“A obscena Senhora D”: aprendendo a olhar para o desconhecido

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“Leia Hilda” diz um pixo famoso que surgiu em alguma cidade que não é a minha nas proximidades da Flip que homenageou a autora em 2018. Apesar de não gostar nem um pouco de obedecer, demorei um pouco, mas assim o fiz. Demorei, demorei mesmo, tudo porque a fama de hermética me atrai e me repele. Quero conhecer, me causa curiosidade, mas eu temo não ser capaz de entender e me sentir um fracasso completo por isso. A gente tem disso, né? Não só morremos de medo de não saber, não conhecer, descobrir que existe um mundo desconhecido por nós, mas também tememos não sermos capazes de perceber que tem algo a um palmo da cara e nem sabemos. A gente quer saber, mas também não quer. Então, acabemos pensando pouco sobre certos assuntos para não termos que admitir nossa ignorância, seguindo sempre com medo do desconhecido.

Hillé não. A Senhora D pensa sobre tudo isso. Ela é uma investigadora, não de crimes ou pessoas, mas do sentido da vida, da mortalidade, de deus, alma e todas essas palavras abstratas demais. Hillé quer conhecer o desconhecido, investigá-lo profundamente, falar com deus. Hillé quer ultrapassar as barreiras entre os vivos e os mortos, ela quer saber. Ela é uma perguntadora, logo uma pessoa que blasfema. E como blasfema.

Em “A obscena Senhora D”, tempo e espaço se misturam. Hillé, em luto, fala com seus mortos no hoje, no agora, mas também volta ao passado. A perseguição da personagem pelo desconhecido é tanta que ela já não vive tanto o presente como a maioria das pessoas. Ehud, seu último morto, era quem a prendia nesse mundo. O livro acontece com a personagem vivendo entre os limites do conhecido e desconhecido. Desse lugar, ela pode circular no tempo, tudo se mistura, e ela nos faz refletir bastante sobre loucura, morte, sociedade e quem de fato somos, corpo, nome, pessoa, uma ou fragmentada.

Dizem que esse livro é a obra mais autobiográfica da autora. Há uma menção à Casa do Sol, Hillé dialoga com o pai morto sobre loucura, sendo que o pai de Hilda sofreu por anos com a esquizofrenia, Senhora D, de derrelição, fala da amizade com a Senhora L, que parece ser a Lygia Fagundes Telles, Hillé conversa e, principalmente, pergunta aos mortos, como Hilda de fato fez como experimento.

Como escritora, Hilda parece sempre estar pronta para perseguir o desconhecido, questionar o divino, profanar figuras. Nós, como leitores dela, precisamos fazer um esforço interpretativo para entender com quem a protagonista de sua obra fala, do que fala, como fala. Talvez a sensação de entender tão pouco aconteça justamente porque não é para entender tudo mesmo, porque o que importa é a busca, a perseguição, os questionamentos, não as respostas, porque não há respostas.

Ler Hilda é como mergulhar numa fossa abissal. Você nada no escuro, mas sabe que ao seu redor está cheio de vida. Hilda domina tanto as palavras que sabe até fazer com que o leitor perca o sentido delas. Ela consegue tornar até mesmo o conhecido um pouco mais desconhecido.


Observações:

  • Minha aventura exploratória pelo universo desconhecido das obras de Hilda Hilst mal começou. “Júbilo, memória, noviciado da paixão” será minha próxima leitura dela.
  • Minha primeira vez com a autora foi acompanhada. O livro “A obscena Senhora D” foi lido no Leia Mulheres Divinópolis de junho/20. A partir dessa experiência, posso dizer que esse é um ótimo livro para leitura coletiva, porque ler pensando que você vai debater ajuda a gente a formular até o nosso próprio não entendimento.
  • O posfácio da edição mais recente do livro pela Companhia das Letras é muito bom. Quando você termina a obra e se sente perdido, com mais perguntas do que imaginava ter, você encontra um afago ali. Um “é assim mesmo” que confirma um tanto de coisa que você pensou, sem deixar de acrescentar informações fruto de pesquisa e debate.

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Publicado por

Thaís Campolina

O que falta em tamanho sobra em atrevimento. Isso foi dito sobre um galinho garnisé numa revista Globo Rural dos anos 80, mas também serve pra mim.

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