Vovó me construiu leitora quando me viu uma

Vovó adora contar histórias da minha infância. São causos variados, alguns envolvendo viagens ao litoral, outros, festas de família, mas a maioria mesmo é sobre nosso cotidiano: minha vó contando suas memórias e eu ouvindo, minha vó me olhando e eu falando sem parar, minha vó jogando baralho e eu aprendendo com ela todas as regras, minha vó assistindo à televisão e eu observando suas reações ao Sílvio Santos ou mesmo ao Thiago Lacerda, minha vó bordando e eu dizendo que só aceitaria tentar se fosse um risco da digimon Tailmon, minha vó fazendo biscuit ou flor de meia e eu logo ao lado colando um porta-retrato de EVA com um enfeite da digimon Tailmon feito por mim como exercício da aula de artes da escola, minha vó cantando e eu no meu quarto tentando me concentrar em alguma coisa, minha vó fazendo bolo e eu fugindo da cozinha.

Entre tantos causos possíveis, ela escolheu como história preferida a de quando ela descobriu que eu já sabia ler. Eu tinha três anos, quase quatro, e parei frente ao portão do quintal da minha casa, olhei para o cadeado dependurado e soletrei Papaiz, depois juntei as sílabas e formei a palavra. Vovó falou “mas você já sabe ler, menina?” e eu, fingindo que aquilo não era importante pra mim, assenti. Ela sempre ri quando conta essa história, um riso que parece dizer que a surpresa dela foi sempre uma piada, como se fizesse questão de repassar essa memória simplesmente porque aquela cena foi o momento que ela me descobriu, viu o que me tornava Thaís. De certa forma, foi isso mesmo o que aconteceu. Ouvi tanto essa história que me tornei leitora. Ouvi tanto essa história que entendi que por mais que minha avó me cobrasse que eu aprendesse o que toda meninA deve saber, ela tinha certeza que isso nunca me bastaria. Ouvi tanto essa história que entendi que a curiosidade era a principal característica que nos unia, aquilo que deu a liga ao nosso gosto em comum em ouvir e descobrir histórias. A partir da narração dessa memória, minha vó teceu nossa filiação, nossa semelhança, nossa conexão às vezes desconectada. Vovó me construiu leitora quando me viu uma.

Nos meus ouvidos atentos por histórias, a leitora já existia. Na observação dos comportamentos ao redor, também. Na minha vontade de falar tudo que eu sentia, vivenciava, descobria e, principalmente, inventava, mais ainda. Vovó conta a descoberta dela como se esse momento fosse a história de origem de uma super-heroína da linguagem que ela acredita que eu sou.

A história sempre vem com algum comentário. Ela complementa dizendo que eu não parava quieta, queria tudo e pulava de galho em galho atrás da próxima palavra. Essa energia minha, na voz da minha vó, nunca teve tom de crítica direta. Vovó sempre me pareceu se encantar com o tanto que eu, teoricamente, era difícil, como se certos defeitos meus fizessem parte desse pacote maior que me tornava eu.

Vovó gostava de ler histórias de mistério. Hoje não mais. Cansou disso. Minha primeira vez com Agatha Christie foi com um livro bem velho dela numa época em que ela ainda gostava disso. Ela tem lido menos e preferido formas breves, mas contado e recontado mais histórias, descobrindo uma veia cronista cansada, mas firme. Grata também.

Não sei como minha vó me vê hoje. Sei que ela não parece se decepcionar com quem me tornei, mesmo eu não tendo uma carreira brilhante. Talvez isso seja vestígio do machismo de sua época, inclusive, mas isso não importa agora. Me conforta, na verdade. Me parece que para ela a minha característica leitora não me fazia prometer nada além de uma boa conversa. Só que isso me lembra que ela quer que eu tente participar do programa “Quem quer ser um milionário?” do Luciano Huck desde que era Show do Milhão do Silvio Santos. Ela jura que eu ganharia meu milhão assim. É, talvez haja alguma expectativa. Ela deve esperar que eu faça alguma coisa com tanta vontade de ler o mundo. Alguma coisa que renda dinheiro. Talvez prestígio também. Como todo mundo espera, inclusive eu. Ela quer uma cena nova que me defina, como foi a do cadeado Papaiz. Uma cena que mostre que as palavras dela criaram a super-heroína da linguagem que ela vê. Sei que ela espera algo mais grandioso, mais capitalista talvez, mas eu vejo essa cena acontecer toda vez que medio uma leitura, converso sobre um livro, falo sobre o que eu escrevo. Ou escrevo. Ou simplesmente leio. Ou paro para ouvir uma história dela, ler a última folha de caderno que ela preencheu pra mim.

Vovó, eu estou aqui criando e recriando a cena que você adora contar mesmo que você não veja e isso me conforta. Vovó, eu estou aqui usando as palavras pra contar nossas histórias. Vovó, eu ainda pulo de galho em galho atrás da próxima palavra, da próxima história, da próxima chance de conexão.

Se você gostou desse texto, leia também as crônicas: “Quem quer ser um milionário?” e “Jogatina ancestral” e aproveite para deixar um comentário, compartilhar com seus amigos e me acompanhar também pelo Medium,  Facebook,  TwitterApoia.se,  Tinyletter  e  Instagram.

As tantas mulheres que passaram na cabeça de Maria Luiza Machado

Acervo pessoal – Foto publicada originalmente no meu Instagram

“Tantas que aqui passaram”, livro de poemas da Maria Luiza Machado é um catálogo poético de personagens femininas. Formado por 29 mulheres-poemas, essa é uma obra que nos coloca em contato com a condição humana das mulheres, enquanto também evidencia, de forma sutil, aspectos sociais e culturais que influenciam na construção dessas subjetividades muitas vezes marcadas por diversas angústias. Solidão, maternidade, trabalho, fé e relacionamentos amorosos e familiares são alguns dos temas abordados pela autora a partir de uma perspectiva íntima, que nos coloca em contato com os pensamentos secretos de cada uma dessas personagens.

Os poemas de Maria Luiza soam narrativos para os fãs de prosa e bons personagens e exploram repetições, pausas e alguns aspectos da oralidade, lembrando muitas vezes fluxos de consciência. A construção poética dos detalhes cotidianos expostos em alguns dos versos também chamam atenção e ajudam a formar cenários e sensações, fornecendo uma espécie de lupa para quem lê. Lupa essa que nos ajuda a investigar um pouco mais de cada uma dessas personas que nos são apresentadas.

Como diz o posfácio de Monique Malcher, terminamos de ler esses poemas nos sentindo povoadas.

“Tantas que aqui passaram” é sobre o universo que cabe em cada pessoa, uma obra que nos faz pensar no quanto semelhança e diferença constroem o universo da pluralidade e isso tem uma importância especial em um universo que insiste em impor padronizações.

O livro é uma publicação da Mormaço Editorial, editora independente fundada em 2020 e coordenada por Maria Luiza Machado e seu sócio Daniel Pasini. Ele foi diagramado e ilustrado por Isabela Sancho e viabilizado através de um financiamento coletivo. Esse é o terceiro livro da autora, que nasceu em 1995 em Feira de Santana na Bahia e mora em Salvador desde 2014. Os livros anteriores dessa jovem escritora foram: “Algumas histórias sobre a falta” (2018) e “Todos os nós” (2019).

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Crônica da praça que se molda à imagem e semelhança dela mesma

Quero entender melhor os diferentes tamanhos que a pracinha que eu ia durante a infância pode assumir.

Parei de crescer faz tempo, mas ainda assim toda vez que piso aqui adulta, a lembrança do que a pracinha foi se transforma.

Ela se expande sob o meu olhar atento às diferenças, mas eu pareço cruzá-la em tão poucos passos. Ela está cada vez menor, mas seu limite ainda está em outro tempo. Ela parece mais vazia sem os bichos que eu costumava encontrar ali nas minhas expedições como wannabe biológa, mas também mais ocupada agora que tem até aparelho de ginástica. A árvore que levou pedaços dos meus dentes numa trombada com minha bicicleta ainda parece ameaçadora.

Penso em quantos passos o Billy precisa dar pra me acompanhar. São os mesmos de quando ele era jovem? E me pergunto quantas pisadas Faruck I precisava para cortar toda essa pouca extensão e nos tantos milhares de odores que Faruck II pode cheirar ali todas as vezes que o acompanhei.

Com a mi band presa ao meu pulso, sei exatamente quantos passos eu precisei dar para medir esse cenário e isso não é o suficiente para me convencer da diferença do que vejo, sinto, lembro.

Atravesso, calculo o raio, elevo-o ao quadrado, multiplico o resultado pelo pi. Encontro minha recuperação de matemática. Volto pra casa em 2003.

Tudo mudou.

E toda vez que mudo, uma nova perspectiva vira possibilidade. Com uma câmera nas mãos, posso ver a praça sob outro ângulo, o do pássaro que nunca fui. E, depois, quando voltar, lembrar diferente, como se em algum momento da minha história, eu tivesse sido dona desse céu de inverno.

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Breves observações sobre um livro incomum

Acervo pessoal – Instagram – Compre seu livro aqui!

“Pequena enciclopédia de seres comuns”, escrito por Maria Esther Maciel, ilustrado por Julia Panadés e editado pela Todavia, é um livro para quem gosta de contemplar e tem um interesse especial no singelo, no sensível e na natureza.

A cada página, o leitor encontra um verbete animal ou vegetal escrito de maneira criativa e poética, em um mix que une o olhar científico e as possibilidades do mundo inventado da linguagem.

Os verbetes seguem uma separação única que brinca com nomes e situações: primeiro as Marias, depois os Joões, sem esquecer das viúvas e viuvinhas e os seres híbridos e curiosos que em um mesmo nome unem espécies.

Em todas as partes da obra, encontramos plantas, aves, insetos, mamíferos, anfíbios, répteis e peixes que são categorizados juntos a partir de um outro tipo de semelhança, aquela que surge das infinitas possibilidades da nomeação.

Nesse sentido, chama a atenção as espécies inventadas, como a Maria-Vai-Com-as-Outras, o João Doidão e a Viuvinha-Humana, e a abordagem ambientalista que se apresenta de forma sutil nas descrições.

Durante essa manhã fria de domingo, enquanto lia essas páginas tomando sol e a partir da curiosidade e do encanto que o livro me trouxe, reencontrei a Thaís criança, essa menina que sempre brincou de observar animais e depois, ao chegar em casa, corria para anotar e desenhar tudo o que viu, como uma pesquisadora de campo que investiga todas as coisas sem registro. Eu brincava de fazer relatórios que mesclavam o lúdico e o biológico, catalogando a partir da minha percepção tudo que ia conhecendo e fantasiando, como esse livro nos encoraja a fazer ao incentivar um reencontro com um outro mundo ao nosso redor, esse mundo fascinante feito de detalhes, que só podem ser vistos por quem ainda é capaz de olhar por olhar. Esse mundo que tento recriar a partir da linguagem quando escrevo.

Esse post faz parte da série #domingodabanalidade, hashtag que uso para reunir comentários e mini resenhas sobre livros que combinam perfeitamente com esse dia da semana. No caso de “Pequena enciclopédia de seres comuns”, a recomendação vem junto com um belo conselho que dei no Instagram e reitero também aqui no blog: quando vocês estiverem com esse livro em mãos, não se esqueçam de intercalar palavras lidas e desenhos observados com pausas para contemplação do céu, do mato, dos bichos ou da sua própria memória ou imaginação. A leitura ficará ainda mais gostosa.

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Algumas notas sobre Cães e Grilos

“Cães”, obra de estreia da escritora baiana Júlia Grilo, me encontrou durante uma conversa com uma amiga. Esse não foi um encontro fortuito, mas nele também não fui parte ativa, o livro foi sujeito aqui, ainda que tenha sido apresentado por intermédio de alguém. Não me entenda mal, o arquivo não surgiu do nada no meu Kindle, mas Cafeína já estava comigo antes mesmo de eu começar a ler, porque eu também tive cachorros na infância e todos eles sempre foram parar no meu quintal.

Desde as primeiras páginas, Cafeína e a narradora humana me pareceram próximas demais de quem eu fui, sou e provavelmente serei. Posso dizer que as pequenas rebeldias das duas me encontraram de alguma forma, seja na via da identificação, seja na do desconforto. Talvez agora seja a hora de falar que esse não foi um livro fácil de ler, apesar de eu ter amado a experiência por n motivos, inclusive o de ter encontrado no texto uma fluidez de quem gosta de conversar, ouvir e refletir sobre tudo e todos. Júlia Grilo estreia com uma história incômoda, essa é a verdade. Júlia quer que a gente termine o dia pensando em sujeição, poder e alteridade e isso está evidente em todas as suas páginas.

A mistura de elementos autobiográficos com a criatividade do olhar da narradora para os animais faz dessa história um romance com elementos de formação, como o amadurecimento da cadela e da menina, marcado pela perseguição de uma ideia, de um questionamento, de uma reflexão filosófica que faz a gente se sentir transitando em um texto híbrido, que brinca de ser ensaio quando ele quer, falando inclusive de amor. Essa simbiose de temas e estruturas nos faz pensar no bicho humano, esse que, como mostra a autora, não se coloca como um animal mesmo sendo um. E é na violência que a covardia de não se ver como bicho às vezes toma forma.

Nesse sentido, chama a atenção como a autora aborda temáticas relacionadas com machismo, racismo e classe, fazendo uma miscelânea com as experiências da cadela e da narradora que tangenciam o sexo e até a cor de pele e pêlo, trazendo a partir do animal a crítica aos comportamentos, práticas e problemáticas humanas que aproximam as duas espécies a partir da identificação pela obrigação de subordinação feminina.

Esse é um livro que faz a gente pensar em todo o antropoceno, ir longe, querer brigar com quem exclui os bichos do céu (e do inferno) mesmo sem acreditar nessas coisas, mas confesso que, em meio a esse mundo de reflexões, eu pensei, principalmente, nos cães que amei, nos cachorros que conheci, nos peludinhos que um dia vi passar pela calçada.

“A existência de Cafeína escancarava as minhas limitações e deixava-as mais robustas. Ela era tão diferente de mim — e ainda assim vivia.” 

Os meus

Meu primeiro cão veio com nome e história. Faruck, o primeiro de seu nome, chegou na minha casa antes de completar o desmame e eu, junto da minha mãe, o alimentei com fórmulas caninas ideais para aquela situação. Tamanha precocidade não foi por escolha dos meus pais, deixo claro. Meu primeiro cão foi, antes de meu, um presente rejeitado que a filha adolescente de uma colega da minha mãe ganhou de um ex-namorado.

Faruck era um pinscher tamanho pp preto com peito e barriga e algumas patas brancas, com detalhes minúsculos na cor de caramelo. Adorável e estranhamente humano e adulto, ele dormia no quintal, mas passava todo o resto do tempo dentro de casa. Sendo adorável, muito humano e adulto, ele era considerado limpo o suficiente pra isso. Faruck morreu em um acidente idiota quatro ou cinco anos depois dele chegar na minha casa. Independente da seriedade da minha narração, risadas desoladas seguidas de pedidos de desculpas surgem sempre quando eu narro o acidente que tirou sua vida: Faruck saiu em disparada com medo de ser pego fazendo xixi fora do lugar, escorregou no próprio xixi e bateu a cabeça na quina da porta da cozinha, caindo morto na hora.

Um mês depois, buscamos na casa de um jardineiro conhecido do meu pai um outro cachorrinho. Faruck, o segundo, era diferente de seu antecessor, apesar de ter ganhado o mesmo nome. Não era tão pequeno assim, era todo marrom e foi desmamado na hora certa. Faruck viveu 17 anos e 6 meses e, cá entre nós, era parente de um pinscher com certeza, mas não um pinscher puro. Faruck foi meu melhor amigo e também o melhor amigo do meu irmão. Eu poderia escrever linhas e mais linhas contando como brincamos juntos, como nos apoiamos, como fomos íntimos mesmo nas minhas fases mais distantes, como eu tentei compensar minhas ausências anteriores cuidando muito bem dele no fim da vida, respeitando inclusive a morte como uma possibilidade. Faruck foi eutanasiado em abril de 2019 e está enterrado no jardim da casa dos meus pais junto ao seu cobertor e bolinha preferidos.

E tem o Billy, que também já veio com nome e história, uma história que parece ter alguns traumas inclusos. Billy está vivo, cego de um olho e é um desses pets que nunca aprenderam a brincar. Billy é um pinscher em teoria, mas tem a carinha redonda como a de um chihuahua, o que combina com o cachorro de colo que ele é, apesar de suas práticas nojentas que o impedem de ficar dentro de casa. Ele é marrom chocolate com detalhes em caramelo, um cachorrinho tão bonito que já foi entrevistado pela tv afiliada da Globo da minha cidade. Um cachorrinho tão bonito que, infelizmente, come cocô, mija em tudo e, se a gente der bobeira, rouba papel higiênico usado e leva pra sua casinha.

Billy e Faruck eram irmãos por adoção, mas rivais. Diferentes, mas semelhantes. A relação deles era complicada, não nego, mas acho que dá pra dizer que havia ali uma rivalidade saudável, que, apesar do ciúme e algumas disputas territoriais, envolvia respeito e até preocupação com o outro. Conforme Faruck envelhecia, mais a gente percebia isso. Billy viveu esse luto junto com a gente.

Se a casa virou território ilegal para meus cachorros foi por causa do acidente que tirou a vida do que veio primeiro, mas a proibição quase total só veio mesmo quando o Billy e suas nojeiras chegou. Faruck I, Faruck II, Billy, todos são ou foram cães de quintal, talvez cães de quintal privilegiados perto de Cafeína, mas cães de quintal. Eles tinham espaço para correr e brincar, vacinas em dia e, por serem tão pequenininhos, viviam sendo carregados pra dentro nos dias após banho, provando que o privilégio de ser fofo é um fato canídeo, ao menos para os cães desse tipo. Billy que está vivo, apesar de velho, pode confirmar.

“Essa história pode parecer ter pouca ou nenhuma relação com Café, mas tem muita. Café não se fez sozinha, tampouco prontamente. Seu corpo é também produto de uma ação conjunta de várias mãos, várias mãos de vários tipos, tipos que apalparam e acariciam em ordem de forças diferentes; forças que a atravessaram em varias direções.”

Voltando ao livro

Ler “Cães” foi uma experiência que envolveu lidar com o meu luto pelos bichos da minha vida. E também o luto por todos os outros bichos, domésticos ou não, que eu inclusive como mesmo após mais de dois anos de vegetarianismo. Ler “Cães” me fez pensar em dominação e no quanto é preciso desaprendê-la. E eu me pergunto agora: e é mesmo possível desaprendê-la por completo?

“De tão dessemelhantes, eles ligaram-se um ao outro e suas dessemelhanças fizeram par”

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24 de maio

Obrigada pela imagem alcançada, editor Canva

Tenho sentido o tempo me atropelar. Não por excesso de tarefas necessariamente, mas porque por aqui não se encontra foco algum. Tenho a sensação que sem a rua, as caminhadas, os bares e os encontros, toda a diversão passou a ser mediada pelas telas, por alguma espécie de consumo e também por um cansaço sem nome que vem da desolação coletiva que vivemos como brasileiros.

Por isso, na última newsletter do apoia.se, falei sobre ser impossível acompanhar tudo, sobre como nosso entretenimento tem sido reduzido, cada dia mais, a quantidade de coisas que a gente consegue ver/ler/ouvir em velocidade recorde, sobre eu não querer alimentar essa dinâmica que é causa e consequência da ansiedade que minha geração convencionou chamar de fear of missing out (FOMO).

Estamos exaustos e exaustos achamos que descansamos buscando mais exaustão, correndo ofegantes atrás da ilusão de um respiro, um tempo pra nós e de um desligamento momentâneo da noção de onde estamos.

Tenho tido muita dificuldade de me encontrar em meio a tudo isso e, principalmente, criar qualquer coisa. E, apesar da minha mente sempre acelerada, nesse meio tempo tenho sentido a necessidade de tentar cultivar o valor de fazer as coisas devagar, tentando descobrir o que é ágil em mim porque sim e o que foi ficando desse jeito porque o mundo assim impôs.

Quem sabe construindo um novo jeito de funcionar, encontrarei de novo a fluidez criativa que sempre me comoveu. Quem sabe tentando fazer diferente e enfrentando a inércia dos hábitos, vou esbarrar de novo com a vontade que nos leva ao movimento. Talvez essa seja a única esperança que eu sou capaz de cultivar nesses dias de tanta indignação. Todo resto, infelizmente, parece uma utopia que eu desaprendi a imaginar.

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Relendo “Como se fosse a casa” durante a pandemia

Se nas minhas leituras pré-pandemia, meu foco ao ler “Como se fosse a casa (uma correspondência)”, livro de Ana Martins Marques e Eduardo Jorge, era a dicotomia entre interior e exterior, a casa e a Europa, a gente e o Outro, o estar e o estar em trânsito, agora tudo mudou: a casa, a ideia de lar, o que significa morar, alugar um espaço, viver nele, numa cidade, num país.

A casa preenche meu olhar de forma quase completa, todo o mundo exterior, trazido pelos poemas do Eduardo Jorge, parecem agora uma miragem, um desejo, quase uma utopia. O mundo exterior me atravessa pela imaginação, aparece enevoado, evocando a saudade do que conheci e da possibilidade de conhecer, circular, pisar, estar de uma maneira diferente do estar entre quatro paredes, enquanto a casa se apresenta cada vez mais concreta mesmo nas suas abstrações.

Estar fora parece diferente, assim como estar dentro. Vem a ideia de casulo, de proteção, de conforto, mas também vem a angústia de nunca mais poder sair ou receber pessoas sem temer. Vem então a vontade de liberdade, mas também o medo de contaminação e uma dolorida noção de risco e culpa e de exceção.

Nos dois lugares, antes tão complementares e agora colocados como partes opostas de uma vida, há luto. Parece que nunca mais estar dentro ou fora será o mesmo.

Que saudade de ler esse livro como eu lia antes!

Esse texto foi escrito para o especial #domingodabanalidade, que faço quinzenalmente no Instagram para falar sobre livros-conforto ou algo próximo disso, mas não saiu tão banal como eu queria. A leitura de um livro, mesmo aqueles antes confortáveis, pode mudar dependendo do contexto. “Como se fosse a casa” dessa vez me fez pensar na saudade do entrelaçar dos verbos estar, morar e pertencer com as travessias, as mudanças de paisagens, a vida na cidade, no desejo de que minha casa e tudo que ela evoca volte a ser apenas uma parte muito importante da minha vida, mas não quase tudo.

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Dia Mundial do Livro: uma declaração de amor e de luta

Vale a pena a gente parar para pensar no quanto a leitura é uma atividade diversa: um livro pode ser prazeroso, apaixonante, tenso, triste, fofo, sensível, boa companhia, contemplativo, incômodo, chato, bonito, longo, curto, ilustrado, cheio de fotografias, em áudio, lido em voz alta, escrito em braile, complicado demais, divertido, de consulta, difícil, informativo, fluido, lento, imersivo, artesanal, independente, digital, fraco, cheio de plot twists, fonte de conhecimento científico e também de sentimentos, impressões e reflexões.

A gente lê por muitos motivos, mas não dá pra negar que o maior atrativo de qualquer leitura é a possibilidade de criar alguma coisa aqui dentro.

Nas palavras e nas imagens alheias, a gente encontra somente uma parte de todo um universo que um livro pode oferecer. A outra está dentro de nós e a aventura de qualquer livro está em descobrir isso e sair conectando histórias, informações, interpretações e imaginação com o mundo de referências, memórias e vivências que nos compõem.

Lemos buscando esse movimento e assim vamos descobrindo quem somos, onde estamos, que mundo é esse e também o Outro e todo o universo que a descoberta da alteridade pode oferecer.

Por essas e outras, surge a necessidade de falarmos sempre em promoção da bibliodiversidade e combater tudo que busca restringir nosso acesso. O que significa nesse momento um foda-se para Paulo Guedes, um outro foda-se para Bolsonaro e mais um foda-se para todas as políticas e pessoas que atacam o livro, a cultura, a educação e a pesquisa!

Feliz dia mundial do livro!

Leia também: #EmDefesaDoLivro: discutindo a tributação proposta pelo Guedes

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(Observação: texto originalmente publicado nas minhas redes sociais).

Parece uma conversa, só que isso aqui é mais pretensioso


— Depois temos que fazer a sua entrevista. Eu tive uma ideia ótima. Eu abro um documento no drive, falo umas coisas, faço uma pergunta ou uma afirmação e você vai e comenta ou responde.

— achei vanguarda, fluido, arrojado, os artistas mais engajados na cena certamente devem ter um nome pra isso.

— Parece uma conversa, só que vai ser mais pretensioso. Inclusive acho que podemos começar com isso aqui.

— devia se chamar assim: “parece uma conversa, só que é mais pretensioso”.

*editando o nome do documento no drive*
*salvando…

*alterações salvas no drive

— Ninguém morre sem ser anunciado. Esse é um bom título, viu? Você se considera uma boa criadora de títulos? Você criou esse antes de iniciar a escrita do seu primeiro livro ou foi algo que surgiu durante ou mesmo depois?

— É uma pergunta difícil (quando me perguntam alguma coisa, meu cérebro trava. perguntas são difíceis). mas a ideia veio de um esquete do programa “tv pirata”, que era mais ou menos assim: umas pessoas sentadas em uma mesa jogando pôquer, e, não sei por que, eles começam a impedir as pessoas de sair da mesa. passam dias lá. quando alguém esboça alguma vontade de sair, eles gritam “ninguém sai, ninguém sai!”. eu encaro a vida um pouco assim, não quero perder ninguém, então baixinho, sempre estou dizendo “ninguém morre. ninguém morre!” a parte do “sem ser anunciado” é porque a morte também tem essa face “apoética”, vamos inventar essa palavra. esse lado burocrático. me lembra um funcionário público desmotivado que colocou um cartaz passivo-agressivo no seu guichê escrito “ESPERE SER ANUNCIADO”. a ideia do livro é ficar meio que transitando por esses dois lugares horríveis.

— Então o título é o resultado da mistura de algo extremamente emocional, sensível e complexo, como a morte e todas nossas relações, com uma planilha do Excel? Se a morte fosse mais burocrática, ela seria mais simples ou mais complicada? Eu voto em complicada, porque eu estudei Direito na faculdade e depois dividi parede com uma advogada de direito de família e sucessões e simplesmente sei que testamento, herança, pensão por morte e todo o resto da nossa vida civil só dá problema. Já que estamos falando de Direito, queria saber se você não teme ser processada por algum síndico que ler seu livro. A Ceci comenta algumas particularidades do exercício dessa profissão ou do perfil desses profissionais com uma certa crueza.

— sim! ter que “dar baixa” do seu familiar no sistema é melancólico. e solitário, já que acaba sobrando sempre para uma pessoa só. no tocante ao síndico, tive uma experiência de quase-morte na mão de um síndico uma vez, e acho que isso acabou me marcando negativamente: na faculdade, dividia apartamento com mais três meninas em bauru e, uma noite, acordei meio zonza, com um barulho esquisito vindo da cozinha. um cheiro esquisito. já antevendo a desgraça, fui, guiada pela luzinha do celular até o fogão e vi que estava JORRANDO GÁS pela mangueira, que tinha se desconectado. descemos até a portaria correndo, o porteiro disse que não podia sair de lá e chamou o síndico. no apartamento, a primeira coisa que o síndico fez foi LIGAR UM VENTILADOR NA COZINHA, “para passar esse cheiro ruim”. eu falei “mas meu senhor, se a tomada produzisse uma faísca, ia tudo pelos ares.”, ele me olhou como se as leis físico-químicas que regem o universo simplesmente não se aplicassem naquele espaço. eu não sei quantas pessoas um síndico é capaz de matar por ano, mas suspeito que esse número não seja muito baixo, não. algum síndico já tentou te matar, thaís?

— que eu saiba não. Minha experiência com síndicos são parcas. Vivi quase a vida toda em casa. Todo o risco residencial que já corri foi por culpa exclusiva minha ou da minha família mesmo. Apesar disso, eu não posso afirmar que nunca rolou nada, porque já morei em um prédio enorme em que aconteceu uma eleição de síndico que foi muito intensa. Todo dia amanhecia com um bilhetinho debaixo da porta sobre os riscos de votar no outro candidato. Meu voto era disputado. Eu devia ser um desses indecisos, alvo de campanhas vira-voto, sabe? Eu sequer sei se eram os candidatos que diretamente passavam essas mensagens para mim por debaixo da porta ou se eram seus cabos eleitorais. Eu só sei que eventualmente avisei na portaria que eu não ia votar, porque na data não estaria na cidade. Se esse texto fosse uma autoficção, eu falaria que nessa mesma semana o elevador enguiçou comigo dentro. Na verdade, até onde sei, nada aconteceu, mas como disputaram tanto meu voto e usaram muita tinta de suas impressoras, eu sinceramente não duvido que a decepção deles com a minha ausência pode ter encadeado alguma tentativa de assassinato que não deu certo e eu nem fiquei sabendo. Disputas eleitorais, né? Eu tinha uma pergunta para você, mas eu confesso que agora me perdi. Deve ser por isso que falam que o entrevistado não pode fazer perguntas, né? O entrevistador não consegue estar em dois lugares ao mesmo tempo em um mesmo texto. Vamos falar de texto então, né? Como você escreve? Você tem alguma rotina de escrita?

— Essa história é muito boa (aqui pensando que eu devia ter coletado dos amigos experiências esquisitas com síndicos, pra aproveitar no livro. mas agora ceci é morta [não sei se isso se classifica como um spoiler]). sobre minha rotina de escrita: eu não tenho nada vagamente parecido com isso. escrevo no tempo livre, e não é todo dia que tenho tempo livre. às vezes tenho tempo livre, mas não tenho vontade de escrever. a única coisa que faço diariamente é anotar alguns trechos soltos de diálogos que tenho com as pessoas, ou que ouço de terceiros. anoto também algumas ideias, frases avulsas, que servem de inspiração quando sento pra escrever. vou lendo essas coisas que anotei, e de repente uma ou duas frases despertam alguma ideia, aí escrevo o texto. funcionaria melhor se eu não fosse tão desorganizada. essas anotações estão espalhadas entre vários rascunhos do medium, um arquivo do google docs e um grupo do whats que eu tenho comigo mesma (jogo algumas ideias ali quando estou fora de casa, ou simplesmente com preguiça de ir até o notebook anotar).

— Eu tenho um texto que agora me parece ótimo, já escrito, prontinho para ser publicado, seja em livro ou no Medium, inspirado livremente em uma vizinha que tive nesse prédio. Também tenho uma narrativa de tamanho indefinido já começada, mas muito pouco desenvolvida, em que uma das personagens principais surgiu a partir da observação lúdica da porteira diurna das terças, quintas e sábados. Acho que eu deveria juntar tudo, desenvolver o que falta e publicar um livro chamado “Condomínio Alguma Coisa”, sendo o alguma coisa apenas uma expressão para me lembrar que seria legal especificar sem falar o nome real do prédio que morei e assim evitar conflitos. O que você acha, Paula? Desculpe te usar como consultora de projetos, mas é tão difícil escrever sem alguém para afirmar o que a gente quer ouvir. Acho que posso abusar um pouquinho da minha posição de entrevistadora já que dividimos esse desejo por escrever livros e você mesma elogiou minha história. Enfim, vejo que você tem um interesse genuíno em diálogos. O que você acha que faz com que conversas te atraiam tanto? O que elas têm de tão especial ao ponto de serem uma grande fonte de ideias pra você? Você gosta mais de captar conversas de ônibus ou de mesa de bar? Como você está fazendo para escrever durante o isolamento social já que ele reduziu tanto a possibilidade de se ouvir conversas alheias de desconhecidos?

— Eu acho que você deveria pegar firme nessas histórias, terminar e publicar. porque (1) são boas, (2) já estão mais ou menos prontas e (3) eu fiquei com vontade de ler. eu não sei porque eu gosto tanto de diálogos. meus processos criativos não estão claros pra mim. nada que produzo é muito consciente. mas se tivesse que elaborar uma resposta mais aceitável, diria que o que mais gosto dos diálogos é o ruído. as falhas de comunicação. o falar uma coisa e o outro entender outra. vejo menos como um encontro de ideias e mais como um choque, uma colisão, um esbarrão. eu prefiro conversas de ônibus. conversas de bar, pra mim, se esgotam nelas mesmas. não acho que dão bons materiais. está realmente mais difícil buscar inspiração durante a pandemia, já que ando tendo pouquíssimo contato com outras pessoas. mas por sorte tenho uma vizinha que fala alto, com a família e no telefone. anoto quase tudo que ela fala.

— Com sua aprovação, me animo. Considero que o primeiro passo do projeto foi dado: a ideia foi falada para alguém, tomando forma o suficiente para puxar meu pé de noite e não me deixar mais dormir. O processo criativo é um negócio engraçado, né? A gente fica tentando racionalizar, mas ele simplesmente acontece. Não tem tanta lógica quanto a gente quer acreditar que tem, né? Queria saber algumas coisas: 1) você se sente uma espécie de antena por gostar tanto de conversa alheia? 2) o que você faz quando algum conhecido, falando diretamente com você, fala algo que cairia perfeitamente em um texto? O que ele fala vira matéria-prima? Você vai e transforma a fala dele em um personagem de um romance? Como você criou os personagens do “Ninguém morre sem ser anunciado”? Por que você é Ceci no Medium e não simplesmente Paula? Estar ali com um outro nome que também é personagem é uma espécie de performance que brinca com a tal da autoficção? (CARAI OSTENTEI DEMAIS NESSA PERGUNTA QUASE ME SENTI CULTA)

— Eu só sei que tenho sorte de morar no brasil gostando tanto de ouvir a conversa dos outros.aqui as pessoas falam muito alto e são muito didáticas e ricas em detalhes quando contam histórias. facilita meu trabalho. quanto a usar parentes e amigos como fontes de inspiração, pratico muito.me aproprio de histórias, frases, traços de personalidades deles. uso muita coisa minha também, mas, para evitar o “climão” de alguém se reconhecer ali, não gostar e vir tirar satisfação comigo, eu uso tudo misturado. nenhum personagem que faço é baseado 100% em uma pessoa só, tem um pouco de uma tia, um pouco de um amigo, um pouco de mim mesma. a questão do meu perfil do medium ser “Ceci” e não “Paula” é porque no começo, quando fiz o perfil, a minha ideia era outra. era fazer uma longa história, composta por episódios, envolvendo a personagem Ceci, uma escritora. pensando agora, essa ideia talvez pudesse ser chamada de autoficção, sim. a questão toda é que eu escrevi uns 3 textos nesse formato, depois desencanei e comecei a escrever sobre qualquer coisa. o nome “Ceci” acabou ficando lá por preguiça de mudar e também porque me parecia uma boa manter certo nível anonimato, já que acabava me expondo muito nos textos. isso era uma preocupação no começo. depois acabei desencanando do anonimato também, então o Ceci só se mantém lá até hoje por pura preguiça de mudar mesmo.

— Eu acho esse negócio de pseudônimo chique demais. Mesmo se não for secreto. Também gosto de nome artístico diferente do nome original. Acho elegante, sabe? Tem um certo desprendimento com a própria identidade. Acho bonito isso, humilde talvez. Me conta aqui, como você se apresenta para as pessoas? Você fala que é escritora? Acabou que a entrevista não teve apresentação e seria bom ter, né? Vou usar essa pergunta para fazer o famoso “seu nome, seu bairro” só que mais completo, porque todo escritor precisa falar muito de si mesmo, mesmo que seja só por meio do seu trabalho. Faz parte da profissão. O leitor espera isso, entende? (Não esquece de falar suas referências na hora de falar bastante de você).

— rindo sozinha aqui com o “seu nome, seu bairro” que me lembrou o vídeo do “passa longe” da xuxa (até abri aqui no youtube pra ver de novo. NÃO PERDE A GRAÇA, é impressionante). eu não me apresento como escritora porque ainda sou muito insegura com a minha escrita (digo “ainda” como se isso fosse mudar um dia, bem iludida). sou mais segura em minhas outras ocupações: doutora/pesquisadora/professora de cinema e tenho uma empresa de foto e vídeo de eventos. mas sou a favor das mulheres reivindicarem mais a definição de escritora. se você for olhar os “about me” aqui do medium, a maioria dos perfis dos homens tem a palavra “escritor”, junto com mil outras coisas. “pintor, pesquisador, cineasta, fotógrafo etc.” as descrições dos perfis femininos são bem mais hesitantes, inseguras. evitam afirmar que são profissionais e artistas, e que fazem essas coisas muito bem. sobre as referências, vou citar algumas mulheres na ordem que elas forem surgindo na cabeça: Ottessa Moshfegh, Giovana Madalosso, Conceição Evaristo, Patricia Melo, Ali Smith, Chimamanda Ngozi Adichie. Quais escritoras aparecem rapidamente na sua cabeça, assim, sem muita análise e ordem específica?

— Você me pegou. Eu não sei listar nada. Eu fico muito nervosa. Sério. Dá branco. Eu não consigo lembrar de nada que eu li e gostei na vida. Acho que eu falaria Angélica Freitas, Wislawa Szymborska, Conceição Evaristo, Caitlin Doughty, Ana Martins Marques,Natália Borges Polesso, Elena Ferrante, Jarid Arraes, Ana Paula Maia, Mariana Salomão Carrara, Olivia Laing, Vivian Gornick, Paloma Vidal, Verena Cavalcante, Ana Cristina César, Chimamanda Ngozi Adichie e Patrícia Melo também, mas da última só li “O matador”. Nessa linha de só li um livro da autora, mas elas tomaram meu cérebro de mim, eu colocaria a Jenny Zhang, a Celeste Ng, a Ana Maria Gonçalves, a Ruth Guimarães e a Nicole Dennis-Benn. Não sei se posso listá-las então. Eu acho que o fenômeno de ter medo de se definir como escritora me atinge até na hora de me apresentar como leitora. É esquisito. Como costumo encontrar coisas boas e interessantes em toda leitura que faço, eu duvido do meu senso crítico o tempo todo.

Eu imaginei que após a publicação de um livro, a gente começasse a se definir como escritora com mais facilidade. Pelo jeito não. Como você comentou sobre sua pesquisa e trabalho em cinema, queria te perguntar se você já trabalhou com roteiro. Se sim, como foi? Quais as principais diferenças entre criar um roteiro e criar um livro?

— Fiz roteiro na faculdade e agora faço esporadicamente, para alguns projetos pessoais. o roteiro, diferentemente do livro, é um documento efêmero, transitório. o objetivo dele é virar filme. por ser um documento que precisa ser facilmente assimilado por toda a equipe de produção, ele tem formato e estilo próprios. é dividido por unidades espaço-temporais (as cenas) e tem um jeito certo de escrever (frases no presente, a descrição das ações tem que se ater ao campo do visível, ou seja, o que está sendo visto pelo espectador, não tem descrição de estados mentais/emocionais das personagens, etc.), isso porque a história é do roteirista, mas o estilo quem dá é o diretor. já no livro o escritor tem o controle de tudo. outra grande diferença é que no roteiro a liberdade criativa fica um pouco restrita ao orçamento do filme, que, em geral, no brasil, é baixo. de repente você colocou uma cena de helicóptero no roteiro, a produção não conseguiu captar recursos pra alugar um helicóptero e te pede pra adaptar a cena, trocando o helicóptero por um carro ou uma moto. eu não se foi um bom exemplo, mas acho que deu pra entender?

— Deu pra entender, mas eu demorei quase duas semanas para processar. Eu tenho medo de falar de filme, porque tudo parece muito complexo e eu vejo poucos e nem como amadora posso comentar grandes coisas. Fora que eu acho que eu idealizava o roteiro. Eu acho bonito falar em cenas. Adoro captar cenas em textos literários, pegar uma no meio de uma poesia, falar em literatura cinematográfica. Me tira uma dúvida: o roteiro então pensa nas cenas do filme, mas isso é feito de uma maneira mais prática do que estética? A estética da coisa então fica mais nas mãos da direção e outros profissionais do cinema que eu não saberei nomear porque eu não sou muito esperta?

— que doidera esse papo. amo. literatura cinematográfica é algo que nunca tinha pensado, mas acho possível, do mesmo modo que vejo fotos de alguns animais que parecem misturas de duas espécies improváveis, e penso “pode ser montagem, pode ser verdade”. a questão toda é o que seria esse elemento “cinematográfico” do texto literário. a descrição de cenas por si só não seria, já que é própria da literatura, mas penso que determinados tipos de cenas e a forma como elas são descritas no texto possam incitar o leitor a imaginá-las como cenas de um filme. é algo que nunca tinha pensado. em ninguém morre sem ser anunciado eu tentei estruturar os capítulos como se fossem pequenas cenas de um filme, com grandes elipses espaço-temporais entre elas, que não são explicadas ou resolvidas. pensando agora, acho que foi um jeito que meu cérebro encontrou de conciliar essas duas linguagens, a cinematográfica, que é minha área de pesquisa, a e literária, que pratico no tempo livre. mas sobre a possibilidade de existir um estilo de escrita cinematográfico, é algo que nunca tinha pensado e agora não vou conseguir parar de pensar.

mas sobre o roteiro ser mais prático do que estético: é bem por aí mesmo. as preocupações maiores do roteiro são a história, a estrutura dessa história (enredo) e os diálogos. essa história só começa a ganhar “uma cara” quando o diretor e o diretor de fotografia cortam as cenas em planos (o que chamamos de decupar o roteiro), a direção de arte cria os cenários, figurinos, etc. e os atores estudam como vão interpretar os personagens.

— Um livro que me veio na cabeça quando falei isso foi o “Karen” da Ana Teresa Pereira. Posso estar enganada na minha avaliação de pessoa que vê pouquíssimos filmes, mas tem uma coisa de filme de suspense nesse livro que é diferente de simplesmente literatura de suspense. Não sei explicar. Falando nisso, o que você faz quando você não sabe explicar alguma coisa num texto? E como você sabe que chegou a hora de acabar um texto ou mesmo uma entrevista? Estou meio perdida aqui, mas me parece que sete páginas de entrevista faria qualquer editor me matar, né?

— tem horas que simplesmente jogo a toalha. coloco na boca do personagem ou do narrador “não sei explicar” e sigo em frente, torcendo para ser entendido como um recurso estilístico pós-moderno e metalinguístico que assume a impossibilidade de elaborar sobre certas coisas, temendo ser entendido como incapacidade da autora de elaborar sobre certas coisas.

sobre a hora de acabar um texto, meu método: vou escrevendo até sair uma frase da qual gosto muito. fico com a sensação de que dificilmente vai aparecer outra frase tão boa quanto. respeitando o princípio da precaução, decido parar. com entrevistas, já não sei. acho que começar uma entrevista é assumir o risco de ela durar indefinidamente. mas como isso não é bem uma entrevista, e mais uma conversa, acho que podemos interrompê-la bruscamente com um “deixa eu ir que tenho que fazer o almoço ainda” ou então “amiga, o moço do delivery tá me ligando, deve tá perdido, vou desligar aqui pra atend””.

— Ah, sim. Entendi. Eu gosto da estratégia de boas frases para terminar com tudo. Na vida a gente termina tudo com “hmmmmm”, “né” e “ééééé”, então é sempre bom ter alguma novidade.

Como é bom conversar com você, Paula! A gente tem que fazer isso mais vezes, né? E marcar alguma coisa depois que a pandemia passar! Até porque nem combinar um encontro mascarado numa praça quando as coisas começarem a melhorar de novo vai dar já no nosso caso envolve ter que viajar e tudo. Ai, ai, já comecei a imaginar um Diário de Bordo nosso. Se essa conversa já quase rendeu um livro, imagina um Diário de Bordo? Depois a gente conversa mais… Eu preciso ir… Tem panela de pressão no fogão e eu não quero me atrasar mais e correr o risco de explodir minha cozinha. É, eu sei, são 09:08 da manhã, parece uma desculpa, mas eu juro que não é.

— Eu gostei muito de conversar aqui pelo google docs porque foi muito diferente das conversas simultâneas que estamos tendo no instagram e no whatsapp e me entristece um pouco pensar que a partir de agora só estaremos conversando em dois canais de comunicação, não mais em três…vou abrir um outro docs com o título “diário de bordo” para a gente, já compartilho com você!


Paula Gomes também é Ceci, pelo menos no Medium. Eu sou só Thaís mesmo, pelo menos até onde posso revelar para vocês. Compre o “Ninguém morre sem ser anunciado” aqui. E, se você tiver com um bom humor daqueles, aproveite para adquirir o ebook do meu conto “Maria Eduarda não precisa de uma tábua ouija”. Os dois ebooks estão disponíveis gratuitamente para todos que assinam o Kindle Unlimited.