“Solução de dois estados”: uma história sobre ódio, sociedade e subjetividade

Divulgação — Adquira seu exemplar aqui.

“Solução de dois estados”, obra mais recente do escritor brasileiro Michel Laub, se inicia com uma memória do personagem Alexandre sobre o Plano Collor narrada por ele mesmo. Não sabemos onde ele quer chegar com isso, por que ele fala, com quem ele fala, mas logo percebemos a mágoa do personagem com a irmã.

Uma reflexão sobre ódio é feita. Uma personagem comenta sobre uma cena, sobre suas cicatrizes, seu corpo, e reflete sobre ter que repetir sua história, enquanto todos parecem buscar uma contradição, um erro de tom, um motivo para culpá-la. Ela parece estar cansada de contar o que aconteceu para tentar cativar um público que não se importa. Raquel é o nome dela. Ela é a irmã de Alexandre.

E assim segue o livro. Cada hora um personagem fala, apresentando seus pontos de vista. Assim conhecemos suas personalidades, suas memórias e os acontecimentos a partir do que nos é dado por eles. O contexto daquela trama se desenrola, ao menos inicialmente, a partir do que esses dois personagens nos contam. Só com um certo avanço na leitura que conhecemos melhor uma terceira personagem com voz: a documentarista estrangeira Brenda. A personagem que, com suas perguntas, guia todas as respostas, ainda que ela omita várias delas ao fazer suas edições no material.

A obra simula a estrutura típica de um documentário. A narração, a troca de vozes, a apresentação de materiais brutos depois dos pré-editados, tudo tem a ver com esse formato usado para contar histórias reais, colocando a discussão do papel da arte e as escolhas que envolvem esse fazer no centro da narrativa, indo além da personagem Raquel, que é artista performática, criando assim a possibilidade de embates entre a cineasta e ela e também entre Brenda e Alexandre. A construção dos personagens a partir do que eles dizem sobre si e sobre os outros, as perguntas incômodas da estrangeira, tudo isso que é posto no livro é material desse documentário-cenário e, de certa maneira, também quase personagem já que representa ali a documentarista e suas escolhas artísticas ou não.

O ódio entre os dois irmãos, algo tão íntimo e relacionado com ressentimentos do passado e do presente, se entrelaça com questões políticas do nosso tempo, como a violência, as milícias, o sexo, o discurso meritocrático e da igreja — que inclusive se confundem — , assuntos relacionados com bancos, patrocínios, perseguição da arte e a supervalorização do trabalho empreendedor como transformador e acima de todos os outros.

O corpo é também um território de batalha na obra. Raquel tem 130 quilos e seu trabalho artístico, suas mágoas, suas experiências, inclusive de violência, são relacionadas a esse fato. Isso cria uma complexidade além, tanto para a construção da personagem, quanto pra obra em si. Ela quer o direito de existir como ela é sem sofrer com o ódio que é direcionado a certos tipos de corpos. Ela, na defesa dessa pauta, de sua dor e de si mesma, se exalta em alguns momentos, se tornando inclusive arrogante. Só que ela não é uma representante típica do ódio, ela é uma vítima dele. Por mais que a própria documentarista tente colocar Alexandre e Raquel como faces de uma mesma moeda em alguns momentos, querendo exaltar a polarização, há no livro pontos que evidenciam que essa não é uma escolha tão difícil como alguns podem alegar: é civilização versus barbárie para mim, para vários nós, mas para muitos outros a disputa que se coloca no livro e na vida é entre o bem e o mal e o uso político e religioso desses termos.

Michel Laub criou uma obra que se passa em 2018, meses antes da famigerada eleição de Bolsonaro e sua trupe, mas que também narra algo anterior. Intenso, dolorido, reflexivo e capaz de nos fazer entender dois personagens complicados, ainda que um seja bem mais complicado que outro, o livro fala desse entrelaçamento de família e política, vida privada e sociedade. Como os acontecimentos políticos podem afetar nossas vidas? Nossos afetos? O que nosso corpo representa politicamente? É viável tentar uma conciliação com esse Outro? Ela é desejável? Ela é necessária? Há diálogo possível? Há alguma outra perspectiva que indique mudança nesse panorama? Todas essas perguntas que surgem durante a leitura nos incentivam a pensar nas nossas próprias relações, em como a política afeta cada uma delas, e, de forma talvez indireta, no uso da defesa da família como pauta política principal por alguns partidos e políticos, enquanto todo esse ódio, que esses grupos adoram alimentar contra diversos tipos de pessoas e ideias, fomentam rupturas, disputas, ressentimentos e violência.


O livro “Solução de dois estados” de Michel Laub será lançado oficialmente no dia 09/10, sexta-feira, mas é possível comprá-lo durante a pré-venda, garantindo um preço mais baixo do que o de estreia, pela Amazon. O link posto aqui também será válido para compras posteriores a data.

Uma semana antes do lançamento oficial, a Companhia das Letras promoveu uma Cabine de Leitura com o autor e alguns parceiros interessados em receber o livro via ebook em primeira mão e lê-lo para a conversa. O papo foi incrível. Michel compartilhou um pouco sobre seu processo criativo, suas referências e algumas opiniões com a gente, além de ter respondido perguntas nossas e do mediador.

“País sem chapéu”: morte, busca e pertencimento no Haiti

Acervo pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Dany Laferrière é jornalista, escritor e roteirista de origem haitiana. Aos vinte e três anos, o autor saiu do país e foi viver em Montreal no Canadá por temer ser assassinado pela milícia paramilitar do ditador Baby Doc. Sua trajetória pelo continente faz com que ele se defina como americano, por ser parte de um todo muito maior do que seu país de origem ou país de morada. E eu sei de tudo isso não por simplesmente ter lido na Wikipedia seu artigo, coisa que eu também fiz, mas porque a própria obra dele parte de sua biografia. Dany então é um desses autores que escrevem o que muitos chamam de autoficção e quase tudo do que eu disse nesse parágrafo é apresentado para o leitor em “País sem chapéu” como a história de seu protagonista.

“País sem chapéu” é um livro que se inicia com o retorno do narrador-personagem ao seu país após 20 anos morando no exterior. Ele se coloca ali como um mero observador, tanto porque isso é necessário no ofício de escritor, quanto porque ele esteve fora por tempo demais e agora sente que não entende mais nada. De certa forma, ele reconhece que passou a possuir um olhar estrangeiro, logo possivelmente estereotipado, mesmo sentindo que nunca deixou de pertencer ao Haiti. Ainda que isso possa ser colocado como algo individual ou mesmo ficcional, as sensações descritas na obra sobre voltar para casa depois de tanto tempo e a questão do pertencimento dizem muito sobre o que é ser haitiano em outros lugares do mundo — e um pouco também sobre ser haitiano ali, vivendo tudo aquilo que motivou muitos a buscarem outro lugar para viver.

A complexidade do país e sua cultura é abordada pela obra a partir da divisão do livro em vários capítulos que recebem dois nomes: País Sonhado e País Real. Além disso, cada novo capítulo é anunciado com um ditado próprio do país colocado originalmente em creole — o que encoraja o leitor a pensar também nos ditados de sua cultura, criando assim um diálogo além da obra — e também reafirma um significado político ao expor o que é posto como sabedoria popular. O País Real é sempre formado de pequenos textos com títulos próprios, quase como se fossem notas de observação, enquanto quase todos os capítulos desse País Sonhado não tem essa característica. Essa dualidade não é por acaso e dialoga com o fato de que a morte é um dos temas principais dessa história. Ela ronda praticamente todas as conversas, evidenciando como essa obra se coloca como uma espécie de investigação sobre o tema e seus mistérios ao marcar como a ancestralidade se faz presente na cultura haitiana e tem uma relação com a resistência ao colonialismo.

Numa conversa com o protagonista, um professor conta a ele que os Estados Unidos estavam tentando fazer um recenseamento secreto no país, mas se deparava com um desafio prático que poderia ser resumido numa história: quando o entrevistador pergunta “Quantos filhos a senhora tem?” para uma mulher, ela responde um número que inclui os vivos e mortos. Questionada no avançar da conversa, ela afirma que todos eles são filhos dela e que para elas eles estão vivos para sempre. Apesar de morte e vida serem colocadas quase sempre como opostos, elas são parte de uma coisa só. A dualidade do País Sonhado e do País Real, da noite e do dia, da morte e da vida talvez seja um vício no olhar. Algo que parece acontecer por não sermos capazes de entender.

O fantástico se faz presente em “País sem chapéu” e é usado para falar sobre a realidade dos haitianos e também de sua cultura. O protagonista volta para sua terra durante a operação da ONU e a presença, principalmente norte-americana, na ilha é ironizada e questionada por ele e por alguns outros personagens, como no diálogo em que se comenta que o EUA estão lá pra saber quando tempo um ser humano pode viver com tantas privações. O que vale como reflexão para nós brasileiros, que marcamos presença nessa operação que hoje é narrada como repleta estupros, repressão de manifestações, abuso de autoridade, interferência no processo eleitoral, dentre outros atos inaceitáveis amplamente documentados, conforme afirmado numa carta direcionada ao secretário geral da ONU.

Dany, numa história repleta de aspectos pessoais, marcada por questões de pertencimento, identidade e investigação de si e dos outros, aborda a própria formação de seu país a partir do colonialismo, escravidão, imperialismo e ditaduras. A falta de respostas para algumas questões, inclusive fantásticas, levantadas talvez diga também sobre esse todo. Ao escolher falar de morte numa obra sobre o Haiti, o autor faz uma crítica sobre as condições miseráveis de seu povo, enquanto também aborda aspectos religiosos, com todo o seu simbolismo, história de resistência e suas contradições, sem jamais deixar de refletir sobre os significados de caminhos e travessias que se fazem presentes em tantas culturas. Ainda que vejamos a morte de forma diferente, ainda somos ligados pelo medo de deixar de existir.

Tradução e posfácio: Heloisa Moreira


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe também pelo Medium, Facebook, Twitter, Tinyletter e Instagram.

Se interessou pelo livro? Adquira seu exemplar aqui ou diretamente com a editora ou livraria independente de sua preferência.

“Bem-vindos ao paraíso”: a Jamaica além das belas paisagens

Foto de minha autoria para o Leia Mulheres Divinópolis — Adquira sem exemplar aqui.

Nicole Dennis-Benn nasceu em Kingston, capital da Jamaica, e lá viveu até os 17 anos de idade. Após se mudar para os Estados Unidos para estudar, conquistou o título de mestre em saúde pública com especialização em saúde reprodutiva da mulher e, posteriormente, fez um mestrado em escrita criativa. Atualmente, vive em Nova York com sua esposa.

Ela é uma autora que não teme abordar em sua obra temáticas consideradas delicadas, mas muito necessárias: no seu romance de estreia “Bem-vindos ao paraíso”, traduzido para o português por Heci Candiani, ela trabalha, por exemplo, com questões relacionadas à sexualidade, raça, classe, ser mulher e diferentes formas de exploração, desigualdade e violência, amarrando tudo isso com uma história incômoda de uma família composta por mulheres.

País da fantasia

Já na primeira página do livro, essa expressão é utilizada para falar da Jamaica criada para os turistas estrangeiros, majoritariamente brancos, pelo trabalho dos jamaicanos mais pobres e negros, mostrando que os turistas não conhecem — e nem querem conhecer — a realidade de ninguém dali, ficando restritos aos resorts construídos onde antes as pessoas viviam. O que tem tudo a ver com o nome irônico recebido pela obra no Brasil.

A indústria do turismo engole a Jamaica e a sua população negra, fazendo surgir um desejo coletivo de fazer parte daquele país da fantasia e privilégio, nem que seja a partir do trabalho explorado. Cria-se assim um sonho de um dia ascender de alguma maneira e passar merecer algo daquele universo tão inacessível e, claro, também a inveja de não fazer parte.

Margot, além de trabalhar no hotel como uma espécie de gerente, também é prostituta. Sua história aborda os efeitos do turismo sexual nas comunidades e nas pessoas que fazem parte dela, além de servir para denunciar o quanto esse fenômeno tem relação direta com o racismo e a misoginia, porque os clientes que surgem nessa história buscam na Jamaica corpos exóticos e muito jovens, contando com o desespero pela sobrevivência de tantas meninas e mulheres, e como tudo isso também afeta a vida das mulheres não inseridas nesse esquema a partir da naturalização da exploração e violência contra esses corpos em todos os espaços.

A escola, o colorismo e a descoberta de si e do mundo

Toda a trama de Thandi, irmã mais nova de Margot e filha de Delores, gira em torno de salvá-la de um destino como o delas a partir da educação. Margot faz de tudo para mantê-la em um colégio particular muito caro para que ela se torne médica no futuro. A educação é a esperança, mas ela só parece ser possível de ser alcançada por poucos, alimentando ainda mais a dicotomia entre qualquer menção à meritocracia e o oferecimento de oportunidades reais.

Os dramas de Thandi se relacionam com essa alta expectativa versus o desenvolvimento de sua subjetividade, mas não só. Além de outras questões, estar nesse colégio faz com que ela se sinta excluída, deslocada e queira clarear sua pele, porque na Jamaica ser bonita, mais amada ou ter chances de empregos melhores depende disso. Ela é diferente das outras garotas e garotos da escola e ela e eles sabem muito bem disso. Thandi está fora do lugar e todos fazem questão de lembrá-la disso.

A Jamaica LGBT

A autora desse romance casou-se com Emma Benn inicialmente nos Estados Unidos e posteriormente na Jamaica, tornando sua união com outra mulher um ato político de extrema importância em seu país natal já que o casamento privado delas vazou para o noticiário do país e ficou conhecido como o primeiro casamento lésbico da ilha. A autora, em entrevistas, parece incomodada com essa definição, por considerá-la pouco realista. Outras cerimônias entre casais de homens ou de mulheres já aconteciam, mas essa foi a primeira vez que todo mundo ficou sabendo. Essa exposição causou uma certa aflição, mas, posteriormente, Nicole e Emma consideraram importante demais o que aconteceu, porque fez com que isso fosse discutido no mundo inteiro.

Vê-las narrando as dúvidas, desafios e pequenas alegrias relacionadas ao casamento delas na Jamaica parece algo pouco relacionado com o livro, mas é. Verdene é uma das principais personagens da trama e é tratada como uma bruxa por sua sexualidade e história pessoal. Ela é vista como uma pária por todos e teme, o tempo todo, se somar às estatísticas de violência por isso. As pessoas escrevem palavras bíblicas de ameaça com sangue de animais em sua casa, jogam corpos de bichos mortos em seu quintal e chegam até mesmo a recusar que ela compre produtos em suas lojas. Esse retrato da vida de uma mulher lésbica exposto na obra nos faz pensar na importância que a notícia do casamento de Nicole e Emma ganhou entre pessoas jamaicanas lésbicas, bissexuais ou gays, sempre colocadas na clandestinidade pela situação.

Verdene vive uma história secreta de amor com Margot. No meio de tanta violência, o livro narra a relação delas como um momento de esperança, quase poético, apesar do medo e da quase impossibilidade daquilo continuar, ao menos ali naquele local. O amor, em toda obra, se manifesta assim, como uma possibilidade de deslumbramento e contemplação mesmo no meio do caos e da dor, apesar da autora evidenciar que até na vivência real dele os privilégios de raça, classe e gênero influenciam.

O que a linguagem pode nos dizer?

“Bem-vindos ao paraíso” da Nicole Dennis-Benn foi a leitura do mês de agosto do Leia Mulheres Divinópolis, clube de leitura em que sou uma das mediadoras. O encontro desse livro aconteceu no último sábado, dia 22/08, e contou com a participação da Heci Candiani, tradutora da obra para o português.

Por isso, parte da nossa conversa abordou também a linguagem e sua relação com poder, classe, colonialismo e, claro, construção de personagem. Heci Candiani falou conosco sobre a pesquisa que fez sobre o inglês jamaicano e chamou a atenção sobre o uso dele no livro e seus desafios de tradução. Quem fala o que é chamado de patuá? Com quem se fala dessa forma? O que não falar inglês jamaicano significa ali? Como um sotaque estrangeiro é visto?

Olhar para as escolhas de linguagem de Nicole, a partir desse debate, nos ajudou a pensar ainda mais nesse livro como um expositor de desigualdades e dinâmicas sociais complexas.


“Bem-vindos ao paraíso” de Nicole Dennis-Benn trabalha a violência de maneira dura, mostrando o quanto ela está presente na vida das mulheres jamaicanas e segue naturalizada e perpetuada pela sociedade. Apesar de em nenhum momento aparentar ser uma obra teórica, o livro também expõe a relação direta dessas violências com o capitalismo e o colonialismo e a desigualdade que ambos fomentam, ainda que alguns perpetuadores de toda essa lógica não estejam em um lugar típico da ideia de opressor. A partir da leitura desse romance, a gente percebe o ciclo da perpetuação de violência que cerca essa família e essa comunidade torna aquele ambiente tóxico para o crescimento do amor, do diálogo e do companheirismo. Esse amor que insiste em crescer e ser desejado, mesmo que em outros espaços, apesar de ninguém ali parecer saber se é permitido que se viva algo que não seja dor e busca pela sobrevivência.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe essa resenha com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

Se interessou pelo livro? Adquira seu exemplar aqui ou diretamente com a editora ou livraria independente de sua preferência.

“AmoreZ”: historietas gostosinhas sobre o sentimento mais famoso do mundo

#LeiaComASubjetiva

Acervo pessoal — Adquira seu exemplar aqui

O amor é aquele sentimento que de tanto ser falado acabou se tornando sinônimo dos mais diversos tipos de comportamento. Alguns bem problemáticos, por sinal. Regiane Folter, com esse livro leve e delicioso, resolveu falar de uma das minhas facetas do amor preferidas, essa que mostra que ele pode ser tranquilo, cuidadoso e também confortável.

Com mais de vinte pequenos textos, alguns com um caráter bem pessoal, e várias lindas ilustrações feitas pela argentina Magdalena Rivarola, “AmoreZ” fala sobre os processos pessoais e relacionais que envolvem o amor, abordando esse sentimento indo muito além do famigerado casal hétero e branco tradicional que se comporta como se o amor precisasse ser complexo, difícil e dolorido.

Regiane mostra que o amor pode ser leve, mas que essa leveza não é uma mera simplificação de um sentimento. O que torna o amor algo que pode ser suave e delicado é a constatação de que ele é muito mais amplo do que parece e pode ser manifestado das mais diferentes formas, sendo, inclusive, muitas vezes um processo. Especialmente quando falamos de amor próprio, ainda que seja possível abordar a questão de processo numa relação amorosa ou até de mãe e filha.

A rotina é um dos itens cotidianos mais massacrados quando se fala sobre amor, mas nesse livro ela se manifesta como uma parte confortável do banal, do simples, de como as relações e os sentimentos que temos passam a fazer parte de nossas vidas. Relações essas que vão muito além de uma parceria amorosa, se apresentando até mesmo na amizade de humanos com animais.

“AmoreZ” é uma leitura rápida e gostosa, uma ótima pedida para preencher momentos em que buscamos alguma distração que nos lembre um afago ou o cheiro daquela comida conforto que alguém que a gente ama, podendo ser até nós mesmos, vez ou outra faz pra gente se sentir melhor.


Para quem gosta de amor e histórias diversas sobre, aproveito a deixa para recomendar a série “Modern Love”, disponível no Prime Video, streaming da Amazon.

Se interessou pelo livro? Adquira seu exemplar aqui ou leia pelo Kindle Unlimited.

#EmDefesaDoLivro: discutindo a tributação proposta pelo Guedes

Photo by Aaron Burden

A proposta de reforma tributária encabeçada pelo Paulo Guedes, ministro da Economia do governo Bolsonaro, tem sido apresentada toda fatiada, confusa e sem perspectivas de mudanças positivas. Se há anos se fala da necessidade de simplificar as regras tributárias e a proposta em questão busque, ao menos teoricamente, isso, por que então a apresentação das proposições tem acontecido em partes, tornando difícil o acompanhamento por parte do povo? Por que a simplificação da tributação sobre o consumo tem sido colocada agora como uma solução de todos os problemas sendo que sequer inclui qualquer comentário sobre ICMS e ISS? Por que esse é o foco, sendo que a regressividade do nosso Sistema Tributário é muito criticada há tempos? Se historicamente muito se discute sobre a importância de diminuir a tributação sobre o consumo no Brasil, por que o ministro da Economia na prática propõe justamente o oposto disso? O que pode estar por trás da ideia de Guedes de acabar com a desoneração do livro? Por que essas questões importam na hora de falar em defesa do livro?

Arrecadação, tributação sobre o consumo e desigualdade

Uma das marcas do Sistema Tributário Brasileiro é sua regressividade, que significa que, na prática, quem tem mais, paga menos proporcionalmente*. Além de questões como a falta de tributação sobre lucros e dividendos distribuídos a acionistas de empresas e a não instituição do imposto sobre grandes fortunas já previsto na Constituição, o Brasil, ao tributar em peso bens e serviços, faz com que as pessoas mais pobres não consigam escapar da tributação ao fazer compras essenciais e usufruir de serviços necessários, ainda que haja uma desoneração de itens da cesta básica, enquanto quem tem mais dinheiro segue vivendo numa situação de conforto tributário fortalecido inclusive com benefícios fiscais de origem e intenção duvidosa.

Essa distorção é causada por n fatores e é um problema porque bate de frente com o caráter distributivo que a tributação deveria ter, especialmente em um país como o Brasil. Para combater a desigualdade, a tributação deve focar na propriedade e renda da parcela mais rica da população, não no consumo geral e irrestrito que faz com que todos, ricos e pobres, paguem os mesmos tributos ao consumir. A alta tributação sobre o consumo é criticada até mesmo por tornar nossa economia mais engessada. Não tem como falar em aumentar arrecadação e tornar o sistema menos desigual sem mexer na tributação da herança, da doação, dos barcos, aeronaves, dividendos e outras manifestações de renda diferenciada.

Os tributos, assim como os benefícios fiscais, possuem, além do caráter fiscal e arrecadatório, a possibilidade de apresentarem efeitos e características extrafiscais. Quando o governo aumenta, diminui ou mesmo isenta a tributação sobre o cigarro ou alguns produtos importados, por exemplo, essa pode ser uma tentativa de afetar o consumo dos produtos atingidos pela majoração ou minoração. Dessa forma, o governo pode incentivar o consumo de produtos específicos, enquanto praticamente inviabiliza a compra de outros. Sendo assim, a tributação é uma questão que vai muito além da arrecadação em si, sendo usada inclusive como um desestímulo para se consumir algo.

Quando Paulo Guedes demonstra que quer ampliar ainda mais a tributação sobre consumo, atacando diretamente a isenção das contribuições especiais prevista na lei 10.865 de 2004 que atinge a venda e importação dos livros — e de diversos outros itens, sendo alguns desses bens também relacionados com questões de acesso — , ele não busca um aumento de arrecadação ou uma melhora do Sistema Tributário Nacional no sentido de torná-lo menos desigual, como ele alega estar fazendo. Apesar do ministro dizer que o livro é um produto da elite e taxá-lo é importante por isso, o que ele faz é tentar inviabilizar o mercado livreiro e desincentivar o consumo dos livros, enquanto defende a manutenção de uma política tributária falha e que prioriza quem ele diz atacar com essa proposta.

O livro, a elite, os direitos e as estratégias de usurpação de direitos

A imunidade tributária do livro, do jornal e do periódico e o papel destinado à sua impressão é um instituto jurídico histórico — nascido em 1946, por iniciativa de Jorge Amado, e reafirmado nas Constituições seguintes, incluindo a de 1988 — que proíbe a instituição de impostos sobre esses itens e pode ser interpretado inclusive como uma cláusula pétrea, tornando inconstitucional qualquer restrição, já que a imunidade cultural é relacionada com o direito à liberdade de expressão e a ideia de facilitar o acesso à cultura, à educação, ao conhecimento, à informação e à ciência, questões relacionadas aos direitos fundamentais previstos.

No mesmo ano que surge uma proposta de Reforma Tributária que ataca o livro, o STF aprovou uma súmula vinculante sobre a imunidade tributária cultural alcançar também os livros eletrônicos e seus componentes importados, reafirmando a importância que a Constituição, seus guardiões e o direito brasileiro dão para o incentivo à leitura, ao conhecimento, ao direito de expressão e à facilitação de acesso às informações e cultura.

O Brasil adota hoje a teoria tributarista que afirma a existência de cinco espécies de tributo: os impostos, as taxas, as contribuições de melhoria, o empréstimo compulsório e as contribuições especiais. A imunidade cultural do livro o protege somente de impostos, sendo possível taxá-los com outros tributos, como as contribuições especiais, que, no caso, foram isentadas com a lei 10.865 de 2004, que agora está ameaçada.

A imunidade cultural do livro não é alvo direto de Guedes no momento — ele busca acabar com a isenção dos livros nas contribuições especiais — , mas é importante ser lembrada, porque esse ataque indica as intenções do atual Ministro da Economia e as estratégias que esse governo usa para defender seus interesses. Além das emendas constitucionais terem um processo legislativo mais complexo e dependente de mais votos para sua aprovação, o que dificulta que se mexa diretamente na imunidade que protege os livros dos impostos especificamente, há a interpretação de que esse instituto constitucional não pode ser restringido e é por isso que o foco do governo atual envolve mexer na questão do livro sem ter que lidar com essas dificuldades e, no momento, busca mudar a legislação infraconstitucional que isenta o livro de contribuições especiais. Mesmo sem afrontar diretamente a imunidade, Paulo Guedes sabe o quanto essa proposta já é uma forma de relativizar direitos e combater o que a Constituição tenta buscar ao definir o livro como imune aos impostos, além de saber o quanto soa ameaçador para o mercado livreiro.

Apesar disso, qualquer discussão sobre essas questões tributárias, como o fim da isenção prevista na lei 10.865 de 2004, envolve o legislativo no todo, o que cria obstáculos para que uma proposta como essa continue sem modificações, possibilitando que a gente lute, pressione e se aprofunde no debate da Reforma Tributária no todo. Até porque há toda uma campanha em defesa do livro se desenhando no momento.

Nesse sentido, é preciso atentar-se ao fato de que apresentar algo absurdo e improvável de ser aprovado no legislativo e depois voltar atrás é também estratégia para relativizar direitos. Caso a aprovação não venha ou ocorra uma desistência nesse sentido, eles vão querer que pareça negociação, que eles voltaram atrás, sendo que isso é só mais uma parte de um projeto maior que envolve o enriquecimento de poucos e a manutenção dos privilégios que mantém poucos no topo explorando, de maneira cada vez mais barata, pessoas, especialmente a partir do encolhimento da classe média e da renda dos mais pobres já em curso. Lembrando aqui que o Paulo Guedes tinha a intenção de acabar com a desoneração dos itens de cesta básica, mas “desistiu” pela impopularidade da medida, mas que, infelizmente, quando se fala em cultura, a sociedade brasileira ainda tende a pensá-la como algo menor, próximo até da futilidade.

Sendo assim, reafirmar a solidez e importância do instituto da imunidade, ainda que ela não seja o alvo direto da reforma, é uma maneira de defender o livro, porque expõe o quanto esse ataque é parte de um jogo político que envolve jogar para a torcida bolsonarista, enquanto tenta enfraquecer a imunidade cultural e o mercado do livro e da cultura para futuras ameaças, além de invisibilizar outras questões problemáticas da Reforma Tributária que está sendo proposta.

É preciso defender o livro hoje. Esse ataque não é gratuito, não é só para agora, é uma tentativa de criar brechas para investidas — no presente e no futuro — contra o livro, a cultura e a educação e os direitos de acesso dos mais pobres a tudo, enquanto reafirma o caráter anticientífico, anticultura e a favor da homogeneização desse governo e apoiadores.

Quando Guedes e seus apoiadores afirmam que o livro é um produto da elite e por isso precisa ser taxado, isso é colocado como se houvesse um enfrentamento dos privilégios de parcela da população por parte deles, quando na verdade se segue ignorando que manter o sistema tributário regressivo só aumenta a desigualdade. Até porque a imunidade que o governo busca relativizar e a isenção que ele quer acabar são tentativas de tornar o livro um produto mais acessível para a população no geral e, historicamente, surgiu como uma estratégia para garantir liberdade de expressão e dificultar a censura. Se Bolsonaro e seu Ministro da Economia estivessem interessados em tornar o livro um artigo acessível para todos, eles não tentariam acabar com essa desoneração e apresentariam projetos de lei e políticas públicas que buscassem fortalecer de fato, ainda que de maneira indireta por questões de competência constitucional, bibliotecas públicas e programas de aquisição de livros para escolas, universidades e outros espaços. O interesse desse governo é perpetuar a ideia de que livros, leitura e conhecimento são para poucos e não são para pobres, enquanto negam dados que comprovam o interesse da classe C, D e E pela leitura e ignoram que a literatura, a cultura e o conhecimento são para todos, ainda que exista obstáculos de acesso que devem ser combatidos. Eles querem que as pessoas, com o orçamento cada vez mais restrito graças às políticas e o próprio sistema que eles defendem, olhem para o livro com cada vez mais distância, enquanto são alimentadas com a raiva que eles manifestam por esse objeto, vide a afirmação de Bolsonaro sobre livros didáticos terem muita coisa escrita, e também pela ideia falsa e elitista de que ler não é para elas.

Fora que essa investida contra o livro é uma maneira de atacar a possibilidade de publicação e alcance de vozes que comumente são colocadas como minoritárias, tanto no sentido de grupos vulneráveis por opressões como raça e gênero, quanto no de ideias que batam de frente com o neoliberalismo e fazem importantes denúncias. Esse é um ataque contra o pluralismo de ideias, a bibliodiversidade, contra a imaginação, contra o ato de criar e a liberdade de expressão das vozes dissidentes. Fator que é importante de ser lembrado, já que Bolsonaro e seus apoiadores costumam estar do lado de tentativas de censura e ataques à cultura que vão além da literatura e o Brasil, nos últimos anos, viu o debate sobre autoria e diversidade avançar.

Inviabilizar o mercado do livro é uma maneira de garantir que, a partir de benefícios fiscais ou outras políticas, apenas algumas obras sejam lidas, publicadas e vendidas. E que cada vez menos pessoas possam acessar o que fuja do que eles querem incentivar, já que o próprio Guedes afirma que resolveria a questão de acesso doando livros para os pobres simplesmente, sem qualquer explicação de como isso aconteceria.

E o mercado do livro? E o futuro? E a Reforma Tributária?

O mercado editorial envolve vários profissionais além do escritor e o editor, como todos aqueles que fazem parte do processo de tradução, diagramação, revisão, preparo, impressão, distribuição, marketing e venda. Se o livro já é caro hoje, especialmente em relação ao salário médio do brasileiro, o aumento da carga tributária sobre ele afastará as pessoas ainda mais da leitura, da cultura e também da escrita, impressão e publicação, porque é impossível ignorar os profissionais envolvidos nessa cadeia de produção na hora de precificar uma obra. O preço do livro aumentará ainda mais e a possibilidade de comprar um exemplar ficará ainda mais difícil para a maioria das pessoas, especialmente porque Paulo Guedes, Bolsonaro e toda a trupe agem a favor da manutenção de privilégios de poucos em todas as instâncias. Nesse sentido, é importante lembrar que o mercado editorial tem sofrido com dificuldades e encolhido cada vez mais nos últimos anos, com a pandemia do coronavírus atingindo em peso o faturamento das livrarias de rua.

Fora isso, é importante dizer que a taxação do livro com a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) — nome do tributo que juntará a PIS/PASEP e a CONFINS numa alíquota única de 12% — inviabilizará a sobrevivência de diversas editoras, livrarias e também escritores e outros profissionais do livro. A alíquota proposta é bem maior que o percentual que os escritores recebem com a venda de cada exemplar de suas obras mesmo em grandes editoras, por exemplo. Se essa proposta passar, veremos a crise do livro se agravar, criando mais desemprego e menos acesso a um item essencial para quem acredita em livre expressão e vê a efabulação como uma necessidade humana que precisa ser satisfeita, como diz Antonio Cândido em seu famoso ensaio sobre direito á literatura. E se ela não passar, muito por causa da pressão que exerceremos agora, não devemos encarar essa desistência como uma negociação, uma bondade deles, um sinal de racionalidade e nem aceitar que essa possível renúncia seja usada para justificar outras medidas que seguirão deixando o Sistema Tributário brasileiro nesse mesmo lugar de mantenedor de desigualdades.

Se a gente quer defender o livro e todos os direitos que se relacionam a ele, é preciso olhar para o todo e combater esse tipo de política econômica e social que parte sempre para a supressão de direitos, porque essa ofensiva contra o livro só demonstra o quanto a fruição da cultura, incluindo aqui a literatura, é um direito humano que precisa ser preservado e ampliado, especialmente quando se torna foco de governos que não toleram o diferente e atacam a literatura pelo seu potencial subversivo, humanizador e denunciante. Toda a discussão sobre o acesso ao livro também envolve questões estruturais da sociedade brasileira que são constantemente reiteradas por essa política fiscal que se posiciona a favor de manter os ricos e poderosos pouco tributados e tem sido reforçada pelo Guedes nessa proposta que agora debatemos.


*É interessante destacar que a tributação sobre o consumo afeta especialmente as mulheres, por elas serem as principais responsáveis pelas compras da família e também porque serviços e produtos, como sabonetes, absorventes, desodorantes, shampoos e afins, que constam como destinados às mulheres costumam ser mais caros sem qualquer motivo específico para isso. Além de tudo, a situação piora quando se analisa o caso da mulher negra, que lida com isso e ainda vive disparidades bem específicas no mercado de trabalho que fazem com que ela receba menos que mulheres brancas e homens no geral. (Mulheres brancas recebem menos que homens brancos). A desigualdade alimentada pela tributação regressiva contribui para a feminilização da pobreza.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.

“Sorte”: uma história sobre destino e mulheres

Acervo pessoal. Adquira seu exemplar aqui.

Sorte é uma palavra constantemente ligada à destino e, por isso, um ótimo título para um livro que busca contar uma história que poderia ser a de várias mulheres esquecidas que nunca puderam atuar ativamente para mudar os caminhos que foram traçados para as suas vidas quando elas nasceram. Caminhos esses que foram definidos por fatores como nascer mulher, nascer branca, negra ou indígena ou vir de uma família pobre.

Com apenas 95 páginas e nomeado com essa palavra de cinco letras e profundo significado, esse livro de Nara Vidal, brasileira hoje radicada na Inglaterra, narra uma história que nos faz refletir sobre as dores que a pobreza, o machismo e a colonização trouxeram para as mulheres.

Focado em Margareth Cunningham e sua família, mas com grande participação de Mariava, uma escrava negra que trabalha na mesma casa portuguesa que as irlandesas, o romance fala sobre imigração, violência, sororidade e exploração dos corpos das mulheres, abordando de forma sutil as diferenças dessa exploração entre mulheres negras escravizadas e mulheres brancas pobres e imigrantes.

A família para a protagonista não se apresenta como um espaço de conforto, companheirismo e amor, mas como um local de disputas, abandono e dor. Apesar de haver um carinho entre as irmãs, os homens da família parecem pertencer ao grupo apenas como detratores de todas as mulheres dali. O pai, por exemplo, insistiu em tentar ter filhos homens a todo custo, porque as várias filhas mulheres não serviam para ele.

O livro se baseia em fatos históricos, como a Grande Fome na Irlanda, a escravatura no Brasil e a existência de conventos católicos irlandeses que “acolhiam” mulheres caídas e cria, a partir disso, um romance que é marcado também pelo não dito, como toda a história das mulheres. Sem perder a chance de demonstrar o quanto o catolicismo, forte nos países que atravessam a vida dessa família, atua e afeta na vida das mulheres.

A partir de uma narrativa unida pelo compartilhamento de uma história sobre uma ilha mágica de esperança, fantasia e mentira, Nara Vidal escreveu sobre essas mulheres — e seus filhos — esquecidas e esquecidos enquanto personagens e pessoas, essas pessoas que ainda moram, na história oficial, na literatura e até nas histórias populares, no lugar anônimo reservados às Outras e Outros. O livro levou o terceiro lugar do prêmio Oceanos em 2019 e foi publicado pela Editora Moinhos.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram. Se interessou pelo livro? Adquira seu exemplar aqui ou diretamente com a editora.

Costuras para fora: o íntimo e o cotidiano entrelaçados e expostos

Acervo Pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Costurar é uma ação que remete ao ato de juntar com agulha e linha dois pedaços de alguma coisa, seja pano, pele ou mesmo ideias. A costura é feita ponto por ponto, que surge a partir de algum esforço para unir o que foi desunido pelo corte, pela ruptura, pelo abismo.

Colocar as costuras para fora funciona como uma exposição desse processo de possível separação ou diferença, (re)união pelo esforço da agulha, da linha e do pulso ou máquina e o nascimento da cicatriz do traço pontilhado que une as partes costuradas.

No livro de contos “Costuras para fora” da Ana Squilanti, as grandes e pequenas questões da vida dos personagens são expostas junto com o cotidiano mais miúdo e as bagagens que cada um deles carrega. Essa forma de se contar histórias, enquanto nos apresenta elementos que lembram uma crônica ou um bate-papo, torna possível que a gente, enquanto leitor e pessoa humana, se identifique, crie empatia e entenda as dúvidas, as dores e os traumas de cada narrativa. Poderia ser a nossa história, mas é a de um personagem de ficção que às vezes se parece mais com a gente ou com alguém que a gente conhece do que com os seus respectivos perfis das redes sociais.

Somos todos quase uma colcha de retalhos de tão recortados, costurados e cheio de pontes que podem ser rompidas com a ajuda de somente uma tesourinha e um pouco de vontade ou rasgadas de repente até por acidente. E depois costuradas de novo. Ou não. Ana Squilanti sabe disso e explora a força literária das vulnerabilidades, inseguranças, segredos e sentimentos que costumam ser escondidos, mas são tão presentes e reais que sem visualizá-los não parece haver vida em qualquer caso ou personagem. Inclusive crianças e idosos.

O corpo, o padrão e o conto

“Costuras para fora” reúne vinte contos que parecem ter sido escritos para fazer a gente perceber o quanto a certeza não faz parte da vida. Um dos principais destaques da obra talvez seja o “Bonita de rosto”, que explora os efeitos da batalha contra o próprio corpo e as pressões para se encaixar nos padrões de magreza e beleza. A honestidade e a crueza da narradora dessa história para descrever suas práticas sofridas em busca desse corpo perfeito e inatingível expõe a guerra que mulheres, especialmente as gordas, são incentivadas a travar por causa do que se cobra como feminino, inclusive pelos doutores. Mais uma vez, a exposição dos bastidores de algo que é extremamente comum nos permite perceber o que costumamos negar estar ali. Não há sacrifício suficiente quando se busca algo impossível, mas a culpa por não conseguir caber no que se espera é ilimitada.

O cuidado invisível como foco

Já “Trava de fogão” e “Ponto Falso” são algumas das narrativas que chamam a atenção por trazer o foco para o cuidado, sempre visto como invisível, mesmo sendo essencial. No primeiro conto, quem cuida é uma mulher de um homem idoso que nunca aprendeu a viver sozinho, porque esse trabalho invisível da casa e de si sempre fica para as mulheres ao redor e ganha o nome de amor. Já no segundo, um pai cuida do filho que machucou o supercílio levando o menino para o hospital e acaba recebendo um apoio inesperado ali, ainda que eles estivessem em um espaço visto como sinônimo de cuidado.

O cotidiano como forma de aproximação

O uso de cenas banais do cotidiano é um recurso utilizado em todo o livro. É justamente nesses detalhes, inseridos de forma tão cuidadosa pela autora, que mora a proximidade do leitor com os personagens. Só que essas banalidades tem uma função muito além de formar um cenário e uma cena per si, elas são também o cerne do livro e o que liga todas as narrativas. Nos contos “Sem costura”, Nós” e “Lista de compras”, o que guia o leitor é justamente o que se tira do mais cotidiano possível. O medo do fim pode estar no apodrecimento de uma fruta e na constatação da nossa insignificância, por exemplo. A vida acontece nesses momentos que parecem desimportantes e quase invisíveis para olhares mais desatentos. A matéria-prima de nossas existências não é o extraordinário, é o miúdo.

Essa proximidade ganha contornos ainda mais interessantes quando se pensa nesse livro como uma ferramenta dialógica sobre questões humanas que perpassam a vida desses personagens. Com diversas histórias que abordam casais não heterossexuais, isso acaba ganhando também um significado político, já que essas narrativas também combatem a desumanização ao apresentar conflitos da vida que vão muito além da sexualidade isolada em si mesma, ainda que fale sobre relações e descobertas.

Da criança ao idoso, do prazer à doença, do namoro aos laços familiares entre irmãos e avós e netos. Ana Squilanti, em sua obra de estreia, percorre narrativas que partem de diferentes fases da vida e variados relacionamentos. O que torna “Costuras para fora” um excelente livro é o quanto tudo parece e é comum e próximo. A autora, com uma linguagem que muitas vezes é bem poética, oferece para o leitor a possibilidade de olhar de novo e de forma mais atenta e humana para o cotidiano, que se mostra a linha e a agulha que nos ajuda a unir os pedaços que são desatados de nós todos todos os dias.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram. Se interessou pelo livro? Adquira seu exemplar aqui.

Uma versão reduzida dessa resenha foi publicada no site Delirium Nerd.

“Shirley”: mulheres, loucura, machismo e escrita

Imagem de divulgação

Quando mulheres escrevem histórias de violência, horror, mortes, monstros e fantasmas, a sociedade se incomoda. Ninguém espera que a mente feminina seja capaz de criar algo que fuja dos estereótipos que nos são empurrados desde a infância. Ninguém espera que mulheres sejam capazes de falar do horror e do que perturba a humanidade, quando tudo que é visto como feminino precisa ser fofo, tranquilo, bondoso e materno.

Esse estranhamento torna as mulheres que criam ou consomem essas histórias objetos de curiosidade. Afinal, a sociedade patriarcal usa esses estereótipos e muitas outras coisas como ferramentas de controle, por isso estigmatiza certos comportamentos e tenta ensinar para as outras, a partir dessa estigmatização, como elas devem se comportar sob pena de serem as próximas loucas, estranhas, esquisitas e deslocadas.

Shirley Jackson, um dos grandes nomes do terror, nasceu no dia 14 de dezembro de 1916 e morreu aos 48 anos. Ela escreveu seis romances, dois livros de memórias e vários contos, se tornando referência para autores como Neil Gaiman, Stephen King e Donna Tartt. Ainda não li nada escrito por ela, infelizmente, mas sei que a autora é conhecida por suas histórias de terror, seus personagens atormentados e pela sua capacidade de criar e contar histórias sombrias com bastante verossimilhança. Uma excelente personagem, portanto.

Shirley, dirigido por Josephine Decker, roteirizado por Sarah Gubbins e baseado em um romance de Susan Scarf Merrell, explora a autora como personagem, brinca com o imaginário social sobre a mulher que escreve, especialmente temas como terror e mistério, e assim também expõe o terror doméstico e as consequências mentais dele. A obra então não pretende ser uma cinebiografia ou algo assim, ela somente usa uma pessoa que existiu como uma base e inspiração para se criar uma personagem, quase como a protagonista do filme faz com sua convidada.

A história do filme parece simplória e cotidiana: Shirley (Elisabeth Moss) e seu marido, professor e crítico literário, Stanley Hyman (Michael Stuhlbarg) recebem um casal de recém-casados, Fred (Logan Lerman) e Rose (Odessa Young), para uma temporada. O objetivo é que eles fiquem por lá até que consigam se estabelecer e encontrar um lugar para eles. Mas essa convivência entre os casais, que parece tão boba, dá bastante pano para manga.

Na cena inicial, Rose lê o último conto de sua futura anfitriã com admiração e tenta comentar sobre ele com Fred. Fred nem liga. Essa cena tão curta, que surge antes de termos qualquer outra informação a mais, é um indício do que está por vir e expõe o quanto o machismo é algo que afeta e afetará a vida dessas duas mulheres.

A loucura, na obra, aparece como um estigma que atinge Shirley enquanto mulher solitária, muitas vezes em sofrimento, e escritora de terror, mas também como a palavra mais fácil de atribuir para qualquer mulher. Todas as mulheres, mesmo as donas de vidinhas invisíveis e insignificantes sob a ótica dos homens, podem ser doidas se seus maridos falarem que elas são e o filme usa essa ideia para falar sobre os relacionamentos amorosos em foco, enquanto também constrói uma crítica ao todo.

No fim, para os homens, donos do mundo, todas as vidas femininas são vidinhas que acontecem em segundo plano e nem possuem tanta importância assim. Mesmo Shirley sendo uma escritora tremenda, ela se sente dependente de Stanley e todo o jogo psicológico que ele faz, porque, apesar de tudo, acredita que precisa de uma validação masculina para existir como escritora — ou mesmo pessoa — para o mundo.

Isolamento, autoestima, bloqueio e processo criativo, parceria, solidão, casamento e maternidade, tudo isso são temas abordados nessa obra que, apesar de ter um caráter cotidiano e caseiro, consegue criar tensão a partir do incômodo. Algo muito ruim parece estar sempre prestes acontecer, como em uma boa obra de suspense, mas a gente logo descobre que algumas ruindades podem estar tão infiltradas no dia-a-dia comum das mulheres que podem passar despercebidas com grande facilidade.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram.


Quer conhecer um pouco da obra de Shirley Jackson? Adquira os livros mais famosos aquiaqui.


“Vida de Gato”: as aventuras e tragédias felinas

Acervo Pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

A fascinação que os gatos exercem na humanidade não é nova, vide egípcios e o popular personagem Garfield, mas nos últimos anos, com a ajuda de vídeos fofinhos que donos de gatos compartilham sem parar nas suas redes sociais, eles viraram verdadeiras estrelas. Por isso, “Vida de gato” chama tanta atenção.

Com essa graphic novel traduzida por Raquel Moritz para a Darkside, o quadrinista belga Serge Baeken chega ao Brasil com um trabalho que, de certa forma, homenageia os gatos que passaram pela sua vida. Inspirado em Mascavo, que esteve com o autor durante 18 anos, ele apresenta uma narrativa focada em simular a perspectiva felina das coisas.

Com desenhos espetaculares, essa história em quadrinhos surpreende por não ser simplesmente um conjunto de relatos fofinhos de amizade entre gatos e humanos. Ao contrário do que esperamos inicialmente, as histórias contadas nesse livro são, no geral, trágicas, como são a vida da maioria dos gatos.

Apesar de ter amado as ilustrações e até mesmo a premissa da obra, o roteiro que Serge Baeken construiu não me cativou como eu imaginava. Como apaixonada por gatos e cães, me incomodou um pouco a maneira que o autor explorou essas histórias trágicas como uma questão natural, como se todos aqueles desastres evitáveis fossem uma parte invariável dessa relação de gatos e pessoas.

Como humanos, costumamos viver mais do que nossos companheiros de outras espécies e, por isso, conforme vamos envelhecendo acompanhados, acabamos também acumulando saudades. De certa forma, ter a companhia de animais de estimação nos coloca num lugar em que acabamos obrigados a nos preparar para lidar com uma perda que vai vir mais cedo ou mais tarde. Falar dos bichos que vivem com a gente, então, acaba sendo também uma maneira de falar sobre morte, acidentes, ausência, risco, saudade e amor, mas, no caso do quadrinho, talvez tenha faltado uma certa sensibilidade na abordagem.

As homenagens ficaram com cara de inventário e o que poderia ser um trunfo acabou não funcionando tão bem assim, provavelmente por causa da nossa nova noção de cuidado de animais domésticos. Ainda assim, fica evidente para o leitor que todos os gatinhos que passaram na vida dos personagens deixaram sua marca de alguma maneira.

Esteticamente “Vida de Gato” é impecável, mas ao menos para mim, as histórias de aventuras felinas de agora precisam ser fantásticas quando envolvem rua, porque a realidade não é nada agradável para os bichanos que vivem assim, ou, se realistas, centradas em gatos de casas e apartamentos protegidos por telas. Mascavo viveu muito, mas isso foi por pura sorte, como o destino dos outros gatos desse quadrinho parece nos dizer. Talvez a força dessa história esteja justamente nessa reflexão tão incômoda sobre cuidado e os riscos da vida felina.


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram. Se interessou pelo livro? Adquira seu exemplar aqui.


“Fique comigo” e a dor de uma mulher nigeriana

Acervo Pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Chinua Achebe é considerado um dos maiores nomes da literatura do século XX. Sua trajetória como romancista, poeta, crítico literário e intelectual o tornou conhecido no mundo inteiro, inclusive por sua atuação como mediador de conflitos políticos de sua região. Seu trabalho como escritor, além de inspiração, acabou fazendo o mercado literário tão europeizado e estadunidense se abrir um pouco para a literatura produzida na Nigéria.

Quase 85 anos depois do nascimento de Chinua e 28 anos depois de Wole Soyinka ganhar Nobel de Literatura em 1986, Chimamanda Ngozi Adichie ganhou o mundo após ter um trecho de uma de suas palestras citado numa música da Beyoncé. Com a Nigéria de novo sendo observada como um ótimo berço literário, escritoras como Buchi Emecheta, Sefi Atta e Ayòbámi Adébáyò também conseguiram um espaço internacional sendo publicadas em vários outros países. Dentre as várias obras recentes que tornaram a Nigéria conhecida entre os fãs brasileiros de literatura, “Fique Comigo”, da nigeriana Ayòbámi Adébáyò, é um destaque.

Nesse romance, o leitor acompanha Yejide em sua jornada para se tornar mãe e todas as questões familiares, pessoais e culturais que afetam suas decisões, sentimentos e reflexões a respeito. A narração do livro é dividida entre ela, a protagonista, e Akin, seu marido, ambos contando a história do casamento deles, a partir de suas impressões, segredos, arrependimentos, sofrimentos e enganos.

Além dos assuntos da vida privada, a obra também aborda de maneira tangencial acontecimentos políticos e sociais que envolveram a Nigéria durante a década de 80 e, inclusive, cita Chinua Achebe, mostrando a importância dele para a sociedade nigeriana. Além disso, muito do contexto político e social narrado por Ayòbámi se relaciona com o livro “Hibisco Roxo” da Chimamanda e essa conexão torna ambas as leituras ainda mais ricas.

“Fique comigo” explora o quanto as pressões sociais relacionadas ao machismo são capazes de destruir mulheres, homens e relações, especialmente quando a família é colocada como algo central por todos, apesar de ser uma instituição que se importa mais com a maneira que seus membros são vistos pela sociedade do que em cuidar e acolher os seus. Os papéis de gênero tão reforçados pelas famílias de Yejide e Akin machucam todos, especialmente Yejide, que, marcada pela solidão, tende a aceitar tudo com medo de perder o pouco que conseguiu.

Doloroso, aflitivo e envolvente, esse romance explora temas como maternidade, casamento, poligamia, masculinidade, luto, solidão e machismo. Ler a história de Yejide e Akin é se permitir viver uma imensa gama de emoções, sendo a raiva talvez uma das predominantes, porque a obra expõe uma faceta da cultura nigeriana que é muito cruel com as mulheres.

Se você é um leitor ávido por histórias emocionantes e bem escritas, tem curiosidade sobre a literatura produzida fora do eixo EUA-Europa e se interessa em refletir sobre a condição da mulher no mundo, esse livro é uma ótima opção de leitura para você.


Tradução do livro: Marina Vargas


Se você gostou desse texto, deixe um comentário, compartilhe com seus amigos e me acompanhe pelo Medium, Facebook, Twitter, Sweek, Wattpad, Tinyletter e Instagram. Se interessou pelo livro? Adquira seu exemplar aqui.

Quer mais dicas de obras dos mais diferentes estilos? Confira essa listinha que saiu no site Salto Quebrado e acompanhe meu site!