O corpo dela e outras farras: a misoginia em evidência

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Carmen Maria Machado, em seu livro “O corpo dela e outras farras”, usa a linguagem, a quebra de fronteiras entre gêneros literários e a potência política de se abordar o corpo feminino em oito contos narrados por elas. Ao menos na edição brasileira feita pela Planeta, na página que antecede cada um deles, há a imagem de um corpo feminino marcado em segmentos como se fosse carne de açougue, deixando claro que o fio condutor entre as narrativas parte do tratamento que mulheres recebem pelo mundo a partir disso.

Por mais diferentes que as histórias sejam umas das outras, todas elas abordam o lado sombrio de ser mulher. A violência que permeia a existência feminina aparece, ainda que camuflada num cotidiano de naturalizações que implicam sempre em mais do que se vê num primeiro momento, como em “Ponto do Marido”, “Mulheres de Verdade Têm Corpos” e “Oito bocados”.

As dores e dilemas se fazem presentes, mas Carmen Maria Machado não trata o corpo somente dessa forma. Suas personagens gostam de sexo, sentem tesão e a maioria se atrai ou se relaciona com outras mulheres, o que é tratado com naturalidade pela obra. Essa abordagem, entretanto, não é usada para evitar tratar de como certos terrores femininos se relacionam também com o exercício da sexualidade e a vulnerabilidade que ela pode significar.

A inadequação e o sentimento de não pertencer também são temas retratados nos contos, ganhando destaque principalmente em “A residente” e “Oito bocados”. Nos demais, isso se apresenta de forma mais sutil, como uma maneira de expor que quando se é uma mulher e se vive sabendo que seu corpo é um alvo de controle é quase impossível se sentir inteiramente parte do mundo ou dona de si.

Chama atenção como a autora mistura maneiras de contar histórias e ainda assim o livro tenha tanta unidade. Há distopias, como em o “Inventário”. Há terror, gênero que se manifesta de certa forma em todas as histórias. Há uma quebra no realismo, que acontece principalmente em “Especialmente hediondas” e “Mulheres de verdade têm corpos”. Há mudanças de ritmo, como a adição do recuso da não linearidade, que dá ao que é narrado um ar quase delirante em “Mães” e até mesmo um toque de tom folclórico ou de fábula como no conto “O ponto do Marido”.

“O corpo dela e outras farras” é chamado por muitos de “black mirror” feminista por abordar temáticas sociais de grande importância de uma forma moderna, ousada e que nos faz pensar sobre presente e futuro. O grande trunfo de Carmen é, provavelmente, conseguir abordar questões políticas e delicadas sem cair no erro de explicar demais os significados daquilo, enquanto mexe com as fronteiras entre realismo, fantasia e horror. A autora não tem medo de tratar de temas relacionados com opressões e faz isso muito bem.


Carmen Maria Machado participará da 17ª edição da Flip nesse sábado, dia 13 de julho, às 17h, num bate-papo com Jarid Arraes, no Auditório da Matriz. Também em Paraty e na mesma data, mas às 20 hs, vai rolar outra mesa com ela na Casa Libre & Sta. Rita de Cássia.

Na terça, dia 16/07, às 19:30, vai acontecer, dessa vez em São Paulo no Sesc da Avenida Paulista, uma outra conversa que contará com a presença da autora.


Tradutor do livro: Gabriel Oliva Brum.


Observação: As histórias que compõem o livro atraíram os olhares do mundo do entretenimento e ele será adaptado para TV pelo canal FX. O projeto ainda é bem inicial, mas promete.


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Publicado por

Thaís Campolina

O que falta em tamanho sobra em atrevimento. Isso foi dito sobre um galinho garnisé numa revista Globo Rural dos anos 80, mas também serve pra mim.

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