“Coisa amor” e a busca humana por algum entendimento

Acervo pessoal

Um livro chamado “Coisa amor” combina com a palavra afeto, porque lembra ternura, carinho, estima, conexão e todas essas coisas que a gente deseja, mesmo quando fingimos de cínicos ou nos consideramos incapazes de sentir, vivenciar ou despertar esse sentimento no outro. Só que afeto não é uma palavra simples. A gente usa, na maioria das vezes, como um sinônimo de amor, mas seu significado pode ir além: para a psicologia, por exemplo, é um agente modificador de comportamento, podendo ser positivo ou negativo. E essa definição não surgiu do nada. As palavras latinas que deram origem ao afeto que guia esse texto eram usadas como sinônimo de estar inclinado a, influir sobre, fazer algo a alguém. Afeto então é sobre afetar e ser afetado. “Coisa amor” também, porque Pedro Jucá escreve para causar alguma coisa dentro da gente, testando a forma que o leitor interage com personagens e situações, enquanto, de certa forma, brinca com o feio, o clandestino, com tudo aquilo que, direta ou indiretamente, ajuda a compor a matéria dos tabus, dos desejos e dos segredos.

A partir de quinze contos, o autor aborda temas como solidão, morte, memória, sexualidade, inconsciente, loucura e quereres e coloca quem lê frente a frente ao desconfortável limiar do dito e não dito da experiência humana. A cada narrativa, Pedro Jucá nos apresenta um pouco mais dessa substância viscosa, densa e cor de carne que nos faz gente. E, para isso, usa diferentes formas de narrar, explorando a vulnerabilidade humana a cada cena, reflexão, circunstância, partindo principalmente de relações familiares, como a maternidade. Assim, consegue amarrar todos esses temas e perspectivas ao que podemos chamar de busca humana por conexão, companhia, entendimento.

Em “Coisa amor”, o encontro com o Outro é sempre desafiador. Ainda que essa demanda por compreensão e afeto guie os sujeitos dessas histórias, o Outro é sempre Outro. Nesse encontro de identidades há momentos em que o laço entre os personagens se amplifica, tornando aquela ligação um instante de entendimento, mas, na maioria das vezes, o medo de ser visto completamente, como se isso fosse possível, impede qualquer vestígio de conexão. Só que essa conexão, sempre tão desejada e praticamente impossível, acaba acontecendo com a gente, que a partir do ato da leitura, tentamos decifrar comportamentos, personalidades, situações.

Nesse caso, estamos numa posição de poder. A cadeira de quem lê é a de quem espera uma trama se desenrolar. Somos espectadores, na maioria das vezes invisíveis, da história alheia e queremos entretenimento. Só que Pedro Jucá cria suas narrativas para nos lembrar do poder da linguagem de nos afetar e, dessa forma, aproxima seus personagens de quem lê, obrigando a gente a lidar com esse lugar de uma outra forma. Lemos essas histórias, então, como quem se dirige para um parque de diversões, e acaba entrando numa enorme sala de espelhos cheia de sombras e truques que são capazes de transformar 149 páginas de texto em 3450 minutos em um labirinto de sensações.

O entendimento desejado por essas personas fictícias acontece, porque aquilo que esses personagens se esforçam tanto para esconder até deles mesmos, escapa. O trabalho estético do autor ajuda nesse efeito: Pedro escreve para gente decifrar, exige atenção. O texto flui, mas tem voltas, alguns estranhamentos, qualquer coisa que te obriga a frear, com medo de atropelar algo importante. E essa conexão se completa, porque ao entender alguma coisa, quem lê se sente cúmplice. Leitor e personagens se encontram na clandestinidade do ato de levantar o tapete que cobria o elefante no meio da sala.

Mesmo incomodados, continuamos lendo e, por escolhermos continuar, nos associamos ao que está sendo compartilhado por esses Outros. Somos gente, afinal, e por isso inevitavelmente comparsas de tudo aquilo que é demasiadamente humano, como a literatura é. Ao sermos afetados, ficamos mancomunados aos personagens e assim nos tornamos coautores de tudo que a humanidade é capaz de sentir, e por isso, fazer. Podemos até ler como detetives, fiscais ou juízes, mas ainda assim, nos vinculamos ao que foi dito, feito, produzido, porque em algum momento aceitamos fazer parte disso tudo, em especial quando tentamos nos fantasiar com essas figuras de poder que simbolizam a proibição de qualquer demonstração de vulnerabilidade.

Ler “Coisa amor” então é se permitir investigar a composição da matéria oculta que nos forma e nos permite ser capaz de produzir e consumir arte. Jamais entenderemos completamente o que nos leva, por exemplo, a amar alguém e o que de fato significa isso pra nós mesmos. Como no conto que dá nome ao livro, mesmo com o mapeamento da química da paixão e a descrição técnica do funcionamento do corpo nessas horas, ainda há espaço para uma certa poética, logo uma certa dose de pensamento mágico. Jamais haverá compreensão completa do Outro e nem de nós mesmos. E a gente sabe disso, mas ainda assim continuamos tentando decifrar o indecifrável, porque é isso que precisamos fazer para vez ou outra conseguir vivenciar instantes em que não nos sentimos sós.

“Mas não, nada disso aconteceu. As histórias mais tristes são também as mais prosaicas, as que sequer alcançam o status de tragédia. Desprovidas de potência ficcional, nem à catarse servem […]” Passo a Passo (pág. 22)

Acervo pessoal

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Não sou uma leitora imparcial. Escolho as minhas prioridades de leitura guiada, principalmente, pelo afeto. Sei que afeto é uma dessas palavras gastas — até as lojas de dermocosméticos a utilizam pra vender shampoo anticaspa e protetor solar quando querem falar sobre autocuidado e amor próprio — mas foi inevitável não usá-la enquanto escrevia sobre o livro de contos “Coisa amor”, de Pedro Jucá, que, por acaso, se tornou especialista em Escrita e Criação junto comigo, após uma imersão que envolveu escrita, leitura e compartilhamento durante 19 meses.

Algumas das prosas que constroem essa obra, como a penúltima história, vi nascer. Oficina já era uma conhecida minha das aulas, ainda que numa versão ainda pouco trabalhada. Outros simplesmente me surpreenderam: como Cerimonial, Nutriz e até mesmo o Coisa amor, que empresta seu título ao livro. Mas foram os contos Ela, Passo a passo e Years of Solitude que me fizeram pensar que Pedro sabe muito bem onde quer chegar.

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Vovó me construiu leitora quando me viu uma

Vovó adora contar histórias da minha infância. São causos variados, alguns envolvendo viagens ao litoral, outros, festas de família, mas a maioria mesmo é sobre nosso cotidiano: minha vó contando suas memórias e eu ouvindo, minha vó me olhando e eu falando sem parar, minha vó jogando baralho e eu aprendendo com ela todas as regras, minha vó assistindo à televisão e eu observando suas reações ao Sílvio Santos ou mesmo ao Thiago Lacerda, minha vó bordando e eu dizendo que só aceitaria tentar se fosse um risco da digimon Tailmon, minha vó fazendo biscuit ou flor de meia e eu logo ao lado colando um porta-retrato de EVA com um enfeite da digimon Tailmon feito por mim como exercício da aula de artes da escola, minha vó cantando e eu no meu quarto tentando me concentrar em alguma coisa, minha vó fazendo bolo e eu fugindo da cozinha para não ter que ajudar.

Entre tantos causos possíveis, ela escolheu como história preferida a de quando ela descobriu que eu já sabia ler. Eu tinha três anos, quase quatro, e parei frente ao portão do quintal da minha casa, olhei para o cadeado dependurado e soletrei Papaiz, depois juntei as sílabas e formei a palavra. Vovó falou “mas você já sabe ler, menina?” e eu, fingindo que aquilo não era importante pra mim, simplesmente disse “claro que eu sei”. Ela sempre ri quando conta essa história, um riso que parece dizer que a surpresa dela foi sempre uma piada, como se fizesse questão de repassar essa memória simplesmente porque aquela cena foi o momento que ela me descobriu, viu o que me tornava Thaís. De certa forma, foi isso mesmo o que aconteceu. Ouvi tanto essa história que me tornei leitora. Ouvi tanto essa história que entendi que por mais que minha avó me cobrasse que eu aprendesse o que toda meninA deve saber, ela tinha certeza que isso nunca me bastaria. Ouvi tanto essa história que entendi que a curiosidade era a principal característica que nos unia, aquilo que deu a liga ao nosso gosto em comum em ouvir e descobrir histórias. A partir da narração dessa memória, minha vó teceu nossa filiação, nossa semelhança, nossa conexão às vezes desconectada. Vovó me construiu leitora quando me viu uma.

Nos meus ouvidos atentos por histórias, a leitora já existia. Na observação dos comportamentos ao redor, também. Na minha vontade de falar tudo que eu sentia, vivenciava, descobria e, principalmente, inventava, mais ainda. Vovó conta a descoberta dela como se esse momento fosse a história de origem de uma super-heroína da linguagem que ela acredita que eu sou.

A história sempre vem com algum comentário. Ela complementa dizendo que eu não parava quieta, queria tudo e pulava de galho em galho atrás da próxima palavra. Essa energia minha, na voz da minha vó, nunca teve tom de crítica direta. Vovó sempre me pareceu se encantar com o tanto que eu, teoricamente, era difícil, como se certos defeitos meus fizessem parte desse pacote maior que me tornava eu.

Vovó gostava de ler histórias de mistério. Hoje não mais. Cansou disso. Minha primeira vez com Agatha Christie foi com um livro bem velho dela numa época em que ela ainda gostava dessas coisas. Ela tem lido menos e preferido formas breves, mas contado e recontado mais histórias, descobrindo uma veia cronista cansada, mas firme. Grata também.

Não sei como minha vó me vê hoje. Sei que ela não parece se decepcionar com quem me tornei, mesmo eu não tendo uma carreira brilhante. Talvez isso seja vestígio do machismo de sua época, inclusive, mas isso não importa agora. Me conforta, na verdade. Me parece que para ela a minha característica leitora não me fazia prometer nada além de uma boa conversa. Só que isso me lembra que ela quer que eu tente participar do programa “Quem quer ser um milionário?” do Luciano Huck desde que era Show do Milhão do Silvio Santos. Ela jura que eu ganharia meu milhão assim. É, talvez haja alguma expectativa. Ela deve esperar que eu faça alguma coisa com tanta vontade de ler o mundo. Alguma coisa que renda dinheiro. Talvez prestígio também. Como todo mundo espera, inclusive eu. Ela quer uma cena nova que me defina, como foi a do cadeado Papaiz. Uma cena que mostre que as palavras dela criaram a super-heroína da linguagem que ela vê. Sei que ela espera algo mais grandioso, mais capitalista talvez, mas eu vejo essa cena acontecer toda vez que medio uma leitura, converso sobre um livro, falo sobre o que eu escrevo. Ou escrevo. Ou simplesmente leio. Ou paro para ouvir uma história que só ela pode contar e leio a mais recente folha de caderno que ela preencheu pra mim e me entregou se desculpando pelos possíveis erros ortográficos de quem só estudou até a 3ª série.

Vovó, eu estou aqui criando e recriando a cena que você adora contar mesmo que você não note e isso me conforta. Vovó, eu estou aqui usando as palavras pra contar nossas histórias. Vovó, eu ainda pulo de galho em galho atrás da próxima palavra, da próxima história, da próxima chance de conexão.

Se você gostou desse texto, leia também as crônicas: “Quem quer ser um milionário?” e “Jogatina ancestral” e aproveite para deixar um comentário, compartilhar com seus amigos e me acompanhar também pelo Medium,  Facebook,  TwitterApoia.se,  Tinyletter  e  Instagram.