“Pequenas realidades”: o terror nas miniaturas

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Casas de boneca são presentes comuns para meninas. Brincando com uma, elas aprendem sobre disposições de cômodos, decoração e limpeza, emulando a vida que se espera que uma mulher tenha. Essas casinhas, dadas somente para meninas, reiteram a divisão sexual do trabalho e a ideia de que o espaço privado é o único território feminino por direito. Elas são um lembrete das funções que homens e mulheres devem ter. Por isso, para muitos esses lares em miniatura representam ingenuidade, pureza, futilidade e delicadeza.

A partir desse objeto considerado tão feminino, Tabitha King construiu uma narrativa única e sombria em seu primeiro livro “Pequenas Realidades”. Obra publicada pela 1ª vez em 1981 e que, antes dessa edição primorosa da Darkside com tradução de Regiane Winarski, recebeu no Brasil o título de “Miniaturas do terror”.

Usando elementos como tecnologia, habilidosa construção de personagens, múltiplas vozes, recortes de jornais e situações de tensão, Tabitha presenteia o leitor com uma obra que prende, incomoda e nos faz questionar sobre os limites da humanidade, nossa atração pelo controle de situações e pessoas e esse interesse coletivo e reiterado por reproduções do mundo real que vão muito além das casas de bonecas, sejam elas majestosas réplicas da Casa Branca ou não.

Na obra, as miniaturas domésticas não são parte do universo infantil como podemos imaginar em um primeiro momento, mas objetos de cobiça de colecionadores, curadores, fãs e pessoas comuns encantadas por uma versão adaptada desse nosso mundo nada palatável. Sendo assim, poder, dinheiro, sexo, narcisismo e jogos de manipulação circundam o que antes parecia apenas um mimo infantil.

De forma indireta, a narrativa apresenta reflexões sobre isolamento, padrão de beleza, controle, família e objetificação. “Pequenas realidades” vai muito além das miniaturas, ela trata sobre questões humanas e as disfunções que as acompanham. O terror dessa história está justamente no que parece poder existir fora das páginas do livro.

Tabitha King nos apresenta personagens ordinários e outros odiosos, todos cheios de nuances, e é justamente a relação deles uns com os outros que faz a história caminhar, enquanto nós, leitores, ficamos inquietos com o que promete vir, mas ainda não conhecemos. A autora explora nossa curiosidade, enquanto expõe e trabalha o psicológico de seus personagens de maneira minuciosa, mexendo com o leitor ao explorar o lado vil dos desejos e comportamentos humanos.

Casas de bonecas parecem completamente inofensivas e podem ser vistas até mesmo como desinteressantes, mas na escrita de Tabitha ganham um ar sinistro. Depois da leitura, nunca mais brincar de casinha parecerá tão simples e puro. Quanto poder pode morar na possibilidade de controlar o que consideramos apenas objetos?


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Escrever como explosão

Imagem do filme “ My Brilliant Career”.

Desenhei, pintei, esculpi com papel machê. Li e escrevi. Cantei em coral, representei Pluft e falei em público. Joguei bola, dancei e toquei triângulo nas aulas de música da escola. Tive o privilégio de conhecer e experimentar uma gama de possibilidades de me apresentar ao mundo. Sem pretensão e medo de passar vergonha, eu entrei em contato com as mais diversas formas de contar histórias e manifestar sentimentos, vontades e opiniões.

Com meus ouvidos ansiosos para conhecer mundos reais e imaginários, eu escutava as narrativas adultas e infantis que eram detectadas no meu radar. Ouvi lendas, casos, cantigas antigas, risadas e adaptações de contos de fada. Com a leitura, eu descobri o que alguns estabelecimentos que faziam parte da paisagem que eu conhecia vendiam e passei a ser capaz de decodificar as letras dos livros até elas formarem palavras e mensagens.

Descobri uma infinidade de histórias e formas de contá-las. E, sem querer ou saber, me deparei com algo que faz parte da composição humana. Somos feitos de água, carbono, minerais e até nitrogênio. Somos feitos de memória e carregamos em cada célula histórias microscópicas que, em conjunto, se tornam visíveis a olho nu.

Bruxa Onilda, A Bruxinha Atrapalhada, O Fantástico Mistério de Feiurinha e várias outras obras infantis foram a porta de entrada para eu aprender a desbravar o mundo mediante a imaginação. Depois, a Agatha Christie e o suspense que mexe com a nossa necessidade de saber respostas me deixou apreensiva, com medo e curiosa. A J. K. Rowling me apresentou a possibilidade de crescer junto com os personagens de um livro com a série Harry Potter. Os livros da Coleção Vagalume me fizeram sonhar em conhecer o Egito e resolver mistérios; já Machado de Assis e sua capacidade de criar personagens humanos e ironizar nossa mesquinharia, me fez compadecer e desprezar um mesmo protagonista. Por meio da leitura, tomei conhecimento da capacidade humana de criar mundos, personagens e expor sentimentos e também provocá-los no leitor.

Em algum momento, depois de tanto ser tocada por cenas e acontecimentos escritos, eu quis ser escritora. Eu desejei afetar alguém como esses autores fizeram comigo. Eu já escrevia, mas não havia pretensão alguma de fazer desse ato algo além de uma forma de explosão. Continuei explodindo e expandindo no papel e na tela, enquanto tratava a vontade de ser escritora como um sonho desses que a gente tem dormindo.

Tirei a poeira desse sonho adormecido após ler o livro “Meus desacontecimentos”, da Eliane Brum. Na obra, ela interpreta a própria memória e nos apresenta sua infância rememorando pessoas próximas, situações e seu amor — antigo — pela escrita. O jeito que ela escreve, a forma que ela fala sobre escrever e o amor dela por ouvir e contar histórias me deu fôlego para arrancar o sonho do seu local confortável e onírico.

Li Eliane Brum relacionar a escrita dela com a raiva e me lembrei das vezes que incendiei a tela do computador quando escrevi porque tinha que escrever. Respondi escrevendo em fogo os absurdos que vi acontecer e usei, como combustível para as explosões, as dores que enxerguei no mundo e a ira que vive em mim. Lendo os desacontecimentos de Eliane, eu tive a noção do quanto a escrita vive em mim. Somos parte de uma só, porque em algum momento, eu a elegi como minha forma de me colocar no mundo. Todo mundo tem a sua, mas muitos sequer tomam consciência disso.

Expressar-se é marcar sua existência no mundo, talvez seja por isso que tantas mulheres encarem o ato de escrever — ou de pintar, ou de compor, ou de esculpir — como algo tão visceral. Tantos anos como musas, sendo apenas descritas, tendo sua educação negada ou sua capacidade literária questionada e servindo como deleite ou motivação de personagens masculinos de obras feitas por homens fez muitas de nós encararmos o ato de criar como uma forma de demarcar nosso território num mundo que disseram não ser o nosso.

Ler nos permite entrar em contato com personagens e acompanhar seus sentimentos, suas perspectivas e a realidade que foi imaginada para eles pelo autor. Além do lúdico, o escritor, muitas vezes, nos ensina a enxergar o Outro, quando nos permite vivenciar junto com um personagem mundos desconhecidos por nós. Quem escreve tem a possibilidade de ampliar a capacidade do leitor de encarar o mundo e enxergar vidas e histórias que ele não via antes e é por isso que quero tanto me definir assim. Quero fazer o invisível saltar aos olhos e contar as histórias que queria ler, que vivi ou mesmo que ouvi da boca da minha avó.


Este texto fez parte do Especial: Dia do Escritor da Revista Subjetiva.


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