Dia Mundial do Livro: uma declaração de amor e de luta

Vale a pena a gente parar para pensar no quanto a leitura é uma atividade diversa: um livro pode ser prazeroso, apaixonante, tenso, triste, fofo, sensível, boa companhia, contemplativo, incômodo, chato, bonito, longo, curto, ilustrado, cheio de fotografias, em áudio, lido em voz alta, escrito em braile, complicado demais, divertido, de consulta, difícil, informativo, fluido, lento, imersivo, artesanal, independente, digital, fraco, cheio de plot twists, fonte de conhecimento científico e também de sentimentos, impressões e reflexões.

A gente lê por muitos motivos, mas não dá pra negar que o maior atrativo de qualquer leitura é a possibilidade de criar alguma coisa aqui dentro.

Nas palavras e nas imagens alheias, a gente encontra somente uma parte de todo um universo que um livro pode oferecer. A outra está dentro de nós e a aventura de qualquer livro está em descobrir isso e sair conectando histórias, informações, interpretações e imaginação com o mundo de referências, memórias e vivências que nos compõem.

Lemos buscando esse movimento e assim vamos descobrindo quem somos, onde estamos, que mundo é esse e também o Outro e todo o universo que a descoberta da alteridade pode oferecer.

Por essas e outras, surge a necessidade de falarmos sempre em promoção da bibliodiversidade e combater tudo que busca restringir nosso acesso. O que significa nesse momento um foda-se para Paulo Guedes, um outro foda-se para Bolsonaro e mais um foda-se para todas as políticas e pessoas que atacam o livro, a cultura, a educação e a pesquisa!

Feliz dia mundial do livro!

Leia também: #EmDefesaDoLivro: discutindo a tributação proposta pelo Guedes

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(Observação: texto originalmente publicado nas minhas redes sociais).

Notas sobre as cidades que afundam em dias normais

Acervo Pessoal – Imagem postada também no meu Instagram
O encontro

Cidades afundam em dias normais, o mais novo romance da escritora, podcaster e ilustradora Aline Valek, foi tema de um encontro especial, com participação da autora e tudo, no meu clube de leituras, o Clube Cidade Solitária.

Durante o papo, fomos 18 pessoas no total, todas bem empolgadas para compartilhar e ouvir as relações e análises que outros leitores com repertórios tão diferentes. Cada comentário puxando o outro, ampliando a leitura de cada um, num movimento que incluiu a própria Aline, que trouxe para gente muitas informações sobre seu processo criativo no todo e também o envolvido diretamente na construção dessa história.

Em certo momento, a escritora compartilhou que esse livro começou a nascer a partir de uma caixa de fotos de pessoas desconhecidas que ela teve acesso. Vendo aquelas imagens sem sequência e sem demais informações, a ideia surgiu.

A narração desse processo me lembrou a descoberta do trabalho da fotógrafa Vivian Maier. Segundo o documentário Finding Vivian Maier, uma caixa de fotos de trabalhos dela foi arrematada por um caçador de tesouros em um leilão. Ao abrir a caixa e observar as imagens, ele suspeitou que aquelas fotos eram mais interessantes do que pareciam e, a partir desse momento, essa fotógrafa que passou a vida na invisibilidade do trabalho de babá começou a ser descoberta.

Esse filme se esforça para tentar contar a história da fotógrafa a partir do que foi sendo garimpado depois de sua morte. Além das caixas com suas fotos e demais pertences, o que restou de Vivian mora na memória de seus antigos e diversos patrões. O trabalho dos que hoje tentam lucrar a partir dessa fotógrafa muito talentosa é um pouco semelhante ao que tentamos fazer ao ler o livro da Aline, ainda que as fotografias presentes em suas páginas não sejam, digamos, visuais.

A dúvida

Como funciona a memória? A minha, a sua e também a nossa. Como se define o que vamos lembrar e o que vai desaparecer nesse lamaçal de rostos, causos, banalidades, violências e urgências cada vez mais frequentes, talvez frequentes demais para continuar a caber nessa palavra? Como a forma que lembramos afeta como vamos ver aquilo tudo agora e no futuro? Como lembrar e esquecer podem se relacionar tanto com buscar e perder? E quão grande pode ser o abismo entre lembrar e contar o que se lembrou?

Como uma cidade se forma, permanece e afunda? Como uma cidade é lembrada? Como uma cidade atravessa o tempo? E a vida de cada um? Como cada pessoa surge, permanece e desaparece? Como se conta a história de um povo?

Somos o que lembramos? E onde anda a verdade se cada um tem a sua?

Como se dá o processo da memória? E das relações? E da criação? A criação surge a partir da vontade de se expressar? De contar a nossa própria história? De elaborar o que se passou? De ser lembrado e de lembrar? De não deixar desaparecer alguma coisa? De não se deixar desaparecer e nem os seus? Como organizar lembranças pode parecer tanto um processo de colagem? Como cada cena pode parecer tanto uma fotografia? Como falar de tempo, processos, escola e adolescência pode nos fazer pensar tanto no Brasil?

O processo

Pensar na adolescência envolve encarar quem somos hoje e como nos tornamos essa pessoa. Pensar em tempo é se ver exposto às contradições do registro e do esquecimento. Pensar na dúvida é perceber que na maioria das vezes descobrir novas indagações é mais interessante ou, no mínimo, mais realista que qualquer resposta que podemos encontrar. Ler esse livro é pensar nesse misterioso processo que mescla o desejo de narrar, de fugir e de ficar.

Os dias normais

As histórias de Kênia, Tainara, Érica, Tiago, Rebeca e outros antigos moradores de Alto do Oeste são relatos individuais de uma cidade alagada em um processo lento e contínuo de abandono. O fim do mundo de cada um desses personagens — e o retorno curioso dessa terra tantos anos depois — foi somente mais uma manchete curiosa para o resto do país. Enquanto a cidade afundava, cada um fazia o que podia para não afundar junto, enquanto tentavam seguir suas vidinhas como antes. Ninguém de fora, estado ou não, deu as caras nesse processo que, de certa forma, foi sendo ignorado no dia a dia por todos que ali viviam. A tragédia virou costume, como de fato acontece no Brasil. A tragédia virou fonte de cliques e lucro, como também acontece todo dia.

Cidades afundam em dias normais, além de abordar temas como memória, amizade, adolescência, vida no interior e fotografia e outros processos, artísticos ou não, fala também sobre desalento, declínio e desesperança em um sentido coletivo. O que nos faz pensar também na chegada e permanência do fascismo, e é possível dizer que não deve haver nada mais brasileiro que esses sentimentos nesse momento.

Aline Valek escreveu uma obra que dialoga com nossas urgências e medos e a experiência de leitura dessa história nos ajuda a elaborar a prática de se viver em meio aos diversos fins do mundo que nos cercam. A gente busca respostas imediatas o tempo todo, mas talvez precisemos, primeiramente, entender de onde partimos. A professora Érica concordaria com isso, porque sabe que as memórias pertencem ao futuro. Só se conta histórias para frente”.

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Leia também: “Buscando Vivian Maier”

21 livros para ler em 2021

Ler para mim sempre foi um prazer e por muito tempo eu não tive o hábito de anotar e contabilizar o que eu lia, criar metas ou qualquer coisa do tipo. Meus hábitos de leitura sempre foram freestyle e eu gostava disso, mas a vida foi acontecendo, as redes sociais foram se firmando na minha vida como um meio de conexão e troca, e aos poucos fui sentindo a necessidade de anotar o que eu leio e, mais recentemente, o que compro ou ganho. O que não significa o fim do freestyle, que fique claro. Seguirei sendo aleatória, como sempre fui, lendo sem parar quando dá na telha, enquanto também passo duas semanas ou mais sem tocar num livro fazendo outras coisas, mas agora serei uma aleatória com um pouco mais de foco frente a minha estante. (Vocês não fazem ideia do quanto eu demoro para escolher uma leitura!)

Com a criação, organização e mediação do Clube Cidade Solitária junto a responsabilidade de guiar e mediar o Leia Mulheres Divinópolis, passei a sentir uma maior necessidade de planejamento de leituras, por motivos financeiros até. É importante priorizar os livros que já tenho em casa, né? Agora, pela primeira vez na vida, vou criar uma meta literária e, ainda por cima, vou fazer isso de maneira pública. Mas, já aviso, essa lista é mais sobre sugestões e prioridades de leitura do que qualquer coisa, viu? Não vou encará-la como uma obrigação ou qualquer coisa parecida, até porque os clubes que medio é que mandam em mim de verdade. É bem possível, inclusive, que vários listados aqui acabem ficando para o ano que vem e, se isso acontecer, tudo bem.

Bora pra lista?

1 – O diálogoLuizza Milczanowski

2 – Sabendo que és minhaFabrina Martinez

3 – Homens que nunca conheciMaíra Valério

4 – Por favor, cuide de mamãeShin Kyung-Sook

5 – Tornar-se palestinaLina Meruane

6 – Verdades além do túmuloCaitlin Doughty

7 – Relatos de um gato viajanteHiro Arikawa

8 – Flor de gumeMonique Malcher

9 – Flores para AlgernonDaniel Keyes

10 – A autobiografia da minha mãeJamaica Kincard

11 – Garota, mulher, outrasBernardine Evaristo

12 – De duas, umaDaniel Sada

13 – Pedro PáramoJuan Rulfo

14 – A FúriaSilvina Ocampo

15 – Quarenta diasMaria Valéria Rezende

16 – Cidadã de segunda classeBuchi Emecheta

17 – Água de BarrelaEliana Alves Cruz

18 – O alegre canto da perdizPaulina Chiziane

19 – Dicionário Agatha Christie de venenosKathryn Harkup

20 – Herdeiras do marMary Lynn Bracht

21 – Insubmissas lágrimas de mulheresConceição Evaristo

Não coloquei nessa lista nenhum dos livros previstos para o Clube Cidade Solitária, porque a prévia deles já foi listada no perfil do clubinho. Como imagino que muitos de vocês talvez queiram saber quais são eles, até para poder se programar para ler, deixarei o link para os dois posts que anunciam os spoilers de 2021 aqui e aqui. Os encontros do “Um defeito de cor” da Ana Maria Gonçalves” e do “Torto Arado” do Itamar Vieira Junior já tem datas marcadas, viu?

Observação: também deixei de fora dessa lista livros de poesia, porque prefiro lê-los bem livremente, sem obrigação inclusive de seguir a ordem dos poemas ou ter data pra terminar. Sei que quero ler pela primeira vez e/ou continuar lendo Wislawa Szymborska, Francisco Mallmann, Ana Elisa Ribeiro, Alejandra Pizarnik, Gabriela Mistral, Ana Martins Marques, Anna Clara de Vitto, Jarid Arraes, Pilar Bu, Cecília Pavon, Angélica Freitas, Emily Dickinson, Adélia Prado, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Primo Levi, Yasmin Nigri, Marília Garcia, Adília Lopes, Audre Lorde, Mel Duarte, Lubi Prates e Nina Rizzi.

Prêmio Thaís Campolina de Literatura de 2020

ou simplesmente Melhores Leituras de 2020

Eu não sei escolher preferidos, como eu já comentei numa crônica esquisita que postei por aqui e no Medium em algum momento no ano passado, mas eu resolvi tentar.

Nessa aventura de tentar encarar minhas leituras com um olhar avaliativo, deixei me iludir com a ideia de que a restrição temporal ajudaria. (Não ajudou.) Terminei a seleção com muito custo e uma lista com mais de 20 livros tendo lido 69 títulos e gostado muito de quase todas as leituras que fiz esse ano.*

Numa tentativa de preservar meus princípios, decidi que, em vez de tentar enxugar o gelo cortando obras que não quero cortar de jeito nenhum só pra caber em um número menos exagerado, eu simplesmente vou apresentar meus favoritos por categorias.

(Isso não significa que eu não tenha criado categorias específicas só pra poder colocar algum dos livros que eu queria indicar, mas não sabia como, porque a lista não podia aumentar ainda mais ou que nas categorias desse prêmio não cabem livros já citados em outras).

Bora pra lista?

Melhor livro de contos: Coração azedo – Jenny Zhang

Melhor conto avulso: A loteria – Shirley Jackson

Melhor livro de poesia: Para o meu coração num domingo – Wislawa Szymborska

Melhor best-seller: A Casa dos espíritos – Isabel Allende

Melhor clássico: Água Funda – Ruth Guimarães

Melhor livro feminista: Mulheres, raça e classe – Angela Davis

Melhor HQ: Fun home – Alison Bechdel

Melhor livro com animal antropomorfizado: O diário de Edward, o Hamster – Mirian e Ezra Elia

O mais fofo: Soppy – Philippa Rice

3 livros que não consegui parar de ler:

Solução de dois estados – Michel Laub

Pequenos incêndios em toda parte – Celeste Ng

Fique comigo – Ayòbámi Adébáyò

Li numa sentada e amei: Se deus me chamar não vou – Mariana Salomão Carrara

Li e depois emprestei pra todo mundo: Os sete maridos de Evelyn Hugo – Taylor Jenkins Reid

Melhor livro desconfortável: A vida mentirosa dos adultos – Elena Ferrante

Melhor livro de memórias: Afetos Ferozes – Vivian Gornick

Melhor livro de não ficção: A mulher de pés descalços – Scholastique Mukasonga

Melhor releitura: A Cidade Solitária – Olivia Laing

Melhor livro de ensaios: Falso Espelho – Jia Tolentino

Melhor surpresa: O amigo – Sigrid Nunez

Se chorei e se sofri, o que vale é a força do livro que li: Bem-vindos ao paraíso – Nicole Dennis-Benn

Melhor descoberta poética: Cecilia Pavón

Quero ler mais de: Patrícia Melo, autora do “O matador”, Eliane Alves Cruz, autora de “O Crime do Cais do Valongo”, e Dany Laferriere, autor do “País sem chapéu”

* A única leitura que eu realmente não gostei foi a que fiz do “Descobri que estava morto” do J. P. Cuenca. A premissa do livro é excelente, inclusive a maneira que ele aborda a cidade e o clima de investigação, mas a narração é tão machocentrada, chata e arrogante que não rolou. Não rolou mesmo. Ainda assim, vale o lembrete que o autor está sendo perseguido judicialmente por fanáticos religiosos por causa de um tweet de protesto e tem a minha solidariedade.

“Para diminuir a febre de sentir” e a vida como ela é


Conheci a Dalva em uma oficina de escrita no ateliê do Estratégias Narrativas. Era a minha primeira vez naquela salinha, depois de um longo período querendo retornar para a escrita. Não sabia onde colocar as mãos, os olhos e os cadernos, muito menos a vontade de ler, aprender e escrever. Nunca tinha feito uma oficina antes e tudo era uma grande novidade. Por isso, estava acompanhada de uma amiga, a Carol, que, se eu não me engano, é quem me apresentou a possibilidade desse escrever acompanhado e guiado que me enchia os olhos naquele momento. Era a primeira vez dela também, eu acho. Lembro que nenhuma de nós sabia o que fazer, mas a gente sabia que a gente precisava daquilo. Estávamos tão ansiosas que uma semana antes da oficina de fato começar, numa confusão de datas e disposição, acabamos no Maletta numa segunda às 19 horas. Naquele dia, celebramos o início do que ainda nem tinha sido iniciado com cerveja e batata-frita.

Todo debute é uma aventura. Por isso, narro o início de tudo, o que veio antes da leitura e da formação desse texto. Quando fui formular o desafio literário #LeiaComASubjetiva de 2020, listei “livro de estreia” como tema para o último bimestre. Dezembro pede novidades, é o mês que nos lembra do fim, logo do início e, muitas vezes, nos afasta do presente. Entre rituais conscientes e inconscientes, retrospectivas e desejos, o que acontece no aqui e agora é que parece enevoado. Essa é a hora certa de pensar em primeiras vezes. 

No último dia de um ano caótico, triste e destrutivo, li “Para diminuir a febre de sentir” da Dalva Maria Soares, minha ex-colega de oficina que estreou em formato de livro em 2020. A sensação foi de que ela e os personagens de suas crônicas estavam com suas mesas de café postas para receber mais um ano, mais uma pessoa, mais uma estreia. E, como bons mineiros, estavam muito bem preparados para ver chegar mais gente ainda para participar desse momento de troca, afeto e reflexão que só acontece mesmo em torno de uma refeição e da ideia de fim e começo. No meio de leitores e personagens, sentaram-se também as referências. Guimarães Rosa, Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus, Adélia Prado, Emily Dickinson, Criolo, Virginia Woolf, Gloria Anzaldúa e outros, todos em torno da mesa sendo observados também por Fridinha, Scooby e outros cães. Um amontoado de gente que sabe que a vida acontece também quando ninguém está olhando e vê beleza na pequenez da rotina e da história de cada um. Um amontoado de gente que eu passei a olhar diferente, ainda que já os conhecesse e até os acompanhasse, tudo porque a escrita da Dalva, essa que tive contato na oficina e depois acompanhei por anos pelo Facebook, é sempre uma conversa que vai e vem, encontra leitor, encontra memória e carrega junto um mucado dela, dos seus e da gente. 

Dalva é uma escritora que toca quem lê a partir de um relato de um cotidiano invisibilizado. Esse das mulheres simples, das pessoas exploradas, das mães e das filhas que se ligam por conhecer bem os fantasmas que assombram as outras. Esse que se apresenta todo costurado aos livros e autores que ajudaram a formar a autora, mas que não foram e nem nunca serão as únicas fontes de conhecimento dela. O entorno, os afetos e desafetos, a ancestralidade e as vivências, tudo isso também forma, como ela, a partir dessas 15 crônicas, mostra. 

“Para diminuir a febre de sentir” é um livro de bolso, desses bem curtinhos, e foi publicado de maneira independente pela Editora Popular Venas Abiertas. Ele mexe com a gente porque fala da vida como ela é, complexa, difícil e, apesar de tudo, com espaço reservado para o afeto, a cultura, a arte e a imaginação. Fome, violência e desigualdade são lembrados de forma crítica junto aos laços visíveis e invisíveis que impedem a completa desumanização. Dalva sabe muito bem compartilhar o indizível e o não quantificável, o que é, per si, uma forma de resistir. 

Agora entrego esse livro com carinho para a minha avó materna, que viveu por muito tempo bem pertinho de Baldim, o principal cenário dessas crônicas sobre a vida de Dalva. Antes de 2020 acabar, ela merece saber que histórias como as dela também podem estar num livro.


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“Solução de dois estados”: uma história sobre ódio, sociedade e subjetividade

Divulgação — Adquira seu exemplar aqui.

“Solução de dois estados”, obra mais recente do escritor brasileiro Michel Laub, se inicia com uma memória do personagem Alexandre sobre o Plano Collor narrada por ele mesmo. Não sabemos onde ele quer chegar com isso, por que ele fala, com quem ele fala, mas logo percebemos a mágoa do personagem com a irmã.

Uma reflexão sobre ódio é feita. Uma personagem comenta sobre uma cena, sobre suas cicatrizes, seu corpo, e reflete sobre ter que repetir sua história, enquanto todos parecem buscar uma contradição, um erro de tom, um motivo para culpá-la. Ela parece estar cansada de contar o que aconteceu para tentar cativar um público que não se importa. Raquel é o nome dela. Ela é a irmã de Alexandre.

E assim segue o livro. Cada hora um personagem fala, apresentando seus pontos de vista. Assim conhecemos suas personalidades, suas memórias e os acontecimentos a partir do que nos é dado por eles. O contexto daquela trama se desenrola, ao menos inicialmente, a partir do que esses dois personagens nos contam. Só com um certo avanço na leitura que conhecemos melhor uma terceira personagem com voz: a documentarista estrangeira Brenda. A personagem que, com suas perguntas, guia todas as respostas, ainda que ela omita várias delas ao fazer suas edições no material.

A obra simula a estrutura típica de um documentário. A narração, a troca de vozes, a apresentação de materiais brutos depois dos pré-editados, tudo tem a ver com esse formato usado para contar histórias reais, colocando a discussão do papel da arte e as escolhas que envolvem esse fazer no centro da narrativa, indo além da personagem Raquel, que é artista performática, criando assim a possibilidade de embates entre a cineasta e ela e também entre Brenda e Alexandre. A construção dos personagens a partir do que eles dizem sobre si e sobre os outros, as perguntas incômodas da estrangeira, tudo isso que é posto no livro é material desse documentário-cenário e, de certa maneira, também quase personagem já que representa ali a documentarista e suas escolhas artísticas ou não.

O ódio entre os dois irmãos, algo tão íntimo e relacionado com ressentimentos do passado e do presente, se entrelaça com questões políticas do nosso tempo, como a violência, as milícias, o sexo, o discurso meritocrático e da igreja — que inclusive se confundem — , assuntos relacionados com bancos, patrocínios, perseguição da arte e a supervalorização do trabalho empreendedor como transformador e acima de todos os outros.

O corpo é também um território de batalha na obra. Raquel tem 130 quilos e seu trabalho artístico, suas mágoas, suas experiências, inclusive de violência, são relacionadas a esse fato. Isso cria uma complexidade além, tanto para a construção da personagem, quanto pra obra em si. Ela quer o direito de existir como ela é sem sofrer com o ódio que é direcionado a certos tipos de corpos. Ela, na defesa dessa pauta, de sua dor e de si mesma, se exalta em alguns momentos, se tornando inclusive arrogante. Só que ela não é uma representante típica do ódio, ela é uma vítima dele. Por mais que a própria documentarista tente colocar Alexandre e Raquel como faces de uma mesma moeda em alguns momentos, querendo exaltar a polarização, há no livro pontos que evidenciam que essa não é uma escolha tão difícil como alguns podem alegar: é civilização versus barbárie para mim, para vários nós, mas para muitos outros a disputa que se coloca no livro e na vida é entre o bem e o mal e o uso político e religioso desses termos.

Michel Laub criou uma obra que se passa em 2018, meses antes da famigerada eleição de Bolsonaro e sua trupe, mas que também narra algo anterior. Intenso, dolorido, reflexivo e capaz de nos fazer entender dois personagens complicados, ainda que um seja bem mais complicado que outro, o livro fala desse entrelaçamento de família e política, vida privada e sociedade. Como os acontecimentos políticos podem afetar nossas vidas? Nossos afetos? O que nosso corpo representa politicamente? É viável tentar uma conciliação com esse Outro? Ela é desejável? Ela é necessária? Há diálogo possível? Há alguma outra perspectiva que indique mudança nesse panorama? Todas essas perguntas que surgem durante a leitura nos incentivam a pensar nas nossas próprias relações, em como a política afeta cada uma delas, e, de forma talvez indireta, no uso da defesa da família como pauta política principal por alguns partidos e políticos, enquanto todo esse ódio, que esses grupos adoram alimentar contra diversos tipos de pessoas e ideias, fomentam rupturas, disputas, ressentimentos e violência.


O livro “Solução de dois estados” de Michel Laub será lançado oficialmente no dia 09/10, sexta-feira, mas é possível comprá-lo durante a pré-venda, garantindo um preço mais baixo do que o de estreia, pela Amazon. O link posto aqui também será válido para compras posteriores a data.

Uma semana antes do lançamento oficial, a Companhia das Letras promoveu uma Cabine de Leitura com o autor e alguns parceiros interessados em receber o livro via ebook em primeira mão e lê-lo para a conversa. O papo foi incrível. Michel compartilhou um pouco sobre seu processo criativo, suas referências e algumas opiniões com a gente, além de ter respondido perguntas nossas e do mediador.

“País sem chapéu”: morte, busca e pertencimento no Haiti

Acervo pessoal — Adquira seu exemplar aqui.

Dany Laferrière é jornalista, escritor e roteirista de origem haitiana. Aos vinte e três anos, o autor saiu do país e foi viver em Montreal no Canadá por temer ser assassinado pela milícia paramilitar do ditador Baby Doc. Sua trajetória pelo continente faz com que ele se defina como americano, por ser parte de um todo muito maior do que seu país de origem ou país de morada. E eu sei de tudo isso não por simplesmente ter lido na Wikipedia seu artigo, coisa que eu também fiz, mas porque a própria obra dele parte de sua biografia. Dany então é um desses autores que escrevem o que muitos chamam de autoficção e quase tudo do que eu disse nesse parágrafo é apresentado para o leitor em “País sem chapéu” como a história de seu protagonista.

“País sem chapéu” é um livro que se inicia com o retorno do narrador-personagem ao seu país após 20 anos morando no exterior. Ele se coloca ali como um mero observador, tanto porque isso é necessário no ofício de escritor, quanto porque ele esteve fora por tempo demais e agora sente que não entende mais nada. De certa forma, ele reconhece que passou a possuir um olhar estrangeiro, logo possivelmente estereotipado, mesmo sentindo que nunca deixou de pertencer ao Haiti. Ainda que isso possa ser colocado como algo individual ou mesmo ficcional, as sensações descritas na obra sobre voltar para casa depois de tanto tempo e a questão do pertencimento dizem muito sobre o que é ser haitiano em outros lugares do mundo — e um pouco também sobre ser haitiano ali, vivendo tudo aquilo que motivou muitos a buscarem outro lugar para viver.

A complexidade do país e sua cultura é abordada pela obra a partir da divisão do livro em vários capítulos que recebem dois nomes: País Sonhado e País Real. Além disso, cada novo capítulo é anunciado com um ditado próprio do país colocado originalmente em creole — o que encoraja o leitor a pensar também nos ditados de sua cultura, criando assim um diálogo além da obra — e também reafirma um significado político ao expor o que é posto como sabedoria popular. O País Real é sempre formado de pequenos textos com títulos próprios, quase como se fossem notas de observação, enquanto quase todos os capítulos desse País Sonhado não tem essa característica. Essa dualidade não é por acaso e dialoga com o fato de que a morte é um dos temas principais dessa história. Ela ronda praticamente todas as conversas, evidenciando como essa obra se coloca como uma espécie de investigação sobre o tema e seus mistérios ao marcar como a ancestralidade se faz presente na cultura haitiana e tem uma relação com a resistência ao colonialismo.

Numa conversa com o protagonista, um professor conta a ele que os Estados Unidos estavam tentando fazer um recenseamento secreto no país, mas se deparava com um desafio prático que poderia ser resumido numa história: quando o entrevistador pergunta “Quantos filhos a senhora tem?” para uma mulher, ela responde um número que inclui os vivos e mortos. Questionada no avançar da conversa, ela afirma que todos eles são filhos dela e que para elas eles estão vivos para sempre. Apesar de morte e vida serem colocadas quase sempre como opostos, elas são parte de uma coisa só. A dualidade do País Sonhado e do País Real, da noite e do dia, da morte e da vida talvez seja um vício no olhar. Algo que parece acontecer por não sermos capazes de entender.

O fantástico se faz presente em “País sem chapéu” e é usado para falar sobre a realidade dos haitianos e também de sua cultura. O protagonista volta para sua terra durante a operação da ONU e a presença, principalmente norte-americana, na ilha é ironizada e questionada por ele e por alguns outros personagens, como no diálogo em que se comenta que o EUA estão lá pra saber quando tempo um ser humano pode viver com tantas privações. O que vale como reflexão para nós brasileiros, que marcamos presença nessa operação que hoje é narrada como repleta estupros, repressão de manifestações, abuso de autoridade, interferência no processo eleitoral, dentre outros atos inaceitáveis amplamente documentados, conforme afirmado numa carta direcionada ao secretário geral da ONU.

Dany, numa história repleta de aspectos pessoais, marcada por questões de pertencimento, identidade e investigação de si e dos outros, aborda a própria formação de seu país a partir do colonialismo, escravidão, imperialismo e ditaduras. A falta de respostas para algumas questões, inclusive fantásticas, levantadas talvez diga também sobre esse todo. Ao escolher falar de morte numa obra sobre o Haiti, o autor faz uma crítica sobre as condições miseráveis de seu povo, enquanto também aborda aspectos religiosos, com todo o seu simbolismo, história de resistência e suas contradições, sem jamais deixar de refletir sobre os significados de caminhos e travessias que se fazem presentes em tantas culturas. Ainda que vejamos a morte de forma diferente, ainda somos ligados pelo medo de deixar de existir.

Tradução e posfácio: Heloisa Moreira


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Nina Rocha está em obras

Conheça o trabalho literário da autora assinando sua newsletter Nina Nina Não.

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e até xodó

Nina Rocha

Nina Rocha nasceu em 1992 em Montes Claros, Minas Gerais, e é formada em Comunicação Social pela UFMG. Atualmente mora, borda, pedala e escreve em Belo Horizonte. Entre suas muitas atividades, uma nova foi incluída recentemente: agora ela também vive a espera da publicação de seu primeiro livro de poesias.

“Em obras” está em pré-venda pela Benfeitoria e será publicada pela editora Urutau. Com R$5180 reais já arrecadados até o momento, a publicação já é certa, sendo o objetivo atual aumentar a tiragem, espalhando assim a voz dessa escritora pelo mundo.

Nina estreia com uma obra caracterizada por poemas que preenchem o espaço público, misturando-o com o privado. A partir dessa ocupação das ruas, bairros e estabelecimentos de detalhes cotidianos pessoais, a autora fala de coisas comuns, muitas vezes com um toque de humor, e mexe conosco a partir dos detalhes.

Sua leitura nos dá vontade de ocupar todos os espaços que nos cercam de vida, incluindo aqui até mesmo nossa própria casa, enquanto nos faz pensar em amor, troca, decepções e expectativas. O espaço, a cidade, a casa e até mesmo a memória, tudo isso na obra de Nina serve como um lembrete do presente, esse tempo marcado pelo cotidiano e o banal, que diz tanto sobre quem somos, ao evidenciar esses detalhes tão esquecidos.

Na entrevista a seguir, a autora compartilha comigo — e agora também com vocês — um pouco sobre seu processo criativo, sua relação com a escrita e a criatividade no todo, suas referências e seus projetos:

T: Escrever um livro de poesia é bem diferente de simplesmente escrever, né? A gente precisa planejar algo mais, fazer um projeto, tentar fazer ideias diferentes funcionarem juntas, fazer toda uma montagem de imagens poéticas. Como foi esse processo para você?

N: Acho que especificamente nos textos que estão nesse livro, o processo foi de muitos cortes e reescritas. Alguns dos poemas nasceram de outros textos que eu havia escrito há muito tempo atrás, alguns com mais de dez anos. Foi interessante testar novos formatos para ver o que funcionava. Eu sempre me coloquei com alguém que escreve prosa, porque achava a poesia uma coisa muito elaborada e distante de mim. Mas com essas experimentações, fui conseguindo chegar numa linguagem em que finalmente me senti confortável com os versos. Foi um processo bem gostoso de experimentar e descobrir novas formas de contar com poucas palavras.

T: Quais são seus hábitos de escrita? Como funciona seu processo criativo? Você tem alguma rotina criativa? Como você concilia seu trabalho, que envolve escrita também, com a escrita de obras literárias?

N: Eu gosto muito de escrever em caderninhos e blocos, então sempre carrego um desses itens comigo. Às vezes anoto uma palavra ou uma frase que pensei e para depois desenvolver em um texto. Acontece muito disso demorar e eu não lembrar mais qual foi a origem dessa ideia, mas é interessante porque a proposta inicial transmuta e o texto vira uma outra coisa. Eu não tenho uma rotina frequente de criação. Tem épocas em que estou super produtiva, e outras em que passo semanas sem escrever, e acho que faz parte do processo também. Não acredito que a gente precise produzir material o tempo inteiro, mas a escrita para mim funciona muito através de estímulos, então mesmo quando não estou escrevendo, essas faíscas seguem acontecendo ao redor e alimentando as ideias de um texto que ainda não foi gestado. Acontece também de notar algo novo na rotina, escutar uma história, ler algo que traz um estalo que me motiva a produzir instantaneamente. O meu processo é bem devagar e tento escrever sem cobranças. Grande parte do meu trabalho já envolve a escrita e às vezes é difícil separar a escrita do ofício da escrita recreativa. Deixo as obrigações para horário comercial e evito que essas tarefas atravessem o prazer da escrita em todos outros horários.

T: Escrever muitas vezes é visto como um ato solitário. Para você também é assim? Se não, como as outras pessoas passaram a fazer parte do seu processo criativo?

N: Muita gente tem aquela ideia do escritor recluso, antissocial, trancado dentro de casa e que faz tudo sozinho. No meu caso é exatamente o oposto. Eu gosto muito de participar de oficinas de escrita, ler textos de amigos e pedir opinião de pessoas que confio sobre minhas produções. Nesse sentindo, minha escrita é de muitas mãos.

Acho que esse tipo de troca estimula muito a criação e podem ser um pontapé inicial para ótimas ideias.

T: Você borda, cozinha, cria e testa receitas, além de desenhar e escrever, né? Como essas atividades se conectam para você?

N: Às vezes eu me deparo com essa questão existencial: qual a relação entre todas as coisas que eu faço? Porque a princípio, são totalmente distintas e um talvez pouco aleatórias. Mas acho que tem pontos em comuns que perpassam todas elas, e uma delas é a criação. Muita gente ainda tem aquela ideia de criar como um ato quase divino, que tem que vir de um momento de inspiração. Parece que ficamos esperando uma musa descer dos céus e nos dar a permissão para criar. Isso acaba tirando nosso prazer de fazer as coisas por fazer, sem ter um propósito produtivo, e tira muito a graça da criatividade e coloca ela num pedestal, como se fosse algo exclusivo a grandes artistas. Tem tanta coisa na nossa rotina que envolve criar e ter ideias, desde refogar cebolas com um tempero diferente a escrever um conto ou bordar um pano de prato com uma frase inusitada.

T: No seu livro “Em obras”, há diversas referências, indiretas e diretas, a outras artes, como a música, e também aos seus hábitos. Qual é a importância desse cotidiano de atividades, hobbies e interesses para a sua criatividade? Como suas referências te afetam na hora de fazer arte? E, claro, quais são elas?

N: Toda a importância! Eu acredito muito que o que a gente produz é um resultado do que a gente tem como referência e consome com o que a gente vivencia e percebe ao nosso redor. São os estímulos que impulsionam a criar e produzir. Essas referências acabam se tornando parte do que fazemos e do que somos, e algumas das minhas na literatura são Ana Cristina César, Angélica Freitas, Patti Smith, Drummond, Ana Martins Marques, Lydia Davis, Elvira Vigna e Wisława Szymborska.

T: E a publicação do livro? Como você tem lidado com a pré-venda e com a decisão de botar esse trabalho no mundo?

N: É um processo que dá um frio na barriga mas também traz muita empolgação. Quando finalizei o livro, ainda não tínhamos a pandemia, e a publicação em meio a todo esse caos me trouxe várias dúvidas. Mas vi a Angélica Freitas comentando em uma entrevista que deixar de fazer as nossas coisas é uma forma de desistir, e acho que concordo com isso. Fiquei pensando muito sobre o propósito de publicar um livro em 2020, mas cheguei à conclusão que conseguir fazer qualquer coisa em 2020 já é um marco.

T: Quais são seus próximos planos literários?

N: Quero montar um livro com alguns contos. Uma boa parte já escrita, mas vou a passos de formiguinha, num processo lento, sem muita pressa para publicar.

Edit posterior: Em Obras pode ser comprado no site da Editora Urutau. 

Você pode conhecer um pouco do interior do livro, incluindo alguns poemas, a partir desse meu post no Instagram.


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“Bem-vindos ao paraíso”: a Jamaica além das belas paisagens

Foto de minha autoria para o Leia Mulheres Divinópolis — Adquira sem exemplar aqui.

Nicole Dennis-Benn nasceu em Kingston, capital da Jamaica, e lá viveu até os 17 anos de idade. Após se mudar para os Estados Unidos para estudar, conquistou o título de mestre em saúde pública com especialização em saúde reprodutiva da mulher e, posteriormente, fez um mestrado em escrita criativa. Atualmente, vive em Nova York com sua esposa.

Ela é uma autora que não teme abordar em sua obra temáticas consideradas delicadas, mas muito necessárias: no seu romance de estreia “Bem-vindos ao paraíso”, traduzido para o português por Heci Candiani, ela trabalha, por exemplo, com questões relacionadas à sexualidade, raça, classe, ser mulher e diferentes formas de exploração, desigualdade e violência, amarrando tudo isso com uma história incômoda de uma família composta por mulheres.

País da fantasia

Já na primeira página do livro, essa expressão é utilizada para falar da Jamaica criada para os turistas estrangeiros, majoritariamente brancos, pelo trabalho dos jamaicanos mais pobres e negros, mostrando que os turistas não conhecem — e nem querem conhecer — a realidade de ninguém dali, ficando restritos aos resorts construídos onde antes as pessoas viviam. O que tem tudo a ver com o nome irônico recebido pela obra no Brasil.

A indústria do turismo engole a Jamaica e a sua população negra, fazendo surgir um desejo coletivo de fazer parte daquele país da fantasia e privilégio, nem que seja a partir do trabalho explorado. Cria-se assim um sonho de um dia ascender de alguma maneira e passar merecer algo daquele universo tão inacessível e, claro, também a inveja de não fazer parte.

Margot, além de trabalhar no hotel como uma espécie de gerente, também é prostituta. Sua história aborda os efeitos do turismo sexual nas comunidades e nas pessoas que fazem parte dela, além de servir para denunciar o quanto esse fenômeno tem relação direta com o racismo e a misoginia, porque os clientes que surgem nessa história buscam na Jamaica corpos exóticos e muito jovens, contando com o desespero pela sobrevivência de tantas meninas e mulheres, e como tudo isso também afeta a vida das mulheres não inseridas nesse esquema a partir da naturalização da exploração e violência contra esses corpos em todos os espaços.

A escola, o colorismo e a descoberta de si e do mundo

Toda a trama de Thandi, irmã mais nova de Margot e filha de Delores, gira em torno de salvá-la de um destino como o delas a partir da educação. Margot faz de tudo para mantê-la em um colégio particular muito caro para que ela se torne médica no futuro. A educação é a esperança, mas ela só parece ser possível de ser alcançada por poucos, alimentando ainda mais a dicotomia entre qualquer menção à meritocracia e o oferecimento de oportunidades reais.

Os dramas de Thandi se relacionam com essa alta expectativa versus o desenvolvimento de sua subjetividade, mas não só. Além de outras questões, estar nesse colégio faz com que ela se sinta excluída, deslocada e queira clarear sua pele, porque na Jamaica ser bonita, mais amada ou ter chances de empregos melhores depende disso. Ela é diferente das outras garotas e garotos da escola e ela e eles sabem muito bem disso. Thandi está fora do lugar e todos fazem questão de lembrá-la disso.

A Jamaica LGBT

A autora desse romance casou-se com Emma Benn inicialmente nos Estados Unidos e posteriormente na Jamaica, tornando sua união com outra mulher um ato político de extrema importância em seu país natal já que o casamento privado delas vazou para o noticiário do país e ficou conhecido como o primeiro casamento lésbico da ilha. A autora, em entrevistas, parece incomodada com essa definição, por considerá-la pouco realista. Outras cerimônias entre casais de homens ou de mulheres já aconteciam, mas essa foi a primeira vez que todo mundo ficou sabendo. Essa exposição causou uma certa aflição, mas, posteriormente, Nicole e Emma consideraram importante demais o que aconteceu, porque fez com que isso fosse discutido no mundo inteiro.

Vê-las narrando as dúvidas, desafios e pequenas alegrias relacionadas ao casamento delas na Jamaica parece algo pouco relacionado com o livro, mas é. Verdene é uma das principais personagens da trama e é tratada como uma bruxa por sua sexualidade e história pessoal. Ela é vista como uma pária por todos e teme, o tempo todo, se somar às estatísticas de violência por isso. As pessoas escrevem palavras bíblicas de ameaça com sangue de animais em sua casa, jogam corpos de bichos mortos em seu quintal e chegam até mesmo a recusar que ela compre produtos em suas lojas. Esse retrato da vida de uma mulher lésbica exposto na obra nos faz pensar na importância que a notícia do casamento de Nicole e Emma ganhou entre pessoas jamaicanas lésbicas, bissexuais ou gays, sempre colocadas na clandestinidade pela situação.

Verdene vive uma história secreta de amor com Margot. No meio de tanta violência, o livro narra a relação delas como um momento de esperança, quase poético, apesar do medo e da quase impossibilidade daquilo continuar, ao menos ali naquele local. O amor, em toda obra, se manifesta assim, como uma possibilidade de deslumbramento e contemplação mesmo no meio do caos e da dor, apesar da autora evidenciar que até na vivência real dele os privilégios de raça, classe e gênero influenciam.

O que a linguagem pode nos dizer?

“Bem-vindos ao paraíso” da Nicole Dennis-Benn foi a leitura do mês de agosto do Leia Mulheres Divinópolis, clube de leitura em que sou uma das mediadoras. O encontro desse livro aconteceu no último sábado, dia 22/08, e contou com a participação da Heci Candiani, tradutora da obra para o português.

Por isso, parte da nossa conversa abordou também a linguagem e sua relação com poder, classe, colonialismo e, claro, construção de personagem. Heci Candiani falou conosco sobre a pesquisa que fez sobre o inglês jamaicano e chamou a atenção sobre o uso dele no livro e seus desafios de tradução. Quem fala o que é chamado de patuá? Com quem se fala dessa forma? O que não falar inglês jamaicano significa ali? Como um sotaque estrangeiro é visto?

Olhar para as escolhas de linguagem de Nicole, a partir desse debate, nos ajudou a pensar ainda mais nesse livro como um expositor de desigualdades e dinâmicas sociais complexas.


“Bem-vindos ao paraíso” de Nicole Dennis-Benn trabalha a violência de maneira dura, mostrando o quanto ela está presente na vida das mulheres jamaicanas e segue naturalizada e perpetuada pela sociedade. Apesar de em nenhum momento aparentar ser uma obra teórica, o livro também expõe a relação direta dessas violências com o capitalismo e o colonialismo e a desigualdade que ambos fomentam, ainda que alguns perpetuadores de toda essa lógica não estejam em um lugar típico da ideia de opressor. A partir da leitura desse romance, a gente percebe o ciclo da perpetuação de violência que cerca essa família e essa comunidade torna aquele ambiente tóxico para o crescimento do amor, do diálogo e do companheirismo. Esse amor que insiste em crescer e ser desejado, mesmo que em outros espaços, apesar de ninguém ali parecer saber se é permitido que se viva algo que não seja dor e busca pela sobrevivência.


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Se interessou pelo livro? Adquira seu exemplar aqui ou diretamente com a editora ou livraria independente de sua preferência.

“AmoreZ”: historietas gostosinhas sobre o sentimento mais famoso do mundo

#LeiaComASubjetiva

Acervo pessoal — Adquira seu exemplar aqui

O amor é aquele sentimento que de tanto ser falado acabou se tornando sinônimo dos mais diversos tipos de comportamento. Alguns bem problemáticos, por sinal. Regiane Folter, com esse livro leve e delicioso, resolveu falar de uma das minhas facetas do amor preferidas, essa que mostra que ele pode ser tranquilo, cuidadoso e também confortável.

Com mais de vinte pequenos textos, alguns com um caráter bem pessoal, e várias lindas ilustrações feitas pela argentina Magdalena Rivarola, “AmoreZ” fala sobre os processos pessoais e relacionais que envolvem o amor, abordando esse sentimento indo muito além do famigerado casal hétero e branco tradicional que se comporta como se o amor precisasse ser complexo, difícil e dolorido.

Regiane mostra que o amor pode ser leve, mas que essa leveza não é uma mera simplificação de um sentimento. O que torna o amor algo que pode ser suave e delicado é a constatação de que ele é muito mais amplo do que parece e pode ser manifestado das mais diferentes formas, sendo, inclusive, muitas vezes um processo. Especialmente quando falamos de amor próprio, ainda que seja possível abordar a questão de processo numa relação amorosa ou até de mãe e filha.

A rotina é um dos itens cotidianos mais massacrados quando se fala sobre amor, mas nesse livro ela se manifesta como uma parte confortável do banal, do simples, de como as relações e os sentimentos que temos passam a fazer parte de nossas vidas. Relações essas que vão muito além de uma parceria amorosa, se apresentando até mesmo na amizade de humanos com animais.

“AmoreZ” é uma leitura rápida e gostosa, uma ótima pedida para preencher momentos em que buscamos alguma distração que nos lembre um afago ou o cheiro daquela comida conforto que alguém que a gente ama, podendo ser até nós mesmos, vez ou outra faz pra gente se sentir melhor.


Para quem gosta de amor e histórias diversas sobre, aproveito a deixa para recomendar a série “Modern Love”, disponível no Prime Video, streaming da Amazon.

Se interessou pelo livro? Adquira seu exemplar aqui ou leia pelo Kindle Unlimited.