Mulheres, poesia e a internet

Foto arquivo pessoal — A capa e as ilustrações do interior do livro foram feitas pela Laura Athayde — Adquira seu exemplar aqui.

se enganam os que não sabem
que a literatura também é uma arma

a mais carregada
a mais poderosa
tanto que os livros que um dia foram incendiados
ficaram — Ryane Leão

Seja na literatura ou nas artes plásticas, as mulheres nunca foram vistas como criadoras. Por séculos, fomos vistas ou como musas inspiradoras ou como mero suporte doméstico. Algumas poucas conseguiram o feito incrível de não serem apagadas na vida e na história e seus nomes são exceções em meio a tantos homens. Entre elas, Wang Zhenyi, uma erudita chinesa que nasceu em 1768 e escreveu poesias sobre injustiças, textos sobre trigonometria e explicações sobre eclipses, e a poeta e filósofa Christine de Pizan, italiana que nasceu 1363 e chamou atenção dos mecenas. Em seus escritos, Christine de Pizan teceu duras críticas ao machismo presente na literatura e defendeu a educação para as mulheres.

Por muito tempo, as mulheres fizeram parte da arte e da literatura através das gretinhas das portas e janelas da grande sala do cânone. Vez ou outra, uma conseguia passar por esses espaços minúsculos e adentrava na sala, sem, entretanto, ser vista como igual ao restante. Em pleno século XXI, a lógica masculina e branca segue em vigor. As gretas aumentaram de tamanho, mas ainda são apenas gretas. Nem mulheres e nem homens não brancos entram pela porta da frente, eles ainda precisam se espremer para conseguir passar pelos buracos e, enfim, entrar. Vez ou outra uma mulher branca consegue adentrar pulando a janela que alguém esqueceu aberta e logo tratam de dar um jeito de fechá-la pra ninguém mais conseguir invadir.

Recentemente, bem ao lado da grande sala do cânone, surgiu um outro espaço: a internet. Bem mais fácil que entrar que a salinha, as redes se tornaram uma maneira de expor trabalhos e conhecer novos artistas e escritores e hoje vivemos um momento de efervescência de mulheres que escrevem, principalmente poesia. Quem só entrava na salinha com sorte, esforço e através das frestas, começou a construir um novo espaço.

Rupi Kaur, Nayyirah Waheed, Ryane Leão e outras encontram nas redes sociais um público que buscava algo como o que elas fazem. Uma poesia certeira, apesar de curta, que fala sobre o que toca. Todas elas abordam questões que antes eram silenciadas de acordo com suas vivências e inspirações. A gente vive um momento na literatura que encoraja mulheres a dividirem o que sentem, pensam e passam. Uma onda de mulheres que se fortalecem na escrita e na voz umas das outras.


você me matou
mas não conseguiu
arrancar do meu peito
a minha vontade louca
de renascer — Ryane Leão

Com Tudo nela brilha e queima” nas mãos, percebi já na orelha que muitas poesias de Ryane Leão já eram grandes conhecidas minhas. Parte da minha timeline lê, compartilha, curte e comenta o trabalho da autora da página “Onde jazz meu coração”.

“Poemas de luta e amor” é o subtítulo do livro. Essa frase traduz muito da nossa época. A internet fez o feminismo e temas como relacionamento abusivo, cultura do estupro e autoestima feminina virarem assuntos comuns em conversas de mulheres. As poesias da autora são um convite para que a gente olhe para nós mesmas e servem como um guia para muitas conseguirem enxergar e nomear as dores causadas pelo machismo e até pelo racismo nas experiências atuais e do passado. Além disso, Ryane Leão, sendo lésbica, também conversa, ainda que muitas vezes de forma indireta, sobre essa temática, mostrando que luta e amor são questões que precisam ser levantadas por vieses não heterossexuais.

Os relacionamentos afetivos ainda são para muitas mulheres um espaço em que a violência, a discriminação e o preconceito passam batido por causa da naturalização. Fomos ensinadas que precisamos de um homem ao nosso lado, que nosso valor está no homem que conseguimos agarrar e que a gente precisa aceitar certas coisas para não ficarmos sozinhas. Ryane escreve contra essa naturalização e suas linhas servem como lembretes da importância da autoestima e da autonomia. Ela fala de amor e paixão, mas lembra seus leitores que o amor próprio também é algo a ser buscado.

A estrutura da poesia de Ryane é bem simples, o que pode incomodar os mais puristas, mas o que chama a atenção mesmo é a mensagem dela para as mulheres, especialmente as negras. Ela fala em ancestralidade, identidade, autocuidado, força, voz e empoderamento. Ela acredita na potência das leitoras mesmo sem conhecê-las e o sucesso do que ela escreve mostra que isso pode ser algo revolucionário para quem lê.

quando
me toco
descubro
minhas margens
desconstruo
minhas normas
desnudo meus
contornos

são meus dedos
fazendo a poesia
que leva meu nome
no título. — Ryane Leão


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Publicado por

Thaís Campolina

O que falta em tamanho sobra em atrevimento. Isso foi dito sobre um galinho garnisé numa revista Globo Rural dos anos 80, mas também serve pra mim.

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