Conto de Natal

Espero o ano todo pelas luzes de natal. Quando as casas, lojas e ruas começam a aparecer enfeitadas, me sinto como uma criança esperando o Papai Noel chegar com seus presentes.

Entre as tarefas do escritório, a montagem da árvore e a preparação das rabanadas, panetones e do famigerado pernil, encontro um tempo pra mim e me preparo para o dia em que me faço renascer. Hidrato o cabelo, esfolio a pele, pinto as unhas, tiro o tubinho preto do maleiro e lustro um par de sapatos de salto alto. Ao me verem tão arrumada na Ceia, acham que me enfeito toda para receber Jesus.

Enquanto espero todos chegarem, sempre com um terço nas mãos e murmurando orações quando alguém está olhando, termino a salada, afio as facas e testo o corte delas no Chester.

Sirvo as entradas logo para oferecer o jantar só após o Pai Nosso da meia noite. Belisco pouco e me recuso a beber em nome de Deus e todos riem da beata que sou. Lá pelas duas da manhã me ofereço para levar os últimos bêbados da família para casa. Quando essa via crúcis finalmente acaba chega a hora do meu feliz natal.

Sei bem onde ir. Observei as possíveis presas durante o ano todo. Escolho quem vai ser de acordo com a minha sorte. Esse ano tenho preferência por três nomes: Fernando, o galinha que abusa de meninas desacordadas, João Paulo, o marido violento da manicure da rua de cima, e Gustavo, um músico bosta que adora descer a mão em uma mulher.

A longa espera não estraga o momento. Sempre tem a surpresa de não saber quem vai ser o azarado da vez até um deles surgir no meu radar e o prazer e a adrenalina da faca rasgando a pele do sujeito.

Assim termino todos os meus anos como a heroína secreta de alguma mulher desesperada.


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Publicado por

Thaís Campolina

O que falta em tamanho sobra em atrevimento. Isso foi dito sobre um galinho garnisé numa revista Globo Rural dos anos 80, mas também serve pra mim.

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