Espinheira-santa: luz e sombra na infância e além

Acervo Pessoal – Adquira seu exemplar aqui.

Em algum momento do fim da adolescência e ainda em Divinópolis-MG, Igor Damasceno e eu nos conhecemos. Há quase quinze anos, a partir dos blogs literários que mantínhamos em um misto de dedicação inesperada e displicência forçada, começamos a conversar. Igor foi o primeiro grande amigo que a literatura me trouxe. Se hoje troco com tantos leitores e escritores, foi porque em algum momento a gente se encontrou e eu entendi o poder de conexão que a arte tem. E agora, em pleno 2021, estamos realizando o sonho que nos uniu: eu na espera do lançamento do meu livro de poemas eu investigo qualquer coisa sem registro, que sairá ainda esse ano pela Crivo Editorial, e Igor com seu livro recém chegado no mundo, vendo amigos e conhecidos espalhados pelo Brasil recebendo seus exemplares pelos Correios.

Com Espinheira-santa, que acabou de sair pela Caravana Grupo Editorial, meu amigo estreia e eu queria convidar vocês para lerem essa novela. Esse não é um convite que faço (só) como wannabe influencer literária, ele vem de um outro lugar, vem da sensação de que esse é um livro que me pega pela memória em todos os sentidos: evoca conversas, sonhos e leituras que dividi com o autor e também com o mundo, esse mundo que, mesmo sendo o da minha época, me parece mais próximo agora que eu o conheço pela turma de Reinaldo e Adelina. Esse mundo que, querendo ou não, também me formou.

Essa é uma obra infanto-juvenil que tem como protagonista uma turminha de crianças que quer se dar bem a qualquer custo. Tudo se passa numa cidade do interior de Minas Gerais nos anos 90 e, durante a leitura, a gente se depara com referências da época, muita diversão e também as regras sociais que vigoravam enquanto os tais millenials cresciam.

Na newsletter que enviei para meus apoiadores, eu disse “Se Ted Lasso é sobre acreditar, Espinheira-santa é sobre desconfiar”. Explico: a vida, especialmente essa que vivemos em pleno capitalismo tardio, vai nos ensinando a desconfiar de tudo, nos deixando cínicos e desencantados. Vivemos sem acreditar que um outro futuro é possível. Por isso, eu preciso do Ted Lasso. Ele, como personagem e programa de TV, me lembra de respirar, acreditar e sorrir. Fui 100% Ted Lassada não pela promessa de gargalhadas, mas pelo encantamento que essa série foi capaz de gerar em mim mesmo nesse aqui e agora. Só que eu nasci, cresci e vivo no Brasil e reaprender a acreditar é um exercício tão complexo justamente porque preciso continuar desconfiando. Então chega o Espinheira-santa que nos lembra que as crianças vivem nesse mesmo mundo que a gente conhece, elas não estão isoladas de nós, e, por essas e outras, são pessoas com suas complexidades e, principalmente, interesses. Desconfiar e acreditar coexistem dentro de nós: o mundo nos ensina a desconfiar, como nos ensina a querer ser os melhores e também levar vantagem em tudo, então a gente vai e, sem jeito e hipocritamente, começa a depositar todas as esperanças nos pequenos, enquanto continuamos os mesmos ou quase isso. Mas esperança é algo a ser cultivado em conjunto, como numa horta comunitária. Mudar o mundo não pode ser algo guardado para gerações futuras, porque acreditar e desconfiar são ensinamentos e consequências da vida em todas as idades. Se o mundo é dos espertos hoje, a geração que cresce agora tem aprendido isso desde que respirou fora da placenta pela primeira vez.

Em um momento em que a defesa dos direitos das crianças se tornou tema manipulado para servir à censura, ao autoritarismo, essa novela de Igor Damasceno representa um respiro, porque ousa sair desse lugar que insistem em reduzir a humanidade das crianças colocando-as como anjinhos puros e contar uma boa história que, expõe quem fomos, somos e podemos ser nesse mundo que nos é oferecido. Com uma narrativa que expõe uma multiplicidade de crenças brasileiras e sutis exemplos de intolerância religiosa, o livro mostra um mundo de plantas, filmes, conhecimentos gerais e sociais que cercam esses personagens cativantes que ainda vêem meninas de uma maneira meio torta, tem medo de serem zombados e provavelmente surtariam com qualquer insinuação sobre sexualidade de qualquer um deles. Espinheira-santa brinca com o imoral e justamente por isso importa, porque o certo e o errado não são tão óbvios quanto parecem. Fugindo dessa idealização típica da infância e do passado, Igor nos diverte muito, enquanto nos faz refletir sobre como é preciso explorar o mundo para aprender mais sobre ele e seus horrores tão naturalizados. Talvez esse processo seja o melhor exemplo do que é crescer. E crescer também inclui olhar para trás, para nossas infâncias, e perceber que muita coisa mudou, ainda bem, mas seria bom mudar mais um pouquinho e, como Ted Lasso, acreditar que isso é possível.

Seguindo a sugestão da capa do livro com vários tons de verde e título vegetal, começo então a pensar que há algo muito importante a se aprender com as plantas e que Igor captou bem: elas podem ser ornamentais, gostosas ou mesmo fitoterápicas, não importa, todas existem a partir da combinação de luz e sombra. Acreditar inclui entender que essa é a regra da natureza, logo nossa, e assim aprender a lidar com o que esse outro lado.

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Amanda Lovelace e a transformação dos contos de fadas

Acervo Pessoal — O livro “A princesa salva a si mesma neste livro” pode ser comprado aqui.

“A princesa salva a si mesma neste livro” começa com um poema que faz referência ao personagem icônico Harry Potter. Amanda Lovelace, norte-americana, formada em literatura inglesa e autora desse livro, conta uma história sobre amadurecimento através de poesias e, ao lembrar da trajetória do menino que sobreviveu, eu pensei em tudo que a saga me ensinou ao narrar os caminhos de Harry, Rony e Hermione.

Histórias sobre se tornar adulto são poderosas justamente por mostrar que a vida é um processo de aprendizados e a gente nunca está completamente preparado para lidar com algumas experiências que fazem parte dela. Livros e o que eles nos contam ajudam a gente a preparar o terreno para o que não é passível de controle e a entender que é possível continuar mesmo quando a gente acha que não.

Na obra escrita por Amanda Lovelace, o livro é colocado como mais que um objeto, ele é também um meio em que o eu-lírico encontra sua própria identidade. A princesa, a donzela e a rainha são personagens típicas de histórias infantis, mas recebem uma outra roupagem de acordo com o desenvolvimento dessa narrativa contada através de poemas e capítulos.

Amor, amizade, autoimagem, a morte de um ente querido e a dor do luto são tratadas pela autora de forma sensível e complexa. A jovem, apaixonada por livros e contos de fadas, descobre que as histórias podem ser diferentes das que ela está acostumada e seu processo de amadurecimento se mostra evidente quando ela percebe que princesas também podem salvar a si mesmas.

A literatura é também uma forma de se conhecer e um apoio para quem lê, a lembrança da saga de Harry Potter expõe a importância dessa e de outras histórias para quem as encontra. E “a princesa salva a si mesma neste livro” agora também é uma dessas obras que podem amparar alguém a descobrir sua própria força.

Esse livro pode dividir a estante com “As vantagens de ser invisível”, de Stephen Chbosky, “Carta de amor aos mortos”, de Ava Dellaria, e com a saga que tornou J. K Rowling célebre, já que todas essas obras também tratam sobre crescer, luto e descobertas.

Poemas não são uma linguagem considerada acessível, mas Amanda Lovelace faz parte de uma geração de mulheres que faz questão de escrever como quer, num formato simples e de fácil entendimento, o que, além de encorajar a leitura, também estimula pessoas a se expressarem através da poesia.


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