Peripécias cotidianas olhadas com uma lupa

Elena Kalis — Underwater Fairytale

Da rodoviária de Montevidéu, peguei um táxi para meu destino. O motorista era um senhor idoso bem vestido, apesar das peças de roupa aparentarem serem bem antigas, assim como seu carro. Com as malas guardadas e o endereço informado, seguimos.

Assim que o veículo ligou, o aparelho de som começou a tocar “Sabe tchururuuuuu estou louco pra te veeeeeer, oh yessss, sabe tchururuuuuu entre nós dois um querer, eie…”

Entre os “tchururu”, os “olha eu te amoooo e quero tantoooooo beijar teu corpo nuuuu” e a informação prévia de que vivemos uma crise em nossa republiqueta, percebi como o Brasil anos 90 ainda vive até mesmo fora do país.


Quando eu era bem criança, minha mãe me disse que íamos para Belo Horizonte conhecer a Mônica. Esperei essa viagem com toda a ansiedade infantil que conhecer um ídolo pode causar. Chegando lá, descobri que Mônica, prima da minha mãe, não era a personagem dos gibis e sim uma mulher bem alta.

A decepção foi óbvia, mas a surpresa com o tamanho foi maior: “Nuh, que Monicão!”, eu falei.


Os pontos de ônibus das cidades servem como ambientação de diversas histórias. Na Curitiba, entre Augusto de Lima e Guajajaras, eu vi histórias de amores passageiros começarem com trocas de olhares apaixonados e terminarem com um dos amantes entrando no ônibus antes de qualquer “oi”. Parada ali, esperando o ônibus passar, também fiquei sabendo de roubos que rolaram no dia anterior e, com a contribuição de dois reais, fiz parte do momento em que um homem, em situação de rua, conseguiu adquirir um radinho para o grupo que fazia parte.

Uma vez, esperando ônibus às 06:40 da manhã nesse mesmo ponto, vi o amarelinho se aproximar vazio para o horário. Acenei, ele diminuiu a velocidade e passou por mim bem lentamente. O motorista me encarou, olhou no fundo dos meus olhos e acelerou. Diante desse sadismo cotidiano, o que pude fazer foi rir enquanto anotava a placa do veículo para fazer a denúncia mais tarde. Também sei ser sacana e transformar situações comuns em histórias de vingança


Muitos romances, filmes e até mesmo as novelas que passam na TV nos sugerem que a vida é feita de grandes emoções e momentos grandiosos. A verdade é que, na maioria das vezes, a maior emoção da semana é encontrar a cozinha e a área alagadas porque o cano da máquina de lavar saiu do lugar.


Nasceu uma afta na pontinha da minha língua e o meu medo agora é dar com a língua nos dentes.


Abri os olhos com preguiça essa manhã. A noite foi difícil. Acordei várias vezes durante a madrugada e, numa delas, descobri que fui servida como prato principal para um grupo bem numeroso de pernilongos famintos.

O despertador tocou novamente. Levantei relutante e fui ao banheiro. Ao me olhar no espelho, acabei me achando bem parecida com o Luan Santana. Com estranhamento, percebi que minha transformação no cantor sertanejo estaria completa se eu fizesse um coque desses que os caras estão usando e quase ri quando notei que meu cabelo está no comprimento ideal para isso. “Estou virando um galã feio!”, pensei enquanto encarava incrédula minha nova imagem.

A estranheza do momento passou quando cocei os olhos, embaçados pelo sono e pela miopia, e me percebi sem óculos.


Resfriada, cocei os olhos. Seria algo comum se eu não estivesse com o dedo sujo de molho de pimenta. O nome do molho? Brasinha.


Meu corretor troca Bolsonaro por Bolasterona sem eu nunca ter escrito isso na vida e eu fico rindo porque esse é o nome de um anabolizante descrito no google como uma droga ineficaz, muito perigosa e que deve ser evitada.


— Que barulho é esse, Thaís? Você ouviu?
— É jumento.
— Mas o som tá vindo aqui do banheiro!
— Ah, é jumento mesmo. Deve tá lá fora.

(Segundos depois, a gente descobriu que era a torneira da pia do banheiro e eu ri ainda mais porque o Lucas falou “tá vendo? Não era um jegue”)


Minha mãe acabou de me ligar para me contar que ela e o Billy, nosso doguinho, foram entrevistados quando faziam caminhada.

Minha mãe disse que perguntaram se eles faziam exercício sempre e ela respondeu que andam juntos todos os dias.

Reagi:
— Uai, o Billy não latiu nada não? Deixou você falar por ele? Não me parece muito do feitio dele isso não, hein?
E ela respondeu:
— Fora de casa ele é tímido.


Sábado vivi uma cena que caberia perfeitamente em um desses seriados de comédia que explora os pequenos absurdos do cotidiano como fonte de humor.

Um pouco antes de sair para comer canjica, dançar forró e curtir amigos, liberei o Billy, cão da minha família, para brincar um pouco na varanda. Enquanto ele mijava, cheirava tudo, corria e conferia se não tinha nenhuma lagartixa para caçar, fui me arrumar para a festa junina que me esperava.

Minutos depois, quando eu já estava com o rosto corado de blush, com minhas sardas falsas feitas, meu chapéu de palha com babadinho branco na ponta posicionado, meu cabelo em maria chiquinha na cabeça e vestido xadrez no corpo, corri para a varanda após ouvir o Billy, que é uma mistura de pinscher com chihuahua, logo muito barulhento e estridente, latir enlouquecidamente.

Ali me deparei com um cão, todo branquinho, peludinho, escovadinho e usando uma gravatinha xadrez fofíssima, rosnando, latindo e pulando na grade contra o Billy e Billy, tão bonitinho quanto, mas com certeza menos limpo, latindo de volta todo feroz. Antes de perceber o ridículo da situação, me envolvi nela e passei a correr, toda fantasiada, atrás do Billy mandando ele entrar logo em casa.

Todos estávamos muito irritados, inclusive eu pedindo silêncio. Todos estávamos muito pequenos, como sempre, e especialmente fofos, inclusive eu, que ralhava e perseguia o Billy que corria para onde cão felpudo com gravata ia.

A cena deve ter sido magnífica para os desavisados que passavam na porta curiosos com aquela barulhada.


O interfone tocou, eu atendi e o seguinte diálogo aconteceu:
— Quem é?
— Lucas?
— É você, amor?
— Uber Eats para o Lucas. (som de risadinha abafada)
— Ok. Tô indo pegar para ele. (som de constrangimento disfarçado)

Eu sou muito boa em passar vergonha, né?


Um dos meus erros preferidos de digitação e fala é chamar a tetralogia napolitana da Elena Ferrante de tretalogia.


Segundo minha mi band, hoje eu dormi melhor que 99% dos usuários. Venci a corrida de melhor dorminhoca do mundo.


Acordei com um estouro. Um gato jogou uma garrafa de Mate Couro no outro. A primeira coisa que fiz no dia foi tacar shampoo de banho a seco em um gato encharcado de refrigerante.

Tagore completamente ensopado de refrigerante ainda tentou fugir para debaixo da cama quando viu que queríamos pegá-lo. Paramos o bicho já quase em baixo do edredon. Agora ele se lambe todo, enquanto Adelaide nos observa de longe com uma expressão que diz “o que foi que eu fiz?”. Ela sabe que a situação foi criada por suas próprias patas.


Achei que tinha um vizinho distante cantando ópera na janela, mas é só uma Live do Bocelli em alto e bom som aqui do lado mesmo.


Minha mãe acabou de me mandar pelo WhatsApp um vídeo da minha vó. Pela data e pelas envolvidas, pensei que ia vir uma mensagem religiosa junto com palavras de conforto e saudade, mas no lugar veio um feliz Páscoa que uniu abraços virtuais para todos com um vídeo de recebidos de chocolate.


Decidi que vou fazer tai chi chuan, para a alegria do meu pai que defende a prática mais do que tudo, simplesmente porque ele me mandou um vídeo chamado “perfumado” que ensina movimentos com nomes maravilhosos como “dragão abana a cauda”.

VOU ABANAR MINHA CAUDA DEMAIS HOJE, AMIGUES

e não é dançando funk, é fazendo um movimento muito lento, muito lento mesmo, com os braços


Minhas habilidades na cozinha são bem na média: dá pra passar de ano, mas vez ou outra sou aterrorizada pela possibilidade de recuperação.


Tem hora que acho que estou sendo a própria Feiticeira com sua clássica mexidinha no nariz e na verdade eu estou é fazendo careta e explorando todos os limites dos meus músculos faciais. Tudo para tentar não me encostar. A rinite não dá trégua nem em tempo de pandemia.


Toda hora que lavo as minhas mãos, canto mentalmente “Dorime” em ritmo de forró, acabo dando uma dançadinha e me sinto vivendo num filtro de stories do Instagram e não no meio de uma pandemia.


A sinfonia da chuva tem vários sons característicos que todo mundo adora lembrar na hora de escrever ou contar caso, entre eles, o que tem mais cara de crônica é a barulhada de todo mundo correndo para fechar as janelas o mais rápido possível.

Ouso dizer que a movimentação humana para tirar roupa do varal, fechar as janelas rapidamente e outras atividades correlatas que unem chuva, urgência e cotidiano conseguem chamar mais atenção do que o barulho dos animais da vizinhança. E olha que pet tem carisma.


A crise na construção civil pode ser facilmente resolvida comigo fazendo uma tour pelo país. Se eu preciso de silêncio, todos ao meu redor conspiram para fazer uma reforma.


Todas as minhas histórias de terror terminam comigo descobrindo mais uma vez que aqueles sons estranhos que pareciam gemidos ou sussurros vinham da geladeira.

(Infelizmente a geladeira da casa dos meus pais, a grande protagonista dessas histórias, foi vendida e agora temos uma geladeira estranhamente silenciosa que acaba sendo mais assustadora que a barulhenta. A gente se acostuma com tudo mesmo, né?)


Acabei de ver uma mulher mais velha bem séria usando roupas “de adulta” saindo do trabalho, mas na blusa estava escrito “quebre as regras” em inglês e agora não consigo parar de imaginá-la obrigada a fazer um curso de compliance por causa dos comportamentos que ela incentiva talvez sem saber.


Eu adoro que a função real do vigia da padaria que frequento é a de acariciador de cães dos clientes.

Enquanto as pessoas compram pão e lanches, ele mima os pets.


Tenho me sentido um enorme clichê. Meu bloco de notas do celular está repleto de poemas sobre o fim do mundo e a minha cabeça não se cansa de produzir histórias de distopias que se passam no agora, agorinha.


Curte ler e ouvir “causos”? Então, confira meus textos “Janela indiscreta”, “O caso do homem explicador” , “Ainda bem que eu estava de botas” e “O brilho no olhar da mina que sempre vem comer coxinha”.

Todas as histórias postadas nesse texto foram publicadas originalmente na minha página do Facebook ao longo do tempo. Tenho copiado aqui histórias muito mais recentes do que a data da publicação desse texto. Se você gostou, me acompanhe também no Facebook, Twitter e Instagram.

Publicado por

Thaís Campolina

O que falta em tamanho sobra em atrevimento. Isso foi dito sobre um galinho garnisé numa revista Globo Rural dos anos 80, mas também serve pra mim.

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