“A Pediatra”: pensando nas personagens difíceis

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Com capítulos curtos, ritmo de um turbilhão de pensamentos, deboche e uma personagem controversa e bem construída, Andréa del Fuego criou um romance que coloca o leitor frente a frente com a capacidade de sedução de uma narradora desagradável, obrigando quem lê a refletir sobre simpatia, antipatia, classe, gênero, ética e moral. 

Nessa história, Cecília, a pediatra que empresta sua especialização para o título do livro, simplesmente vive sua vida, pensa seus pensamentos, sente e elabora seus sentimentos. Essa vida que ela vive, apesar de quase comum, é privilegiada, e por isso mesmo acaba funcionando também como uma crítica ao mundinho deslocado e cheio de interesses da classe médica.

O diferencial desse enredo está em como essa protagonista percebe seu redor e conta sua história. A exposição dessa mente inquieta — e, para nós, completamente sincericida — nos atrai. Um divórcio, um amante, uma doméstica, uma profissão de status, mas exercida sem vocação, tudo isso ganha novas nuances com ela. E quando a gente vê, o livro já acabou e estamos obcecados pela Cecília, como Cecília também está pelo seu novo interesse (alvo?) da vez.

Algumas coisas contadas pela narradora-protagonista provocam risadas por serem simplesmente absurdas e, ao mesmo tempo, às vezes um pouco verdadeiras, mas o que prende o leitor mesmo é a constatação de que aquela pessoa que soa tão arrogante e egocêntrica parece encontrar algum eco em cada um de nós.

Esse não é um processo de identificação necessariamente, é de sedução. O poder dessa personagem é evidente: Você às vezes gosta dela, mas contra a vontade. Tem vergonha de gostar. Você diz que ama odiá-la, mas às vezes torce por ela, enquanto a xinga mentalmente. E ri dela. Ri com ela. Não acredita no que ela vai fazer.

Acompanhamos essa protagonista difícil que se constrói e desconstrói na nossa frente, nos lembrando das contradições e medos que, ainda que muito ou pouco diferentes, também fazem nossa própria humanidade. Diante de Cecília, somos postos para pensar nas vulnerabilidades que tentamos a todo custo ocultar, no poder das palavras e nesse Outro que é sempre um desconhecido, um mistério que a gente nunca vai conseguir desvendar por completo — uma possibilidade que nos atrai e nos repele na mesma medida.

Cecília está longe de ser exemplar. Na verdade, praticamente todo mundo dessa história não poderia se colocar nesse lugar nem se quisesse. Cecília é babaca e parece fugir o tempo todo de qualquer possibilidade de se descobrir diferente disso, porque é assim que deve ser no planeta Capitalismo. E, como todos os outros personagens chegam até o leitor a partir dela e seu olhar cínico para as coisas, eles também acabam ficando meio sem lugar na régua moral de cada um, porque só os conhecemos já enevoados pelo olhar de Cecília. E que bom!

A literatura não serve simplesmente para difundir virtudes ou ensinar alguma coisa pra alguém. A literatura não é sobre personagens bonzinhos e nem precisa ser óbvia em sua função, qualquer que seja ela, isso se houver uma. Às vezes o que parece feio, errado, antipático ou até detestável é só uma amostra da complexidade humana e das nossas relações, tornando nossas bibliotecas e estantes espelhos dos problemas do mundo e do eu. Às vezes uma personagem complicada existe simplesmente porque pessoas complicadas também existem e se deparar com um livro com uma é se permitir perceber que a gente também nunca é tão simples e bons como imaginamos ser.

Se a literatura é a fabulação da vida, dos outros, de nós mesmos e do mundo, nossa maneira de compreender e conversar sobre tudo, a gente também precisa conhecer melhor Cecílias, porque às vezes a ideia que temos de como uma mulher deve se portar, especialmente perante crianças e homens, transforma uma personagem em um monstro mesmo quando sabemos que estamos olhando, tratando e se incomodando com um ser humano perdido. Talvez precisemos conhecer mais Cecílias na literatura, simplesmente porque ainda vivemos em um mundo que se incomodaria muito menos e riria muito mais com esse livro se ele fosse protagonizado por um Sr. Dr. Pediatra Celso — e isso diz muito sobre como vemos homens e médicos.

Uma pediatra que não gosta de crianças causa curiosidade e perturba, é uma premissa excelente para um livro; um pediatra que não gosta de crianças provavelmente seria visto como mais um profissional esforçado. Cecília é vista como absurda — e talvez seja mesmo — e quando Andréa del Fuego parte dela para escrever, ela nos lembra que literatura é humanidade e a humanidade é um personagem mais complexo que qualquer pessoa.

(Resumindo: Fleabag voou para que Cecília pudesse caminhar)

Recebi “A Pediatra” numa parceria que fiz com a Nádia do Pomar Literário. Vocês podem ler uma versão enxuta, exclusiva e caprichada das minhas reflexões sobre esse livro aqui, em um post colaborativo meu e dela no Instagram. Se interessou em ler o livro? Compre “A Pediatra” com meu link da Amazon e me ajude a continuar escrevendo.

Curtiu a reflexão? Então você também pode se interessar em ler meu ensaio “Os tais caquinhos que formam Abigail, eu e você”

Publicado por

Thaís Campolina

O que falta em tamanho sobra em atrevimento. Isso foi dito sobre um galinho garnisé numa revista Globo Rural dos anos 80, mas também serve pra mim.

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