A Pequena Sereia e o reino das ilusões patriarcais

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Hans Christian Andersen foi um autor dinamarquês que viveu no século XIX e escreveu diversos contos de fadas infantis, entre eles, “A Pequena Sereia”. O fascínio que essas criaturas mitológicas exercem na humanidade e a curiosidade humana sobre as profundezas do mar ajudou a tornar essa história bem popular inclusive entre crianças, especialmente após a adaptação cinematográfica feita pela Disney em 1989.

Tanto no conto original, quanto na famosa animação, a protagonista abandona sua vida nos mares e sua identidade, além de mutilar seu corpo, para tentar conquistar um homem. A Bruxa do Mar é feia, solitária, invejosa e infeliz. Uma personagem clichê, que tem sua vilania construída a partir de uma oposição ao que é colocado como ideal de feminilidade, enquanto a Pequena Sereia corresponde ao padrão de beleza e ama verdadeiramente um homem, como se é esperado de uma mulher.

A construção dessa história e das principais personagens reproduz uma mensagem que, agora, quase 30 anos depois, é questionada por Louise O’neill numa releitura feminista desse clássico.

O patriarcado marinho

Na versão de Louise, o reino do Rei dos Mares é uma epítome da opressão contra as mulheres e é nesse lugar que a Pequena Sereia cresce cercada por suas irmãs, sua avó e a intimidação de seu pai e outros tritões.

O valor das sereias está apenas na aparência que possuem, há um incentivo à rivalidade feminina, inclusive entre irmãs, o padrão de beleza é magro e os sacrifícios para tentar alcançá-lo são naturalizados, há casamentos arranjados e as sereias são vistas como troféus a serem ostentados.

Não importa o que as sereias sentem, querem ou expressem. O Rei dos Mares é quem manda e desmanda nesse lugar. A Pequena Sereia, chamada Gaia na releitura, se incomoda com essas regras tácitas e expressas sobre como ela e todas as outras devem agir e vê as histórias de amor contadas por sua avó e protagonizadas por príncipes encantados como um refúgio desse destino que parece inescapável. Isso se intensifica com a proximidade do seu casamento com um tritão bem mais velho escolhido por seu pai.

A (des)construção do amor romântico

Louise O’neill parte da mesma problemática da história original para questionar o amor romântico que nos é ensinado. O refúgio da personagem é esse amor ideal que não existe, mas chegou até seus sonhos por meio dos contos de fada. Ela quer viver esse amor das histórias com Oliver, humano que ela salvou após uma tempestade afundar um barco em que ocorria uma festa.

Naquele contexto de opressão que, além de tudo, envolve um casamento arranjado com um tritão agressivo e manipulador, Gaia encara a paixão humana, a mutilação e o abandono do mundo que ela conhece como a única alternativa para fugir de um destino que promete ser repleto de violência masculina e silenciamento. Mal sabe ela que a realidade das mulheres na superfície está bem longe do ideal.

A autora dessa releitura trabalha a jornada da Pequena Sereia no mundo humano como um processo de descoberta de si, do que é amor e do que é a realidade das mulheres nos mares e na terra. A lição que fica para o leitor é de que a libertação que a personagem tanto buscava não pode ser encontrada no despertar do amor de um homem.

Essa visão da Pequena Sereia sobre as alternativas e caminhos possíveis evidencia o quanto a feminilidade que nos é ensinada, seja na terra ou no mar profundo, é ligada ao casamento e a busca do amor. A identidade feminina é construída para ser complementada por alguém, por isso Gaia e muitas mulheres do mundo real buscam o despertar do amor de um homem como uma solução para todos os seus problemas, caminho que acaba se tornando uma nova prisão.

A descoberta do Outro

A trajetória da Pequena Sereia até o mundo humano também envolve descobertas sobre o fundo do mar. Ela vê parte excluída do reino de seu pai, conhece pessoalmente Ceto, a famigerada Bruxa do Mar, e é obrigada a lidar com as Rusalkas, jovens humanas que se afogaram e se transformaram em uma espécie de sereia que foge desse padrão de feminilidade que ela representa. São essas sereias de origem humana que seu pai e seu prometido marido querem exterminar.

A conversa dela com a Bruxa do Mar é um dos pontos mais interessantes do livro. Nesse momento, Gaia descobre uma história silenciada, uma sereia livre e a possibilidade de ser diferente sem ser necessariamente uma vilã clássica. Ela teme o que Ceto pode fazer contra ela por conta de tudo que sempre ouviu, mas é ali que ela começa a sentir um pouco de liberdade e ouve alguns conselhos que ela prefere ignorar.

Nesse encontro, a sereia, colocada como vilã para o povo sirênico, diz que quem a chama de bruxa é o Rei dos Mares, pai da protagonista, e que bruxa é simplesmente um termo que os homens dão às mulheres que não têm medo deles, às mulheres que se recusam à submissão.

A mensagem da nova Pequena Sereia

Com essa releitura, Louise O’neill conseguiu transformar uma história problemática em um livro que toca pessoas de todas as idades, especialmente mulheres jovens. Ela aborda aspectos do machismo, incluindo a violência masculina e o padrão de beleza, de forma questionadora e expõe o quanto certas práticas e comportamentos são nocivos, apesar de serem naturalizados.

O processo de descoberta da protagonista carrega como ensinamento a importância de lutar para se viver com liberdade e autonomia e nos ensina que devemos tentar fazer nossa voz ser ouvida. Ela pode ser bem mais poderosa do que imaginamos, especialmente quando ela é fortalecida por outras mulheres.


Tradutora da obra: Fernanda Lizardo.


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Publicado por

Thaís Campolina

O que falta em tamanho sobra em atrevimento. Isso foi dito sobre um galinho garnisé numa revista Globo Rural dos anos 80, mas também serve pra mim.

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