Lady Killer: esposa, mãe e assassina

Acervo pessoal — Adquira um exemplar aqui.

Uma mulher, bonita e bem vestida, cuida dos filhos, da casa e espera seu marido chegar para jantar. Ela usa vestidos acinturados não muito curtos, brincos e colares, um corte chanel bem penteado e a maquiagem da moda. Ela é a cara do american way of life da época e todos os produtos relacionados a ele e poderia ser personagem das propagandas vintage que hoje usamos para decorar nossas casas por causa da estética interessante ou para criticar como o mundo enxergava as mulheres.

Dessa mulher, esperamos um comportamento submisso, solícito, dócil e, claro, bem maternal. Seja na vida real ou na ficção. Só que o mundo não é feito de estereótipos e obras como a história em quadrinho “Lady Killer”, escrita por Joëlle Jones e Jamie S. Rich e traduzida por Raquel Moritz, exploram outros lados possíveis desse clichê. Nessa HQ, conhecemos Josie Schuller, uma mulher exemplar para época, exceto por ser também uma assassina de aluguel nas horas vagas. Horas que, ao contrário do que muitos imaginam, não são muito raras quando se exerce tantas funções consideradas edificantes.

Uma mulher, especialmente nos anos 50, precisa cuidar de sua imagem, tempo e família. Por isso, seus horários não são tão flexíveis como o de um homem. Afinal, ela precisa de desculpas para se ausentar. E, claro, isso a afeta no trabalho. Homens, sejam colegas ou patrões, não costumam ser muito compreensíveis com o peso de tarefas domésticas na rotina das trabalhadoras que os cercam, mesmo quando elas entregam o que é pedido e são super competentes no que fazem. Josie lida com isso, com o assédio e com os riscos típicos do seu serviço e é essa a história que move a obra.

Em seu trabalho, Josie usa e abusa de outros estereótipos de gênero voltados para as mulheres. Ela vende produtos de beleza de casa em casa para poder entrar nos lares das pessoas que precisa matar, circula facilmente em bairros residenciais e age como femme fatal para atrair os homens marcados para morrer. Ela sabe que poucos esperam que mulheres matem e faz disso um trunfo profissional que, apesar de tudo, não parece ser o suficiente para seu chefe, que lucra com a habilidade dela de disfarce e de assassinato, mas se incomoda em ver uma mulher fazer algo assim e ser tão boa nisso.

Joëlle Jones e Jamie S. Rich brincam o tempo todo com o que se espera da feminilidade. Josie é uma mulher ideal em quase todos os sentidos e transita entre as várias representações possíveis do feminino no imaginário social padrão da época, enquanto também luta, estrangula, envenena e mata.

Além do roteiro, merece destaque o estilo dos desenhos, todos de Joëlle, e o uso das cores, trabalho de Laura Allred. Além do vintage, há algo noir neles e a representação da violência contrasta sempre com essa exaltação da feminilidade da personagem e com o que se espera das mulheres. Inclusive quando elas ilustram.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram. Se interessou pela HQ? Adquira um exemplar aqui.

Publicado por

Thaís Campolina

O que falta em tamanho sobra em atrevimento. Isso foi dito sobre um galinho garnisé numa revista Globo Rural dos anos 80, mas também serve pra mim.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s