“A Número Um” e os obstáculos do machismo

Cena do filme “A número um” / Foto: Divulgação

Um fantasma que ronda todas as mulheres é o de saber que qualquer erro cometido será colocado na conta de seu gênero. O erro de uma pesa para todas, mas essa lógica não se repete para as vitórias. O sucesso de uma mulher ainda é só dela, apesar de abrir caminho para as próximas que passam a acreditar que aquilo pode ser possível. A sociedade não vê a conquista de uma posição de comando por uma mulher como um sinal de que mulheres são capazes de ocupar um lugar antes reservado para homens.

Para uma mulher acessar um espaço de poder como a presidência de uma grande empresa, não basta que ela seja ótima, ela precisa ter uma trajetória impecável, ser excepcional e receber validação pública. Sucesso, liderança, poder e dinheiro ainda são vistos como espaços masculinos. Uma mulher em um espaço desses ainda é uma intrusa, alguém que tirou um homem dali.

“A Número Um”, filme dirigido pela francesa Tonie Marshall, conta a história de Emmanuelle Blachey, uma mulher de sucesso que busca ser a primeira mulher presidente de uma grande empresa. Aos olhos do machismo, ela já é uma intrometida e quer ser ainda mais. A ambição não cai bem para as mulheres, pensam eles.

Já na primeira cena do filme, vemos a protagonista receber uma mensagem de conteúdo sexual em tom agressivo. Já em outro momento, ela comenta com outra mulher que seu assediador desconhecido parece querer calá-la colocando o pênis em sua boca e essa é somente uma das críticas feitas na obra à misoginia vigente, principalmente no mundo corporativo.

A trama gira em torno da tensão que envolve a busca dela por esse cargo, os jogos de poder que o cerca e os silenciamentos, estereótipos e desumanização que perseguem ela e todas as outras. Enquanto os acontecimentos se desenrolam, o espectador descobre mais sobre Emmanuelle e percebe o peso de ser a única mulher no meio de tantos homens.

O filme é sobre o jogo de poder de sempre, mas com críticas ao fato de que as mulheres estão em desvantagem. A regra do jogo para as mulheres é que um erro vale para todas, os estereótipos também. E tudo isso vira arma para nos manter fora desse e de outros espaços. No Brasil, por exemplo, somente 10,5% do Congresso é feminino.

O poder tem gênero, tem cor e tem classe. A protagonista enfrenta o obstáculo do machismo. Toda sua vida é permeada por ele, do assédio aos sutis comentários que a rodeiam, mas é importante lembrar que os caminhos para uma presidência de uma grande empresa também podem ser atravessados pelos entraves do racismo e da pobreza.


Tonie Marshall foi a primeira mulher a receber o Prêmio César de Melhor Direção por sua comédia Instituto de Beleza Vênus e no filme “A Número Um” atuou na direção, roteiro e produção.

Assista o trailer:

Publicado por

Thaís Campolina

O que falta em tamanho sobra em atrevimento. Isso foi dito sobre um galinho garnisé numa revista Globo Rural dos anos 80, mas também serve pra mim.

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