Retrato de Uma Jovem em Chamas: um exercício de observação

(Contém spoilers)

Cada cena do filme “Retrato de Uma Jovem em Chamas”, obra dirigida por Céline Sciamma, poderia ser um quadro, um quadro pintado por Marianne, a protagonista dessa história focada em mulheres. Cada frame capta algo da imagem além dela própria, como se a história fosse contada também pelos mínimos detalhes que só um olhar atento e meticuloso é capaz de trazer para um retrato. O olhar que Marianne tem como seu. O olhar que Marianne volta para Héloïse, inicialmente por esse ser o seu trabalho e depois porque esse é o olhar da aproximação, dos laços que surgem entre os seres humanos, do desejo. O olhar que Héloïse retribui.

“Retrato de uma jovem em chamas” é uma história de amor, de amizade, de descoberta e de observação que acontece a partir da contratação de Marianne para pintar, secretamente, um retrato de Héloïse. Essa pintura precisa existir, porque será um presente para o homem que casará com a retratada que se recusa a posar. O casamento aqui é uma obrigação que a personagem deve aceitar, ela querendo ou não, porque cabe às filhas servirem como moeda nessa transação comercial.

O retrato de Héloïse é o motivo de Marianne estar ali, olhando, trocando, e inicialmente se colocando como uma dama de companhia para assim poder pintar, em segredo, quando elas não estão juntas. Esse quadro, além do motivo dessas mulheres se encontrarem, é também uma fonte de reflexão sobre o apagamento do desejo das mulheres e como o poder e as regras dos homens fala mais alto em relação a tudo que se relaciona a elas e suas vidas.

Apesar da ameaça de casamento que espera Héloïse, esse é um filme que expõe uma série de trocas, situações e eventos cotidianos que acontecem quando ninguém de fora está olhando. Sendo esse ninguém de fora homens ou mulheres que defendem os interesses deles.

Por um breve período de tempo, três mulheres jovens — Héloïse, a mulher a ser pintada, Marianne, a pintora, e Sophie, a criada — usufruem a liberdade de não estarem sendo observadas e vigiadas para aproveitar o momento, se divertir e também amparar. Durante esse espaço temporal, há a construção de uma intimidade que só é possível existir quando se cria uma relação de confiança pautada no instante, no desejo, na troca e no apoio sem dever ou pecado. Quando ninguém de fora está olhando, há espaço para relações genuínas surgirem. De fora daquela ilha, as engrenagens continuam a rodar, prontas para afetar essas mulheres e corrigi-las, mas no interior daquela casa, brevemente, elas parecem quase esquecer disso.

A observação é o centro do filme, tanto como um meio de criar empatia, vínculo e interesse, quanto como meio de controle. Todas as três personagens, Marianne talvez menos, estão acostumadas a serem vigiadas em algum nível. Ali, isoladas umas com as outras, confinadas numa ilha, sem a mãe de Héloïse ou qualquer outro representante da sociedade para ditar regras, elas encontram menos solidão do que em suas rotinas tão afetadas pelo olhar desses que só sabem vigiar.

A troca só é possível quando não se está vigiando alguém. O que torna esse filme também sobre o desejo de liberdade e a construção de afetos a partir dessa vivência. Todas elas querem uma vida em que podem ser livres e esses dias umas com as outras significa isso.

Um filme como esse mostra como o olhar masculino sempre foi uma prisão para as mulheres. Esse olhar dita quais comportamentos são os corretos e vigia e pune para garanti-los. Esse olhar é o patriarcado que tenta restringir a intimidade, a privacidade e a liberdade das mulheres. Só que as mulheres sempre encontram brechas para viver suas vidas e tentar ajudar as outras. Marianne mostra isso quando conta sobre como as regras dos homens tentam afastar as mulheres de serem pintoras completas a partir da proibição de que elas pintem nus e comenta que há como burlar isso e depois expõe seu quadro numa galeria usando o nome de seu pai. Sophie, ao precisar de um aborto, e encontrar amparo com Héloïse e Marianne e com toda uma comunidade de mulheres também serve como exemplo disso. Mesmo no meio de tantos rostos prontos para julgar, há como encontrar algo diferente. Há como desrespeitar as regras. Encontrar algum refúgio. Talvez isso seja o que chamam de sororidade.

A descoberta das personagens vai além da sexualidade, da troca e da amizade e perpassa toda essa questão de controle versus liberdade, de forma sutil, porque todas ali sabem que aquela situação não poderá durar para sempre, porque há uma promessa de casamento e Marianne está ali somente para garantir o quadro que simbolizará esse futuro. Há uma data de validade e as três devem aproveitar antes que o tempo delas vençam. Especialmente Héloïse e Marianne, que vivem um amor impossível por esse breve período que parece mínimo perto do resto de suas vidas, mas é mais do que o suficiente para marcá-las. É possível burlar as regras, mas ainda não dá para reescrevê-las e elas precisam aceitar o futuro que virá.

“Retrato de uma jovem em chamas” é uma declaração de amor ao exercício de observação livre de amarras e sem o objetivo de domínio e a tudo que pode surgir a partir disso. Por isso é tão bonito. Por isso cada cena parece uma obra de arte. Por isso narra o amor entre mulheres.


O Cinema, enquanto indústria, privilegia o olhar masculino que aprisiona as mulheres e limita que o trabalho delas, como o bordado de Sophie, seja valorizado. Como em diversos outros espaços, há um apagamento do trabalho feminino e um fenômeno que mescla invisibilização e desvalorização em relação aos feitos dos homens. Mesmo quando esses homens são acusados de terem violentado, sexualmente ou não, mulheres. A arte está acima de tudo, quando se trata de homens brancos. A arte é uma distração, um hobbie, uma prenda feminina. Ou um trabalho, quando seu pai te coloca como herdeira dele, mas um trabalho que jamais poderá ganhar tanto espaço quanto o de um homem, porque o mundo ainda só valoriza o que parece cercear as mulheres de alcançar sua plenitude.

“Retrato de uma jovem em chamas” é um dos melhores filmes que já vi e, apesar de ter sido bem aplaudido, foi encarado por alguns homens que se colocam como críticos como uma obra somente voltada para mulheres, como se apenas mulheres se interessassem por histórias contadas por nós. Como se a falta de personagens masculinos tornasse a obra imediatamente desinteressante. A película se destacou principalmente por causa da maneira que foi filmada, mas Céline Sciamma perdeu o prêmio César de melhor direção para Roman Polanski, diretor que tem uma condenação de estupro no currículo. Pelo menos Claire Mathon, diretora de fotografia da obra, levou merecidamente o César voltado para essa atividade.

Esse filme diz muito sozinho, mas também diz muita coisa quando analisado em seu contexto. A obra mostra o potencial, afetivo e artístico, que as mulheres possuem quando não estão sendo avaliadas o tempo todo por uma ótica masculina que busca submissão às regras feitas por eles. Potencial que ainda hoje segue ignorado quando privilegiam homens sempre, inclusive estupradores condenados, ou atribuem rótulos e nichos reducionistas ao que deveria ser visto como arte.


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Publicado por

Thaís Campolina

O que falta em tamanho sobra em atrevimento. Isso foi dito sobre um galinho garnisé numa revista Globo Rural dos anos 80, mas também serve pra mim.

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