Uma carta para Maria Luísa, a gorda

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Nunca vi seu rosto, Maria Luísa, mas te conheci através de um livro da portuguesa Isabela Figueiredo. Por isso sei sobre seus pais, sua relação com David, sua amizade com Tonya, suas boas notas durante a escola, e também sobre seus peitos, sua barriga, suas dobras e seus desejos.

Posso dizer até que conheço sua casa sem nunca ter pisado nela. Sei, por exemplo, das plantas e móveis que sua mãe trouxe com ela de Moçambique e da sala de jantar que permanece fechada à espera de visitas.

Por tudo isso, sinto que somos íntimas, Maria Luísa. Conheço até mesmo suas contradições e pensamentos secretos, mas você não sabe nem meu nome. É estranho, tenho que confessar. Acho que preciso apresentar eu e meu corpo para você.

Sou Thaís e só fui gorda no único período de tempo em que ser assim é considerado bom em nossa cultura. Dizem que fui um bebê rechonchudo, com dobrinhas nas pernas que davam vontade de morder.

Desse tempo até agora, aos 28 anos anos, cresci muito pouco. Fiquei pequena, bem pequena mesmo, e tenho um corpo magro, mas não bonito o suficiente para os padrões, e ouço dos outros que não posso engordar, às vezes até que preciso emagrecer. Não como você ouviu durante toda a vida, claro. Sei que é muito diferente. No meu caso, eles falam de gordura, peso, curvas como um alerta, uma ameaça. Eles me mostram mulheres como você e dizem “você não quer ficar assim, quer?”.

Não falo isso por mal, Maria Luísa. Li a história do seu corpo e toda sua relação com ele e por isso sei que esse é o lugar que a sociedade insistiu em te colocar por tantos anos. Quero te mostrar que te entendi, que acompanhei sua dor página por página e que por causa de suas palavras conheci melhor o que significa ser gorda nesse mundo. É algo muito além da pressão para estar dentro do padrão de beleza. Eu até sabia disso antes, mas agora sei mais.

Para a maioria das pessoas, antes de você ser Maria Luísa, mulher, professora, ou qualquer outra coisa, você é gorda. Nesse mundo nosso, o corpo, especialmente o feminino, é um cartão de visitas. Por isso, ele se torna sua identidade perante os outros, quer você queira ou não, e a troça que fizeram de você fez você entender, logo bem cedo, que certos tipos físicos são vistos como errados e chegam até a afastar as pessoas. Sinto muito por isso. Durante a leitura de “A gorda”, obra em que você é a narradora-personagem, percebi as marcas e a dor que você carrega por conta da exclusão e da ameaça de solidão que sempre te acompanhou.

Nas páginas que me debrucei nos últimos dias, eu conheci uma mulher inteligente, interessante, que escreve, que se coloca, que ama cães, que cuida, que odeia, que sente, sente muito e tudo intensamente. Mergulhei em memórias e pensamentos e assim conheci uma personagem humana, marcante, que vive dilemas familiares, amorosos e profissionais que, pela via da empatia ou da identificação, cabem na vida de muitos nós.

Nunca vou esquecer suas palavras. Conheci muito de mim e do mundo ao me dedicar a ler a sua história. Obrigada por ter aberto a porta de sua casa para mim e para todos que pegam esse livro de capa avermelhada.

Atenciosamente,

Thaís


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As garotas mortas de ontem e de hoje

Garotas mortas, Selva Almada. Acervo pessoal. Adquira seu exemplar aqui.

Peguei o livro “Garotas Mortas” e fui para a varanda da casa dos meus pais aproveitar o sol de inverno. Me sentei na sombra com os pés já sem meia e me posicionei para que eles pudessem se esquentar numa nesga de sol, ignorando completamente o diagnóstico de alergia à luz solar que carrego comigo desde a minha última visita ao médico.

Antes de começar a ler de fato, decidi aproveitar a grama e a luz da manhã e fazer uma foto do livro. Peguei um pano vermelho, minha bolsa e o pires com algumas rosquinhas que levei para petiscar durante a leitura e montei o cenário. Com a foto feita, voltei para o conforto de uma cadeira de plástico com almofadas improvisadas e iniciei a leitura. Só percebi que a foto tinha alguns elementos que lembram um altar horas depois.

Selva Almada introduz as histórias das três jovens mortas no interior da Argentina durante o final da década de 1980 através de memórias que partem da ocasião em que ouviu o assassinato de Andrea Danne ser noticiado na rádio. A jovem tinha 19 anos quando foi morta com uma punhalada no coração no quarto da casa em que dormia com sua família.

“Eu tinha treze anos e, naquela manhã, a notícia da garota morta me chegou com uma revelação”, Selva afirma, enquanto declara que foi esse caso que fez ela perceber que o horror podia viver sob o mesmo teto e que estar em casa não era uma garantia de proteção.

A partir desse ponto, ela tece uma rede que relaciona notícias de mulheres mortas e histórias de jovens violentadas com suas lembranças e reflexões sobre. Nessa teia, surge María Luisa Quevedo, que tinha 15 anos quando desapareceu e teve seu corpo encontrado dias depois com indícios de violência sexual e estrangulamento, e Sarita Mundín, que sumiu aos 20 anos e quase um ano depois encontram restos mortais que foram considerados dela.

Ao investigar as histórias de Andrea, María Luisa e Sarita, a autora nos apresenta outros casos e um pouco sobre as cidades em que os crimes aconteceram, o contexto histórico do país, como foi a cobertura midiática e a visão da cidade sobre os crimes numa investigação que é contada em um formato que foge bastante do jornalístico, apesar do flerte com o formato. No fim, o entrelace de tudo que é apresentado é a presença da misoginia.

A história das garotas mortas são próximas, comuns, e repletas de situações que muitas mulheres vivem ou já viveram, especialmente aquelas que vivem em condições mais vulneráveis. A naturalização de certos comportamentos que envolvem machismo é exposta e a impunidade dos crimes é escancarada.

A rede de incidentes que Selva monta na obra se complementa com os crimes motivados por misoginia que são lembrados pelo leitor. No meu caso, enquanto leitora e mulher, também somei a essa fórmula o meu medo.

Uma das memórias que surgiram durante a leitura envolve um caso que aconteceu em meados de 2010, mais de 20 anos após os crimes tratados pela obra. Apesar do tempo que separa esses eventos, ambos se relacionam por serem feminicídios.

Eu fazia estágio numa vara cívil no fórum da minha cidade natal, um município de 200 mil habitantes, e uma mulher foi assassinada pelo ex-namorado no prédio em frente. Da janela, eu vi a polícia correr atrás de um homem sem imaginar qual crime tinha sido cometido. Depois, acompanhei o caso ser tratado como crime passional e alguns dizerem que o homem que desferiu nove facadas contra uma mulher o fez somente por ter usado drogas no dia.

Nessa época, poucos relacionavam crimes como esse ao machismo. A nomenclatura feminicídio já era conhecida por mim, mas não era utilizada pela mídia. Crime passional era a expressão empregada, enquanto as pessoas fofocavam sobre o que a moça fez de errado para ter esse fim.

O feminicida alegou como defesa o uso de drogas e o fato de que a ex-namorada tinha amigos sexuais e eu lembro de ouvir pessoas chocadas com o crime reagirem ao que ele alegava com um “mas também, hein? Isso é comportamento de mulher?”. Ele foi julgado, preso e recebeu uma pena alta, mas como em vários outros crimes contra mulheres, a revolta da população com a violência vinha acompanhada de poréns.

“Garotas mortas” é uma obra que provoca o leitor com uma narrativa curta, brutal e realista. Após a última página, a gente sente na boca um amargor por saber que a denúncia que Selva faz ainda é muito atual apesar de tratar de crimes que aconteceram há mais de trinta anos. Essa sensação é acompanhada da certeza de que é preciso desenterrar essas histórias e contá-las de forma que se exponha toda a misoginia que molda nossa sociedade.

Mulheres morrem por serem mulheres no interior da Argentina nos anos 80 e também hoje aqui no Brasil. De norte a sul, elas são mortas, estupradas, maltratadas, enquanto muitos ainda negam a influência do machismo nesses crimes e o quão sistêmica essas violências são. As denúncias precisam continuar até que, enfim, a realidade seja outra.

A pergunta que fica é: quais desaparecimentos importam?


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