“Ó ódio que você semeia”: #BlackLivesMatter em forma de YA

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Angie Thomas, autora estadunidense original do Mississipi, conseguiu alcançar o topo da lista de mais vendidos do New York Times com seu 1º livro na semana de seu lançamento. O sucesso da obra, que foi adaptada ao cinema pela Fox e teve sua estreia em dezembro de 2018, se deu, principalmente, pela atualidade e importância do que é debatido nela e a forma direta, testemunhal e de fácil entendimento que essa história, infelizmente tão comum, foi contada.

“O ódio que você semeia” é narrado por Starr, uma adolescente negra que vive em um bairro pobre — e negro — com sua família, mas estuda em um colégio particular repleto de brancos. Ela transita, diariamente, entre esses dois mundos que parecem se excluir, mas coexistem em sua vida e em sua cidade.

Pelo olhar dela, conhecemos sua família, seus amigos, seus vizinhos, seus gostos pessoais e também seus conflitos internos sobre não pertencer, de fato, nem ao bairro e nem ao espaço escolar. Quando ela testemunha o assassinato de um amigo por um policial branco, ela não consegue mais escapar do sentimento que há algo de muito errado no mundo ao seu redor. Algo que ela suspeita desde muito antes de seus pais a ensinarem o que fazer quando um policial a parasse.

“A Starr da Williamson não usa gírias; se é algo que um rapper diria, ela não diz, mesmo que os amigos brancos digam. As gírias os tornam descolados. As gírias a tornam “daquele bairro”.”

A representação do bairro de Starr, com toda a sua complexidade, permite ao leitor conhecer as dificuldades que rondam as famílias da região sem demonizar moradores ou naturalizar as consequências do racismo. A violência ali presente é abordada como uma consequência da desigualdade, da exclusão e do ódio que é direcionado para quem vive ali. Variáveis importantes, mas que, quando são ignoradas — como são constantemente — resultam em mais mortes e na alimentação do ciclo de violência.

“Era uma vez um garoto de olhos castanhos e covinhas. Eu o chamava de Khalil. O mundo o chamava de bandido.”

“O ódio que você semeia” expõe as engrenagens desse sistema feito para manter pessoas negras subalternas e silenciadas, cita muitas referências negras, inclusive o próprio título do livro se relaciona com a música T.H.U.G L.I.F.E do rapper Tupac Shakur, e apresenta uma jornada de herói que envolve amadurecimento, descoberta de si e de sua voz e questões sociais urgentes.

“Mas é engraçado como funciona com os adolescentes brancos. É maneiro ser negro até ser difícil ser negro.”

Racismo, violência policial, desigualdade, voz e denúncia são as palavras-chave desse livro que expõe o que as estatísticas de segurança pública, encaradas como tão frias, diretas e talvez distantes para alguns, dizem de fato. A morte de jovens negros afeta famílias e comunidades inteiras e dizem bastante sobre como o Estado e a sociedade encaram os corpos e vidas negras. Esse debate, tratado no livro de forma tão eficaz, dialoga com a realidade brasileira, apesar das pequenas diferenças em relação ao contexto racial e social entre os países, e ganha uma importância ainda maior em tempos de Bolsonaro presidente e Witzel governador do Rio.


Trailer oficial do filme:


Tradutora da obra: Regiane Winarski


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Publicado por

Thaís Campolina

O que falta em tamanho sobra em atrevimento. Isso foi dito sobre um galinho garnisé numa revista Globo Rural dos anos 80, mas também serve pra mim.

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