Construindo no The Sims

Imagem de Pinterest

Sabe quando você decide projetar uma bela casa no The Sims com auxílio do código Motherlode, aquele que te ajuda a ter dinheiro infinito, e descobre que sua habilidade só te permite fazer algo que se aproxima mais de um bloco estranho, meio feio e sem graça?

Você quer fazer uma mansão, pode ser clássica, pode ser gótica, pode ser pós-moderna, pode ser uma simulação tosca de algum projeto do Niemeyer — que é o único arquiteto que você conhece — pode ser qualquer coisa, porque não importa.

Se você não é um verdadeiro arquiteto de The Sims, você fará a mesma casa todas as vezes. A casa enorme, cheia de cômodos mais ou menos do mesmo tamanho, que, por mais esforço que você faça, sempre parece uma caixa feia, não uma caixa moderna, ainda que você tenha conseguido dar formato um pouco diferenciado para ela.

E quando você tenta fazer um segundo andar então? Surge um caroço, bem quadrado, nessa caixeta estranha que é o térreo. Isso depois de você passar horas tentando fazer uma escada que seu Sim, burro, seja capaz de usar. A sua casa vai ter piscina, pode também ter um lago, um ofurô, um jardim, tudo isso junto e mais um pouco, mas isso não vai mudar nada. O dinheiro infinito e ficcional não te faz adquirir uma habilidade. Sua casa nunca ficará como as outras casas do jogo. Sua casa será apenas uma caixa em que você vai colocar tudo do bom e do melhor. Seu Sim, completamente sem senso estético exatamente como eu e você, não vai se importar. A não ser que você se esqueça de colocar janelas. Eles gostam de ambientes claros e arejados. Pelo menos eles gostavam quando eu tinha um computador que me permitia jogar.

A casa, ao menos por fora, terá uma cor diferenciada. Talvez um mostarda. Algo próximo do amarelo. Você vai investir dinheiro nas portas mais caras, aquelas que às vezes dão um toque clássico ao seu bloco feio ou você vai tentar abraçar a modernidade e comprar tudo que seja simples, quase minimalista, pelo menos para quem olha de fora. E você vai passar raiva, porque seu Sim vai odiar seu banheiro, todo lindamente mobiliado com banheira de hidromassagem, pia, privada, chuveiro, tudo nível dez, porque só tem uma janelinha redonda e sem graça no cômodo. Ele vai querer mais luz e você, para agradar, vai colocar um tanto dessas janelinhas horrorosas do lado da outra no espaço que couber. E você sabe, né? Vai ficar terrível, como se você tivesse adicionado buraquinhos seguidos numa caixa de papelão colorida para seu gato brincar.

Você vai adicionar tudo que o dinheiro permitir e isso vai deixar o espaço amontoado de coisas que ficam pouco identificáveis de longe. Bem feio, sem qualquer sentido, sem qualquer distribuição pensada, mas não importa, porque o seu Sim terá tudo que o faz feliz na mão. Inclusive estantes enormes, bonitas, de madeira escura, brilhante, que lembram filmes que se passam em universidades antigas, do lado de uma geladeira de uma última geração prateada, como a modernidade deseja que seja. Como ela fez a gente imaginar que ia ser.

A verdade é que o único jeito de brincar de fazer algo bonito sem qualquer talento para construção virtual é a imaginação. Só nela nossos projetos ficam tão bem compostos, desenhados, completos e fotografáveis como a gente deseja.

Pense numa casa. Ela é ampla, tem espaço para tomar sol, tem um jardim, um lugar para fazer esportes, ela parece um hotel fazenda caríssimo. Ela tem detalhes em madeira, um toque country para combinar com o espaço verde, ela é bege ou gelo, ou alguma cor parecida com essas duas, mas que recebeu um nome muito diferente da empresa de marca de tintas. Ela tem uma porta ampla, também de madeira, madeira da mesma cor das vigas e enfeites. Tem janelas que abrem para fora, aquelas que possuem asas ou abas e se recolhem na hora de dormir, porque você tem que fechar tudo para que ninguém invada sua casa. Não há um tanto de janelas de banheiro seguidas. E mesmo as poucas que tem possuem esse toque de madeira presente em toda a casa. Você também pode mudar tudo e colocar a parede com textura, talvez até de tijolinhos. Ficaria rústico, né? E o telhado? Você colocaria uma certa assimetria nele, adicionaria chaminés e talvez um sótão. É sempre bom ter um sótão. Dá um ar mais antigo e cheio de mistério a um projeto novo e tem muita gente que liga isso à identidade. Essa casa dá para um terreno verde, com algumas pedras, árvores, tudo natural, tudo da vegetação do lugar que tem aquele toque mata atlântica. Você decide que tem que colocar piso formando caminhos entre a piscina, a churrasqueira, o chalé das visitas e a natureza que você vai querer ver mais de perto. Vai que vez ou outra aparece um tucano ou até uma arara ou um mico-leão-dourado. Você decide usar um piso que parece pedras para ligar a casa aos espaços externos. Para ficar bem natural, repito, porque é isso que você quer. Você começa a pensar em bangalôs, eles são lindos, com seus detalhes feitos de palha, tecido branco, mesinhas baixas de madeira e almofadas coloridas para sentar. Meio desconfortável isso, né? Mas muito bonito. Só que ninguém realmente gosta de sentar em lugares sem encosto. E então você começa a pensar que é um saco tudo muito natureba assim, porque não combina com a piscina. A piscina vai ter que ser aquelas naturais? Sem cloro? Com uns peixes no meio? Você vai pensar em trocar a piscina por um lago. Seu Sim vai ter que gostar de pescar, hein? Você começa a pensar que deveria fazer um negócio cheio de vidro, cor gelo, meio que sem telhado muito visível, aqueles projetos que parecem uma caixa, mas uma caixa estilosa, uma caixa que quer ser caixa e usa isso ao seu favor. Aquelas que tem dois andares, tem sacadinha, lugar para você olhar a natureza sem se aproximar muito. Desse jeito dá para colocar os móveis ultra modernos e prateados sem neurar que não combina, né? Você vai nessa, imagina, imagina, imagina e recomeça. Você faz isso eternamente até cansar e no fim nem joga The Sims. O que no meu caso é bom, porque meu computador não aguenta.


Esse texto foi feito a partir do dia 7 do #EscritaNaQuarentena, desafio de escrita criativa proposto pela Stefani Del Rio para a gente tentar se distrair um pouco durante esta pandemia. A proposta de hoje pedia para inventar um lugar e descrevê-lo. Saiba mais sobre o desafio aqui.

Quem quer ser um milionário?

Para ler enquanto toca “Free Money” da Patti Smith e depois emendar com “Money” do Pink Floyd

Cena do filme “Quem quer ser um milionário?”

Domingo era o dia de ouvir “É tele é tele é tele sena… eu vou… ganhar/na Tele Sena!” e ver a minha avó sonhar e comentar o programa do Silvio Santos inteirinho enquanto esperava para saber se era ou não dessa vez que ela ganharia um prêmio. Ou de pensar, de longe, que minha avó devia estar com a TV ligada na sua fantasia. Não me lembro se ela alguma vez ganhou alguma coisa, mínima que seja, na Tele Sena ou no jogo do bicho ou em qualquer outra loteria. Acho que eu não me ligava muito no resultado, já que ainda não entendia como a fortuna chegaria na carteira da minha avó. Eu me interessava mais pelo encantamento, pelos olhos brilhando de desejo, pela busca pela sorte. Na verdade, talvez eu era pequena demais até mesmo para entender essa ambição em ganhar dinheiro de maneira mágica, mas sei que com certeza já entendia a graça de receber presentes, mesmo as mais bobas lembrancinhas, sem esperar. A surpresa dá um gosto especial para qualquer coisa boa e eu via a Tele Sena como algo assim, ainda que hoje eu saiba que a compra do talão significava uma expectativa prévia que provavelmente nunca se concretizaria.

Tudo me parecia mais um jogo, por causa do jingle talvez. Não sei. Só sei que me lembro de pensar, a partir da ingenuidade infantil, que se fosse mesmo para ganhar dinheiro o melhor era tentar participar pessoalmente do programa para ver se pegava algum aviãozinho. Um aviãozinho de cem reais me parecia o suficiente para resolver todos os problemas da vida de uma pessoa.

O tempo passou. 25 anos após, eu sei que todo sábado, agora ligada em outra emissora, a minha avó acompanha o desejo de alguém de ganhar uma bolada. Se estou do lado dela, sei que vou ouvi-la contar sobre o porquê daquela pessoa precisar do dinheiro e então torceremos juntas para que as humilhações que o Luciano Huck ou qualquer outro apresentador preparou não sejam capazes de impedir o alcance do sonho daquele alguém.

Minha vó ama programas de auditório que possuem quadros em que os ricos apresentadores distribuem dinheiro para os pobres. Ela ama isso desde Topa Tudo por Dinheiro. Talvez ela amasse antes até. Essa é mais uma coisa que eu não sei e que não posso me esquecer de perguntar na próxima vez que a gente conversar. Quero que ela me conte todos os programas do tipo que ela acompanhou. Talvez tenha algo até da época da rádio. Quero ver a evolução do tipo. Quero ver como chegamos no Lata Velha e no Soletrando. Quero entender como eles brincam com o nosso desejo por redistribuição de renda usando prêmios como isca.

Até o momento só sei que o Luciano Huck meio que substituiu o Silvio Santos e que atualmente a minha avó deseja aquele dinheiro todo para os outros, inclusive para mim. Ela sempre insiste que eu deveria me inscrever no programa Quem quer ser um milionário?, porque segundo ela eu sou inteligente demais e seria uma das poucas a sair dos estúdios da Globo com o direito de receber a bolada máxima, aquela que é símbolo de tudo desde o Show do Milhão. Quando eu falo que não vou me inscrever, ela pede para eu convencer meu namorado de fazer isso. Ele também é inteligente, segundo ela, ele também sairia de lá milionário. Ela quer que a gente busque o direito a uma chance.

Minha vó sempre sonha comigo respondendo perguntas por grana. Isso porque nunca soube que na época do Show do Milhão eu jogava sem parar um jogo de computador que me treinou para viver esse momento. Até hoje vez ou outra ainda baixo o app para me testar. O problema é que o programa, no fim das contas, acabou me treinando para desejar acertar sempre. Ele não me ajudou a criar uma estratégia de pedir ajuda para os universitários na hora certa ou algo assim. Ele não me preparou para conseguir ganhar o prêmio máximo. Ele simplesmente me fez querer nunca errar e nunca correr o risco de errar, como se cada pergunta direcionada para mim sempre valesse um milhão de reais. Acho que aprendi a desejar algo mais impossível que um milhão de reais caindo no meu colo do nada.

A verdade é que eu jamais conseguiria participar de algo assim, ainda que não carregasse as minhas expectativas junto com as da minha avó. O Luciano Huck pergunta coisas demais e eu não gosto de ser inquerida sobre questões pessoais. Vai que eu respondo errado até nessa hora. Vai que eu mostro para o Brasil inteiro, inclusive para minha avó, que além de não saber responder questões sobre música sertaneja e pagar de inteligente, mas esquecer ou nunca ter sabido a capital de Azerbaijão, eu sequer sei como viver. Ou pior, eu sequer sei desejar um milhão de reais na minha conta da maneira correta.

Querer um milhão de reais caindo na sua conta do nada todo mundo quer, mas buscar a sorte em um programa de TV é outra história. É intimidador demais tentar, é expor a possibilidade do erro para todo mundo, é vender sua exposição e seu desejo para uma audiência por uma mera chance. Eu sei disso desde um episódio que vi do Show do Milhão em que um cara errou uma pergunta sobre a dupla ET & Rodolfo, dupla do momento, e virou chacota entre as crianças que eu conhecia. E agora sei disso ainda mais, sei tanto que nunca mais consegui ver The wall direito com minha avó. É sempre muita humilhação ou possibilidade de. É sempre nossa vida, nosso desejo, nosso sonho, a resolução de todos os nossos problemas, como um entretenimento que enriquece alguém muito mais do que vai nos locupletar. Eles ganham muita grana com a gente torcendo para que as bolas que fazem perder recursos caiam nas casas de menos de mil reais e assim o jogador perca menos, sendo que poderia não ter isso. Ele poderia não perder nada. Por que não manter só a possibilidade de ganhar?

Me perdoe, vó. Eu acho que prefiro deixar para tentar a Megasena na próxima vez que ela acumular e curtir agora sua companhia vendo uma partida de vôlei com você. É melhor sonhar com um milhão de reais ou mais sem a minha cara parar na TV. É melhor sintonizar numa partida esportiva com regras mais justas.


Esse texto foi feito a partir do dia 6 do #EscritaNaQuarentena, desafio de escrita criativa proposto pela Stefani Del Rio para a gente tentar se distrair um pouco durante esta pandemia. A proposta de hoje pedia um miniconto escrito a partir de uma música e eu, como rebelde que sou, fiz uma crônica a partir de duas músicas e algumas memórias. Saiba mais sobre o desafio aqui.


Corpos celestes

Free Nature Stock — Pexels

— Celeste, você vai mesmo passar a noite toda olhando para o céu dessa janela?

— Faz tempo que eu não faço isso de parar e olhar…

— E pensar, né? Você adorava essas coisas de astronomia quando criança. Sua mãe sempre comenta que soube que escolheu o nome perfeito para você quando você pediu um telescópio de Natal, não uma bicicleta, como todas as crianças pediam mesmo quase nenhuma podendo ganhar.

— Sabe o que me intriga? Isso de medir distância por ano-luz. De saber que quando eu olho para o céu agora, eu vejo o passado. Que alguma dessas estrelas que brilham para mim agora nem existem mais e que muitas que existem só poderão ser vistas daqui quando não existir mais humanidade. Que tempo e distância podem se combinar para mostrar o quanto a gente não entende nada de nenhum dos dois.

— Você vai rir de mim agora. Eu acho.

— Lá vem…

— Presta atenção e pensa aqui comigo: o céu que a gente vê é uma folha de um diário que chegou nas nossas mãos e agora a gente tenta imaginar o resto do que foi escrito só com isso que a gente tem.

— Mas a tecnologia…

— Celeste, você não gosta só de astronomia, você gosta também de história e literatura!

— Você não vai parar de rir mais disso, né?

— Vem cá, chega mais perto dessa janela e vem ser historiadora do Universo comigo!

— Você não vai encontrar nada de romance nisso, Naty.

— Não? E quando estrelas se fundem e formam uma supernova mais brilhante? Isso não é o que o amor fez com a gente?

— Ai, ai, você não vai parar com essa bobagem, né?

— Não, porque você está rindo toda hora. Tá adorando viajar comigo que eu sei! Ah lá! Tá rindo mais ainda agora!

— O que você quer com isso, meu amor?

— Quero te fazer rir até a gente ostentar para o Universo, bem dessa janela, um beijo daqueles.


Esse texto foi feito originalmente para complementar a minha última newsletter. Já em isolamento social. Como o quinto tema do #EscritaNaQuarentena era escrever uma cena clichê com personagens “fora do padrão”, optei por publicá-lo aqui. Digamos então que eu iniciei esse desafio de escrita criativa antes mesmo dele ser lançado, ok?

Saiba mais sobre o #EscritaNaQuarentena nesse post do Twitter ou no Medium, participe, explore a hashtag e se divirta.

Sobre escolher, preferir e colocar obras para competir entre si

Morning Sun — Edward Hopper

Eu deveria escrever um prefácio sobre o meu livro favorito sem dizer o nome dele. O problema é que uma das minhas principais características pessoais é não conseguir escolher preferidos entre obras literárias, cinematográficas e televisivas. Imagina então O preferido. Pois é. Agora estou aqui, atrasada no desafio de escrita criativa que me propus a fazer durante a quarentena simplesmente por ser incapaz de comparar meus gostos.

Eu poderia pegar dez livros e fazer cada título batalhar com o outro até sobrar um e pegar esse nome que restou para prefaciar. Só que eu não consigo. Esse plano encontra muitos obstáculos dentro de mim. O primeiro deles é escolher dez. Dez parece muito, mas é pouco. Mesmo se eu conseguisse chegar perto do número dez, eu ia ter que deixar algum título que eu amo de fora e isso seria uma injustiça com a obra e comigo. Uma injustiça que poderia se basear no fato de que há assuntos e abordagens essenciais que não podem competir entre si, porque são muito diferentes e também muito importantes, ou uma injustiça que moraria na possibilidade de você escolher um livro de romance e essa escolha ser vista, erroneamente, como uma eleição desse formato frente ao conto, à crônica, à poesia, à não ficção, à autoficção, à biografia e todo resto.

Sabendo dessa minha limitação, pensei muito em como eu poderia burlar as regras. Considerei mentir. Fazer um prefácio de um livro qualquer como se eu gostasse dele mais do que de todos os outros ou escrever sobre um livro que sequer existe. Como uma das regras era não citar o nome da obra no texto, mentir não seria muito difícil, mas eu não consegui. Pareceu errado. Não com vocês, mas comigo que seria obrigada a fingir ser como eu não sou. Também cogitei que eu poderia pegar um livro que foi meu preferido no passado, quando eu ainda conseguia fazer obras competirem entre si, mas nesse caso o prefácio seria sobre Harry Potter e já tem coisa demais sobre a saga nesse mundo.

É difícil escrever sobre escolha ou escolher favoritos, especialmente quando tem um alarme tocando sem parar no vizinho e uma reforma em plena quarentena bem do lado de casa. É difícil demais falar em querer e preferir quando eu sei bem o que eu escolheria fazer agora se eu pudesse. Com ou sem barulhos de vizinhos, eu queria poder sair de casa, dar uma volta, sentir o vento no rosto e o sol esquentar a pele e ter certeza que eu estou segura de novo dessa ameaça invisível que agora nos enclausura, física e mentalmente.


Esse texto foi feito a partir do #EscritaNaQuarentena e é o resultado da minha decisão por burlar todas as regras do dia quatro e da proposta. Saiba mais sobre esse desafio de escrita criativa nesse post do Twitter ou aqui no Medium, participe e se divirta. E, talvez, desobedeça. Como eu optei por fazer agora nesse texto e faço todo dia com o Bolsonaro, especialmente quando ele minimiza de maneira completamente irresponsável a pandemia de COVID-19 e o isolamento social necessário para passarmos por ela.

Um mês no planeta sem nome

Imagem de Jessica Lewis

Dias 01 e 02: Os efeitos do descongelamento vital ainda estão intensos. Estou sonolenta, sentindo um chiado no ouvido e com muita dor de cabeça. Fora o enjoo e a boca com gosto de guarda-chuva que não vê água há dois anos. Quem diria que toda missão em outro planeta ia começar com agentes com sintomas de ressaca?

Tenho uma missão a fazer, mas hoje não conseguirei sequer sair dessa nave e pegar amostras do solo para enviar para a Central de Pesquisa Interplanetária. Vejo esse novo planeta desconhecido apenas pela janelinha. Não parece haver quase nada com cores fortes por aqui. Tudo é mais ou menos como se meu filho tivesse imaginado um planeta povoado por unicórnios. Rosa, verde, azul, roxo, amarelo, tudo enorme e em cores pastel. A estrela dessa galáxia brilha da mesma maneira que o sol de nossa Terra, mas todo o resto é diferente.

Dia 03: Fora a sede, que provavelmente se manterá firme e forte comigo nos próximos três dias, estou bem. Hoje, assim que acordei, comi uma porção da minha ração, troquei de roupa e dei uma volta na região da nave. Colhi amostras do solo, de diferentes plantas e de alguns insetos. Como tudo já indicava, oxigênio aqui é abundante, como na Terra, e por isso eu nem precisei usar equipamentos de auxílio para a respiração. O que de fato é um alívio, porque me dá mais tempo no planeta e me permite tentar me misturar com o povo originário daqui sem tantos problemas.

Nessa primeira saída, a temperatura estava amena. Cerca de 19º Celsius. Só que o cenário aqui parece quase distópico ainda que esteja lotado de plantas e água. Algo na atmosfera faz os riachos, lagos e mares serem roxos, quase lilases, não azuis. Isso parece tão errado.

Dias 04 a 10: Depois de um passeio mais longo e uma análise detalhada das imagens que consegui do satélite que lancei antes de desembarcar, concluí que estou no planeta das candy colors e a qualquer momento vou descobrir que esse mundo é povoado por Hello Kittys.

Dia 11: Comecei a ver muita beleza nas cores daqui. Especialmente durante o pôr do sol. É um mundo fantástico, desses que fazem a cabeça das crianças e encanta adultos que ainda gostam de sonhar. Tem uma fruta aqui com o gosto daquele sorvete azul claro que chamamos na Terra de “pedacinho do céu” e outra, do tamanho de uma manga, que me lembrou um pouco uma amora, só que mais doce. Penso nisso agora para não neurar mais com o fato de que o contato com a vida inteligente desse planeta já aconteceu e foi de uma maneira totalmente diferente do que eu gostaria. Estou numa sala enorme, de um prédio bege pouco decorado, mas bem bonito, esperando que falem comigo. Um homem e duas mulheres, ambos claramente cientistas, me encontraram hoje na mata. Eu não imaginava que eles já tinham tecnologia para detectar minha chegada tão rapidamente. Talvez eu esteja em risco. Quero acreditar que não.

Dia 12: Eles claramente não gostam da minha presença, mas me parecem um povo curioso sobre minha anatomia e pacífico com outros planetas, na medida do possível. Tento me comunicar mais com os cientistas que me encontraram, porque vejo neles uma vontade genuína de trocar tecnologias e saberes, que é meio que o motivo que me trouxe aqui, mas depois da nossa conversa conjunta com os representantes da região, acho que não vai acontecer nada. Nenhuma troca, ainda que eles pareçam querer isso como eu quero. Nós simplesmente não conseguimos nos comunicar. Nossas linguagens são tão diversas e partem de símbolos tão diferentes que o meu tradutor automático não consegue identificar sequer os fonemas deles e nem eles e nem os seus aparelhos conseguem entender os meus símbolos, minha linguagem, os sons que eu emito.

Dias 13 a 18: Os nativos desse planeta são altos, muito altos, e totalmente pinks. Sim, pinks. Não rosa bebê, como grande parte da vegetação, mas pinks. Tudo que percebi até agora só explica a altura das árvores que vi quando cheguei e das camas, mesas e cadeiras que agora uso. Todo o resto continua sem explicação, especialmente agora que não tenho como enviar mais tantas amostras sem parecer descortês. Os corpos deles tem o formato relativamente parecido com o nosso, mas eles possuem uma consistência mais firme, mas ao mesmo tempo mais leve. A carne deles não parece ser a mesma que a nossa e dos nossos bichos. Somos bem parecidos, mais do que eu imaginaria até, o que no fim das contas me intriga mais do que todas nossas diferenças óbvias.

Dia 19: Tenho medo. Por isso não saio mais desse prédio em que me deixaram e observo tudo que posso pela janela. Não acho que vão me dissecar ou algo assim. Ao menos não agora. Eles parecem estar muito intrigados com a maneira que eu me expresso, então precisam de mim viva e falante.

Me deixam em paz grande parte do tempo, mas quando se aproximam assoviam e sibiliam o tempo todo. Eles querem algo de mim, mas eu não sei o quê.

Dia 20: Enquanto eu falo, eles olham a minha língua tão intrigados que temo que eu acorde amanhã sem ela.

Dia 21: Tenho sido injusta com os habitantes desse planeta. Eles não tentaram, em nenhum momento, me intimidar. Pelo contrário. O que me deixa mais desconfiada ainda. Temo me tornar uma espécie de pet deles ou sei lá. Não pode ser normal tratar um estrangeiro de forma tão tranquila, especialmente quando ele poderia ter avisado sobre sua chegada e não o fez. Ainda mais quando eles parecem sentir medo também. Essa paz toda me parece antinatural demais. Se são tão puros, o que eles vão pensar de mim se souberem que foi uma guerra e competição entre países que incentivou os primeiros avanços do meu povo para o desenvolvimento do conhecimento interplanetário?

Dias 22 a 30: Eles tentam ser simpáticos, então eu tento ser simpática do meu jeito, o jeito humano, e eu acho que eles quase gostam de mim. Eles cantam, dançam, leem, andam quase sempre em grupos, se encontram para assoviar em prédios como esse em que estou hospedada, cozinham muito bem e parecem estar tentando criar uma maneira de se comunicar comigo. Eles não param de tentar, pelo menos. Como se a insistência fosse o suficiente para fazer a gente começar a se entender.

Dia 31: Trouxeram minha nave para cá, para eu me sentir em casa. Aparentemente, a única coisa que temos em comum são os símbolos de lar, porque estamos nos comunicando a partir unicamente de desenhos de tudo que simboliza conforto, amizade, segurança e origem. Ainda que “lar” seja uma palavra tão abstrata, nos entendemos porque eu quero segurança para conseguir voltar para minha casa e eles querem a certeza de que eu não vou tomar a deles.


Esse texto foi feito a partir do #EscritaNaQuarentena, desafio de escrita criativa proposto pela Stefani Del Rio para a gente tentar se distrair um pouco durante esta pandemia. A proposta do terceiro dia era fazer um diário de bordo de uma viagem interplanetária e esse foi o resultado final do meu trabalho. Saiba mais sobre a ideia nesse post do Twitter ou no Medium, participe e se divirta.

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Conheça Maurício

Oi, Brasil. Oi, Rede Globo. Meu nome é Maurício e eu sou professor universitário e escritor. Tenho 35 anos, moro em São Paulo e decidi que precisava me inscrever nesse programa, porque a vida em confinamento com lindas mulheres, boas festas, pessoas muito diferentes de mim e desafios de convivência me parece ser o material perfeito para me inspirar a escrever um futuro romance sobre a experiência.

Se eu me entregaria para o amor dentro do jogo? Claro que sim, para isso estou sempre aberto. Não tenho medo de viver qualquer história. Mesmo frente às câmeras. Já sou acostumado a colocar os holofotes sobre a minha vida a partir da escrita, entende? Já escrevi até sobre minhas broxadas e minhas musas. Me doarei por completo para o programa, como já faço na escrita.

Se eu tenho medo de acabar ganhando fama de vilão? Não, não tenho, sou professor e já estou acostumado com isso, Brasil. Não se engane com essa minha carinha de homem sensível e quietinho, eu sou o terror nas bancas de monografia e já aviso desde já que não tenho medo de jogar. Eu quero um milhão e meio de reais na minha conta.


Corta para Maurício na casa comentando com os outros homens do confinamento sobre o corpo de cada uma das participantes e posteriormente conversando na primeira festa com a eleita como a maior beldade da edição. Depois de umas três elofensas a ela e dez autoelogios, ele comenta “Você já ouviu falar do Jabuti? Eu só nunca ganhei porque nunca me inscrevi” e sela sua fama de feio sem noção.


Corta para a saída do escritor e professor no 6º paredão, seu 1º.


Esse texto foi feito a partir do #EscritaNaQuarentena, desafio de escrita criativa proposto pela Stefani Del Rio para a gente tentar se distrair um pouco durante esta pandemia. A proposta do segundo dia era criar um personagem do zero e escrever o texto de apresentação dele ao entrar no BBB e esse foi o resultado final do meu trabalho. Saiba mais sobre a ideia nesse post do Twitter ou no Medium, participe e se divirta.


Queijo mofado

Nhami

Esses dias me deu uma vontade enorme de comer filé ao molho gorgonzola. Quando aconteceu, eu estava passando os olhos no feed e nos stories do Instagram, mas ao contrário do que você imaginou ao ler a frase anterior não foi uma foto marcada com a hashtag #pornfood que me fez salivar. Foi outra coisa.

Eu estava no ônibus, em mais uma das minhas viagens bairro-centro cotidianas, felizmente sentada dessa vez e, bem na minha frente, dois homens conversavam empolgadamente sobre onde iam almoçar assim que desse o horário. Eu não sei exatamente o que eles faziam da vida, o que conversavam anteriormente, se eram amigos ou somente colegas de trabalho voltando para firma depois de uma visita técnica ou algo assim, eu só sei que comecei a prestar atenção no bate-papo deles porque a forma que os dois descreviam comida era única. Tinha mais prazer nas palavras desses homens do que em qualquer “hmmmmmm” já emitido pela Ana Maria Braga ou comentário feito por jurado do Top Chef ou qualquer outro programa semelhante.

A dupla falou sobre escondidinhos de carne seca, parmegianas, lasanhas, molhos de alho, o famoso arroz e feijão, as boas tilápias da região e juntos elegeram o melhor prato executivo de BH. Quando eu achei que o assunto ia finalmente morrer e algum deles ia começar a falar de novela ou futebol, um virou para o outro, como se confessasse algo que somente o outro fosse capaz de compreender, e falou: “não tem jeito, cara, todo resto é bom, mas eu quero mesmo é filé ao molho gorgonzola”.

Dessa hora, até o meu ponto chegar, eles descreveram com prazer o prato de cada um dos restaurantes que eles experimentaram juntos e separados. Dando notas, inclusive. Cremosidade, maciez da carne, precisão no sabor da gorgonzola e preço foram as principais categorias. Tudo ia muito bem. Eu, além de entretida com as salivantes descrições, anotava nomes, endereços e referências dos eleitos como preferidos no celular, até que vi a simples frase “filé filé não era, mas…” criar discórdia. E que discórdia. O assunto e talvez até mesmo a amizade daqueles homens ficou por um fio. Mas, no fim, eles encontraram concordância de novo quando o mais resistente na briga assumiu que nunca pensou que um dia ia gostar tanto de algo que tem como ingrediente principal pedaços de queijo mofado.


Esse texto foi feito a partir do #EscritaNaQuarentena, desafio de escrita criativa proposto pela Stefani Del Rio para a gente tentar se distrair um pouco durante esta pandemia. A proposta do primeiro dia era escrever uma crônica sobre um tema banal e esse foi o resultado final do meu trabalho. Saiba mais sobre a ideia nesse post do Twitter ouno Medium, participe e se divirta.