Crônica da praça que se molda à imagem e semelhança dela mesma

Quero entender melhor os diferentes tamanhos que a pracinha que eu ia durante a infância pode assumir.

Parei de crescer faz tempo, mas ainda assim toda vez que piso aqui adulta, a lembrança do que a pracinha foi se transforma.

Ela se expande sob o meu olhar atento às diferenças, mas eu pareço cruzá-la em tão poucos passos. Ela está cada vez menor, mas seu limite ainda está em outro tempo. Ela parece mais vazia sem os bichos que eu costumava encontrar ali nas minhas expedições como wannabe biológa, mas também mais ocupada agora que tem até aparelho de ginástica. A árvore que levou pedaços dos meus dentes numa trombada com minha bicicleta ainda parece ameaçadora.

Penso em quantos passos o Billy precisa dar pra me acompanhar. São os mesmos de quando ele era jovem? E me pergunto quantas pisadas Faruck I precisava para cortar toda essa pouca extensão e nos tantos milhares de odores que Faruck II pode cheirar ali todas as vezes que o acompanhei.

Com a mi band presa ao meu pulso, sei exatamente quantos passos eu precisei dar para medir esse cenário e isso não é o suficiente para me convencer da diferença do que vejo, sinto, lembro.

Atravesso, calculo o raio, elevo-o ao quadrado, multiplico o resultado pelo pi. Encontro minha recuperação de matemática. Volto pra casa em 2003.

Tudo mudou.

E toda vez que mudo, uma nova perspectiva vira possibilidade. Com uma câmera nas mãos, posso ver a praça sob outro ângulo, o do pássaro que nunca fui. E, depois, quando voltar, lembrar diferente, como se em algum momento da minha história, eu tivesse sido dona desse céu de inverno.

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Pães em formato de bicho

Carlos Avelino/PBH

Um pão capivara passou na minha timeline do Twitter esses dias. Ele era tão bem feito que até orelhinhas tinha. Fofinho e coradinho, como uma capivara deve ser. Ele era feito de trigo, como os pães são. Ele me lembrou a minha infância.

Quase todo sábado, eu ia para casa dos meus padrinhos. Eu amava aquela casa. Ela era ampla, tinha uma romãzeira, plantas de todo tipo, flores, livros, revistas e muitos gatos. Não tenho certeza se minha tia já era instrutora de ioga, mas sei que ela me ensinava alguns movimentos nas horas vagas. Eu amava quando ela elogiava a minha flexibilidade e todas as posições com nome de bicho. Já meu tio, professor de biologia, sempre estava pronto para me dar uma informação nova sobre algum animal da natureza. Inclusive, toda vez que o tempo permitia, ele me levava para caminhar na beira do rio Itapecerica. “Em tupi-guarani, Ita significa pedra e pecerica lisa ou escorregadia”, ele sempre me dizia ou eu dizia e ele, porque tinha ouvido algo assim na escola. Já não sei mais. De longe, caminhando ao lado dele, eu via capivaras, pássaros, borboletas e um rio sofrendo com assoreamento, enquanto recebia algumas informações sobre reino, filo, classe, comportamento e reprodução de cada ser vivo avistado. E, fora tudo isso, eles gostavam de me ouvir falar. E, caramba, como eu tinha palavras a dizer!

Nessa casa, além da ioga, da biologia, dos gatos e dos livros, eu tinha acesso a um pão doce em formato de jacaré. Ele era enorme, tinha rabo, patas e até aquele levantadinho perto da testa onde os olhinhos ficam. Sendo esses olhinhos, no caso, vermelhos, feitos com aquela cereja-chuchu típica dos anos 90. Lembro que o coco ralado representava as escamas do bicho. Ele era lindo, delicioso, fora os olhos, e fazia totalmente a minha cabeça.

Meus pais nunca compraram pão jacaré pra mim. Ele representava um achado dos meus padrinhos, algo que somente eles podiam ter encontrado e comprado para me agradar. Esse pão era vendido numa padaria próxima da casa deles e era especial: somente podia ser comprado aos sábados. Talvez era até algo encomendado. Não sei. Só sei que vez ou outra, ao chegar na casa deles, já era levada até a padaria e aproveitava o momento para observar tudo. Eu não podia deixar escapar nenhum detalhe daquele bairro com Velho no nome, daquele morro todo, daquelas pessoas, daquela rua movimentada, daquela padaria que fazia pães de jacaré.

Queria absorver tudo ao meu redor, aproveitando aquela ilusão infantil de que andar ali representava alguma liberdade especial, bem aquela que é dada a todos que se colocam como aventureiros, desbravadores e conhecedores do mundo. De cima, já quase na padaria, eu olhava para a rua que continuava, pra mim infinitamente, e pensava na ponte, no rio, no fato de que minha casa estava bem do outro lado, além do horizonte. Em algum lugar naquela vastidão toda que era Divinópolis para a menina Thaís, devia haver jacarés que não eram feitos de pão. Tinha que haver.


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Toda vez que vejo vocês falando de bicicleta me dá vontade de falar isso aqui ó

Não se engane com essa foto do Fernando Meloni, essa bicicleta com certeza não é tão pura e inofensiva como você foi levado a crer.

Eu sou covarde. Eu não ando de bicicleta. Nem nas melhores e mais caras. Eu passo, porque não dá, sabe? Muitos traumas. Todas minhas histórias de bicicleta envolvem acidentes. Alguns não chegaram a acontecer de fato, mas eu vi a possibilidade se aproximar e já foi ruim demais. Eu aprendi o risco na prática, tanto é que meus dois dentes da frente são trabalho de dentista por causa dessa merda.

Não consigo esquecer do meu pai chorando desesperado quando me viu toda ralada, também chorando e desesperada, com os dois dentes da frente quebrados e vários pedacinhos deles na mão junto com um tanto de sangue, enquanto arrastava minha bicicleta toda empenada.

Pior é que mesmo depois disso, passados alguns anos, eu tentei andar de bicicleta de novo. Não sei direito o porquê. Devo ter achado que eu era invencível, já que tinha uns treze anos e adolescente tem dessas coisas. Quase atropelei uma criança de dois anos nesse dia, porque ela achou de bom tom aparecer do nada no meio de uma pista para bicicletas.

Assim como deve ter acontecido com essa criança marcada por esse quase acidente em que fui pivô, eu também inaugurei a minha sina com esse veículo a partir de uma experiência que aconteceu mais ou menos nessa idade. Sentada no chão do passeio estufado da porta de casa, fui semi-atropelada por um menino que se desequilibrou da bicicleta por causa desse solo de irregularidades e caiu em cima de mim.

Agora não chego mais perto desse instrumento do diabo. Não chego. Você não vai conseguir me convencer a subir numa bike, ninguém vai. Pode parar de argumentar, você está perdendo seu tempo. Mas, ó, não vou mentir, vez ou outra chega na memória a sensação do vento batendo no rosto, enquanto eu ganho velocidade. É lindo demais e dá uma saudade, você nem imagina. Isso dura até eu lembrar dos meus dentes quebrados. Passa na hora.


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Meu museu de papel

Em algum momento entre 24 de abril e 2 de setembro de 2007, eu estive com a escola no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo. Essa foi a primeira vez que visitei a cidade e um dos meus contatos mais esperados com a literatura, a palavra e a memória.

Lá eu ganhei uma caderneta que tem estampada uma foto da Clarice Lispector e, por incrível que pareça, eu ainda a uso. Mexer nela é muito estranho. É transitar por diversas épocas da minha vida. O passado distante, mas também aquele mais próximo, convergem no hoje, no agora.

Tem anotação de pontuações de jogos de baralho, protocolos, rascunho de trabalho de geografia, brainstorm para texto do Ativismo de Sofá, poemas que me contam sobre sofrimentos que nem lembro, lista de possíveis temas para meu TCC em Direito, trechos aleatórios de livros do Guimarães Rosa e até as anotações da palestra que dei dia 03/08 desse ano e do livro que li ontem.

É um caos, mas é um caos tão meu que é até bonito, principalmente porque toda vez que olho a capa desse caderno, eu me lembro dessa época em que eu descobria Clarice, Leminski, Caio Fernando, Carolina Maria de Jesus, Graciliano Ramos, Machado e o livro “26 poetas hoje”. Visitar esses papéis, enquanto eu escrevo o agora na folha da frente, é passear no museu particular de descobertas que me tornaram quem eu sou.


Nessa mesmíssima época, eu também descobria Fernanda Young, mas isso eu só me lembrei alguns dias depois de escrever esse texto, quando saiu nos jornais a notícia triste do falecimento da escritora. Fiz uma breve homenagem a ela e ao que ela me ensinou com sua obra em um texto que postei em minha página no Facebook na data. Confira aqui.


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O horrível, grande e feroz Planetaril Quadrilevegentet

Pasta de contos de terror — Arquivo pessoal.

Enquanto vasculhava todos os cômodos da minha casa em busca de um documento, eu encontrei um mundo de lembranças.

Entre revistas adolescentes, uma agendinha, um certificado do PROERD, um caderno de caligrafia e um papel que dizia que eu tinha concluído todo o curso de natação do clube, encontrei uma pasta com os dizeres “Contos de terror” toda desenhadinha por mim e recheada com meus primeiros contos de terror e de exercícios escolares de construção de personagens, ambientação e afins.

Ser escritora é um sonho que me acompanha desde a infância, encontrar esses papéis é reconhecer quem fui e redescobrir a força do meu anseio que permanece atual. Eu tinha nove anos quando esses textos foram feitos e sei que eles foram os primeiros de terror, mas não os primeiros de tudo. A história começou antes disso.

Descobri que eu escrevia e usava canetinha para fazer as letras escorridas, desenhar uns fantasminhas e adicionar detalhes como morcegos, escorpiões e aranhas. Tudo isso com muito vermelho. Aparentemente, eu era uma fã da estética do terror e sempre quis ilustrar o que escrevo. No meio dessa papelada, descobri o perfil do personagem chamado “O horrível, grande e feroz Planetaril Quadrilevegentet”. Descrevi suas práticas, suas armas, seu corpo e até mesmo a origem do seu nome e sua história. Ele era inicialmente um homem chamado Gem que foi transformado em ET, mas fugiu no meio do processo, caiu no fogo e ficou assim, feio e ruim. Ri do nome, me surpreendi com a riqueza de detalhes e com as referências que já davam as caras. Quadrilevegentet usa uma máscara de hóquei, assim como Jason. Filme que só fui ver anos depois, mas a icônica máscara do filme, que eu já conhecia pelas propagandas e posteres da locadora, já me fazia arrepiar de medo e valia como descrição de personagem malvado.

Planetaril Quadrilevegentet — Arquivo pessoal.

Contei histórias de maldições, ets, bruxas, casas mal assombradas e elas estão aqui guardadas para me lembrar que o medo, a construção do que é horror e ruim e de quem eu quero ser já se faziam presentes antes de eu saber que eu viro passado.

31 de outubro, dia das bruxas, precisei revirar memórias bem hoje e depois de anos arrumando o armário sem encontrar meus escritos infantis de terror, eles apareceram. Acho que as bruxas querem me dizer que eu devo continuar escrevendo.


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