Notas sobre as cidades que afundam em dias normais

Acervo Pessoal – Imagem postada também no meu Instagram
O encontro

Cidades afundam em dias normais, o mais novo romance da escritora, podcaster e ilustradora Aline Valek, foi tema de um encontro especial, com participação da autora e tudo, no meu clube de leituras, o Clube Cidade Solitária.

Durante o papo, fomos 18 pessoas no total, todas bem empolgadas para compartilhar e ouvir as relações e análises que outros leitores com repertórios tão diferentes. Cada comentário puxando o outro, ampliando a leitura de cada um, num movimento que incluiu a própria Aline, que trouxe para gente muitas informações sobre seu processo criativo no todo e também o envolvido diretamente na construção dessa história.

Em certo momento, a escritora compartilhou que esse livro começou a nascer a partir de uma caixa de fotos de pessoas desconhecidas que ela teve acesso. Vendo aquelas imagens sem sequência e sem demais informações, a ideia surgiu.

A narração desse processo me lembrou a descoberta do trabalho da fotógrafa Vivian Maier. Segundo o documentário Finding Vivian Maier, uma caixa de fotos de trabalhos dela foi arrematada por um caçador de tesouros em um leilão. Ao abrir a caixa e observar as imagens, ele suspeitou que aquelas fotos eram mais interessantes do que pareciam e, a partir desse momento, essa fotógrafa que passou a vida na invisibilidade do trabalho de babá começou a ser descoberta.

Esse filme se esforça para tentar contar a história da fotógrafa a partir do que foi sendo garimpado depois de sua morte. Além das caixas com suas fotos e demais pertences, o que restou de Vivian mora na memória de seus antigos e diversos patrões. O trabalho dos que hoje tentam lucrar a partir dessa fotógrafa muito talentosa é um pouco semelhante ao que tentamos fazer ao ler o livro da Aline, ainda que as fotografias presentes em suas páginas não sejam, digamos, visuais.

A dúvida

Como funciona a memória? A minha, a sua e também a nossa. Como se define o que vamos lembrar e o que vai desaparecer nesse lamaçal de rostos, causos, banalidades, violências e urgências cada vez mais frequentes, talvez frequentes demais para continuar a caber nessa palavra? Como a forma que lembramos afeta como vamos ver aquilo tudo agora e no futuro? Como lembrar e esquecer podem se relacionar tanto com buscar e perder? E quão grande pode ser o abismo entre lembrar e contar o que se lembrou?

Como uma cidade se forma, permanece e afunda? Como uma cidade é lembrada? Como uma cidade atravessa o tempo? E a vida de cada um? Como cada pessoa surge, permanece e desaparece? Como se conta a história de um povo?

Somos o que lembramos? E onde anda a verdade se cada um tem a sua?

Como se dá o processo da memória? E das relações? E da criação? A criação surge a partir da vontade de se expressar? De contar a nossa própria história? De elaborar o que se passou? De ser lembrado e de lembrar? De não deixar desaparecer alguma coisa? De não se deixar desaparecer e nem os seus? Como organizar lembranças pode parecer tanto um processo de colagem? Como cada cena pode parecer tanto uma fotografia? Como falar de tempo, processos, escola e adolescência pode nos fazer pensar tanto no Brasil?

O processo

Pensar na adolescência envolve encarar quem somos hoje e como nos tornamos essa pessoa. Pensar em tempo é se ver exposto às contradições do registro e do esquecimento. Pensar na dúvida é perceber que na maioria das vezes descobrir novas indagações é mais interessante ou, no mínimo, mais realista que qualquer resposta que podemos encontrar. Ler esse livro é pensar nesse misterioso processo que mescla o desejo de narrar, de fugir e de ficar.

Os dias normais

As histórias de Kênia, Tainara, Érica, Tiago, Rebeca e outros antigos moradores de Alto do Oeste são relatos individuais de uma cidade alagada em um processo lento e contínuo de abandono. O fim do mundo de cada um desses personagens — e o retorno curioso dessa terra tantos anos depois — foi somente mais uma manchete curiosa para o resto do país. Enquanto a cidade afundava, cada um fazia o que podia para não afundar junto, enquanto tentavam seguir suas vidinhas como antes. Ninguém de fora, estado ou não, deu as caras nesse processo que, de certa forma, foi sendo ignorado no dia a dia por todos que ali viviam. A tragédia virou costume, como de fato acontece no Brasil. A tragédia virou fonte de cliques e lucro, como também acontece todo dia.

Cidades afundam em dias normais, além de abordar temas como memória, amizade, adolescência, vida no interior e fotografia e outros processos, artísticos ou não, fala também sobre desalento, declínio e desesperança em um sentido coletivo. O que nos faz pensar também na chegada e permanência do fascismo, e é possível dizer que não deve haver nada mais brasileiro que esses sentimentos nesse momento.

Aline Valek escreveu uma obra que dialoga com nossas urgências e medos e a experiência de leitura dessa história nos ajuda a elaborar a prática de se viver em meio aos diversos fins do mundo que nos cercam. A gente busca respostas imediatas o tempo todo, mas talvez precisemos, primeiramente, entender de onde partimos. A professora Érica concordaria com isso, porque sabe que as memórias pertencem ao futuro. Só se conta histórias para frente”.

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Leia também: “Buscando Vivian Maier”

Metamorfoseando versão capitalismo tardio

Nhami

Quando hoje de manhã Franz Kafka acordou de sonhos intranquilos típicos do post-mortem, encontrou-se metamorfoseado em uma generosa kafta de carne de boi recheada com queijo coalho.

Segundo o app do Ifood, em cerca de 20 minutos ele ficará pronto para ser enviado via delivery para alguém que gosta de comida árabe e é um early almocer.

Franz Kafka, agora só Kafta, vai acompanhar um prato com arroz com lentilha e cebola, patê de grão de bico e um pouco de tabule. Com os neurônios já bem moídos, ele só espera que seja rápido e que renda uma nota 5 para o restaurante. Talvez também para o entregador, se na corrida ele não acabar se misturando com os demais componentes do prato.

Ao ser embalado junto aos outros itens no marmitex, ele cogita que é bom pensar na possibilidade de ser digerido por alguém lendo “O processo”.

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Donna Polla

O comício – Benedito José de Andrade

Quando comecei a fazer as primeiras lições de italiano no Duolingo, eu não conseguia parar de pensar na minha Tia P.*. Era inevitável. Se aprendia que rato era topo, esperava que na lição seguinte o Duolingo me apresentasse o famigerado pollo e todas as melhores maneiras de pedi-lo. Nessa brincadeira, minha cabeça virou um verdadeiro galinheiro de memórias plumadas da viagem que eu fiz com ela pra Itália.

A viagem foi em família. Com justificativa de saudade, mas motivação de turismo. Um desses passeios que acabam envolvendo vários núcleos parentais e até mesmo amigos de longa data da família principal. Tinha mais gente querendo ir do que gente podendo pagar e, no fim das contas, formou-se um grupo com dois casais, sendo um deles meus pais, um tio avulso, uma amiga da família também avulsa e eu, todos indo ao encontro do meu irmão.

Piadas sobre família Buscapé à parte, a viagem fluiu muito bem e encheu os olhos, o coração e a pança de todos os envolvidos. Ou melhor, quase todos. Não sei se a Tia P. diria que ficou tão satisfeita assim em um desses quesitos.

Foi durante esses dias que descobri que minha Tia P. é uma pessoa obcecada por frango. Durante os preparativos do passeio, eu pensei que, ao menos em relação a ela, o único grande desafio de convivência seria o fato dela gostar demais de rezar, ser católica fervorosa, nos obrigar a ir ver o Santo Sudário e querer entrar em todas as igrejas e lojas, essas não necessariamente religiosas, que a gente encontrasse no caminho. Coisa que de fato ela meio que fez, com apoio da minha mãe e tudo, mas, já em Roma, a gente descobriu que se tem uma coisa que Tia P. gosta mais do que de Deus, essa coisa é frango. 

“Pizza de frango é uma coisa muito brasileira. Ainda mais se tiver catupiry envolvido”, meu irmão argumentava sem sucesso. Ela insistia. Ele cedia. O que significava que ele, o único falante de italiano, acabava tendo que tentar conversar com garçons e até cozinheiros sobre a possibilidade de fazer uma pizza ou qualquer outra coisa com frango pra ela. Tia P., para garantir que sua mensagem chegaria ao destinatário, sempre ia junto dele e ficava ao lado falando em português o que ela queria, atrapalhando aquele diálogo, que já não ia ser fácil, dizendo vez ou outra  “pollo” com pronúncia espanhola, idioma que ela também não conhecia. 

O pedido era visto como absurdo. Mais até que catchup sendo colocado numa legítima pizza paulistana da Mooca. A maioria dos garçons entendia que ela queria que eles colocassem um peito ou coxa de frango em cima da pizza. E, eu juro, isso não era um problema no italiano do meu irmão que, apesar das dificuldades, cursava engenharia no idioma graças ao Ciências Sem Fronteiras. Era um problema de má vontade de todos os seres humanos do mundo com ela, a “Donna Polla”. Meu irmão, eu, os garçons, os cozinheiros, a guia, meus pais, meu padrinho, a amiga da minha mãe que é quase uma tia pra mim e, arrisco dizer, até o meu tio, marido de Tia P., todos ficavam contra ela assim que ela abria um cardápio. 

No dia que comi a melhor lasanha da minha vida, Tia P. enfim encontrou seu “pollo” em um restaurante e, sorridente como nunca, pediu. O restaurante trabalhava com um cardápio fixo para a semana: entrada, prato principal e sobremesa já definidos e numa leva só. Algo como um pacote promocional de groupon ou peixe urbano, mas sem a compra antecipada. Frango com aspargos era o prato principal, mas antes dele, na entrada, havia uma lasanha. A mais saborosa lasanha que já existiu. E que Tia P. perdeu. Ela, ao se deparar com aquele enorme prato de massa como suposta entrada, não quis nem tocar na comida. A família toda insistiu para ela experimentar, mas não adiantou. O que interessava era o frango com aspargos e não valia a pena encher a pança de lasanha pra depois custar a comer o que, segundo ela, era refeição de verdade. O pedaço de lasanha dela foi dividido em partes iguais com o restante da mesa que fingia não estar achando ótimo a chance de comer mais um pedaço daquela maravilha. 

Quando o prato principal chegou, encontramos no lugar de uma bela refeição pedaços de frango pálidos, oleosos, meio duros e sem qualquer cheiro de tempero. Mesmo assim ela não desanimou. Foi preciso que ela provasse, provasse mais uma vez pra tentar acreditar naquilo e provasse de novo para perceber que era a coisa mais insossa já cozinhada no planeta Terra. 

Todos comemos aspargos e batatas, esses extremamente saborosos e temperados, enquanto ela insistia em provar os frangos que alguns de nós não queríamos comer, achando que algum pedaço se salvaria milagrosamente daquele não sabor insuportável. No fim das contas e depois de muito insistir nos frangos horríveis, ela tomou a sábia decisão de usar os sachês de sal e azeite à disposição para melhorar aquilo que teria que ser a refeição dela naquele dia. 

Tia P., entretanto, não aprendeu a lição. Continuou o resto da viagem insistindo nisso, deixando todo mundo meio constrangido em muitos momentos, sem nunca desistir de seu sonho de provar um legítimo pollo italiano.

Voltamos para casa felizes, mas também secretamente putos, sem imaginar que Tia P. e seu insuportável desejo de comer frango em todas as refeições se tornaria uma das principais histórias desses quinze dias maravilhosos.

*nome suprimido por medo de processo.

Esse texto foi publicado originalmente na 11ª edição da minha newsletter “Sala de Espera”. Assine aqui para passar a receber meus escritos diretamente na sua caixa de entrada.

21 livros para ler em 2021

Ler para mim sempre foi um prazer e por muito tempo eu não tive o hábito de anotar e contabilizar o que eu lia, criar metas ou qualquer coisa do tipo. Meus hábitos de leitura sempre foram freestyle e eu gostava disso, mas a vida foi acontecendo, as redes sociais foram se firmando na minha vida como um meio de conexão e troca, e aos poucos fui sentindo a necessidade de anotar o que eu leio e, mais recentemente, o que compro ou ganho. O que não significa o fim do freestyle, que fique claro. Seguirei sendo aleatória, como sempre fui, lendo sem parar quando dá na telha, enquanto também passo duas semanas ou mais sem tocar num livro fazendo outras coisas, mas agora serei uma aleatória com um pouco mais de foco frente a minha estante. (Vocês não fazem ideia do quanto eu demoro para escolher uma leitura!)

Com a criação, organização e mediação do Clube Cidade Solitária junto a responsabilidade de guiar e mediar o Leia Mulheres Divinópolis, passei a sentir uma maior necessidade de planejamento de leituras, por motivos financeiros até. É importante priorizar os livros que já tenho em casa, né? Agora, pela primeira vez na vida, vou criar uma meta literária e, ainda por cima, vou fazer isso de maneira pública. Mas, já aviso, essa lista é mais sobre sugestões e prioridades de leitura do que qualquer coisa, viu? Não vou encará-la como uma obrigação ou qualquer coisa parecida, até porque os clubes que medio é que mandam em mim de verdade. É bem possível, inclusive, que vários listados aqui acabem ficando para o ano que vem e, se isso acontecer, tudo bem.

Bora pra lista?

1 – O diálogoLuizza Milczanowski

2 – Sabendo que és minhaFabrina Martinez

3 – Homens que nunca conheciMaíra Valério

4 – Por favor, cuide de mamãeShin Kyung-Sook

5 – Tornar-se palestinaLina Meruane

6 – Verdades além do túmuloCaitlin Doughty

7 – Relatos de um gato viajanteHiro Arikawa

8 – Flor de gumeMonique Malcher

9 – Flores para AlgernonDaniel Keyes

10 – A autobiografia da minha mãeJamaica Kincard

11 – Garota, mulher, outrasBernardine Evaristo

12 – De duas, umaDaniel Sada

13 – Pedro PáramoJuan Rulfo

14 – A FúriaSilvina Ocampo

15 – Quarenta diasMaria Valéria Rezende

16 – Cidadã de segunda classeBuchi Emecheta

17 – Água de BarrelaEliana Alves Cruz

18 – O alegre canto da perdizPaulina Chiziane

19 – Dicionário Agatha Christie de venenosKathryn Harkup

20 – Herdeiras do marMary Lynn Bracht

21 – Insubmissas lágrimas de mulheresConceição Evaristo

Não coloquei nessa lista nenhum dos livros previstos para o Clube Cidade Solitária, porque a prévia deles já foi listada no perfil do clubinho. Como imagino que muitos de vocês talvez queiram saber quais são eles, até para poder se programar para ler, deixarei o link para os dois posts que anunciam os spoilers de 2021 aqui e aqui. Os encontros do “Um defeito de cor” da Ana Maria Gonçalves” e do “Torto Arado” do Itamar Vieira Junior já tem datas marcadas, viu?

Observação: também deixei de fora dessa lista livros de poesia, porque prefiro lê-los bem livremente, sem obrigação inclusive de seguir a ordem dos poemas ou ter data pra terminar. Sei que quero ler pela primeira vez e/ou continuar lendo Wislawa Szymborska, Francisco Mallmann, Ana Elisa Ribeiro, Alejandra Pizarnik, Gabriela Mistral, Ana Martins Marques, Anna Clara de Vitto, Jarid Arraes, Pilar Bu, Cecília Pavon, Angélica Freitas, Emily Dickinson, Adélia Prado, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Primo Levi, Yasmin Nigri, Marília Garcia, Adília Lopes, Audre Lorde, Mel Duarte, Lubi Prates e Nina Rizzi.

Prêmio Thaís Campolina de Literatura de 2020

ou simplesmente Melhores Leituras de 2020

Eu não sei escolher preferidos, como eu já comentei numa crônica esquisita que postei por aqui e no Medium em algum momento no ano passado, mas eu resolvi tentar.

Nessa aventura de tentar encarar minhas leituras com um olhar avaliativo, deixei me iludir com a ideia de que a restrição temporal ajudaria. (Não ajudou.) Terminei a seleção com muito custo e uma lista com mais de 20 livros tendo lido 69 títulos e gostado muito de quase todas as leituras que fiz esse ano.*

Numa tentativa de preservar meus princípios, decidi que, em vez de tentar enxugar o gelo cortando obras que não quero cortar de jeito nenhum só pra caber em um número menos exagerado, eu simplesmente vou apresentar meus favoritos por categorias.

(Isso não significa que eu não tenha criado categorias específicas só pra poder colocar algum dos livros que eu queria indicar, mas não sabia como, porque a lista não podia aumentar ainda mais ou que nas categorias desse prêmio não cabem livros já citados em outras).

Bora pra lista?

Melhor livro de contos: Coração azedo – Jenny Zhang

Melhor conto avulso: A loteria – Shirley Jackson

Melhor livro de poesia: Para o meu coração num domingo – Wislawa Szymborska

Melhor best-seller: A Casa dos espíritos – Isabel Allende

Melhor clássico: Água Funda – Ruth Guimarães

Melhor livro feminista: Mulheres, raça e classe – Angela Davis

Melhor HQ: Fun home – Alison Bechdel

Melhor livro com animal antropomorfizado: O diário de Edward, o Hamster – Mirian e Ezra Elia

O mais fofo: Soppy – Philippa Rice

3 livros que não consegui parar de ler:

Solução de dois estados – Michel Laub

Pequenos incêndios em toda parte – Celeste Ng

Fique comigo – Ayòbámi Adébáyò

Li numa sentada e amei: Se deus me chamar não vou – Mariana Salomão Carrara

Li e depois emprestei pra todo mundo: Os sete maridos de Evelyn Hugo – Taylor Jenkins Reid

Melhor livro desconfortável: A vida mentirosa dos adultos – Elena Ferrante

Melhor livro de memórias: Afetos Ferozes – Vivian Gornick

Melhor livro de não ficção: A mulher de pés descalços – Scholastique Mukasonga

Melhor releitura: A Cidade Solitária – Olivia Laing

Melhor livro de ensaios: Falso Espelho – Jia Tolentino

Melhor surpresa: O amigo – Sigrid Nunez

Se chorei e se sofri, o que vale é a força do livro que li: Bem-vindos ao paraíso – Nicole Dennis-Benn

Melhor descoberta poética: Cecilia Pavón

Quero ler mais de: Patrícia Melo, autora do “O matador”, Eliane Alves Cruz, autora de “O Crime do Cais do Valongo”, e Dany Laferriere, autor do “País sem chapéu”

* A única leitura que eu realmente não gostei foi a que fiz do “Descobri que estava morto” do J. P. Cuenca. A premissa do livro é excelente, inclusive a maneira que ele aborda a cidade e o clima de investigação, mas a narração é tão machocentrada, chata e arrogante que não rolou. Não rolou mesmo. Ainda assim, vale o lembrete que o autor está sendo perseguido judicialmente por fanáticos religiosos por causa de um tweet de protesto e tem a minha solidariedade.

“Para diminuir a febre de sentir” e a vida como ela é


Conheci a Dalva em uma oficina de escrita no ateliê do Estratégias Narrativas. Era a minha primeira vez naquela salinha, depois de um longo período querendo retornar para a escrita. Não sabia onde colocar as mãos, os olhos e os cadernos, muito menos a vontade de ler, aprender e escrever. Nunca tinha feito uma oficina antes e tudo era uma grande novidade. Por isso, estava acompanhada de uma amiga, a Carol, que, se eu não me engano, é quem me apresentou a possibilidade desse escrever acompanhado e guiado que me enchia os olhos naquele momento. Era a primeira vez dela também, eu acho. Lembro que nenhuma de nós sabia o que fazer, mas a gente sabia que a gente precisava daquilo. Estávamos tão ansiosas que uma semana antes da oficina de fato começar, numa confusão de datas e disposição, acabamos no Maletta numa segunda às 19 horas. Naquele dia, celebramos o início do que ainda nem tinha sido iniciado com cerveja e batata-frita.

Todo debute é uma aventura. Por isso, narro o início de tudo, o que veio antes da leitura e da formação desse texto. Quando fui formular o desafio literário #LeiaComASubjetiva de 2020, listei “livro de estreia” como tema para o último bimestre. Dezembro pede novidades, é o mês que nos lembra do fim, logo do início e, muitas vezes, nos afasta do presente. Entre rituais conscientes e inconscientes, retrospectivas e desejos, o que acontece no aqui e agora é que parece enevoado. Essa é a hora certa de pensar em primeiras vezes. 

No último dia de um ano caótico, triste e destrutivo, li “Para diminuir a febre de sentir” da Dalva Maria Soares, minha ex-colega de oficina que estreou em formato de livro em 2020. A sensação foi de que ela e os personagens de suas crônicas estavam com suas mesas de café postas para receber mais um ano, mais uma pessoa, mais uma estreia. E, como bons mineiros, estavam muito bem preparados para ver chegar mais gente ainda para participar desse momento de troca, afeto e reflexão que só acontece mesmo em torno de uma refeição e da ideia de fim e começo. No meio de leitores e personagens, sentaram-se também as referências. Guimarães Rosa, Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus, Adélia Prado, Emily Dickinson, Criolo, Virginia Woolf, Gloria Anzaldúa e outros, todos em torno da mesa sendo observados também por Fridinha, Scooby e outros cães. Um amontoado de gente que sabe que a vida acontece também quando ninguém está olhando e vê beleza na pequenez da rotina e da história de cada um. Um amontoado de gente que eu passei a olhar diferente, ainda que já os conhecesse e até os acompanhasse, tudo porque a escrita da Dalva, essa que tive contato na oficina e depois acompanhei por anos pelo Facebook, é sempre uma conversa que vai e vem, encontra leitor, encontra memória e carrega junto um mucado dela, dos seus e da gente. 

Dalva é uma escritora que toca quem lê a partir de um relato de um cotidiano invisibilizado. Esse das mulheres simples, das pessoas exploradas, das mães e das filhas que se ligam por conhecer bem os fantasmas que assombram as outras. Esse que se apresenta todo costurado aos livros e autores que ajudaram a formar a autora, mas que não foram e nem nunca serão as únicas fontes de conhecimento dela. O entorno, os afetos e desafetos, a ancestralidade e as vivências, tudo isso também forma, como ela, a partir dessas 15 crônicas, mostra. 

“Para diminuir a febre de sentir” é um livro de bolso, desses bem curtinhos, e foi publicado de maneira independente pela Editora Popular Venas Abiertas. Ele mexe com a gente porque fala da vida como ela é, complexa, difícil e, apesar de tudo, com espaço reservado para o afeto, a cultura, a arte e a imaginação. Fome, violência e desigualdade são lembrados de forma crítica junto aos laços visíveis e invisíveis que impedem a completa desumanização. Dalva sabe muito bem compartilhar o indizível e o não quantificável, o que é, per si, uma forma de resistir. 

Agora entrego esse livro com carinho para a minha avó materna, que viveu por muito tempo bem pertinho de Baldim, o principal cenário dessas crônicas sobre a vida de Dalva. Antes de 2020 acabar, ela merece saber que histórias como as dela também podem estar num livro.


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Copies, dreams and enemies

Markus Spiske

Noite passada sonhei com toda espécie de doppelgänger. Vivi a versão comédia, a dramalhão e a de terror, essa inspirada no “Nós” do Jordan Peele, numa mesma bagunça onírica. E também a versão Divertidamente, que merece uma frase a parte, porque eu preciso explicar para o leitor que cada cópia costumava agir somente como cada copiado sentia ou nojo ou felicidade ou raiva ou tristeza, como se fôssemos unidimensionais assim.

Nesse mix de referências e gêneros, algo que se destacou foi a facilidade de ignorar as versões doppelgänger tristes. Elas ficavam só na delas e até cuidavam dos nossos bichos e coisas quando éramos enxotados de casa pelo nosso doppelgänger raivoso. Nunca causavam grandes problemas. A gente nem precisava enfrentá-las direito, parecia que as cópias tristes tinham ido tomar tudo da gente sem nem querer muito fazer isso. Era só oferecer um cobertozinho e um chocolate quente que ela desistia de nos fazer qualquer mal direto.

Encontrei a minha cópia triste pela primeira vez dias dias depois de expulsar a Nojinho descascando uma banana. (Sim, eu enfrentei um dos meus maiores medos pra conseguir expulsá-la da minha casa e funcionou!). A Thaís Triste estava deitada no corredor que liga a cozinha e o quarto. Meu primeiro instinto foi acolhê-la, conversar com ela, quase cheguei a abraçá-la, mas eu sabia que não dava para fazer mais do que isso. Ela não podia ficar sem eu perder tudo. Ainda assim, dei um tempo pra ela, como eu queria dar pra mim todas as vezes que me sentia daquela forma. Podia expulsá-la depois, deixar a minha cópia triste por último, né? Até porque eu sabia que uma hora a minha raiva ia aparecer, se é que ela já não estava por aí à espreita, e tudo se complicaria. Foi assim que fingi que minha empatia pelo que ameaçava tudo que eu tinha, inclusive a vida, era somente estratégia.

A gente só conseguia ter certeza de que não era a pessoa que procurávamos, mas sim a cópia, quando as cópias riam. A risada causava uma distorção da imagem delas durante menos de um segundo e isso era mais que o suficiente. Descobri isso bem no início da invasão, quando pouquíssimos relatos eram feitos nas redes sociais e imediatamente desacreditados no Twitter. Fui visitar meus pais e encontrei só ele, sem minha mãe e minha avó. Elas tinha saído, disse. Acatei. Até porque no sonho não tinha pandemia pra me fazer duvidar. Dividimos a casa por umas horas, conversamos, tudo parecia normal, mas mudou quando eu estava assistindo a versão do meu pai brincar com a gata da família. Quando ele riu, eu soube. Não era ele. Bem que tinha notado que ele estava meio que feliz demais. Depois do meu escândalo, apareceu todas as outras cópias Divertidamente dele e eu, aflita, peguei Eva e Billy e fui em busca dos meus pais e avó com medo do que aquelas criaturas poderiam ter feito.

Como eu estava dizendo antes, a partir desse episódio —  que terminou bem, mas eu não lembro direito como —  percebi que a melhor forma de identificar uma cópia então era simplesmente ser engraçado e, talvez, gentil. Sabe aquele sorrisinho que a gente dá quando se sente cuidado e querido? Saber gerá-lo era importantíssimo, principalmente porque chegar contando piadas sem qualquer contexto causa estranheza, seja entre humanos, humanos e cópias ou entre as próprias cópias. Sim, as cópias também possuem regras sociais e de etiqueta ou de tanto fingir ter desenvolveram uma muito parecida com a nossa. Enfim, por essas e outras, duvido muito que os stand-up comedians tiveram sucesso nessa empreitada contra o mal personificado por nós mesmos, mas não posso afirmar o fracasso do grupo com certeza, porque o sonho não forneceu qualquer informação sobre isso e nem sei se eu deveria comentar esse tipo de coisa num diário de sonhos público. É meio descontextualizado, né? Acho que vou cortar essa parte na próxima edição desse material.

Nunca soube de onde as cópias vieram e, confesso, não ter conseguido descobrir o que elas queriam. Até mesmo sobre o caráter delas ainda tenho minhas dúvidas. Nenhuma cópia minha parecia propriamente má ou boa. O universo onírico não explica muito, se apresenta cheio de furos e vez ou outra ignora todas dicotomias que a gente aprendeu desde cedo.

Só sei que mesmo depois de acordar eu não sei dizer ainda o que foi mais difícil: bater em um doppelgänger que imitava alguém que eu amava com perfeição ou lutar contra meu próprio doppelgänger. Alteridade e identidade se misturaram tantas vezes que suspeito que isso só pode ter sido parte da magia das criaturas que nos copiavam, mas talvez essa confusão seja simplesmente o que nos define como humanos, uma espécie de força-fraqueza que é impossível existir sem ter. Vai saber, né?

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Quando começa o futuro?

“Como será dezembro de 2021?”, me pergunto ao receber a agenda que comprei para me acompanhar no próximo ano.

Mexo em suas páginas, tiro e coloco de volta a capinha protetora que veio, observo a óbvia falta de preenchimento e toda indefinição que ela significa e rio pensando no altíssimo grau de autoilusão necessário para se planejar qualquer coisa.

Paro o olhar nas ilustrações da Luli Penna, permaneço ali, encontro um livro, um bicho, um objeto do cotidiano e sigo folheando para ver o que mais vou descobrir na agenda, como se buscasse também saber o que o futuro me reserva.

Me deparo com mais alguns poemas da Ledusha, leio todos, sinto o cheiro de novo, penso no futuro mais uma vez e me lembro, com um aperto no peito, que sou ansiosa e brasileira e não posso ficar muito tempo pensando nessas coisas.

Talvez seja a hora de parar de pensar nesse amanhã abstrato e preencher meu nome, escrever compromissos, anotar os prazos dos boletos e respirar fundo lembrando que 2020 ainda não acabou.


O planner citado no texto é da Todavia.
Você pode comprá-lo diretamente no site da editora ou na Amazon.

As Copas e as chagas de uma realidade fantástica

Nuevo Gasómetro – Foto de divulgação

Gabriel García Márquez é considerado o pai do realismo fantástico, apesar de ter dito uma vez que sua obra representava só realismo. “A realidade que é mágica. Não invento nada. Não há uma linha nos meus livros que não seja realidade. Não tenho imaginação” disse o autor em algum contexto que não fui capaz de descobrir qual, apesar — e talvez justamente por — essa frase se repetir incansavelmente em matérias e mais matérias sobre ele, especialmente aquelas que anunciaram a sua morte em 2014.

Me volto para essa afirmação de Gabo vez ou outra nos contextos mais diferentes. Lendo “Água Funda”, único romance de Ruth Guimarães, para o meu clube de leituras, me peguei pensando nela. Nessa obra, um narrador nos conta causos e mais causos sobre uma localidade. Com um texto muito oral, próximo da linguagem caipira, Ruth apresenta para o leitor um lugar, um tempo e suas pessoas, mostrando trajetórias e o quanto o olhar dos personagens é permeado pela natureza, as relações, o mundo e seus mistérios. A cada causo, muito pela linguagem, mas não só, me vinha na mente as histórias que minha avó materna me conta sobre a mãe, suas próprias jornadas por Minas Gerais e o que, segundo ela, o povo antigo pensava sobre uma variedade de coisas. Enquanto lia, percebia palavras que fazem parte do vocabulário da minha avó, especialmente quando ela conta histórias do passado, que em muita coisa é próxima ao que escreve Ruth. A opressão, o trabalho, a natureza, as festas, o truco, tudo isso e mais o que não tem muita explicação. Sendo atravessada pela obra, também lembrei do meu avô paterno e as histórias de terror que ouvi dele. Histórias essas muito próximas das contadas no livro, todas narradas em primeira pessoa, partindo dele ou recontando o que ele ouviu que aconteceu com um amigo ou um amigo de um amigo dele. O mistério da vida todo ali, limitado apenas pelo alcance das palavras, mas exposto com toda aquela atmosfera nomeada como mágica, apesar de Gabriel e muita gente não considerar bem assim.

Gabriel García Marquéz diz ter escrito a partir das histórias e memórias que cresceu ouvindo em Aracataca, cidade colombiana onde nasceu. Ruth Guimarães foi uma pesquisadora da cultura popular com o olhar e os ouvidos atentos para recolher, registrar e estudar essas histórias que circundam as pessoas a partir do famoso causo, essa prosa cotidiana marcada pela troca, pela memória e pela fofoca. Ambos, ao escreverem, contaram com essa magia tão presente nesses relatos durante o processo de efabulação de suas histórias.

No discurso do Nobel em 1982, o autor colombiano disse ao falar da solidão da América Latina: “No entanto, diante da opressão, do saque e do abandono nossa resposta é a vida. Nem os dilúvios nem as pestes, nem a fome nem os cataclismos, nem sequer as guerras eternas através dos séculos e dos séculos conseguiram reduzir a vantagem tenaz da vida sobre a morte”. Relendo a frase hoje, fazendo a pesquisa para esse texto, entendi que parte dessa magia mora na capacidade de criar e se recriar, apesar de tudo. Essa figura latino-americana que Gabriel ajudou a construir, junto a outros escritores que escreveram muitas vezes somente de seus próprios países ou regiões, é a de um sobrevivente que se alimenta, principalmente, da vontade de continuar. E, numa região como a nossa, isso significa quase que ter fé. Essa fé que é uma miscelânea de símbolos, origens e personagens. Enquanto humanos, criamos, contamos, formulamos tudo que move a vida a partir disso, especialmente aqui, e a maneira de se fazer isso é além da racionalidade típica, cartesiana. É preciso ter esperança, paixão, vontade, amor para continuar e nossas vidas e nossas criações são demarcadas por isso de alguma forma. E talvez seja isso o que explica parte do apreço do Brasil, da Colômbia, da Argentina, do Chile, do México e de outros países próximos pelo futebol.

Quando eu penso no futebol nesse contexto, me vem em mente a notícia do torcedor do Racing que comemorou o título de seu time do coração carregando o crânio de seu avô e, ao ser entrevistado, disse que aquela ossada que carregava era seu amuleto de sorte e que seu querido parente estava orgulhoso daquela vitória. Evoco também a Libertadores, com todas as suas incoerências e emoções, e a alta frequência de cães que invadem campos de futebol bem durante esse campeonato.  E, inevitavelmente, lembro do “Eu acredito” do Atlético Mineiro, esse time que me conquistou e me é tão próximo, apesar de eu não ser exatamente uma torcedora dele ou de qualquer outro.

O futebol, para muitos, é uma fuga da realidade, mas uma fuga marcada pela capacidade de se ter esperança na virada. A escolha do time do coração não é racional, ela vem de um outro lugar. A paixão não é, necessariamente, pela equipe que une mais talentos, probabilidades de vitórias e títulos conquistados, ela parte do afeto, do inexplicável, daquela coisa que bate ou não. Um jogador muito carismático pode mudar tudo, pode fazer o filho de uma família de cruzeirenses escolher o galo como seu amor futebolístico a partir simplesmente de uma identificação misturada com o desejo de ser.

Como tudo que vem da paixão, o futebol é marcado por uma boa dose de coisas inexplicáveis, mistérios e histórias quase mágicas. Transformamos jogos reais em momentos praticamente mitológicos e seres humanos falhos, complexos, que às vezes carregam em si defeitos e mais defeitos de toda uma cultura de reforço de uma certa masculinidade, em verdadeiros ídolos. Digo masculinidade porque é justamente por causa dela e seu machismo consequente que o futebol feminino, apesar de incrível e mexer com nosso âmago desse mesmo jeitinho, ainda é ignorado pela maioria que torce, vibra e se apaixonada por equipes, jogadores e sonhos.

Pensar na origem do amor por uma equipe, me fez recordar da informação que diz que, cientificamente, a gente gosta tanto do azarão, de torcer pelo mais fraco, porque somos motivados por uma tal de economia emocional. Torcemos assim buscando maximizar o prazer a partir do improvável, porque a perda ali, por ser esperada pela probabilidade, nos faz pensar que a vitória é um lucro maior. Entendo o argumento, faz bastante sentido, mas a seleção brasileira, por seu penta histórico, não carrega essa pecha de fraca e duvidosa, mas ainda assim segue tendo muita torcida. Por que? Porque o Brasil vencendo, mesmo para outros países, significa também dignidade, direito de sonhar, uma vitória contra aqueles que ganham em tudo, todos esses sentimentos que ajudam a fazer do futebol esse esporte que mexe com tantos, especialmente os latino-americanos. Nossas escolhas e emoções esportivas são marcadas por aspectos sociais, políticos e, claro, emocionais. Buscamos vinganças coloniais torcendo numa Copa do Mundo organizada por uma entidade bem controversa e nos sentimos exaustos vendo os Estados Unidos no primeiro lugar do quadro de medalhas das Olimpíadas a cada 4 anos.

Escrevi tudo isso para chegar no que me deu a primeira fagulha desse texto: a morte de Diego Armando Maradona. Toda aquela comoção, dor, ilusão de proximidade e relatos emocionados me fizeram pensar nessa paixão que o esporte é capaz de fazer surgir e como as pessoas encontram em Maradonas uma esperança que representa a pulsão de vida perante a morte, a miséria, o horror, junto também ao desejo em sair por cima, porque somos humanos, afinal.

Os dois gols do Maradona contra a seleção da Inglaterra em 1986 representam isso muito bem: o gol roubado — a famigerada mão de deus — a Argentina saindo por cima da Inglaterra em algo, apesar de tudo, e o gol mais belo de todas as Copas, o gol que vem do imo, do desejo, da vontade de ser foda, do talento e da beleza que não podem ser roubados, apesar de seguirem tentando a todo custo.

Quando parei para pensar no futebol e fui parar no realismo, mágico ou não, eu cheguei a conclusão que a gente chama de magia e mistério o que envolve todas essas coisas que vem de dentro. Não sabemos como surge o amor, a paixão, o medo, o ranço, a raiva, o rancor, mas a gente conhece muito bem tudo isso. Criamos e consumimos histórias, inclusive as narrativas e vivências esportistas e os causos do cotidiano, para lidarmos com essa infinidade de coisas que não sabemos explicar muito bem, mas é um dos principais componentes humanos.

No dia 17 de maio de 2017, eu estava em Buenos Aires e, sem muito planejamento, fui parar no estádio Nuevo Gasómetro para assistir San Lorenzo versus Flamengo. O time argentino tinha perdido os dois primeiros jogos da fase de grupos da Libertadores, mas conseguiu se classificar para a fase seguinte a partir de uma vitória de virada com gol no último minuto. Desse dia, eu me lembro do frio, por causa do estádio todo aberto e a localização bem abaixo do trópico de capricórnio, e da festa. Fui contagiada pela emoção que tomou conta da atmosfera do lugar. Eu sorria, porque sorriam, cantavam, festejavam ao meu lado, e, no meio daquele caos de sansações, ouvi uivos humanos que terminavam cantando a frase “como sufri”, porque amor, esperança e a improbabilidade tinham vencido.

Nesse dia, apesar de contagiada, eu compreendi que jamais entenderia por completo o jogo que aqueles torcedores que vibravam ao meu lado vivenciaram. Ali percebi a grandiosidade de toda essa gama de sentimentos que envolve o torcer e o ser, mas que para mim ainda parecem mais com um feitiço poderoso ou uma ficção que une cotidiano e fantástico. Agora sei que essa magia me atinge de outras formas, diferentes e semelhantes ao que o futebol é capaz de despertar. Para mim vem, inclusive, por meio da literatura, da linguagem, das pessoas e da natureza. De todo jeito, estamos todos falando de amor, paixão, esperança e desconhecido e nos conectando a partir disso.

Estação Blogagem foi criada pela Aline Valek e pela Gabi Barbosa para movimentar a blogosfera e engajar leitores e escritores em torno dos blogs, escrita e leitura. O tema proposto para esse mês de escrita e leitura foi tarô e, durante esse período, eu postei textos escritos a partir desse estímulo. Para essa última semana, elas escolheram o naipe de copas, que é diretamente relacionado ao amor, às emoções e à água e sua imprecisão.

Acordei pronta para fazer um sete de ouros acontecer

Acervo pessoal

No dia 21 de novembro de 2020, lancei meu site de autora junto ao meu apoia.se. Apesar de simples, ambos foram fruto de um esforço cuidadoso em assumir que a escrita, a leitura e a arte no geral me interessam como ferramentas de trabalho e que toda a minha produção tem valor. Enquanto pensava em cada detalhe do site e apanhava do WordPress vez ou outra ao tentar fazer as ideias se materializarem, eu colocava a minha vontade de me assumir como esse alguém criador para enfrentar a certeza de que eu nunca serei boa o suficiente para isso.

Ao lançar meu site no mundo às 11 horas da manhã nesse sábado, mesmo sabendo que ele estava incompleto e falho, eu revelei ao mundo mais uma faceta do que faço, penso e espero de mim. Eu sempre achei que precisava estar pronta, prontíssima mesmo, para me apresentar como escritora ou qualquer outra coisa do tipo. A espera por esse momento nunca me fez bem. Com tanta expectativa envolvida, eu sequer tinha coragem de começar. Foi preciso muito esforço para compreender que tudo que envolve trabalho é diretamente relacionado com uma infinidade de processos que começam em mim, mas também refletem o mundo onde vivo. Os meus, inclusive, envolveram admitir o que realmente quero fazer da vida, ainda que o mundo desvalorize esse meu fazer e me cobre um estilo de vida a partir de um ideal capitalista e homogenizador.

Eu não sou boa em fazer dinheiro e, sinceramente, também acho que não sou boa em me apresentar profissionalmente para qualquer coisa, especialmente quando o que me interessa é justamente o que dificilmente é visto como trabalho. Apesar de ser uma fazedora, uma pessoa que bota a mão na massa e pensa, cria e realiza projetos, eu sigo tendo muita dificuldade de me ver assim. Esse site, esse apoia.se, o retorno da minha newsletter, a finalização do meu manuscrito de poesia ainda sem editora e o desenvolvimento do meu original de contos, tudo isso para mim ainda é um exercício de convencimento. Tenho tentado, tenho tentado muito, porque viver no mundo das ideias já não me é mais suficiente.

Estou aqui, fazendo, ainda que com medo, enquanto penso que cresci vendo o Coragem, o cão covarde, ou o próprio Scooby Doo agirem, mesmo assustados, seguindo uma lógica de sem querer querendo, que é o que eu fazia até então. Quando decido executar tudo isso, me planejo minimamente e me apresento, escolho a possibilidade de tentar construir um mundo que me caiba e isso é uma recusa da culpa por não ser quem esperavam que eu fosse. Chega de sem querer querendo. É hora de construir a minha casa e, ainda que alguns estejam meio capengas, eu já providenciei os principais móveis.

Estação Blogagem foi criada pela Aline Valek e pela Gabi Barbosa para movimentar a blogosfera e engajar leitores e escritores em torno dos blogs, escrita e leitura. O tema proposto para o primeiro mês foi tarô e, durante esse período, eu postarei textos escritos a partir desse estímulo. Para essa terceira semana, elas escolheram o naipe de ouros, que é diretamente relacionado à materialidade, trabalho e produtividade.

O sete de ouros é uma das cartas mais importantes do Truco, mas ela não é uma garantia de vitória. Você precisa saber quando usá-la, aliá-la a outras cartas e jogadas. Só assim você conquistará o seu tento e talvez a vitória. Por isso, a evoco nesse título para falar sobre dúvidas, colheita e coragem de tentar.

Você pode ler os meus outros textos participantes da blogagem aqui.