Dia Mundial do Livro: uma declaração de amor e de luta

Vale a pena a gente parar para pensar no quanto a leitura é uma atividade diversa: um livro pode ser prazeroso, apaixonante, tenso, triste, fofo, sensível, boa companhia, contemplativo, incômodo, chato, bonito, longo, curto, ilustrado, cheio de fotografias, em áudio, lido em voz alta, escrito em braile, complicado demais, divertido, de consulta, difícil, informativo, fluido, lento, imersivo, artesanal, independente, digital, fraco, cheio de plot twists, fonte de conhecimento científico e também de sentimentos, impressões e reflexões.

A gente lê por muitos motivos, mas não dá pra negar que o maior atrativo de qualquer leitura é a possibilidade de criar alguma coisa aqui dentro.

Nas palavras e nas imagens alheias, a gente encontra somente uma parte de todo um universo que um livro pode oferecer. A outra está dentro de nós e a aventura de qualquer livro está em descobrir isso e sair conectando histórias, informações, interpretações e imaginação com o mundo de referências, memórias e vivências que nos compõem.

Lemos buscando esse movimento e assim vamos descobrindo quem somos, onde estamos, que mundo é esse e também o Outro e todo o universo que a descoberta da alteridade pode oferecer.

Por essas e outras, surge a necessidade de falarmos sempre em promoção da bibliodiversidade e combater tudo que busca restringir nosso acesso. O que significa nesse momento um foda-se para Paulo Guedes, um outro foda-se para Bolsonaro e mais um foda-se para todas as políticas e pessoas que atacam o livro, a cultura, a educação e a pesquisa!

Feliz dia mundial do livro!

Leia também: #EmDefesaDoLivro: discutindo a tributação proposta pelo Guedes

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(Observação: texto originalmente publicado nas minhas redes sociais).

Parece uma conversa, só que isso aqui é mais pretensioso


— Depois temos que fazer a sua entrevista. Eu tive uma ideia ótima. Eu abro um documento no drive, falo umas coisas, faço uma pergunta ou uma afirmação e você vai e comenta ou responde.

— achei vanguarda, fluido, arrojado, os artistas mais engajados na cena certamente devem ter um nome pra isso.

— Parece uma conversa, só que vai ser mais pretensioso. Inclusive acho que podemos começar com isso aqui.

— devia se chamar assim: “parece uma conversa, só que é mais pretensioso”.

*editando o nome do documento no drive*
*salvando…

*alterações salvas no drive

— Ninguém morre sem ser anunciado. Esse é um bom título, viu? Você se considera uma boa criadora de títulos? Você criou esse antes de iniciar a escrita do seu primeiro livro ou foi algo que surgiu durante ou mesmo depois?

— É uma pergunta difícil (quando me perguntam alguma coisa, meu cérebro trava. perguntas são difíceis). mas a ideia veio de um esquete do programa “tv pirata”, que era mais ou menos assim: umas pessoas sentadas em uma mesa jogando pôquer, e, não sei por que, eles começam a impedir as pessoas de sair da mesa. passam dias lá. quando alguém esboça alguma vontade de sair, eles gritam “ninguém sai, ninguém sai!”. eu encaro a vida um pouco assim, não quero perder ninguém, então baixinho, sempre estou dizendo “ninguém morre. ninguém morre!” a parte do “sem ser anunciado” é porque a morte também tem essa face “apoética”, vamos inventar essa palavra. esse lado burocrático. me lembra um funcionário público desmotivado que colocou um cartaz passivo-agressivo no seu guichê escrito “ESPERE SER ANUNCIADO”. a ideia do livro é ficar meio que transitando por esses dois lugares horríveis.

— Então o título é o resultado da mistura de algo extremamente emocional, sensível e complexo, como a morte e todas nossas relações, com uma planilha do Excel? Se a morte fosse mais burocrática, ela seria mais simples ou mais complicada? Eu voto em complicada, porque eu estudei Direito na faculdade e depois dividi parede com uma advogada de direito de família e sucessões e simplesmente sei que testamento, herança, pensão por morte e todo o resto da nossa vida civil só dá problema. Já que estamos falando de Direito, queria saber se você não teme ser processada por algum síndico que ler seu livro. A Ceci comenta algumas particularidades do exercício dessa profissão ou do perfil desses profissionais com uma certa crueza.

— sim! ter que “dar baixa” do seu familiar no sistema é melancólico. e solitário, já que acaba sobrando sempre para uma pessoa só. no tocante ao síndico, tive uma experiência de quase-morte na mão de um síndico uma vez, e acho que isso acabou me marcando negativamente: na faculdade, dividia apartamento com mais três meninas em bauru e, uma noite, acordei meio zonza, com um barulho esquisito vindo da cozinha. um cheiro esquisito. já antevendo a desgraça, fui, guiada pela luzinha do celular até o fogão e vi que estava JORRANDO GÁS pela mangueira, que tinha se desconectado. descemos até a portaria correndo, o porteiro disse que não podia sair de lá e chamou o síndico. no apartamento, a primeira coisa que o síndico fez foi LIGAR UM VENTILADOR NA COZINHA, “para passar esse cheiro ruim”. eu falei “mas meu senhor, se a tomada produzisse uma faísca, ia tudo pelos ares.”, ele me olhou como se as leis físico-químicas que regem o universo simplesmente não se aplicassem naquele espaço. eu não sei quantas pessoas um síndico é capaz de matar por ano, mas suspeito que esse número não seja muito baixo, não. algum síndico já tentou te matar, thaís?

— que eu saiba não. Minha experiência com síndicos são parcas. Vivi quase a vida toda em casa. Todo o risco residencial que já corri foi por culpa exclusiva minha ou da minha família mesmo. Apesar disso, eu não posso afirmar que nunca rolou nada, porque já morei em um prédio enorme em que aconteceu uma eleição de síndico que foi muito intensa. Todo dia amanhecia com um bilhetinho debaixo da porta sobre os riscos de votar no outro candidato. Meu voto era disputado. Eu devia ser um desses indecisos, alvo de campanhas vira-voto, sabe? Eu sequer sei se eram os candidatos que diretamente passavam essas mensagens para mim por debaixo da porta ou se eram seus cabos eleitorais. Eu só sei que eventualmente avisei na portaria que eu não ia votar, porque na data não estaria na cidade. Se esse texto fosse uma autoficção, eu falaria que nessa mesma semana o elevador enguiçou comigo dentro. Na verdade, até onde sei, nada aconteceu, mas como disputaram tanto meu voto e usaram muita tinta de suas impressoras, eu sinceramente não duvido que a decepção deles com a minha ausência pode ter encadeado alguma tentativa de assassinato que não deu certo e eu nem fiquei sabendo. Disputas eleitorais, né? Eu tinha uma pergunta para você, mas eu confesso que agora me perdi. Deve ser por isso que falam que o entrevistado não pode fazer perguntas, né? O entrevistador não consegue estar em dois lugares ao mesmo tempo em um mesmo texto. Vamos falar de texto então, né? Como você escreve? Você tem alguma rotina de escrita?

— Essa história é muito boa (aqui pensando que eu devia ter coletado dos amigos experiências esquisitas com síndicos, pra aproveitar no livro. mas agora ceci é morta [não sei se isso se classifica como um spoiler]). sobre minha rotina de escrita: eu não tenho nada vagamente parecido com isso. escrevo no tempo livre, e não é todo dia que tenho tempo livre. às vezes tenho tempo livre, mas não tenho vontade de escrever. a única coisa que faço diariamente é anotar alguns trechos soltos de diálogos que tenho com as pessoas, ou que ouço de terceiros. anoto também algumas ideias, frases avulsas, que servem de inspiração quando sento pra escrever. vou lendo essas coisas que anotei, e de repente uma ou duas frases despertam alguma ideia, aí escrevo o texto. funcionaria melhor se eu não fosse tão desorganizada. essas anotações estão espalhadas entre vários rascunhos do medium, um arquivo do google docs e um grupo do whats que eu tenho comigo mesma (jogo algumas ideias ali quando estou fora de casa, ou simplesmente com preguiça de ir até o notebook anotar).

— Eu tenho um texto que agora me parece ótimo, já escrito, prontinho para ser publicado, seja em livro ou no Medium, inspirado livremente em uma vizinha que tive nesse prédio. Também tenho uma narrativa de tamanho indefinido já começada, mas muito pouco desenvolvida, em que uma das personagens principais surgiu a partir da observação lúdica da porteira diurna das terças, quintas e sábados. Acho que eu deveria juntar tudo, desenvolver o que falta e publicar um livro chamado “Condomínio Alguma Coisa”, sendo o alguma coisa apenas uma expressão para me lembrar que seria legal especificar sem falar o nome real do prédio que morei e assim evitar conflitos. O que você acha, Paula? Desculpe te usar como consultora de projetos, mas é tão difícil escrever sem alguém para afirmar o que a gente quer ouvir. Acho que posso abusar um pouquinho da minha posição de entrevistadora já que dividimos esse desejo por escrever livros e você mesma elogiou minha história. Enfim, vejo que você tem um interesse genuíno em diálogos. O que você acha que faz com que conversas te atraiam tanto? O que elas têm de tão especial ao ponto de serem uma grande fonte de ideias pra você? Você gosta mais de captar conversas de ônibus ou de mesa de bar? Como você está fazendo para escrever durante o isolamento social já que ele reduziu tanto a possibilidade de se ouvir conversas alheias de desconhecidos?

— Eu acho que você deveria pegar firme nessas histórias, terminar e publicar. porque (1) são boas, (2) já estão mais ou menos prontas e (3) eu fiquei com vontade de ler. eu não sei porque eu gosto tanto de diálogos. meus processos criativos não estão claros pra mim. nada que produzo é muito consciente. mas se tivesse que elaborar uma resposta mais aceitável, diria que o que mais gosto dos diálogos é o ruído. as falhas de comunicação. o falar uma coisa e o outro entender outra. vejo menos como um encontro de ideias e mais como um choque, uma colisão, um esbarrão. eu prefiro conversas de ônibus. conversas de bar, pra mim, se esgotam nelas mesmas. não acho que dão bons materiais. está realmente mais difícil buscar inspiração durante a pandemia, já que ando tendo pouquíssimo contato com outras pessoas. mas por sorte tenho uma vizinha que fala alto, com a família e no telefone. anoto quase tudo que ela fala.

— Com sua aprovação, me animo. Considero que o primeiro passo do projeto foi dado: a ideia foi falada para alguém, tomando forma o suficiente para puxar meu pé de noite e não me deixar mais dormir. O processo criativo é um negócio engraçado, né? A gente fica tentando racionalizar, mas ele simplesmente acontece. Não tem tanta lógica quanto a gente quer acreditar que tem, né? Queria saber algumas coisas: 1) você se sente uma espécie de antena por gostar tanto de conversa alheia? 2) o que você faz quando algum conhecido, falando diretamente com você, fala algo que cairia perfeitamente em um texto? O que ele fala vira matéria-prima? Você vai e transforma a fala dele em um personagem de um romance? Como você criou os personagens do “Ninguém morre sem ser anunciado”? Por que você é Ceci no Medium e não simplesmente Paula? Estar ali com um outro nome que também é personagem é uma espécie de performance que brinca com a tal da autoficção? (CARAI OSTENTEI DEMAIS NESSA PERGUNTA QUASE ME SENTI CULTA)

— Eu só sei que tenho sorte de morar no brasil gostando tanto de ouvir a conversa dos outros.aqui as pessoas falam muito alto e são muito didáticas e ricas em detalhes quando contam histórias. facilita meu trabalho. quanto a usar parentes e amigos como fontes de inspiração, pratico muito.me aproprio de histórias, frases, traços de personalidades deles. uso muita coisa minha também, mas, para evitar o “climão” de alguém se reconhecer ali, não gostar e vir tirar satisfação comigo, eu uso tudo misturado. nenhum personagem que faço é baseado 100% em uma pessoa só, tem um pouco de uma tia, um pouco de um amigo, um pouco de mim mesma. a questão do meu perfil do medium ser “Ceci” e não “Paula” é porque no começo, quando fiz o perfil, a minha ideia era outra. era fazer uma longa história, composta por episódios, envolvendo a personagem Ceci, uma escritora. pensando agora, essa ideia talvez pudesse ser chamada de autoficção, sim. a questão toda é que eu escrevi uns 3 textos nesse formato, depois desencanei e comecei a escrever sobre qualquer coisa. o nome “Ceci” acabou ficando lá por preguiça de mudar e também porque me parecia uma boa manter certo nível anonimato, já que acabava me expondo muito nos textos. isso era uma preocupação no começo. depois acabei desencanando do anonimato também, então o Ceci só se mantém lá até hoje por pura preguiça de mudar mesmo.

— Eu acho esse negócio de pseudônimo chique demais. Mesmo se não for secreto. Também gosto de nome artístico diferente do nome original. Acho elegante, sabe? Tem um certo desprendimento com a própria identidade. Acho bonito isso, humilde talvez. Me conta aqui, como você se apresenta para as pessoas? Você fala que é escritora? Acabou que a entrevista não teve apresentação e seria bom ter, né? Vou usar essa pergunta para fazer o famoso “seu nome, seu bairro” só que mais completo, porque todo escritor precisa falar muito de si mesmo, mesmo que seja só por meio do seu trabalho. Faz parte da profissão. O leitor espera isso, entende? (Não esquece de falar suas referências na hora de falar bastante de você).

— rindo sozinha aqui com o “seu nome, seu bairro” que me lembrou o vídeo do “passa longe” da xuxa (até abri aqui no youtube pra ver de novo. NÃO PERDE A GRAÇA, é impressionante). eu não me apresento como escritora porque ainda sou muito insegura com a minha escrita (digo “ainda” como se isso fosse mudar um dia, bem iludida). sou mais segura em minhas outras ocupações: doutora/pesquisadora/professora de cinema e tenho uma empresa de foto e vídeo de eventos. mas sou a favor das mulheres reivindicarem mais a definição de escritora. se você for olhar os “about me” aqui do medium, a maioria dos perfis dos homens tem a palavra “escritor”, junto com mil outras coisas. “pintor, pesquisador, cineasta, fotógrafo etc.” as descrições dos perfis femininos são bem mais hesitantes, inseguras. evitam afirmar que são profissionais e artistas, e que fazem essas coisas muito bem. sobre as referências, vou citar algumas mulheres na ordem que elas forem surgindo na cabeça: Ottessa Moshfegh, Giovana Madalosso, Conceição Evaristo, Patricia Melo, Ali Smith, Chimamanda Ngozi Adichie. Quais escritoras aparecem rapidamente na sua cabeça, assim, sem muita análise e ordem específica?

— Você me pegou. Eu não sei listar nada. Eu fico muito nervosa. Sério. Dá branco. Eu não consigo lembrar de nada que eu li e gostei na vida. Acho que eu falaria Angélica Freitas, Wislawa Szymborska, Conceição Evaristo, Caitlin Doughty, Ana Martins Marques,Natália Borges Polesso, Elena Ferrante, Jarid Arraes, Ana Paula Maia, Mariana Salomão Carrara, Olivia Laing, Vivian Gornick, Paloma Vidal, Verena Cavalcante, Ana Cristina César, Chimamanda Ngozi Adichie e Patrícia Melo também, mas da última só li “O matador”. Nessa linha de só li um livro da autora, mas elas tomaram meu cérebro de mim, eu colocaria a Jenny Zhang, a Celeste Ng, a Ana Maria Gonçalves, a Ruth Guimarães e a Nicole Dennis-Benn. Não sei se posso listá-las então. Eu acho que o fenômeno de ter medo de se definir como escritora me atinge até na hora de me apresentar como leitora. É esquisito. Como costumo encontrar coisas boas e interessantes em toda leitura que faço, eu duvido do meu senso crítico o tempo todo.

Eu imaginei que após a publicação de um livro, a gente começasse a se definir como escritora com mais facilidade. Pelo jeito não. Como você comentou sobre sua pesquisa e trabalho em cinema, queria te perguntar se você já trabalhou com roteiro. Se sim, como foi? Quais as principais diferenças entre criar um roteiro e criar um livro?

— Fiz roteiro na faculdade e agora faço esporadicamente, para alguns projetos pessoais. o roteiro, diferentemente do livro, é um documento efêmero, transitório. o objetivo dele é virar filme. por ser um documento que precisa ser facilmente assimilado por toda a equipe de produção, ele tem formato e estilo próprios. é dividido por unidades espaço-temporais (as cenas) e tem um jeito certo de escrever (frases no presente, a descrição das ações tem que se ater ao campo do visível, ou seja, o que está sendo visto pelo espectador, não tem descrição de estados mentais/emocionais das personagens, etc.), isso porque a história é do roteirista, mas o estilo quem dá é o diretor. já no livro o escritor tem o controle de tudo. outra grande diferença é que no roteiro a liberdade criativa fica um pouco restrita ao orçamento do filme, que, em geral, no brasil, é baixo. de repente você colocou uma cena de helicóptero no roteiro, a produção não conseguiu captar recursos pra alugar um helicóptero e te pede pra adaptar a cena, trocando o helicóptero por um carro ou uma moto. eu não se foi um bom exemplo, mas acho que deu pra entender?

— Deu pra entender, mas eu demorei quase duas semanas para processar. Eu tenho medo de falar de filme, porque tudo parece muito complexo e eu vejo poucos e nem como amadora posso comentar grandes coisas. Fora que eu acho que eu idealizava o roteiro. Eu acho bonito falar em cenas. Adoro captar cenas em textos literários, pegar uma no meio de uma poesia, falar em literatura cinematográfica. Me tira uma dúvida: o roteiro então pensa nas cenas do filme, mas isso é feito de uma maneira mais prática do que estética? A estética da coisa então fica mais nas mãos da direção e outros profissionais do cinema que eu não saberei nomear porque eu não sou muito esperta?

— que doidera esse papo. amo. literatura cinematográfica é algo que nunca tinha pensado, mas acho possível, do mesmo modo que vejo fotos de alguns animais que parecem misturas de duas espécies improváveis, e penso “pode ser montagem, pode ser verdade”. a questão toda é o que seria esse elemento “cinematográfico” do texto literário. a descrição de cenas por si só não seria, já que é própria da literatura, mas penso que determinados tipos de cenas e a forma como elas são descritas no texto possam incitar o leitor a imaginá-las como cenas de um filme. é algo que nunca tinha pensado. em ninguém morre sem ser anunciado eu tentei estruturar os capítulos como se fossem pequenas cenas de um filme, com grandes elipses espaço-temporais entre elas, que não são explicadas ou resolvidas. pensando agora, acho que foi um jeito que meu cérebro encontrou de conciliar essas duas linguagens, a cinematográfica, que é minha área de pesquisa, a e literária, que pratico no tempo livre. mas sobre a possibilidade de existir um estilo de escrita cinematográfico, é algo que nunca tinha pensado e agora não vou conseguir parar de pensar.

mas sobre o roteiro ser mais prático do que estético: é bem por aí mesmo. as preocupações maiores do roteiro são a história, a estrutura dessa história (enredo) e os diálogos. essa história só começa a ganhar “uma cara” quando o diretor e o diretor de fotografia cortam as cenas em planos (o que chamamos de decupar o roteiro), a direção de arte cria os cenários, figurinos, etc. e os atores estudam como vão interpretar os personagens.

— Um livro que me veio na cabeça quando falei isso foi o “Karen” da Ana Teresa Pereira. Posso estar enganada na minha avaliação de pessoa que vê pouquíssimos filmes, mas tem uma coisa de filme de suspense nesse livro que é diferente de simplesmente literatura de suspense. Não sei explicar. Falando nisso, o que você faz quando você não sabe explicar alguma coisa num texto? E como você sabe que chegou a hora de acabar um texto ou mesmo uma entrevista? Estou meio perdida aqui, mas me parece que sete páginas de entrevista faria qualquer editor me matar, né?

— tem horas que simplesmente jogo a toalha. coloco na boca do personagem ou do narrador “não sei explicar” e sigo em frente, torcendo para ser entendido como um recurso estilístico pós-moderno e metalinguístico que assume a impossibilidade de elaborar sobre certas coisas, temendo ser entendido como incapacidade da autora de elaborar sobre certas coisas.

sobre a hora de acabar um texto, meu método: vou escrevendo até sair uma frase da qual gosto muito. fico com a sensação de que dificilmente vai aparecer outra frase tão boa quanto. respeitando o princípio da precaução, decido parar. com entrevistas, já não sei. acho que começar uma entrevista é assumir o risco de ela durar indefinidamente. mas como isso não é bem uma entrevista, e mais uma conversa, acho que podemos interrompê-la bruscamente com um “deixa eu ir que tenho que fazer o almoço ainda” ou então “amiga, o moço do delivery tá me ligando, deve tá perdido, vou desligar aqui pra atend””.

— Ah, sim. Entendi. Eu gosto da estratégia de boas frases para terminar com tudo. Na vida a gente termina tudo com “hmmmmm”, “né” e “ééééé”, então é sempre bom ter alguma novidade.

Como é bom conversar com você, Paula! A gente tem que fazer isso mais vezes, né? E marcar alguma coisa depois que a pandemia passar! Até porque nem combinar um encontro mascarado numa praça quando as coisas começarem a melhorar de novo vai dar já no nosso caso envolve ter que viajar e tudo. Ai, ai, já comecei a imaginar um Diário de Bordo nosso. Se essa conversa já quase rendeu um livro, imagina um Diário de Bordo? Depois a gente conversa mais… Eu preciso ir… Tem panela de pressão no fogão e eu não quero me atrasar mais e correr o risco de explodir minha cozinha. É, eu sei, são 09:08 da manhã, parece uma desculpa, mas eu juro que não é.

— Eu gostei muito de conversar aqui pelo google docs porque foi muito diferente das conversas simultâneas que estamos tendo no instagram e no whatsapp e me entristece um pouco pensar que a partir de agora só estaremos conversando em dois canais de comunicação, não mais em três…vou abrir um outro docs com o título “diário de bordo” para a gente, já compartilho com você!


Paula Gomes também é Ceci, pelo menos no Medium. Eu sou só Thaís mesmo, pelo menos até onde posso revelar para vocês. Compre o “Ninguém morre sem ser anunciado” aqui. E, se você tiver com um bom humor daqueles, aproveite para adquirir o ebook do meu conto “Maria Eduarda não precisa de uma tábua ouija”. Os dois ebooks estão disponíveis gratuitamente para todos que assinam o Kindle Unlimited.

Notas sobre as cidades que afundam em dias normais

Acervo Pessoal – Imagem postada também no meu Instagram
O encontro

Cidades afundam em dias normais, o mais novo romance da escritora, podcaster e ilustradora Aline Valek, foi tema de um encontro especial, com participação da autora e tudo, no meu clube de leituras, o Clube Cidade Solitária.

Durante o papo, fomos 18 pessoas no total, todas bem empolgadas para compartilhar e ouvir as relações e análises que outros leitores com repertórios tão diferentes. Cada comentário puxando o outro, ampliando a leitura de cada um, num movimento que incluiu a própria Aline, que trouxe para gente muitas informações sobre seu processo criativo no todo e também o envolvido diretamente na construção dessa história.

Em certo momento, a escritora compartilhou que esse livro começou a nascer a partir de uma caixa de fotos de pessoas desconhecidas que ela teve acesso. Vendo aquelas imagens sem sequência e sem demais informações, a ideia surgiu.

A narração desse processo me lembrou a descoberta do trabalho da fotógrafa Vivian Maier. Segundo o documentário Finding Vivian Maier, uma caixa de fotos de trabalhos dela foi arrematada por um caçador de tesouros em um leilão. Ao abrir a caixa e observar as imagens, ele suspeitou que aquelas fotos eram mais interessantes do que pareciam e, a partir desse momento, essa fotógrafa que passou a vida na invisibilidade do trabalho de babá começou a ser descoberta.

Esse filme se esforça para tentar contar a história da fotógrafa a partir do que foi sendo garimpado depois de sua morte. Além das caixas com suas fotos e demais pertences, o que restou de Vivian mora na memória de seus antigos e diversos patrões. O trabalho dos que hoje tentam lucrar a partir dessa fotógrafa muito talentosa é um pouco semelhante ao que tentamos fazer ao ler o livro da Aline, ainda que as fotografias presentes em suas páginas não sejam, digamos, visuais.

A dúvida

Como funciona a memória? A minha, a sua e também a nossa. Como se define o que vamos lembrar e o que vai desaparecer nesse lamaçal de rostos, causos, banalidades, violências e urgências cada vez mais frequentes, talvez frequentes demais para continuar a caber nessa palavra? Como a forma que lembramos afeta como vamos ver aquilo tudo agora e no futuro? Como lembrar e esquecer podem se relacionar tanto com buscar e perder? E quão grande pode ser o abismo entre lembrar e contar o que se lembrou?

Como uma cidade se forma, permanece e afunda? Como uma cidade é lembrada? Como uma cidade atravessa o tempo? E a vida de cada um? Como cada pessoa surge, permanece e desaparece? Como se conta a história de um povo?

Somos o que lembramos? E onde anda a verdade se cada um tem a sua?

Como se dá o processo da memória? E das relações? E da criação? A criação surge a partir da vontade de se expressar? De contar a nossa própria história? De elaborar o que se passou? De ser lembrado e de lembrar? De não deixar desaparecer alguma coisa? De não se deixar desaparecer e nem os seus? Como organizar lembranças pode parecer tanto um processo de colagem? Como cada cena pode parecer tanto uma fotografia? Como falar de tempo, processos, escola e adolescência pode nos fazer pensar tanto no Brasil?

O processo

Pensar na adolescência envolve encarar quem somos hoje e como nos tornamos essa pessoa. Pensar em tempo é se ver exposto às contradições do registro e do esquecimento. Pensar na dúvida é perceber que na maioria das vezes descobrir novas indagações é mais interessante ou, no mínimo, mais realista que qualquer resposta que podemos encontrar. Ler esse livro é pensar nesse misterioso processo que mescla o desejo de narrar, de fugir e de ficar.

Os dias normais

As histórias de Kênia, Tainara, Érica, Tiago, Rebeca e outros antigos moradores de Alto do Oeste são relatos individuais de uma cidade alagada em um processo lento e contínuo de abandono. O fim do mundo de cada um desses personagens — e o retorno curioso dessa terra tantos anos depois — foi somente mais uma manchete curiosa para o resto do país. Enquanto a cidade afundava, cada um fazia o que podia para não afundar junto, enquanto tentavam seguir suas vidinhas como antes. Ninguém de fora, estado ou não, deu as caras nesse processo que, de certa forma, foi sendo ignorado no dia a dia por todos que ali viviam. A tragédia virou costume, como de fato acontece no Brasil. A tragédia virou fonte de cliques e lucro, como também acontece todo dia.

Cidades afundam em dias normais, além de abordar temas como memória, amizade, adolescência, vida no interior e fotografia e outros processos, artísticos ou não, fala também sobre desalento, declínio e desesperança em um sentido coletivo. O que nos faz pensar também na chegada e permanência do fascismo, e é possível dizer que não deve haver nada mais brasileiro que esses sentimentos nesse momento.

Aline Valek escreveu uma obra que dialoga com nossas urgências e medos e a experiência de leitura dessa história nos ajuda a elaborar a prática de se viver em meio aos diversos fins do mundo que nos cercam. A gente busca respostas imediatas o tempo todo, mas talvez precisemos, primeiramente, entender de onde partimos. A professora Érica concordaria com isso, porque sabe que as memórias pertencem ao futuro. Só se conta histórias para frente”.

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Leia também: “Buscando Vivian Maier”

Metamorfoseando versão capitalismo tardio

Nhami

Quando hoje de manhã Franz Kafka acordou de sonhos intranquilos típicos do post-mortem, encontrou-se metamorfoseado em uma generosa kafta de carne de boi recheada com queijo coalho.

Segundo o app do Ifood, em cerca de 20 minutos ele ficará pronto para ser enviado via delivery para alguém que gosta de comida árabe e é um early almocer.

Franz Kafka, agora só Kafta, vai acompanhar um prato com arroz com lentilha e cebola, patê de grão de bico e um pouco de tabule. Com os neurônios já bem moídos, ele só espera que seja rápido e que renda uma nota 5 para o restaurante. Talvez também para o entregador, se na corrida ele não acabar se misturando com os demais componentes do prato.

Ao ser embalado junto aos outros itens no marmitex, ele cogita que é bom pensar na possibilidade de ser digerido por alguém lendo “O processo”.

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Donna Polla

O comício – Benedito José de Andrade

Quando comecei a fazer as primeiras lições de italiano no Duolingo, eu não conseguia parar de pensar na minha Tia P.*. Era inevitável. Se aprendia que rato era topo, esperava que na lição seguinte o Duolingo me apresentasse o famigerado pollo e todas as melhores maneiras de pedi-lo. Nessa brincadeira, minha cabeça virou um verdadeiro galinheiro de memórias plumadas da viagem que eu fiz com ela pra Itália.

A viagem foi em família. Com justificativa de saudade, mas motivação de turismo. Um desses passeios que acabam envolvendo vários núcleos parentais e até mesmo amigos de longa data da família principal. Tinha mais gente querendo ir do que gente podendo pagar e, no fim das contas, formou-se um grupo com dois casais, sendo um deles meus pais, um tio avulso, uma amiga da família também avulsa e eu, todos indo ao encontro do meu irmão.

Piadas sobre família Buscapé à parte, a viagem fluiu muito bem e encheu os olhos, o coração e a pança de todos os envolvidos. Ou melhor, quase todos. Não sei se a Tia P. diria que ficou tão satisfeita assim em um desses quesitos.

Foi durante esses dias que descobri que minha Tia P. é uma pessoa obcecada por frango. Durante os preparativos do passeio, eu pensei que, ao menos em relação a ela, o único grande desafio de convivência seria o fato dela gostar demais de rezar, ser católica fervorosa, nos obrigar a ir ver o Santo Sudário e querer entrar em todas as igrejas e lojas, essas não necessariamente religiosas, que a gente encontrasse no caminho. Coisa que de fato ela meio que fez, com apoio da minha mãe e tudo, mas, já em Roma, a gente descobriu que se tem uma coisa que Tia P. gosta mais do que de Deus, essa coisa é frango. 

“Pizza de frango é uma coisa muito brasileira. Ainda mais se tiver catupiry envolvido”, meu irmão argumentava sem sucesso. Ela insistia. Ele cedia. O que significava que ele, o único falante de italiano, acabava tendo que tentar conversar com garçons e até cozinheiros sobre a possibilidade de fazer uma pizza ou qualquer outra coisa com frango pra ela. Tia P., para garantir que sua mensagem chegaria ao destinatário, sempre ia junto dele e ficava ao lado falando em português o que ela queria, atrapalhando aquele diálogo, que já não ia ser fácil, dizendo vez ou outra  “pollo” com pronúncia espanhola, idioma que ela também não conhecia. 

O pedido era visto como absurdo. Mais até que catchup sendo colocado numa legítima pizza paulistana da Mooca. A maioria dos garçons entendia que ela queria que eles colocassem um peito ou coxa de frango em cima da pizza. E, eu juro, isso não era um problema no italiano do meu irmão que, apesar das dificuldades, cursava engenharia no idioma graças ao Ciências Sem Fronteiras. Era um problema de má vontade de todos os seres humanos do mundo com ela, a “Donna Polla”. Meu irmão, eu, os garçons, os cozinheiros, a guia, meus pais, meu padrinho, a amiga da minha mãe que é quase uma tia pra mim e, arrisco dizer, até o meu tio, marido de Tia P., todos ficavam contra ela assim que ela abria um cardápio. 

No dia que comi a melhor lasanha da minha vida, Tia P. enfim encontrou seu “pollo” em um restaurante e, sorridente como nunca, pediu. O restaurante trabalhava com um cardápio fixo para a semana: entrada, prato principal e sobremesa já definidos e numa leva só. Algo como um pacote promocional de groupon ou peixe urbano, mas sem a compra antecipada. Frango com aspargos era o prato principal, mas antes dele, na entrada, havia uma lasanha. A mais saborosa lasanha que já existiu. E que Tia P. perdeu. Ela, ao se deparar com aquele enorme prato de massa como suposta entrada, não quis nem tocar na comida. A família toda insistiu para ela experimentar, mas não adiantou. O que interessava era o frango com aspargos e não valia a pena encher a pança de lasanha pra depois custar a comer o que, segundo ela, era refeição de verdade. O pedaço de lasanha dela foi dividido em partes iguais com o restante da mesa que fingia não estar achando ótimo a chance de comer mais um pedaço daquela maravilha. 

Quando o prato principal chegou, encontramos no lugar de uma bela refeição pedaços de frango pálidos, oleosos, meio duros e sem qualquer cheiro de tempero. Mesmo assim ela não desanimou. Foi preciso que ela provasse, provasse mais uma vez pra tentar acreditar naquilo e provasse de novo para perceber que era a coisa mais insossa já cozinhada no planeta Terra. 

Todos comemos aspargos e batatas, esses extremamente saborosos e temperados, enquanto ela insistia em provar os frangos que alguns de nós não queríamos comer, achando que algum pedaço se salvaria milagrosamente daquele não sabor insuportável. No fim das contas e depois de muito insistir nos frangos horríveis, ela tomou a sábia decisão de usar os sachês de sal e azeite à disposição para melhorar aquilo que teria que ser a refeição dela naquele dia. 

Tia P., entretanto, não aprendeu a lição. Continuou o resto da viagem insistindo nisso, deixando todo mundo meio constrangido em muitos momentos, sem nunca desistir de seu sonho de provar um legítimo pollo italiano.

Voltamos para casa felizes, mas também secretamente putos, sem imaginar que Tia P. e seu insuportável desejo de comer frango em todas as refeições se tornaria uma das principais histórias desses quinze dias maravilhosos.

*nome suprimido por medo de processo.

Esse texto foi publicado originalmente na 11ª edição da minha newsletter “Sala de Espera”. Assine aqui para passar a receber meus escritos diretamente na sua caixa de entrada.

21 livros para ler em 2021

Ler para mim sempre foi um prazer e por muito tempo eu não tive o hábito de anotar e contabilizar o que eu lia, criar metas ou qualquer coisa do tipo. Meus hábitos de leitura sempre foram freestyle e eu gostava disso, mas a vida foi acontecendo, as redes sociais foram se firmando na minha vida como um meio de conexão e troca, e aos poucos fui sentindo a necessidade de anotar o que eu leio e, mais recentemente, o que compro ou ganho. O que não significa o fim do freestyle, que fique claro. Seguirei sendo aleatória, como sempre fui, lendo sem parar quando dá na telha, enquanto também passo duas semanas ou mais sem tocar num livro fazendo outras coisas, mas agora serei uma aleatória com um pouco mais de foco frente a minha estante. (Vocês não fazem ideia do quanto eu demoro para escolher uma leitura!)

Com a criação, organização e mediação do Clube Cidade Solitária junto a responsabilidade de guiar e mediar o Leia Mulheres Divinópolis, passei a sentir uma maior necessidade de planejamento de leituras, por motivos financeiros até. É importante priorizar os livros que já tenho em casa, né? Agora, pela primeira vez na vida, vou criar uma meta literária e, ainda por cima, vou fazer isso de maneira pública. Mas, já aviso, essa lista é mais sobre sugestões e prioridades de leitura do que qualquer coisa, viu? Não vou encará-la como uma obrigação ou qualquer coisa parecida, até porque os clubes que medio é que mandam em mim de verdade. É bem possível, inclusive, que vários listados aqui acabem ficando para o ano que vem e, se isso acontecer, tudo bem.

Bora pra lista?

1 – O diálogoLuizza Milczanowski

2 – Sabendo que és minhaFabrina Martinez

3 – Homens que nunca conheciMaíra Valério

4 – Por favor, cuide de mamãeShin Kyung-Sook

5 – Tornar-se palestinaLina Meruane

6 – Verdades além do túmuloCaitlin Doughty

7 – Relatos de um gato viajanteHiro Arikawa

8 – Flor de gumeMonique Malcher

9 – Flores para AlgernonDaniel Keyes

10 – A autobiografia da minha mãeJamaica Kincard

11 – Garota, mulher, outrasBernardine Evaristo

12 – De duas, umaDaniel Sada

13 – Pedro PáramoJuan Rulfo

14 – A FúriaSilvina Ocampo

15 – Quarenta diasMaria Valéria Rezende

16 – Cidadã de segunda classeBuchi Emecheta

17 – Água de BarrelaEliana Alves Cruz

18 – O alegre canto da perdizPaulina Chiziane

19 – Dicionário Agatha Christie de venenosKathryn Harkup

20 – Herdeiras do marMary Lynn Bracht

21 – Insubmissas lágrimas de mulheresConceição Evaristo

Não coloquei nessa lista nenhum dos livros previstos para o Clube Cidade Solitária, porque a prévia deles já foi listada no perfil do clubinho. Como imagino que muitos de vocês talvez queiram saber quais são eles, até para poder se programar para ler, deixarei o link para os dois posts que anunciam os spoilers de 2021 aqui e aqui. Os encontros do “Um defeito de cor” da Ana Maria Gonçalves” e do “Torto Arado” do Itamar Vieira Junior já tem datas marcadas, viu?

Observação: também deixei de fora dessa lista livros de poesia, porque prefiro lê-los bem livremente, sem obrigação inclusive de seguir a ordem dos poemas ou ter data pra terminar. Sei que quero ler pela primeira vez e/ou continuar lendo Wislawa Szymborska, Francisco Mallmann, Ana Elisa Ribeiro, Alejandra Pizarnik, Gabriela Mistral, Ana Martins Marques, Anna Clara de Vitto, Jarid Arraes, Pilar Bu, Cecília Pavon, Angélica Freitas, Emily Dickinson, Adélia Prado, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Primo Levi, Yasmin Nigri, Marília Garcia, Adília Lopes, Audre Lorde, Mel Duarte, Lubi Prates e Nina Rizzi.

Prêmio Thaís Campolina de Literatura de 2020

ou simplesmente Melhores Leituras de 2020

Eu não sei escolher preferidos, como eu já comentei numa crônica esquisita que postei por aqui e no Medium em algum momento no ano passado, mas eu resolvi tentar.

Nessa aventura de tentar encarar minhas leituras com um olhar avaliativo, deixei me iludir com a ideia de que a restrição temporal ajudaria. (Não ajudou.) Terminei a seleção com muito custo e uma lista com mais de 20 livros tendo lido 69 títulos e gostado muito de quase todas as leituras que fiz esse ano.*

Numa tentativa de preservar meus princípios, decidi que, em vez de tentar enxugar o gelo cortando obras que não quero cortar de jeito nenhum só pra caber em um número menos exagerado, eu simplesmente vou apresentar meus favoritos por categorias.

(Isso não significa que eu não tenha criado categorias específicas só pra poder colocar algum dos livros que eu queria indicar, mas não sabia como, porque a lista não podia aumentar ainda mais ou que nas categorias desse prêmio não cabem livros já citados em outras).

Bora pra lista?

Melhor livro de contos: Coração azedo – Jenny Zhang

Melhor conto avulso: A loteria – Shirley Jackson

Melhor livro de poesia: Para o meu coração num domingo – Wislawa Szymborska

Melhor best-seller: A Casa dos espíritos – Isabel Allende

Melhor clássico: Água Funda – Ruth Guimarães

Melhor livro feminista: Mulheres, raça e classe – Angela Davis

Melhor HQ: Fun home – Alison Bechdel

Melhor livro com animal antropomorfizado: O diário de Edward, o Hamster – Mirian e Ezra Elia

O mais fofo: Soppy – Philippa Rice

3 livros que não consegui parar de ler:

Solução de dois estados – Michel Laub

Pequenos incêndios em toda parte – Celeste Ng

Fique comigo – Ayòbámi Adébáyò

Li numa sentada e amei: Se deus me chamar não vou – Mariana Salomão Carrara

Li e depois emprestei pra todo mundo: Os sete maridos de Evelyn Hugo – Taylor Jenkins Reid

Melhor livro desconfortável: A vida mentirosa dos adultos – Elena Ferrante

Melhor livro de memórias: Afetos Ferozes – Vivian Gornick

Melhor livro de não ficção: A mulher de pés descalços – Scholastique Mukasonga

Melhor releitura: A Cidade Solitária – Olivia Laing

Melhor livro de ensaios: Falso Espelho – Jia Tolentino

Melhor surpresa: O amigo – Sigrid Nunez

Se chorei e se sofri, o que vale é a força do livro que li: Bem-vindos ao paraíso – Nicole Dennis-Benn

Melhor descoberta poética: Cecilia Pavón

Quero ler mais de: Patrícia Melo, autora do “O matador”, Eliane Alves Cruz, autora de “O Crime do Cais do Valongo”, e Dany Laferriere, autor do “País sem chapéu”

* A única leitura que eu realmente não gostei foi a que fiz do “Descobri que estava morto” do J. P. Cuenca. A premissa do livro é excelente, inclusive a maneira que ele aborda a cidade e o clima de investigação, mas a narração é tão machocentrada, chata e arrogante que não rolou. Não rolou mesmo. Ainda assim, vale o lembrete que o autor está sendo perseguido judicialmente por fanáticos religiosos por causa de um tweet de protesto e tem a minha solidariedade.

“Para diminuir a febre de sentir” e a vida como ela é


Conheci a Dalva em uma oficina de escrita no ateliê do Estratégias Narrativas. Era a minha primeira vez naquela salinha, depois de um longo período querendo retornar para a escrita. Não sabia onde colocar as mãos, os olhos e os cadernos, muito menos a vontade de ler, aprender e escrever. Nunca tinha feito uma oficina antes e tudo era uma grande novidade. Por isso, estava acompanhada de uma amiga, a Carol, que, se eu não me engano, é quem me apresentou a possibilidade desse escrever acompanhado e guiado que me enchia os olhos naquele momento. Era a primeira vez dela também, eu acho. Lembro que nenhuma de nós sabia o que fazer, mas a gente sabia que a gente precisava daquilo. Estávamos tão ansiosas que uma semana antes da oficina de fato começar, numa confusão de datas e disposição, acabamos no Maletta numa segunda às 19 horas. Naquele dia, celebramos o início do que ainda nem tinha sido iniciado com cerveja e batata-frita.

Todo debute é uma aventura. Por isso, narro o início de tudo, o que veio antes da leitura e da formação desse texto. Quando fui formular o desafio literário #LeiaComASubjetiva de 2020, listei “livro de estreia” como tema para o último bimestre. Dezembro pede novidades, é o mês que nos lembra do fim, logo do início e, muitas vezes, nos afasta do presente. Entre rituais conscientes e inconscientes, retrospectivas e desejos, o que acontece no aqui e agora é que parece enevoado. Essa é a hora certa de pensar em primeiras vezes. 

No último dia de um ano caótico, triste e destrutivo, li “Para diminuir a febre de sentir” da Dalva Maria Soares, minha ex-colega de oficina que estreou em formato de livro em 2020. A sensação foi de que ela e os personagens de suas crônicas estavam com suas mesas de café postas para receber mais um ano, mais uma pessoa, mais uma estreia. E, como bons mineiros, estavam muito bem preparados para ver chegar mais gente ainda para participar desse momento de troca, afeto e reflexão que só acontece mesmo em torno de uma refeição e da ideia de fim e começo. No meio de leitores e personagens, sentaram-se também as referências. Guimarães Rosa, Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus, Adélia Prado, Emily Dickinson, Criolo, Virginia Woolf, Gloria Anzaldúa e outros, todos em torno da mesa sendo observados também por Fridinha, Scooby e outros cães. Um amontoado de gente que sabe que a vida acontece também quando ninguém está olhando e vê beleza na pequenez da rotina e da história de cada um. Um amontoado de gente que eu passei a olhar diferente, ainda que já os conhecesse e até os acompanhasse, tudo porque a escrita da Dalva, essa que tive contato na oficina e depois acompanhei por anos pelo Facebook, é sempre uma conversa que vai e vem, encontra leitor, encontra memória e carrega junto um mucado dela, dos seus e da gente. 

Dalva é uma escritora que toca quem lê a partir de um relato de um cotidiano invisibilizado. Esse das mulheres simples, das pessoas exploradas, das mães e das filhas que se ligam por conhecer bem os fantasmas que assombram as outras. Esse que se apresenta todo costurado aos livros e autores que ajudaram a formar a autora, mas que não foram e nem nunca serão as únicas fontes de conhecimento dela. O entorno, os afetos e desafetos, a ancestralidade e as vivências, tudo isso também forma, como ela, a partir dessas 15 crônicas, mostra. 

“Para diminuir a febre de sentir” é um livro de bolso, desses bem curtinhos, e foi publicado de maneira independente pela Editora Popular Venas Abiertas. Ele mexe com a gente porque fala da vida como ela é, complexa, difícil e, apesar de tudo, com espaço reservado para o afeto, a cultura, a arte e a imaginação. Fome, violência e desigualdade são lembrados de forma crítica junto aos laços visíveis e invisíveis que impedem a completa desumanização. Dalva sabe muito bem compartilhar o indizível e o não quantificável, o que é, per si, uma forma de resistir. 

Agora entrego esse livro com carinho para a minha avó materna, que viveu por muito tempo bem pertinho de Baldim, o principal cenário dessas crônicas sobre a vida de Dalva. Antes de 2020 acabar, ela merece saber que histórias como as dela também podem estar num livro.


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Copies, dreams and enemies

Markus Spiske

Noite passada sonhei com toda espécie de doppelgänger. Vivi a versão comédia, a dramalhão e a de terror, essa inspirada no “Nós” do Jordan Peele, numa mesma bagunça onírica. E também a versão Divertidamente, que merece uma frase a parte, porque eu preciso explicar para o leitor que cada cópia costumava agir somente como cada copiado sentia ou nojo ou felicidade ou raiva ou tristeza, como se fôssemos unidimensionais assim.

Nesse mix de referências e gêneros, algo que se destacou foi a facilidade de ignorar as versões doppelgänger tristes. Elas ficavam só na delas e até cuidavam dos nossos bichos e coisas quando éramos enxotados de casa pelo nosso doppelgänger raivoso. Nunca causavam grandes problemas. A gente nem precisava enfrentá-las direito, parecia que as cópias tristes tinham ido tomar tudo da gente sem nem querer muito fazer isso. Era só oferecer um cobertozinho e um chocolate quente que ela desistia de nos fazer qualquer mal direto.

Encontrei a minha cópia triste pela primeira vez dias dias depois de expulsar a Nojinho descascando uma banana. (Sim, eu enfrentei um dos meus maiores medos pra conseguir expulsá-la da minha casa e funcionou!). A Thaís Triste estava deitada no corredor que liga a cozinha e o quarto. Meu primeiro instinto foi acolhê-la, conversar com ela, quase cheguei a abraçá-la, mas eu sabia que não dava para fazer mais do que isso. Ela não podia ficar sem eu perder tudo. Ainda assim, dei um tempo pra ela, como eu queria dar pra mim todas as vezes que me sentia daquela forma. Podia expulsá-la depois, deixar a minha cópia triste por último, né? Até porque eu sabia que uma hora a minha raiva ia aparecer, se é que ela já não estava por aí à espreita, e tudo se complicaria. Foi assim que fingi que minha empatia pelo que ameaçava tudo que eu tinha, inclusive a vida, era somente estratégia.

A gente só conseguia ter certeza de que não era a pessoa que procurávamos, mas sim a cópia, quando as cópias riam. A risada causava uma distorção da imagem delas durante menos de um segundo e isso era mais que o suficiente. Descobri isso bem no início da invasão, quando pouquíssimos relatos eram feitos nas redes sociais e imediatamente desacreditados no Twitter. Fui visitar meus pais e encontrei só ele, sem minha mãe e minha avó. Elas tinha saído, disse. Acatei. Até porque no sonho não tinha pandemia pra me fazer duvidar. Dividimos a casa por umas horas, conversamos, tudo parecia normal, mas mudou quando eu estava assistindo a versão do meu pai brincar com a gata da família. Quando ele riu, eu soube. Não era ele. Bem que tinha notado que ele estava meio que feliz demais. Depois do meu escândalo, apareceu todas as outras cópias Divertidamente dele e eu, aflita, peguei Eva e Billy e fui em busca dos meus pais e avó com medo do que aquelas criaturas poderiam ter feito.

Como eu estava dizendo antes, a partir desse episódio —  que terminou bem, mas eu não lembro direito como —  percebi que a melhor forma de identificar uma cópia então era simplesmente ser engraçado e, talvez, gentil. Sabe aquele sorrisinho que a gente dá quando se sente cuidado e querido? Saber gerá-lo era importantíssimo, principalmente porque chegar contando piadas sem qualquer contexto causa estranheza, seja entre humanos, humanos e cópias ou entre as próprias cópias. Sim, as cópias também possuem regras sociais e de etiqueta ou de tanto fingir ter desenvolveram uma muito parecida com a nossa. Enfim, por essas e outras, duvido muito que os stand-up comedians tiveram sucesso nessa empreitada contra o mal personificado por nós mesmos, mas não posso afirmar o fracasso do grupo com certeza, porque o sonho não forneceu qualquer informação sobre isso e nem sei se eu deveria comentar esse tipo de coisa num diário de sonhos público. É meio descontextualizado, né? Acho que vou cortar essa parte na próxima edição desse material.

Nunca soube de onde as cópias vieram e, confesso, não ter conseguido descobrir o que elas queriam. Até mesmo sobre o caráter delas ainda tenho minhas dúvidas. Nenhuma cópia minha parecia propriamente má ou boa. O universo onírico não explica muito, se apresenta cheio de furos e vez ou outra ignora todas dicotomias que a gente aprendeu desde cedo.

Só sei que mesmo depois de acordar eu não sei dizer ainda o que foi mais difícil: bater em um doppelgänger que imitava alguém que eu amava com perfeição ou lutar contra meu próprio doppelgänger. Alteridade e identidade se misturaram tantas vezes que suspeito que isso só pode ter sido parte da magia das criaturas que nos copiavam, mas talvez essa confusão seja simplesmente o que nos define como humanos, uma espécie de força-fraqueza que é impossível existir sem ter. Vai saber, né?

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Quando começa o futuro?

“Como será dezembro de 2021?”, me pergunto ao receber a agenda que comprei para me acompanhar no próximo ano.

Mexo em suas páginas, tiro e coloco de volta a capinha protetora que veio, observo a óbvia falta de preenchimento e toda indefinição que ela significa e rio pensando no altíssimo grau de autoilusão necessário para se planejar qualquer coisa.

Paro o olhar nas ilustrações da Luli Penna, permaneço ali, encontro um livro, um bicho, um objeto do cotidiano e sigo folheando para ver o que mais vou descobrir na agenda, como se buscasse também saber o que o futuro me reserva.

Me deparo com mais alguns poemas da Ledusha, leio todos, sinto o cheiro de novo, penso no futuro mais uma vez e me lembro, com um aperto no peito, que sou ansiosa e brasileira e não posso ficar muito tempo pensando nessas coisas.

Talvez seja a hora de parar de pensar nesse amanhã abstrato e preencher meu nome, escrever compromissos, anotar os prazos dos boletos e respirar fundo lembrando que 2020 ainda não acabou.


O planner citado no texto é da Todavia.
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