As Copas e as chagas de uma realidade fantástica

Nuevo Gasómetro – Foto de divulgação

Gabriel García Márquez é considerado o pai do realismo fantástico, apesar de ter dito que uma vez que sua obra representava só realismo. “A realidade que é mágica. Não invento nada. Não há uma linha nos meus livros que não seja realidade. Não tenho imaginação” disse em algum contexto que não fui capaz de descobrir qual, apesar — e talvez justamente por — dessa frase se repetir incansavelmente em matérias e mais matérias sobre ele, especialmente aquelas que anunciaram a sua morte em 2014.

Me volto para essa afirmação de Gabo vez ou outra, nos contextos mais diferentes. Lendo “Água Funda”, único romance de Ruth Guimarães, para o meu clube de leituras, me peguei pensando nela. Nessa obra, um narrador nos conta causos e mais causos sobre uma localidade. Com um texto muito oral, próximo da linguagem caipira, Ruth apresenta para o leitor um lugar, um tempo e suas pessoas, mostrando trajetórias e o quanto o olhar dos personagens é permeado pela natureza, as relações, o mundo e seus mistérios. A cada causo, muito pela linguagem, mas não só, me vinha na mente as histórias que minha avó materna me conta sobre a mãe, suas próprias jornadas por Minas Gerais e o que, segundo ela, o povo antigo pensava sobre uma variedade de coisas. Enquanto lia, percebia palavras que fazem parte do vocabulário da minha avó, especialmente quando ela conta histórias do passado, que em muita coisa é próxima ao que escreve Ruth. A opressão, o trabalho, a natureza, as festas, o truco, tudo isso e mais o que não tem muita explicação. Sendo atravessada pela obra, também lembrei do meu avô paterno e as histórias de terror que ouvi dele. Histórias essas muito próximas das contadas no livro, todas narradas em primeira pessoa, partindo dele ou recontando o que ele ouviu que aconteceu com um amigo ou um amigo de um amigo dele. O mistério da vida todo ali, ilimitado, mas exposto com toda aquela atmosfera nomeada como mágica, apesar de Gabriel e muita gente não considerar bem assim.

Gabriel García Marquéz diz ter escrito a partir das histórias e memórias que cresceu ouvindo em Aracataca, cidade colombiana onde nasceu. Ruth Guimarães foi uma pesquisadora da cultura popular com o olhar e os ouvidos atentos para recolher, registrar e estudar essas histórias que circundam as pessoas a partir do famoso causo, essa prosa cotidiana marcada pela troca, pela memória e pela fofoca. Ambos, ao escreverem, contaram com essa magia tão presente nesses relatos na tarefa de efabulação.

No discurso do Nobel em 1982, o autor colombiano disse ao falar da solidão da América Latina: “No entanto, diante da opressão, do saque e do abandono nossa resposta é a vida. Nem os dilúvios nem as pestes, nem a fome nem os cataclismos, nem sequer as guerras eternas através dos séculos e dos séculos conseguiram reduzir a vantagem tenaz da vida sobre a morte”. Relendo a frase hoje, fazendo a pesquisa para esse texto, entendi que parte dessa magia mora na capacidade de criar e se recriar, apesar de tudo. Essa figura latino-americana que Gabriel ajudou a construir, junto a outros escritores que escreveram muitas vezes somente de seus próprios países ou regiões, é a de um sobrevivente que se alimenta, principalmente, da vontade de continuar. E, numa região como a nossa, isso significa quase que ter fé. Essa fé que é uma miscelânea de símbolos, origens e personagens. Enquanto humanos, criamos, contamos, formulamos tudo que move a vida a partir disso, especialmente aqui, e a maneira de se fazer isso é além da racionalidade típica, cartesiana. É preciso ter esperança, paixão, vontade, amor para continuar e nossas vidas e nossas criações são demarcadas por isso de alguma forma. Talvez isso seja o que explique parte do apreço do Brasil, da Colômbia, da Argentina, do Chile, do México e de outros países próximos pelo futebol.

Quando eu penso no futebol nesse contexto, me vem em mente a notícia do torcedor do Racing que comemorou o título de seu time do coração carregando o crânio de seu avô e, ao ser entrevistado, disse que aquela ossada que carregava era seu amuleto de sorte e que seu querido parente estava orgulhoso daquela vitória. Evoco também a Libertadores, com todas as suas incoerências e emoções, e a alta frequência de cães que invadem campos de futebol bem durante esse campeonato.  E, inevitavelmente, lembro do “Eu acredito” do Atlético Mineiro, esse time que me conquistou e me é tão próximo, apesar de eu não ser exatamente uma torcedora dele ou de qualquer outro.

O futebol, para muitos, é uma fuga da realidade, mas uma fuga marcada pela capacidade de se ter esperança na virada. A escolha do time do coração não é racional, ela vem de um outro lugar. A paixão não é, necessariamente, pela equipe que une mais talentos, probabilidades de vitórias e títulos conquistados, ela parte do afeto, do inexplicável, daquela coisa que bate ou não. Um jogador muito carismático pode mudar tudo, pode fazer o filho de uma família de cruzeirenses escolher o galo como seu amor futebolístico a partir simplesmente de uma identificação misturada com o desejo de ser.

Como tudo que vem da paixão, o futebol é marcado por uma boa dose de coisas inexplicáveis, mistérios e histórias quase mágicas. Transformamos jogos reais em momentos praticamente mitológicos e seres humanos falhos, complexos, que às vezes carregam em si defeitos e mais defeitos de toda uma cultura de reforço de uma certa masculinidade, em verdadeiros ídolos. Digo masculinidade porque é justamente por causa dela e seu machismo consequente que o futebol feminino, apesar de incrível e mexer com nosso âmago desse mesmo jeitinho, ainda é ignorado pela maioria que torce, vibra e se apaixonada por equipes, jogadores e sonhos.

Pensar na origem do amor por uma equipe, me fez recordar da informação que diz que, cientificamente, a gente gosta tanto do azarão, de torcer para o mais fraco, motivados por uma tal de economia emocional, torcemos assim buscando maximizar o prazer a partir do improvável, porque a perda ali, por ser esperada pela probabilidade, nos faz pensar que a vitória é um lucro maior. Entendo o argumento, faz bastante sentido, mas a seleção brasileira, por seu penta histórico, não carrega essa pecha de fraca e duvidosa, mas ainda assim segue tendo muita torcida. Por que? Porque o Brasil vencendo, mesmo para outros países, significa também dignidade, direito de sonhar, uma vitória contra aqueles que ganham em tudo, todos esses sentimentos que ajudam a fazer do futebol esse esporte que mexe com tantos, especialmente os latino-americanos. Nossas escolhas e emoções esportivas são marcadas por aspectos sociais, políticos e, claro, emocionais. Buscamos vinganças coloniais torcendo numa Copa do Mundo organizada por uma entidade bem controversa e nos sentimos exaustos vendo os Estados Unidos no primeiro lugar do quadro de medalhas das Olimpíadas a cada 4 anos.

Escrevi tudo isso para chegar no que me deu a primeira fagulha desse texto: a morte de Diego Armando Maradona. Toda aquela comoção, dor, ilusão de proximidade e relatos emocionados me fizeram pensar nessa paixão que o esporte é capaz de fazer surgir e como as pessoas encontram em Maradonas uma esperança que representa a pulsão de vida perante a morte, a miséria, o horror, junto também ao desejo em sair por cima, porque somos humanos, afinal.

Os dois gols do Maradona contra a seleção da Inglaterra em 1986 representam isso muito bem: o gol roubado — a famigerada mão de deus — a Argentina saindo por cima da Inglaterra em algo, apesar de tudo, e o gol mais belo de todas as Copas, o gol que vem do imo, do desejo, da vontade de ser foda, do talento e da beleza que não podem ser roubados, apesar de seguirem tentando a todo custo.

Quando parei para pensar no futebol e fui parar no realismo, mágico ou não, eu cheguei a conclusão que a gente chama de magia e mistério o que envolve todas essas coisas que vem de dentro. Não sabemos como surge o amor, a paixão, o medo, o ranço, a raiva, o rancor, mas a gente conhece muito bem tudo isso. Criamos e consumimos histórias, inclusive as narrativas e vivências esportistas e os causos do cotidiano, para lidarmos com essa infinidade de coisas que não sabemos explicar muito bem, mas é um dos nossos principais componentes.

No dia 18 de maio de 2017, eu estava em Buenos Aires e fui parar no estádio Nuevo Gasómetro para assistir San Lorenzo versus Flamengo. O time argentino tinha perdido os dois primeiros jogos da fase de grupos da Libertadores, mas conseguiu se classificar para a fase seguinte a partir de uma vitória de virada com gol no último minuto. Desse dia, eu me lembro do frio, por causa do estádio todo aberto e a localização bem abaixo do trópico de capricórnio, e da festa. Fui contagiada pela emoção que tomou conta da atmosfera do lugar. Eu sorria, porque sorriam, cantavam, festejavam ao meu lado, e, no meio daquele caos, ouvia uivos humanos que terminavam com a frase “como sufri”, porque amor, esperança e a improbabilidade tinham vencido. Nesse dia, apesar de contagiada, eu compreendi que jamais entenderia completamente qual jogo eles vivenciaram e assim me tornei capaz de perceber a grandiosidade de toda essa gama de sentimentos que envolve o torcer e o ser, mas para mim ainda parecem mais com um feitiço poderoso, esse que sei que me atinge de outras formas, diferentes e semelhantes, inclusive por meio da literatura, da linguagem, das pessoas e da natureza. De todo jeito, estamos todos falando de amor, paixão, esperança e desconhecido e nos conectando a partir disso.

Estação Blogagem foi criada pela Aline Valek e pela Gabi Barbosa para movimentar a blogosfera e engajar leitores e escritores em torno dos blogs, escrita e leitura. O tema proposto para esse mês de escrita e leitura foi tarô e, durante esse período, eu postei textos escritos a partir desse estímulo. Para essa última semana, elas escolheram o naipe de copas, que é diretamente relacionado ao amor, às emoções e à água e sua imprecisão.

Futebol, mulheres e esporte: o campo ainda é um espaço de batalha

Divulgação

O futebol feminino não precisa passar por mudanças de tamanho de campo e gol para se tornar atrativo, como insinuam vários homens toda vez que o Brasil perde em uma grande competição como Copa do Mundo e Olimpíadas. Ele já é atrativo como é e essa Copa do Mundo na França deixou isso evidente.

Para melhorar a modalidade, especialmente no Brasil, precisa-se de investimento desde a base para que as meninas comecem a treinar e competir bem novas, como é padrão para os meninos. O problema é que, além da falta de interesse dos clubes, da CBF e afins, nossa sociedade ainda tende a desencorajar meninas a praticarem futebol.

As meninas que gostavam de jogar bola, ainda que sem intenção de competir, sabem o quanto todos ao redor tentam empurrá-las para o balé, para o jazz ou mesmo para o vôlei. “Muito bruto”, eles dizem e tentam criar nelas medo da bola, dos chutes, dos encontrões. Se isso não funciona e elas continuam, eles esperam que as meninas se cansem de pedir para os meninos permissão para jogar. Eles querem que, com as negativas de participação nas aulinhas de futebol do clube, no futebol de rua e nos jogos do intervalo da escola, elas percebam que não são bem-vindas. Felizmente, nem todas desistem, apesar dos esforços coletivos para isso. A verdade é que nem quando havia lei impedindo elas de jogarem bola, muitas não se deixaram intimidar. Os esportes ensinam a persistência como um caminho e esse aprendizado guiou as mulheres do futebol desde sempre.

Por meio do decreto-lei 3199/41, o futebol feminino foi proibido no Brasil por quase 40 anos com a justificativa de que sua prática era incompatível com a natureza das mulheres. Além do futebol, o futsal, o futebol de areia, o polo, o polo aquático, lutas de qualquer natureza, o rugby, o beisebol e o halterofilismo também foram vedados para mulheres por esse documento legal. Isso impactou o desenvolvimento do esporte feminino no Brasil, apesar da resistência de grupos como o Araguari Atlético Clube e da primeira árbitra de futebol do mundo, Léa Campos.

A mentalidade de que o futebol e as demais modalidades citadas no decreto não são esportes adequados para mulheres ainda sobrevive culturalmente, apesar do documento em questão ter perdido sua validade em 1979. As meninas e mulheres que seguem jogando fazem isso por teimosia e paixão, sendo consideradas intrusas, sendo ofendidas com termos como “maria homem” e vivendo isso tudo sem apoio da família, dos professores ou dos colegas. A visibilidade dada aos últimos jogos da seleção feminina parece uma boa oportunidade para fazer esses caminhos de mudança se tornarem permanentes e mais efetivos, mas é necessário levar em conta que a questão das mulheres no futebol se entrelaça com a das mulheres nos esportes e, além de tudo que se relaciona com a modalidade em questão, é preciso entender que os esportes num todo não são incentivados para meninas, a não ser por motivos estéticos como emagrecimento ou crescimento, e traçar estratégias para transformar essa realidade.

As práticas esportivas nos ensinam muito sobre disciplina, determinação, fracasso, trabalho em equipe, consciência corporal e até ousadia e prazer, mas a falta de incentivo e muitas vezes de acesso afeta o desenvolvimento pessoal de meninas e mulheres, como escrevi no meu texto sobre o livro As Esportistas.

Nossa cultura machista cria obstáculos para mulheres praticarem esportes, especialmente esses colocados como “coisa de homem”. Mesmo meninas que, como eu, cresceram praticando acabam se afastando de esportes na adolescência porque entendem que esse espaço não é delas ou mesmo porque a divisão sexual do trabalho começou a atuar em seus cotidianos e agora há a obrigação de limpar, cozinhar e cuidar dos irmãos mais novos ou até filhos nas horas vagas.

As trajetórias amadoras das meninas e mulheres no esporte, especialmente no futebol e nas artes marciais, expõem o quanto essas restrições, sejam elas culturais ou mesmo legais, tem a intenção, ainda que inconsciente, de não permitir que mulheres descubram os limites, capacidades e características de seus corpos.

O corpo ativo, que ocupa espaços, testa limites e tudo mais não pode ser o que é considerado feminino. O corpo feminino é para parir, servir, enfeitar, ser passivo, segundo o machismo, e é por isso que o mundo dos esportes ainda é considerado deles, mesmo nas modalidades não consideradas masculinas.

Meninos e homens encaram o esporte como território próprio, inclusive de socialização, e assim as práticas esportivas se conectam facilmente com diversão. As praças, parques, clubes, quadras comunitárias e as ruas brasileiras são tomadas por meninos. Eles podem ocupar esse espaço. Podem e devem. Eles são os donos da bola. Não todos, claro. Meninos considerados afeminados ou gordos ou fãs das modalidades esportivas ‘erradas’, por exemplo, também se sentem fora do lugar, ficam deslocados e são excluídos, como as meninas que tentam participar desse espaço.

O controle dos nossos corpos, comportamentos e subjetividades se soma sempre para não permitir que meninas e mulheres descobram o que são capazes de fazer. Para que todos, inclusive meninos, possam descobrir suas potencialidades, a educação igualitária e o fim desses padrões de gênero tão castradores é necessária. Além de resolver as questões de acesso que envolvem desigualidade econômica, claro.

A discussão do futebol feminino, seu desenvolvimento e das mulheres no esporte perpassa pelo aprofundamento do debate sobre machismo e estereótipos do que é feminino e masculino. O esporte deve ser visto como um espaço para todos, independente do gênero, etnia, orientação sexual, tamanho, peso e corpo. Só assim para o acesso às quadras, campos e bolas deixaram de ser uma batalha.


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Uma sexta excepcional

Por Thaís Campolina

Toda sexta tem trânsito, correria e gente desesperada para chegar logo em seu destino. Dá quatro horas da tarde e as ruas se tornam impraticáveis. É muita gente, é muito carro e todos os ônibus estão lotados.

Nessa última, o caos foi especial e começou até mais cedo. O Brasil tinha se classificado para as quartas da Copa do Mundo e jogaria contra a Bélgica às 15 horas. Às 12:35, uma mulher loira entrou no ônibus certa de que não havia risco de perder nem um minuto do jogo. A certeza logo passou.

Pela janela do ônibus, se via gente vestida de verde e amarelo e uma quantidade absurda de carros, ônibus e até mesmo caminhões parados. Alguns com bandeirinhas, mas a maioria sem. Trânsito igual a esse só em véspera de feriado prolongado e com chuva.

Logo os passageiros começaram a gritar para o motorista acelerar, e o homem, aflito, respondia que pra isso teria que passar em cima da carraiada toda. A trocadora tentou tranquilizar as pessoas ao seu redor e comentou sobre a possibilidade de ouvir o jogo pela rádio. Não adiantou nada. A essa altura, o que apertava mesmo era a fome. O receio maior não era mais perder algum lance e sim aparecer no churrasco da família bem naquela janela de tempo em que não há carne nenhuma na churrasqueira.

Para distrair, as pessoas começaram a organizar um bolão e tentar antever placares. Era gente demais e chutes considerados possíveis de menos, por isso o papo acabou se transformando em um bolão de quando o ônibus chegaria no bairro.

Uma mulher, vestida com uma blusa que falava em Hexa 2014, disse que chegaríamos no final do primeiro tempo e que teríamos tomado dois gols. O que foi a hipótese mais pessimista feita pelo grupo e a mais próxima do placar final. Um cara de terno e gravata estimou que chegaríamos aos vinte minutos e veríamos o primeiro gol do Brasil assim que sentássemos no sofá. Todos que acompanhavam esse blablabla vibraram com essa.

Uma jovem de tranças coloridas consultou um aplicativo no celular e afirmou categoricamente que em 25 minutos estaríamos na rua principal do bairro. Uma idosa, toda vestida de amarelo e com um semblante muito parecido com o do Canarinho Pistola, sentenciou contra a estimativa feita pelo Maps e veio com o papo de que o ônibus chegaria no ponto final bem na hora do hino nacional.

No fim das contas, ninguém acertou nem placar final e nem horário de chegada, mas todos viram o sonho do Hexa 2018 acabar com dois gols para a Bélgica ainda no primeiro tempo, sendo um deles gol contra. Quando o Brasil marcou um, a expectativa da virada preencheu corações, casas e bairros, mas toda essa esperança não foi capaz de evitar a desclassificação.

Ainda assim, as vuvuzelas tocaram, as pessoas comeram e mais cerveja foi colocada no congelador. Fora o meio horário e a temática verde & amarela, foi quase igual toda sexta-feira.


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O Mineirão é nosso: o dia que a festa foi das mulheres

Eu, minha blusinha e o Mineirão de fundo.

Era agosto, o Brasil era sede dos jogos olímpicos e eu estava a caminho de um Mineirão que receberia nesse dia o maior público do ano até a data. Na véspera, gastei alguns minutos com uma caneta para tecido escrevendo “Marta, Cristiane, Formiga & Beatriz” em uma blusa branca.

A seleção feminina de futebol estava fazendo uma belíssima campanha: dois bons jogos que garantiram a vaga nas quartas e um jogo mediano em que as principais jogadoras foram poupadas. O estádio estava cheio, bem colorido, encontrei uma moça que carregava uma faixa que divulgava o time em que jogava, minha camisa foi elogiada e conseguimos um lugar bem perto do campo.

Cheguei cedo e pude assistir o aquecimento das jogadoras e observar a arquibancada. Ela ainda estava se enchendo e, diferente dos outros jogos que já tinha ido, era predominantemente feminina. Marta, Cristiane, Formiga, Bárbara e Beatriz em campo fizeram muitas mulheres perceberem que o estádio, num todo, também era espaço para elas e mexeram com o ego de muitos homens que ainda insistem que futebol feminino é ruim de assistir. A modalidade feminina ainda é considerada chata, previsível e sem grandes emoções, mas o jogo Brasil x Austrália, e tudo que seguiu após esse dia, mostrou que não é bem assim. O mesmo time que perdeu do Brasil por 5 x 1, venceu a seleção brasileira nos pênaltis na semifinal, mostrando que o futebol feminino, assim como masculino, tem sua dose de imprevisibilidade e de estratégia.

O jogo foi marcado pela tensão. Passei a partida sentindo falta da Cristiane nas finalizações, já que o gol não queria sair. Formiga, como sempre, parecia estar em todos os cantos do campo. Marta, mesmo muito marcada, buscava oportunidade. Bárbara estava a postos. O Mineirão estava gelado, mas o público seguia gritando Marta, Bárbara e Formiga. O frio apertava, enquanto o tempo da prorrogação acabava e a decisão ia para os pênaltis.

Foi a primeira vez que vi disputa por pênaltis ao vivo. A ansiedade — e o frio — só aumentava e eu não aguentei ver as cobranças do meu lugar, me levantei e fui para perto da saída. Vi tudo dali, ou melhor, senti, já que fechei os olhos algumas vezes durante as cobranças. Bárbara nos salvou e foi eleita Santa por aqueles que são fãs de futebol e alcunhas cristãs, o que não é meu caso. O Mineirão virou festa.

A tensão e alegria se misturaram e seguiram comigo até chegar em Divinópolis, minha cidade natal. Elas foram minhas companheiras de estrada durante todo o percurso e encheram minha boca de palavras e “causos” sobre o primeiro jogo de futebol feminino que vi no estádio. Quando cheguei, o sono não foi tranquilo, porque as narrativas dentro de mim estavam ansiosas para serem contadas.

Nesse dia, eu fui uma mulher de vinte e muitos anos e também a criança que sempre sonhou em prestigiar atletas olímpicos e jogava bola todo dia após a aula. Nesse dia, eu vivi um jogo inesquecível nas arquibancadas.

Encontrei no Museu do Futebol a camisa que a Bárbara usou no famigerado jogo Brasil x Austrália.

Leia também: Museu do Futebol: o meu e o do Pacaembu

Esse texto faz parte da campanha #MulheresNoFutebol, organizada por mim e pela Francine Malessa. Saiba mais aqui.

Museu do futebol: o meu e o do Pacaembu

Eu devia ter uns sete anos ou menos quando comecei a correr atrás da bola durante o recreio e depois do fim das aulas. Me dividia entre brincar de skate de dedo, dançar Chiquititas, pique esconde, fugir da bola na queimada, correr e chutá-la na quadra e participar de todas as variações possíveis de brincadeiras relacionadas ao futebol. Eu só queria me divertir.

Mesmo menina, eu já sentia que o mundo não via o futebol como um lugar de mulher quando ouvia de adultos que era estranho eu gostar de jogar bola ou quando eu tinha que pedir permissão para os meninos para jogar no recreio, mesmo com a quadra reservada para a minha turma. Os donos da quadra e da bola eram eles, eu era apenas uma mera visitante.

Cresci vendo os professores de educação física dividirem a turma entre meninos e meninas, eles no futebol, elas no vôlei, enquanto em casa, eu jogava Nintendo com meu irmão e um dos jogos queridos era o Ronaldinho Soccer 98. Mais tarde e junto com ele, eu entrei no mundo dos jogos de treinadores e acompanhei desde Elifoot e Brasfoot até CM e FM. Abandonei a quadra e me mantive na redoma dos jogos virtuais até que de tanto ser sempre a visitante, acabei me tornando apenas uma turista. Os donos da quadra e da bola conseguiram o que queriam: eu fui para o meu não lugar.

Desde então, o futebol ficou de lado. Fui expulsa pelo pior dos fandons com seus intermináveis “então me explica a regra do impedimento!”, vi o meu gosto pelo futebol ser podado até restar apenas uma sementinha que só deve ter continuado viva porque eu sabia que mulheres também driblavam, afinal, por alguns anos eu fui uma delas.

Descrição: foto minha olhando para molduras com fotos históricas. A foto que se destaca é a de um time feminino.

Depois de anos nesse não lugar, foi uma visita ao Museu do Futebol que me fez sentir vontade de voltar a enfrentar esse fandom. Já na primeira sala, eu vi que ia gostar do passeio ao me deparar com cartazes das olimpíadas modernas, vídeos de esportes que incluem crianças com deficiência, uma linda homenagem à Chapecoense e um mundo de escudos, imagens, faixas relacionadas ao esporte e entre elas, eu via algumas que mostravam que elas tinham vez ali.

Entre os craques homenageados, tinham Formiga e Marta incluídas. Entre as fotos históricas do futebol, havia times femininos, imagens de partidas, a lembrança do decreto-lei que proibiu mulheres de praticar o esporte por décadas e alguns recortes de jornais de outras épocas que evidenciam o machismo que ainda hoje atinge as mulheres envolvidas no esporte. Nas várias exposições do museu, fala-se delas. Talvez com uma certa timidez em alguns momentos, mas a lembrança de que elas existem e resistem está lá e eu, enquanto feminista e com um museu de histórias pessoais com futebol, saí de lá com vontade de abandonar o meu não lugar e invadir a quadra e tomar a bola até que todos os espaços também sejam nossos.


Leia também “Musas não, torcedoras”, texto que escrevi para o Ativismo de Sofá com umas dicas de como tornar o futebol um ambiente menos machista e essa pequena biografia que escrevi para o Mulheres Notáveis sobre a Léa Campos, primeira árbitra de futebol profissional do mundo.


Museu do Futebol, cadê a Cristiane Rozeira na parte dos craques? A mulher é a maior artilheira das Olimpíadas, ela merece!


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Eu continuo tentando

Print do site “E se o jogo Brasil x Alemanha ainda estivesse rolando?” porque o sentimento atual é como se fosse isso aí.

O Brasil vive vários 7 x 1 diários. Na verdade, tem dia que a gente nem consegue esse golzinho de honra. A gente tem sentido o cheirinho da ameaça de perder direitos toda hora, estamos acuados, assustados e tão impressionados com a rapidez de tudo que está acontecendo que simplesmente ficamos assistindo a cada perda e a cada ameaça sem piscar e sem conseguir fazer muita coisa. Quando se ataca a capacidade de ter esperança, é difícil fazê-la brotar de novo.

Eu continuo tentando. Sou dessas que ainda digita um textão na caixa de comentários do Facebook de páginas de grandes jornais brasileiros, sou dessas que continua buscando o diálogo, sou dessas que tenta não desistir e se apega às pequenas vitórias para conseguir seguir com esperança. Mas também sou dessas que tira férias de acreditar e deixa a vida seguir até conseguir fazer tudo isso de novo, porque acreditar tem vez que dói e a gente precisa se afastar para cuidar dessas feridas. Tem que ficar esperto, sabe? Porque se a gente não descansa de acreditar, a esperança não é mais capaz de regenerar e morre.


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