O Mineirão é nosso: o dia que a festa foi das mulheres

Eu, minha blusinha e o Mineirão de fundo.

Era agosto, o Brasil era sede dos jogos olímpicos e eu estava a caminho de um Mineirão que receberia nesse dia o maior público do ano até a data. Na véspera, gastei alguns minutos com uma caneta para tecido escrevendo “Marta, Cristiane, Formiga & Beatriz” em uma blusa branca.

A seleção feminina de futebol estava fazendo uma belíssima campanha: dois bons jogos que garantiram a vaga nas quartas e um jogo mediano em que as principais jogadoras foram poupadas. O estádio estava cheio, bem colorido, encontrei uma moça que carregava uma faixa que divulgava o time em que jogava, minha camisa foi elogiada e conseguimos um lugar bem perto do campo.

Cheguei cedo e pude assistir o aquecimento das jogadoras e observar a arquibancada. Ela ainda estava se enchendo e, diferente dos outros jogos que já tinha ido, era predominantemente feminina. Marta, Cristiane, Formiga, Bárbara e Beatriz em campo fizeram muitas mulheres perceberem que o estádio, num todo, também era espaço para elas e mexeram com o ego de muitos homens que ainda insistem que futebol feminino é ruim de assistir. A modalidade feminina ainda é considerada chata, previsível e sem grandes emoções, mas o jogo Brasil x Austrália, e tudo que seguiu após esse dia, mostrou que não é bem assim. O mesmo time que perdeu do Brasil por 5 x 1, venceu a seleção brasileira nos pênaltis na semifinal, mostrando que o futebol feminino, assim como masculino, tem sua dose de imprevisibilidade e de estratégia.

O jogo foi marcado pela tensão. Passei a partida sentindo falta da Cristiane nas finalizações, já que o gol não queria sair. Formiga, como sempre, parecia estar em todos os cantos do campo. Marta, mesmo muito marcada, buscava oportunidade. Bárbara estava a postos. O Mineirão estava gelado, mas o público seguia gritando Marta, Bárbara e Formiga. O frio apertava, enquanto o tempo da prorrogação acabava e a decisão ia para os pênaltis.

Foi a primeira vez que vi disputa por pênaltis ao vivo. A ansiedade — e o frio — só aumentava e eu não aguentei ver as cobranças do meu lugar, me levantei e fui para perto da saída. Vi tudo dali, ou melhor, senti, já que fechei os olhos algumas vezes durante as cobranças. Bárbara nos salvou e foi eleita Santa por aqueles que são fãs de futebol e alcunhas cristãs, o que não é meu caso. O Mineirão virou festa.

A tensão e alegria se misturaram e seguiram comigo até chegar em Divinópolis, minha cidade natal. Elas foram minhas companheiras de estrada durante todo o percurso e encheram minha boca de palavras e “causos” sobre o primeiro jogo de futebol feminino que vi no estádio. Quando cheguei, o sono não foi tranquilo, porque as narrativas dentro de mim estavam ansiosas para serem contadas.

Nesse dia, eu fui uma mulher de vinte e muitos anos e também a criança que sempre sonhou em prestigiar atletas olímpicos e jogava bola todo dia após a aula. Nesse dia, eu vivi um jogo inesquecível nas arquibancadas.

Encontrei no Museu do Futebol a camisa que a Bárbara usou no famigerado jogo Brasil x Austrália.

Leia também: Museu do Futebol: o meu e o do Pacaembu

Esse texto faz parte da campanha #MulheresNoFutebol, organizada por mim e pela Francine Malessa. Saiba mais aqui.

Publicado por

Thaís Campolina

O que falta em tamanho sobra em atrevimento. Isso foi dito sobre um galinho garnisé numa revista Globo Rural dos anos 80, mas também serve pra mim.

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