O mundo das letras

Imagem do jogo Scrabble

Numa sucessão de golpes e de candidatos falastrões que odeiam minorias conquistando o poder, chegamos até aqui. Depois de tantas maracutaias para passar reformas, apoiar guerras e explorar pessoas para fazerem roupas de pouca qualidade, o capitalismo entrou em colapso. A descrença fez surgir na população cinismo, medo, memes e luta, e o resultado disso foram anos e anos em que o mundo foi dominado pelo aleatório.

Nessa época de transição, todos os atores acreditavam fielmente que faziam algo de fato, mas a maioria apenas agia de modo automático. Em busca de um pouco mais de igualdade, alguns lutaram e forçaram a aleatoriedade para transformar o capitalismo em outra coisa, num sistema que parecia mais justo, mas que acabou também se baseando na meritocracia e na sorte de nascer na família certa, no lugar certo.

O dinheiro se transformou. Inicialmente as trocas substituíram as notas e as contas correntes. A intenção era que voltássemos a viver com um senso comunitário aflorado, mas o fim do capitalismo não derrubou os privilégios e o poder totalmente, já que nunca houve uma ruptura de fato, e a antiga elite conseguiu influenciar na construção desse novo mundo. O dinheiro passou a ser a pontuação que o indivíduo conseguia jogando Scrabble. A antiga — e nova — elite dizia que a sorte em tirar a peça da letra certa tornava o sistema aleatório, logo, justo, mas ignorava que o conhecimento das palavras existentes e alguns lugares no tabuleiro continuavam inacessíveis para parte da população.

O mundo passou a ser dividido de acordo com os idiomas. Algumas línguas não se adaptaram bem ao jogo e hoje servem só para serem faladas, o que, na prática, é inútil na hora de fazer dinheiro. Acredito que esses idiomas desaparecerão com a morte de seus falantes, já que a língua agora serve ao utilitarismo. O inglês e o espanhol são as moedas de maior força, mas o português até vai bem, já que a China o adotou por influência de Macau e da agridoce aleatoriedade.

A elite é composta por quem consegue formar, com frequência, palavras usando todas as letras do banco e por aqueles que nasceram em lotes de palavras duplas ou triplas. O tabuleiro continuou o mesmo, mas criaram um mecanismo para definir onde cada jogador nasce nele. O jogador participa do jogo de acordo com o local em que mora na vida real, o que coloca a periferia sempre nas áreas com poucos bônus. Alguma coisa mudou?

Sou classe média. Muitas vezes nasço numa letra dupla ou tripla e por isso treino horas e horas fazendo palavras com letras como Z e X, de preferência. Como nem sempre a sorte ajuda, treino bastante as letras Q, V, F e outras que também pontuam bem.

O sistema político e jurídico também sofreu modificações, mas essas ainda estão em curso em todo o mundo. Até então, no Brasil, tivemos apenas uma eleição, que foi decidida através do programa Soletrando, apresentado pelo Lúcio Hick, num canal de Youtube braço da emissora Lobo. Lúcio se tornou uma espécie de mesário bem popular e que anda de táxi nas horas vagas. A produção do programa tem algumas atribuições do antigo TSE e os espectadores, como eu, acham que fiscalizam todo o processo. Teoricamente, se a gente notar alguma coisa estranha, a gente leva para a justiça e ela decide através de análises que envolvem linguistas, gramáticos e nossos votos. Ainda não aconteceu, provavelmente vai rolar algo nas eleições regionais, por elas serem mais numerosas. Não há mais eleições municipais, porque é impossível para o Lúcio Hick apresentar tudo, né?

Quando eu era criança, uns quarenta anos atrás, eu era a única pessoa fascinada por sopa de letrinhas que eu conhecia. Eu sonhava com esse alimento, mas na vida real só encontrava letra em livro e no prato apenas argolinha, Ave Maria, conchinha, espaguete, Pai Nosso e até penne. Agora, a sopa de letrinhas é o antigo feijão com arroz e sofreu toda espécie de gourmetização possível para se tornar o grande destaque dos cardápios dos melhores restaurantes. Sigo fascinada, já que agora a gente encontra até bago de feijão em formato de letra.

Para quem nasceu no fim dos anos 1980, como eu, é bem divertido ver os novos rituais que surgiram. Para mim, mineira do interior, o mais engraçado é a mudança das cerimônias cristãs. Hoje, durante a Crisma, a galera come pedaço de dicionário embebido no vinho para fortalecer a fé e o seu conhecimento.

Estranho uma das minhas antigas diversões ter se tornado isso. Nos dias de hoje trabalho para receber letras coringa, bem elas, que sempre quis evitar usar porque antes não valiam nada, a não ser a chance de colocar uma palavra maior. Hoje o coringa vale muito e, se antes tinha que se pensar muito antes de usar, agora tem até curso que ensina a hora certa. O mundo é outro, mas também é um pouco do mesmo que vivi. É a mesma época, são as mesmas gerações e a cultura foi pouco modificada. O Scrabble não é mais só um jogo de tabuleiro, é o jogo da vida.


Texto escrito com base em tweets que fiz em minha conta pessoal em Maio de 2017.


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Publicado por

Thaís Campolina

O que falta em tamanho sobra em atrevimento. Isso foi dito sobre um galinho garnisé numa revista Globo Rural dos anos 80, mas também serve pra mim.

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