Metrópole

Se sua agenda parece impossível de ser cumprida, você não tem ideia de como é o planner da Metrópole

Nova York pelo desenho do artista holandês Stefan Bleekrode — Saiba mais sobre ele aqui.

Sempre chego nas aulas de yoga mais cedo às quartas-feiras. O trânsito descomplicado, a velocidade do ônibus, a hora que saio do trabalho, o elevador já me esperando no andar, e todo o resto confluem para que eu consiga um tempo para respirar, bem no meio da semana. Toda coincidência parece mágica, mas uma que envolve tantos fatores só pode ser coisa do demo ou dos deuses.

Fui criada em lar católico, então nem de brincadeira consigo nomear esses 20 minutos sagrados de adiantamento de hora do diabo, como meus amigos adoram fazer. Apesar disso, gosto de cometer várias heresias, como falar de astrologia, entoar mantras e dizer que descobri a deusa Metrópole quando a dádiva da quarta-feira surgiu em minha vida.

Toda vez que o ônibus chega na hora exata, a Metrópole mexeu os pauzinhos para isso. Quando o despertador não toca e mesmo assim você acorda na hora certa, pode ser seu relógio biológico ou ela fazendo seu trabalho. Sabe quando você faz um caminho, diferente ou não, bem no horário de pico e não há muito trânsito? Não foi o waze, app nenhum te dá essa sorte toda. Se caiu um toró assim que você chegou em casa, a Metrópole te queria seco. O acaso cotidiano é presente dela. Ela é a deusa dos pequenos e raros milagres diários das grandes cidades. Pena que é uma só.

Se sua agenda parece impossível de ser cumprida, você não tem ideia de como é o planner da Metrópole. Só a parte de Belo Horizonte consta 1,433 milhão de linhas, uma para cada pessoinha que mora aqui de acordo com o censo de 2010.

Metrópole não trabalha com um destino definido ao nascer. Seus estagiários observam as pessoas, notam as possibilidades de encontros e desencontros e fazem relatórios que são repassados para a chefia, ela. Com as informações reunidas, ela faz mágica com o que tem no dia e só. Todos os funcionários estão sobrecarregados. É por isso que parece que ela se esquece da gente às vezes e há dias tão melhores que outros.

Quando sento na sala de espera da yoga, penso na Metrópole, seus estagiários e em todo o caos que ela governa. Sempre me pergunto se a deusa do cotidiano tem alguma folga, alguma noite em que pode sentar com seus gatos e tomar vinho enquanto lê um livro. Provavelmente não, já que está aqui e também em Tóquio, em Buenos Aires, Londres e Lagos.

De repente, eu nem me lembro mais dela e vou ler revista de fofoca, escrever umas baboseiras no caderninho que anda comigo, comer a trufa que comprei na hora do almoço e imaginar a vida de alguém que vi passar pela porta.

Quando percebo, o tempo acabou mais uma vez. São só vinte minutinhos.


Esse texto foi originalmente publicado na newsletter “Crônicas da Vida Alheia”, projeto que eu tinha com a Ana Squilanti. Agora eu tenho uma newsletter só minha. Se interessou? Clique aqui e assine.


Esta crônica foi publicada na iniciativa Mulheres que escrevem. Somos um projeto voltado para a escrita das mulheres, que visa debater não só questões da escrita, como visibilidade, abrir novos diálogos entre nós e criar um espaço seguro de conversa sobre os dilemas de sermos escritoras.

Publicado por

Thaís Campolina

O que falta em tamanho sobra em atrevimento. Isso foi dito sobre um galinho garnisé numa revista Globo Rural dos anos 80, mas também serve pra mim.

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