O que essa parede descascada diz de mim?

“Domesticidades”, diz a capa de um pequeno livro turquesa numa exposição de arte. Não posso folheá-lo, conferir o que foi revelado ali. “Domesticidades” está enclausurado, protegido das minhas mãos meladas de suor e álcool em gel. Dentro da mesma redoma de vidro, há um outro exemplar, esse aberto na página 72. Alguém definiu que isso seria o que eu veria das tais domesticidades, mas o reflexo da luz no mostruário tornou aqueles borrões de quintais um desafio de se enxergar.

Quero saber quem escolheu destacar a página 72. Descubro no texto de apoio dois nomes: Renata Marquez e Wellington Cançado. E encontro a descrição da ideia, uma possibilidade de vislumbrar a obra sem saber o que diabos tem nela. Usando fotos disponíveis em sites de imobiliárias, nasceu um guia dos lugares não visitáveis de BH. Ali está um arquivo mal fotografado de um mundo de inquilinos e proprietários que buscam a ilusão de fazer algum espaço seu.

Captar a vida privada é um desafio da memória coletiva. As domesticidades não estão totalmente visíveis nem nas mais cruas fotos do Instagram. Elas estão enclausuradas, como a obra de Renata e Wellington está. Documentar o universo íntimo é um desafio também para a memória individual. Quando estou fora, penso na minha escrivaninha organizada, sendo que ela com certeza está entulhada de livros, papéis, canetas e itens tecnológicos relacionados a esse computador que me serve de máquina de escrever e conexão com o mundo.

O registro das domesticidades — e talvez até mesmo a própria memória — sofre com o medo do julgamento e da inescapabilidade do banal. Vivo de maneira aceitável? Sou suja? Porca? Cafona? Mimada? Durmo demais? Sou gente? Sou bicho? Existo?Tem algo que importe aqui?

Talvez nem mesmo o cronista mais atento consiga assimilar completamente o meio termo entre o conforto de uma cama desarrumada e o nojo de uma pia suja. Só os gatos sabem, porque eles têm como hábito jogar ao chão todas as redomas de vidro.

Esse texto foi escrito por mim para o módulo “Ler e escrever crônicas” da Iana Soares a partir de uma proposta que envolvia a ideia de “Nomear o tempo” e fotografias autorais. Esse módulo fez parte da minha turma da especialização em Escrita e Criação da Unifor, curso de pós-graduação coordenado por Socorro Acioli.

Para fazer esse exercício, parti de uma visita a um museu de Belo Horizonte em que encontrei essa obra aprisionada para refletir sobre memória, o eu e o Outro.

Você pode conhecer o “Domesticidades” aqui.

Relendo “Como se fosse a casa” durante a pandemia

Se nas minhas leituras pré-pandemia, meu foco ao ler “Como se fosse a casa (uma correspondência)”, livro de Ana Martins Marques e Eduardo Jorge, era a dicotomia entre interior e exterior, a casa e a Europa, a gente e o Outro, o estar e o estar em trânsito, agora tudo mudou: a casa, a ideia de lar, o que significa morar, alugar um espaço, viver nele, numa cidade, num país.

A casa preenche meu olhar de forma quase completa, todo o mundo exterior, trazido pelos poemas do Eduardo Jorge, parecem agora uma miragem, um desejo, quase uma utopia. O mundo exterior me atravessa pela imaginação, aparece enevoado, evocando a saudade do que conheci e da possibilidade de conhecer, circular, pisar, estar de uma maneira diferente do estar entre quatro paredes, enquanto a casa se apresenta cada vez mais concreta mesmo nas suas abstrações.

Estar fora parece diferente, assim como estar dentro. Vem a ideia de casulo, de proteção, de conforto, mas também vem a angústia de nunca mais poder sair ou receber pessoas sem temer. Vem então a vontade de liberdade, mas também o medo de contaminação e uma dolorida noção de risco e culpa e de exceção.

Nos dois lugares, antes tão complementares e agora colocados como partes opostas de uma vida, há luto. Parece que nunca mais estar dentro ou fora será o mesmo.

Que saudade de ler esse livro como eu lia antes!

Esse texto foi escrito para o especial #domingodabanalidade, que faço quinzenalmente no Instagram para falar sobre livros-conforto ou algo próximo disso, mas não saiu tão banal como eu queria. A leitura de um livro, mesmo aqueles antes confortáveis, pode mudar dependendo do contexto. “Como se fosse a casa” dessa vez me fez pensar na saudade do entrelaçar dos verbos estar, morar e pertencer com as travessias, as mudanças de paisagens, a vida na cidade, no desejo de que minha casa e tudo que ela evoca volte a ser apenas uma parte muito importante da minha vida, mas não quase tudo.

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