Futebol, mulheres e esporte: o campo ainda é um espaço de batalha

Divulgação

O futebol feminino não precisa passar por mudanças de tamanho de campo e gol para se tornar atrativo, como insinuam vários homens toda vez que o Brasil perde em uma grande competição como Copa do Mundo e Olimpíadas. Ele já é atrativo como é e essa Copa do Mundo na França deixou isso evidente.

Para melhorar a modalidade, especialmente no Brasil, precisa-se de investimento desde a base para que as meninas comecem a treinar e competir bem novas, como é padrão para os meninos. O problema é que, além da falta de interesse dos clubes, da CBF e afins, nossa sociedade ainda tende a desencorajar meninas a praticarem futebol.

As meninas que gostavam de jogar bola, ainda que sem intenção de competir, sabem o quanto todos ao redor tentam empurrá-las para o balé, para o jazz ou mesmo para o vôlei. “Muito bruto”, eles dizem e tentam criar nelas medo da bola, dos chutes, dos encontrões. Se isso não funciona e elas continuam, eles esperam que as meninas se cansem de pedir para os meninos permissão para jogar. Eles querem que, com as negativas de participação nas aulinhas de futebol do clube, no futebol de rua e nos jogos do intervalo da escola, elas percebam que não são bem-vindas. Felizmente, nem todas desistem, apesar dos esforços coletivos para isso. A verdade é que nem quando havia lei impedindo elas de jogarem bola, muitas não se deixaram intimidar. Os esportes ensinam a persistência como um caminho e esse aprendizado guiou as mulheres do futebol desde sempre.

Por meio do decreto-lei 3199/41, o futebol feminino foi proibido no Brasil por quase 40 anos com a justificativa de que sua prática era incompatível com a natureza das mulheres. Além do futebol, o futsal, o futebol de areia, o polo, o polo aquático, lutas de qualquer natureza, o rugby, o beisebol e o halterofilismo também foram vedados para mulheres por esse documento legal. Isso impactou o desenvolvimento do esporte feminino no Brasil, apesar da resistência de grupos como o Araguari Atlético Clube e da primeira árbitra de futebol do mundo, Léa Campos.

A mentalidade de que o futebol e as demais modalidades citadas no decreto não são esportes adequados para mulheres ainda sobrevive culturalmente, apesar do documento em questão ter perdido sua validade em 1979. As meninas e mulheres que seguem jogando fazem isso por teimosia e paixão, sendo consideradas intrusas, sendo ofendidas com termos como “maria homem” e vivendo isso tudo sem apoio da família, dos professores ou dos colegas. A visibilidade dada aos últimos jogos da seleção feminina parece uma boa oportunidade para fazer esses caminhos de mudança se tornarem permanentes e mais efetivos, mas é necessário levar em conta que a questão das mulheres no futebol se entrelaça com a das mulheres nos esportes e, além de tudo que se relaciona com a modalidade em questão, é preciso entender que os esportes num todo não são incentivados para meninas, a não ser por motivos estéticos como emagrecimento ou crescimento, e traçar estratégias para transformar essa realidade.

As práticas esportivas nos ensinam muito sobre disciplina, determinação, fracasso, trabalho em equipe, consciência corporal e até ousadia e prazer, mas a falta de incentivo e muitas vezes de acesso afeta o desenvolvimento pessoal de meninas e mulheres, como escrevi no meu texto sobre o livro As Esportistas.

Nossa cultura machista cria obstáculos para mulheres praticarem esportes, especialmente esses colocados como “coisa de homem”. Mesmo meninas que, como eu, cresceram praticando acabam se afastando de esportes na adolescência porque entendem que esse espaço não é delas ou mesmo porque a divisão sexual do trabalho começou a atuar em seus cotidianos e agora há a obrigação de limpar, cozinhar e cuidar dos irmãos mais novos ou até filhos nas horas vagas.

As trajetórias amadoras das meninas e mulheres no esporte, especialmente no futebol e nas artes marciais, expõem o quanto essas restrições, sejam elas culturais ou mesmo legais, tem a intenção, ainda que inconsciente, de não permitir que mulheres descubram os limites, capacidades e características de seus corpos.

O corpo ativo, que ocupa espaços, testa limites e tudo mais não pode ser o que é considerado feminino. O corpo feminino é para parir, servir, enfeitar, ser passivo, segundo o machismo, e é por isso que o mundo dos esportes ainda é considerado deles, mesmo nas modalidades não consideradas masculinas.

Meninos e homens encaram o esporte como território próprio, inclusive de socialização, e assim as práticas esportivas se conectam facilmente com diversão. As praças, parques, clubes, quadras comunitárias e as ruas brasileiras são tomadas por meninos. Eles podem ocupar esse espaço. Podem e devem. Eles são os donos da bola. Não todos, claro. Meninos considerados afeminados ou gordos ou fãs das modalidades esportivas ‘erradas’, por exemplo, também se sentem fora do lugar, ficam deslocados e são excluídos, como as meninas que tentam participar desse espaço.

O controle dos nossos corpos, comportamentos e subjetividades se soma sempre para não permitir que meninas e mulheres descobram o que são capazes de fazer. Para que todos, inclusive meninos, possam descobrir suas potencialidades, a educação igualitária e o fim desses padrões de gênero tão castradores é necessária. Além de resolver as questões de acesso que envolvem desigualidade econômica, claro.

A discussão do futebol feminino, seu desenvolvimento e das mulheres no esporte perpassa pelo aprofundamento do debate sobre machismo e estereótipos do que é feminino e masculino. O esporte deve ser visto como um espaço para todos, independente do gênero, etnia, orientação sexual, tamanho, peso e corpo. Só assim para o acesso às quadras, campos e bolas deixaram de ser uma batalha.


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Publicado por

Thaís Campolina

O que falta em tamanho sobra em atrevimento. Isso foi dito sobre um galinho garnisé numa revista Globo Rural dos anos 80, mas também serve pra mim.

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