuradas, como a obra de Renata e Wellington está. Documentar o universo íntimo é um desafio também para a memória individual. Quando estou fora, penso na minha escrivaninha organizada, sendo que ela com certeza está entulhada de livros, papéis, canetas e itens tecnológicos relacionados a esse computador que me serve de máquina de escrever e conexão com o mundo.

O registro das domesticidades — e talvez até mesmo a própria memória — sofre com o medo do julgamento e da inescapabilidade do banal. Vivo de maneira aceitável? Sou suja? Porca? Cafona? Mimada? Durmo demais? Sou gente? Sou bicho? Existo?Tem algo que importe aqui?

Talvez nem mesmo o cronista mais atento consiga assimilar completamente o meio termo entre o conforto de uma cama desarrumada e o nojo de uma pia suja. Só os gatos sabem, porque eles têm como hábito jogar ao chão todas as redomas de vidro.

Esse texto foi escrito por mim para o módulo “Ler e escrever crônicas” da Iana Soares a partir de uma proposta que envolvia a ideia de “Nomear o tempo” e fotografias autorais. Esse módulo fez parte da minha turma da especialização em Escrita e Criação da Unifor, curso de pós-graduação coordenado por Socorro Acioli.

Para fazer esse exercício, parti de uma visita a um museu de Belo Horizonte em que encontrei essa obra aprisionada para refletir sobre memória, o eu e o Outro.

Você pode conhecer o “Domesticidades” aqui.

lar

Acervo Pessoal – Fotografia por Thaís Campolina

duvido dos meus contornos
da largura do meu pulso
do tamanho dos meus braços
da área das minhas coxas
de como ocupo a cama
me espalho pela casa
e pareço refletida
no espelho do banheiro

o desaparecimento
parece inevitável
uma mulher escondida
se dilui em seus pertences
e se aproxima
cada vez mais
de uma coberta
felpuda e confortável

esse poema faz parte do meu livro “eu investigo qualquer coisa sem registro”, obra que foi selecionada para publicação no concurso Poesia InCrível de 2021. se você gostou, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe também pelo Medium,  Facebook,  Twitter,  Tinyletter  e  Instagram.

70 anos de Ana C.

Acervo Pessoal – Foto postada originalmente em meu Instagram

A primeira vez que li Ana Cristina César, eu consultava o livro “26 poetas hoje” procurando nomes de mulheres. Fui com a cara dela, mas não sabia se tinha gostado.

Mesmo sem saber se tinha gostado, eu continuei procurando seu nome e suas palavras onde quer que eu fosse: bibliotecas, livrarias, estantes novas ou conhecidas e, pela falta, acabava desembocando com esperança no Google Estou Com Sorte.

Ana Cristina César se transformou em uma espécie de oráculo distante, uma voz que eu queria e precisava decifrar. Ana Cristina César me desafiou a pensar em desejo, mistério, morte, língua, comunicação e entendimento. Ana Cristina César se tornou a pergunta que me levou a descobrir a poeta que eu sou, mesmo eu ainda não sabendo dizer se gosto gostando do que ela diz ou se fui apenas seduzida pelo abismo da dúvida e da vontade e a relação disso tudo com a minha descoberta do poder do prosaico.

Agora, nesses seus 70 anos que me parecem tão fictícios por sua partida tão precoce, eu me volto novamente para suas palavras. É um alívio saber que eu ainda olho para cada um dos seus poemas buscando o que eu não sei dizer, acompanhada dessa pulga atrás da orelha que nunca parou de me atormentar.

É muito estranho se eu disser que nunca deixei de escovar meus dentes sem pensar nas minhas escovas com cerdas mordidas e na força que o eu-lírico da Ana emprega nesse ato tão primordial?

esse texto foi escrito e publicado de improviso aqui. se você gostou de ler, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe também pelo Medium,  Facebook,  Twitter,  Tinyletter  e  Instagram.

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A maternidade em “Por favor, cuide da mamãe” e seus desdobramentos no aqui e agora

*o texto contém alguns spoilers de enredo

Elena Ferrante, Vivian Gornick, Buchi Emecheta, Ayobami Adebayo, Xinran, Nara Vidal, Aline Bei, Conceição Evaristo, Celeste Ng e Shin Kyung-Sook são autoras que, apesar das diferentes origens, experiências e níveis de fama literária, escreveram histórias que tratam da maternidade e a complexa relação das mães com seu entorno.

De maneiras muito diversas, todas as citadas abordam o peso da maternidade na vida das mulheres em alguma ou várias de suas obras, mostrando que mesmo as experiências mais amorosas são marcadas pelo impacto da divisão sexual do trabalho, da misoginia, do racismo e também da pobreza. 

Apesar de toda a expectativa envolvida na perpetuação das linhagens familiares nas várias culturas abordadas por essas escritoras, a maternidade e a capacidade de gestar surgem nessas histórias como marcadores de vulnerabilidade para as mulheres. Em “Por favor, cuide da mamãe”, da sul-coreana Shin Kyung-Sook, isso não é diferente.

Nessa obra, Park So-nyo, 69 anos, mãe de cinco filhos, desapareceu em Seul. A partir da narração da filha mais velha, do filho primogênito e do marido, o leitor acompanha essa família enlutada em busca dessa mãe perdida.

Como se a dor desse sumiço não bastasse, essa procura se desdobra em uma dolorosa tentativa desses narradores-personagens em encontrar alguma resposta para suas culpas e angústias relacionadas à figura dessa mulher e ao luto de sua ausência. Dessa forma, a investigação do destino de Park So-nyo se torna também uma exploração emocional para os personagens que, isolados uns dos outros mesmo quando estão próximos, não percebem como suas dores não são tão singulares assim. Com o desaparecimento, filhos e marido parecem ter se deparado com a sensação de que essa mãe já estava sumindo antes e que talvez eles pudessem ter feito alguma coisa para evitar isso. 

A partir dessa premissa, surge para o leitor a constatação de que a maternidade é quase sempre um apagamento de uma identidade maior, como se apenas um pedaço de uma mulher, aquele que é mãe, se tornasse o único visto e considerado importante pelos outros. O sumiço de Park So-nyo para seus familiares parece ter iniciado antes mesmo do momento em que ela foi engolida pela multidão dos transeuntes frequentadores do metrô, e o desaparecimento real parece expor a dificuldade anterior de todos eles, talvez até mesmo da própria desaparecida, de ver uma mãe como um indivíduo completo.

Mães e pais passam por isso pelos olhares dos filhos, é verdade, e essa reflexão é até explorada no livro no capítulo da filha escritora. Durante o amadurecimento, existe todo um processo de descoberta de cada um dos pais como pessoas, não mais como mães e pais, mas o processo com as mães é diferente, porque o apagamento dessa identidade vai além da visão infantil dos filhos e invade como a sociedade no todo encara as mulheres, especialmente aquelas que agora são vistas como uma espécie de cuidadoras universais.

Essa maternidade — tão sacrificante para a personagem, ainda que para ela toda a abnegação seja vista como parte da vida, e objeto de devoção e romantização dos filhos e marido enlutados — coexiste com uma paternidade irresponsável. Enquanto Park So-nyo fazia de tudo pelos filhos e centrava o sentido de sua vida neles, seu marido abandonava a casa e ia atrás de aventuras e outras mulheres. O peso do cuidado doméstico, familiar e até da própria terra sempre esteve em suas mãos. O marido e pai das crianças, na verdade, somente somava-se à lista de responsabilidades que ela tinha.

O arrependimento dos narradores é demarcado no próprio texto e o uso da 2ª pessoa acaba transferindo-o ao leitor. Eles falam com si mesmos, se acusam, apontam suas próprias falhas e compartilham momentos, mas, com o “você” no meio das frases, é o leitor que acaba recebendo essas palavras como se fossem pra ele. E, dessa forma, quem lê acaba sendo levado para esse drama familiar como parte, não só como espectador, podendo, nesse processo, até se deparar com seu próprio lar e todas as questões pessoais e confusas relacionadas com ser filho de alguém.

Vale ressaltar que Park So-nyo não sabia ler e nem escrever e sonhava com a alfabetização, fazendo tudo para seus filhos e filhas conseguirem estudar. Embora ela pareça acatar o fardo de sua condição feminina em alguns momentos e, inclusive, cobrar especialmente das suas filhas nesse sentido, a personagem considerava sua obrigação fazer com que as crianças em sua responsabilidade tivessem a possibilidade de uma vida mais fácil que a dela a partir da educação. Inclusive, numa ocasião, disse para seu filho mais velho que a irmã precisava estudar um pouco mais por ser menina e que era responsabilidade dele fazer com que ela frequentasse a escola em Seul. Complementando essa delegação dizendo: “Não quero que viva como eu”.

Apesar da filha mais velha acreditar ter decepcionado a mãe em todos os sentidos, percebe-se que essa mãe admirava a trajetória de sua menina que se tornou escritora, apesar dos pesares. A construção da personagem da mãe desaparecida é complexa. O leitor acompanha o olhar arrependido da família, as observações, às vezes muito romantizadas, feitas por eles sobre essa mulher e, como um verdadeiro detetive, tenta desvendá-la a partir de detalhes, somando o que cada personagem apresenta de forma não muito confiável ao seu mundo referências. Somente com a chegada da narração surpresa, o leitor tem acesso a mais nuances dessa personagem e, enfim, tem a sensação de que a conhece como indivíduo. 

Nessa jornada de luto e drama familiar, chama a atenção a relação de Park So-nyo com a terra, a casa, o espaço que ocupa. As colocações feitas de mãe para a filha sobre a agricultura e o trabalho doméstico, por exemplo, evidenciam a invisibilidade do trabalho do cuidado, mas também sua importância. A valorização da terra vem muito da necessidade do alimento que, além de aplacar a fome, serve para nutrir o próprio corpo familiar e suas relações. A memória dos narradores dessa história estão marcadas pela preocupação dessa mãe em fornecer alimento para seus filhos, como uma verdadeira provedora, e, ao mesmo tempo, pelos rituais ancestrais em que a comida sempre foi colocada como parte fundamental da troca, do afeto e, não tão curiosamente, também das obrigações. Essas lembranças culinárias aparecem tanto no cotidiano, com citações que vão do kimchi e do arroz ao lámen instantâneo, quanto em momentos especiais, como a arraia do Ano Novo e o Festival da Lua da Colheita.

A maternidade é quase um planeta à parte, ainda que seja impossível pensar na humanidade que conhecemos sem pensar em mães. Shin Kyung-Sook escreve essa história sabendo disso. Ela, ao falar desse universo, fazendo desaparecer a mãe real e colocando a mãe projetada no lugar, explora o quanto esse papel social rende perante todos que são filhos. Em especial, filhas. Em qualquer lugar do mundo, há muito o que se escrever a partir dessa condição constantemente tratada como íntima, mesmo tendo tantos desdobramentos políticos.

“Por favor, cuide da mamãe” é um livro que usa o arrependimento, o luto, a culpa e as memórias de uma família para nos fazer pensar na Coreia do Sul contemporânea, principalmente, pelos olhares das mulheres. Tradição, desigualdade, pobreza, medo da fome, machismo, cuidado, memória, dilemas geracionais e o eterno embate entre campo e cidade formam esse retrato complexo que, apesar das diferenças, às vezes parece bem próximo ao que temos aqui, no Brasil de Aline Bei, Nara Vidal e Conceição Evaristo. Ou na Itália de Ferrante, ou na Nigéria de Buchi Emecheta e Ayobami Adebayo, ou nos EUA formado por imigrantes da Vivian Gornick e da Celeste Ng. A maternidade, imposta, compulsória ou desejada e, ao menos em teoria, necessariamente abnegada, viaja pelo mundo tanto quanto a nossa capacidade de contar histórias.

Esse texto foi escrito para um concurso de resenhas organizado com o intuito de promover a valorização da literatura sul-coreana. Como não fui uma das premiadas, resolvi aproveitar para postar o que escrevi aqui no blog, apesar da leitura desse livro ter acontecido faz um tempão (JAN/21).

Se interessa pelo assunto? Então leia também meu conto “éramos_duas.mp3”, parte da coletânea “Casa nua – maternidade devassada”, obra organizada pelo Coletivo Escreviventes em parceria com a Revista Tamarina.