Perguntar é processo criativo, tentar responder também, conseguir eu já não sei se é

Acervo pessoal

Quem escreve vive se deparando com essa pergunta. Não necessariamente vinda do eu, no caso. Ela chega, na maioria das vezes, em tom de inquérito e na voz de um outro alguém, mas às vezes fica, e reverbera com esse eu bem destacado e acaba virando investigação pessoal, obsessão, tragédia, caso de família, sessão de terapia e até tema de livro.

O “por que você escreve?” sempre vem intimidador e pode permanecer assim até quando o pronome muda. Eu mesma nunca soube dar uma resposta definitiva ou mesmo satisfatória para essa indagação. Seja ela vinda do você ou do eu.

Sei lá. Acho que gosto justamente é dos muitos porquês possíveis e da expectativa de ficar transitando na vida e nos textos a partir do desejo no sentido mais amplo da palavra. Busco o movimento que a escrita evoca, não a rigidez das respostas.

Ainda que todo questionamento importe, nem tudo precisa de fins e certezas. Principalmente quando estamos falando em criação. Às vezes os meios importam mais.

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Crônica da praça que se molda à imagem e semelhança dela mesma

Quero entender melhor os diferentes tamanhos que a pracinha que eu ia durante a infância pode assumir.

Parei de crescer faz tempo, mas ainda assim toda vez que piso aqui adulta, a lembrança do que a pracinha foi se transforma.

Ela se expande sob o meu olhar atento às diferenças, mas eu pareço cruzá-la em tão poucos passos. Ela está cada vez menor, mas seu limite ainda está em outro tempo. Ela parece mais vazia sem os bichos que eu costumava encontrar ali nas minhas expedições como wannabe biológa, mas também mais ocupada agora que tem até aparelho de ginástica. A árvore que levou pedaços dos meus dentes numa trombada com minha bicicleta ainda parece ameaçadora.

Penso em quantos passos o Billy precisa dar pra me acompanhar. São os mesmos de quando ele era jovem? E me pergunto quantas pisadas Faruck I precisava para cortar toda essa pouca extensão e nos tantos milhares de odores que Faruck II pode cheirar ali todas as vezes que o acompanhei.

Com a mi band presa ao meu pulso, sei exatamente quantos passos eu precisei dar para medir esse cenário e isso não é o suficiente para me convencer da diferença do que vejo, sinto, lembro.

Atravesso, calculo o raio, elevo-o ao quadrado, multiplico o resultado pelo pi. Encontro minha recuperação de matemática. Volto pra casa em 2003.

Tudo mudou.

E toda vez que mudo, uma nova perspectiva vira possibilidade. Com uma câmera nas mãos, posso ver a praça sob outro ângulo, o do pássaro que nunca fui. E, depois, quando voltar, lembrar diferente, como se em algum momento da minha história, eu tivesse sido dona desse céu de inverno.

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24 de maio

Obrigada pela imagem alcançada, editor Canva

Tenho sentido o tempo me atropelar. Não por excesso de tarefas necessariamente, mas porque por aqui não se encontra foco algum. Tenho a sensação que sem a rua, as caminhadas, os bares e os encontros, toda a diversão passou a ser mediada pelas telas, por alguma espécie de consumo e também por um cansaço sem nome que vem da desolação coletiva que vivemos como brasileiros.

Por isso, na última newsletter do apoia.se, falei sobre ser impossível acompanhar tudo, sobre como nosso entretenimento tem sido reduzido, cada dia mais, a quantidade de coisas que a gente consegue ver/ler/ouvir em velocidade recorde, sobre eu não querer alimentar essa dinâmica que é causa e consequência da ansiedade que minha geração convencionou chamar de fear of missing out (FOMO).

Estamos exaustos e exaustos achamos que descansamos buscando mais exaustão, correndo ofegantes atrás da ilusão de um respiro, um tempo pra nós e de um desligamento momentâneo da noção de onde estamos.

Tenho tido muita dificuldade de me encontrar em meio a tudo isso e, principalmente, criar qualquer coisa. E, apesar da minha mente sempre acelerada, nesse meio tempo tenho sentido a necessidade de tentar cultivar o valor de fazer as coisas devagar, tentando descobrir o que é ágil em mim porque sim e o que foi ficando desse jeito porque o mundo assim impôs.

Quem sabe construindo um novo jeito de funcionar, encontrarei de novo a fluidez criativa que sempre me comoveu. Quem sabe tentando fazer diferente e enfrentando a inércia dos hábitos, vou esbarrar de novo com a vontade que nos leva ao movimento. Talvez essa seja a única esperança que eu sou capaz de cultivar nesses dias de tanta indignação. Todo resto, infelizmente, parece uma utopia que eu desaprendi a imaginar.

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Parece uma conversa, só que isso aqui é mais pretensioso


— Depois temos que fazer a sua entrevista. Eu tive uma ideia ótima. Eu abro um documento no drive, falo umas coisas, faço uma pergunta ou uma afirmação e você vai e comenta ou responde.

— achei vanguarda, fluido, arrojado, os artistas mais engajados na cena certamente devem ter um nome pra isso.

— Parece uma conversa, só que vai ser mais pretensioso. Inclusive acho que podemos começar com isso aqui.

— devia se chamar assim: “parece uma conversa, só que é mais pretensioso”.

*editando o nome do documento no drive*
*salvando…

*alterações salvas no drive

— Ninguém morre sem ser anunciado. Esse é um bom título, viu? Você se considera uma boa criadora de títulos? Você criou esse antes de iniciar a escrita do seu primeiro livro ou foi algo que surgiu durante ou mesmo depois?

— É uma pergunta difícil (quando me perguntam alguma coisa, meu cérebro trava. perguntas são difíceis). mas a ideia veio de um esquete do programa “tv pirata”, que era mais ou menos assim: umas pessoas sentadas em uma mesa jogando pôquer, e, não sei por que, eles começam a impedir as pessoas de sair da mesa. passam dias lá. quando alguém esboça alguma vontade de sair, eles gritam “ninguém sai, ninguém sai!”. eu encaro a vida um pouco assim, não quero perder ninguém, então baixinho, sempre estou dizendo “ninguém morre. ninguém morre!” a parte do “sem ser anunciado” é porque a morte também tem essa face “apoética”, vamos inventar essa palavra. esse lado burocrático. me lembra um funcionário público desmotivado que colocou um cartaz passivo-agressivo no seu guichê escrito “ESPERE SER ANUNCIADO”. a ideia do livro é ficar meio que transitando por esses dois lugares horríveis.

— Então o título é o resultado da mistura de algo extremamente emocional, sensível e complexo, como a morte e todas nossas relações, com uma planilha do Excel? Se a morte fosse mais burocrática, ela seria mais simples ou mais complicada? Eu voto em complicada, porque eu estudei Direito na faculdade e depois dividi parede com uma advogada de direito de família e sucessões e simplesmente sei que testamento, herança, pensão por morte e todo o resto da nossa vida civil só dá problema. Já que estamos falando de Direito, queria saber se você não teme ser processada por algum síndico que ler seu livro. A Ceci comenta algumas particularidades do exercício dessa profissão ou do perfil desses profissionais com uma certa crueza.

— sim! ter que “dar baixa” do seu familiar no sistema é melancólico. e solitário, já que acaba sobrando sempre para uma pessoa só. no tocante ao síndico, tive uma experiência de quase-morte na mão de um síndico uma vez, e acho que isso acabou me marcando negativamente: na faculdade, dividia apartamento com mais três meninas em bauru e, uma noite, acordei meio zonza, com um barulho esquisito vindo da cozinha. um cheiro esquisito. já antevendo a desgraça, fui, guiada pela luzinha do celular até o fogão e vi que estava JORRANDO GÁS pela mangueira, que tinha se desconectado. descemos até a portaria correndo, o porteiro disse que não podia sair de lá e chamou o síndico. no apartamento, a primeira coisa que o síndico fez foi LIGAR UM VENTILADOR NA COZINHA, “para passar esse cheiro ruim”. eu falei “mas meu senhor, se a tomada produzisse uma faísca, ia tudo pelos ares.”, ele me olhou como se as leis físico-químicas que regem o universo simplesmente não se aplicassem naquele espaço. eu não sei quantas pessoas um síndico é capaz de matar por ano, mas suspeito que esse número não seja muito baixo, não. algum síndico já tentou te matar, thaís?

— que eu saiba não. Minha experiência com síndicos são parcas. Vivi quase a vida toda em casa. Todo o risco residencial que já corri foi por culpa exclusiva minha ou da minha família mesmo. Apesar disso, eu não posso afirmar que nunca rolou nada, porque já morei em um prédio enorme em que aconteceu uma eleição de síndico que foi muito intensa. Todo dia amanhecia com um bilhetinho debaixo da porta sobre os riscos de votar no outro candidato. Meu voto era disputado. Eu devia ser um desses indecisos, alvo de campanhas vira-voto, sabe? Eu sequer sei se eram os candidatos que diretamente passavam essas mensagens para mim por debaixo da porta ou se eram seus cabos eleitorais. Eu só sei que eventualmente avisei na portaria que eu não ia votar, porque na data não estaria na cidade. Se esse texto fosse uma autoficção, eu falaria que nessa mesma semana o elevador enguiçou comigo dentro. Na verdade, até onde sei, nada aconteceu, mas como disputaram tanto meu voto e usaram muita tinta de suas impressoras, eu sinceramente não duvido que a decepção deles com a minha ausência pode ter encadeado alguma tentativa de assassinato que não deu certo e eu nem fiquei sabendo. Disputas eleitorais, né? Eu tinha uma pergunta para você, mas eu confesso que agora me perdi. Deve ser por isso que falam que o entrevistado não pode fazer perguntas, né? O entrevistador não consegue estar em dois lugares ao mesmo tempo em um mesmo texto. Vamos falar de texto então, né? Como você escreve? Você tem alguma rotina de escrita?

— Essa história é muito boa (aqui pensando que eu devia ter coletado dos amigos experiências esquisitas com síndicos, pra aproveitar no livro. mas agora ceci é morta [não sei se isso se classifica como um spoiler]). sobre minha rotina de escrita: eu não tenho nada vagamente parecido com isso. escrevo no tempo livre, e não é todo dia que tenho tempo livre. às vezes tenho tempo livre, mas não tenho vontade de escrever. a única coisa que faço diariamente é anotar alguns trechos soltos de diálogos que tenho com as pessoas, ou que ouço de terceiros. anoto também algumas ideias, frases avulsas, que servem de inspiração quando sento pra escrever. vou lendo essas coisas que anotei, e de repente uma ou duas frases despertam alguma ideia, aí escrevo o texto. funcionaria melhor se eu não fosse tão desorganizada. essas anotações estão espalhadas entre vários rascunhos do medium, um arquivo do google docs e um grupo do whats que eu tenho comigo mesma (jogo algumas ideias ali quando estou fora de casa, ou simplesmente com preguiça de ir até o notebook anotar).

— Eu tenho um texto que agora me parece ótimo, já escrito, prontinho para ser publicado, seja em livro ou no Medium, inspirado livremente em uma vizinha que tive nesse prédio. Também tenho uma narrativa de tamanho indefinido já começada, mas muito pouco desenvolvida, em que uma das personagens principais surgiu a partir da observação lúdica da porteira diurna das terças, quintas e sábados. Acho que eu deveria juntar tudo, desenvolver o que falta e publicar um livro chamado “Condomínio Alguma Coisa”, sendo o alguma coisa apenas uma expressão para me lembrar que seria legal especificar sem falar o nome real do prédio que morei e assim evitar conflitos. O que você acha, Paula? Desculpe te usar como consultora de projetos, mas é tão difícil escrever sem alguém para afirmar o que a gente quer ouvir. Acho que posso abusar um pouquinho da minha posição de entrevistadora já que dividimos esse desejo por escrever livros e você mesma elogiou minha história. Enfim, vejo que você tem um interesse genuíno em diálogos. O que você acha que faz com que conversas te atraiam tanto? O que elas têm de tão especial ao ponto de serem uma grande fonte de ideias pra você? Você gosta mais de captar conversas de ônibus ou de mesa de bar? Como você está fazendo para escrever durante o isolamento social já que ele reduziu tanto a possibilidade de se ouvir conversas alheias de desconhecidos?

— Eu acho que você deveria pegar firme nessas histórias, terminar e publicar. porque (1) são boas, (2) já estão mais ou menos prontas e (3) eu fiquei com vontade de ler. eu não sei porque eu gosto tanto de diálogos. meus processos criativos não estão claros pra mim. nada que produzo é muito consciente. mas se tivesse que elaborar uma resposta mais aceitável, diria que o que mais gosto dos diálogos é o ruído. as falhas de comunicação. o falar uma coisa e o outro entender outra. vejo menos como um encontro de ideias e mais como um choque, uma colisão, um esbarrão. eu prefiro conversas de ônibus. conversas de bar, pra mim, se esgotam nelas mesmas. não acho que dão bons materiais. está realmente mais difícil buscar inspiração durante a pandemia, já que ando tendo pouquíssimo contato com outras pessoas. mas por sorte tenho uma vizinha que fala alto, com a família e no telefone. anoto quase tudo que ela fala.

— Com sua aprovação, me animo. Considero que o primeiro passo do projeto foi dado: a ideia foi falada para alguém, tomando forma o suficiente para puxar meu pé de noite e não me deixar mais dormir. O processo criativo é um negócio engraçado, né? A gente fica tentando racionalizar, mas ele simplesmente acontece. Não tem tanta lógica quanto a gente quer acreditar que tem, né? Queria saber algumas coisas: 1) você se sente uma espécie de antena por gostar tanto de conversa alheia? 2) o que você faz quando algum conhecido, falando diretamente com você, fala algo que cairia perfeitamente em um texto? O que ele fala vira matéria-prima? Você vai e transforma a fala dele em um personagem de um romance? Como você criou os personagens do “Ninguém morre sem ser anunciado”? Por que você é Ceci no Medium e não simplesmente Paula? Estar ali com um outro nome que também é personagem é uma espécie de performance que brinca com a tal da autoficção? (CARAI OSTENTEI DEMAIS NESSA PERGUNTA QUASE ME SENTI CULTA)

— Eu só sei que tenho sorte de morar no brasil gostando tanto de ouvir a conversa dos outros.aqui as pessoas falam muito alto e são muito didáticas e ricas em detalhes quando contam histórias. facilita meu trabalho. quanto a usar parentes e amigos como fontes de inspiração, pratico muito.me aproprio de histórias, frases, traços de personalidades deles. uso muita coisa minha também, mas, para evitar o “climão” de alguém se reconhecer ali, não gostar e vir tirar satisfação comigo, eu uso tudo misturado. nenhum personagem que faço é baseado 100% em uma pessoa só, tem um pouco de uma tia, um pouco de um amigo, um pouco de mim mesma. a questão do meu perfil do medium ser “Ceci” e não “Paula” é porque no começo, quando fiz o perfil, a minha ideia era outra. era fazer uma longa história, composta por episódios, envolvendo a personagem Ceci, uma escritora. pensando agora, essa ideia talvez pudesse ser chamada de autoficção, sim. a questão toda é que eu escrevi uns 3 textos nesse formato, depois desencanei e comecei a escrever sobre qualquer coisa. o nome “Ceci” acabou ficando lá por preguiça de mudar e também porque me parecia uma boa manter certo nível anonimato, já que acabava me expondo muito nos textos. isso era uma preocupação no começo. depois acabei desencanando do anonimato também, então o Ceci só se mantém lá até hoje por pura preguiça de mudar mesmo.

— Eu acho esse negócio de pseudônimo chique demais. Mesmo se não for secreto. Também gosto de nome artístico diferente do nome original. Acho elegante, sabe? Tem um certo desprendimento com a própria identidade. Acho bonito isso, humilde talvez. Me conta aqui, como você se apresenta para as pessoas? Você fala que é escritora? Acabou que a entrevista não teve apresentação e seria bom ter, né? Vou usar essa pergunta para fazer o famoso “seu nome, seu bairro” só que mais completo, porque todo escritor precisa falar muito de si mesmo, mesmo que seja só por meio do seu trabalho. Faz parte da profissão. O leitor espera isso, entende? (Não esquece de falar suas referências na hora de falar bastante de você).

— rindo sozinha aqui com o “seu nome, seu bairro” que me lembrou o vídeo do “passa longe” da xuxa (até abri aqui no youtube pra ver de novo. NÃO PERDE A GRAÇA, é impressionante). eu não me apresento como escritora porque ainda sou muito insegura com a minha escrita (digo “ainda” como se isso fosse mudar um dia, bem iludida). sou mais segura em minhas outras ocupações: doutora/pesquisadora/professora de cinema e tenho uma empresa de foto e vídeo de eventos. mas sou a favor das mulheres reivindicarem mais a definição de escritora. se você for olhar os “about me” aqui do medium, a maioria dos perfis dos homens tem a palavra “escritor”, junto com mil outras coisas. “pintor, pesquisador, cineasta, fotógrafo etc.” as descrições dos perfis femininos são bem mais hesitantes, inseguras. evitam afirmar que são profissionais e artistas, e que fazem essas coisas muito bem. sobre as referências, vou citar algumas mulheres na ordem que elas forem surgindo na cabeça: Ottessa Moshfegh, Giovana Madalosso, Conceição Evaristo, Patricia Melo, Ali Smith, Chimamanda Ngozi Adichie. Quais escritoras aparecem rapidamente na sua cabeça, assim, sem muita análise e ordem específica?

— Você me pegou. Eu não sei listar nada. Eu fico muito nervosa. Sério. Dá branco. Eu não consigo lembrar de nada que eu li e gostei na vida. Acho que eu falaria Angélica Freitas, Wislawa Szymborska, Conceição Evaristo, Caitlin Doughty, Ana Martins Marques,Natália Borges Polesso, Elena Ferrante, Jarid Arraes, Ana Paula Maia, Mariana Salomão Carrara, Olivia Laing, Vivian Gornick, Paloma Vidal, Verena Cavalcante, Ana Cristina César, Chimamanda Ngozi Adichie e Patrícia Melo também, mas da última só li “O matador”. Nessa linha de só li um livro da autora, mas elas tomaram meu cérebro de mim, eu colocaria a Jenny Zhang, a Celeste Ng, a Ana Maria Gonçalves, a Ruth Guimarães e a Nicole Dennis-Benn. Não sei se posso listá-las então. Eu acho que o fenômeno de ter medo de se definir como escritora me atinge até na hora de me apresentar como leitora. É esquisito. Como costumo encontrar coisas boas e interessantes em toda leitura que faço, eu duvido do meu senso crítico o tempo todo.

Eu imaginei que após a publicação de um livro, a gente começasse a se definir como escritora com mais facilidade. Pelo jeito não. Como você comentou sobre sua pesquisa e trabalho em cinema, queria te perguntar se você já trabalhou com roteiro. Se sim, como foi? Quais as principais diferenças entre criar um roteiro e criar um livro?

— Fiz roteiro na faculdade e agora faço esporadicamente, para alguns projetos pessoais. o roteiro, diferentemente do livro, é um documento efêmero, transitório. o objetivo dele é virar filme. por ser um documento que precisa ser facilmente assimilado por toda a equipe de produção, ele tem formato e estilo próprios. é dividido por unidades espaço-temporais (as cenas) e tem um jeito certo de escrever (frases no presente, a descrição das ações tem que se ater ao campo do visível, ou seja, o que está sendo visto pelo espectador, não tem descrição de estados mentais/emocionais das personagens, etc.), isso porque a história é do roteirista, mas o estilo quem dá é o diretor. já no livro o escritor tem o controle de tudo. outra grande diferença é que no roteiro a liberdade criativa fica um pouco restrita ao orçamento do filme, que, em geral, no brasil, é baixo. de repente você colocou uma cena de helicóptero no roteiro, a produção não conseguiu captar recursos pra alugar um helicóptero e te pede pra adaptar a cena, trocando o helicóptero por um carro ou uma moto. eu não se foi um bom exemplo, mas acho que deu pra entender?

— Deu pra entender, mas eu demorei quase duas semanas para processar. Eu tenho medo de falar de filme, porque tudo parece muito complexo e eu vejo poucos e nem como amadora posso comentar grandes coisas. Fora que eu acho que eu idealizava o roteiro. Eu acho bonito falar em cenas. Adoro captar cenas em textos literários, pegar uma no meio de uma poesia, falar em literatura cinematográfica. Me tira uma dúvida: o roteiro então pensa nas cenas do filme, mas isso é feito de uma maneira mais prática do que estética? A estética da coisa então fica mais nas mãos da direção e outros profissionais do cinema que eu não saberei nomear porque eu não sou muito esperta?

— que doidera esse papo. amo. literatura cinematográfica é algo que nunca tinha pensado, mas acho possível, do mesmo modo que vejo fotos de alguns animais que parecem misturas de duas espécies improváveis, e penso “pode ser montagem, pode ser verdade”. a questão toda é o que seria esse elemento “cinematográfico” do texto literário. a descrição de cenas por si só não seria, já que é própria da literatura, mas penso que determinados tipos de cenas e a forma como elas são descritas no texto possam incitar o leitor a imaginá-las como cenas de um filme. é algo que nunca tinha pensado. em ninguém morre sem ser anunciado eu tentei estruturar os capítulos como se fossem pequenas cenas de um filme, com grandes elipses espaço-temporais entre elas, que não são explicadas ou resolvidas. pensando agora, acho que foi um jeito que meu cérebro encontrou de conciliar essas duas linguagens, a cinematográfica, que é minha área de pesquisa, a e literária, que pratico no tempo livre. mas sobre a possibilidade de existir um estilo de escrita cinematográfico, é algo que nunca tinha pensado e agora não vou conseguir parar de pensar.

mas sobre o roteiro ser mais prático do que estético: é bem por aí mesmo. as preocupações maiores do roteiro são a história, a estrutura dessa história (enredo) e os diálogos. essa história só começa a ganhar “uma cara” quando o diretor e o diretor de fotografia cortam as cenas em planos (o que chamamos de decupar o roteiro), a direção de arte cria os cenários, figurinos, etc. e os atores estudam como vão interpretar os personagens.

— Um livro que me veio na cabeça quando falei isso foi o “Karen” da Ana Teresa Pereira. Posso estar enganada na minha avaliação de pessoa que vê pouquíssimos filmes, mas tem uma coisa de filme de suspense nesse livro que é diferente de simplesmente literatura de suspense. Não sei explicar. Falando nisso, o que você faz quando você não sabe explicar alguma coisa num texto? E como você sabe que chegou a hora de acabar um texto ou mesmo uma entrevista? Estou meio perdida aqui, mas me parece que sete páginas de entrevista faria qualquer editor me matar, né?

— tem horas que simplesmente jogo a toalha. coloco na boca do personagem ou do narrador “não sei explicar” e sigo em frente, torcendo para ser entendido como um recurso estilístico pós-moderno e metalinguístico que assume a impossibilidade de elaborar sobre certas coisas, temendo ser entendido como incapacidade da autora de elaborar sobre certas coisas.

sobre a hora de acabar um texto, meu método: vou escrevendo até sair uma frase da qual gosto muito. fico com a sensação de que dificilmente vai aparecer outra frase tão boa quanto. respeitando o princípio da precaução, decido parar. com entrevistas, já não sei. acho que começar uma entrevista é assumir o risco de ela durar indefinidamente. mas como isso não é bem uma entrevista, e mais uma conversa, acho que podemos interrompê-la bruscamente com um “deixa eu ir que tenho que fazer o almoço ainda” ou então “amiga, o moço do delivery tá me ligando, deve tá perdido, vou desligar aqui pra atend””.

— Ah, sim. Entendi. Eu gosto da estratégia de boas frases para terminar com tudo. Na vida a gente termina tudo com “hmmmmm”, “né” e “ééééé”, então é sempre bom ter alguma novidade.

Como é bom conversar com você, Paula! A gente tem que fazer isso mais vezes, né? E marcar alguma coisa depois que a pandemia passar! Até porque nem combinar um encontro mascarado numa praça quando as coisas começarem a melhorar de novo vai dar já no nosso caso envolve ter que viajar e tudo. Ai, ai, já comecei a imaginar um Diário de Bordo nosso. Se essa conversa já quase rendeu um livro, imagina um Diário de Bordo? Depois a gente conversa mais… Eu preciso ir… Tem panela de pressão no fogão e eu não quero me atrasar mais e correr o risco de explodir minha cozinha. É, eu sei, são 09:08 da manhã, parece uma desculpa, mas eu juro que não é.

— Eu gostei muito de conversar aqui pelo google docs porque foi muito diferente das conversas simultâneas que estamos tendo no instagram e no whatsapp e me entristece um pouco pensar que a partir de agora só estaremos conversando em dois canais de comunicação, não mais em três…vou abrir um outro docs com o título “diário de bordo” para a gente, já compartilho com você!


Paula Gomes também é Ceci, pelo menos no Medium. Eu sou só Thaís mesmo, pelo menos até onde posso revelar para vocês. Compre o “Ninguém morre sem ser anunciado” aqui. E, se você tiver com um bom humor daqueles, aproveite para adquirir o ebook do meu conto “Maria Eduarda não precisa de uma tábua ouija”. Os dois ebooks estão disponíveis gratuitamente para todos que assinam o Kindle Unlimited.

Nina Rocha está em obras

Conheça o trabalho literário da autora assinando sua newsletter Nina Nina Não.

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e até xodó

Nina Rocha

Nina Rocha nasceu em 1992 em Montes Claros, Minas Gerais, e é formada em Comunicação Social pela UFMG. Atualmente mora, borda, pedala e escreve em Belo Horizonte. Entre suas muitas atividades, uma nova foi incluída recentemente: agora ela também vive a espera da publicação de seu primeiro livro de poesias.

“Em obras” está em pré-venda pela Benfeitoria e será publicada pela editora Urutau. Com R$5180 reais já arrecadados até o momento, a publicação já é certa, sendo o objetivo atual aumentar a tiragem, espalhando assim a voz dessa escritora pelo mundo.

Nina estreia com uma obra caracterizada por poemas que preenchem o espaço público, misturando-o com o privado. A partir dessa ocupação das ruas, bairros e estabelecimentos de detalhes cotidianos pessoais, a autora fala de coisas comuns, muitas vezes com um toque de humor, e mexe conosco a partir dos detalhes.

Sua leitura nos dá vontade de ocupar todos os espaços que nos cercam de vida, incluindo aqui até mesmo nossa própria casa, enquanto nos faz pensar em amor, troca, decepções e expectativas. O espaço, a cidade, a casa e até mesmo a memória, tudo isso na obra de Nina serve como um lembrete do presente, esse tempo marcado pelo cotidiano e o banal, que diz tanto sobre quem somos, ao evidenciar esses detalhes tão esquecidos.

Na entrevista a seguir, a autora compartilha comigo — e agora também com vocês — um pouco sobre seu processo criativo, sua relação com a escrita e a criatividade no todo, suas referências e seus projetos:

T: Escrever um livro de poesia é bem diferente de simplesmente escrever, né? A gente precisa planejar algo mais, fazer um projeto, tentar fazer ideias diferentes funcionarem juntas, fazer toda uma montagem de imagens poéticas. Como foi esse processo para você?

N: Acho que especificamente nos textos que estão nesse livro, o processo foi de muitos cortes e reescritas. Alguns dos poemas nasceram de outros textos que eu havia escrito há muito tempo atrás, alguns com mais de dez anos. Foi interessante testar novos formatos para ver o que funcionava. Eu sempre me coloquei com alguém que escreve prosa, porque achava a poesia uma coisa muito elaborada e distante de mim. Mas com essas experimentações, fui conseguindo chegar numa linguagem em que finalmente me senti confortável com os versos. Foi um processo bem gostoso de experimentar e descobrir novas formas de contar com poucas palavras.

T: Quais são seus hábitos de escrita? Como funciona seu processo criativo? Você tem alguma rotina criativa? Como você concilia seu trabalho, que envolve escrita também, com a escrita de obras literárias?

N: Eu gosto muito de escrever em caderninhos e blocos, então sempre carrego um desses itens comigo. Às vezes anoto uma palavra ou uma frase que pensei e para depois desenvolver em um texto. Acontece muito disso demorar e eu não lembrar mais qual foi a origem dessa ideia, mas é interessante porque a proposta inicial transmuta e o texto vira uma outra coisa. Eu não tenho uma rotina frequente de criação. Tem épocas em que estou super produtiva, e outras em que passo semanas sem escrever, e acho que faz parte do processo também. Não acredito que a gente precise produzir material o tempo inteiro, mas a escrita para mim funciona muito através de estímulos, então mesmo quando não estou escrevendo, essas faíscas seguem acontecendo ao redor e alimentando as ideias de um texto que ainda não foi gestado. Acontece também de notar algo novo na rotina, escutar uma história, ler algo que traz um estalo que me motiva a produzir instantaneamente. O meu processo é bem devagar e tento escrever sem cobranças. Grande parte do meu trabalho já envolve a escrita e às vezes é difícil separar a escrita do ofício da escrita recreativa. Deixo as obrigações para horário comercial e evito que essas tarefas atravessem o prazer da escrita em todos outros horários.

T: Escrever muitas vezes é visto como um ato solitário. Para você também é assim? Se não, como as outras pessoas passaram a fazer parte do seu processo criativo?

N: Muita gente tem aquela ideia do escritor recluso, antissocial, trancado dentro de casa e que faz tudo sozinho. No meu caso é exatamente o oposto. Eu gosto muito de participar de oficinas de escrita, ler textos de amigos e pedir opinião de pessoas que confio sobre minhas produções. Nesse sentindo, minha escrita é de muitas mãos.

Acho que esse tipo de troca estimula muito a criação e podem ser um pontapé inicial para ótimas ideias.

T: Você borda, cozinha, cria e testa receitas, além de desenhar e escrever, né? Como essas atividades se conectam para você?

N: Às vezes eu me deparo com essa questão existencial: qual a relação entre todas as coisas que eu faço? Porque a princípio, são totalmente distintas e um talvez pouco aleatórias. Mas acho que tem pontos em comuns que perpassam todas elas, e uma delas é a criação. Muita gente ainda tem aquela ideia de criar como um ato quase divino, que tem que vir de um momento de inspiração. Parece que ficamos esperando uma musa descer dos céus e nos dar a permissão para criar. Isso acaba tirando nosso prazer de fazer as coisas por fazer, sem ter um propósito produtivo, e tira muito a graça da criatividade e coloca ela num pedestal, como se fosse algo exclusivo a grandes artistas. Tem tanta coisa na nossa rotina que envolve criar e ter ideias, desde refogar cebolas com um tempero diferente a escrever um conto ou bordar um pano de prato com uma frase inusitada.

T: No seu livro “Em obras”, há diversas referências, indiretas e diretas, a outras artes, como a música, e também aos seus hábitos. Qual é a importância desse cotidiano de atividades, hobbies e interesses para a sua criatividade? Como suas referências te afetam na hora de fazer arte? E, claro, quais são elas?

N: Toda a importância! Eu acredito muito que o que a gente produz é um resultado do que a gente tem como referência e consome com o que a gente vivencia e percebe ao nosso redor. São os estímulos que impulsionam a criar e produzir. Essas referências acabam se tornando parte do que fazemos e do que somos, e algumas das minhas na literatura são Ana Cristina César, Angélica Freitas, Patti Smith, Drummond, Ana Martins Marques, Lydia Davis, Elvira Vigna e Wisława Szymborska.

T: E a publicação do livro? Como você tem lidado com a pré-venda e com a decisão de botar esse trabalho no mundo?

N: É um processo que dá um frio na barriga mas também traz muita empolgação. Quando finalizei o livro, ainda não tínhamos a pandemia, e a publicação em meio a todo esse caos me trouxe várias dúvidas. Mas vi a Angélica Freitas comentando em uma entrevista que deixar de fazer as nossas coisas é uma forma de desistir, e acho que concordo com isso. Fiquei pensando muito sobre o propósito de publicar um livro em 2020, mas cheguei à conclusão que conseguir fazer qualquer coisa em 2020 já é um marco.

T: Quais são seus próximos planos literários?

N: Quero montar um livro com alguns contos. Uma boa parte já escrita, mas vou a passos de formiguinha, num processo lento, sem muita pressa para publicar.

Edit posterior: Em Obras pode ser comprado no site da Editora Urutau. 

Você pode conhecer um pouco do interior do livro, incluindo alguns poemas, a partir desse meu post no Instagram.


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Trailer de um filme estranho, meio ruim e talvez otimista demais sobre a vida após algum apocalipse

Alex Litvin

O que acontece quando começamos a tensionar o significado das palavras? O que a gente perde quando somos forçados pelas circunstâncias a usar as palavras e expressões que conhecemos de outra forma? O que essas mudanças significam? O que elas causam nas pessoas e na sociedade? O que acontece quando elas surgem a partir das consequências do que a humanidade já viveu, mas quase ninguém mais se lembra?

O que a humanidade conhecia como três da tarde não é mais três da tarde como sempre foi. Não tem luz do sol, não tem trabalho formal, não tem horas e mais horas que separa esse momento da hora de se recolher. As três horas da tarde parecem mais próximas agora das dez da noite de antes.

Família não é mais somente o grupo de pessoas que tem vínculo sanguíneo, de sobrenome e talvez de afeto. Família agora tem um significado mais próximo do que antes se entendia como comunidade. A sobrevivência humana passou a depender de redes de solidariedade e esses laços que surgiram da troca e do diálogo fizeram com que a ideia de parente ganhasse outros sentidos.

O mundo que se desenha agora, muitos anos após o que alguns chamaram de fim do mundo, é outro. Ele veio após os nomes democracia, povo e perseguição serem deturpados. Ele veio após fugas, guerras, desespero, dor e fins ganharem novas acepções. O que existe agora é um desejo urgente de sobrevivência e uma noção de que a humanidade é composta por seres sociais e que as pessoas precisam estar sempre cercadas de outras.

“Talvez tenhamos ficado muito tempo ensimesmados”, continua a protagonista branca, idosa e de cabelos lisos chamada Sônia, como a atriz famosa que a interpreta, para um grupo que não conheceu nada daquilo que ela viveu e agora a ouve com curiosidade e respeito.

Tem quem acredite que esse novo mundo se cria quando, às três horas da tarde, as pessoas se sentam juntas para conversar e compartilhar histórias antigas e novas. Alguma coisa acontece quando as pessoas se juntam. Alguma coisa acontece quando essa gente coloca no papel o que uma comunidade lembra, sonha, ri e conversa.


Esse texto é resultado do dia 8 do Desafio de Escrita para a Quarentena proposto pela Stefani Del Rio. A proposta era que se escrevesse uma espécie de sinopse para um filme fictício de distopia e/ou pós apocalíptico.

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Eu sou um monstro

Foto meramente ilustrativa, pois não sou fofo e sou bem mais abstrato. Imagem encontrada aqui.

Sou nômade, vivo de favores e vou me ajeitando onde me deixam entrar. Finjo que vou ficar pouco tempo, que aparecerei só às vezes e que quase não vou incomodar. As pessoas não gostam de mim, mas me deixam entrar e se habituam com a minha presença por achar que faz parte. E eu entro, me ajeito e vou ganhando espaço, mesmo sendo insuportavelmente chato.

Eu gosto de zoar. Amarrar perna de sapo, criar apelidos cruéis e assustar quem não estiver atento. Esses são hábitos que tenho desde que nasci. Recentemente decidi adotar o rótulo de zoador e tenho aperfeiçoado meus dons para atingir em cheio os participantes da tal vida adulta.

Esse novo rótulo veio a calhar, viu? Agora quando eventualmente me confrontam, digo “quem tem limite é município” e as pessoas caem, como bobas, porque nunca querem ser estraga-prazeres. Elas temem cortar o barato de alguém e ganhar a fama de politicamente corretas. E eu aproveito disso sendo aquele cara que vive falando como são chatas essas pessoas que vivem patrulhando o humor, repito como um papagaio como é tudo inofensivo, digo que bullying forma caráter e outras baboseiras como “vocês são os verdadeiros fascistas” e assim consigo me manter por mais tempo na minha morada da vez.

Antigamente, tudo que eu fazia era mais direto, sabe? Os resultados apareciam rapidamente, não tinha tanto jogo e assim a comida ficava escassa num pulo e minhas mudanças tinham que acontecer com mais frequência. Pois agora, eu sou um novo monstro. Me adaptei aos tempos modernos e me alimento moderadamente em três em três horas, tudo muito saudável, com cara de indicação de nutricionista.

Antes minha comida era o medo, o pavor, a culpa. Agora é um prato diversificado e cada vez mais colorido: ansiedade, culpa, medo, tristeza, pavor, depressão, raiva, dores crônicas, compulsões variadas, insônia, paranoia, estresse e tudo mais que há de ruim.

Posso adotar muitas faces no mundo atual. Além do zoador, uma das minhas preferidas é a do cara que fica falando para todos que pra ser valorizado tem que vestir a camisa da empresa mesmo, que tem que se esforçar, dar o sangue, suar a tal da camisa da empresa até dar pizza debaixo dos braços. Adoro essa persona monstra! E juro que nem é porque o papo envolve suor e sangue, que, por sinal, caem muito bem brócolis e insônia! Esse personagem julga, julga e julga e faz aquele tipo de comentário que cria uma culpa deliciosa em todos ao redor! A moça que prefere tirar férias do que receber o proporcional ouve minha ladainha, começa a pensar nela e acaba dizendo foda-se para o seu corpo e mente que pedem descanso, trocando a folga pelo dinheiro e por uma suposta valorização profissional que nunca vai vir. Se eu tiver sorte, em alguns anos ou meses, ela vai ter um ataque de nervos que vai servir de sobremesa a semana inteira!

Gosto do jogo moderno. Vejo o definhar das minhas vítimas por anos, me alimento e me reproduzo. Fiquei menor, é verdade, e minhas crias, também. Mas isso é até bom, porque desse tamanho é mais fácil chegar de fininho e fixar morada ou, em alguns casos, me esconder por anos, fazendo refeições mínimas, até criar um espaço propício para crescer e constituir família. Nesse modus operandi, as pessoas demoram a perceber que somos tão nocivos e mesmo depois de anos, quando a gente já cresceu tanto que é um elefante enorme parado na sala de estar, eles fingem que não estão nos vendo.

Confesso que tem hora que sinto falta da juventude. Quem nunca, né? Os apetites vorazes, a inconsequência, a vontade de comer o mundo inteiro numa só mordida. Ai, ai, que saudade desses tempos em que a falta de mastigação não causava azia… Mas era outra época. Época em que éramos muitos, nômades, e dominávamos a igreja, o Estado e manipulávamos vilarejos falando sobre bruxas, pecado, bem e mal.

Desde esse tempo, me alertavam que quando chega a velhice a nostalgia aparece, principalmente quando somos imortais. Eu sei que aquela dinâmica toda de se empanturrar de uma vez e andar dias em busca de um novo cardápio não é boa pra mim e nem para os outros da minha idade. Deixo isso para alguns dos meus filhos, sobrinhos, netos e bisnetos, ainda jovens e com espírito aventureiro. Eles, inspirados em nossas histórias, resolveram voltar a alimentar a caça às bruxas e estão juntos aproveitando que o Estado Laico ainda é uma lenda.

Me perguntam algumas vezes se eu estou cansado, se penso em me aposentar e nossa, como esses caras não entenderam nada sobre ser monstro! A gente não se cansa! A gente se diverte! O trabalho é pouco, pouquíssimo. A gente não precisa de muita coisa para fazer os humanos fazerem o trabalho sujo. A gente tenta alguns e já é o suficiente. É como se fosse uma terceirização! Pauta que a gente apoiou bastante no Congresso, por sinal.

Não precisamos de muito esforço, porque os humanos se deixam levar. A gente investe na raiva, na mágoa, na culpa e no medo deles, sentimentos que eles adoram ignorar, e pronto, a refeição do dia está servida! Com o capitalismo, a globalização, as redes sociais e a internet com seus trolls e mensagens que espalham ódio e pânico facilmente, tudo ficou ainda mais fácil. Eles não olham a própria história e não entendem que nunca somos completamente exterminados, porque somos imortais e sobrevivemos — como sementes, larvas de aedes aegypyi ou bactérias e vírus congelados no permafost — a espera da oportunidade certa para poder prosperar. Esperamos dentro de cada um de vocês. Somos seus hóspedes folgados.


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O mundinho por trás da anulação da vez

Imagem do Congresso Nacional retirada da Wikpedia

09 de maio, 2016.

O horário de almoço do brasileiro foi marcado por conversas em que todos os presentes teorizavam sobre a manchete “Presidente em exercício da Câmara anula votação do impeachment da Dilma”. Antes da última garfada, havia mais teorias sobre o que motivou Maranhão, presidente interino da Câmara agora que Cunha foi afastado, do que especulações sobre o que vai acontecer na série Game of Thrones.

Todos querem saber o vai acontecer e, de tão acostumados com esse clima político semelhante ao da série House of Cards, todos também querem presumir quais as articulações nortearam esse acontecimento. A sociedade clama por uma cobertura próxima ao que o site Ego faz dos famosos para saber detalhes dos últimos dias de Waldir Maranhão e assim alimentar suas suposições. Todos querem saber com quem Waldir Maranhão fez suas últimas refeições. Todos querem sabem se ele teve um encontro secreto e com quem. “Será que foi Cunha querendo mostrar seu poder na Câmara mesmo afastado?”, perguntam vários. Enquanto outros largaram as especulações de lado ao lembrarem que a comida ia acabar esfriando e optaram por parar de presumir e começar a mastigar.

Eu, narradora onipresente, dona dessa história, sei muito bem o que está por trás disso tudo. Para entender o que aconteceu, a gente precisa voltar ao fatídico dia 17 de abril de 2016.

Durante a votação pela admissibilidade do impeachment da presidenta Dima Rousself, a maioria dos deputados citaram deus e membros de suas famílias em seus votos. Um deputado, ao citar vários e vários familiares, se esqueceu justamente de seu filho e tentou corrigir o erro voltando ao lugar onde se proferia os votos e citando o nome do menino esquecido. Ele, esse mesmo, o cara que esqueceu de falar do rebento, é o articulador da anulação da votação. Liderados por esse deputado, parlamentares agiram para que uma nova votação acontecesse só para esse senhor voltar a ter paz nos grupos de família do Whatsapp.

Eu, a narradora que tudo vê e ouve, mais uma vez dei uma de intrometida e por isso ouvi todos esses caras confessando uns para os outros coisas como “Minha filha me pediu para citar a amiga imaginária dela nessa nova votação e eu não consegui dizer não” e “Meu tio-avó não me deixa mais em paz, ele quer ser lembrado por mim numa votação em que o Brasil inteiro está assistindo e todo mundo sabe que a maioria das pessoas só descobriu que tinha um tv Câmara na votação do impeachment, o que eu faço agora?”. São essas e muitas outras falas do mesmo teor é que foram a origem da articulação do plot twist da vez.

E eu, ingênua, por alguns momentos, enquanto ouvia os desabafos dos deputados, imaginei que algum deles concluiria que não deveria ter citado nenhum de seus familiares num voto em primeiro lugar. Achei que ouviria um “é, é isso que ganhamos quando misturamos o privado com o público”, imaginei que algum aprendizado ia sair dessa série de lambanças, mas descobri que essa visão patrimonialista pautada pela “Tradição, Família e Propriedade” also know as “Boi, Bíblia e Bala” não fraqueja nunca.


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