Igual à narina

A linguagem nasce como um bocejo. Quando uma boca se abre e o cenho se franze, o rosto ao lado reage fazendo o mesmo. De repente, nosso jeito de falar, estruturar pensamentos e agir começa a mudar: uma palavra nova é adicionada ao vocabulário, uma pausa que não existia antes aparece, um novo jeito de mexer as mãos e balançar as pernas é imposto pelo corpo, o ritmo da respiração muda, um fonema fica mais chiado, a voz agora soa fanha, a risada ganha ou perde fôlego, você passa a dar três beijinhos ou fazer um toque de cotovelos para cumprimentar alguém e se surpreende com os músculos do rosto se contraindo numa careta inédita. E esses novos hábitos podem ou não se manter. Depende da sua abertura para o mundo, da quantidade de contato e conexão que você tem com quem interage com você e com tudo que vem a acontecer nos domínios próximos ou distantes do universo desconhecido que vive bem debaixo do seu nariz. É por isso que algumas pessoas dizem que uma separação, qualquer que seja ela, é sempre o fim de uma língua, aquela que foi desenvolvida pouco a pouco pelos envolvidos e que agora permanecerá interrompida, um idioma fóssil geolocalizado na memória, sem falantes fora do mundo das recordações.

A linguagem surge da observação. Cada palavra, frase e gesto vem de um exercício de atenção que, sem a gente perceber, se transforma em uma outra coisa. A linguagem então também é memória, mas o que não é memória? Não importa. Ela é cada um de nós, mesmo nascendo do encontro com outras pessoas. O que é humano e não vem desse paradoxo entre o eu e nós? A linguagem é o que temos. É o que nos permite formular sozinhos ou acompanhados aquilo que é aprendido ou percebido. O que passa pelos sentidos e fica, provoca os neurônios-espelhos e dura além de um espasmo. Para cada povo ou indivíduo, a linguagem é uma identidade que vem de algo anterior, algo que só existe a partir do outro, algo único e em constante mutação. O encontro do eu com o nós, da rotina com o novo, do espontâneo com o que já foi pensando antes, do corpo com qualquer coisa.

A linguagem é absurda. O que eu chamo de amarelo não é o mesmo amarelo que você vê. O que se conhece como cor da pele não é a cor de todas as peles. Os gregos antigos não conheciam a cor azul, porque o mar e o céu assumem muitas tonalidades além. O nome das coisas nos situa no mundo, nos dá palavras para contar o que só a gente pode contar, mas não se bastam. Uma língua pode até ser criada com um fim específico, como o ficcional právico de Os Despossuídos da Ursula Le Guin ou o esperanto do mundo que conhecemos, mas somente no uso as palavras encontram a vida, se transformam e ganham os contornos das idiossincrasias. Nem precisa ser poeta para fazer uma metáfora, nem Guimarães Rosa para ousar um neologismo. Muito menos atuar como personagem italiano de novela brasileira para gesticular até torcer o que dizem as palavras pronunciadas com um sotaque que só existe no mundo da ficção.

A linguagem é um vírus. Ela muda, ela circula, ela precisa de contato para continuar. Ela pode ser transmitida. Ela tem que ser transmitida. Talvez nem o isolamento total consiga parar essa contaminação. Algo fica, eu sei que fica.

A linguagem é um erro. Ninguém consegue dizer o que quer ou precisa. Emissor, receptor, mensagem, tudo, absolutamente tudo, que envolve nossa vontade de se fazer entender é feito por caquinhos que se unem apenas pela liga da saliva. Sem cola escolar ou super bonder, apenas saliva. O papel pode se rasgar se a gente umedecer demais a mensagem, virar uma bola de cuspe que pode ser moldada até atingir qualquer forma, esculturas do que se quis dizer ou se quis entender. Ou pode vir seca, sem sentido, e ainda assim chegar rasgando a pele fina das mãos ou a garganta originária. 

A linguagem é bestial. O cachorro late, o gato ronrona, os grandes felinos rugem, os pássaros cantam, os lobos uivam, o ser humano canta e o português cria palavras para referenciar a comunicação e os coletivos desses e outros animais. E tem as interjeições, os feromônios, as garras, a peçonha, as multidões e, de novo, o diferente. E do diferente origina-se também tudo aquilo que alguns chamam de monstros, esses bichos que a gente aprende a imaginar a partir desse medo do Outro que nos une e nos separa. E tem também a comunicação interespécies, que me faz entender as piscadas carinhosas dos meus gatos e também seus rabinhos que em um único movimento me avisam que eles querem continuar brincando. E assim surge mais um dialeto, esse centrado no aqui e agora da minha casa. E isso acontece também via tweets, emails, posts, mensagens instantâneas, chamadas de vídeos e áudios de cinco minutos. As amizades e as línguas surgem na fricção dos interesses comuns com tudo aquilo que a gente inventa.

A linguagem é neurociência, linguística, gramática, programação, biologia, antropologia, esporte, ABNT e arte, ela é língua, boca, dentes, bochechas, mãos, postura, músculos, corpo, careta, máscara. É indomável, capaz de invadir territórios, criar espaços, transformar o meu, o nosso, modo de dizer. É meme, é incômodo, é risada, é troca, é terror, é guerra, é você, nós, eles… sou eu. 

A linguagem é uma brincadeira, são as peças de lego que a gente usa para montar e desmontar cenários e narrativas, tentando desesperadamente contar para alguém um pouco sobre a convergência dos universos que somos com o que percebemos em contato com os outros. É o que eu tenho para satisfazer minha vontade de tentar explicar porque escrevo, tagarelo, gesticulo, observo, crio, sonho, mexo as pernas, batuco mesas e explico o cotidiano. É o que me faz sentir parte, buscar sentidos, fazer perguntas, formular resposta, ligar o computador e escrever uma mensagem para um destinatário desconhecido, elaborar experiências, abrir um caderno e rabiscar com uma caneta rosa um monstro com cabeça de mulher, rabo de cavalo, grandes caninos e tentáculos abissais. É o que me leva a amar conversar de todas as formas e com todos os animais, inclusive com uma gata preto e branca que tem as narinas rosadas como os meus mamilos e eu só conheço pela internet. 

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Crônica da praça que se molda à imagem e semelhança dela mesma

Quero entender melhor os diferentes tamanhos que a pracinha que eu ia durante a infância pode assumir.

Parei de crescer faz tempo, mas ainda assim toda vez que piso aqui adulta, a lembrança do que a pracinha foi se transforma.

Ela se expande sob o meu olhar atento às diferenças, mas eu pareço cruzá-la em tão poucos passos. Ela está cada vez menor, mas seu limite ainda está em outro tempo. Ela parece mais vazia sem os bichos que eu costumava encontrar ali nas minhas expedições como wannabe biológa, mas também mais ocupada agora que tem até aparelho de ginástica. A árvore que levou pedaços dos meus dentes numa trombada com minha bicicleta ainda parece ameaçadora.

Penso em quantos passos o Billy precisa dar pra me acompanhar. São os mesmos de quando ele era jovem? E me pergunto quantas pisadas Faruck I precisava para cortar toda essa pouca extensão e nos tantos milhares de odores que Faruck II pode cheirar ali todas as vezes que o acompanhei.

Com a mi band presa ao meu pulso, sei exatamente quantos passos eu precisei dar para medir esse cenário e isso não é o suficiente para me convencer da diferença do que vejo, sinto, lembro.

Atravesso, calculo o raio, elevo-o ao quadrado, multiplico o resultado pelo pi. Encontro minha recuperação de matemática. Volto pra casa em 2003.

Tudo mudou.

E toda vez que mudo, uma nova perspectiva vira possibilidade. Com uma câmera nas mãos, posso ver a praça sob outro ângulo, o do pássaro que nunca fui. E, depois, quando voltar, lembrar diferente, como se em algum momento da minha história, eu tivesse sido dona desse céu de inverno.

Esse texto foi publicado originalmente no meu perfil do Instagram. Se você gostou dessa leitura, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe também pelo Medium,  Facebook,  Twitter,  Tinyletter, Apoia.se e  Instagram.

Donna Polla

O comício – Benedito José de Andrade

Quando comecei a fazer as primeiras lições de italiano no Duolingo, eu não conseguia parar de pensar na minha Tia P.*. Era inevitável. Se aprendia que rato era topo, esperava que na lição seguinte o Duolingo me apresentasse o famigerado pollo e todas as melhores maneiras de pedi-lo. Nessa brincadeira, minha cabeça virou um verdadeiro galinheiro de memórias plumadas da viagem que eu fiz com ela pra Itália.

A viagem foi em família. Com justificativa de saudade, mas motivação de turismo. Um desses passeios que acabam envolvendo vários núcleos parentais e até mesmo amigos de longa data. Tinha mais gente querendo ir do que gente podendo pagar e, no fim das contas, formou-se um grupo com dois casais, sendo um deles meus pais, um tio avulso, uma amiga da família também avulsa e eu, todos indo ao encontro do meu irmão.

Piadas sobre família Buscapé à parte, a viagem fluiu muito bem e encheu os olhos, o coração e a pança de todos os envolvidos. Ou melhor, quase todos. Não sei se a Tia P. diria que ficou tão satisfeita assim em um desses quesitos.

Foi nesses dias que descobri que minha Tia P. é uma pessoa obcecada por frango. Durante os preparativos do passeio, eu pensei que, ao menos em relação a ela, o único grande desafio de convivência seria o fato dela gostar demais de rezar, ser católica fervorosa, nos obrigar a ir ver o Santo Sudário e querer entrar em todas as igrejas e lojas, essas não necessariamente religiosas, que a gente encontrasse no caminho. Coisa que de fato ela meio que fez, com apoio da minha mãe e tudo, mas, já em Roma, primeira cidade visitada nessa jornada, a gente descobriu que se tem uma coisa que Tia P. gosta mais do que de Deus, essa coisa é frango. 

“Pizza de frango é coisa de brasileiro. Ainda mais se tiver catupiry envolvido”, meu irmão argumentava sem sucesso. Ela insistia. Ele cedia. O que significava que ele, o único falante de italiano, acabava tendo que tentar conversar com garçons e até cozinheiros sobre a possibilidade de fazer uma pizza ou qualquer outra coisa com frango pra ela. Tia P., para garantir que sua mensagem chegaria ao destinatário, sempre ia junto dele e ficava falando em português o que ela queria, atrapalhando aquele diálogo, que já não ia ser fácil. Vez ou outra, com um gestual aprendido como italiano na novela global Terra Nostra, dizia “pollo” com pronúncia espanhola, idioma que ela também não conhece. 

O pedido era sempre visto como absurdo. Mais até que catchup sendo colocado numa legítima pizza paulistana da Mooca. A maioria dos garçons entendia que ela queria que eles colocassem um peito ou coxa de frango em cima da pizza. E, eu juro, isso não era um problema no italiano do meu irmão que, apesar das dificuldades, cursava engenharia no idioma graças ao Ciências Sem Fronteiras. Era um problema de má vontade de todos os seres humanos do mundo com ela, a “Donna Polla”. Meu irmão, eu, os garçons, os cozinheiros, a guia, meus pais, meu padrinho, a amiga da minha mãe que é quase uma tia pra mim e, arrisco dizer, até o meu tio, marido de Tia P., todos ficavam contra ela assim que ela abria um cardápio. 

No dia que comi a melhor lasanha da minha vida, Tia P. enfim encontrou seu “pollo” em um restaurante e, sorridente como nunca, pediu. O restaurante trabalhava com um cardápio fixo para a semana: entrada, prato principal e sobremesa já definidos e numa leva só. Algo como um pacote promocional de groupon ou peixe urbano, mas sem a compra antecipada. Frango com aspargos era o prato principal, mas antes dele, na entrada, havia uma lasanha. A mais saborosa lasanha que já existiu. E que Tia P. perdeu. Ela, ao se deparar com aquele enorme prato de massa como suposta entrada, não quis nem tocar na comida. A família toda insistiu para ela experimentar, mas não adiantou. O que interessava era o frango com aspargos e não valia a pena encher a pança de lasanha pra depois custar a comer o que, segundo ela, era refeição de verdade. O pedaço de lasanha dela foi dividido em partes iguais com o restante da mesa que fingia não estar achando ótimo a chance de comer mais um pedaço daquela maravilha. 

Quando o prato principal chegou, encontramos no lugar de uma bela refeição pedaços de frango pálidos, oleosos, meio duros e sem qualquer cheiro de tempero. Mesmo assim ela não desanimou. Foi preciso que ela provasse uma, duas, três vezes, pra começar tentar acreditar naquilo e, depois, ainda provasse de novo para tirar a prova de que aquele “pollo” era a comida mais insossa já cozinhada no planeta Terra. 

Todos comemos aspargos e batatas, esses extremamente saborosos e temperados, enquanto ela insistia em provar os frangos que a maioria de nós não queria comer, achando que algum pedaço se salvaria milagrosamente daquele não sabor insuportável. No fim das contas e depois de muito insistir nos frangos horríveis, ela tomou a sábia decisão de usar os sachês de sal e azeite à disposição para melhorar aquilo que teria que ser a refeição dela naquele dia. 

Tia P., entretanto, não aprendeu a lição. Continuou o resto da viagem insistindo nisso, deixando todo mundo meio constrangido em muitos momentos, sem nunca desistir de seu sonho de provar um legítimo pollo brasileiro em solo italiano.

Voltamos para casa felizes, mas também secretamente putos, sem imaginar que Tia P. e seu insuportável desejo de comer frango em todas as refeições se tornaria uma das principais histórias desses quinze dias maravilhosos.

*nome suprimido por medo de processo.

Esse texto foi publicado originalmente na 11ª edição da minha newsletter “Sala de Espera”. Assine aqui para passar a receber meus escritos diretamente na sua caixa de entrada.

Jogatina ancestral

Acervo Pessoal

Minha vó carrega seus baralhos para todo lugar que vai. Sim, baralhos. No plural mesmo. Me cansei de vê-la tirando-os da bolsa para colocá-los em cima da mesa, lado a lado com a bolsinha de tentos, para sinalizar que chegou a hora de jogar. Festa de aniversário, Sexta-feira Santa, Quarta-feira de Cinzas, batizado, Natal, Páscoa, nenhuma data é sagrada demais para que não se possa jogar, provavelmente porque, implicitamente, sabemos que há algo de sacro no ritual desses jogos que passam de geração a geração. Assim aprendi a construir relações em torno dessa mesa, que ora é abundante em comida, ora se enche de cartas, sempre com muita conversa, e sei que isso é bem anterior a mim.

Minha bisavó também jogava. Talvez a mãe dela também. Não sei. As informações se perdem com o passar do tempo. Sei que ela jogava poker, apostava entre homens, ia na casa deles jogar, mesmo em um tempo em que a possibilidade de se fazer isso era limitada para mulheres. Sei também que minha avó, ainda bem novinha, aprendeu todo tipo de jogo com ela e que minha bisa era professora e ensinava crianças a ler na mesma mesa que servia vez ou outra como um palanque para ela. Você pode ler essas últimas frases e não entender o porquê delas estarem aqui, nesse texto sobre jogos de baralho, mas pra mim faz sentido. Jogos de baralho, no geral, são considerados uma diversão masculina, especialmente o truco, preferido da minha vó, e o poker, melhor jogo segundo minha bisa que nunca conheci. Minha família, ainda que reforce muitos estereótipos de gênero, sempre permitiu e incentivou que mulheres tivessem seus momentos de diversão e socialização e tem como tradição repassar essa sabedoria e toda a energia que ela evoca.

Minha vó começou a me ensinar o truco quando eu tinha seis anos. Antes disso eu já dominava burro, fedô, rouba monte e todos esses jogos que fazem muito sucesso com crianças. Só que o truco é diferente, é um aprendizado contínuo, cheio de lições. Não basta saber reconhecer um zap, um 7 de copas, uma espadilha e um 7 de ouros quando ele aparecer em sua mão, é preciso saber farejar cada uma dessas cartas, tanto no adversário, quanto no parceiro. Até hoje, quando sou dupla da minha avó, aprendo alguma tática nova, mas desde 1995 sei que é preciso fazer a primeira, chegar com o pé na porta, mostrar para o que veio.

Não fazer a primeira é um risco. Um risco de continuidade que não vale a pena correr. Essa lição minha avó aprendeu com sua mãe e ela segue reverberando em mim. A partir dela, escrevo hoje esse texto para a #EstaçãoBlogagem. Paus inicia tudo e eu não posso deixar de fazer a primeira, mesmo que meu site ainda não esteja pronto. Escrevo agora, posto no prazo da primeira rodada onde der e me dou uma chance de continuar fortalecendo meu impulso criador. É do início que se começa qualquer viagem, minha vó nascida sob o signo de Áries diz para mim, neta que tem o carneiro como ascendente, mas não acredita nessas coisas, apesar de não conseguir ignorar toda essa simbologia. Como ignorar a possibilidade mágica dos meus rituais familiares quando o zap é um quatro de paus, que no tarô e no truco costumam simbolizar a celebração de uma conquista?


Estação Blogagem foi criada pela Aline Valek e pela Gabi Barbosa para movimentar a blogosfera e engajar leitores e escritores em torno dos blogs, escrita e leitura. O tema proposto para esse mês de escrita e leitura foi tarô e, durante esse período, eu postarei textos escritos a partir desse estímulo. Para iniciar os trabalhos, elas escolheram como tema o naipe de paus, que é diretamente relacionado à energia do fogo, logo impulsionador, dinâmico e que fala com a nossa criatividade.

Pães em formato de bicho

Carlos Avelino/PBH

Um pão capivara passou na minha timeline do Twitter esses dias. Ele era tão bem feito que até orelhinhas tinha. Fofinho e coradinho, como uma capivara deve ser. Ele era feito de trigo, como os pães são. Ele me lembrou a minha infância.

Quase todo sábado, eu ia para casa dos meus padrinhos. Eu amava aquela casa. Ela era ampla, tinha uma romãzeira, plantas de todo tipo, flores, livros, revistas e muitos gatos. Não tenho certeza se minha tia já era instrutora de ioga, mas sei que ela me ensinava alguns movimentos nas horas vagas. Eu amava quando ela elogiava a minha flexibilidade e todas as posições com nome de bicho. Já meu tio, professor de biologia, sempre estava pronto para me dar uma informação nova sobre algum animal da natureza. Inclusive, toda vez que o tempo permitia, ele me levava para caminhar na beira do rio Itapecerica. “Em tupi-guarani, Ita significa pedra e pecerica lisa ou escorregadia”, ele sempre me dizia ou eu dizia e ele, porque tinha ouvido algo assim na escola. Já não sei mais. De longe, caminhando ao lado dele, eu via capivaras, pássaros, borboletas e um rio sofrendo com assoreamento, enquanto recebia algumas informações sobre reino, filo, classe, comportamento e reprodução de cada ser vivo avistado. E, fora tudo isso, eles gostavam de me ouvir falar. E, caramba, como eu tinha palavras a dizer!

Nessa casa, além da ioga, da biologia, dos gatos e dos livros, eu tinha acesso a um pão doce em formato de jacaré. Ele era enorme, tinha rabo, patas e até aquele levantadinho perto da testa onde os olhinhos ficam. Sendo esses olhinhos, no caso, vermelhos, feitos com aquela cereja-chuchu típica dos anos 90. Lembro que o coco ralado representava as escamas do bicho. Ele era lindo, delicioso, fora os olhos, e fazia totalmente a minha cabeça.

Meus pais nunca compraram pão jacaré pra mim. Ele representava um achado dos meus padrinhos, algo que somente eles podiam ter encontrado e comprado para me agradar. Esse pão era vendido numa padaria próxima da casa deles e era especial: somente podia ser comprado aos sábados. Talvez era até algo encomendado. Não sei. Só sei que vez ou outra, ao chegar na casa deles, já era levada até a padaria e aproveitava o momento para observar tudo. Eu não podia deixar escapar nenhum detalhe daquele bairro com Velho no nome, daquele morro todo, daquelas pessoas, daquela rua movimentada, daquela padaria que fazia pães de jacaré.

Queria absorver tudo ao meu redor, aproveitando aquela ilusão infantil de que andar ali representava alguma liberdade especial, bem aquela que é dada a todos que se colocam como aventureiros, desbravadores e conhecedores do mundo. De cima, já quase na padaria, eu olhava para a rua que continuava, pra mim infinitamente, e pensava na ponte, no rio, no fato de que minha casa estava bem do outro lado, além do horizonte. Em algum lugar naquela vastidão toda que era Divinópolis para a menina Thaís, devia haver jacarés que não eram feitos de pão. Tinha que haver.


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A batalha secreta dos ipês

Ipê capa da Vogue — Foto: Thaís Campolina (Acervo Pessoal)

Aqui na rua tem um ipê amarelo conhecido por ser atrasado em sua floração. Ele, além de tudo, é miúdo em relação a todos os outros. Eu não entendo nada de botânica, mas como uma pessoa adulta menor do que todas as outras, eu não consigo olhar para ele sem pensar que é uma sacanagem tremenda supor que ele é como é simplesmente porque ainda não se desenvolveu por completo ou tem algum problema.

A gente fala, fala e fala em respeitar as diferenças, vive argumentando que cada um de nós funciona de um jeito, mas quando a gente se depara com um ipê pequenininho e atrasado em relação aos seus colegas tão vistosos e já floridos, a gente ainda tende a supor que ele, que não se encaixa na trajetória linear ou mais correta segundo sei lá quem, só não se encontrou ainda. Ou teve uma infância difícil demais e cheia de traumas. Ou qualquer outra coisa que no fim das contas será usada para diminui-lo de maneira condescendente.

As pessoas sempre querem um porquê. Quase como se fosse um atestado que você leva para o trabalho para justificar que não deu para você chegar na hora como todos os outros. As pessoas não podem ver o diferente e simplesmente pensar “ok”. Elas sempre vão querer uma justificativa para aquilo, de preferência uma justificativa que evoque um papagaio dizendo “ô coitado!”. Sem isso, o que sobra é a zombaria direta e irrestrita.

Uma vez me perguntaram se eu passei fome na infância e por isso acabei tão pequena. Foi estranho. Ser toda inha, inclusive branquinha, sempre me fez ser colocada como bibelô, o que é inevitavelmente uma coisa meio patricinha. Dessa vez foi diferente. Muito pior. E olha que eu tenho um trauma não superado de ser vista como bonequinha. A pessoa ao me olhar pensou que somente a desnutrição justificaria a minha existência em paz, que eu precisava de ter um background de sofrimento para me tornar factível como personagem. O paternalismo de sempre se mostrou uma piedade feia, essa que alguns cristãos adoram sentir pelos outros quando dizem que vão ajudar alguém. A mesma piedade feia que eu vejo quando as pessoas olham para o ipê amarelo da esquina da minha casa e diz mesmo sem ser em voz alta algo como: “coitado, ele não é como todos os outros”.

Estamos em julho agora e a floração dos ipês já começou. Ao menos entre os adiantados. Eles, os ipês amarelos melhores da classe, já estão entre nós. Eles, os ipês capa da Vogue, já enfeitam as ruas. Eles, os ipês geniais, já estão sendo fotografados por quem passa com máscara na cara — ou no queixo — perto deles. Já os ipês de floração em agosto e setembro seguem seus processos ainda carregados de estigmas somados a pressão de, quando florescerem, florescerem bem. Todos os ipês vão ficar floridos por mais ou menos quinze dias, independente de quando começarem, mas não importa, porque até entre os ipês se impôs uma corrida de produtividade, modelo, status e essas coisas todas.

Todo mundo quer florescer primeiro. Todo mundo quer florescer melhor. E alguém ainda vai dizer que pensar assim é o mindset do sucesso. E quem, por qualquer motivo que seja, demora mais ou, quando floresce, não floresce tão bonito, se torna um fracassado que precisa apresentar justificativas até para si mesmo por não ser como o primo bonito, concursado e com a vida e família pronta. Sendo a melhor justificativa sempre algo que evoque dó, porque ela dá a ilusão de empatia para quem ainda quer olhar para os outros sempre de cima.

Eu ia chamar os ipês adiantados de Einstein, porque ele é o nome que todo mundo aprendeu como sinônimo de gênio, mas eu lembrei que existe um mito sobre ele na verdade ter sido um péssimo aluno, só que é um mito somente e não ia dar para tirar nenhuma lição bonita da história dele, porque não importa se o atrasado vai brilhar muito um dia, a gente tem que parar de querer cobrar que os outros sigam essa régua única que parece ter sido inventada para que a maioria sempre perca. Fora que aquele meme do “e aquela criança era ninguém mais, ninguém menos, do que Albert Einstein” estragou tudo.

Era para esse texto ser engraçadinho, mas acho que não funcionou.


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Toda vez que vejo vocês falando de bicicleta me dá vontade de falar isso aqui ó

Não se engane com essa foto do Fernando Meloni, essa bicicleta com certeza não é tão pura e inofensiva como você foi levado a crer.

Eu sou covarde. Eu não ando de bicicleta. Nem nas melhores e mais caras. Eu passo, porque não dá, sabe? Muitos traumas. Todas minhas histórias de bicicleta envolvem acidentes. Alguns não chegaram a acontecer de fato, mas eu vi a possibilidade se aproximar e já foi ruim demais. Eu aprendi o risco na prática, tanto é que meus dois dentes da frente são trabalho de dentista por causa dessa merda.

Não consigo esquecer do meu pai chorando desesperado quando me viu toda ralada, também chorando e desesperada, com os dois dentes da frente quebrados e vários pedacinhos deles na mão junto com um tanto de sangue, enquanto arrastava minha bicicleta toda empenada.

Pior é que mesmo depois disso, passados alguns anos, eu tentei andar de bicicleta de novo. Não sei direito o porquê. Devo ter achado que eu era invencível, já que tinha uns treze anos e adolescente tem dessas coisas. Quase atropelei uma criança de dois anos nesse dia, porque ela achou de bom tom aparecer do nada no meio de uma pista para bicicletas.

Assim como deve ter acontecido com essa criança marcada por esse quase acidente em que fui pivô, eu também inaugurei a minha sina com esse veículo a partir de uma experiência que aconteceu mais ou menos nessa idade. Sentada no chão do passeio estufado da porta de casa, fui semi-atropelada por um menino que se desequilibrou da bicicleta por causa desse solo de irregularidades e caiu em cima de mim.

Agora não chego mais perto desse instrumento do diabo. Não chego. Você não vai conseguir me convencer a subir numa bike, ninguém vai. Pode parar de argumentar, você está perdendo seu tempo. Mas, ó, não vou mentir, vez ou outra chega na memória a sensação do vento batendo no rosto, enquanto eu ganho velocidade. É lindo demais e dá uma saudade, você nem imagina. Isso dura até eu lembrar dos meus dentes quebrados. Passa na hora.


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Sobre o medo de perder dinheiro e pertencer ao passado

Josh Appel

Toda vez que faço compras online, eu fico muito tensa com medo de algo acontecer e eu não receber meu produto em casa. Não gosto de achar que perdi dinheiro. Nem imagino como deve ser investir na bolsa e conviver com variações diárias de perdas, mesmo que às vezes tenha ganhos. Muitos ganhos. Ganhos que provavelmente eu nunca vou ter, porque não invisto na bolsa e dinheiro para poder fazer isso com tranquilidade me parece uma ficção. Na verdade, especulação. Gostou da piada ruim? Fiz para te fazer pensar que talvez eu entenda o suficiente para ser pessimista tendo trinta anos e vivendo o capitalismo tardio. Me parece desperdício de tempo, energia e grana. Quem quer arriscar perder grana? Sei lá. Quem quer aprender ganhar dinheiro com tragédia? Todo mundo? Me parece errado correr esses riscos, financeiros e morais.

Mesmo nos meus dias mais loucos, eu devo ser conservadora nos meus costumes bancários. Se bem que nem tanto. Eu amo conta digital, carteiras que oferecem cashback quando você gastar e essas praticidades novas. Teve uma época que até segui o Picpay nas redes sociais e bem recentemente tentei edital cultural de banco tradicional. Na verdade, eu até sei o que é LCI, fundo de investimento e corretora. Eu já até investi dinheiro, pouco, claro, mas é porque não dá para deixar na poupança também, entende?

Eu só não gosto de achar que vou perder dinheiro. Quando faço uma compra online, eu morro de medo que o produto desapareça no mundo e eu não consiga reembolso, ou até consiga, mas só depois de tempo demais de espera e dúvida. Tem hora que o temor muda e se torna um medo de esquecer de pedir o reembolso porque passei muita raiva, troquei muito e-mail, li e ouvi mil vezes que o produto foi enviado e eles não podem se responsabilizar por mais nada além daquilo. Talvez eu me assuste com a possibilidade do tempo passar e eu esquecer para que precisava daquilo quando tocarem o interfone me avisando que minha encomenda chegou. Na verdade, eu tenho receio mesmo é de acabar apagando o e-mail que eu precisava para confirmar o número do meu pedido ou ter errado na hora de preencher o meu próprio endereço. Ou algo assim.

Eu não sou muito organizada, sabe? E nada que eu faça me impede de receber muito spam e eu já acatei que o meu destino é ter sempre uma Caixa de Entrada caótica. Eu também tenho medo de pagar o boleto. Ou pagar repetido. Inclusive já paguei uma vez e vi minha conta seguinte vir abatida depois de uma conversa tranquila com uma atendente de telemarketing com sotaque pernambucano que nem me julgou por ser tão lerda.

Nada me dá segurança numa compra online. Nada. E isso me faz me sentir meio negacionista, meio meu pai, meio como se eu me tornasse cada dia uma boomer, ou pior, uma millennial-boomer. Nada me dá mais medo do que isso, ainda que eu saiba que o tempo passa e quem nasceu no século XIX já deve estar rindo de mim usando o celular. Nem tiktok eu tenho instalado.


Esse texto foi originalmente publicado em minha newsletter e saiu também pelo site Salto Quebrado. Se você gostou, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

A Thaís tem uns sonhos esquisitos, né?

Jr Korpa em Unsplash

Semana passada sonhei que eu cortava uma franjinha curta, ficava uma bosta e estava tudo bem. Depois, eu sonhei que fazia parte de uma espécie de máfia feminina que existia para resgatar mulheres de situações perigosas decorrentes do machismo. O grupo era conhecido como Amazonas.

Nesse último sonho, eu sempre começava minhas abordagens com muita gentileza. Eu sabia que os caras iam me ignorar ou vir com grosseria ou achar que eu estava dando em cima deles e isso me daria a justificativa perfeita para eu poder aloprar como nunca. Eu lutava muito bem e estava sempre pronta para espionar, manipular situações, argumentar, dar uns murros e também amparar as mulheres que precisavam. Eu era forte, hábil e circulava na cidade com aquela postura típica de quem não tem medo e usa roupas e calçados bonitos e confortáveis.

Tenho a impressão que as pessoas sonham umas coisas super elaboradas, inteligentes, cheias de símbolos e interpretações, enquanto eu só tenho dois tipos de sonho: os completamente cotidianos ou os roteirizados pelo meu eu criança de dez anos que sempre gostou de coisas de detetive, espionagem, máfia, bicho, ação e correria, mas sempre sentiu falta de personagens mulheres fazendo todas essas coisas. Especialmente mulheres pequenas sem salto alto.

Meu inconsciente adoraria uma versão de Velozes e Furiosos só de mulheres comuns que sabem lutar. Bastaria adicionar alguma investigação, projeto ou entrega urgente e muito importante no meio na trama e pronto. Na verdade, talvez o meu inconsciente ia gostar ainda mais se adicionassem algum animal falante no meio disso tudo.

Sei que fantasia não costuma combinar muito com filmes de ação com carros, mas, essa noite, meu eu-onírico esteve envolvido em uma missão para matar dois homens ricos e violentos em um evento de ópera. O plano deu um pouco errado e quando eu acordei, talvez ainda inebriada pelo sono, eu achei a trama interessante. Capivara, Cachorro e Crocodilo, meus companheiros, não conseguiram fazer a parte deles porque dormiram no caminho provavelmente enfeitiçados. Talvez, se saísse essa história em filme, eu encontraria a explicação para esse cochilo involuntário e para a estátua de leão que ruge para alertar que estamos em casa ou chegando, ainda que estejamos a dois quarteirões do nosso QG.

Dentro de mim, há um desejo por porradaria e um gosto por lutinha, aventura, animais falantes e correria que só pode ter vindo dos anos e anos que passei vendo Dragon Ball Z, Samurai X, Sailor Moon, Sakura Card Captors e outros desenhos. Talvez eu devesse usar esses sonhos como uma fonte de histórias para escrever roteiros, contos e poemas. Talvez eu devesse entrar numa aula de defesa pessoal assim que rolasse uma oportunidade. Nem que fosse via EAD. Talvez eu devesse entender que eu só queria mesmo me sentir forte e o quanto isso se relaciona mais com um desejo de poder e segurança do que com meu corpo pequeno e frango ou minha imaginação.

Só sei que é possível que essa noite eu sonhe que comi espinafre, como Popeye, fazendo encontrar meu desejo pela força com o cotidiano que me enfeitiça apesar de tudo. Sei lá, o sabor é bom e talvez ajude com a imunidade, né?


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Construindo no The Sims

Imagem de Pinterest

Sabe quando você decide projetar uma bela casa no The Sims com auxílio do código Motherlode, aquele que te ajuda a ter dinheiro infinito, e descobre que sua habilidade só te permite fazer algo que se aproxima mais de um bloco estranho, meio feio e sem graça?

Você quer fazer uma mansão, pode ser clássica, pode ser gótica, pode ser pós-moderna, pode ser uma simulação tosca de algum projeto do Niemeyer — que é o único arquiteto que você conhece — pode ser qualquer coisa, porque não importa.

Se você não é um verdadeiro arquiteto de The Sims, você fará a mesma casa todas as vezes. A casa enorme, cheia de cômodos mais ou menos do mesmo tamanho, que, por mais esforço que você faça, sempre parece uma caixa feia, não uma caixa moderna, ainda que você tenha conseguido dar formato um pouco diferenciado para ela.

E quando você tenta fazer um segundo andar então? Surge um caroço, bem quadrado, nessa caixeta estranha que é o térreo. Isso depois de você passar horas tentando fazer uma escada que seu Sim, burro, seja capaz de usar. A sua casa vai ter piscina, pode também ter um lago, um ofurô, um jardim, tudo isso junto e mais um pouco, mas isso não vai mudar nada. O dinheiro infinito e ficcional não te faz adquirir uma habilidade. Sua casa nunca ficará como as outras casas do jogo. Sua casa será apenas uma caixa em que você vai colocar tudo do bom e do melhor. Seu Sim, completamente sem senso estético exatamente como eu e você, não vai se importar. A não ser que você se esqueça de colocar janelas. Eles gostam de ambientes claros e arejados. Pelo menos eles gostavam quando eu tinha um computador que me permitia jogar.

A casa, ao menos por fora, terá uma cor diferenciada. Talvez um mostarda. Algo próximo do amarelo. Você vai investir dinheiro nas portas mais caras, aquelas que às vezes dão um toque clássico ao seu bloco feio ou você vai tentar abraçar a modernidade e comprar tudo que seja simples, quase minimalista, pelo menos para quem olha de fora. E você vai passar raiva, porque seu Sim vai odiar seu banheiro, todo lindamente mobiliado com banheira de hidromassagem, pia, privada, chuveiro, tudo nível dez, porque só tem uma janelinha redonda e sem graça no cômodo. Ele vai querer mais luz e você, para agradar, vai colocar um tanto dessas janelinhas horrorosas do lado da outra no espaço que couber. E você sabe, né? Vai ficar terrível, como se você tivesse adicionado buraquinhos seguidos numa caixa de papelão colorida para seu gato brincar.

Você vai adicionar tudo que o dinheiro permitir e isso vai deixar o espaço amontoado de coisas que ficam pouco identificáveis de longe. Bem feio, sem qualquer sentido, sem qualquer distribuição pensada, mas não importa, porque o seu Sim terá tudo que o faz feliz na mão. Inclusive estantes enormes, bonitas, de madeira escura, brilhante, que lembram filmes que se passam em universidades antigas, do lado de uma geladeira de uma última geração prateada, como a modernidade deseja que seja. Como ela fez a gente imaginar que ia ser.

A verdade é que o único jeito de brincar de fazer algo bonito sem qualquer talento para construção virtual é a imaginação. Só nela nossos projetos ficam tão bem compostos, desenhados, completos e fotografáveis como a gente deseja.

Pense numa casa. Ela é ampla, tem espaço para tomar sol, tem um jardim, um lugar para fazer esportes, ela parece um hotel fazenda caríssimo. Ela tem detalhes em madeira, um toque country para combinar com o espaço verde, ela é bege ou gelo, ou alguma cor parecida com essas duas, mas que recebeu um nome muito diferente da empresa de marca de tintas. Ela tem uma porta ampla, também de madeira, madeira da mesma cor das vigas e enfeites. Tem janelas que abrem para fora, aquelas que possuem asas ou abas e se recolhem na hora de dormir, porque você tem que fechar tudo para que ninguém invada sua casa. Não há um tanto de janelas de banheiro seguidas. E mesmo as poucas que tem possuem esse toque de madeira presente em toda a casa. Você também pode mudar tudo e colocar a parede com textura, talvez até de tijolinhos. Ficaria rústico, né? E o telhado? Você colocaria uma certa assimetria nele, adicionaria chaminés e talvez um sótão. É sempre bom ter um sótão. Dá um ar mais antigo e cheio de mistério a um projeto novo e tem muita gente que liga isso à identidade. Essa casa dá para um terreno verde, com algumas pedras, árvores, tudo natural, tudo da vegetação do lugar que tem aquele toque mata atlântica. Você decide que tem que colocar piso formando caminhos entre a piscina, a churrasqueira, o chalé das visitas e a natureza que você vai querer ver mais de perto. Vai que vez ou outra aparece um tucano ou até uma arara ou um mico-leão-dourado. Você decide usar um piso que parece pedras para ligar a casa aos espaços externos. Para ficar bem natural, repito, porque é isso que você quer. Você começa a pensar em bangalôs, eles são lindos, com seus detalhes feitos de palha, tecido branco, mesinhas baixas de madeira e almofadas coloridas para sentar. Meio desconfortável isso, né? Mas muito bonito. Só que ninguém realmente gosta de sentar em lugares sem encosto. E então você começa a pensar que é um saco tudo muito natureba assim, porque não combina com a piscina. A piscina vai ter que ser aquelas naturais? Sem cloro? Com uns peixes no meio? Você vai pensar em trocar a piscina por um lago. Seu Sim vai ter que gostar de pescar, hein? Você começa a pensar que deveria fazer um negócio cheio de vidro, cor gelo, meio que sem telhado muito visível, aqueles projetos que parecem uma caixa, mas uma caixa estilosa, uma caixa que quer ser caixa e usa isso ao seu favor. Aquelas que tem dois andares, tem sacadinha, lugar para você olhar a natureza sem se aproximar muito. Desse jeito dá para colocar os móveis ultra modernos e prateados sem neurar que não combina, né? Você vai nessa, imagina, imagina, imagina e recomeça. Você faz isso eternamente até cansar e no fim nem joga The Sims. O que no meu caso é bom, porque meu computador não aguenta.


Esse texto foi feito a partir do dia 7 do #EscritaNaQuarentena, desafio de escrita criativa proposto pela Stefani Del Rio para a gente tentar se distrair um pouco durante esta pandemia. A proposta de hoje pedia para inventar um lugar e descrevê-lo. Saiba mais sobre o desafio aqui.