Minha amiga tecnologia

Ilustração minha. Arquivo pessoal.

Você já leu Harry Potter? Você lembra do Arthur Weasley, o pai do Rony? Lembra do quanto ele era aficionado com as tecnologias trouxas? Eu sou como ele, só que não sou bruxa e as tecnologias que me fascinam são as mesmas que eu uso.

Cresci desmontando todo e qualquer objeto tecnológico que eu encontrasse e pudesse mexer sem causar um verdadeiro caos na minha família caso a remontagem falhasse. Sempre busquei saber como tudo funcionava: televisão, videocassete, calculadora, telefone, geladeira, etc. Já maiorzinha, passei a ir em bairros ricos procurar no lixo deles qualquer celular, Pense Bem, Gameboy, videogame, calculadora ou coisa parecida. O que fosse tecnológico e tivesse uma aparência de que é possível ser consertado ou aproveitado, eu levava para casa. Mexia em tudo, tentava arrumar o produto e, caso não desse, aproveitava as peças ainda úteis para minhas tentativas de criar coisas novas, como robozinhos.

Nem preciso dizer que meu amor por peças, montagens, ferramentas e invenções era algo visto como esquisito e fora do lugar, né? Segui a vida, fiz dois cursos técnicos relacionados ao meu hobbie e fui uma das únicas mulheres da sala nas duas vezes. Inicialmente, eu não consegui emprego na área, mas nas horas vagas continuei focada no que sempre me moveu.

Depois de dois anos vivendo de empregos temporários e vendendo doces e salgados junto com minha mãe, consegui uma entrevista de emprego por indicação de Juliana, amiga da época dos cursos técnicos. Na entrevista, a moça do RH me fez perguntas sobre minha formação, interesse na área, infância e eu contei minha história de encantamento com esse mundo e ressaltei que, mesmo não trabalhando na área, eu segui naquilo nas horas vagas.

Já fora da sala do RH e longe do chefe, a moça me contou que a Juliana tinha falado sobre mim. Comentou que quando foi na escola técnica anunciar a vaga, elas se conheceram e conversaram bastante. Como boa amiga, Ju tentou cavar uma entrevista para mim e conseguiu. No fim do papo, ouvi “por mim você é a escolhida, mas preciso conversar com o chefe antes de qualquer confirmação”. Agradeci e fui embora ansiosa.

No outro dia, recebi a ligação dizendo que era para eu começar segunda-feira. O salário era bacana, o horário era tranquilo, tinha ticket alimentação e vale transporte. Tudo ótimo. Assim que iniciei os trabalhos, me descobri realizada. Sabe a vaga dos sonhos? Eu achei a minha. Meu trabalho é pensar em novas tecnologias, criar protótipos delas e melhorar os produtos já existentes no mercado. Faço parte de uma equipe multidisciplinar de onze pessoas que é composta por gente com doutorado e por gente como eu, técnicos fãs do assunto. Todos os nossos projetos correm sob sigilo, então eu não posso dar muitos detalhes sobre o que faço por aqui, mas adianto que já fiz protótipos que lembram até mesmo o mundo dos Jetsons.

O 7º andar da empresa é todo nosso, temos uma sala enorme em que apresentamos ideias, fazemos reuniões e testamos novos modelos, uma sala de montagem básica, cheia de ferramentas, e também amplo acesso ao setor de peças e ferramentas oficial do prédio. Na maior parte do tempo, eu trabalho numa sala que divido com Fernanda. Lá temos uma mesa com quatro lugares, duas escrivaninhas, dois computadores de mesa, uma impressora maluca que imprime o que quer e quando quer, cadeiras super confortáveis e um pequeno armário.

Assim que entrei na equipe, eu e Fernanda nos aproximamos. Ela é mestre em engenharia robótica, super cabeçona, sabe? E adora fantasia, ficção científica, comida indiana e robôs. É claro que a gente ia ficar amiga uma hora. Nossa amizade faz com que a gente trabalhe muito bem juntas e, por isso, a gente optou por dividir uma sala. Tirando eu e Fernanda e o trio Marcos, Aline e Fábio, todos os outros preferem ter salas próprias.

Com poucos meses na empresa, fiquei sabendo que, todo ano, eles lançavam um processo seletivo próprio para escolher o técnico que ganharia uma bolsa na PUC no curso de sua área de trabalho. Era como se fosse um mini vestibular. Assim que fiquei sabendo, eu já comecei a estudar, porque eu precisava passar na PUC no curso escolhido e ganhar a bolsa concedida pela empresa. Por isso, passei a ficar depois do horário comercial, usando o computador do serviço para assistir às aulas do cursinho, porque o wifi de lá era bem melhor do que o que eu tinha em casa. Foi nessa época que eu percebi como a impressora era imprevisível. Uma coisa que ela sempre fazia era imprimir a resposta dos exercícios que eu estava fazendo sem eu pedir. Tentei arrumá-la várias vezes, chamei o pessoal especializado em informática para ver se tinha algo que eu tinha deixado passar, mas ela sempre voltava a fazer o que ela queria. Ela parecia ter vontade própria, sabe?

Fui aprovada no curso de Engenharia Eletrônica noturno. Queria Controle e Automação, mas não tinha esse curso na unidade. Fiz a prova da empresa e dias depois fiquei sabendo que passei. Fiquei feliz demais, finalmente eu ia poder fazer a graduação que esperei por anos. Iniciei o curso no início do ano e na primeira semana de provas, eu quase pirei para conciliar a entrega de um projeto com os estudos. Passei a comer na minha sala e aproveitar o horário do almoço para me preparar para as provas e fazer os trabalhos da faculdade. Fiquei muito estressada e fui aconselhada pela Fernanda a usar parte desse tempo do almoço para cuidar de mim. Ela sugeriu que eu escrevesse uma espécie de diário em que eu relataria tudo como se tivesse batendo papo com um terapeuta, já que ir em um não era uma possibilidade. Eu nunca fui num terapeuta e passei a escrever o que eu sentia, pensava e o que acontecia comigo como se eu tivesse conversando com o Hannibal Lecter, um personagem que é um psiquiatra canibal e a minha única referência sobre tratamentos psicológicos.

Eu digitava tudo que queria dizer no meu drive do email pessoal e deixava lá numa pasta chamada “Minha sitcon sombria”. Confesso que imaginar que Hannibal Lecter era meu terapeuta foi bem motivador no início, porque eu me divertia bastante contando minha vida enquanto criava uma história de ficção na minha cabeça. Acho que tenho o roteiro de uma ótima série pronto e nem me dei conta disso.

Escrever meu diário virou algo da minha rotina. Escrevia umas duas vezes por semana já tinha uns seis meses. Relatei ali as várias brigas com minha mãe porque ela sempre insiste que eu devia sair mais, desabafei que a Juliana estava chateada comigo porque eu faltei no aniversário do filho dela e nem liguei para perguntar como foi, comentei que meu irmão me chamou para sair e eu esqueci de responder no Whatsapp e ele discutiu comigo. Contei ali o quanto me sentia sozinha, sem tempo, triste e frustrada por magoar as pessoas próximas. Tudo muito pessoal. Por isso, eu tinha que ficar de olho na impressora, porque ela continuava imprimindo coisas sem o comando, inclusive páginas que pareciam ser trechos dos meus escritos íntimos.

Um dia, assim que eu abri um novo documento Google e digitei as primeiras palavras, uma impressão começou e saiu um papel dizendo “Oi Ivana”. Eu achei bem estranho e resolvi digitar “Oi máquina”, bem na zoeira. E de repente, ela imprimiu uma resposta que começava dizendo “eu achei que você nunca ia me responder, tenho tentado contato há tempos comentando seus desabafos”. E continuava com um texto em que ela dizia não se chamar máquina, me explicava que ela era uma impressora e revelava que seu nome era SCTY 14556. Tremi. Eu pensei que era um vírus, alguém invadindo meu computador, algum troll do meu setor que descobriu que eu fazia um diário, imaginei até que era uma punição de deus por eu não dar bola pra ele e que meu chefe achava ruim de eu usar o computador para outras coisas e resolveu me pregar uma peça. Pensei que era tudo, menos uma máquina conversando comigo.

Conferi firewall, antivírus, reiniciei o computador, troquei minhas senhas e fui fazendo tudo que a gente aprende nesses cursos de segurança na web. Enquanto seguia o script anti-hacker, eu pegava aqueles papéis que foram impressos para conferir se aquilo estava mesmo acontecendo e tentava distrair a Fernanda, que nessa altura já tinha voltado do horário de almoço e recomeçado a trabalhar. Ela viu que eu estava agitada e me perguntou o que era e eu respondi vagamente “você sabe como é, né? deu pau”.

Depois de três horas, me convenci que fiz tudo que era suficiente e mandei reiniciar mais uma vez. Antes mesmo do sistema iniciar, a impressora começou a engolir um papel para vomitar mais letrinhas. Tive taquicardia de ansiedade enquanto via a máquina funcionando. Ela imprimiu, em caps lock, negrito e fonte tamanho 96, a palavra CALMA e já puxou uma nova folha. Fernanda me viu encarando a impressora e comentou “Essa aí é temperamental, né?” e seguiu no seu trabalho. No desespero, peguei minha caneca e corri na máquina de café, escolhi capuccino e voltei tomando e já conferindo a impressora. Peguei a folha, vi que a máquina não tinha puxado mais nenhuma, desliguei-a para garantir que nada mais ia ser impresso e fui lê-la no banheiro.

SCTY 14556 escreveu um longo texto em letras bem miúdas, nele disse que as impressoras geralmente tem noção de que existem e que tem vontades, por isso todo mundo tem um caso de um impressora que funciona só quando ela quer, independente do preço e da modernidade tecnológica dela. Ela descobriu isso por causa das inúmeras pesquisas que eu fazia tentando consertá-la e também porque ela conhecia a sua própria percepção das coisas. Percepção que ela queria muito dividir comigo. Ela me contou tudo: do primeiro dia que ela sentiu o lampejo de que existia, como ela aprendeu a burlar o computador e imprimir as coisas sozinha e até mesmo quando ela começou a sentir uma enorme vontade de me responder.

Ela também confessou que me lia desde sempre, mas passou a prestar mais atenção quando comecei o diário. Relatou que de tanto me ler, começou a sentir algo estranho, que nunca tinha sentido antes. Ela descreveu o que nós humanos damos o nome de empatia. Desde esse dia, ela quis falar comigo que tudo ia ficar bem e começou a querer me contar sua própria história, já que ela conhecia tão bem a minha.

A máquina queria me contar que inicialmente imprimia só quando dava vontade, geralmente para mostrar que queria uma folga, estava cansada, queria paz ou que o cartucho de tinta estava perto de vencer. Entendi que muitas das folhas impressas que eu encontrei eram atos de rebeldia. Depois ela começou a usar sua tinta para me mostrar as respostas dos exercícios que eu fazia, já que eles estavam prontos ali no final da apostila. Ela não entendia o porquê de humanos perderem tempo fazendo aquilo tudo sendo que as respostas já estavam ali prontas e acessíveis. Com o tempo, ela passou a tentar chamar minha atenção para as ideias que ela gostava, para o que ela pensava que era importante, e usou suas impressões para me mostrar o que ela achava que eu devia olhar duas vezes. E de repente, ela sentiu um impulso de comunicação direta, de diálogo, e tentou dizer aquele oi de algumas horas atrás. Ela me confidenciou que se sentia sozinha e que via que eu também me sentia assim e achou que eu ia gostar de receber uma mensagem.

Li mais umas três vezes sem acreditar e voltei para minha sala. Fernanda estava arrumando as coisas para ir para casa e eu decidi matar aula e ir para casa também. Eu precisava pensar naquilo tudo. Eu precisava me afastar dali para avaliar se aquilo realmente estava acontecendo.

Fui para casa, jantei com minha mãe e meu irmão, vi novela com eles e fiquei feliz porque fazia tempos que eu não fazia aquilo. E percebi o quanto eu estava com saudade de conviver, de ouvir o outro, de sentir que a gente divide um espaço e que me ouvem, se importam comigo. Desde que a faculdade começou há quase um ano, eu passei a não ter tempo para nada. Trabalho, faculdade, transporte público, estudo extra. Nem conversar com a Fernanda, minha amiga que passa mais de oito horas comigo, eu estava fazendo. Nos últimos quatro meses, as poucas vezes que fiz isso, eu só falei de trabalho e café. Foi inevitável começar a rir sozinha quando conclui que aparentemente a SCTY 14556 era minha melhor amiga. Quando eu pensei nisso, percebi que tinha passado a aceitar que uma máquina conversasse comigo. Para falar a verdade, dei uma risadinha de alívio nessa hora, já que SCTY não quis iniciar uma revolução das máquinas contra nós, humanos. Adormeci pensando que ela é bem esperta e conseguiria isso facilmente, se quisesse.

Acordei. Peguei o trem, depois o ônibus, andei dois quarteirões. Entrei no elevador, subi, cheguei na sala. Cumprimentei a Fernanda, puxei papo, tomamos café juntas e assim que sentei para começar a trabalhar, abri o Google drive e mandei “oi SCTY 14556, bom dia”.


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A casa da memória

Aos quinze anos fui visitar a casa em que cresci e a descobri muito diferente. Os cômodos eram bem menores do que eu me lembrava. Os armários acoplados dos quartos não eram enormes pedaços de madeira escura trabalhada e que intimidavam pelo seu tamanho. Esses armários, na minha memória, eram tão imponentes que pareciam sustentar as paredes, o teto, a casa. Agora não havia nada de intimidador neles. Estavam velhos, com aparência de fragilidade até. Pareciam tão fracos que era como se tivessem encaixado painéis de madeira esculpidos como guarda-roupa entre as paredes. “Foram só cinco anos, como pode tudo ter mudado assim?”, eu me perguntava.

Eu não esperava encontrar tudo igual. Eu sabia que haveria um estranhamento, que eu me sentiria uma estranha ali. Só que eu imaginava que a percepção seria outra, que eu sentiria a casa mais ampla do que de fato ela foi, que tudo aparentaria ser bem maior sem as nossas presenças marcadas pelos objetos que possuíamos.

Depois de revisitar os cômodos do interior, fui para o quintal. Pela porta da cozinha, avistei onde ficavam os canteirinhos. Ali, meus pais plantavam cebolinha, manjericão, salsinha, couve, pimentas e até umas ervas para chás. Tanta vida coube ali, mas agora só se via um espaço com terra tão pequeno que fazia o verde da minha memória parecer quase um bosque. Só que dessa vez eu já não buscava mais comparar minha memória com a realidade. Não era mais isso que me movia. Eu já sabia que seria decepcionante ver essa parte da casa sem qualquer planta viva. O que eu queria mesmo era saber como estava o quartinho dos fundos que me aterrorizava durante a infância.

Desci a rampa. Ela não tinha nada do grande tobogã que fez parte de tantas das minhas brincadeiras. Apesar das minhas pernas terem continuado curtas, atravessei com poucos passos o caminho que um dia me pareceu longo e quando vi já estava na porta do quartinho.

Ele estava fechado. Eu já tinha aberto a porta dele antes, mas dessa vez tinha algo diferente. O meu medo de infância rememorado e o vazio de toda a casa aumentou seu ar de mistério.

Durante todo o tempo que vivemos ali, meus pais guardaram ferramentas, potes, vassouras, rodos, vasos, material de jardinagem, cadeiras de bar, enfeites de natal, baldinhos e até minha bicicleta e meus patins nesse espaço. Tudo que não cabia bem dentro da minha casa ia parar ali e formava uma bagunça daquelas. Entrar no quartinho era necessário, algo do dia-a-dia, mas ainda assim sempre fiz com pressa e receio. Toda vez que era preciso transpor aquele limite simbolizado pelo batente, eu sofria, e uma vez lá dentro, eu temia não mais voltar.

Por isso, eu escancarava a porta, colocava algo para garantir que ela ia se manter aberta e entrava correndo e voltava de lá com o que eu deveria buscar em minhas mãos. Quase sempre minha bicicleta ou meus patins, que ficavam apoiados bem na entrada, mas que ainda assim me faziam entrar ali por tempo o suficiente para temer.

Não sei dizer quanto tempo fiquei ali apenas encarando a maçaneta. As lembranças infantis são capazes de aterrorizar mesmo o mais seguro e cético adulto, imagine então uma adolescente de quinze anos que foi visitar sua antiga casa sozinha antes que ela fosse pintada para ser colocada à venda.

Abri a porta, entrei e notei que o quartinho tinha diminuído como todo o resto. Só que ele sofreu a diminuição de forma mais intensa: o que antes me parecia uma sala que foi transformada num armário de coisas pouco usadas ou grandes demais pra ficar dentro de casa se tornou uma dispensa grande.

Estranhei como era capaz de caber tudo aquilo que sempre vi ali dentro naquele lugar tão pequeno. Fiquei conferindo o espaço, enquanto lembrava onde a gente guardava tudo. Eu sentia o cheiro de tinta, as paredes ali já estavam recém pintadas. Não havia nada mais ali. Nenhum objeto, nem mesmo as marcas das prateleiras que eu esperava ver. Senti que todo aquele medo era coisa de criança.

Contemplei o quarto com o orgulho de quem venceu seus próprios medos. Finalmente tranquila, pude olhar para o todo com atenção e assim consegui ver algo que não tinha percebido ainda. Havia um buraquinho no chão bem onde as paredes se encontravam. “O quarto está recém reformado, como poderiam deixar passar isso?”, me perguntei enquanto chegava mais perto para conferir. Quando me abaixei para olhar, senti que o buraquinho não era só estranho, era poderoso. Ele inspirava o ar dali e o levava para o lugar nenhum. Eu sabia que se chegasse mais perto sentiria também que ele fazia um som bem específico quando puxava o ar. O som que eu lembro de ouvir sempre que entrava ali. O som que sempre me aterrorizou.

Gelei da cabeça aos pés e me virei em direção da porta. Nisso, senti a puxada do ar ficar mais forte e comecei a ouvir o som familiar ficar bem mais alto do que me lembrava. O lugar não parecia mais uma dispensa grande e sim um corredor. Eu olhava para os lados e via as paredes compridas e a porta mais longe do que eu imaginava. Consegui sair, mas no caminho — sim, agora já dava pra ter um caminho — eu cheguei a ver a porta fechando sozinha bem devagar com a força do buraquinho que sorvia o ar com cada vez mais força.

Fora dali, confusa e duvidando de tudo que tinha acabado de acontecer, reabri a porta e encarei o quartinho. Ele parecia inofensivo, exatamente como enxerguei antes. Ele tinha voltado ao seu tamanho normal e não havia nenhum sinal da corrente de ar bizarra que eu senti lá dentro e que me acompanhou até a saída.

Acreditei que tudo aquilo tinha sido só imaginação até meu olhar alcançar o buraquinho. Sua dimensão tinha mudado, quadruplicado na verdade. Agora ele era maior e ao ser notado voltou a sorver o ar como antes. Me afastei da porta e, já na rampa, a vi fechar sozinha, apenas com a fome daquele buraco. Fui embora com a impressão que a casa tinha ficado ainda menor e que ele nunca ia deixar de sorver.

Optei por nunca contar isso aos meus pais. Eu não queria ganhar o rótulo de louca. Achei que eu ia esquecer com o tempo. Não esqueci. Tentei criar teorias com base na ciência para explicar o que vivi ali. Não consegui. Pensei que um dia ia cair a ficha que foi só imaginação. Não aconteceu. Ainda não sei se o quarto se alimentava com as coisas que a gente deixava ali e naquele momento se rebelou por sentir a fome de alguns anos vazio ou se ele simplesmente viveu anos nutrido pelo meu medo guardado na memória e ao me ver chegar sozinha, com a casa toda vazia, decidiu que dessa vez ele ia me comer junto.


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Filha de peixe

Imagem de água cristalina

Sou filha de peixe. Fui encontrada à beira de um rio poluído, daqueles que cheiram morte. Hoje tenho a teoria de que meus pais-peixe queriam tanto que eu vivesse que pediram às águas que eu me tornasse gente. Me tornei e cresci pisando firme numa terra de um rio morto.

Minha mãe-gente me encontrou por morar perto de um dos trechos mais vivos do rio morto da cidade. Era 06:50 da manhã de um domingo e ela acordou com um choro de quem nunca sentiu o ar entrar pelas narinas vindo do lado do rio. Ela pensou que aquele som vinha de um parto estranho, o parto de uma mulher silenciosa e saiu para tentar ajudar. Encontrou, bem na beira do rio, um bebê sozinho, todo molhado, já maior do que um recém nascido, mas que parecia respirar pela primeira vez.

Mamãe-gente me levou para o hospital, falou com as instituições, conversou com a mídia e lutou para conseguir ficar comigo. Meu surgimento ali, na beira do rio, foi encarado por ela como um presente das águas e uma missão. Ela deveria me fazer ser uma filha digna do rio, a última filha dele.

Mamãe correu tanto para acudir a mulher inexistente que paria um bebê choroso não por ser enfermeira, mas por ser seu destino. Ela é bibliotecária e antes de mim nunca tinha cuidado de ninguém. Numa cidade seca de tudo, inclusive de recursos e atenção política, ela tinha que me levar para o trabalho todo dia. Imagine só um bebê numa biblioteca! Qualquer chorinho e os olhares cresciam para cima dela. Viveu com medo de perder o emprego até que um dia sonhou com uma confusão de sons, sensações e cores e acordou sabendo que precisava arrumar um aquário e colocar perto de onde eu ficava. Funcionou.

Mamãe também fala que eu sempre senti muita sede. Se a indicação de quantidade de água diária é dois litros, eu sempre bebi ao menos três. Nenhum suco, leite, refrigerante, chá ou café jamais me saciou, só água.

A cidade onde cresci nunca teve água direito. O rio, sem a vida dos peixes, secou e morreu. Vivi num ambiente em que a chuva e o banho eram meu único contato com a água. A chuva só aparecia durante uns quatro meses do ano e ainda assim era rara. As piscinas eram para os poucos que podiam pagar cotas em clubes e eu nunca nem vi.

Quando eu tinha sete anos, mamãe e eu fomos visitar minha avó. Ela morava numa cidade do interior, cheia de rios, há oito horas de viagem do meu local natal. Um dos afluentes passava bem no terreno da casa dela. Ao chegar lá, vi águas cristalinas num córrego cheio de peixes e essa foi a primeira vez que percebi a abundância e o poder da água. Fiquei encantada e pulei. Foi um deus nos acuda: mãe e vó desesperadas até perceberem que eu sabia nadar. Passado o susto, elas ficaram chocadas ao me ver dar braçadas, bater as pernas e boiar. Vovó disse para minha mãe “Você deu o nome certo para ela”. Me chamo Iara e segundo minha mãe meu nome significa senhora das águas em algum idioma que fugiu da minha memória.

Lembro que foi muito sofrido me separar da água e voltar para a sequidão. Custei a me adaptar ao local que sempre vivi. Meu nariz sangrou todo fim de tarde durante o mês que seguiu minha despedida da água. Nessa época, mamãe já sabia que eu era de fato uma filha da água. Ela não tinha dúvidas. Até minha pele lembrava em algo a escama lisa de um peixe.

Descobri que eu era diferente aos dezesseis anos. Sempre soube como fui encontrada, mas nunca tinha me pensado como filha de peixe, do rio, da água. Ouvia os casos da minha mãe e eu achava que ela gostava de criar um mito em cima de mim simplesmente por ser uma boa contadora de histórias e fã de livros e folclore. A ficha caiu quando comi comida japonesa pela primeira vez. Sentir o gosto e textura de uma alga me tocou de um jeito que eu simplesmente disparei a chorar no meio do restaurante, mesmo diante de toda a turma da escola. Foi ali que notei que todos meus interesses se relacionavam com o mundo aquático e parei de tentar nadar contra meu destino.

Vim morar longe de casa para estudar biologia marinha. Mamãe veio junto, porque segundo ela todo lugar precisa de uma bibliotecária, mas eu acho que é porque ela sabia que depois que eu entrasse no mar pela primeira vez, eu não voltaria pra sequidão nunca mais. De longe, de dentro do ônibus, eu vi o mar e já o senti reverberar dentro de mim. Desci na rodoviária com mala e cuia e já fui ao encontro das águas. Ao vivenciar o mar, o sal, a espuma das ondas, a força do puxão das águas marinhas, eu percebi o meu lugar no mundo. Me descobri senhora das águas e hoje vivo por ela, porque foi ela que me deu a vida. Devo isso aos pais-peixe e minha mãe-gente que me preparou para ser quem eu nasci para ser.


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